Vermillus

2 Capítulo 2 - Vermelho por enfrentar os raios de sol...


Notas iniciais
Voltei mais rápido do que esperava. Esse capítulo ficou pronto logo, então eu decidi postar porque estou realmente empolgada com essa história nova. Enfim, espero que aproveitem o capítulo. Desculpem-me qualquer erro e boa leitura. =D

Rachel tinha passado por uma semana exaustiva em NYADA. Ela nunca achou que desejaria o término da faculdade tão rapidamente, embora soubesse que ainda faltavam três anos para finalizá-la. Contudo, amava o que fazia, mesmo sentindo os tornozelos doloridos pelas danças feitas várias e várias vezes até acertar os movimentos.

Ela sempre desejou estudar na faculdade dos seus sonhos quando era apenas uma garota no ensino médio e, sobretudo, sempre desejou conseguir o próprio espaço pessoal em Nova York. E tinha conseguido. Adorava a Big Apple, adorava a Times Square, adorava o Central Park.

Mas definitivamente não adorava o trânsito caótico em um sábado pela manhã.

O trajeto de Bushwick até Upper East Side deveria ser de apenas quarenta minutos, mas a movimentação incessante de carros faria com que chegassem ao destino desejado em uma hora. Era desagradável, e Rachel pensou em como estaria o metrô com aquele mar de pessoas indo e vindo nas calçadas.

Quando Kurt finalmente encontrou uma vaga no estacionamento do Target, Rachel suspirou e saltou para fora do veículo. O sol estava forte, e ela se sentiu bem quando adentrou o vasto mercado, sentindo o ar condicionado entrar em contato com a sua pele.

— Eu vou para a seção de carnes e depois a de frutas para escolher o que faremos na sobremesa. Você vai para a de legumes e verduras. Quanto mais rápido terminamos isso, mais eu terei tempo de arrumar tudo para ir buscar Blaine no aeroporto. Assim que terminar, me envie uma mensagem de texto. Nos encontraremos no caixa.

Kurt mal deixou Rachel responder e saiu em disparada após encontrar um carrinho vazio.

Ela então espelhou os movimentos dele e seguiu para o corredor de verduras enquanto resmungava em um tom baixo. Deveria estar dormindo. Estava com sono. Sentia as consequências dele no seu humor, que era quase inabalável. Mas naquele dia quente, em um mercado recheado de gente, Rachel sentia que seu estresse não poderia ir embora.

Ou achava que não.

O carrinho foi sendo preenchido gradativamente. Verduras, legumes e alguns doces veganos. Sabia que no momento em que Blaine pusesse seus pés em Nova York, Kurt passaria cada minuto ao lado dele, ignorando a sua presença.

Era sempre assim, e ela não se importava realmente. Ele merecia a companhia do namorado, mas Rachel precisava de uma distração enquanto assistia a sua coletânea de filmes durante todo o final de semana com Patti LuPone ao seu lado. Não a atriz, mas sim sua gata siamês que havia adotado há pouco mais de quinze dias.

Quando enfim riscou o último item da lista de compras, ela adicionou uma garrafa de vinho tinto antes de enviar uma mensagem de texto para Kurt, indo então para o seu caixa favorito.

Era o número quatro. E ela não o escolhia por causa do número. Escolhia-o justamente porque a funcionária que o administrava era, como Kurt gostava de chamar, sua paixão platônica. Talvez Rachel tenha tentado achá-la em alguma rede social pelo nome escrito no crachá ou a seguiu por alguns corredores quando ela estava organizando as prateleiras, mas não era uma stalker. Rachel só gostava de observar a beleza dela. Não era uma beleza comum dos nova-iorquinos. Era algo mais. Muito mais. Chegava a ser injusto o modo como ela era bela, e queria conhecê-la um pouco mais. Ninguém em sã consciência gosta de filas enormes em um mercado, mas Rachel gostava, porque gastava longos minutos observando-a e enumerando todos os trejeitos que a cercavam. Desde o modo como batucava os dedos com as unhas curtas e sempre pintadas de um preto descascado no metal enquanto esperava o valor ser calculado no monitor até como o canto dos olhos enrugavam quando sorria um pouco e agradecia aos clientes. Tudo era encantador, e Rachel gostaria de olhar aqueles olhos por mais tempo. Nunca havia visto alguém com íris verdes e detalhes dourados. Na sua concepção, era especial. E Rachel adorava coisas especiais.

