Verschneit
2 Elliot e Reinhardt
Ada acordou de sobressalto quando alguma coisa caiu na sala de desenho. Como todos já estivessem dormindo, levantou-se silenciosamente, acendeu uma vela e foi averiguar a origem do som, tomando cuidado para não emitir mais nenhum ruído no caminho. Sra. Middleton devia ter colocado alguma coisa de mau jeito na escrivaninha e o objeto provavelmente caíra sozinho depois de um tempo, por isso Ada estava se esforçando para não incomodar ninguém sem ter motivos. Também era possível que o objeto (por conta do barulho que emitira) fosse uma perna de mesa de madeira que Ada havia recolhido no mercado de pulgas, e que só depois prometer que tiraria dali no dia seguinte, havia conseguido fazer entrar na casa dos Elliot – assunto que não pretendia reviver no meio da noite. Não acordar ninguém, portanto, era uma ótima ideia.
Mas Ada surpreendeu-se ao não encontrar nada fora do lugar na sala de desenho. Só percebeu que a janela estava levemente aberta quando uma corrente de ar frio acertou em cheio seu rosto. “Ora” pensou, enquanto procurava fechar a janela, “podia jurar que...”. Seu comentário interno teve de ser interrompido, entretanto, quando um novo ruído se propagou, vindo de trás da cristaleira.
Ada parou de se movimentar para ouvir melhor, e como o barulho não cessasse, resolveu recuperar um castiçal na mesa e aproximar-se lentamente da ruidosa peça de mobília. Estava prestes a arrastar a cristaleira quando um novo chiado revelou a existência de um gato amarelo preso no vão do móvel com a parede — o que, apesar de ser surpreendente para um animal desse tipo, deixou Ada muito mais tranquila. “É só um gato” suspirou, embora fosse incapaz de dizer o que exatamente imaginara estar atrás da cristaleira. “Mas você não é muito esperto...” constatou, enquanto libertava o animal. Acreditava que qualquer outro gato conseguiria sair dali com grande facilidade.
O bichano por sua vez, quando se viu solto novamente, pulou para a janela que Ada havia sido incapaz de fechar por completo e desapareceu noite adentro. A jovem resmungou alguma coisa sobre o animal não ser exatamente bem-agradecido e fechou a janela de vez. Ainda teve de colocar tudo de volta no lugar antes de voltar a dormir, e ficou bastante surpresa (e aliviada) porque, apesar de todo o barulho, ninguém parecia ter acordado. Quando estava reposicionando a cristaleira encontrou um pingente dourado no chão, que devia ter estado preso ao pescoço do bicho. “Alma” lia-se nele.
– Que nome para um gato... – disse para si mesma. Depois largou o objeto em cima da mesa, e o resto da noite correu tão tranquilamente que se, na manhã seguinte o pingente não estivesse exatamente onde Ada havia o deixado, ela poderia convencer-se de que havia apenas sonhado com tudo aquilo.
– O que é isso, Jennie? – perguntou a Sra. Elliot quando encontrou o pequeno medalhão abandonado em cima da escrivaninha.
Jennie apareceu na porta da sala para ver do que se tratava, mas não teve tempo de responder. Ada vinha descendo as escadas enquanto destrançava o cabelo, e explicou por si mesma:
– É um pingente. Um gato entrou aqui noite passada e deixou cair.
Sra. Elliot disse alguma coisa sobre aquilo ser curioso e colocou os óculos para examinar mais de perto o tal pingente. Alguns momentos depois ergueu uma das sobrancelhas, o que nela, indicava extrema surpresa:
– Ora, esse pingente deve ter custado uma pequena fortuna! Veja só como é pesado! – disse, enquanto fazia um gesto para tentar estimar o peso do objeto. Como aparentemente não chegou a conclusão nenhuma, perguntou – Um gato, você disse?
– Um gato – confirmou Ada, sentando se no sofá, com uma xícara de chá nas mãos – O nome dele está escrito aí, se olhar com cuidado.
Sra. Elliot que até então não se dera ao trabalho de perceber nada além do suposto valor do pingente, dirigiu sua atenção ao que estava inscrito. Ada não pode conter um sorriso quando as duas sobrancelhas de sua tia ergueram-se de uma vez:
– Mas isso é do circo! – disse ela, levantando-se boquiaberta – Como é possível? Do circo!
Sra Elliot ficou tão pasma que não produziu mais som nenhum por alguns momentos, então Ada se viu obrigada a perguntar de que circo era esse de que a tia estava falando, e como é que ela descobrira uma coisa dessas simplesmente olhando para o pingente — ao que Sra. Elliot entregou o objeto a sobrinha, indicando uma inscrição no verso. As letras estavam bastante apagadas por isso Ada não tinha reparado nelas durante a noite, pois se tivesse, não faria mesmo uma pergunta daquelas. Não havia nada mais óbvio do que o pingente ser de propriedade de um circo: “Por gentileza, devolver ao Circo Marble” lia-se. Que circo era esse, entretanto, era algo que Ada não sabia dizer.
– Fui informada pelo Sr. Elliot de que um circo chegara a Blanche – explicou a tia, com um suspiro – Não tenho dúvidas de que esse pingente pertence a eles, apesar de ser incapaz de entender como conseguiram pagar por uma coisa tão cara. Como veio parar aqui, é algo que também não sei explicar! Não estamos tão perto da cidade assim! Ah, justo quando estava começando a pensar o que faria com o dinheiro... – Sra. Elliot desabou com elegância em uma das poltronas.
