Vermelho como o Céu [HIATUS]

4 Segundo dia - parte I -


Notas iniciais
Boa leitua e desculpe a demora! Esse capítulo todo foi narrado pela Karin. A música do capítulo é Into Dust, do Mazzy Star. Recomendo que escutem na última sequência.

O medo cega. O medo nos cegou

e o medo nos fará continuar cegos.

(Ensaio sobre a cegueira)

O preto absorve todas as cores

Há muitos tipos de sonhos: há os premonitórios, há os que carregam algum tipo de memória, há os que são apenas recortes abstratos e desconexos e não significam nada ou talvez signifiquem, mas você não consegue entendê-los num primeiro momento. Dentre todos esses tipos de sonhos, eu não sabia o que o meu significava.

Eu não sei se ele é premonitório, não sei se ele é alguma memória que eu gostaria de esquecer, não sei se ele é um recorte abstrato. Tudo o que sei é que eu estou nesse parque de diversões e estou naquele brinquedo que gira e gira sem parar, aquele em que há xícaras gigantes de chá. Xícaras que se equiparariam facilmente a rotatividade de um carrossel ou de uma roda gigante.

Tudo que sei é que não consigo sair da maldita xícara de chá. Tento sair, me levantar, mas não posso. Continuo girando e girando. Esse é um daqueles sonhos em que você deseja acordar desesperadamente, mas não pode. É um daqueles sonhos que você só consegue sair quando sua própria inconsciência decide que já é hora da tortura acabar.

Assim, quando a minha mente decidiu que eu já havia chegado ao meu limite, ela sozinha decidiu me libertar. Abri os olhos no meio da escuridão assustada. Meu coração batia descompassado e minha respiração falhava. Eu tentava entender o que aquilo significava, mas não conseguia atribuir um sentido aquilo. Pelo menos, não num primeiro momento.

Quer dizer, acho que internamente a raiz daquele sonho estava ligada a algo maior. Internamente, eu sabia que estava ligada a uma dor que eu conhecia muito bem. Mas por que me fazer ver isso através de xícaras de chá que rodam sem parar? A mente humana é capaz de criar cenários que eu nunca vou conseguir entender.

Liguei o abajur a contragosto, sabendo que poderia incomodar minha colega de quarto, mas não havia jeito. Precisava sentir que alguma coisa poderia me iluminar no meio daquela escuridão. Precisava sentir que poderia fincar meus pés. Inclinei meu corpo, tentando encontrar equilíbrio.

Só que mesmo com a luz acesa, o mundo todo ainda girava ao meu redor. Não conseguia colocar meus pés para fora da cama. Dava a ordem para o meu cérebro, mas meu corpo não atendia. Eu tinha medo de colocar meus pés no chão. O quão patética eu era? Afinal, esse era só um sonho bobo. Não era um daqueles sonhos assustadores ou coisa do tipo.

Então por que esse incômodo crescendo dentro de mim? Talvez o que tenha me assustado seja o fato de viver presa a algo. Não entendo. Não consigo entender. Senti-me enjoada e novamente me controlei para não vomitar. Será que vai ser sempre assim? Será que eu nunca conseguirei fincar meus pés? Estarei sempre presa a esse passado que me atormenta?

....

Os sentidos humanos com certeza variam de indivíduo para indivíduo disso eu nunca tive dúvida. Mas, às vezes, algumas coisas tão absurdas acontecem que mesmo que você tenha todas as evidências torna-se difícil acreditar no que nos cerca. Assim, naquela manhã, a audição foi o sentido que me apontava um fato um tanto quanto inusitado, mas que eu me recusei a acreditar num primeiro momento.

Meus tímpanos foram cobertos por um som forte e recorrente. Um som que parecia não ter mais fim. “Um uivo” foi tudo o que consegui pensar antes de abrir os olhos. Sim, definitivamente, um uivo. Um uivo num quarto de hotel? Seria esse mais um sonho desconexo? Abri os olhos e para minha surpresa, sou acordada logo de cara com um bufar quente e ameaçador na minha cara. Meu despertador havia ganhado vida e seus dentes pontiagudos e assustadores rosnavam ao pé da minha cama.

Espanto-me imediatamente ao perceber que aquilo não era um sonho. Pelo contrário, era a mais delirante realidade da qual eu participava e não conseguia acreditar. Encolho-me na cama assustada e antes que possa tomar qualquer decisão como tacar o abajur no focinho daquela ameaça, uma voz desagradável inunda o quarto.

— Bom-dia, flor do dia!

