Vermillus

1 Capítulo 1 - Vermelhos como duas cerejas...


Notas iniciais
Aqui estou eu novamente com mais uma história. Essa história vai seguir um ritmo bem diferente das demais por mostrar uma Quinn frágil e ao mesmo tempo buscando por vingança. Não apenas a dela. Vai ser bom explorá-la e mostrar a sua transição de sentimentos. Eu espero realmente que aproveitem. Enfim, leiam as notas finais. Desculpem-me se houver algum erro e boa leitura. =D

Quinn não queria estar ali. Tudo era extremamente desconfortável. Os soluços sôfregos de uma das garotas, o eco que o lugar produzia quando as solas dos sapatos batiam contra o chão e, principalmente, a voz desagradável da coordenadora.

O dia no trabalho havia sido exaustivo, e isso se devia ao fato de odiar o que fazia. Seu corpo ansiava por um banho e pelo repouso que a noite poderia proporcionar, mas então havia sido levada para mais um grupo de apoio por causa da recomendação da sua psicóloga.

— Nós queremos dar as boas-vindas à Quinn Fabray e à Santana Lopez. Estamos tão felizes em tê-las conosco. Aqui é um lugar seguro onde podem compartilhar dores e sentimentos. Eu espero que se sintam confortáveis.

Terri Del Monico era extremamente irritante na concepção de Quinn, e a fazia desejar gritar para que calasse a boca. A mulher loira de olhos azuis se considerava uma benfeitora, e foi isso que causou a repulsa de Quinn após alguns minutos de conversa. Não havia benfeitores, ela pensava. Ninguém era altruísta. Ninguém era capaz de agir com boas intenções sem querer algo em troca.

Esse tipo de pessoa não existia.

Santana, ao seu lado, apenas balançou a cabeça em um gesto afirmativo. Quinn sabia que ela também estava detestando toda aquela pose de mulher bondosa que Terri ostentava.

A coordenadora continuou.

— E então? Alguém quer compartilhar algo hoje?

A garota que fungava há algum tempo secou o nariz úmido com o lenço de papel amassado e ergueu o rosto.

— Eu... eu acho que posso começar. — Ela chamou a atenção dos demais, o que a fez encolher os ombros.

— Isso é ótimo, Marley. Está pronta para falar hoje? — Terri inquiriu com um sorriso.

A garota aquiesceu ainda receosa antes de respirar fundo.

— Meus pais morreram em um acidente de carro ano passado, então eu tive de ir morar com a minha tia e o marido dela. No começo, tudo caminhava bem, mas... — Ela fez uma pausa. — Uma noite ele entrou no meu quarto e deitou ao meu lado. Eu senti um calor estranho e abri os olhos. A mão dele na minha boca impediu que eu gritasse... — Fungou novamente. — Eu senti algo contra o meu traseiro, e ele começou a se esfregar em mim. Isso durou até que ele ejaculasse. Tudo aconteceu há algumas semanas, e eu não consigo contar para a minha tia. Ela o ama tanto. Não acreditaria em mim.

A voz doce da garota estava extremamente embargada, e o choro cortou a garganta dela minutos depois. Quinn a analisou. Era linda. Os cabelos castanhos e longos estavam soltos, e os olhos azuis inchados e vermelhos. Era tão nova e parecia ser tão inocente. Não deveria ter mais do que dezessete anos e definitivamente não merecia passar por isso.

Seu peito apertou. Ela odiava que isso acontecesse, porque sabia o que viria depois. As malditas memórias. Não havia como controlá-las, tampouco impedi-las.

Sua respiração engatou, e as suas mãos se fecharam com tanta força que foi possível sentir a unha média machucando a pele superficialmente. Era como se estivesse voltando para aquele dia. O pior dia da sua vida. Podia até mesmo jurar ouvir as vozes se misturando nos seus ouvidos.

Quando o estômago embrulhou e o líquido quente subiu pelo esôfago, Quinn se levantou abruptamente, fazendo a cadeira de metal cair em um baque surdo sobre o piso do vasto ginásio. Nem aquilo e nem os olhares que recebeu impediram-na de correr para fora daquele lugar que parecia sufocá-la.

Ela passou pela porta e se curvou, expelindo o vômito que tinha ficado preso na sua garganta. Não havia algo sólido. Apenas todos os copos de café que bebeu durante o dia.

A mão nas suas costas tentando transmitir algum conforto já era conhecida, e seu estômago contraiu novamente, mas nada subiu, então limpou a boca com o lenço de papel que foi estendido na sua direção.

