Vermillus
4 Capítulo 4 - Vermelho como o cachecol de Marley...
Notas iniciais
Quinn apertou as mãos contra o tecido do bolso do cardigã, se arrependendo por ter esquecido as luvas ao deixar o apartamento. O outono havia acabado de chegar, e consequentemente o ar frio cortante. Faltava pouco mais de três meses para dezembro, o que incluía o Natal, e o clima festivo não era algo que ela gostava. Detestava a decoração, a música de coro e as campanhas publicitárias emanando felicidade. Felizmente, há anos não comemorava o Natal, e Santana também não era uma admiradora daquela época colorida, mas, sabia Quinn, que ela passaria ao lado de Brittany.
Ela riu com amargura. Uma amargura que evidenciava a sua tristeza interna, porque Santana estava deixando que luzes entrassem na vida dela, e Quinn sabia, mais do que qualquer outra coisa, que com ela as coisas não aconteceriam assim. Não queria abrir espaço para uma pessoa e não queria ter de expor as próprias feridas. Elas estavam bem. Estavam cicatrizando aos poucos, embora estivessem nesse processo há três anos. Talvez um dia fechassem e não doessem de forma corrosiva.
Quinn torcia para que sim.
Pensar no Natal a levou até Santana e sua conhecida Brittany, que a fez se lembrar do Spotlight Diner e do ocorrido há alguns minutos, onde foi ríspida e estúpida. A culpa ainda pesava levemente, fazendo uma parte de si querer voltar e se redimir. Não era uma pessoa má. Só não se sentia bem diante de olhares com intenções veladas, porque era assim que seu ex-namorado, Noah, a olhava no ensino médio. Ele a encantou com o seu charme clichê de garoto rebelde. Contudo, o charme se transformou em obsessão, e a obsessão em violência, e tudo terminou em um crime sexual grupal, onde foi deixada para morrer depois do abuso repugnante. No entanto, apenas Santana e a sua irmã mais velha, Frannie, sabiam o que veio depois.
Quinn sentia culpa pelo modo como tinha falado com a garçonete do estabelecimento, e culpa era algo que não sentia há muito tempo.
Ela não sentiu culpa alguma quando entrou em contato com cada um dos seus algozes meses depois do estupro, e desesperados para que ficasse quieta, foram encontrá-la. Ela não sentiu culpa quando encontrou com todos separadamente em locais fora da cidade. E, principalmente, não sentiu culpa quando os levou para o galpão abandonado que Frannie tinha alugado com uma identidade falsa somente para que sua vingança fosse feita.
Cada corte, cada soco, cada unha arrancada, cada decepamento foram cometidos com um sorriso no rosto. Um sorriso de felicidade e alívio. Estava vendo o sofrimento deles e estava diante de súplicas e prantos de homens que pareciam tão inquebráveis quando a machucaram. Entretanto, eles eram quebráveis, e ela soube disso quando quebrou os ossos deles com marretadas fortes e certeiras.
Ela estava lá, rindo em silêncio quando os familiares souberam da morte de todos, porque não tinha recebido apoio de ninguém quando procurou a polícia. Nem mesmo Judy ou Russel estiveram ao seu lado. O pai afirmava veemente que tudo o que ocorreu era um castigo por ter provocado Noah. Quinn não se assustou com essa constatação e sim com o fato de ter esperado aquela reação dele. Ela sempre foi criada em uma família conservadora e fria, mas sua irmã esteve consigo, gargalhando ao seu lado com cada morte cometida. Frannie era o seu ponto de apoio, e Quinn era sortuda por tê-la na sua vida.
Foi satisfatório fingir inocência quando a hipótese de ter sido uma possível cúmplice foi levantada e mais satisfatório ainda ver a polícia sem provas. Ela desfilou pelos corredores do McKinley novamente, porque sabia que nunca mais veria o rosto de Noah e seus amigos do time de futebol. Eles estavam mortos da pior forma possível, e Quinn não sentia culpa por nada daquilo.
Mas agora, depois de três anos, ela sentia culpa por ter ofendido uma mulher desconhecida.