E não, ela definitivamente não era uma stalker.

Entretanto, o caixa estava fechado, e ela não evitou sentir uma onda de frustração e preocupação repentinamente. O que deveria ter acontecido? Sua mente criava justificativas sobre o porquê daquele caixa não estar aberto com a mulher mais linda que já havia visto sentada na cadeira giratória com os cabelos loiros presos firmemente em um rabo de cavalo.

Ela não ficou muito tempo parada, porque mais pessoas entravam nas filas enquanto pensava, e caminhou até outro caixa. Tudo passava mais devagar. Agora, não tinha ninguém para observar. Estava enfadonha, e Kurt logo apareceu, fazendo-a se virar para encará-lo.

— Onde está a sua paixão platônica?

— Ela não é a minha paixão platônica.

— Você tentou achá-la na lista telefônica, Rachel. — Ele arqueou as sobrancelhas.

— Eu só queria saber quantas Quinns moram em Nova York. — Ela tentou se defender.

— Tudo bem, mas...

Kurt interrompeu a si mesmo, fitando um ponto que não era a face da amiga. Isso causou uma curiosidade estrondosa em Rachel, que deu meia-volta, tendo a sua visão atraída para alguém familiar discutindo com o gerente do mercado.

Quinn falava sem parar enquanto gesticulava de forma nervosa. O gerente apenas ouvia e por fim suspirou, sorrindo para ela. Um sorriso muito largo, na opinião de Rachel.

Não demorou muito para Quinn caminhar e ocupar o caixa quatro, atraindo a atenção dos clientes, que tentaram, mas não foram mais rápidos do que Rachel em ser a primeira da nova fila que rapidamente se formou.

A primeira coisa que notou foi a ponta do nariz reto e pequeno da outra mulher, que estava vermelho, combinando perfeitamente com a pele alva. Ela deduziu que Quinn tinha usado o metrô, tendo de enfrentar os raios de sol que pareciam um algoz, castigando os cidadãos que saíam sem proteção.

Kurt não saiu do encalço da amiga e soltou um riso contido quando viu o olhar que ela exibia. Rachel não era boa em camuflar sentimentos.

Quinn, no entanto, mal olhou para ela e começou a passar os produtos, encarando o monitor, onde os valores eram somados. Não gostava da presença daquela cliente, porque recebia sempre um olhar exagerado. Um olhar que sabia o que significava. Já o tinha recebido antes. E esse olhar causava uma bagunça indesejada no seu estômago.

— Oi. — A voz dela infiltrou os seus ouvidos. Era doce e afinada.

Rachel sentia o coração dançar dentro do peito, como se estivesse em um show de rock. Ela podia jurar senti-lo subindo até a sua garganta só por ter dirigido a palavra para a mulher sentada na sua frente.

Quinn ergueu a cabeça, fitando-a pela primeira vez.

— Oi. — O tom saiu fleumático e esmorecido, e Rachel pôde perceber as olheiras fundas abaixo dos olhos.

Na verdade, ela percebeu mais do que isso. Desde sua última ida ao supermercado, onde Quinn parecia ter alguns quilos a mais, dessa vez o uniforme dela parecia ter aumentado de tamanho. Aquilo a preocupou, e teve de morder a própria língua para não indagar se tudo estava bem. Isso não é da sua conta, pensava.

— O dia está bastante quente, não é? — Rachel tentou iniciar algum diálogo, não se importando em ter mais quinze ou vinte pessoas esperando na fila.

— Está sim. — Quinn assentiu sem esboçar alguma reação interessante, voltando a passar os produtos. — O valor final é cento e setenta e cinco dólares. — Anunciou.

