Vermillus

3 Capítulo 3 - Vermelho como o uniforme do Spotlight Diner...


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Quinn entrou no Spotlight Diner perto das sete da manhã. O restaurante estava cheio. Provavelmente muitas pessoas gostavam daquele ar despojado e vintage que exibia performances musicais várias vezes ao dia.

Mas Quinn não gostava.

Ela não gostava do barulho alto e da movimentação incessante em um local de médio porte. Por isso preferiu trabalhar no Target. Sua função era apenas se manter sentada e ignorar qualquer comunicação, apenas se concentrando em passar os produtos, dizer o valor e dar o troco quando necessário. Fácil e sem exigir tanto contato físico.

Ainda se sentia relativamente fraca, mas isso não a impediu de sair de Park Slope até a Baixa Manhattan. Precisava conversar com Santana, então varreu os olhos pelo estabelecimento na tentativa de encontrá-la. Sem sucesso. Por fim, decidiu ocupar uma mesa mais afastada.

A agitação não parava. Os funcionários iam e vinham enquanto seguravam habilidosamente a bandeja contendo waffles, café, ovos mexidos e outras porções de comidas matinais com apenas uma mão.

E nada de Santana.

Quinn suspirou e pegou o cardápio. Esperaria o dia todo se fosse preciso. Qualquer lugar era melhor do que fitar as paredes do seu apartamento de maneira monótona. Até mesmo o Spotlight Diner.

...

— Vamos, Berry! Os clientes não têm o dia todo. — Santana bronqueou na cozinha do Spotlight Diner, pondo alguns pratos em uma das bandejas.

— Desculpe. — Rachel tentava inutilmente segurar o objeto esférico e metálico firmemente. — Isso é difícil, Santana.

Santana revirou os olhos. Aquela manhã estava mais intensa do que o normal e exigia um trabalho mais árduo dos funcionários, mas Rachel não parecia entender isso, porque demorava cerca de dez minutos para deixar a bandeja pronta. Era a nova garçonete, e a falta de experiência elucidava o jeito atarantado. Contudo, Santana não se importava. Ela só queria terminar logo a função adicional de treiná-la a pedido do seu chefe.

— Leve com as duas mãos, Hobbit. Gunther vai nos matar se souber dessa demora.

— Não a chame assim, Santana. — Kurt entrou na cozinha e entregou os novos pedidos para os cozinheiros.

— Eu a chamo do que eu quiser, Porcelana. Não esqueça que você também é novo aqui. Vamos, Frodo! — Santana saiu do lugar com Rachel caminhando desajeitadamente atrás dela.

Ela passou engenhosamente pelos colegas de trabalho, mantendo a bandeja na mão esquerda, e deixou os pratos na mesa indicada, se retirando logo em seguida. No entanto, seu trajeto foi interrompido ao notar a figura conhecida nos fundos do restaurante.

Santana não foi a única que percebeu a presença de Quinn. Rachel estancou momentaneamente ao vê-la. Era a primeira vez que via os cabelos dourados soltos com a franja caindo na lateral do rosto. Parecia ainda mais sedoso pela luz fraca do sol que o atingia. Aliás, Quinn parecia ainda mais linda concentrada no cardápio que tinha em mãos.

Rachel só saiu do próprio torpor quando Kurt a cutucou com o próprio cotovelo, indicando a mesa na sua frente. Ela sorriu desconcertada e serviu os clientes, parando ao lado dele logo depois.

— Parece que Santana a conhece. — Kurt comentou, e Rachel franziu o cenho antes de voltar a fitar Quinn, que ergueu a cabeça ao ver a latina se aproximar.

Elas pareciam íntimas, porque Santana simplesmente se sentou de frente para Quinn e segurou a mão dela depois de discutirem freneticamente por alguns segundos.

Aquilo fez Rachel ficar surpresa, e Kurt a fitou.

— Elas parecem ter algo além de amizade.

Ela também achava isso, mas apenas balançou a cabeça em negação.

— Eu acho que são melhores amigas. Apenas isso.