Contudo, ela não retornou ao Spotlight Diner e continuou caminhando até o ponto de ônibus. Havia poucas pessoas, então se manteve mais afastada, observando com os olhos atentos e curiosos como uma mulher batia o pé no chão incessantemente em um sinal claro de impaciência, fitando o relógio de pulso a cada segundo. Quinn pensava o quão confuso era aquilo. O modo como o ser humano está projetado para repetir o mesmo processo várias e várias vezes, mesmo sabendo que o resultado seria o mesmo, como era o caso da hora. Ela não passaria mais rápido só porque era checada a cada segundo, mas a mulher continuava com as ações contínuas, torcendo para que os minutos corressem e o ônibus pudesse chegar.
Quinn rolou os olhos e dividiu a atenção entre os demais cidadãos, mas se concentrou em apenas um. Conhecia aquelas madeixas escuras e a expressão triste, que parecia persegui-la. Só havia visto-a uma vez, mas se lembrava perfeitamente dela e em como não merecia nada do que acontecia ao seu redor.
Lentamente, Quinn se aproximou da garota, notando o quanto ela parecia ainda mais indefesa com um cachecol vermelho ao redor do pescoço, quase ocultando o seu rosto.
— Marley? — Ela chamou.
A garota se virou ao ouvir a voz rouca e calma e fitou Quinn com um reconhecimento recíproco.
— Quinn, certo? — Marley inquiriu insegura.
— Sim, Quinn Fabray. — Quinn sorriu educada.
Marley tentou espelhar o sorriso que recebia, mas parecia extremamente infeliz, causando uma onda de preocupação em Quinn.
— Você está bem?
— Sim, estou bem. — Ela olhou para o chão enquanto apertava as mãos nas alças da mochila.
— Você não deveria estar estudando agora? — Quinn arqueou uma das sobrancelhas.
— Eu... eu estou indo para lá. — Marley desviou o olhar.
— Onde é sua escola? Eu posso acompanhá-la. — A loira sugeriu.
— Não. — Marley quase gritou, mas diminuiu o tom de voz em seguida. — Não precisa. O meu ônibus já está vindo.
Quinn suspirou e pôs a mão gentilmente no ombro da garota, sentindo o quanto ela estava tremendo sob o grosso casaco.
— Marley, você não está bem. O que acha de ir até o meu apartamento? Podemos conversar. Você pode confiar em mim. Eu também tenho os meus demônios.
Marley finalmente focou nos olhos de Quinn, vendo como ela parecia sincera e disposta a ouvi-la, e por fim assentiu condescendente. Estava tão perdida, e Quinn podia perceber isso pelas lágrimas que queriam escapar sem permissão das orbes azuis.
Marley precisava de ajuda.
...
A bandeja foi colocada na mesa de centro, e Quinn ocupou o lugar vazio ao lado da garota.
— É chá de camomila. Ele sempre me ajuda. Pode ajudar você agora. — Ela fisgou uma xícara e entregou para Marley.
— Obrigada. — Não passou de um sussurro, e Marley assoprou um pouco da fumaça antes de beber um gole pequeno.
Quinn esperou pacientemente ela degustar um pouco mais do líquido quente e doce, observando-a deixar a xícara na bandeja e afundar as costas no sofá, brincando com os próprios dedos sobre o colo.
— Quer me dizer aonde estava indo quando a encontrei? — Ela indagou de maneira suave.
— Eu estava indo para o Central Park. — Marley ainda fitava as suas mãos unidas. — Eu gosto de ir lá e fingir que está tudo bem enquanto olho os patos nadando no lago. E depois... — Umedeceu os lábios. — Eu iria para o terminal de ônibus. Eu preciso voltar para o Missouri.
— Você morava no Missouri?
Marley assentiu.
— Meus pais e eu sempre fomos de lá, e quando eles morreram, eu tive de vir morar aqui com minha tia. — Ela explicou.
— Certo, eu estou entendendo. — Quinn tentava ser gentil o máximo que conseguia. — E por que você precisa voltar para o Missouri?
Marley ergueu a cabeça e fitou Quinn com os olhos marejados.