— Mas o que é isso? O que você faz a essa hora no meu quarto? — digo, esfregando meus olhos e inclinando meu corpo para cobri-lo com o lençol.

— Nossa! Que mau humor! Pois saiba que nem é tão cedo assim! Já está mais do que na hora de acordar e aproveitar o dia. — A voz dele me causava náuseas.

Ele, o ceguinho colorido. Estava de frente para minha cama, sentando em uma poltrona qualquer do quarto de pernas cruzadas, comendo algo que parecia pão de queijo. Ele era uma enxurrada de cores gritantes. O casaco amarelo, a calça jeans laranja, o cachecol roxo, as luvas verdes e a touca azul com bolinhas brancas davam a ele um ar de maluco saído diretamente de algum sanatório para doentes mentais.

— Quem te deixou entrar aqui? — Irritada, jogo meu travesseiro, fazendo com que seu punhado de pão de queijo vá ao chão.

— Golpe baixo, hein! Você terá que pagar outra porção dessas pra mim! — Apesar de tê-lo atingido, ele não parecia nem um pouco irritado. Pelo contrário, gargalhava até o maldito.

— Are! Are! Are! É assim que você trata o seu namorado? — Sakura escorava-se na porta do banheiro e chamava a minha atenção.

— Foi você! — Trinquei meus dentes revoltada ao perceber que a Haruno era a responsável por aquela presença indesejável no quarto. — Por que o deixou entrar aqui?

— Ué, ele disse que queria te fazer uma surpresa! Disse que gostaria que a primeira coisa que você escutasse pela manhã fosse o som da voz dele. Achei tão romântico! Aproveitei que você dormia feito uma pedra e o deixei entrar — suspirou feito uma retardada.

É claro que eu dormia feito uma pedra, sua retardada! Só consegui dormir de novo lá pelas tantas da madrugada e quando finalmente pego no sono, tenho o desprazer de ser acordada dessa maneira.

— Nem sabia que você tinha namorado! — A retardada completa com ar de espanto.

— Ele não é meu namorado!

— Como não, amor? E todas as juras que fizemos? Você já se esqueceu? — Eu conseguia sentir o sarcasmo fluindo dele e aquilo me irritava cada vez mais.

— Como descobriu em que quarto eu estava? O que quer aqui com essa... Com essa... — Antes que pudesse completar a frase, um espirro me pegou de jeito. — Com essa ameaça? — Apontei para seu companheiro que me mostrava novamente os caninos.

— Temos que rediscutir a nossa relação! E não fale assim do Wolf! Ele tem sentimentos sabia. Vem aqui, amigo, não liga para o que essa malvada diz — chamou o lobo para perto dele que não demorou a atender prontamente seu pedido.

Sim, o lobo! Se antes eu tinha alguma dúvida, agora já não tenho mais.

— Não há relação alguma entre nós! Eu nem te conheço e... — Espirro mais uma vez e de novo e de novo e de novo. Não conseguia mais parar de espirrar.

— Hum... Veja só... Desculpe como é mesmo o seu nome?

— Sakura!

— Pois veja só, Sakura, essa teimosa da minha namorada já está gripada!

Mesmo com olhos marejados por conta do espirro, pude ver a maldita rosada rir com o comentário do infeliz.

— Você não é meu... — Mais um espirro e não consigo falar.

— Eu trouxe um pouco de chá de hortelã com limão pra você! Vai te fazer bem! É claro que depois de ontem estaria gripada! — Ele direciona a mão para o lado, pegando em cima da outra cômoda um desses copos onde servem cappuccino nas cafeterias.

— Bom, vou deixar os pombinhos a sós! Porque de D.R, eu já estou cheia. Já fiz muito isso com meu ex! Foi um prazer te conhecer, Suigetsu. Acho que se não fosse por você, eu e essa daí não trocaríamos nem essas meias palavras. — Sakura encaminhou-se para porta toda saltitante. — Ei... Karin-chan, coloque algum sinal na porta, uma fitinha ou algo assim pra eu saber se posso entrar no quarto! Ah... Têm preservativos na gaveta da minha cômoda! Lembrem-se sempre, crianças, sexo bom é sexo seguro! — Ela apontava e balançava o dedo para nós como quem dá um conselho.

Depois dessa afirmação que me deixou profundamente irritada e com as maçãs do rosto queimando de raiva, ela partiu antes que o travesseiro que eu acabara de jogar nela pudesse acertá-la.

— Satisfeito? Agora essa linguaruda vai sair espalhando coisas que não são verdade para escola inteira!

— Chá de hortelã com limão? — Oferece-me com aquele jeito irritante.

