Verschneit
7 Que ninguém durma
“Por que não fiquei em casa?”, pensava Ada. Estava muito escuro e a jovem tinha dificuldade em desviar-se das raízes das árvores e de todo o resto indistinguível de coisas que apareciam em seu caminho. “Por que não voltei pela tempestade quando perdi a carruagem? Passar por aquele vendaval seria mais fácil do que isso...”, e deu um passo desajeitado pela neve. Ada não tinha morado nos arredores gelados de Blanche por muito tempo, por isso ainda não havia adquirido a habilidade de andar sobre o gelo que todas as pessoas dali possuíam. “Por que não fiquei na hospedaria?”, colocou um galho para o lado. “Por que resolvi seguir essas pessoas até aqui?”, suspirou e seu próximo movimento foi tão mal calculado que ela tropeçou em uma raiz saliente, e só não deu com a cara no chão porque a própria árvore estava bem no meio do caminho, impedindo-a de cair completamente. Ada ainda estava se apoiando no tronco para tentar reequilibrar-se, quando uma lufada de vento permitiu que a luz da lua passasse pelas folhas e atingisse rapidamente o chão, revelando claramente que ela, não havia, em hipótese nenhuma, tropeçado em uma raiz.
Havia tropeçado em alguém.
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A jovem ainda não havia devolvido o medalhão dourado quando a mulher de botas de cano longo chegara, anunciando problemas. Ada achou que ela fosse falar alguma coisa sobre o mágico (afinal, com um número daqueles, era mesmo possível que o Circo se envolvesse em uma confusão ou outra, como havia sugerido a pequena e mal feita notícia de jornal) — mas ela, no fundo, sabia que não poderia ser algo tão simples quanto aquilo. Levando em conta, é claro, o dia maluco que havia vivido.
– Madame Dolores voltou! – disse firmemente a mulher de nome Veronique, como Ada pôde descobrir mais tarde.
– Ora, não vejo como isso possa ser um problema... – Zimmerman deu de ombros, despreocupado – Parece uma boa notícia para mim.
Veronique, em resposta, franziu suas sobrancelhas angulosas, e acrescentou num tom que ficava entre a desaprovação e a tristeza:
– Você sabe tão bem quanto eu que ninguém nunca saiu daquela floresta. Ninguém pode sair.
Ada ainda estava tentando entender o que era exatamente tudo aquilo, mas expressão de Zimmerman agora tornara-se totalmente indecifrável (principalmente porque ele ainda usava aqueles óculos escuros redondos), o que não contribuía muito para o esclarecimento das coisas. Depois de alguns segundos ele respirou fundo e respondeu:
– Entendo.
– Então sabe que precisamos ir para hospedaria imediatamente! – a mulher concluiu, e já estava dando as costas, quando Ada resolveu dizer uma coisa da qual se arrependeria terrivelmente num futuro não muito distante:
– Bem, eu estou hospedada lá. Marília, a cocheira, está esperando para me levar de volta, então, se quiserem, eu posso oferecer carona.
Veronique, que até então não parecia ter percebido a presença de Ada, virou-se para ela e encarou-a, avaliando-a por alguns momentos. “Ora, se não quiser ajuda, está livre para ir andando”, pensou Ada de mau humor. Não costumava encontrar tanta gente complicada em tão pouco tempo. Para sua surpresa, entretanto, a mulher deu um sorriso torto:
– Ótimo! – ela disse.
– Muito obrigado, senhorita! – acrescentou Zimmerman, cumprimentando-a de novo — Sinto muito por estarmos causando tantos problemas! — Depois assoviou e uma gata branca veio até ele.
Assim, os três (ou os quatro, se contarmos o gato) entraram na carruagem de Marília — que dissera muito alegremente que iria leva-los de volta sem o menor problema, depois, é claro, que cobrasse pelos novos passageiros. Ada aproveitou o momento na carruagem para devolver o medalhão e viu o homem pendurá-lo novamente no pescoço da gata, enquanto dizia uma coisa ou outra sobre como Alma costumava sair à noite, perdendo coisas por aí. Ele não ligava que a gata levasse cartas, doces ou qualquer coisa de pouco valor, mas ficava bastante preocupado quando algo mais caro sumia. Apesar de que, nesse caso, como o pingente fosse de propriedade da própria Alma, ele não pudesse ficar dando muitos palpites.
Mas Ada só ouvira metade do que o mágico estivera dizendo, porque não conseguira tirar os olhos do animal — que, por sua vez, também a encarara desafiadoramente com seus olhos de ametista. Podia jurar que o gato da noite passada era amarelo. Na verdade, estava certa de que não podia ter sido aquela gata branca de maneira nenhuma, mas como não soubesse muito bem o que fazer, achou melhor não arriscar um comentário. O dia já estava bem complicado sem que ela contribuísse muito para isso.