— Porque não quero ser estuprada. — A voz dela ficou embargada. — Paul disse hoje de manhã antes de ir para o trabalho que faria isso à noite. Foi uma promessa, e eu estou com tanto medo. Eu só quero sair daqui. — O pranto que permaneceu preso por horas saiu livre e forte, fazendo o corpo de Marley tremer intensamente.
Quinn passou alguns segundos fitando a garota quebrada na sua frente, sentindo o revirar de sentimentos correndo com força no seu interior. Ojeriza, pena e, principalmente, ódio. Ela sabia o que era ódio, porque o guardou durante meses até concretizar a sua vingança, e agora estava sentindo-o novamente. Na mesma proporção, fazendo o seu rosto ficar vermelho como o cachecol de Marley deixado no braço do sofá.
Ela tentou ignorar o seu corpo esquentando pela cólera desmedida e puxou a garota para os próprios braços, deixando que ela deitasse a cabeça no seu colo e colocasse tudo para fora. As lágrimas precisavam ser liberadas, e elas foram. Quinze minutos se passaram até que o pranto perdesse a força, restando apenas um rastro de água salgada caindo em cascata de modo silencioso, fazendo par com os soluços.
— Beba mais um pouco do chá. — Quinn pegou a xícara outra vez e a ofereceu para Marley, que se sentou novamente para ingerir a bebida. — Beba tudo. Depois, você vai para o meu quarto tentar dormir. Eu não vou deixar que Paul chegue perto de você. Eu prometo, Marley.
A garota aquiesceu, fazendo exatamente o que Quinn dissera, e foi levada até o cômodo pequeno, mas aconchegante. Ela deixou que os seus sapatos fossem retirados e se encolheu quando a coberta caiu sobre o seu corpo.
— Qual o sobrenome do Paul? — Quinn questionou enquanto acariciava os cabelos de Marley.
— Sanders. — Marley respondeu em meio a um bocejo. — Paul Sanders. — Fechou os olhos.
— Paul Sanders. — Quinn sussurrou para si mesma, continuando os afagos em Marley até que ela dormisse.
Uma rápida pesquisa na internet foi o suficiente para encontrar poucos Paul Sanders residindo em Nova York, mas apenas um deles possuía uma loja que vendia ferramentas de carpintaria, e o endereço foi anotado em um post-it.
O trajeto até o Queens foi rápido por ter ido de carro. Quinn mal o tirava da garagem por estar muito velho, mas naquele momento tudo era uma emergência. Após encontrar a loja de médio porte com o sobrenome de Paul em letras garrafais, ela parou o veículo no estacionamento dos fundos.
Havia o mínimo de movimento possível. Um homem escolhia minuciosamente uma furadeira, como se fosse um objeto precioso, e outro observava uma caixa de pregos. Quinn passou então a explorar o local, até virar o corredor e esbarrar acidentalmente em alguém.
— Me desculpe. — A voz grossa pediu, e ela caminhou para trás, fitando-o pela primeira vez.
Não parecia tão velho. No máximo quarenta e cinco anos, e ela sabia que era Paul pelo nome no crachá. Os cabelos pretos bem cortados e penteados perfeitamente o davam um ar sério e polido. Parecia ser extremamente simpático, e Quinn constatou que provavelmente ele nunca levantaria suspeitas de ser alguém capaz de estuprar outra pessoa. Não havia um padrão para esse tipo de gente.
— Tudo bem. — Ela se recompôs, tentando manter a postura firme e camuflar a sua briga interna, que era dividida entre a vontade de matá-lo e a de vomitar ali mesmo. Ambos causavam nela o mesmo embrulho frenético no estômago só por encará-lo.
— Precisa de ajuda? — Paul pôde analisá-la melhor após o choque dos corpos e abriu um sorriso largo.
Quinn engoliu o bolo de asco que subiu pela sua garganta.
— Talvez. — Ela retribuiu o sorriso, forçando-o até o seu limite. — Eu quero plantar algumas árvores no jardim da minha casa.
— Eu sei exatamente do que você precisa. É por aqui. Pode ir na frente. — Paul indicou o corredor à direita, e Quinn passou a caminhar, sentindo o olhar dele na sua bunda.
Ela pôde ver as enxadas, pás, luvas de borracha e todos os instrumentos para plantação ao parar no local apontado.