— Não, não quero chá nenhum! Quero que saia do meu quarto!

— Nossa! Você é tão resmungona e ranzinza! Por acaso foi abduzida pelo Dark Side? — indaga, tateando a mão pelo ar até encontrar a cômoda novamente e colocar o copo de chá ali.

— E você é tão animado e colorido! Um arco íris vomitou em você? — devolvo a provocação.

— Discutir com você não é o motivo da minha vinda. Levante-se logo, porque nós vamos fazer um passeio!

— Você bebeu? Depois de ontem, eu nunca mais vou com você a lugar algum!

— Eu não tive culpa do que aconteceu ontem! E além do mais se você não me acompanhar, uma certa Tsunade vai saber que me empurrou e que teve a coragem de deixar esse pobre ceguinho aqui sozinho e jogado ao léu.

— De pobre você não tem nada! Pode ter me enganado antes, mas não me enganará de novo!

— Faça como quiser! Ah, e acho bom comprar tampões de ouvido se não os tiver. Tsunade costuma gritar bastante quando fica irritada. — Começou a se levantar e a tatear o chão com sua bengala, sendo acompanhado por aquela ameaça que não parava de rosnar em minha direção. — Hum... Não sei por que estou dizendo isso. Acho que você sabe muito bem como ela fica. — Já prestes a abrir a porta, ele soltou esse comentário com todo o escárnio do mundo.

— Espera! Espera! Eu... Vou contigo — disse vencida. — Mas só se obedecer a algumas regras básicas.

— Estou ouvindo!

— Primeiro, eu quero distância absoluta dessa coisa que você chama de “amigo”. — Ao som de minha primeira exigência o lobinho começa a rosnar mais ferozmente para mim.

— Wolf, acalme-se! E o que mais?

— Em nenhuma hipótese, haverá contato físico entre nós. Ou seja, nada de toques ou puxões e nada de “deixa eu me apoiar em você”. Também não quero saber de perguntas chatas e desnecessárias como “o que você gosta” “o que você não gosta” Simplificando, você não falará comigo a menos que eu fale com você!

— Mais alguma coisa? — perguntou num tom estranho. Parecia meio desapontado com as minhas exigências.

— Você nunca mais invadirá meu quarto desse jeito de novo!

— Entendido, zangado!

— Zangado?

— É, dos sete anões, lembra?

— Ah... E sem apelidos também! Agora saia! Eu vou tomar banho e me trocar.

— Você sabe que eu sou cego, não é? Então, se eu ficar ou não ficar aqui...

— Cai fora! — Já me preparava para jogar outro travesseiro nele.

Hoje é apenas o segundo dia nesse lugar e eu já quero estrangulá-lo. Como isso é possível? Assim que ele saiu, fui andando em direção ao banheiro entre espirros e mais espirros dei-me por vencida, peguei o chá de hortelã em cima da cômoda e o engoli de uma única vez.

....

— Você não me disse que iríamos junto com... Com todos eles! — Fiquei tremendamente irritada ao notar a presença desagradável dos meus – nem um pouco adorados – colegas de turma.

— Ei! Ei! Suigetsu! Suigetsu! — Já na saída do hotel, notei meu escandaloso primo (distante) chamar pelo ceguinho colorido. — E aí, cara, nem acreditei quando a Baa-chan disse que você estava aqui. — Naruto foi logo o abraçando e dando dois tapinhas de leve em suas costas.

— Naruto, e aí? Há quanto tempo!

— Putz! Não te vejo desde quando meus pais e eu viemos aqui da última vez!

— Pode crer!

Que beleza! Agora para completar essas duas figuras se conhecem. Eu realmente devo ter sido muito ruim na outra vida. Eles foram conversando e rindo o caminho inteirinho. Era impressionante como o ceguinho colorido logo fez amizade com o resto dos meus colegas de turma.

Seu jeito descontraído e alegre os agradou de imediato e pelo resto do caminho até chegarmos ao nosso destino daquele dia, ele foi conversando com todos eles como se fossem amigos de longa data. Quer dizer, pelo menos de um deles, ele parecia ser. Como será que ele e o retardado do Naruto se conheceram? Seja como for, isso não me interessa. Espero que esses dez dias passem voando.

....

A impressão que eu tenho é que no Canadá para se chegar a qualquer lugar, você tem que ir de ônibus. Não é possível! Depois de três exaustivas horas na condução, finalmente chegamos a Lac – Ménagic, uma pequena província ao norte de Montreal. Lá nos encaminhamos para o chalé Marriot Chateau. O lugar não era ruim, pelo contrário, era até muito bonito. De fora, a arquitetura toda revestida em madeira nobre acompanhada por um telhado todo artesanal chamava muita atenção.

