Verdade Nua e Crua
6 Trégua
Notas iniciais
Estava olhando meu reflexo no espelho a mais ou menos 20 minutos. Uma regada preta com detalhes, uma saia longa também preta e uma camisa jeans com as pontas amarradas na altura de minha cintura. Essas era as roupas que eu iria trabalhar hoje. Sempre optei pelo básico confortável, porém Tobias varreu todo o meu guarda-roupa antigo e instalou roupas que modelam meu corpo e me deixam, segundo ele, “sexy sem ser vulgar”. Normalmente, ser sexy estava em último na lista de coisas que devo dar importância ao vestir algo. E ainda tinha outra coisa. Meu cabelo. Tobias deixou bem claro que era para eu sempre deixar ele solto, mas eu não estou nem um pouco acostumada com ele assim. Sempre uso, ou usava agora nem sei mais, um coque ou um simples rabo de cavalo.
– Vamos lá, Tris. Em nome do amor. — Falo para mim mesma. — Ou em nome de não querer um Tobias gritando.
Tobias. Porque tudo gira em torno dele agora? Ah é! É porque você teve a brilhante ideia de aceitar a ajuda dele. Muito bem, Tris! Genial.
Olho para o relógio em meu pulso, que Tobias também comprou, e vejo que estou atrasa. Puta merda, eu tenho retardo. Eu nunca me atraso. Tris Prior não se atrasa. Saio de meus devaneios e atravesso o estacionamento correndo. Dou partida no carro e vou costurando as ruas o mais rápido possível até que meu telefone toca. Ta foda hoje, hein.
– Já to chegando, inferno! — Digo, supondo, é claro, que seja Christina.
– Bom dia para você também, raio de sol. — Susan fala rindo.
– Susan, não tem como ligar depois – Pergunto e ela ignora.
– Liguei para avisar que tem reunião de condomínio.
– Que horas? — Pergunto e estaciono o carro em frente ao prédio. Atravesso o saguão e entro no elevador.
– Às 19:30. Aquela síndica vai ouvir hoje. Nojo daquela mulher! Ela pensa que é quem? Esposa do príncipe Harry?! — Enquanto Susan insulta a síndica, ela BERRA e todos no elevador me encaram.
– Ah, Susan, tenho que desligar. Nos vemos hoje na reunião. — Digo.
– Assim espero. — Ela fala e desliga.
Entro na sala de reuniões de supetão e todos param de falar e voltam seus olhares para mim, sérios. Menos Tobias. Tobias está sorrindo. Porque Tobias tem que sorrir? Porque eu tenho que sorrir quando Tobias sorri? Porque Tobias tem que ser tão... Tobias?!
– Atrasada, Prior. — Max fala.
– Pega leve com ela. — Tobias sussurra para Max, mas consigo ouvir. Eles estão tão amiguinhos que me da vontade de vomitar. Max abre um sorrisinho para Tobias. — Deve ter demorado para ficar tão bonita assim. Não é todo o dia que ela consegue um homem. — Tobias termina e eles dão risinho.
– Cala a boca, Eaton. — Falo com uma tosse, para “disfarçar”.
– Como eu estava falando, Tobias está nos deixando nas nuvens com sua audiência. Podemos muito bem continuar assim. — Max puxa o saco de Tobias e blá blá blá. — Tris, como produtora de Tobias, vocês dois devem estar trabalhando juntos, em alguma coisa diferente para o próximo programa.
– Temos algumas ideias. — Falo trocando meu olhar entre Max e Tobias.
– Ótimo. O assunto Verdade Nua e Crua está encerrado. Vamos tratar de outras coisas. Tobias, Beatrice. — Max fala olhando para nós. — Dispensados.
Pego minhas coisas e Tobias e Tobias passa seu braço por meus ombros e saímos da sala. Percebo seu olhar percorrendo meu corpo e tenho vontade de sorrir, mas não o faço. Vou deixar ele pensar que não percebi. Estamos chegando em minha sala quando ele para, e paro junto com ele. Ele fica de frente para mim, coloca seus dois braços, um cem cada lado de meus ombros e me encara.
– Um momento. — Ele fala.
– Um momento para o que? — Questiono sem entender.
– Para eu ter minha reação. — Ele responde ainda me encarando.
– Reação em relação a que? — Questiono mais uma vez.
– Você. — Ele fala.
– Eu o que?! — Falo já exasperada com tanto mistério.
– Puta merda, Tris! Você tá linda pra caralho! Minha vontade é ficar te apreciando pelo resto dos meus dias até eu não conseguir mais me controlar e cometer um crime sexuas. — Ele diz com um certo brilho nos olhos.
– Ahnn... obrigada...? Eu acho. — Falo sem saber exatamente o que falar.
– De nada. — Ele fala simplesmente e volta ao normal. Recoloca seu braço por meus ombros e continuamos andando em direção a minha sala.
Me sento e começo a arrumar uns papeis da semana passada. Olho para o relógio e vejo que faltam 15 minutos para o horário do almoço.
– Quer almoçar comigo? — Tobias fala, revelando seus poderes de telepatia, anteriormente não descobertos.
– Combinei de almoçar com a Chris. — Falo e ele reflete.
– Assunto particular? — Ele pergunta;
– Não... — Respondo não compreendendo onde ele quer chegar.
– Ótimo. Almoço a três.- Ele conclui.
– Alguém disse almoço? — Chris adentra a sala e se senta ao lado de Tobias. — Porque eu estou morrendo de fome.
– Tobias quer almoçar com a gente. — Falo para Chris.
– Uh. Tudo bem. Não vejo porque não. — Ela fala e olho para ela lançando-lhe meu melhor olhar do tipo “como é que é? repete.” — O que foi, Tris? — Ela fala arregalando os olhos fingindo inôcencia.
– Nada. Tudo ótimo! — Termino de arrumar minhas coisas e olho para os dois. — Vamos?
– Vamos. — Os dois falam.
* * *
– Porra! Nunca achei que haveria um restaurante melhor que o Applebee's. — Christina exclama comendo seu lanche.
– Eu disse. — Fala Tobias convencido.
– Eu avisei! — Eu digo rindo.
– Cara, eu já volto. Vou no banheiro pegar papel para enrolar essa comida e levar para a casa. — Christina fala séria e eu e Tobias rimos alto, vendo Chris ir correndo ao banheiro.
– Ela é legal. — Fala Tobias. — Uma boa amiga.
– Eu sei. — Falo pensando em como tenho sorte de conhecer Christina. Ficamos num silêncio até eu me manifestar. — Trégua?
– Como? — Tobias pergunta visivelmente não entendo.
– Trégua. Entre nós dois. — Ele parece entender. — Tipo... quase amigos? — Pergunto. Ele pensa sobre o assunto.
– Trégua, sim. Amigos? Não posso prometer isso. Não posso me responsabilizar por meus atos. — Ele fala me encarando. Ficamos nessa troca de olhares até Chris chegar e nos interromper.
– Alguém tem um bolso sobrando? — Ela pergunta. — Os meus não cabem mais. — Ela fala frustada.
– Eu tenho, mas...- Tobias começa a falar mas é interrompido, pois Chris se atira e começa a socar comida em seu bolso.
– Ahhhh, vamos lá! Taca-lhe pau, taca-lhe pau! — Ela fala tentando enfiar mais comida. — Pronto!
– Obrigada pela preferência. — Tobias fala incrédulo e Christina sorri.
– Você está parecendo a Susan. — Digo rindo a Chris.
– Ahhhhh, que saudades de Susan! — Ela fala. — Já falou dela para Tobias?
– Sim. — Respondo.
– Já contou as histórias? — Chris fala com os olhos brilhando de excitação.
– Ela contou apenas a do supermercado. — Tobias diz sorrindo.
– Beatrice Prior! Você não contou aquela história?! — Chris fala rindo.
– Christina! — A repreendo. — Calada!
– Não acredito que você odeie tanto ele a ponto de não dá-lo a felicidade de ouvir essa história! Vamos lá, Tris! Conte!
– É, Tris! Conte! — Tobias pede sorrindo.
– O que eu falar aqui , permanece aqui. — Eu advirto.
– Tudo bem. — Os dois falam em uníssono.
FLASHBACK ON
13 anos. Eu tinha 13 anos. Dois anos após minha mão te me deixado. Eu comia para afogar minhas magoas. Sim, eu era gordinha. Para completar o círculo da desgraça, consegui contrair uma hemorroida. Susan e eu estávamos atravessando o saguão do hospital até pararmos na recepção. Susan olhou para mim, indicando para que eu começasse a falar.
– Moça, eu estou com uma inflamação, um pequena protuberância.
– Protuberância aonde, senhora? — A recepcionista pergunta.
– No caso é na... — Eu iria falar porém sou interrompida.
– HEMORROIDA, MOÇA! — Susan grita de uma vez só.
– Susan! — Repreendo-a.
– Beatrice! — Ela fala impaciente para mim e se vira para a recepcionista. — Eu até queria ver se tem sistema de lavagem aqui. É que assim ó, seguinte, essa garota o que ela come da para encher um contêiner. Ela tá quatro dias sem cagar, ou seja, quatro contêiner. Não sei mais o que fazer, moça!
– Sei. — A moça responde com um tom estranho.
– Não sei se faço uma lavagem ou o que. Você não tem um sistema de check out geral aí não? — Ela pergunta descaradamente.
– Check up, Susan! — Corrigo-a.
– MESMA MERDA, BEATRICE!- Ela fala alto de novo. — O importante é fazer essa lavagem. — Ela se vira para a recepcionista e ergue o saquinho. — Onde eu entrego as fezes dela?
– Mas ela não estava a quatro dias sem ir ao banheiro? — A moça questiona.
– Ela já cagou, minha filha. Cagou, e cagou fazendo estrago.
– O laboratório é por ali. — A moça aponta.
Andamos em direção a porta que ela havia indicado e Susan me entrega o saquinho. Ela me deixa a beira do balcão e procura um lugar para sentar, mas percebe que todos estão ocupados. Ela para em frente a um homem que está lendo um jornal e o encara. Ele olha para ela e Susan o puxa pela mão.
– Vambora, meu filho. Anda. — Ele se levanta assustado. — Obrigada pela gentileza.
Me viro para o balcão e vejo que está na minha vez.
– Oi, eu vim entregar meus exames. — Falo o mais baixo possível, já que se trata de um assunto extremamente constrangedor.
– A SENHORA COLETOU AS FEZES HOJE? — O homem grita.
– Coletei! Mas dá para falar baixo? — Falo irritada, elevando um pouco a minha voz.
– Que isso, dona! Aqui todo mundo faz cocô! — O homem exclama, mas agora abaixando só um pouquinho o tom de voz.
– NÃO INTERESSA! — Grito e o homem se sobressalta. — Para todos os efeitos eu não! Fala mais alto para ver se eu não coleto essa tua língua fora!
– Entrega essa merda logo, Beatrice! — Susan grita e eu jogo o saquinho no homem.
FLASHBACK OFF
– Socorro! — Tobias está se dobrando de rir da minha desgraça. E chorando também. Mas de rir.
– Eu disse, eu disse! — Chris tenta falar no meio da gargalhada.
– Ai ai. — Eu falo já com a barriga doendo de tanto rir. Hoje em dia eu rio dessa situação, mas na época eu tinha vontade era de chorar. E dessa vez, não era de rir.
– Você é incrível! — Tobias fala para mim.
– HMMMMMMMMMMM... — Chris fala malíciosa.
* * *
Entro correndo no corredor e abro a porta da sala de reuniões. Acho Peter na última fileira de cadeiras não se importando muito com o que estava acontecendo. Ele sorri ao me ver e retribuo o sorriso com o maior prazer. Me sento ao seu lado e começo a prestar atenção na reunião. Como sempre, Susan e a síndica estavam batendo boca.
– Ah mas que absurdo! — A síndica retruca.
– Absurdo é você inventar essa obra e tentar encubar essa taxa extra na gente! — Susan rebate.
– Mas nós precisamos terminar a obra da garagem! — A síndica fala já num tom de voz não tão civilizado.
– Exatamente, minha filha! Precisa terminar essa obra! Três meses furando aquela garagem! Você quer chegar aonde? No núcleo da Terra? Tá macumunada com Bin Laden, é? — Susan fala e todos que estavam presentes riem, se destacando entre eles o Seu Maranhão. Parece que aquele homem tá sempre o suado! Toma um banho de sal grosso!
– HAHAHAHAHAHA ESSA É BOA. — Seu Maranhão ri estrondosamente, ridiculamente também. Susan se vira para ele com olhar mortal. — O BIN LADEN JÁ MORREU. HAHAHAHAHAHA.
– Ta achando o que engraçado, Seu Maranhão? Acho muito engraçado esse seu interesse pela obra da garagem! É para que? Só se for para botar um canil, para colocar você e seus cachorros juntos. — Susan fala exaltada.
– Eu nem sabia que o Seu Maranhão tinha cachorro! — A síndica fala.
– Três! Um pitbull, ele e o filho nojentinho dele. — Susan fala.
– Ai gente que confusão! Ta me dando uma dor de cabeça. — Fala uma garota com voz arrastada.
– Dor de cabeça a gente fica com aquele seu incenso forte! Não tem como diminuir a frequência, não hein? Porque você macumbeira não é! Macumbeira é essa aqui e eu vou falar com ela já já. — Susan aponta para uma mulher toda vestida a moda hippie. — Esse teu olho vermelho te entrega, ô garota. — Susan se levanta e grita. — PALHAÇADA! ACABOU, VÃO TODO MUNDO EMBORA, SAI. VAZA!
As pessoas começam a se levantar e eu e Peter continuamos sentados no mesmo lugar, só observando.
– Olha aí, maconheira agressiva. — Susan fala quando a garota do incenso da um encontrão com ela. — Olha o outro, suado! Vai tomar um banho, ô palhaço! — Ela comenta enquanto Seu Maranhão passa por ela. — Sai daqui, ô colorida. E escuta aqui, tu para com esse tambor todo dia ás 15 horas da tarde hein! Se não tu e essa tua pomba gira vão tá tudo no mesmo plano! — Susan adverte a macumbeira hippie. Agora só sobrou eu, Peter e Susan. — Beatrice, tu não demora hein. Daqui a pouco vão fechar essa merda. Tô subindo, TCHAU.
Peter olha para mim com um sorriso risonho.
– Pronta para amanhã? — Ele pergunta.
Puta. Que. Pariu. Eu esqueci completamente do encontro amanhã. Eu preciso do Tobias urgentemente. Mas enquanto isso, tenho que fingir que nada aconteceu.
– Claro. — Minto. — Nunca estive tão pronta.
Agora é só Jesus na causa. Ou Tobias.
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