Notas iniciais
Eu não tenho revisado os capítulos com muito cuidado, então se encontrarem alguma coisa muito errada, por favor, me avisem para que eu possa arrumar. :) Obrigada!

Apesar de estar consideravelmente mais frio, só uma neve muito fina havia começado a cair. O céu era de um cinza claro que fazia doer as vistas se olhado diretamente — o que, apesar de incômodo, era ótimo para manter a trilha da floresta quase que completamente visível. Só os ventos pareciam mais fortes, mas Ada, fechada dentro da carruagem, não estava dando muita atenção a nada daquilo. Havia trazido consigo um jornal de alguns dias atrás, e com algum esforço conseguira encontrar uma nota sobre o circo que pretendia visitar. Era um pequeno texto esmagado no canto inferior da página:

“Circo Marble vem a Blanche

O conhecido Circo Marble chega à cidade amanhã. Famoso por suas apresentações de ilusionismo, trará [...] ato que tem causado inúmeras controvérsias. O espetáculo, entretanto, é garantido. Os ingressos poderão ser comprados na entrada, sendo os mais caros para o período da noite”

Infelizmente alguém havia apoiado algum tipo de bebida escura sobre uma parte da nota, manchando as letras e tornando a frase completamente ilegível. Ada ficou bastante decepcionada, e mesmo depois de se esforçar ao máximo para extrair alguma coisa dali, tudo que conseguiu foi a palavra “transportando”, o que não contribuiu muito para a sua compreensão geral. Suspirou, então, e abandonou o jornal — iria conhecer o lugar de qualquer maneira.

O que desligou a jovem de seus pensamentos foi o súbito barulho das portas da carruagem batendo com mais força por causa do vento. Quando olhou pela janela, pôde perceber que o tempo havia mudado consideravelmente desde a última vez que dera atenção à ele: as folhas das árvores farfalhavam impetuosamente e o esbranquiçado do céu ia mudando-se para um borrão cinza denso e ameaçador. “Vem aí uma tremenda tempestade!” gritou o cocheiro para Ada, mas o barulho dos cavalos somado ao enorme ruído das folhas e do vento, impediu que a jovem pudesse perceber que o homem sequer havia dito alguma coisa. De qualquer maneira, ela sabia muito bem o que estava vindo. O abrupto aumento de velocidade da carruagem também era bastante esclarecedor.

Ada abriu a porta, esforçando-se para não cair:

– Estamos muito longe? – perguntou o mais alto que pode.

– Não, senhorita – respondeu o homem – Estamos a quinze minutos da cidade.

– Vamos chegar antes da tempestade? – questionou ela, na esperança de que pelo menos, pudessem sair da trilha antes de terem de se confrontar com o gelo.

– Estamos indo para a tempestade, senhorita! – respondeu o cocheiro, que estava visivelmente mais preocupado em dirigir a carruagem, do que em responder as perguntas da moça. Ada entendeu o recado e sentou-se outra vez, sentindo que talvez tivesse sido melhor ter ficado em casa. Essa ideia só foi reforçada quando depois de um súbito chacoalho do veículo, a carruagem parou.

“O que foi agora?” pensou. Ergueu a gola do casaco para proteger-se do frio e saiu para ver o que estava acontecendo. Encontrou o cocheiro de pé perto dos cavalos:

– Os animais não querem andar de jeito nenhum! – disse ele, abalado. E de fato os bichos pareciam ainda mais assustados: um resquício de respeito pelo cocheiro provavelmente era tudo que os impedia de sair correndo na direção oposta. O homem, por sua vez, esforçava-se para mantê-los quietos, visivelmente consternado. “Nunca agiram assim antes!”, tentou explicar.

Ada não duvidava da capacidade do cocheiro, mas via que a situação não era boa: a neve já caia com mais intensidade e a tempestade provavelmente os alcançaria antes que conseguissem convencer os cavalos a andar. Era perigoso ficar ali, e a única solução em que a jovem pôde pensar no momento fora dar meia volta e desistir da viagem de uma vez. Comunicou ao cocheiro sua decisão, e ele pareceu um pouco mais calmo.

Ada estava prestes a subir na carruagem outra vez quando viu alguma coisa na floresta. Uma sombra negra passou pelas árvores e parou atrás do tronco de um pinheiro.

– Vamos, senhorita! – chamou o cocheiro, que já estava em seu posto – A tempestade vai nos alcançar!

Embora conhecesse as histórias sobre a trilha, Ada nunca as levara muito a sério, e por julgar que talvez aquela sombra pudesse pertencer a uma pessoa, gritou:

– Ei, precisa de ajuda? – mas não recebeu resposta.

O cocheiro por sua vez, um tanto confuso, virou-se para onde Ada estava olhando e estremeceu. Os cavalos, que haviam estado sob seu frágil controle aproveitaram o momento para fazer o que estiveram intencionando desde que estacaram ali: correr para o lado contrário. A carruagem disparou trilha adentro, mesmo com todos os esforços do homem para controlar os animais, e Ada num reflexo de sorte, conseguiu sair do caminho e rolar para a beirada da trilha antes de ser atropelada. Sentiu o braço doer e a testa arder, o que significava que havia se esfolado um bocado na queda. Tentou limpar o rosto enquanto os pensamentos iam voltando para os lugares. O vento estava ficando cada vez mais frio.