Foi Kurt quem pagou, utilizando o cartão de crédito. E para a infelicidade de Rachel, o processo não demorou muito. Tudo já havia sido colocado dentro dos sacos de papel pela assistente de caixa, e não tinha mais motivo para que permanecesse ali, de pé, fitando Quinn como se esperasse que ela dissesse algo.

Mas Quinn não disse.

Ela agradeceu e voltou os seus olhos para o próximo cliente, iniciando o mesmo procedimento. Kurt então puxou Rachel pelo braço, fazendo-a despertar de seu torpor, e saíram do mercado.

— Você conseguiu formar uma frase inteira. Foi uma ótima evolução. — Ele foi sarcástico.

— Ela mal me olha. É sempre assim. Eu sei que sou apenas uma cliente, mas eu sinto que o problema é comigo. — Rachel ignorou a provocação do amigo.

— Ela é esquisita, Rach. Bonita, mas esquisita. E por Barbra, como emagreceu. — Kurt parou perto do carro, abrindo o porta-malas e retirando os pacotes dos carrinhos para guardá-los.

— Você me acha feia? — Ela perguntou insegura.

— Você é linda, e eu sempre repito isso quando saímos daqui, porque ela não olha você por mais de dois segundos. Talvez fosse melhor parar de sentir toda essa atração.

— Você fala como se fosse simples.

— E é simples. — Ele rebateu. — Apenas pare de vir aqui. O Whole Foods tem produtos orgânicos ótimos e fica no Brooklyn, mas nós sempre temos de vir até o Target porque você precisa vê-la pelo menos uma vez no mês.

Rachel não respondeu. Ela se sentiu ridícula por estar atraída por alguém que nem a olhava. Era como estar no colégio novamente. A perdedora ignorada pelo garoto popular. Mas agora ela era uma nova pessoa. Os suéteres com estampas de animais foram trocados por saias justas que evidenciavam o seu belo corpo. Era uma mulher atraente, exceto para Quinn.

Quando Kurt fechou o porta-malas e deixou os carrinhos ao lado dos demais, ela embarcou no carro, fitando o mercado antes de suspirar. Talvez fosse mesmo melhor parar de ir ali, pelo menos até encontrar outra mulher para ser sua, como Kurt sempre dizia, paixão platônica.

...

Quinn terminou de atender mais um cliente e ergueu a mão, chamando a assistente de caixa, Amy, para ficar no seu lugar. Precisava ir ao banheiro expelir o líquido quente que subiu pela sua garganta.

Ao adentrar o lugar somente para funcionários no andar superior do mercado, ela se inclinou em frente ao vaso sanitário e deixou que tudo saísse. Estava enjoada. Tanto pelo fato de ver seu vômito quanto por lembrar do olhar da mulher momentos atrás. Ele trazia as memórias que tentava bloquear.

Era um olhar de cobiça. Um olhar que mostrava interesse. Era o olhar que seu ex-namorado lançava na sua direção antes de se reunir com mais três amigos e decidir que seria legal estuprá-la em uma noite de quinta-feira. Há três anos, exatamente naquela data.

Seu estômago contraiu novamente, mas não verteu algo, e ela deu descarga, logo lavando a boca e afundando a mão dentro do bolso da sua calça para pegar o recipiente amarelo já conhecido.

Não deveria tomar Dalmane mais do que duas vezes ao dia, mas Quinn ignorou isso, assim como estava ignorando as consultas com Alison por todo esse mês. Ela não poderia ajudá-la, e não perderia tempo com a psicóloga. Suas memórias nunca cessaram nesses três anos, e não seria agora que cessariam.

Mas medicamentos ajudavam, e mais do que isso, o Dalmane a ajudava. Quinn ingeriu quatro de uma vez, engolindo-os com a ajuda da água da torneira.

Queria esquecer. Talvez dormir na sala pequena dos funcionários enquanto Amy a encobria. Usaria a desculpa de estar passando mal para se livrar de Coley, seu gerente. Ele era bom e parecia entendê-la.

Entretanto, ela não conseguiu andar mais do que seis passos antes de sentir a cabeça girar com força, fazendo-a parar e se encostar na parede. Sua visão não focou mais depois disso, e seu corpo amoleceu consideravelmente.