Ada riu outra vez. Disse que iria para Blanche ainda essa manhã para procurar a parte de cima da mesa que queria montar (sua tia não pode deixar de virar os olhos quando ouviu aquilo), e que aproveitaria para devolver o pingente para o circo (no que Sra. Elliot suspirou profundamente outra vez).
– Certo, certo... – a mulher acabou por concordar, e depois consolou-se – Teríamos problemas para vender o pingente, de qualquer maneira...
A carruagem saiu algum tempo depois, mas foi só no meio do caminho para Blanche que o clima (que até então, apesar de frio não estava fora da normalidade) começou a esbranquiçar, não deixando dúvidas de que nevaria muito em breve. “Tenha cuidado, senhorita!” havia dito Jennie quando Ada deixara a casa, lembrança que fez a jovem ficar pensativa por um tempo enquanto olhava a paisagem.
“Ah, que seja” resmungou para si mesma, colocando o casaco “não vou voltar agora que já estou aqui”.
...
Sir Walter Reinhardt estava mexendo em suas peças de xadrez quando o mordomo entrou:
– Com licença, senhor, Gideon está aqui. Aparentemente tem alguma coisa importante para contar e quer saber se pode entrar. – anunciou o homem calmamente, embora já soubesse o tipo de resposta que receberia.
– Não – disse o dono da casa, quase que automaticamente – Certamente que não! Ele é maluco!
– Quer que eu diga isso para ele? – perguntou o mordomo.
Sir Reinhardt deu de ombros — também já estava habituado ao comportamento sarcástico do empregado:
– Diga que estou ocupado, se achar melhor.
– Não parece muito ocupado, Walter... – a resposta não veio do mordomo.
Um homem magro de cabelos brancos passou pela porta, desviando-se de Michel como se desviaria de uma pilastra. Sir Reinhardt teve de parar de organizar as peças de xadrez por ordem crescente de tamanho para poder responder a intrusão:
– Com mil demônios, Gideon! Não pode ir entrando na casa das pessoas sem ser convidado! – reclamou irritado – O que você pode querer aqui que seja mais importante que respeitar os bons costumes?
Mas o velho sentou-se em uma poltrona, ignorando completamente os protestos de seu anfitrião, da mesma maneira como havia ignorado o mordomo e os portões da casa:
– Parece que duas pessoas desapareceram na floresta noite passada... — respondeu ele, sem parecer preocupado.
– Ah, sim! Você invadiu a minha casa para trazer-me as notícias do dia. – retrucou Sir Reinhardt de mau-humor, levantando-se – E como anda a economia? Haverá algum grande baile em Blanche? Ora, faça-me o favor! Pessoas desaparecem o tempo todo naquela maldita floresta! Isso não é alvará de invasão!
Vendo que a conversa parecia ter se encadeado, o mordomo deu de ombros e deixou a sala com a tranquilidade inabalada de quem estava acostumado com esse tipo de coisa.
– Você é quem devia saber da economia e dos bailes – respondeu Gideon displicentemente, enquanto procurava por um charuto na mesa de centro. Sir Reinhardt o fuzilava com os olhos, mas ele não pareceu perceber – Só achei que pudesse querer ser informado de que uma das pessoas desaparecidas é aquele seu primo Valentin.
O outro, que estava a ponto de pegar o rifle de caça pendurado na parede, interrompeu-se, parecendo ficar um pouco surpreso com a informação:
– Valentin? — Sir Reinhardt franziu as sobrancelhas. – O que vai se casar semana que vem?
– O que ia se casar semana que vem – corrigiu Gideon, colocando um vaso de flores para o canto, enquanto continuava sua busca por um maço de cigarros ou qualquer coisa do gênero.
– Mas que diabo esse rapaz veio fazer aqui? Pensei que estivesse há muito tempo naquela cidade do norte... como é mesmo o nome? – disse Sir Reinhardt pensativo.
– Gervene.
– Sim. Achei que... – mas interrompeu-se subitamente quando pensou em outra coisa – Espere, como é que você sabe disso tudo?
– Foi o que o cocheiro dele me disse essa manhã. – explicou Gideon, acendendo o cigarro que finalmente encontrara numa caixa, debaixo de alguns papeis do dono da casa – Passo na hospedaria todas as sextas para procurar informação, como você deve bem saber. O lugar estava um alvoroço quando cheguei. Aparentemente Madame Dolores também desapareceu: o cocheiro disse que os dois saíram para procurar uma aliança e não voltaram mais.
Como não recebesse resposta imediata, o velho aproveitou o silêncio reflexivo de Sir Reinhardt para acrescentar:
– Talvez já esteja na hora de aceitar minha investigação.
Walter Reinhardt acordou de seu devaneio no mesmo instante:
– Não quero saber dessa sua investigação imaginária, Gideon! – moveu-se dessa vez diretamente ao rifle — Saia já daqui, não sei por que continua aí sentado como se fosse o dono do lugar! E lembre-se de deixar o dinheiro dos cigarros com Michel ao sair. Vá, ande!
Gideon deu de ombros e levantou-se. Já havia feito o que queria, e calculava que em pouco tempo, ele é quem receberia uma visita de Sir Reinhardt. “Professor Gideon Rousseau, ciências naturais”, dizia seu cartão que estava bem visível em cima da mesa de centro.
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