Quando conseguiu ficar de pé, procurou pela sombra na floresta, mas não havia nada lá. Talvez não tivesse havido desde o começo. Ada respirou fundo: “O que é que eu vou fazer agora?”. Os cavalos provavelmente levariam o cocheiro para uma boa distância dali — e esperar que ele voltasse a tempo, era o mesmo que esperar que a tempestade simplesmente se dissipasse. Sentiu que devia era caminhar o mais rápido que pudesse para um dos lados: se corresse em direção a Blanche, chegaria em meia hora — ou menos, já que a cidade estava bem próxima. Mas teria de passar pela tempestade, o que era quase impossível. Contudo, se corresse para o outro lado não chegaria a lugar nenhum e seria pega pelo gelo da mesma maneira.

“Que situação”, suspirou outra vez, e decidiu-se: iria para Blanche no fim das contas.

...

Uma carruagem muito maior do que a de Ada vinha cortando velozmente a floresta, visivelmente preocupada com a aproximação da tempestade. Passou por um coche descontrolado correndo na direção oposta e por pouco os dois veículos não se chocaram. Por ventura, ambos os cocheiros foram bastante habilidosos para desviar do perigo, embora um deles pouco pudesse fazer para direcionar os cavalos enlouquecidos.

A elegante carruagem quase se desequilibrou por completo por causa do incidente, mas assim que se realinhou, a velocidade insana foi retomada como se nada houvesse acontecido.

– Está tentando me matar, Michel?! – reclamou o homem, colocando a cabeça para fora da janela.

– Certamente que não, senhor. Por que pensou uma coisa dessas? – respondeu o cocheiro.

Sir Walter Reinhardt fez uma careta e decidiu simplesmente não responder. Aproveitou para fechar a janela da carruagem, e com sorte, não precisaria falar com o mordomo durante o resto da viagem. Sua sorte, entretanto, não era das melhores – algum tempo depois a carruagem parou. Quando Sir Reinhardt afastou a janela outra vez foi surpreendido por um vendaval gélido, que o forçou a recuar por alguns momentos antes de poder abrir a porta por completo.

– Que há agora, Michel? Vamos ser atingidos pela tempestade se ficarmos aqui por mais tempo!

O homem não respondeu, mas apareceu na porta momentos depois, apoiando uma garota esfarrapada e despenteada. Antes que Sir Reinhardt pudesse abrir a boca para começar a questionar, a jovem explicou rapidamente alguma coisa sobre ter caído de uma carruagem (ou algo do tipo) e de estar precisando de uma carona para Blanche. Também prometeu pagar certa quantia em dinheiro para compensar o esforço.

Sir Reinhardt não era o tipo de pessoa que dava carona para desconhecidos o tempo inteiro, mas não pôde deixar de perceber que a moça teria muitos problemas para atravessar a tempestade sozinha, e não estava disposto a ficar com a consciência pesada mais tarde por causa daquilo.

– Certo, certo, entre de uma vez – disse ele, ajudando-a a subir – Vamos nos atrasar se ficarmos parados aqui.

Quando retomaram a viagem, Reinhardt pôde perguntar:

– Você disse que está indo para Blanche? Vai visitar alguém lá? Posso deixa-la diretamente na casa de qualquer pessoa, se quiser... – e depois acrescentou, referindo-se a aparência da moça – Quero dizer, você provavelmente não vai querer andar por aí nesse estado.

Ada franziu as sobrancelhas. Já tinha tido problemas suficientes num dia para ter que aturar esse tipo de comentário, por mais bem intencionado que pudesse ser.

– Pode me deixar em qualquer lugar de Blanche, não me importo com isso, senhor...?

– Sou Walter Reinhardt – respondeu o homem, um pouco contrariado.

– Sou Ada Elliot – replicou ela.

– Certo, senhorita Elliot – Sir Reinhardt respirou fundo antes de continuar, já que era evidente que mais ninguém naquele lugar tinha um mínimo de sensatez – Vou parar na casa do professor Gideon Rousseau, que fica logo antes da entrada da cidade, próxima à hospedaria. Você pode ficar por lá se quiser.

Desse modo, Ada Elliot e Walter Reinhardt entraram em acordo de boa vontade, uma vez que nenhum dos dois estava mesmo muito ansioso para passar mais tempo na companhia do outro. Com sorte chegariam rapidamente à casa do Professor, deixando a jovem livre para caminhar até a hospedaria (que ficava a alguns poucos metros de distância de lá), e o nobre, por sua vez, livre para ir cuidar de seus assuntos sem mais nenhuma interrupção.

Entretanto, como nos foi dado a saber, a sorte de Sir Reinhardt não era das melhores.