Vermelho Sangue
19 A Verdade.
Notas iniciais
CAPÍTULO 19 – A Verdade.
Loki fez o máximo de esforço para não acordar o marido enquanto se desvencilhava de seus braços na cama. Foi até o banheiro tomar um banho, pelo ao menos para tentar disfarçar sua total indisposição. Ficou a noite inteira entre a insônia e alguns minutos de cochilo, geralmente seguidos de pesadelos... Sentia o estômago queimar de preocupação.
Desde o dia que casou-se com Thor, Loki arrumou alguns inimigos poderosos. Lady Sif, seu próprio pai, e até mesmo Odin... Por mais que seu sogro tentasse disfarçar, Loki via claramente o quanto Odin não confiava plenamente nele e o quanto gostaria que Sif fosse a próxima rainha. A única que parecia ter algum tipo de amor por ele era Frigga e por isso Loki era infinitamente agradecido.
Loki deslizou na parede do banheiro, sentindo sua garganta queimar de tanto prender as lágrimas. Respirou fundo, sentindo a água percorrer seu corpo. E chorou silenciosamente, entre pequenos soluços, recitando preces internamente para que Thor não o encontrasse daquela maneira.
∞
Loki caminhou pelos corredores de Asgard. O vento farfalhava seu manto branco enquanto ele dava passos decididos. Uma criada o cumprimentou com uma reverência sutil e um “bom dia, vossa alteza”, e Loki notou que era a mesma que ele havia curado a uns dias atrás.
– Você! — Loki pegou-a gentilmente pela mão, sorrindo. – Já lhe falei para me tratar pelo nome.
– Perdão, vossa Al... Loki. – a criada sorriu, sem jeito.
– Ai, que idiota que eu sou! Nem sei seu nome! – Loki deu uma leve batidinha na testa.
– É Ran*, senhor. – a criada hesitou antes de responder. Ninguém a havia perguntado antes e isso a fez ficar imóvel por um momento.
– Ran. Belo nome. – ele sorriu. – Ran, escuta, você pode me ajudar com algo?
A criada sequer hesitou.
– Eu sou eternamente agradecida... Loki. – ela corou levemente ao tratar o jotun pelo nome. – Não há nada que eu não faria.
Loki deu um meio sorriso, agradecido.
– Você sabe onde ficam os aposentos da Lady Sif? Eu gostaria imensamente de falar com ela.
A criada pensou um pouco e falou.
– Na verdade, é no corredor paralelo ao quarto de vosso marido. O último quarto.
Loki apertou gentilmente as mãos da empregada. Deu um beijo gentil na testa dela.
– Eu não tenho como te agradecer, Ran.
– Não precisa, Loki. – ela sorriu.
Loki sorriu em agradecimento e caminhou rapidamente até o corredor do quarto de Sif. Fechou os olhos, respirando profundamente antes de bater na porta.
– Pode entrar. – a voz da guerreira soou tranquila.
Loki abriu a porta silenciosamente. Ela limpava sua espada.
– Você? O que você faz aqui? – ela falava coma voz cheia de ódio.
– Lady Sif... Eu queria conversar com você...
– Conversar o que? O que possivelmente me faria querer falar com você? – ela sentou-se numa cadeira, prendendo a respiração, com o rosto vermelho de raiva.
Loki sentou-se de frente a ela.
– Sif, eu não sei o que possivelmente eu fiz para te causar tanto ódio, mas...
– Você não sabe? – Ela levantou-se da cadeira, indo até a janela do quarto, ficando de costas a Loki. – Você pode enganar a todos com esse comportamento falso, mas não a mim. Você espera que eu acredite que você “se apaixonou” pelo Thor? Sendo um jotun, filho de Laufey? – ela deu um riso irônico.
– Sim, eu espero. – Loki levantou-se. – Eu larguei meu pai, meu reino e meu povo para casar-me com ele. Eu o amo.
Sif deu outro riso pelo nariz. Quando ela ficou de frente para Loki, ele notou que os olhos da bela guerreira estavam cheios de lágrimas contidas.
