Verschneit
4 Peça em três movimentos
O fim da trilha já era visível, assim como o telhado da grande casa de Gideon, que se sobressaia por detrás das árvores. Ada girava o medalhão dourado entre os dedos: “Alma”. Pensou que se aquele gato não tivesse entrado na sua casa noite passada, seu dia provavelmente estaria sendo muito mais tranquilo. Apesar de já estar correndo anormalmente, a carruagem conseguiu uma nova aceleração brusca, o que fez Ada sair de seu devaneio, guardar o pingente e olhar pela janela para ver o que estava acontecendo: a tempestade finalmente chegara.
Num segundo tudo ficou esbranquiçado e as portas, que por serem de melhor qualidade que as do coche de Ada, ainda não tinham começado a bater, chacoalharam fortemente. O cocheiro devia estar tendo um dia ruim também, pensou ela. O gelo subia pelo vidro das janelas, e Ada começou a ficar verdadeiramente preocupada com o homem lá fora, mas Sir Reinhardt parecia bastante tranquilo:
– Vamos chegar em um minuto. Michel dá conta. – respondeu quando a jovem o questionou sobre o assunto.
Ada não teria acreditado naquilo mesmo se tivessem chegado à casa do professor calmamente. O que aconteceu em seguida, entretanto, foi uma grande confirmação de seus receios: sem qualquer aviso a carruagem perdeu o rumo, bateu em alguma coisa e tombou, deslizando por metros antes de parar. Um turbilhão branco e cinza invadiu o veículo quando os vidros quebraram, e alguns minutos se passaram antes que Ada pudesse voltar a enxergar. O vento gélido bateu em seu rosto como um incentivo para fazê-la se levantar: “Ah, caramba” reclamou mentalmente enquanto ainda tentava se situar “Isso só pode ser brincadeira...”.
Sir Reinhardt, com a mão na testa, estava estudando a situação também. “Mas que diabos!” praguejou em voz alta quando percebeu que veículo estava destruído. Depois tentou alcançar a fechadura da porta (que agora estava sobre sua cabeça), mas infelizmente, a tranca parecia totalmente inutilizável do lado de dentro. O homem então tentou empurrar a porta à força, mas a madeira maciça não deu sinal de que ia fazer coisa alguma além de ficar exatamente onde estava. Golpeá-la só fez alguns cacos de vidro caírem em cima de Ada, que teve de abaixar a cabeça.
– Não dá para abrir pelo lado de fora? – perguntou ela. Se o vidro estava quebrado, era possível passar o braço pela janela e alcançar o outro lado do fecho. Para Ada parecia uma solução simples, mas Sir Reinhardt suspirou quando a ouviu. Aparentemente o tipo de fechadura daquela carruagem tinha sido desenvolvido especialmente para ele — abrir exigia uma combinação de movimentos específica, para impedir que qualquer um entrasse. Entretanto, como era sempre o mordomo quem abria a porta do lado de fora, Sir Reinhardt não lembrava mais da combinação.
– Só pode ser brincadeira... – suspirou Ada, dessa vez em voz audível. Mesmo assim pediu para dar uma olhada, e para sua surpresa, a porta abriu sem nenhuma dificuldade logo na primeira tentativa.
– Sir Reinhardt, sinto lhe informar que a fechadura do lado de fora é completamente comum -disse ela.
Reinhardt não pôde esconder sua expressão de surpresa, mas não demorou-se nela, mudando-a em seguida para uma de completo descontentamento: “Maldito Michel!”, resmungou algumas vezes enquanto saia da carruagem. Ada não compreendeu bem, mas estava contente em ver o problema resolvido, então deu de ombros e saiu também.
Se já estava frio dentro do veículo, do lado de fora era ainda pior. O vento estava fortíssimo, jogando uma mistura de neve e folhagem para todos os lados. Não era possível enxergar um palmo a frente dos olhos, e mesmo depois de vasculharem os arredores da carruagem caída, tudo que puderam constatar fora que os cavalos haviam se soltado e fugido, não estando em lugar nenhum onde pudessem ser vistos. Também não havia nem sinal do cocheiro. “Onde é que nós estamos?” perguntava-se Ada. Será que haviam ido para muito longe da trilha?