Quinn desmaiou.

...

Santana irrompeu o hospital rapidamente. Falava em espanhol e causava confusão nas enfermeiras. Ela quase bateu na mulher que a pedia calma, mas no final decidiu respirar fundo e elucidar tudo gradativamente, sendo guiada por um corredor até entrar em um quarto.

Quinn estava deitada. Havia um monitor de frequência cardíaca e uma bolsa de soro ligados à ela.

— Nós já a desintoxicamos. É normal que ela sinta fortes náuseas nas próximas horas. A dosagem não foi muito forte, mas devido à desidratação, os sintomas intensificaram. O soro é para deixá-la hidratada. Ela vai precisar passar a noite aqui e comer alguns alimentos quando tiver alta. O doutor virá falar com você em breve.

Santana apenas aquiesceu e deixou a bolsa sobre a cadeira ao lado da cama quando a enfermeira saiu do quarto, se aproximando de Quinn em seguida. O rosto estava mais pálido que o normal, e ela dormia serenamente.

— Você queria me deixar aqui sozinha? Nessa merda de cidade? — Ela sabia que Quinn não ouviria, mas estava brava. Brava por tamanha irresponsabilidade. — Você não pensou em vir falar comigo? Eu poderia ter ajudado. Eu conheço as suas dores. Eu também as vivi no passado. Droga! Como eu odeio você.

Aquela não era a primeira vez que isso acontecia. A outra foi no ano passado, quando dois anos tinham se passado desde o fatídico dia.

O pensamento sobre o acontecimento anterior fez Santana abrir os olhos em uma realização, e ela buscou apressadamente o celular para verificar a data. Como pudera esquecer disso? Sentia a culpa sendo introduzida no seu interior. Quinn vinha apresentando dificuldade para dormir há alguns dias. Mais do que o normal. E agora havia tido outra overdose por medicamentos, exatamente como no ano anterior. O dia em que tinha sido abusada por quatro garotos.

— Me desculpe. — Ela pediu após guardar o objeto eletrônico. — Eu deveria ter lembrado. Eu deveria ter ficado com você nesse dia. Por favor, me desculpe. — Sentiu os olhos marejarem.

— Você não tem culpa. — Quinn sussurrou com dificuldade. Sua garganta estava seca, como se estivesse repleta de areia. — Não é sua... — Parou para engolir o excesso de saliva. — Não é sua culpa.

— Eu fiquei com você ano passado. Eu deveria ter ficado agora.

— Você não é a minha mãe. Há coisas mais importantes para fazer. — Quinn fechou os olhos novamente, se sentindo sonolenta.

— Você é mais importante. É a minha melhor amiga. É a pessoa que eu odeio admitir amar.

Quinn sorriu minimamente. Além da sua irmã, ela só se permitia receber afeto de Santana, porque a amava também, embora raramente verbalizasse isso.

— Você iria chorar muito se eu morresse? Digno de uma cena no meu enterro?

— Não, eu iria rir, porque eu saberia que você tinha ido para o inferno.

Quinn soltou uma risada fraca.

— Isso dói, Sant. — Ela murmurou. — Essas memórias doem. — Bocejou.

— Eu sei que doem, doem em mim também. — Santana segurou a mão da amiga. — Mas precisamos fazê-las parar de doer.

Quinn tentou abrir os olhos, mas não conseguiu. Estava quase dormindo, e queria dormir. Precisava dormir, porque só assim ela iria esquecer.

— Não há como fazer para de doer.

— Eles não estão mais aqui. Nunca mais vão nos fazer mal. É nisso que precisamos nos segurar para seguirmos em frente.

Quinn assentiu outra vez, agora recebendo as reminiscências do dia em que havia presenciado a morte dos seus agressores. Isso fez com que abrisse um sorriso sonolento, finalmente se permitindo ressonar. Sorriu porque era bom lembrar de como tiveram o que mereciam.

E sorriu porque os havia matado como desejava.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. twitter.com/yasagron