— Aqui tem tudo o que você precisa.
Quinn assentiu e pegou uma das pás.
— Ela é realmente forte?
— Com toda a certeza. — Paul respondeu de imediato. — Pode fazer qualquer coisa.
— Até mesmo matar alguém? — Quinn o encarou por alguns segundos, rindo logo depois.
Paul também riu.
— Sim, até mesmo matar alguém. — Ele brincou.
— Isso me parece bom. — Ela continuou com o tom de falsa diversão. — Eu vou querer a pá e as luvas.
— Claro. Só um minuto.
Paul voltou tão rápido quanto se foi e empurrava um carrinho de compras, sendo seguido por Quinn até o caixa após colocarem os objetos dentro dele.
Ele mesmo passou todas as mercadorias, e após o pagamento, ela o fitou.
— Você sabe onde eu posso comprar sementes?
— Há uma loja que vende a alguns quarteirões daqui. — Paul respondeu prestativo, mantendo os olhos nela.
— Eu sou nova em Nova York. Me mudei semana passada e não conheço praticamente nada. — Ela soltou uma risada fraca.
— Eu posso ir com você até lá. — Ele sugeriu. — Você veio de carro?
— Sim, ele está estacionado nos fundos porque não consegui pará-lo na frente.
— Então você pode me esperar perto dele. Eu vou atender esses dois outros clientes, fechar a loja e já a encontro. — Paul piscou o olho.
— Certo, obrigada. — Quinn passou a língua lentamente sobre os lábios, vendo-o acompanhar cada movimento. Por fim, ela abriu um sorriso largo. — Eu vou pondo a pá e as luvas no porta-malas. — Segurou o carrinho, empurrando-o até a porta e saindo da loja.
Ela caminhou despreocupadamente até a área dos fundos, cantarolando alguma música dos anos noventa enquanto colocava as luvas antes de segurar a pá.
— Podemos ir? — Quinn deu meia-volta, encarando Paul andar na sua direção ainda sorrindo.
— Não vamos a lugar algum. — Foi a única coisa que ela disse, acertando-o com força na cabeça em seguida.
O homem caiu no chão em segundos. A testa com um corte reto e fundo. Quinn buscou rapidamente o molho de chaves no cós da calça dele e correu até a porta estreita onde deveria ser o depósito da loja, abrindo-a após algumas tentativas.
A dificuldade surgiu quando teve de arrastar Paul, puxando-o pelos braços até que entrasse na sala pequena com caixas espalhadas por todos os lados. Quando adentrou o ambiente, ela agradeceu por existir outra porta, que a levava diretamente para dentro da loja.
O processo de desligar as câmeras de segurança e apagar todos os registros de vídeo foi rápido e simples, e a fita silver tape foi utilizada para prender as pernas e os braços de Paul, além de cobrir a boca dele.
Quinn esperou com uma calma que não sentia há muito tempo Paul acordar, e quando ele abriu os olhos, piscando lentamente pela claridade repentina, tentou se mexer inutilmente.
— Paul, você acordou! — Quinn comemorou. Um sorriso se formando gradativamente no seu rosto.
Ele disse alguma coisa, tentando encontrá-la com os olhos, mas apenas emitiu ruídos, e ela riu.
— Eu acho que falar algo não vai adiantar. — Quinn parou na frente dele, fitando-o no piso frio de concreto.
Paul contorceu a face em dor ao sentir a cabeça latejar, mas em seguida sua expressão se tornou confusa ao vê-la trajando um macacão descartável, botas de trabalho e luvas de borracha. Os cabelos estavam presos firmemente em um rabo de cavalo.
— Laranja talvez não seja a minha cor, mas vai contrastar bem com o vermelho que vai sair de você em minutos. — Ela sorriu novamente no final da frase. — Vamos ao que interessa. Você conhece Marley Rose, não?
Paul arregalou os olhos, finalmente se dando conta do que estava prestes a acontecer, principalmente quando Quinn sumiu do seu campo de visão, voltando segundos depois com a pá em mãos.
— Vamos descobrir se ela é realmente forte o suficiente para matar alguém, Paul.
Fale com o autor