Verschneit
5 L'arcane sans nom
– Vou contar-lhes o que sei sobre a floresta... – disse Gideon, quando seus convidados finalmente conseguiram acalmar os nervos, acomodando-se enfim, na larga sala de estar do professor. Ada havia entrado na casa também (já que todos concordaram que seria muito difícil para ela chegar à hospedaria no meio daquela tempestade), e o professor muito gentilmente lhe emprestara um casaco de sua mãe — item que havia ficado guardado por muitos anos num quarto empoeirado no andar de cima e que por isso estava fazendo a jovem espirrar a todo o momento, mas Ada não achava que pudesse reclamar. O mordomo havia dito que iria para cozinha e não voltara mais desde então.
– Vou contar-lhes o que sei sobre a floresta, mas não antes de entender o que foi que houve com a sua carruagem, Walter – continuou o velho, indo apoiar-se perto da lareira – Não tinha ouvido em algum lugar que aquele era o melhor e mais resistente veículo já inventado? – caçoou.
– Gideon, se quiser manter seu nariz no mesmo lugar durante minha estadia aqui, é melhor parar com esse tipo de coisa e falar de uma vez o que tem para dizer! – respondeu Sir Reinhardt. Os eventos na floresta haviam potencializado seu mau-humor, e tudo indicava que Gideon estava disposto a piorá-lo ainda mais.
– Bem, que seja...- o professor deu de ombros – Mas por onde devo começar? – perguntou-se olhando para o teto, como se o forro de madeira fosse dar-lhe alguma sugestão. Ficou alguns segundos assim até se decidir:
– Você provavelmente já ouviu as histórias sobre a floresta...
– E você provavelmente sabe que não acredito nesse tipo de coisa – interrompeu Sir Reinhardt, impaciente. Tinha arranjado um corte na cabeça quando a carruagem virara, e hora ou outra colocava um pedaço de pano na testa para estancar o sangue que insistia em escorrer — Vim aqui porque quero informações sobre o desaparecimento de Valentin e espero que essa viagem desastrosa não tenha sido em vão.
– Ora, Walter, não entendo essa sua pressa. Não vai poder sair daqui tão cedo, com essa tempestade e sua carruagem destruída. E o que estou dizendo é, definitivamente, importante. – suspirou o professor, como se estivesse conversando com uma criança.
– Certo, certo! Faça como quiser... — Sir Reinhardt praguejou e afundou-se na poltrona, de braços cruzados, o que para Gideon era um bom sinal de assentimento. Ada estava achando a coisa toda um pouco engraçada, mas perguntava-se quando é que conseguiria sair dali. Logo que os Srs. Elliot descobrissem o que havia acontecido na trilha, com certeza ficariam bastante preocupados. Ada estava esperando poder comunicar-se com os tios quando chegasse à hospedaria, o que podia ser dali uma hora ou só no dia seguinte.
O professor, percebendo que o silêncio da sala aparentemente significava que ele poderia finalmente discursar sem as interrupções de Sir Reinhardt, começou:
“Há uma porção de histórias diferentes sobre a floresta, todas elas bastante fantasiosas e improváveis. Fiz o possível para estudar a região, mas andar por lá, mesmo quando não se leva em conta tais histórias, não é algo simples, já que o clima nos arredores de Blanche é sempre bastante difícil. Na verdade, de inicio pensei que os desaparecimentos se devessem justamente à esse clima complicado — com todas essas tempestades de gelo, nevoeiros e chuvas, acidentes são mesmo muito prováveis. Mas havia duas coisas que me pareciam erradas, impedindo-me de aceitar tal teoria: a primeira era que, de todas as tentativas de mapear a floresta (que não eram muitas), nenhuma indicava um caminho que passasse pelo centro. Todas elas, sem exceção, desviavam da região central, mesmo quando seu autor afirmava ter caminhado em linha reta. O segundo problema era que os corpos das pessoas desaparecidas, também sem exceção, nunca foram encontrados.
Com isso em mente, comecei a pesquisar pelo histórico da área que hoje é coberta pela floresta e descobri algo bastante interessante. Aparentemente, há uns cem anos atrás, a floresta era bem menor, ficando limitada aos arredores de um lago. Havia grandes propriedades rurais na periferia de Blanche na época, e a maior delas ficava em frente a esse espelho d’água: a mansão de Matthieu Aliker. Há poucos registros sobre esse período, e tudo que pude encontrar foi um antigo documento sobre um incêndio que derrubara essa construção posteriormente. O instigante é que, depois da data do incêndio, as outras grandes casas também pararam de ser mencionadas nos registros, e alguns anos mais tarde algumas histórias incomuns começaram a se espalhar.
As versões mais antigas da lenda sobre a floresta falavam de uma “maldição” que caíra sobre a mansão de Aliker, e que depois se espalhara pela vizinhança. A única maneira de manter a maldição dentro de um limite seguro era cercando a área com árvores – coisa que os moradores da pequena Blanche da época fizeram imediatamente. Não sei como essa história começou, mas ela certamente deu origem à paisagem que vemos hoje.”
– Atchim! – Ada não conseguiu conter um espirro, e ficou um pouco encabulada por ter cortado a história no meio – Ah, me desculpe...
Sir Reinhardt, entretanto, aproveitou a brecha para dizer:
– Então Valentin foi pego por uma maldição folclórica? – zombou – Não sei por que perdi o meu tempo parando aqui, quando podia ter ido perguntar sobre o caso diretamente à polícia. Poupe-me desse tipo de fábula, Gideon!
– Ora, se quiser sair, sinta-se a vontade – reclamou o velho, erguendo a cortina da janela e mostrando a tempestade esbranquiçada – Como você mesmo disse, veio aqui porque quis.
Ada não achou que devesse interferir, então se limitou a ficar girando o pingente dourado nas mãos (coisa que estava tornando-se uma espécie de hábito) enquanto olhava para o suntuoso papel de parede. Embora não estivesse fazendo grande escarcéu sobre o assunto, concordava um pouco com Sir Reinhardt a respeito da história de Gideon. Algo como uma maldição antiga pode soar interessante, mas não é uma coisa exatamente provável. Além disso, a história que ouvira em casa era bem diferente – e se as histórias mudavam com o tempo, então era bem possível que nenhuma delas tivesse um fundo de verdade. Por outro lado, Ada estava achando a antiga mobília da casa do professor bastante impressionante. A escrivaninha era muito bonita. Quantos anos aqueles móveis teriam?
– A lenda mais recente é um pouco diferente, entretanto – continuou Gideon (com seu problema com Reinhardt aparentemente resolvido), fazendo Ada voltar a prestar atenção no que ele estava dizendo – As pessoas de Blanche gostam de chamar o lugar de “a floresta dos mortos” hoje em dia. Não há mais nada sobre uma maldição que se espalha, mas sim uma história sobre fantasmas antigos que ainda vivem no lugar...
“Fantasmas, certo?” Ada não pôde deixar de lembrar-se das figuras negras que vira, e também não pode impedir-se de olhar para Sir Reinhardt, que estava agora com uma expressão bastante difícil de ler.
– Mas – Gideon interrompeu os pensamentos da moça outra vez – não posso acreditar em uma coisa dessas.
Todos ficaram bastante surpresos:
– Mas o quê?! – reclamou Sir Reinhardt – Que história toda foi essa, então, se você ia contradizê-la no final, seu lunático? Já tinha deixado claro que não acreditava nesse tipo de coisa justamente para não ter que escutar essas lendas fantasiosas outra vez!
Gideon parecia estar se divertindo com a cena e foi buscar um cigarro na escrivaninha, pouco se importando com os protestos do nobre:
– Ora, Walter, eu avisei para que você ouvisse tudo antes de começar a reclamar! E tenho certeza que minha conclusão vai desagradá-lo ainda mais, porque embora desconsidere essa ideia de fantasmas, não pude deixar de convencer-me de que há algo não natural naquela floresta.
Sir Reinhardt estava visivelmente furioso, mas também não parecia mais saber o que fazer com Gideon, por isso voltou a suspirar, colocando o pano na testa e recostando-se na poltrona outra vez.
– Se digo que não há fantasmas naquela floresta é por um único motivo: quando o grupo de empregados partiu em direção ao lago congelado na manhã seguinte ao desaparecimento de Valentin e Madame Dolores, eles encontraram resquícios de pegadas no gelo. Dois pares delas vinham da direção da trilha e um terceiro estava marcado no sentido contrário, sumindo por um tempo e reaparecendo às margens do lago. Havia uma terceira pessoa na floresta aquele dia, e estou convencido de que fantasmas não deixam pegadas na neve.
Walter Reinhardt ergueu as sobrancelhas, agora visivelmente mais interessado:
– Se é assim, o que a polícia fez? – questionou – Já procuraram na floresta?
– Bem – disse Gideon, ficando cada vez mais animado – os policiais tentaram fazer uma busca cortando a mata, mas nevava fortemente e os rastros todos desapareceram em pouco tempo. Tentaram então acompanhar o contorno do lago, mas acabaram sendo jogados para fora da floresta, como se espelho d’água tivesse um formato de lua (o que evidentemente não é o caso, como eu mesmo já pude observar). Os policiais julgaram que o erro de navegação fora de um membro recém-contratado, e começaram a pesquisar nas proximidades da cidade vizinha, abandonando as buscas no lago. Você vê, Walter? Não se pode passar pelo centro da floresta!
– Quer dizer que a polícia desistiu de procurar por causa de um erro? – Sir Reinhardt estava indignado.
– Honestamente, você deve entender que essa história de erro foi só para encobrir o fato de que ninguém consegue atravessar aquele lago! Estão confusos e preocupados, e prefeririam não ter que entrar na floresta de novo. Há anos que ninguém faz uma busca longa por lá.
– Estou impressionado com a inutilidade da nossa policia!
– Mas você certamente pode entender agora que há algo bastante errado naquela região, e que uma investigação mais completa se faz necessária – concluiu finalmente Gideon, não escondendo um sorriso de triunfo. Estivera esperando por aquele momento desde que visitara o nobre em sua casa.
– O que espera que eu faça, Gideon? Não tenho nenhum poder sobrenatural, você sabe. – suspirou Sir Reinhardt.
– Gostaria de convida-lo à uma viagem de exploração – disse o velho – É claro que seu financiamento também será de grande ajuda.
Sir Reinhardt, convencido de que aquela era mesmo a única maneira de encontrar alguma pista sobre o paradeiro do primo, acabou por finalmente aceitar. Mesmo assim não pôde deixar de perguntar:
– E por que você está tão interessado nessa floresta, Gideon?
“Sou um cientista, fico fascinado pelo desconhecido”, respondera o professor.
Ada deixara a casa de Gideon algum tempo depois, quando a tempestade já havia diminuído consideravelmente, e se instalara na hospedaria conforme seus planos. O professor havia oferecido um quarto, mas Ada achava que já havia se metido demais em assuntos que não eram da sua conta, e tudo que queria era se livrar daquela dependência de favores em que tinha se embalado desde que ficara perdida na trilha. Felizmente, tinha dinheiro suficiente para pagar uma estadia na hospedaria e ainda havia sobrado um bocado para qualquer outra coisa que precisasse comprar, já que Sir Reinhardt se recusara a receber o que ela havia prometido, e Ada tampouco havia gastado com a peça de madeira para mesa que estivera pensando em montar.
A jovem já havia enviado um telegrama, e imaginava que a tia mandaria alguém buscar-lhe na manhã seguinte, então se sentou na cama, vendo a noite cair através da janela. Ainda nevava, mas a entrada do estabelecimento estava bastante animada, com pessoas comentando alto sobre os mais variados assuntos, inclusive o desaparecimento de Madame Dolores e do tal Valentin. Ada olhou da janela para o pingente dourado (agora um pouco riscado) largado em cima do criado-mudo. As letras reluziam fracamente: “Por gentileza, devolver ao Circo Marble”.
“Bem, não dá mesmo para ficar pior do que já está”, pensou, e colocou o casaco antigo outra vez. Ia passar no circo.
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