— Aqui. Beba. — Santana puxou a garrafinha de água da bolsa e a entregou para Quinn, que bebeu um pouco enquanto tentava se livrar da sensação nauseada e do gosto ruim que sentia na boca.

— Eu estou bem. — Ela protestou quando a amiga colocou o seu braço sobre os próprios ombros e a segurou pela cintura.

— Suas pernas estão tremendo. — Santana replicou. — Vamos para casa.

— Não. Eu quero voltar.

— Você acabou de vomitar. Precisa descansar.

— Nós decidimos vir até aqui, e eu não quero que seja em vão. Vamos voltar.

— Viemos aqui porque achamos que dessa vez podia ser diferente, mas deu tudo errado. — Santana continuou insistindo.

— Foi apenas um mal-estar, tudo bem? — Quinn mentiu. — Eu estou bem.

Santana pensou em argumentar outra vez, mas não adiantaria. Conhecia Quinn o suficiente para saber que ninguém a fazia mudar de ideia quando tomava uma decisão.

Por fim, elas retornaram ao ginásio.

— Você está bem? — Terri indagou quando viu Quinn caminhar ainda apoiada em Santana. — Você ficou pálida demais. Achamos que iria desmaiar.

— Eu estou bem. — Quinn forçou um sorriso. — Vocês podem continuar. — Se sentou.

E a garota continuou, falando sobre como tinha achado o cartaz do grupo colado em um poste perto da sua casa e como tinha de sair escondida para ir ali toda semana. Narrou também como se sentia fraca e impotente por não ter coragem de falar sobre o abuso que sofreu para a polícia.

Mas Quinn não a achava fraca. Não contar à polícia o que sofria não significava ser fraca, porque ela já era forte o suficiente para suportar tudo aquilo em silêncio. No entanto, não contar significava que aquele homem continuaria sendo um criminoso. Isso não podia acontecer.

— Seu nome é Marley, certo? — A voz de Santana trouxe-a de volta para a realidade.

— Sim. Marley Rose. — A garota respondeu timidamente.

— Então, Marley, você sabe o que precisa fazer, não sabe?

— Eu sei? — Marley franziu o cenho

Santana assentiu e se levantou.

— Você mora com ele. Vinte e quatro horas por dia convivendo com aquele nojento. E há uma cozinha na sua casa. Cozinhas possuem facas afiadas, que podem servir para cortar a garganta dele.

Quinn conteve um sorriso. Santana explicou tudo calmamente, como se estivesse falando sobre um assunto banal e não sugerindo que Marley matasse alguém.

— Senhorita Lopez! — Terri praticamente pulou da cadeira. — Isso o que está falando é completamente descabível. Estamos aqui para compartilhar as nossas dores e não falar sobre violência.

— Você está brincando comigo? Ou pelo menos está se ouvindo? O que Marley sofre já é uma violência! Todo esse grupo é sobre a violência que nós sofremos no passado e até mesmo no presente! Enquanto Marley está aqui chorando e desabafando, o tio dela está em casa beijando a esposa como se fosse uma boa pessoa e não tivesse entrado no quarto de uma garota para se esfregar nela e gozar depois! — Santana esbravejou.

O som do burburinho vindo das outras pessoas aumentou consideravelmente, e Terri fitou Santana com um misto de tristeza e assombro.

— Eu entendo perfeitamente o que está acontecendo aqui, mas não é assim que vamos acabar com isso. Agir com mais violência ao agredir ou matar é algo que não pode ser feito por nós. Marley é só uma garota.

— E por quem pode ser feito? Pelos policiais? Os policiais que liberaram o babaca que me estuprou mesmo depois de terem recolhido o sêmen dele do meu corpo? E sabe quantos anos eu tinha, Terri? Quinze anos! Quinze malditos anos!

Santana estava com a respiração errática, e Quinn se ergueu, tocando o braço dela em seguida. Sabia que tudo tendia a passar dos limites se aquela discussão continuasse e não queria ter de tirar a amiga novamente da delegacia por ela ter agredido outra coordenadora de um grupo de apoio.

— Vamos embora, tudo bem? — Ela sussurrou, tentando evitar que Santana começasse a chamar Terri dos nomes mais disparatados possíveis em espanhol.

Santana suspirou e normalizou a respiração gradativamente.

— Vocês podem voltar aqui sempre que quiserem. Sempre estaremos de braços abertos. — Terri usou um tom de voz gentil, o que parecia incômodo aos ouvidos de Quinn.

