Vermelho como o Céu [HIATUS]
2 Primeiro dia - parte I -
Notas iniciais
A cegueira não se pega só por olhar um cego alguém que não o é.
A cegueira é uma questão privada entre a pessoa
e os olhos com quem nasceu.
(Ensaio sobre a Cegueira)
O cinza é o equilíbrio entre o preto e o branco
Acordo, mas não abro os olhos de imediato. Se estivesse em casa, nesse exato momento, a luz que transpassa a janela do meu quarto traria consigo os costumeiros raios de sol que sempre batem nos meus olhos fechados pela manhã. Mas como a vida não é feita de “se”, hoje não há sol e eu não estou em casa.
Por meio da minha cama localizada perto da janela, sei que mais um dia começou porque escuto os sons que vem de fora. Minha audição aguçada capta os ruídos vindos da área de lazer do grande hotel. Certamente, a essa hora crianças impacientes já despertaram seus pais para aproveitarem o dia no playground. Sorrio ao pensar nisso. Levanto-me em seguida e abro os meus olhos, constatando o irremediável.
Mesmo que já não estejam mais fechados, é como se eu nunca os tivesse aberto. Aproximo-me abrindo as janelas e sinto a brisa fria percorrer meus olhos. Arrepio-me com tal sensação, apesar de preferir os raios de sol que invadiriam minhas pálpebras se eu estivesse em minha cidade natal. Aceito o fato de não poder desfrutar plenamente da luz que não vejo, mas que sinto cada vez que abro a janela do meu quarto. Aceito a brisa nova e congelante que invade minhas retinas nessa manhã sem sol. Aceito a doença com a qual nasci e que irremediavelmente permanecerá comigo pelo resto dos meus dias.
Ainda perto da janela, ouço o barulho de patas sobre o piso. Ele está próximo. Sensorialmente, sinto que ele se coloca ao meu lado e como de costume imediatamente passo minha mão sobre sua cabeça, confirmando sua localização. Não há dúvidas na relação que construímos, não há dúvidas de que ele sempre estará ao meu lado. Acaricio-o mais uma vez como se tentasse absorver sua cor. Quando criança, o encontrei em um de meus passeios e o levei para casa ainda filhote.
Assim que cheguei em casa, minha mãe me disse que ele era branco e cinza. Lembro-me de ter ficado extremamente feliz, porque das cores que já conhecia o cinza era a única da qual eu não tinha noção. O branco, eu conseguia sensorialmente conhecer ao tocar e ao cheirar a neve, mas o cinza – até então para mim – era desconhecido. Desde desse dia, toda vez que penso em cinza, eu automaticamente lembro-me do meu lobo-guia. O meu amigo fiel que tem estado comigo desde os oito anos de idade. Apesar do que todos dizem, cinza – para mim – nunca significará só um dia nublado. Cinza, para mim, é e sempre será o meu ponto de equilíbrio. E eu agradeço a Wolf por me mostrar o que essa cor significa através de seu cheiro e através da textura de seu pelo.
Ele ainda permanece ao meu lado estático e compenetrado seu arfar ofegante me faz deduzir que neste momento ele deve estar com o focinho semiaberto, esperando meu próximo movimento. Encaminho-me em direção ao banheiro, tateando minha mão pela parede uma vez que ainda não conheço direito o quarto em que estou hospedado.
— Não, não é necessário, Wolf! Fique onde está! — tranquilizo-o, passando a mão por entre suas orelhas para evitar qualquer tipo de intervenção.
Antes de conseguir entrar no banheiro, no entanto, o meu celular toca e viro-me ainda tateando a parede até esbarrar na cômoda ao lado da cama para atendê-lo. Passo os dedos de leve sobre o visor até que minha mão acerte o ponto chave.
— Alô! Ah... é você! — digo, assim que identifico a pessoa do outro lado da linha. — Tudo bem! Sim, eu posso! Faz o seguinte, me encontre no restaurante do hotel daqui a uma hora. Ok. Até! — desligo um pouco surpreso com tal ligação e me encaminho novamente em direção ao banheiro para realizar minha higiene matinal.