Por dentro, assim que entramos, pude notar que o interior do chalé era ainda mais fantástico. Os móveis rústicos remontavam o ar campestre e montanhoso, concedendo ao lugar elegância e simplicidade ao mesmo tempo. O jardim tremendamente espaçoso mostrava-se muito bem cuidado e ainda possuía uma horta nos fundos. O local todo transmitia paz e tranquilidade e eu até gostaria de passar algum tempo ali se estivesse sozinha e não acompanhada por tantas pessoas desagradáveis.

— Meninos! Meninos! — Shizune chama nossa atenção no hall da pequena recepção. — Bom, como bem sabem Tsunade — sama não pode vir conosco, portanto, eu sou a responsável. Só quero dizer que o esquema de quartos continua o mesmo. Os parceiros lá do hotel permanecerão os mesmos aqui! Enfim, passaremos duas noites aqui nesse chalé para entrarmos mais em contato com a natureza e deixarmos toda movimentação de Montreal de lado. Ah, e claro, também para curtirmos o festival que se realizará esta noite. Afinal, esse foi o principal motivo que nos trouxe aqui.

— Festival?! — Atrás de mim, a Haruno grita afobada. — Ai que máximo!

— Eu já vou avisando aos navegantes... Não será permitido nenhum tipo de comportamento leviano! — Shizune frisou a última parte para a empolgada Haruno que continuava saltitando atrás de mim. — Comportem-se! E aproveitem o resto do dia! Às 19:30, sairemos daqui para ver o show de fogos que dá início a abertura das festividades.

Depois de todo o blá, blá, blá, blá, Shizune deu a cada um de nós as chaves de nossos respectivos quartos. Subi para o quarto prontamente disposta a acomodar a pequena bagagem de mão que fiz de última hora e a não sair mais de lá. Eu é que nem morta iria para algum festival idiota.

....

É impressionante como as coisas têm acontecido desde que cheguei nesse maldito lugar. Desde que cheguei aqui não fiz absolutamente nada como gostaria de fazer. Ou seja, permanecer isolada de tudo e de todos. Exatamente às 19:00, o ceguinho colorido batia na minha porta para saber se já estava pronta.

Ele parecia ter ignorado parte das minhas exigências e sob a mira de suas ameaças e desse maldito lobo guia que rosnava para mim a todo o momento não tive escolha a não ser me unir a ele e aos idiotas da minha turma para o Festival das Luzes de Lac-Ménagic. Celebração tipicamente canadense, organizada todos os anos para comemorar a chegada do inverno.

Quando chegamos à rua principal, o lugar todo já estava todo enfeitado e muito movimentado. Eram bandeirinhas de todas as cores por todos os cantos. Confetes, estalinhos, rojões. Enfim, todo o cenário típico de festivais que eu odiava. Havia pessoas por todos os lados e só de estar ali enfurnada no meio daquela aglomeração, eu já podia sentir minha garganta começar a se fechar. Eu simplesmente odiava aglomerações e lugares barulhentos. A ideia de ter um amontoado de pessoas desconhecidas esbarrando em mim a todo o momento me enlouquecia.

— Vamos, Karin e Wolf! Vamos achar um lugar onde possamos ficar próximo aos fogos! — disse super empolgado, querendo que eu o guiasse para perto dos fogos no meio de todas aquelas pessoas.

— Por que você quer ficar próximo aos fogos? Você não pode vê-los. Porque não nos afastamos daqui?!

— Não posso vê-los! Mas posso ouvi-los e além do mais, eu adoro cheiro da pólvora. Seu odor é carregado de adrenalina e eu gosto do modo que as minhas narinas ardem quando os fogos entram em combustão.

— Eu não quero ficar aqui! Vamos para outro lado, por favor!

— Deixa de ser chata! Por que é tão desanimada?

— Por que você não fica sozinho com o seu “cão guia” estúpido? — frisei o “cão” ironicamente só para provocá-lo.

— Shizune teria um ataque! E além do mais, o Wolf se sentirá mais tranquilo com você por perto.

— Você está de brincadeira? Essa coisa me odeia!

— Não odeia, não! É só o jeito dele. Não custa nada, vai! Eu prometo que se fizer isso por mim hoje, eu te deixo em paz amanhã!

Vencida, o guiei para perto dos fogos junto com aquele lobo rosnador de uma figa. Quando os malditos fogos começaram, minhas pernas começaram a tremer junto. A rua aquela hora estava mais cheia do que o normal e a todo o momento mais pessoas esbarravam em mim. Meu corpo começava a responder mal aquilo tudo. A cada estouro, a cada explosão de cores no céu, eu podia sentir meus dedos adormecerem e minhas mãos suarem frio.

