Verdade Nua e Crua
7 Incidentes
Notas iniciais
– Eu simplesmente esqueci! — Digo ao Tobias que está de pé, de braços cruzados, em minha frente.
– Como você pode ter esquecido? Esse não era o grande encontro?! — Ele argumenta.
– EU NÃO SEI, TÁ! Eu esqueci. Por favor Tobias, me ajude! — Peço.
Ele para e pensa a respeito. Quando ele chega a uma conclusão, descruza os braços e suspira.
– Tudo bem, tudo bem. Mas não temos mais tempo de ensaiar. Vamos ter que usar escutas. Você apenas repete o que eu falo. Vemos isso depois mais detalhadamente. Você sabe o que vestir?
Como eu posso ter esquecido de tanta coisa? Eu nem tive uma semana tão agitada, a única coisa de diferente na minha rotina foi sair com Tobias.
– Ahhhh... — Comecei, já prevendo que Tobias iria me repreender. — Não. — Completo, falando o mais baixo possível.
– Beatrice! Você não vive sem mim, isso eu já sabia mas agora você está dependente. Se viciou em mim, foi? — Ele começou um pouco intrigado e um tanto irritado mas nessa última frase ele já estava esboçando um sorriso.
– Tobias, por favor, não inventa! — Respondo a ele, bufando.
– Ta, tá. Eu te ajudo. — Ele da uma pausa e pensa. — O encontro será num estádio de futebol americano. Nada de vestidos. Uma calça, uma camiseta e aquelas botas, enfim, o básico. — Ele fala como se fosse a coisa mais fácil do mundo. — É tão fácil, como você não consegue escolher um mísera roupa?
– Se eu tivesse que escolher, você com certeza reprovaria. — Argumento.
– Realmente. Você arrumaria um jeito de transformar as roupas que eu te comprei em alguma coisa do tipo “vamos ao culto”.
– Cala a boca, Eaton. — Falo rindo. — Eu não sou uma crente!
– Nem perto disso! — Tobias responde com seu famoso sorriso malicioso.
* * *
– Puta merda, Tobias, ele já está tocando na campainha. — Falo nervosa a Tobias.
– Relaxa, gata. Está tudo certo. Eu já estou aqui e comprei um acento seis fileiras atrás de vocês. – Ele responde do outro lado da linha.
– Ok, você consegue ouvir tudo certo? — Pergunto pela quinta vez.
– BEATRICE! Eu já disse que sim, pare de ser neurótica e vá atender a porta.
– Ok, esquentadinho. — Falo, tirando uma com a cara dele.
– Vá se foder, Beatrice.– Ele fala e vou rindo até a porta.
Respira. Inspira. Não pira. Está tudo planejado. Ta na mente. Tudo certo. É só o Peter. É só um encontro. Não pise na bola, Beatrice. Não “cague na cama”. Respiro novamente e, finalmente, atendo a porta.
– Pronta? — Peter sorri mostrando seus dentes alinhados.
– Você nem imagina como. — Respondo nervosa.
O caminho até o estádio foi trocando conversas de nossos interesses e contando piadinhas, já que Tobias disse que com um bom humor você já tem pontos garantidos. Já no estádio, nos dirigimos para nossos acentos e avisto Tobias. Ele levanta as sobrancelhas como quem diz “tudo certo” e eu assinto. No mesmo momento, sinto que a escuta está ligada.
Eu e Peter nos sentamos e ele avisa que vai pegar um cachorro quente e uma cerveja. Fico observando as pessoas a minha volta e vejo que o time já entrou em campo. O jogo já iria começar e nada do Peter voltar. Cacetada, será que eu fiz alguma coisa de errado? A culpa é de Tobias, fiz tudo que ele disse que era para eu fazer.
– E o boymagia, onde se meteu?– Tobias pergunta.
– Vá se foder, Tobias. Ele foi pegar comida para nós e nunca mais voltou.
– Para demorar tanto tempo assim ele foi pegar comida na caralholandia.
– Eu não disse que era pra você ir se foder, não? — Eu respondo irritada.
– Estou só esperando você dizer com quem.– Ele responde com deboche.
– Eu vou arrancar suas orelhas e grampeá-las no seu pescoço, Eaton. — Eu ameaço e vejo que ele ficou quieto.
– Estava falando com quem, Tris? — Peter se senta ao meu lado com dois cachorros quentes e uma garrafa de cerveja.
Caralho, ele deve achar que eu sou uma louca que fugiu do manicômio por estar falando “sozinha”.
– Estava batendo altos papos com o cara aqui do lado. — Respondo a primeira coisa que vem a minha cabeça.
Peter desloca a cabeça para o lado para poder ter uma visão do cara que, eu nunca vi, está ao meu lado. Ele arqueia as sobrancelhas e troca seus olhares entre mim e o cara. Me viro e vejo que um gordão todo suado está sorrindo como um verdadeiro retardado. Me viro novamente para Peter e faço sinal para ele esquecer.
– Porque demorou tanto? — Pergunto a ele.
– A fila estava imensa, e tinha uma aglomeração de pessoas querendo falar com um apresentador, um tal de Tobias Eaton. Conhece?
– Tobias Eaton... Aquele que também é conhecido por escroto sem alma? — Falo ironicamente. Talvez não tão ironicamente.
– Eu ainda estou aqui, gata. Eu estou ouvindo tudo. I'm everywhere, bitch.– Tobias fala no meu ouvido.
– Bitch é a sua mãe, seu merda! — Respondo irritada.
– Tris? — Peter fala sem entender.
– Ah, não era pra você. — Burra ao quadrado, essa sou eu prazer. Penso rápido uma resposta. — Era para aquele jogador que derrubou o cara do nosso time! SEU VIADO!
Peter ri e fica me observando sorrindo. Porque eu tenho que ser tão bizarra? PORQUE EU DEUS?!
– Pegue o cachorro quente, Tris.– Obedeço e pego o cachorro quente e levo ele para perto da minha boca, ameaçando dar uma mordida. Cara, eu estou morrendo de fome, mas óbviamente Tobias não me deixa ter nem um mísero prazer e me interrompe. - Morda o cachorro quente devagar, como se estivesse mordendo outra coisa, se é que me entende.
– MAS QUE PORRA. — Falo com nojo, e atiro, involuntariamente, o cachorro quente para o lado do gordão e a cerveja para o lado de Peter. Vejo a reação dos dois se passarem em câmera lenta em frente aos meus olhos. Vejo o sorriso do gordão crescendo até não couber mais na sua cara flácida e engolir o cachorro quente inteiro só com uma mordida. Faço uma careta de nojo. Viro para o meu outro lado e vejo Peter arregalando os olhos. Puta, a cerveja caiu em sua calça.
– Ai me desculpe, deixa que eu limpo isso aí. — Falo pegando um guardanapo e chego perto do sujo, já que estava tão nervosa quando sai de casa que não peguei meus óculos. Começo a esfregar freneticamente o guardanapo na calça que meu cabelo cai para o lado. Chego mais perto para ver bem onde está o sujo. Está logo abaixo do zíper da calça. Começo a esfregar novamente e depois de algum tempo a mancha já não existe mais. Sorri vitoriosa e vejo que todos, e quando digo todos são todos mesmo, até os jogadores da quadra estão me encarando sorrindo com malícia. Mas o que?
– Ahhhh, Tris. O telão.– Tobias fala segurando o riso, por algum motivo que eu ainda não sei qual. Mas quando eu olho o telão já entendo. O telão reprisava repetidamente a cena que eu estava limpando a calça de Peter com uma moldura rosa choque com corações. Vendo deste ângulo, não parecia que eu estava limpando a calça. Parecia que eu estava pagando um belo de um boquete em público. Fico sem reação. Peter ri sem motivo. E olho para ele com os olhos arregalados dizendo “foi sem querer”.
– Aprende rápido essa Tris. — Tobias fala debochado e consigo sentir seu sorriso malicioso. E dessa vez, pelo menos dessa vez, eu não dou o vacilo de responder.
O resto do jogo ocorreu normal, depois do incidente nem um pouco previsto. Eu e Peter estávamos indo em direção as nossas respectivas casas e pedi a Tobias para ir junto, mas obviamente sem Peter saber, para caso houvesse outro imprevisto e não estivesse preparada. Olho de relance para trás e vejo Tobias tropeçando em alguma pedra e sussurrando palavrões que eu nem sabia que existiam e se escondendo atrás de um arbusto. Reprimo uma risada e vejo que chegamos no batente de minha porta.