....
Os filetes de água quente escorrem pelo meu corpo. Entedio-me ao lembrar que durante dez dias terei que conviver com o resto do mundo num período de férias que deveria ser só meu e que deveria ser dedicado para eu me desligar de tudo e de todos. Se estivesse em casa, a essa hora estaria no meu quarto a escutar alguma música ou vendo algum filme antigo em preto branco. Mas já que não há o que fazer, me conformo com a situação. Retiro-me do boxe e me enrolo na toalha.
Direciono meu olhar para o espelho do armário. Passo o dorso da mão direita sobre ele, retirando o embaçado causado pelo vapor d' água quente. Meus olhos encontram-se com a minha própria imagem e de súbito tenho raiva do que vejo. Meus cabelos vermelhos desgrenhados espalham-se por minhas costas, grudando nelas.
É estranho admitir que o atrito do meu cabelo sobre as minhas costas e ombros me causa repulsa, mas é inegável dizer que é exatamente isso o que sinto quando qualquer coisa gruda-se ou toca por muito tempo em minha pele. Sinto nojo de mim mesma, sinto nojo do meu próprio corpo e de repente uma ânsia de vomito me sobe à boca do estômago. Controlo-me para não vomitar e chamar atenção da minha colega de quarto. Seria indesejável ter alguém perguntando como me sinto e se preciso de ajuda.
— E aí? Como foi a noite? — Do outro lado da porta, escuto uma voz conhecida.
— Normal, Hina!
— Nossa! Por que essa cara, Sakura?
— Ah... É que... — Aproximo-me novamente do boxe e ligo o chuveiro para que as duas não pensem que posso ouvi-las. — Eu tentei puxar assunto com a senhorita “entro muda e saio calada”, mas é inútil. Ela passou todo o tempo me ignorando! — A voz de Sakura afirma desgostosa.
— Também... Você fala o tempo todo! Quem é que aguenta? Eu estou no quarto da Ino já pedindo socorro. — Hinata solta uma discreta gargalhada pelo comentário.
— Ah... Muito engraçado! — Sakura diz sem humor.
— Mas acho que a Tsunade-sama colocou vocês duas no mesmo quarto por isso! Sabe... Você é sempre tão falante. Talvez consiga estabelecer algum tipo de contato.
— Então por que não a Ino? Ela também é super falante! Por que logo eu? — ouço a Haruno praticamente murmurar para que eu não escute.
— Porque a Ino não é tão paciente!
Escutar toda aquela conversa me causou um desconforto tremendo. Enxugo-me e me visto rapidamente para sair dali. Não preciso que alguém se sinta na obrigação de “estabelecer algum tipo de contato” comigo. Coloco minha calça jeans, minhas botas, luvas e um casaco grande e afofado o suficiente para me proteger da provável temperatura quase abaixo de zero que deve imperar lá fora. Saio do banheiro ainda colocando minha toca preta e assim que as duas percebem minha presença, um silêncio toma conta de todo o quarto. Ao observá-las, percebo que ambas sentem-se acuadas como se tivessem sido pegas em flagrante.
Ignoro o costumeiro e – a meu ver – desnecessário cumprimento de bom-dia e sigo em frente em direção à cômoda ao lado da minha cama para pegar minha carteira. As duas agora engatam qualquer conversa banal. Assim que abro a porta para sair dali, deparo-me com uma Shizune que paralisara a mão no ar.
— Ohayou! Já ia mesmo bater na porta. — Ela abre um desses sorrisos gentis e antes que eu possa convidá-la, ela já vai entrando pela porta afora.
— Ohayou! — Sakura e Hinata respondem animadas.
— Bom, meninas, o guia já está lá embaixo para mostrar o hotel e todo o resto. — Ela parece dizer aquilo especificamente para as duas a sua frente.
— Ok. Nós já estávamos descendo mesmo! Vamos! — A Haruno vira-se para mim como se quisesse minha companhia.
— Por que vocês duas não vão na frente? A Karin encontra com vocês depois — Shizune sugere, fazendo com que minhas colegas de turma finalmente entendam o que ela queria desde o início.
— Vamos, Sah! — A Hyuuga imediatamente puxa a amiga pelas mãos e ambas saem do quarto deixando-nos a sós.
— O que você quer? — Sou direta e me sento na cama, já preparando meu espírito para mais um sermão do tipo “você precisa se enturmar”.
— Quero que me acompanhe num delicioso café da manhã no restaurante do hotel! — Ela toca em meu ombro, fazendo com que eu me afaste imediatamente de seu contato. — Vamos anda!
A insistência com que me pede para acompanhá-la é um tanto quanto estranha e suspeita. De cara, soube que dali coisa boa não iria sair.
....
— Ora mais vejam só! Lá estão! — Assim que chegamos ao restaurante, Shizune acena para uma loira peituda que, infelizmente, eu conheço muito bem.
Internamente, pergunto-me se aquilo é algum tipo de emboscada já pela manhã.
Aproximo-me com a fiel escudeira da diretora em meu enlace enquanto observo Tsunade abrir seu costumeiro sorriso para nós. Quando puxo a cadeira para me sentar, algo faz com que eu fique estática. Num canto da mesa, um cachorro – que não sei como não notei antes – rosna em minha direção impedindo que eu me sente.
— Wolf! Não! Comporte-se! — Viro-me para ver a voz que vem detrás de mim e deparo-me com um homem alto, de cabelos esbranquiçados, de óculos escuros arredondados e com vestimentas extremamente coloridas. — Desculpe por isso! Saí para pegar alguns pãezinhos de queijo no bufê e veja o que acontece.
Ele sorri e logo percebo que a julgar pela bengala em sua mão, o estranho que se dirige a mim é cego.
— Suigetsu, deixe-me ajudá-lo! — Shizune oferece-se.
— Não, não é necessário — diz, já tateando a mão sobre a cadeira na qual eu ia me sentar e acomodando-se logo em seguida.
Olho mais uma vez para o estranho cachorro – que agora já não tenho tanta certeza se é mesmo um cachorro – e entendo que ele estava apenas “guardando o lugar” para o seu dono.
— Bom, e aí como estamos? — Tsunade me interroga de primeira com a pergunta mais idiota de todas.
O “como estamos?” e ou “oi, tudo bem?” são os símbolos máximos de gente que não tem o que dizer ou de quem quer alguma coisa.
— O que quer? — Sento-me de frente para o estranho colorido e novamente sou direta. Não tenho tempo a perder com tolices.
— Karin, seja educada e cumprimente meu amigo! — Ela reprova o meu comportamento, arqueando a sobrancelha e trincando os dentes.
— O que quer? — repito só para enfezá-la.
—Tsunade-sama! — Shizune arregala os olhos prevendo encrenca.
A diretora simplesmente odiava ser contrariada, mesmo que fosse nas coisas mais banais e corriqueiras.
— Por hora, eu quero tomar café da manhã com os filhos dos meus amigos tão queridos e quero aproveitar ao máximo essas férias maravilhosas.
— Tia Konan não é minha mãe!
— Mas te trata e cuida de você como se fosse, menina ingrata!
—Tsunade-sama... — A voz de Shizune parecia ainda mais trêmula.
— Bolinho? — O homem colorido direciona uma cestinha na minha direção e imediatamente eu me espanto com a precisão com que ele identificou a minha localização.
— Não, obrigada! — Viro-me novamente para Tsunade esperando por sua resposta.
— Bom, você quer que eu seja direta? Eu serei direta! — Ela sorri cinicamente. — Esse aqui é Hozuki Suigetsu como eu já disse ele é filho de amigos muito queridos e assim como nós, ele está de férias de seu colégio.
— E o que eu tenho a ver com isso?
— Croissant? — Ele estende novamente outra cestinha em minha direção.
— Não! — Afasto sua mão indelicadamente.
— Nada, num primeiro momento — Tsunade me responde sem humor, bebendo um gole de seu café.
— Como assim num primeiro momento?