As duas amigas se afastaram do círculo de cadeiras, e Marley as mirou atentamente. Santana não a fitou de volta, mas Quinn virou o rosto, e ambas se encararam por um instante.

Não havia uma emoção sequer nas orbes verdes. Estavam totalmente vazias. Marley sempre acreditou que qualquer sentimento ocultado podia ser visto através dos olhos. Raiva, tristeza, complacência. No entanto, a sua ideologia foi totalmente liquidada quando viu as íris opacas e sem vida. Ela sentiu um arrepio subir, cortando a sua espinha de uma maneira extremamente desconfortável. Tinha percebido que Quinn não falava muito, mas conseguiu sentir que o que quer que houvesse enfrentado no passado, havia arrancado uma parte da essência dela.

...

Quinn suspirou, usando o antebraço para limpar o vapor do espelho. Cansada. Era assim que se sentia. Estava cansada em razão do dia corrido e das reminiscências, que continuavam atormentando-a desde que tinha saído da reunião desastrosa. Era sempre assim. Sempre que Alison, sua psicóloga, indicava um grupo de apoio. Quinn nunca conseguiu permanecer até o fim. Não suportava ouvir os relatos de outras pessoas sem lembrar do dia em que tudo mudou na sua vida, e sabia que Santana também odiava as reuniões, porque se recordava da própria história, por isso criava discussões com as coordenadoras com o intuito de ser expulsa e não precisar mais voltar. Era um modo de não exteriorizar as verdadeiras camadas. Mas Quinn as conhecia. Conhecia bem demais.

Ela abriu o armário em cima da pia, buscando o medicamento que a faria ressonar. Depois de ingeri-lo com a água que saía da torneira, encarou Santana pelo reflexo do espelho, que estava parada na entrada do banheiro com os braços cruzados.

— Dalmane? Isso é só para emergências, Q.

— Isso é uma emergência. — Quinn retrucou, saindo do cômodo ainda com a toalha ao redor do corpo.

— Poderia ter tomado Valium. — Santana a seguiu.

— Ele não consegue me fazer dormir quando isso acontece. — Quinn abriu o armário e pegou um dos pijamas.

— Você discursou por quase trinta minutos quando eu o tomei mês passado e agora faz isso? Os efeitos colaterais são desconfortáveis.

— Me desculpe, tudo bem? — Quinn elevou o tom de voz, finalmente fitando Santana. — Mas eu quero esquecer. Eu preciso esquecer. As vozes. Os rostos. Eles. Eu só preciso esquecer por essa noite, então amanhã tudo ficará bem. — Jogou as roupas sobre a cama.

Santana sabia que Quinn só estava esperando a sua saída para desabar. Ela raramente chorava na sua frente e mantinha sempre uma postura calma, mas isso era apenas uma consequência de estar quebrada. Estar quebrado significa que a dor sempre vai ser mais intensa e duradoura, e a dor de Quinn talvez nunca fosse embora, porque a mente dela não permitia isso, fazendo-a se lembrar de novo e de novo do dia em que foi abusada.

E isso preocupava Santana, porque enquanto tentava lutar contra a sua ferida, tentando fechá-la, Quinn constantemente se afundava nos medicamentos que deveriam ser usados apenas para emergências. Quando a conheceu, ela era apenas uma mulher solitária, mas agora ela se perdia no próprio universo. O universo doloroso da sua cabeça.

Santana assentiu lentamente, incapaz de dizer alguma coisa, porque não era tão boa com palavras, e saiu do quarto em silêncio.

Não demorou mais do que cinco minutos para que pudesse ouvir os falhos soluços abafados, e ainda que soubesse que Quinn não gostaria, ela retornou ao cômodo, deitando ao lado dela e a abraçando com força.

Quinn tentou afastá-la, empurrando-a como pôde, mas seus olhos vermelhos como duas cerejas denunciavam que muitas lágrimas ainda seriam libertadas, então finalmente deixou que fosse abraçada, sentindo o aperto firme e a mão afagando as suas costas.

— Eu estou aqui, Q. Vai ficar tudo bem.

Embora aquela situação não fosse incomum, era a primeira vez que Santana dizia que tudo ficaria bem. No entanto, nem ela mesma tinha certeza disso.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Eu não tenho um dia exato para atualizar essa história. Me deem o feedback, tudo bem? Ele é muito importante para o desenvolvimento de qualquer história. Favoritem também. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron