Vermelho como o Céu [HIATUS]
3 Primeiro dia - parte II-
Notas iniciais
Para alguns, a cegueira não é viver banalmente rodeado de trevas,
mas sim, no interior de uma glória luminosa.
(Ensaio sobre a Cegueira)
Qual é a cor do dia?
Eu já esperava por ela há mais de meia hora sentado na poltrona do saguão do hotel. Ela demorava de propósito. Tenho que confessar que essa coisa toda pelo visto será divertida. A garota tem gênio forte e é decidida. Durante a espera tudo o que eu conseguia pensar era em como seria a minha mais nova acompanhante. Seria ela morena de cabelos negros lisos e longos ou quem sabe curtos repicados? Ou seria loira de cabelos encaracolados? E os olhos? De que cor serão? Serão azuis, amendoados, pretos? E o rosto? Será afilado, redondo, oval? O nariz será grande ou pequeno?
Tudo o que eu sabia a seu respeito até agora era que seu nome é Uzumaki Karin, que é órfã, que mora com a tia em Konoha, um pequeno vilarejo do Japão, e que estuda em Konoha Boarding School, colégio no qual tia Tsunade é diretora. Enfim, informações um tanto quanto interessantes, mas não tão interessantes como as perguntas anteriores que me vem à cabeça como um turbilhão.
Algumas pessoas com certeza me considerariam louco. Afinal, do que vale este tipo de informação a um cego de nascença? As pessoas sensatas e até as não tão sensatas diriam que isso seria uma grande perda de tempo. Bob Marley, por exemplo, afirmava que explicar o que sentia era quase a mesma coisa que explicar as cores a um cego, ou seja, algo inútil e impossível.
No entanto, sou obrigado a discordar e afirmo com toda a certeza que Bob Marley e todos os outros estão errados. Eles não tiveram a oportunidade de conhecer o sistema de blocos de composição, subestimando, assim, a capacidade dos seres humanos de reinventarem-se diante das adversidades da vida. Eles ignoram o fato de que a percepção do mundo não acontece apenas por meio da visão. A compreensão do mundo se dá de várias formas, se todos percebessem isso, o mundo seria um lugar bem melhor e a minha vida seria muito mais fácil, porque eu não teria que a todo o momento explicar a algum engraçadinho que, definitivamente, eu não sou um inútil.
— Que horas são, por favor? — Ao ouvir o som de passos ao meu lado, indago a qualquer estranho.
— São 10:30! — No mesmo instante em que a pessoa me responde, percebo que se trata dela.
A voz era tudo o que eu podia apreender dela naquele momento. E pelo tom que empregava, eu conseguia prever a irritabilidade fluindo dela. Mesmo assim, tenho que admitir seu timbre não era agudo ou rouco demais. Seu timbre de voz parecia trafegar entre o agudo e o grave. Estava na medida certa.
— Pensei que não viria mais!
— Eu disse que o acompanharia hoje e vou acompanhá-lo.
— Pois muito bem! Então vamos!
— Que seja!
— Isso não era bem o que eu esperava ouvir, não está curiosa para saber aonde vamos? — Ela não me responde e escuto suas pernas já começarem a caminhar apressadamente a minha frente. — Com licença! Acho que você não entendeu muito bem como isso funciona! — digo alto para que ela possa me ouvir. — Você deve me fornecer seu braço e me guiar pela cidade.
— Olha... Eu posso andar ao seu lado, mas não acho necessário você passar o dia todo enganchado no meu braço.
— Mas eu acho! Pessoas como eu precisam de todo auxílio. — Percebo que estamos próximos pelo som de sua voz e aproveito para pendurar-me em seu braço, frisando o tratamento que a mesma havia me conferido no restaurante.
Hoje, eu mostraria a essa garota mimada do que pessoas como eu são capazes.
....
Estamos em Bassim Bonsecours, um dos rinques de patinação no gelo mais populares de Montreal (Quebec, Canadá) ao ar livre, formado naturalmente por um lago congelado. Com minha bengala e ainda enlaçando o braço de minha acompanhante silenciosa, dou pequenas batidas no chão até achar a bancada, onde poderei me sentar e retirar da mochila que levo nas costas os meus patins.
— Pronto chegamos! — Sento-me já me preparando para fazer uma das coisas que considero mais prazerosas na vida.
Minha acompanhante continua calada e a cada minuto que passa seu silêncio me irrita cada vez mais.
— Há na estação patins que você pode alugar! — explico-lhe assim que percebo seu corpo sentar-se ao meu lado.
Espero para ver se me dirá algo finalmente já que veio todo o trajeto do táxi até aqui muda, porém, não obtenho resposta alguma. Na verdade, sua resposta para mim é o silêncio e nada mais que o silêncio.
— Ok. Podemos fazer isso do jeito fácil ou do jeito difícil! Que tal começarmos do começo. — Sou propositalmente redundante para tentar chamar sua atenção. — Olá! Eu me chamo Hozuki Suigetsu, nasci no Japão, mas me mudei para Vancouver com meus pais ainda recém-nascido, então, sempre morei aqui. Estou aqui em Montreal de férias e o que posso dizer... Gosto daqui, mas Vancouver não faz tão frio. Na verdade, é uma das cidades mais quentes do Canadá, então, não estou muito acostumado a essas manhãs sem sol que acontecem direto por aqui. Hum... Deixa ver o que mais...Bom, tenho 17 anos, estou no último ano do colegial e estudo em Canadian International School, um internato só para rapazes. Gosto de filmes antigos, chocolate quente e estabelecer um diálogo amigável sempre que possível com as pessoas ao meu redor. Por isso, sempre estou aberto a novas amizades. E você o que gosta de fazer? Quais são seus hobbies? Filmes favoritos?
Depois dessa apresentação e interrogatório, espero que ela se anime e compartilhe alguma coisa comigo, mas não adianta. Ela permanece calada. Sinceramente, começo a acreditar que, enquanto eu me esforço para ser amigável, ela ri de mim pelas costas. Aproveitando-se do fato de que eu não posso vê-la para fazer isso sem pudor algum.
— Por que você não aluga os patins?! Preciso que me acompanhe na pista. — Sorrio de canto ao perceber que ela se ergueu para fazer o que eu sugeri.
Se for esse tipo de tratamento que me dará até o final do dia, eu com certeza não deixarei isso barato. Essa patricinha de uma figa aprenderá hoje uma importante lição sobre respeito, cordialidade e aprenderá a nunca subestimar uma pessoa somente guiada pelas aparências.
Ela senta-se novamente ao meu lado e provavelmente começa a colocar os patins.
— Já terminou? — pergunto com toda educação.
— Sim!
— Então vamos! — Levanto-me e a puxo pelo braço com força.
Não posso vê-la, mas sei que se espanta com o fato de que eu consiga encontrá-la com tanta facilidade pelo modo como claramente se desequilibra com o meu toque.
Entramos finalmente na pista de patinação de gelo e eu percebo logo que minha acompanhante emudecida desequilibra-se a todo o momento. Uma ideia me passa pela cabeça, mas preciso confirmá-la primeiro. Eu – propositalmente e aos poucos – começo a soltá-la no meio do rinque de patinação. Enquanto a deixo a própria mercê, deslizo tranquilamente pelo gelo, fazendo algumas manobras e só tomando o cuidado de alertar as pessoas ao meu redor – uma vez ou outra – sobre minha condição para não correr o risco de trombar com alguém.
Coisa que é praticamente impossível, uma vez que estou sempre atento ao baque que os patins alheios causam sobre o gelo. Deslizo e patino tranquilamente de um lado para o outro até que...
— Ei... Como é que se para essa coisa?! — ouço uma voz a poucos metros de mim e pelo som do atrito dos patins da pobre alma sobre o gelo, percebo que ela se dirige mais ou menos na minha direção.
Antes que a pobre alma espatife-se no gelo, eu deslizo o meu corpo para esquerda com toda a calma do mundo e me guiando pelo som de seus patins a seguro.
— Precisa de ajuda? — pergunto sarcástico.
— Não! Eu só estava me aquecendo! — A pobre alma responde cheia de si. Não posso dizer que fiquei surpreso quando percebi que se tratava nada mais e nada menos do que minha acompanhante muda.
Ela solta-se de mim com brutalidade como se tivesse raiva do meu contato e pelos sons de seus patins, percebo que desastrosamente segue em frente.
— Por que não admite logo que não sabe patinar no gelo? — digo por fim vitorioso. — Eu posso te ensinar se quiser! Não é difícil de aprender. Admita logo antes que caia e acabe se machucando. O que direi a tia Tsunade se te entregar de volta toda arrebentada?
— Eu não preciso de ajuda! — Sua voz irritadiça deixa claro que ela está furiosa comigo. Sorrio ao pensar que pelo menos algum efeito causei nela e que por meio de provocações consegui fazê-la falar. — Eu mesma posso aprender sozinha! Isso é só uma questão de prática... Se você consegue, eu também posso conseguir. — Sua frase final soa para mim como uma afronta.
Quem essa garota está achando que é? Como ela ousa me subestimar e menosprezar minhas habilidades dessa maneira?
