Verschneit
1 Prelúdio
Notas iniciais
Não havia sido fácil abandonar a hospedaria – discutiram por pelo menos duas horas antes que Madame Dolores concordasse em deixa-lo sair. Mesmo assim, fora com uma condição: que ela o acompanhasse até o lago congelado. Por isso, estavam ambos agora caminhando silenciosamente em meio às árvores, a procura de qualquer coisa que reluzisse no chão. Quero dizer, o mais silenciosamente quanto possível, já que o rapaz pisava em galhos e esbarrava em folhas o tempo todo. Quando um pássaro se assustou e fugiu pela copa de um pinheiro, Madame Dolores reclamou:
— Cuidado! – praguejou em um tom de voz severo, mas quase inaudível – Faça silêncio, pelos céus!
Madame Dolores, mesmo com seus quilos a mais, parecia ser leve como uma sombra. A mulher devia ter alguma coisa por volta dos 45 anos e era dona da hospedaria na entrada da floresta. Dessa forma, sentia-se não só no dever de conhecer muito bem os entornos da região (embora não ousasse se embrenhar para o meio da mata), como também de responsabilizar-se por seus clientes. Havia apenas uma trilha visível que cortava a floresta: tinha sido aberta para a passagem das carruagens, mas ninguém se atrevia a andar por lá a pé. Muito menos a noite.
O rapaz, Valentin, não era dali. Não devia ter mais de 25 anos, estava muito bem arrumado e, pelo que Madame Dolores julgou, era um completo idiota. Ele havia dito que perdera uma coisa muito importante no caminho para a hospedaria e não poderia seguir viajem sem o objeto. Só contou que esse objeto era na verdade um anel de noivado, quando estavam a meio caminho do lago, o que fez Madame Dolores quase implodir de insatisfação. O que estavam fazendo era muito perigoso, como ela havia deixado claro inúmeras vezes, e deveria ser evitado de qualquer maneira. Ela já achava que era imprudente sair por aí procurando alguma coisa insubstituível, mas entrar na floresta numa noite fria como aquela, para recuperar um anel que poderia facilmente ser comprado em qualquer lugar! Aquilo era mesmo um absurdo! Infelizmente não tinham tempo para discutir, então Madame Dolores achou que seria mais fácil (e rápido) manter os planos, chegar até o lago e voltar para a hospedaria como haviam combinado.
Quando as árvores começaram a rarear, ela avisou:
— Se eu disser para correr, você corre, garoto. E agora, por favor, fique o mais quieto quanto for possível.
O lago branco logo se mostrou por inteiro e, por qualquer motivo, assim que pisaram para fora da trilha, o lugar ficou ainda mais silencioso. Nada de farfalhar de folhas contra o vento, nenhum barulho da fauna local audível. Madame Dolores gesticulou para que o rapaz ficasse onde estava, e embora ele tivesse respondido com uma expressão de desagrado, obedeceu-a.
“Esse é o pior lugar de todos” pensou a mulher enquanto aproximava-se das margens do lago. Ia iluminando o chão coberto de neve com o lampião, mas um anel era algo muito difícil de ser encontrado numa superfície como aquela: a luz da lua fazia tudo reluzir, e várias vezes Madame Dolores pensou ter encontrado a aliança, quando na verdade o brilho não era de nada além de uma pedra de gelo maior. Hora ou outra olhava para Valentin, de braços cruzados, parecendo bastante impaciente. Sabia que não ia encontrar o anel ali, mas também sabia que o rapaz não iria aceitar voltar para hospedaria de mãos vazias, e qualquer barulho de protesto vindo da parte dele poderia acordar a floresta. Decidiu então fazer um gesto para que ele se aproximasse e ajudasse na busca – talvez se o próprio jovem constatasse que não havia nada lá, os dois pudessem sair daquele lugar mais rapidamente.
Valentin dirigiu-se para onde Madame Dolores estava, pisando desmedidamente em tudo que pudesse emitir algum ruído, e por alguns momentos o som de seus passos ecoou por todo o lugar. “Silêncio!” gesticulou a mulher nervosamente, mas mesmo depois de o rapaz ter parado de andar, passos ainda podiam ser ouvidos vindos de dentro da floresta. “Oh não”, pensou Madame Dolores. Os dois ainda ficaram imóveis por alguns momentos para ter certeza de que o som não era apenas um eco da caminhada barulhenta de Valentin, mas assim que perceberam que em vez de se dissipar, o barulho tornava-se mais claro, não tiveram dúvidas de que havia mais alguma coisa se aproximando dali.
— Corra. – disse Madame Dolores, num tom de voz ainda muito baixo, quase estático.
— Quê? – replicou o rapaz automaticamente, incapaz tirar os olhos da entrada da floresta.
— Corra! Vá! – gritou ela, finalmente se libertando da primeira surpresa e empurrando o jovem para esquerda – Vamos voltar, já!
Antes que pudessem dar mais de dois passos desajeitados pela neve, entretanto, um som metálico veio do lago congelado: um anel dourado rolava pelo gelo em direção à margem onde estavam.
— A aliança! – atestou Valentin boquiaberto.
“Tarde demais”, pensou Madame Dolores, enquanto tentava inutilmente forçar o rapaz a correr.
“Esse é o pior lugar de todos.”
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