— Então como explica o fato da sua paixão platônica nunca corresponder os seus olhares? É óbvio que ela namora Santana. — Ele se virou e se afastou quando um cliente o chamou.

Rachel ainda permaneceu algum tempo parada, observando o desenrolar da cena. Santana se levantou e se acomodou ao lado de Quinn, passando o braço ao redor dos ombros dela. Ela reprimiu um suspiro ao se sentir mal encarando aquele cenário. Havia desenvolvido uma atração por Quinn e agora sabia que as suas chances estavam quase nulas.

Quase.

Elas ainda poderiam terminar o namoro. Rachel abriu um sorriso pequeno diante do pensamento que a atingiu e entrou na cozinha, pronta para continuar o trabalho.

Em uma das mesas do Spotlight Diner, Quinn ainda fitava um ponto perdido na sua frente, sentindo o afago de Santana nos seus cabelos.

— Desculpe, Q. Eu não podia ver você naquele estado sem tomar uma atitude. O Dalmane estava acabando com a sua saúde, e eu precisei confiscá-lo.

— Mas eles me ajudam, Santana. Eles me fazem esquecer. — Quinn replicou novamente.

— Você pode tê-los de volta quando for na consulta com a Alison. Eu sei que você não gosta dela. Nem eu gosto, na verdade, mas é necessário.

Quinn suspirou outra vez, mas não tentou um novo argumento e assentiu resignada.

— Eu conheci uma pessoa. — Santana mudou o rumo da conversa. — Eu queria contar à noite, mas não consegui esperar.

— Uma pessoa? — Quinn contorceu o rosto em surpresa.

— O nome dela é Brittany Pierce. Eu estava entediada na madrugada e resolvi entrar em um chat de apoio. Havia apenas três pessoas, e ela era uma dessas. Começamos a conversar e estamos nisso há quase dois meses.

— Dois meses? — Quinn quase gritou, recebendo alguns olhares na sua direção. Ela limpou a garganta envergonhada e encarou a amiga novamente. — Dois meses? Por que você não me disse nada?

— Porque eu queria ter certeza de que não estava com falsas esperanças. Ela vai terminar o ensino médio esse ano. Estava no chat porque precisava fazer um trabalho sobre abuso sexual. Eu não falei sobre a minha história, e ela não insistiu, mas não conseguimos parar de nos comunicar.

Quinn ainda estava atônita. Eram informações demais para processar. Santana parecia sempre tão fria ao falar de relacionamento. E agora estava ali, dizendo que conheceu alguém e que estava com esperanças.

Deveria estar feliz, então por que não estava?

— Você tem certeza de que ela não é alguém fingindo ser outra pessoa? — Quinn comprimiu os lábios.

— Nós já conversamos pelo Skype. Aqui. — Santana fisgou o celular do bolso do avental curto do uniforme, abrindo a galeria e virando a tela na direção de Quinn.

A tal Brittany era linda, e isso Quinn não podia negar. Havia traços delicados no rosto dela, fazendo-a ter um ar ingênuo e suave. Os fios loiros compridos eram mais claros do que os seus, e os olhos azuis fizeram-na se lembrar da sua mãe e da sua irmã, causando um desconforto pela primeira lembrança e uma saudade imensurável pela segunda.

— Ela é linda. — Quinn tentou sorrir.

— Ela é. — Santana concordou. — E vai vir morar aqui após se formar. Eu quero muito que você a conheça, e finalmente estou me libertando dos meus demônios. É isso o que eu espero para você, por isso preciso que pare de tomar Dalmane com tanta frequência e deixe que Alison tente ajudá-la.

Quinn forçou um sorriso e aquiesceu. Santana era uma alma vagando no escuro quando a conheceu, sempre andando ao seu lado, mas agora ela parecia encontrar a própria luz aos poucos. Quinn sentiu medo, porque ela era o seu ponto de apoio, e no momento em que Brittany chegasse, seria esquecida momentaneamente. Isso era claro. Aquilo a incomodou como um soco no estômago, mas não deixou transparecer. Nunca deixaria.