O cenário não respondeu sua pergunta: tudo era uma violenta névoa esbranquiçada que tornava quase impossível a tarefa de diferenciar o céu do chão. Ada girou o corpo para procurar um sinal que pudesse indicar o caminho de onde vieram, embora não estivesse confiante de que fosse encontrar qualquer coisa — fossem marcas no chão ou o próprio cocheiro. Para sua surpresa, entretanto, conseguiu distinguir uma forma negra próxima de Sir Reinhardt. O homem não havia notado ainda, então Ada tentou avisá-lo:
– Sir Reinha...! — parte de sua voz se perdeu no vendaval, então chamou outra vez — Sir Reinhardt! — mas o nobre havia acabado de se virar, ficando frente a frente com a sombra, completamente incapaz de ouvir a garota. Era a segunda vez em pouco tempo que Ada encontrava algo daquele tipo na floresta, e as histórias sobre o lugar começaram a vir à sua sua cabeça todas de uma vez. Não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas sentiu que deveriam sair logo dali, então adiantou-se em direção ao companheiro de viagem:
– Sir Reinhardt! – chamou, mas o homem, em vez de virar-se para ela, deu um passo para frente – Sir Reinhardt! – insistiu, estava difícil andar contra o vento e Reinhardt agora caminhava em direção a sombra – Sir Reinhardt! – o nobre já começara a desaparecer em meio ao vendaval...
– Walter!
– Melody?
– Reinhardt! – Ada alcançou seu ombro fazendo-o acordar do transe. O homem olhou para ela aparentemente atordoado e depois se voltou para onde a sombra estava. Não havia nada lá.
– Acho que ando imaginando coisas... – foi o que disse depois de alguns momentos, mais para si mesmo que para a jovem. Ada suspirou aliviada, embora achasse que se Sir Reinhardt havia imaginado aquilo, ela devia compartilhar do mesmo tipo de problema psíquico. De qualquer forma, achou mais apropriado dizer “Melhor sairmos logo daqui”, que era algo que também tinha em mente no momento, e Sir Reinhardt concordou com a cabeça.
Haviam dado alguns poucos passos quando o farfalhar das folhas ficou ainda mais alto. Ada e Reinhardt pararam no mesmo instante: alguma coisa relativamente grande vinha diretamente até eles, mas era impossível dizer o quão perto estava, já que ambos tinham a visão obstruída por todo aquele vento. Viraram de costas um para o outro na intenção de encontrar o foco do som, mas assim que puderam distinguir a direção do barulho (que agora se parecia com passos rápidos), voltaram-se imediatamente para ela:
– Ah! – Ada não pode conter uma exclamação de surpresa.
– Com mil demônios Michel, não pode aparecer desse jeito! – praguejou Sir Reinhardt, respirando muito mal – Queria nos matar de susto?!
A figura alta do mordomo não parecia preocupada:
– Estava procurando por vocês – disse calmamente.
Pelo que contou em seguida, ele aparentemente havia caído da carruagem perto da entrada da trilha e com certo esforço conseguira encontrar os rastros do acidente. Perdeu-se por alguns momentos, mas quando os ouviu conversando, correu em direção ao som, chegando velozmente de dentro da floresta e acabando por assustá-los. Tantas coisas estranhas tinham acontecido naquele dia, que Ada achou o relato muito natural, embora o mordomo com certeza tivesse um senso excepcional de direção para conseguir encontra-los com aquela facilidade numa tempestade de gelo.
Também foi com a ajuda de Michel que rumaram de volta para a trilha com muito menos dificuldade do que poderiam ter esperado. Sir Reinhardt ficou silencioso e pensativo por um tempo, mas logo se lembrou de algo que precisava de explicações:
– Troquei a fechadura do lado de fora. Aquela combinação complicada estava me dando muito trabalho, já que tenho que abrir e fechar a porta a todo o momento... — respondeu o empregado sem se abalar, quando o nobre perguntou-lhe sobre a fechadura da carruagem.
– Sabe, Michel, acho melhor você começar a procurar outro emprego... – ironizou Sir Reinhardt de mau-humor.
Embora o frio estivesse cortante e a ventania incessável, os três logo conseguiram encontrar a trilha outra vez. Dessa forma, o grupo alcançou a pé a casa de Gideon, que não pode conter um sorriso ao reconhecer o orgulhoso Sir Reinhardt e seus convidados em farrapos à sua porta:
– Parece que agora precisa de mim, hein Walter? – riu ele, se divertindo bastante com a péssima situação.
“Só pode mesmo ser brincadeira” pensou Ada, que via seu dia tornar-se cada vez mais dificultoso.
Longe dali, tomando tranquilamente seu chá da tarde, Sra. Elliot não fazia ideia do que a sobrinha estava passando.
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