— O negócio é o seguinte, garota! — Ela bufa e sinto que está prestes a me enforcar. — Quebec é uma província muito agitada e o Wolf – o cão guia do Suigetsu – não está acostumado com essa movimentação toda, com muita gente e etc. Minha amiga, a mãe dele, não quer que ele fique sozinho perambulando por aí...
— Pode esquecer! — digo, antes que ela possa concluir. — Onde estava com a cabeça quando pensou em mim?
— Karin... — A loira tenta me dissuadir de qualquer jeito, mas não permito que ela continue.
— Por que não contratam alguém ou coisa do tipo?
— Karin...
— Eu não vou fazer isso!
— Eu esperava contar com a sua disposição e boa vontade! — Irritada, ela bate na mesa e quase faz com que a pequena bandeja com queijo vá ao chão, mas Suigetsu a pega prontamente impedindo sua queda.
— Queijo? — Oferece-me, me deixando intrigada mais uma vez com sua percepção.
— Por que eu? — Volto a encarar Tsunade. — Olha só... Sem ofensa! Nada contra você, Suigetsu, mas eu não tenho paciência pra esse tipo de coisa, sabe. — Redireciono minha atenção para o pobre coitado, tentando fazê-lo entender que não é nada pessoal. — Sei que pessoas como você precisam de um cuidado todo especial, mas eu não posso fornecê-lo!
— Eu te escolhi, porque você é mais concentrada e responsável do que seus colegas. E como sempre está sozinha e pelo jeito passaria a maior parte do tempo trancada no quarto do hotel, achei que não se incomodaria ou perderia grandes coisas dessa viagem já que a princípio nem gostaria de estar aqui — expressou–se Tsunade, insistindo em seu propósito.
— Não me importa o que acha! Não vou fazer isso!
— Poxa! Então eu acho que não poderei aproveitar minha viagem. — O cego colorido faz uma voz triste que me deixa muito constrangida e sem graça.
— Eu... eu...eu... sinto muito, mas eu não...
— Eu estava tão animado. — O seu tom de desapontamento é visível e me provoca um nó na garganta.
Nesse momento, Shizune me olha como se eu fosse a pior pessoa do mundo e esboça uma expressão de lábios trêmulos e olhos cheios d’água.
— Por que vocês não contrataram alguém? Por que a senhora ou a Shizune não o acompanham durante esse tempo?
— Tenho negócios a tratar por aqui e é imprescindível que Shizune esteja ao meu lado para me ajudar! Diferente de vocês, eu não vim aqui apenas para me divertir.
— Acabou de dizer que quer ter férias maravilhosas e agora diz que tem negócios a tratar?! — exalto-me com a cara de pau de Tsunade.
— Sim, mas não vim só por isso!
— Olha... Há os criados do hotel!Tenho certeza de que...
— Minha mãe não gosta muito que eu conviva com estranhos — interrompeu, com a voz lamuriosa. — Digamos que tivemos uma experiência ruim e... Bom, tia Tsunade disse que tinha alguém de inteira confiança que poderia me acompanhar durante esse tempo. Mas tudo bem... Eu entendo! Ninguém quer passar tanto tempo guiando um inútil.
Se não estivesse de óculos escuros, diria que nesse momento ele está fazendo a mesma cara do gato de botas do Shrek com aqueles olhinhos pidões.
— Eu... eu...eu posso te acompanhar, mas só hoje e nenhum dia a mais — disse, por fim vencida.
Afinal, posso ignorar os idiotas da minha turma, mas não posso negar ajuda a alguém que tem necessidades especiais.
— Tudo bem! Ótimo! Há um lugar que quero ir desde que cheguei. Me encontre no saguão do hotel daqui a meia hora. Vou lá em cima pegar algumas coisas! — O tom de voz do ceguinho colorido passou de melodramático para entusiasmado. — Wolf, vamos! — Ele dá duas batidinhas com a bengala no chão e seu cão guia – que sem dúvida parece um lobo – levanta-se na mesma hora o seguindo.
Irrito-me no mesmo instante ao perceber que a ceninha anterior talvez não passasse de puro fingimento.
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