Vermelho como o Céu [HIATUS]
1 Prólogo
Notas iniciais
Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
(Ensaio sobre a Cegueira)
O branco é a junção de todas as cores
Debaixo da neve que cobre toda a estrada, nós adentramos o túnel. Já faz mais de 3 horas que estamos no ônibus. E tudo o que eu consigo pensar é: por que fui obrigada a vir nessa viagem? Não gosto de viagens de ônibus! São sempre longas e cansativas. Na verdade, não gosto de viagens de modo geral, ainda mais de uma em que fomos obrigados a fazer várias conexões de avião e em que temos que fazer o resto do percurso de ônibus.
Não sei o que minha tia pensou quando me propôs (lê-se obrigou) a vir numa viagem dessas. Passo a palma da mão pela janela para limpar o ar condensado sobre o vidro e me deparo com o óbvio: a escuridão. Não há como enxergar nada dentro do túnel, as fracas luzes que o iluminam também não conseguem me fornecer a dimensão do que virá a seguir. Sinto-me profundamente incomodada com esse fato.
Fecho meus olhos um segundo, esperando que o momento da travessia finalmente termine. De repente, como num rompante, mesmo sem abrir os olhos novamente, sei que a travessia terminou, porque aquele eco característico de quando se deixa um túnel se fez presente. Assim que abro meus olhos, vejo a neve sobre o asfalto. Ela cai serena e fina, mas é persistente. Não deu uma trégua sequer desde que iniciamos a trajetória.
Agora sem a escuridão do túnel, observo que o outro lado dele reservava uma vegetação de pinheirinhos cobertos de neve. A forma como a neve espalha-se pelas folhas com certeza é magnífica e digna de uma foto de cartão postal. A vegetação dessa parte do Canadá realmente é incrível.
— Ai, que lindo! Vamos tirar umas fotos! — ouço alguém gritar do meio do ônibus. Fico sempre tão distraída que às vezes me esqueço de que há outras pessoas ao meu redor. — Tira logo! Antes que passe dos pinheirinhos. — Yamanaka Ino, minha colega de turma, insiste para que Lee tire a foto o mais depressa o possível.
— O vidro está todo embaçado e nem dá pra ver direito a paisagem lá de fora! — Lee fala, apontando para o vidro fechado.
— Ai, mais o que tem demais? A gente tenta ficar de lado para você pegar a paisagem também! — Ino empurra as pequenas cortinas para o lado e espremesse no canto, envolvendo as mãos no pescoço de sua fiel amiga Haruno Sakura.
— Vamos tirar uma de todos juntos! — Sakura, a menina dos cabelos estranhamente róseos, sugere, chamando a atenção de todos no ônibus.
— Que seja, Sakura! Se tirarmos essa foto, você nos deixará em paz?
— Ah, Sasuke, não seja chato! Não tiramos nenhuma dentro do ônibus. — A rosada irrita-se com o sempre mal humorado Uchiha. — Ei... Shizune–sama, tire uma foto nossa, por favor! — Ela ergue a câmera na direção de Shizune, a secretária da diretora, que estava sentada logo mais a frente.
— Eu tiro! Eu tiro! — assentiu a mais velha.
— Naruto, Hinata, Temari, Shikamaru, Tenten, Chouji, Neji! Gaara, Matsuri, Tay! Vem, galera!
Ela chama cada um dos amigos para que se posicionem de uma maneira em que todos possam aparecer.
Do último banco, consigo ver como se apertam para sair em mais uma foto que, provavelmente, será postada no instagram ou no facebook no mesmo instante para mostrar como eles são felizes.
— Karin, vem anda!
Animada, a Haruno me chama com as mãos rapidamente para que eu possa participar desse momento. Nesse instante, sinto que o olhar de todos volta-se para mim e até Tsunade, a diretora, que dormitava no banco da frente vira-se direcionando o olhar em minha direção.
— Vem, Karin! Anda! — insistente, ela repete o pedido.
Eu ainda a olho por alguns segundos, ajeito o capuz do meu casaco na cabeça para me encobrir e simplesmente redireciono o meu olhar novamente para a janela.
Shizune percebe a minha rejeição e não demora logo a tirar a foto para não irritar o resto do grupo que – a não ser pela Yamanaka – já estava cansado com a mania da Haruno de registrar cada momento. E, assim, saem na foto todos os meus colegas de turma, exceto eu. Eles embrenham-se pelo corredor, alguns se ajoelham nos bancos, outros se agacham para todos caberem na preciosa e feliz foto. Mais uma em que me recusei a sair.
Mesmo ainda com meu olhar voltado para a janela, sei que nesse momento Shizune e Tsunade confabulam a meu respeito. Sei que nesse momento falam a mesma coisa que me falaram durante todo o ensino médio: “você não dá uma brecha.” É o que Tsunade não se cansou de repetir durante esses dois longos anos. Sinceramente, não entendo porque a preocupação. Não participei ou me inteirei em nada nessa escola que não fosse estritamente necessário, como provas, trabalhos e etc. Por que faria isso em pleno 3º ano? Por que faria isso justamente no último ano?
Se embarquei nessa de “férias” ou “viagem pré-formatura”, foi porque minha tia Konan me obrigou. Jamais estaria aqui de livre e espontânea vontade. Não faço questão de ter ou manter qualquer tipo de contato com meus colegas de classe que não envolva alguma atividade acadêmica obrigatória. E durante todo esse tempo isso ficou bem claro, inclusive para eles que desistiram de tentar qualquer tipo de aproximação comigo.
Mesmo sabendo que nesse momento todos os meus colegas de classe reclamam da minha falta de interesse, meu olhar continua fixo no vidro embaçado que limpo com as costas da mão esquerda de cinco em cinco minutos. O ônibus continua a travessia a todo vapor, ouço o barulho do atrito dos pneus sobre o asfalto que aliado à neve sobre a estrada causa um efeito um tanto preocupante em mim. Minha sensação era de que a qualquer momento poderíamos derrapar.
Mesmo amedrontada com tal possibilidade que me passa pela cabeça, sinto- me exausta e de repente meus olhos começam a semicerrar contra minha vontade. Mas antes de cair completamente no sono, algo chama a minha atenção. Por entre os pinheirinhos cobertos de neve, vejo um lobo. Seu pêlo branco e cinza sobressalta-se para a minha retina de modo que não consigo mais tirar os olhos dele. Os pneus continuam a girar e o lobo continua a correr, livre, leve e solto. Ele corre de tal maneira desesperada e desenfreada e por um momento chego a acreditar que seu desejo é perseguir nosso ônibus. O sono finalmente me vence, mas a última imagem que passa pelas minhas córneas é a imagem do lobo correndo. Ela transpassa o meu cérebro e termina como um grande borrão disforme, branco e persistente tal qual a neve.
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