— Eu estou feliz por você, Sant. Você merece alguém legal. — Quinn foi lacônica, mas não mentiu. Santana merecia alguém para fazê-la enxergar o arco-íris, mas também sentiu inveja, porque nunca experimentaria da mesma sensação. — Eu acho que estou com um pouco de fome.

— Eu vou pedir para prepararem um café da manhã completo. Você precisa comer e não deveria ter saído do apartamento. Precisa usar a sua licença médica.

— Eu estava enlouquecendo lá. Eu só precisava tomar um ar e me distrair.

— Tudo bem. — Santana se levantou. — Eu volto já.

Quinn apenas menou a cabeça em concordância e observou a amiga caminhar apressadamente até sumir ao adentrar a cozinha. Ela então passou os olhos novamente pelo restaurante até a sua atenção cair sobre uma das garçonetes, que tentava passar por entre as mesas sem derrubar a bandeja. Conhecia aquela mulher. Era a mesma que ia uma vez ao mês no Target e a direcionava olhares longos demais, fazendo-a se sentir desconfortável.

Ela torceu para que não fosse vista, mas suas preces não foram atendidas, e como um passe de mágica, a mulher desconhecida a fitou por alguns segundos antes de voltar a fazer a sua incumbência.

Quinn agradeceu pelo contato não ter durado muito, mas começou a se sentir sufocada naquele ambiente que parecia ser preenchido por mais e mais pessoas a cada segundo, até que não aguentou o burburinho de conversas e saiu, respirando fundo ao ser atingida pelo ar fresco da rua.

Estava um pouco tonta, com uma leve camada de suor na testa e estressada pela notícia que Santana tinha jogado nas suas costas. Não sabia o que pensar. Queria estar animada, mas não estava. Ela raramente se animava com algo. Talvez mais do que a sua inocência, o abuso que sofreu tinha levado também o seu ânimo. Se sentia cada vez mais perdida. Sem um rumo certo naquela cidade enorme e que nunca parecia descansar.

Uma mão gentil a tocou no ombro, e Quinn se virou bruscamente, sobressaltando com o susto.

— Desculpe, eu não queria assustar você. — Rachel retraiu a mão e encolheu os ombros. — Eu só queria saber se você está bem.

— Eu não estou bem. — Quinn respondeu rapidamente. — E você poderia parar de fazer isso?

— Isso o quê? — A mais baixa estava confusa.

— Esses olhares. Eu os conheço e não quero nada com você, então pode parar de agir como se estivesse esperando eu ter alguma iniciativa? Eu não vou ter, e isso me deixa desconfortável. É completamente estranho.

Rachel não sabia dizer ao certo quando o seu rosto começou a queimar tamanho constrangimento. Ela não esperava que Quinn pudesse se sentir assim e agora estava mal pelas palavras que tinha acabado de ouvir.

Quinn observou o rosto dela ficar vermelho, como o uniforme do Spotlight Diner, e se arrependeu pelas palavras proferidas. Não era uma pessoa ríspida, mas o modo como aquela mulher a encarava fazia com que suas lembranças voltassem, e precisava impedi-las o máximo que conseguisse.

Rachel abriu a boca e tomou uma longa respiração, ocultando as suas emoções, exatamente como aprendeu em anos de treino.

— Eu sinto muito se a fiz se sentir assim. Não foi a minha intenção, e isso não vai mais se repetir. Espero que esteja bem. Eu, ao contrário de você, posso ser educada quando algo não me agrada. Tenha um bom dia. — Ela deu meia-volta, entrando novamente no restaurante.

Quinn queria se desculpar, mas não a seguiu. Não queria entrar naquele lugar repleto de clientes, então apenas afundou as mãos nos bolsos do cardigã, iniciando o seu caminho para longe dali. Conversaria com Santana depois e explicaria toda a situação.

Por hora, ela só queria deitar na sua cama e pensar no que faria quando se visse novamente sozinha em Nova York, sem Santana sendo a sua companhia vinte e quatro horas por dia.

Estava triste.

Exatamente como sempre se sentiu.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. twitter.com/yasagron