Cidade de Gramados — Rio Grande do Sul 1880

Eu andava pela avenida das ortências numa fria noite na qual eu me colocava a dar passos acelerados diante da lua crescente que me acompanhava durante minha caminhada — quase corrida — de volta para casa. O vento forte de outono cortava o ar como lâminas e enrolava-se aos meus cabelos pretos — quase invisiveis naquela rua tão sombria — lisos e finos levemente elevados pelo vento. Meus olhos verde-escuro apresentavam uma coloração quase acinzentada, as pupilas dilatadas. Nunca parados, sempre preocupados, esperando o pior. Atentos olhavam cada esquina. Eu segurava fortemente contra meu peito rascunhos e desenhos não terminados quase os amassando. Foi quando eu vi pela luz da lua — agora fraca, pois tinha sido cobertas por nuvens negras — um rapaz com seus olhos negros líricos e pele tão clara que parecia brilhar diante aquela fraca luz cor de prata buscavam algo ou alguém.

–Senhorita... não se mexa! — disse ele ofegante parado na minha frente fazia gestos com as mãos enquanto falava de um jeito anciosamente nervoso.

–Ora, por que não — eu disse num tom de voz ironicamente duvidoso — o senhor vá me desculpar mas estou com pressa — continuei dando-lhe as costas e tentando continuar meu caminho.

Foi quando senti um arrepio na espinha logo depois de sentir uma ponta de uma faca nas minhas costas e uma mão no meu ombro direito. Me virei e debrucei meu olhar para baixo e vi um punhal apontando para meu estômago e a mão que o segurava era a do misterioso rapaz. Elevei lentamente meu olhar de encontro aos seus olhos que já pareciam estar esperando encontrar os meus. Era um assalto.

–Senhorita espere... só vai levar alguns instantes.

Minha respiração parou, meus batimentos aceleraram. Uma das mãos segurando o punhal e a outra contra minha boca, que me levava até o beco na próxima esquina. Instantes depois — como tinha prometido — o rapaz saiu do beco correndo olhando para as mãos ensanguentadas e depois para os lados e para trás, o vi desaparecer na próxima sombra da esquina seguinte depois daquele beco. Assim como o rapaz, me forcei a olhar para trás, acho que por curiosidade. Dentro daquele beco úmido em posição fetal naquele chão frio minha carcaça com no mínimo dez facadas pelo corpo inteiro, semi-nua e na garganta um punhal. Os olhos abertos com direção ao nada, sem rumo e pele já esbranquiçada e as mãos tão roxas quanto rosto. Apanhei e bati. Estava morta.

Um grito tomou conta de uma das ruas mais famosa de Gamados, e que se ainda estivesse vivo teria acordado toda a vizinhança.