– Use a famosa desculpa de “esticar a coluna” para dar uma empinadinha nos peitos, para chamar a atenção dele – Tobias fala, e assim faço.
No exato momento que faço isso ele dirigi descaradamente o olhar para meus seios. Depois de notar que não disfarçou e da um sorriso tímido e começa a mexer no cabelo. AI QUE COISA LINDA, SENHOR.
– Ahhhh, quando nos vemos de novo, Tris? — Ele pergunta me olhando ainda sorrindo.
Eu coloco minhas mão em frente ao seus olhos, tapando-os e ele abre mais o sorriso.
– Agora. — Falo tirando minhas mãos. Ele me lança um olhar de cachorrinho que caiu da mudança. — Eu to brincando! — Falo sorrindo. — Quando você quiser.
– Ótimo, porque eu quero te ver muito mais vezes. — OWWWWWWWN AI MEU DEUS. No exato momento só consigo sorrir e sorrir e sorrir e sorrir e sorrir para sempre. — Mas, infelizmente, eu estou muito cansado. Eu tenho que ir dormir, Tris. Me diverti como nunca hoje.
– Ótimo, mas acho que não devo voltar muito cedo em um jogo, se não irei ser chamada de “a louca do boquete”. — Eu falo e ele ri.
– Qualquer lugar está ótimo, se você estiver lá. — Ele fala e coloca uma mecha atrás de minha orelha. Ai. Meu. Deus. Isso foi o meu laudo. Ele fica me examinando com doçura e eu devolvo o olhar. Ficamos assim por um tempo até ele sair desse transe e suspirar. — Tris, eu tenho que ir, se não eu vou acabar dormindo aqui mesmo.
– Tudo bem. Boa noite! — Falo a ele.
– Boa noite! Até! — Ele fala já entrando em sua casa.
Olho para Tobias e vejo que ele está sorrindo. Não um sorriso de orgulho, de convencimento e muito menos de malícia. É um sorriso que eu nunca vi ele usar. Um sorriso verdadeiro. Um sorriso de amigo. Sorrio para ele e sussurro um muito obrigada e ele assente sorrindo. Eu entro em casa e vejo que ele continua me observando. Não consigo formular um pensamento pois levo o cagaço do ano.
– BOFE NOVO, É BEATRICE. — Susan está bem sentada no sofá. Ela sorri ao ver o meu estado. Estou com a mão no coração, agarrada a parede e o cu que não passa uma agulha. Desculpe a expressão.
– Susan! Você quer me matar? — Digo a ela.
– Se você quase infartou quando me viu imagine quando ver ele. — Ela fala sorrindo.
– Ele quem? — Falo sem entender. No mesmo momento ele adentra a sala.
– Sentiu saudades, maninha? — Caleb fala, abrindo os braços para que eu o abrace.
– AI MEU DEUS! CALEB, SEU IDIOTA, VOCÊ NÃO PODE APARECER ASSIM. — Grito o abraçando com toda a minha força. Sinto sua risada sendo abafada pelo meu ombro.
– Você quer que eu volte? — Ele pergunta sorrindo.
– NÃO. Ah Caleb, você não sabe o quanto eu senti sua falta. — Falo com lágrimas ameaçando cair.
– Eu também senti tanto a sua falta, pequena. — Ele fala com doçura. Meu coração começou a bater rápido com a emoção de rever meu irmão. Acho que meu corpo já havia previsto que eu teria um infarte quando visse Caleb e me poupou de não ter um com a presença de Susan.
– Não vá embora nunca mais, por favor. — Peço a ele.
– Mesmo que eu quisesse, Tris, eu não conseguiria. Eu te amo demais para isso. — Ele fala e eu o abraço mais forte ainda como se ele pudesse sumir a qualquer momento. Eu senti tanta falta do apoio do meu irmão, do amor que meu irmão me da que não existem palavras para descrever esse sentimento.
– Eu também te amo muito, seu idiota. — Falo e tanto quanto ele, eu também solto um riso.
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