– Você não sabe nada sobre amar alguém. Como poderia? – ela falava, e sua voz saia presa por lágrimas. Ela tentava manter o jeito rígido na frente de Loki.
– Você tem razão. – Loki, por fim, falou. Ele pôde notar uma expressão de surpresa no rosto dela. – Eu não sei nada sobre amor. Nunca havia recebido nada parecido antes. – ele olhou para o chão, dando um sorriso para disfarçar as lágrimas que queriam sair de seus olhos. – eu fui aprender com o Thor. E eu sei que você o merecia bem mais do que eu. Você viveu séculos com ele. Sabe do que ele gosta, o que o faz rir, o que o faz feliz. E eu sinto muito. – Loki tentou tocar em seu ombro.
Num movimento rápido, ela tirou uma pequena adaga escondida na bota e empurrou Loki para a cadeira mais próxima, encostando a lâmina fria no pescoço do jotun.
– Eu deveria ser a rainha! – ela dizia com fúria, as lágrimas caiam livres de seus olhos vermelhos. – Eu o amei mais do que você jamais amará! Me dê um motivo para eu não deslizar essa lâmina e acabar com tudo isso agora!
– Eu não tenho nenhum. – Loki falou. As lágrimas dele caiam enquanto ele falava seriamente, olhando nos olhos de Sif. – Você tem razão. Se isso te fizer sentir melhor, faça. – ele gentilmente segurou as mãos de Sif enquanto ela pressionava a adaga. Um filete de sangue escorreu do pescoço de Loki.
Ela bufou de angústia, afastando-se de Loki, dando as costas a ele e deixando a adaga cair no chão, tilintando, dando um susto em Loki, enquanto ele tremia de choque e adrenalina.
– Saia daqui. – ela enxugava as lágrimas, falando com voz baixa.
– Sif, me.. – Loki tentou falar, mas ela o interrompeu.
– Saia daqui antes que eu mude de ideia. – ela continuava com a mesma voz baixa.
Loki não tentou argumentar. Saiu silenciosamente do quarto, enxugando as lágrimas.
∞
Quando Loki chegou ao quarto, Thor havia saído para resolver umas coisas com seu pai. Loki teve uma sensação de alívio e culpou-se por isso. Quer dizer... Eles haviam acabado de casar e Loki queria ficar sozinho? O jotun se sentia horrível.
Pediu para que a Ran preparasse um banho para ele. A criada assim o fez, deu-lhe um leve aceno de cabeça e preparou-se para sair. Loki a segurou pelo braço.
– Ran, você é a única amiga que eu tenho por aqui. Você, por favor, poderia ficar por perto?
A pequena criada deu um meio sorriso angustiado. Apertou as mãos de Loki com carinho enquanto respondia.
– Claro, Loki.
Loki tirou o roupão, sem pudor da sua nova amiga. Entrou na banheira e Ran sentou-se num banco perto, pegando ervas e óleos para o banho.
– Obrigado, Ran.
O jotun ficou quieto enquanto a criada/amiga passava óleos nos seus cabelos e os penteava cuidadosamente.
– Senhor, se me permite dizer...
– É Loki, Ran. Loki. E você tem total liberdade de falar qualquer coisa.
– Loki... Eu realmente admiro você. – a criada falou rápido, corando imediatamente após dizê-lo. – Você é sábio e humilde e se importa com os outros. Durante todos os séculos que sirvo aqui, ninguém se importou em sequer perguntar meu nome. – a voz doce da criada tremeu um pouco, mas ela respirou fundo e continuou. – E por isso agradeço. E lhe digo que você tem todas as qualidades necessárias para ser um ótimo governante.
Loki sorria, enxugando as lágrimas de felicidade.
– Eu que agradeço, Ran. Ninguém tinha falado nada parecido de mim.
Ran deu um meio sorriso. Continuou a pentear os cabelos do novo amigo, com um carinho que ela jamais sentira por qualquer autoridade de lá.
(*) N.A.: Ran é a deusa nórdica dos mares. Muitíssima poderosa, ela pode causar tempestades e destruir embarcações. Por isso, costuma levar grande quantidade de almas ao Vahalla.
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