Quando o ar me faltou nos pulmões, eu soube que — sem dúvida — eu estava prestes a ter uma crise. De repente, tudo ficou disforme e o mundo parecia não fazer mais sentido. As palpitações vieram em seguida. Desesperada, eu comecei a sair dali rapidamente, abandonado Suigetsu pelo meio do caminho. Eu andava cambaleante e sem rumo, fugindo de todo e qualquer tipo de contato.

— Garota, você está bem? Parece pálida… Quer ajuda? — Um desconhecido qualquer se aproximou, mas quando estava prestes a me tocar, eu espalmei sua mão com o pouco senso reflexivo que possuía aquela altura.

— Deve estar bêbada já. Deixa pra lá!

Ele afastou-se aos poucos acompanhado por alguém enquanto eu tentava — sozinha — me dirigir para algum lugar menos tumultuado.

Still falling

Breathless and on again

Ainda caindo
Sem respiração de novo

O mal estar continuava e eu sentia que a qualquer momento eu não suportaria mais. Já não estava mais em mim. Era como se todo sentido de direção tivesse me abandonado naquele momento. Não sabia onde estava, não sabia de nada. As pessoas agora não passavam de contornos. Contornos e mais contornos sem sentido. E eu me senti como se estivesse na xícara de chá do meu sonho. Girando e girando sem parar.

Eu queria gritar. Eu queria gritar, mas não para pedir ajuda. Eu queria gritar para sair dali. Eu queria gritar como quem deseja sair de um pesadelo. Eu queria que minha mente me libertasse. Eu queria que meu corpo me libertasse daquilo que eu sentia. Só que mais uma vez, eu estava presa aquilo, estava acuada e perdida. Meus pensamentos embaralhavam-se. Cortantes. Cortantes. Cortantes.

Inside today
Beside me today

Dentro hoje

Ao meu lado hoje

“Eu cuidarei de você.”

“Onde ela está?”

“Ela não virá agora. Ficaremos só nós dois por enquanto.”

Uma enxurrada de lembranças começou a invadir minha mente. Eu não podia mais, eu não conseguia mais.

“Ficaremos só nós dois por enquanto.”

“Ficaremos só nós dois por enquanto.”

“Ficaremos só nós dois por enquanto.”

“Eu cuidarei de você.”

Eu tentava me prender a algum resquício de consciência e não pensar naquilo. Eu tentava me prender num pequeno fluxo de consciência, mas era inútil. Aquelas frases ecoavam. Ecoavam. Ecoavam. Ecoavam.

Around broken in two

´Till you eyes shed
Into dust

Um círculo quebrado em dois

Até seus olhos derramarem-se em pó

O medo havia me dominado. Eu estava cega de medo. Eu tremia de medo. Meus olhos pesados, meu corpo cansado. Eu caí. Apesar de tentar escorar em algo, apesar de todos meus esforços para ficar de pé, eu caí. Meus braços não tinham força o suficiente. Minhas pernas não me sustentavam mais.

Like two strangers
Turning into dust
´Till my hand shook with the way I fear

Como dois estranhos

se transformando em pó

Até minha mão tremer com o modo que eu temo

Meus olhos turvavam. Os contornos que antes eu identificava, agora se esvaíam. Era como se uma grande nuvem de poeira negra dominasse tudo. E a cada minuto eu era absorvida por ela. A cada minuto, eu sentia todas as partes do meu corpo adormecerem. Quando já me contorcia no chão, a última coisa que vi foi um borrão não identificado. Depois disso, foi só a escuridão e mais nada. Eu finalmente havia sido absorvida de todo.

I could possibly be fading
I could feel myself growing colder

Eu poderia possivelmente estar enfraquecendo

Eu podia me sentir esfriando

I could feel myself under your fate
Under your fate

Eu podia me sentir debaixo do seu destino

Debaixo do seu destino

I It was you breathless and tall
I could feel my eyes turning into dust
And two strangers turning into dust
Turning into dust

Era você ofegante e alto

Eu podia sentir meus olhos se transformando em pó

E dois estranhos se transformando em pó

se transformando em pó

Notas finais
Esse capítulo foi meio delirante! Quer dizer, eu tentei fazê-lo ficar delirante, afinal, era o ponto de vista de alguém passando mal e tal. Não sei se fui bem sucedida, mas tentei. O próximo será mais bonitinho. Eu prometo! Até. (: