Verschneit

6 Não perca a cabeça!


Ada pegara uma carruagem em frente à hospedaria. Havia perguntado para Dona Carmem, uma velinha corada que estava cuidando do estabelecimento na ausência de Madame Dolores, se poderia encontrar alguém que a levasse até o circo – ao que a mulher respondeu que Marília, uma moça vestida de branco (do vestido ao chapéu coco), começara fazer esse tipo de viagem depois que o circo se instalara.

– Não há nada de que comentem mais na cidade do que sobre o circo! Mesmo com toda essa história de desaparecimentos (pobre Dolores!), as pessoas não se cansam de falar sobre o tal Circo Marble e suas apresentações impossíveis. Marília aproveitou o momento para transportar as pessoas que chegaram a Blanche com esse tipo de expectativa, mas eu tenho certeza que ela vai conseguir arranjar outra coisa lucrativa para fazer quando o circo for embora. Aquela menina é muito esperta! – sorriu Dona Carmem, um pouco orgulhosa da moça.

Ada agradeceu, e minutos depois já estava instalada na carruagem que se dirigia ao misterioso itinerante – apesar de todas as experiências não muito boas que tivera com aquele tipo de veículo durante o dia. Estava prometendo para si mesma que só voltaria para Blanche de trem nas próximas vezes, quando deu um espirro — o que a fez se lembrar de que também precisaria devolver aquele casaco a Gideon antes de voltar para casa.

Enquanto isso, Blanche podia ser vista pelas janelas: era uma cidade clara e muito iluminada, mesmo em uma noite fria como aquela. A neve que se acumulara no chão refletia as luzes das casas e postes, fazendo tudo resplandecer com uma graça quase mágica. O céu ainda estava um pouco anuviado, mas hora ou outra a Lua se mostrava tão brilhante quanto a própria cidade. Mesmo as ruas menores tinham uma iluminação amarelada bastante simpática e Ada achou que talvez ali fosse um bom lugar para começar a loja que tinha em mente. A garota já havia visitado a cidade algumas vezes, mas sempre encontrava algum novo motivo de surpresa quando voltava. Dessa vez o que a surpreendeu foi o fato de o rio principal estar completamente congelado.

A carruagem havia acabado de virar na grande avenida que seguia o rio, e Ada pôde ver pessoas patinando e algumas lojinhas abertas em cima do gelo. Sabia que aquilo acontecia de vez em quando, mas nunca tinha visto com seus próprios olhos. As interessantes cenas mantiveram sua atenção voltada para lá por um tempo, mas, poucos momentos mais tarde, uma segunda coisa a pegou desavisada: um clarão de fortes luzes que vinha da parte de cima do rio. Luzes piscantes e coloridas que alguns minutos depois se mostraram estar atadas a uma enorme tenda vermelha e dourada. Era o circo se mostrando, gigantesco, sobre o rio congelado.

Ada, apesar de ter tido alguma pista sobre o tamanho do itinerante através da fala de dona Carmem e do pingente de ouro, tinha legado sua confiança ao pequeno artigo de jornal, e não pode deixar de ficar imensamente surpresa ao ver a imagem do circo reluzente se formar acima do gelo.

Desceu da carruagem ainda bastante perplexa e mal ouviu Marília avisar que viria busca-la quando o espetáculo terminasse. Se tivesse prestado atenção teria dito à moça que não tinha pretensões de entrar no circo, e que ela poderia esperar ali mesmo, já que Ada voltaria rapidamente. Mas a jovem não podia tirar os olhos do resplandecente movimento de alegres pessoas em torno da tenda, e a carruagem foi embora antes que Ada pudesse perceber. Viu pessoas bem vestidas entrarem pela porta da frente, enquanto um homem de calças listradas tocava um realejo. Ada achou que pudesse falar com ele.

Quando perguntou sobre o medalhão, o homem respondeu animado:

– Ah, isso é da gata do Zimmerman! Você precisava ter visto a cara dele quando descobriu que o tinha perdido essa manhã! Hahaha. Acho que você deve entregar isso direto para ele, mas nosso prodígio não gosta de ser interrompido antes do espetáculo começar, então aconselharia que você assistisse ao show e depois se dirigisse ao carro de número dez.

– Tenho mesmo que entregar pessoalmente? – perguntou Ada com um suspiro – Porque você mesmo não entrega? Não tenho nem dinheiro suficiente para pagar a entrada...

O homem riu outra vez:

– Ora, isso não é problema, é só entrar e pronto, estou permitindo! Pode se sentar na cadeira 27, que costuma ficar vazia para quando um de nós não pode se apresentar. E lhe digo que vai ser muito melhor se você entregar diretamente para ele: se algum membro do circo fizer isso, Zimmerman vai ficar resmungando que tentamos roubá-lo por dias sem fim! Hahaha.

Ada ainda tentou convencer o homem de que achava melhor que outra pessoa entregasse, mas vendo que ele insistia no assunto (e que a jovem também estava bastante curiosa para ver o que havia dentro da tenda), acabou aceitando.

Por dentro, o circo conseguia parecer ainda mais grandioso que do lado de fora. O chão de gelo fora forrado habilmente com algum tecido que impedia a umidade de passar. A decoração ia de flores coloridas que desciam dos pequenos postes que mantinham a tenda em pé, até fantasmas de brinquedo de olhos acesos pendurados aqui e ali. Havia barraquinhas menores de doces e salgados, e tudo era muito colorido e alegre. Ada estava achando aquilo maravilhoso e não conseguia parar de pensar em como o jornal havia se equivocado ao dar a notícia da chegada do circo. O pequeno artigo também falava de alguma apresentação diferente, mas Ada já não sabia mais se podia confiar naquilo ou não.

Instalou-se na poltrona indicada, ao lado de um casal bastante tagarela e esperou. O espetáculo começou pouco tempo depois, com chamas coloridas saindo do picadeiro e o mestre de cerimônias (que não era ninguém além do homem do realejo) apresentando o que ele chamou de “mais notável circo que esse mundo já viu” — e os números que se seguiram foram todos no mínimo, impressionantes. A bailarina que dançava sobre uma mesa apoiada sobre uma bola colorida, o malabarista que jogava facas pontiagudas enquanto desviava-se dos palhaços que apareciam para importuná-lo, os contorcionistas que mais pareciam de borracha — um incontável número de apresentações diferentes e intrigantes.

Mas tudo corria dentro de um padrão de normalidade (para um circo) e apesar de todos estarem se divertindo muito, Ada não pode entender qual seria o tal número que poderia causar um espanto real, como havia entendido do jornal. Estava se convencendo de que aquela notícia era completamente furada quando o mestre de cerimônias anunciou a aparição do mágico Zimmerman.

No mesmo instante uma rede de correntes de ferro foi levantada, circundando toda a arquibancada.

– Não se assustem, caros convidados – disse o homem – a rede está aqui somente para impedir que aqueles que possuem nervos mais sensíveis não se sintam tentados a entrar no picadeiro. Aviso agora que o próximo número pode ser um tanto perturbador, e peço gentilmente para que as pessoas de estômago mais fraco deixem seus lugares por enquanto. Depois desse número ainda veremos nossos maravilhosos equilibristas!

A maior parte das pessoas na plateia se limitou a rir, e apenas um punhado de mães com crianças pequenas se dispuseram a sair de lá por alguns momentos. Ada não se assustava com muita facilidade, e não achou que pudesse haver nada ali que a perturbasse mais do que aquelas visões estranhas na floresta, então ficou exatamente onde estava, bastante curiosa.

O tal Zimmerman então, entrou: era um homem alto de cabelos castanhos e óculos escuros. Trazia consigo uma espada reluzente; e uma mulher, que entrara em seguida, carregava uma porção de bolinhas de vidro. O homem deixou a espada no chão e pegou o carregamento da moça.

– Vocês viram nosso malabarista, não foi? – perguntou ele, e a plateia emitiu alguns ruídos de assentimento – Eu sou Tom Zimmerman, e preparem-se para presenciar algo ainda mais impressionante!

Dizendo isso lançou, uma a uma, as bolinhas para o alto, como o malabarista fizera com as facas antes dele, e depois ficou jogando-as e reavendo-as com as mãos por um tempo. Quando as pessoas começaram a falar mais alto, dizendo coisas do tipo “É só isso?”, o mágico abriu um sorriso, e qualquer um que tivesse alguma outra coisa para dizer foi subitamente calado pelo que houve em seguida: as bolinhas simplesmente pararam no ar. Zimmerman deu alguns passos para trás, deixando o círculo de bolas de vidro flutuando, como que congelado no tempo. Todos aplaudiram entusiasticamente. Em seguida, as bolinhas voltaram a fazer o movimento giratório em que tinham estado envolvidas, com a exceção de que agora, giravam no ar sem a ajuda das mãos do mágico – que posto de canto, movia os dedos como se fosse maestro do movimento dos objetos de vidro. Aplausos e vivas ainda mais altos foram emitidos, e as mães com as crianças que haviam saído com certeza deviam estar se sentindo muito tentadas a voltar.

Ada também estava aplaudindo. Aquilo era mesmo bastante incrível, e por mais que se esforçasse para ver linhas ou qualquer outra coisa que denunciasse o truque, não conseguiu identificar nada do tipo. As bolinhas ainda fizeram uma volta completa no picadeiro antes de voltar para as mãos da assistente. Muito impressionante, sim. Mas Ada não via motivos para as correntes.

Então, a segunda parte do número começou. Ada viu o mágico também fazer a espada levitar e dançar frente à plateia animada. Todos ainda estavam muito empolgados, mas Ada, na sua tentativa quase automática de procurar fios escondidos, percebeu que a ajudante sorrateiramente tirava outra espada de uma caixa colorida, que estava meio escondida no canto esquerdo do picadeiro. Havia alguma coisa nos olhos da mulher que parecia indicar que ela não estava mais fazendo parte do show. No instante seguinte ela lançou-se para cima do mágico, que por pouco escapou do corte da cimitarra, rolando para o lado.

– O que está fazendo?! – perguntou ele. Mas, antes que o mágico recuperasse a espada ou que qualquer pessoa na plateia pudesse fazer alguma coisa para impedir, a mulher desferiu um novo e fatal golpe direto em seu pescoço.

A espada afiada cortou-o com destreza e a cabeça de Tom Zimmerman rolou pelo picadeiro.

Pessoas desmaiaram e outras pularam para frente para ver mais de perto. Alguns estavam tão chocados que mal podiam se mexer. O fato é que um imenso silêncio recaiu sobre o circo. Ada ficou espantada também. O que havia acontecido? Uma briga? Era possível que aquilo fizesse parte do número?

Foi com essas perguntas em mente que acabou levantando-se instintivamente do assento para olhar o que se mostrava no picadeiro. O corpo sem cabeça de Zimmerman ainda jorrava sangue. O homem realmente estava morto! A mulher tinha fugido? Não havia mesmo mais sinal dela. Olhou outra vez para a cabeça decepada, incrédula. Ele estava indubitavelmente morto!

E então, como que para contestar essa afirmação óbvia, o pescoço decapitado do mágico começou a adquirir um aspecto diferente, fazendo os mais corajosos espectadores recuarem assustados. O feio corte começava a escurecer e tornar-se plano. Um segundo depois era como se um disco negro tivesse tampado o pescoço, e o mesmo parecia ter acontecido com a cabeça que rolara alguns metros adiante. Que estava acontecendo? Em seguida, o corpo levantou-se.

Algumas pessoas começaram a deixar seus lugares bastante desesperadas. Ada, que até então não tinha tirado os olhos do palco, olhou de relance para os bancos e pôde finalmente perceber que algumas pessoas aqui e ali, não demostravam nada além de uma tentativa inútil de segurar um sorriso, como se já soubessem o que estava para acontecer. O corpo, então, fez um gesto com a mão e a cabeça veio flutuando até ele. Um segundo gesto trouxe também as bolinhas de cristal e um novo malabarismo sinistro se desenrolou antes de Zimmerman encaixar sua cabeça de volta no lugar e dizer:

– Sinto ter assustado vocês. Espero que tenham gostado do show – e saiu, sem receber nenhum aplauso além dos das pessoas que não estiveram preocupadas em momento nenhum. Os que ainda tinham ficado nos seus lugares respiravam com dificuldade e estavam chocados demais para fazer qualquer coisa. Foi só quando o mestre de cerimônias anunciou o intervalo que as pessoas voltaram a recuperar um pouco da sua cor natural.

Ada foi comprar um algodão-doce quase que mecanicamente, pensando em como aquilo estava longe de ser condizente com a realidade. Deu de cara com o homem de calças listradas, que havia acabado de educadamente se desviar de um grupo de pessoas que vieram lhe perguntar sobre o número.

– Olá, moça! O que está achando? – perguntou ele, sorrindo como quem sabia que tipo de resposta ia receber.

– Acho que depois disso, não há mais nada no mundo que eu ainda não tenha visto – sorriu ela também, embora metade de seus pensamentos ainda não tivesse voltado para o lugar.

– Ora, não diga isso! – respondeu o mestre de cerimônias, dando um tapinha em seu ombro – O espetáculo ainda nem acabou! Hahaha – depois fez um cumprimento e deixou Ada sozinha mais uma vez com sua mente perplexa.

O restante das apresentações, embora bastante belas, não podiam competir com o alvoroço causado pela cena de Zimmerman. Algumas pessoas nem voltaram a sentar, discutindo do lado de fora o que tinham acabado de presenciar. Ada agora podia afirmar, sem sombra de dúvidas, que aquele tinha sido o mais estranho dia de sua vida, e perguntava-se o que sua tia iria dizer quando ouvisse toda a história. Mas, por mais que chegasse a essa conclusão, e mesmo depois da despedida do mestre de cerimônias, a jovem sabia que não podia dar o dia por completo até ter cumprido a missão de devolver o medalhão – que era, afinal de contas, o principal responsável por tudo aquilo.

Como, ao sair do circo, não visse mais nem sinal do mestre de cerimônias, resolveu ir por si mesma até o carro de número dez – que para sua surpresa, não estava rodeado de gente como imaginou que estaria. Bateu então na porta, que se abriu quase que no mesmo instante:

– Olá – disse Zimmerman cordialmente – O que posso fazer por você?

Fosse por causa do show ou por causa da descrição do mestre de cerimônias, a última coisa que Ada esperava é que o mágico tivesse uma personalidade amigável, por isso ficou um pouco chocada. Ele, entretanto, pareceu não notar nada, e acrescentou ainda mais animado:

– Ora, belo casaco! – e soava bastante sincero, o que foi a coisa mais inesperada de todas, já que o casaco da mãe de Gideon não era a peça de roupa mais bonita do mundo.

Ada levou alguns segundos para processar as informações, e só então, se esforçando para não deixar transparecer sua descompostura, disse:

– Bem, eu achei esse pingente ontem à noite e me disseram para entregar para você... – mas antes que pudesse concluir a frase atrapalhada o homem a interrompeu:

– Ah, o pingente! Você achou! Alma vai ficar muito contente, ela esteve bastante desanimada por conta disso – sorriu ele, e depois segredou – Acredita que eu pensei que tivessem roubado? Hahaha.

Nisso Ada acreditava.

Antes que a jovem pudesse entregar o pingente, entretanto, a conversa foi cortada pela aparição repentina de uma mulher de calças pretas e botas de cano longo. Ela não parecia muito preocupada em interromper e já havia começado a falar antes de chegar perto o suficiente para ser ouvida sem gritar:

– Zimmerman! – chamou – Problemas!

A simples menção a palavra “problemas” fez Ada sentir um arrepio instintivo. “Realmente?”, não pôde impedir-se de pensar. Sentia cada vez mais que estava se metendo em alguma coisa complicada da qual não poderia escapar tão cedo.

Notas finais
Eu perdi a versão revisada desse capítulo, então tive que revê-lo todo outra vez. Tenho a sensação de estava melhor antes, mas como não quero atrasar demais as postagens, estou publicando mesmo assim. :) Por favor, me avisem caso encontrem erros. Obrigada!