Zimmerman continuou falando sobre como recebia poucas pessoas no carro de número dez, já que a maioria delas se sentia muito assustada para tentar contato. O mestre de cerimônias é quem costumava explicar as coisas, por isso todos recorriam a ele. Com o tempo, isolar-se acabou se tornando quase que uma estratégia de propaganda: "Ninguém deve falar com o incrível Zimmerman enquanto ele estiver “'se preparando para o show!'”, disse, e não pode conter o riso.
– Se preparando para o show, ora essa – riu, e Veronique lançou-lhe um olhar afiado, mas o homem não percebeu. Depois acrescentou que estava contente em saber que Ada não tinha esse medo todo, pois se o caso fosse diferente, Alma provavelmente nunca mais teria visto seu medalhão.
Quando chegaram à hospedaria, o lugar estava muito mais cheio do que estivera horas antes, quando Ada saíra. Havia crianças correndo de um lado para outro, pessoas na porta falando alto e pessoas com papéis para anotar o que as outras estavam dizendo — gente saindo e gente chegando de todos os lugares. Veronique e Zimmerman agradeceram a carona, cada um a sua maneira, e entraram na construção antes de Ada, que ainda estava pagando a conta. Quando ela se voltou para entrar também (pensando em como sua carteira havia se esvaziado e em como seria difícil dormir com todo aquele barulho), notou uma figura conhecida conversando com um homem de chapéu e bigodes.
– Olá, Srta. Elliot! – acenou Gideon, quando a reconheceu – Será que poderia vir aqui um minuto?
Ada se aproximou e o homem de bigodes fez um gesto com o chapéu e saiu.
– Olá, Professor, como vai? – disse ela. Depois acrescentou, lembrando-se de que ainda vestia a sobrecasaca da mãe de Gideon: – Ah, sinto muito, mas eu pretendo devolver-lhe o casaco amanhã, ainda não consegui nada para substituí-lo.
– Não se preocupe com isso – sorriu ele – mas diga-me, senhorita Ada, será que não poderia me ajudar com seu testemunho? Parece-me que Madame Dolores apareceu enquanto você estava hospedada aqui...
– Sinto muito, Professor, mas eu acabei de chegar. Não tenho ideia do que está acontecendo — suspirou.
Gideon procurou um isqueiro:
– Entendo. Bem, parece que Dolores está incapaz de dizer qualquer coisa por si mesma, por isso toda informação sobre o caso, mesmo que mínima, pode ser útil. Quando soube que ela havia voltado, decidi vir investigar... Walter veio também, deve estar em algum lugar tentando comprar informações – disse, acendendo o cigarro e sorrindo – Mas bem, posso então perguntar-lhe outra coisa?
– Certamente.
– O que você e Reinhardt viram na floresta quando a carruagem virou?
Ada sentiu-se arrepiar outra vez, como se seu corpo estivesse reagindo a sensação de mau presságio que a pergunta direta de Gideon causara. Antes que pudesse responder, entretanto, um barulho alto chamou a atenção de todos ali presentes: uma explosão no fundo da construção. Em poucos segundos tudo ficou vermelho, e o grande número de pessoas que estavam ali rapidamente dividiram-se em dois grupos distintos: um formado por aqueles que não tinham ideia do que fazer e corriam para longe dali (que eram, na verdade, a maioria) e o outro por aqueles que se apressaram em tentar apagar o fogo. Ada já estava se movimentando para buscar fazer alguma coisa quando ouviu outra voz conhecida gritar:
– Gideon! Venha cá! – Sir Reinhardt, meio despenteado, apareceu detrás da construção para chamá-lo e no instante seguinte já havia desaparecido.
– Srta. Ada, pode ser que precisem de mais gente! – chamou o professor, e Ada seguiu-o sem pensar muito sobre o assunto.
Ada e Gideon seguiram Sir Reinhardt até o local no qual a explosão havia começado, onde o nobre mostrou-lhes o que tinha acontecido: um flash descuidado havia incendiado a despensa, e o carvão estocado para as lareiras dos quartos servira para alimentar o fogo. Apesar de foco inicial já estar sendo controlado com bastante eficiência pelas pessoas que estavam ali, um outro brilho vermelho longínquo era visível no alto das árvores, como se o centro da floresta também estivesse em chamas.
– Duas pessoas entraram lá há alguns minutos– disse Sir Reinhardt apontando para as árvores – Não acho que estejam percebendo o perigo.
Embora não pudesse imaginar o que alguém poderia querer naquela floresta num momento como aquele, Ada não pôde deixar de concordar que aquela era uma ideia mesmo perigosa.
– Bem, então vamos chama-los – sugeriu ela, mesmo sabendo que poderia se arrepender daquilo mais tarde — Eles não devem estar muito longe.
Gideon parecia prestes a fazer algum tipo de protesto, mas aparentemente chegou a um consenso consigo mesmo antes de dizer qualquer coisa.
– Esperem só um segundo – disse então, e correu muito velozmente para alguém com a idade que ele aparentava ter. Três minutos depois estava com uma espécie de pasta transversal presa ao ombro, e um lampião nas mãos. O professor também havia avisado o mordomo Michel para que viesse procurar por eles caso não voltassem em uma hora. Os três logo entraram na floresta, com Gideon guiando-os enquanto procuravam por pegadas que pudessem indicar para onde as pessoas descuidadas poderiam ter ido. Não demoraram a encontrar os rastros de uma caminhada recente.
– Que tipo de idiota entra nessa floresta em um momento como esse? – reclamou Sir Reinhardt , se se referindo aos donos das pegadas que seguiam.
– Aparentemente, o nosso tipo de idiota, já que estamos aqui – respondeu Gideon dando de ombros – Mas não achei que você se preocupasse tanto assim com os outros, Walter, a ponto de entrar nesse lugar pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas, só para resgatar uma dupla imprudente.
– Não sei o que te faz pensar que sabe alguma coisa sobre mim, Gideon — foi a resposta seca de Reinhardt.
– Bem, até mesmo a Srta. Elliot, que o conhece há menos de um dia, deve ter percebido que você é uma pessoa bastante difícil de lidar.
Ada estava torcendo para que não a colocassem na conversa, mas seu desejo infelizmente não foi realizado.
– E certamente a Srta. Elliot deve ter notado que não dá para ser muito agradável quando velhos malucos ficam insistindo em excursões sem sentido.
– Walter, quem nos chamou aqui hoje foi você...
– Ora, por favor. Vamos simplesmente encontrar essas pessoas e trazê-las de volta! Não é motivo para tanta discussão... – disse Ada de uma vez, esperando cortar o assunto.
Sir Reinhardt ergueu uma sobrancelha em uma expressão que dizia algo como “Escutou, desgraçado?”, e Gideon deu de ombros outra vez. Ada suspirou, e voltou sua atenção para o caminho escorregadio, tentando manter o equilibro. Andaram alguns minutos em silêncio quando Gideon voltou a falar:
– Acho que essas pegadas estão indo para o lago.
Antes que alguém pudesse fazer algum comentário a respeito, um vento forte fez as folhas das árvores farfalharem como se mil pássaros estivessem levantando voo ao mesmo tempo, e por alguns momentos nada além disso pôde ser ouvido. Depois, um pesado silêncio se instalou. O clarão vermelho que iluminava fracamente o céu desapareceu e tudo ficou muito mais escuro do que estava antes, restando apenas uma poça de luz amarela que vinha do lampião de Gideon.
– Talvez estejamos atrasados – disse ele.
E no momento seguinte o lampião também apagou.
– Acenda logo isso outra vez – reclamou Sir Reinhardt, de algum lugar da escuridão.
– Sinto muito Walter, mas não vai ser tão rápido assim. Não consigo enxergar absolutamente nada.
Suas vozes pareciam muito altas em meio a todo aquele silêncio.
– Você não tem um isqueiro no bolso? – sussurrou Ada, que se lembrava de ter visto o velho acender um cigarro enquanto conversava com ela na entrada da hospedaria.
– Bem, eu tinha um isqueiro no bolso. Infelizmente, Srta. Elliot, parece que não está mais aqui, devo tê-lo deixado cair em algum lugar... Tenho quase certeza de que tenho outro dentro da bolsa, mas está difícil de encontrar, preciso de um pouco de luz.
Por esse motivo, os três rapidamente decidiram que deveriam andar em linha reta até encontrarem um lugar menos denso, onde o espaço entre as folhas permitisse que a luz da lua entrasse, para que Gideon pudesse ser capaz de reacender o lampião. Depois tentariam pegar a trilha de volta, seguindo suas próprias pegadas até o local onde estavam parados naquele momento. Logo que chegaram em um acordo puseram-se a andar cuidadosamente.
Ada estava no fim da fila, acompanhando por alguns minutos a sombra que julgava ser as costas de Sir Reinhardt, quando sentiu seu pé ficar preso em alguma coisa. Não levou mais que alguns instantes para livrar o sapato do pequeno arbusto, mas quando ergueu os olhos outra vez, percebeu que não havia mais nenhuma sombra para ser seguida. Tentou chamar baixo e não obteve resposta. Mais alto e nada — só o silêncio tão profundo quanto a escuridão ao seu redor. Estava sozinha.
“Por que não fiquei em casa?”, pensou consigo mesma.
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