Contudo, antes que eu possa responder a altura, o gelo sob nossos pés começa a chamar minha atenção. O modo como a desastrada garota bate os patins desegonçadamente sobre o gelo não é bom sinal. Quer dizer... Não seria se o gelo não parecesse estranhamente irregular na parte em que sensorialmente percebo que ela está.
— Ei! Volte para cá anda! — manifesto logo minha preocupação, diminuindo a intensidade do meu patinar.
— Por quê? Eu comecei a pegar o jeito!
— Eu disse para voltar! — Sou mais ríspido dessa vez, porque escuto o gelo começar a rachar na direção em que ela está.
— Eu não sou obrigada a fazer tudo o que você... — Antes que ela complete a frase, uma rachadura precipita-se no ponto em que está. — O queeee é issooo? — Sua voz trêmula denuncia-lhe o medo.
— Eu disse para voltar, não disse?! Fique parada aí e não se mexa! — ordeno, tentando manter a calma.
— Eu vou... Eu vou cair!
— Acalme-se e fique parada! Tente não se mexer ou será pior!
Aproximo-me mais só que a essa altura a espessura do gelo é fina demais para suportar o peso de nós dois. Sei que a qualquer momento a camada de gelo ruirá sob nossos pés, antes que o pior aconteça, deslizo rápido o suficiente até ela para tirá-la dali, mas é tarde demais. Assim que fico a alguns passos dela, escuto o baque de seu corpo sobre a água antes que eu possa alcançá-la.
— Socorro! Socorro! Socorro! — Entre um grito abafado e outro sei que ela está submergindo na água congelante.
Sem pensar muito nas consequências me aproximo da camada fina do gelo, curvando o meu corpo e percorrendo minha mão sobre a cratera em que ela caiu na tentativa de achá-la. Puxo-a com toda força pelos ombros e logo em seguida envolvo minha mão em sua cintura. A rachadura aproxima-se do ponto em que estou, mas antes que me alcance de todo, levanto-me junto com ela e sou rápido o suficiente para arrastar minha acompanhante dali até uma parte que pareça mais segura e firme.
Aos poucos, outras pessoas que viram o que houve, mas não tiveram coragem de nos ajudar na hora aproximam-se e agora nos ajudam a ir para fora do rinque de patinação.
— Você está bem? — Já sentados na bancada, pergunto preocupado cheio de frio e com os lábios trêmulos, colocando minha mão em seu ombro, uma vez que percebo como sua respiração está ofegante.
— Se estou bem? — Ela afasta-se de mim enraivecida e me devolve a pergunta de maneira irônica. Pelo estalar do clique que acabo de ouvir, sei que está tirando os patins naquele momento e levanta-se exasperada.
— Espera! Não saia assim! Acabou de cair num lago congelado. Espera um minuto... — Livro-me também dos meus patins e logo calço os meus coturnos localizados próximos a minha mochila na bancada.
Ela segue a passos duros e rapidamente pego minha bengala para tatear o caminho e segui-la.
— Por que está com raiva de mim? Eu disse para voltar! O seu problema desde o começo foi subestimar a minha capacidade. — Prossigo tentando acompanhá-la.
— Arhg! Você é... Você é tão... — Ela não completa a frase. Está tão irritada que nem sequer consegue achar uma palavra para me xingar. — Arhg! — Mais uma vez solta um urro para expressar sua frustração.
— Isso te irrita? Te irrita saber que um inútil, um cego salvou a sua vida? Te irrita saber que uma pessoa como eu é capaz de patinar, de viver normalmente como qualquer outra pessoa? Está surpresa com o fato de eu não ser inferior a você? — Finalmente consigo alcançá-la e puxo-a pelo capuz de seu casaco com brutalidade, virando-a para mim e agarrando-a em seguida pelos ombros.
A respiração dela parece falhar um segundo e quase sinto nesse arfar um certo temor.
— Não encosta em mim! — Ela se debate, mas não consegue se soltar, porque eu a trago mais para junto de mim.
— Estou farto de pessoas como você! — digo com desdém, sacolejando-a pelos ombros. — Estou farto de pessoas preconceituosas e mesquinhas como você!
— Eu disse para não encostar em mim! — Depois de tanto se debater, ela consegue se soltar e me empurra com força fazendo com que eu caia sobre o asfalto coberto de neve.
Ao longe, escuto seus passos. Ela deixa-me para trás sem se importar nem um pouco. Sem dúvida, essa criatura é mais teimosa do que eu imaginei, mas não descansarei até fazê-la me tratar em pé de igualdade.
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