Venorian
2 Memórias
Eren e Sieg já haviam partido para seus devidos treinos. Este seria o dia em que os favoritos a entrarem na Cavalaria Prateada seriam anunciados, tanto para os aspirantes a cavaleiros como para os de arqueiros.
Depois das horas de treinamento, no começo de tarde, as turmas foram dispensadas. Infelizmente, Eren não havia sido escolhido. Em resposta ficou um pouco chateado, mas ao mesmo tempo motivado para treinar ainda mais, sabia que ainda havia muito a aprender.
Voltou ao castelo querendo saber como Sieg se saiu, mas ao virar uma esquina do corredor, trombou com Freya, que parecia estar fugindo de algo:
– A-Ai ai... – Eren esfregava a cabeça pela colisão – M-Me desculpe, eu não vi... Freya?
– Não da pra você olhar pra onde está indo não? – A garota disse, massageando seu próprio braço.
Eren se levantou, batendo nas próprias roupas:
– Eu já pedi desculpas, eu não te vi! – enalteceu. Logo estendeu a mão para a garota se levantar –Você tá bem?
Freya segurou o braço de Eren:
– Tô ótima – ela disse, impulsionando o corpo para levantar-se.
– Fugindo de mais algum sermão chato, é? – o garoto riu, caminhando junto com a amiga.
– Quase isso... – Freya levantou um pequeno broche que tinha em suas mãos.
Eren arregalou os olhos e ficou boquiaberto:
– F-Freya...por favor, me diz que isso não é o...
– Vem logo, ele já deve estar por perto – A garota interrompeu agarrando o braço do amigo, rindo enquanto corria pelos corredores.
– Freeeeeeeyaaaaaaaaa! – Sieg gritava do fundo do corredor, avançando como um animal selvagem.
– S-Sieg!! – exclamou Eren, assustado.
Freya fez uma curva repentina, soltando o braço de Eren. Ela continuava rindo, segurando firmemente o objeto.
Sieg passou como um vulto por Eren, que ficou quase desnorteado. Seguia Freya, ainda a todo o vapor:
– Me devolve isso, sua desgraçada! – Gritou, ofegante pela corrida.
– Se você quer, vem pegar – Ela riu, tentando correr um pouco mais rápido.
Sieg aumentou o passo da corrida até seu limite, rugindo enquanto fazia isso. Quando chegou a uma distância perfeita, saltou sobre Freya com um aperto firme. Ambos rolaram no chão até pararem. Sieg estava sobre Freya, segurando as mãos da garota contra o chão com força:
– Te... peguei... – Ofegou aquelas palavras.
– Que droga, Sieg – Ela disse, tentando empurrá-lo – Sai de cima de mim!
– Antes me devolve o que você pegou! – Respondeu, segurando a garota enquanto ela se debatia.
– Se você sair de cima de mim... – Freya abriu uma das mãos, revelando o broche que havia pego.
Sieg agarrou de supetão o broche. Estalou a língua antes de se sentar ao lado da garota, ainda ofegando graças a corrida:
– Hunf, muito obrigado, milady – esfregou os olhos – Ai...corri demais
– Poxa, você nem me deixou usá-lo! – ela riu, sentando-se.
Sieg bufou:
– Não posso deixar qualquer um usá-lo, sabia? – Olhou o broche para apreciar o adorno dourado e a gravura em forma de falcão – Segundo meu pai, essa foi a única coisa que minha mãe deixou antes de morrer... – Sieg suspirou – É complicado, Freya...
– E desde quando eu sou qualquer um? – a garota deu um leve empurrão em Sieg, ainda rindo
– Você sabe muito bem que é especial – disse, dando um leve soco no braço dela enquanto ria.
O silêncio tomou conta do corredor. Sieg encarava Freya, como se não precisasse de assunto para conversar. O silêncio foi quebrado pela chegada de Eren:
– Ah, Aí estão vocês! – disse o mesmo
– Oi, Eren – Sieg se levantou, apoiando-se na parede – Onde você estava?
– Eu estava com Freya antes de você passar correndo como um animal e quase me atropelar.
– Ah... foi mal – disse, esfregando a cabeça com um sorriso.
– Sem problemas – respondeu – Mas conta, como foi lá no seu treinamento?
– U-Uh?
– Digo, você foi um dos escolhidos, não foi?
– Então... sobre isso... — Sieg desviou o olhar, demonstrando vergonha
– Sieg? – perguntou Eren, confuso.
Freya olhou com certa preocupação para Sieg:
– Você não foi escolhido, não é? – perguntou num tom tristonho
– Não, eu não fui... – Sieg respondeu, suspirando.
– Oh...isso é... – disse Eren, surpreso – ...Sinto muito por você, Sieg..
Sieg se distanciou um pouco dos dois, reprimindo a decepção que tinha de si mesmo e transformando-a em raiva:
–Isso... Isso não é justo! – rugiu aquelas palavras – Qual é o problema daqueles velhotes? Eles são cegos?!? Eu sou o melhor espadachim da classe! Derroto qualquer babaca ali. Até mesmo o instrutor sabe o quão bom eu sou! Mas... por quê?!? – Esmurrou a parede. Se tivesse um pouco mais de força, teria aberto uma rachadura – Por quê?!?
– Sieg, acalme-se, talvez eles achem que você não está preparado ainda... – Freya segurou os ombros do garoto, tentando acalmá-lo.
– Como assim "não estou pronto"?!? Estou mais do que pronto! – Afastou-a com um leve empurrão, dando algumas voltas pelo corredor – Ótimo! Agora um bando de frangotes vai fazer parte da cavalaria enquanto eu fico mais 6 meses em treinamento! Depois nós perdemos a guerra e não sabem porque! – Encostou na parede, cruzando os braços – Velhos idiotas...
– É exatamente por isso que acho que eles pensam que você não está pronto, você não consegue controlar suas emoções... como acha que seria se um de seus companheiros morresse em guerra? Você se desesperaria no meio do campo de batalha, não é? – Freya cruzou os braços, assumindo uma expressão séria.
– Claro que não, sua idiota! Você acha que eu sou o que, um covarde chorão?!? Obviamente eu iria pra cima dos desgraçados que mataram meus companheiros... Um por um! – Desencostou da parede – Se aqueles velhotes acham que podem lidar com a guerra com aquele bando de frangote, que seja então! Mas isso não vai me fazer desistir do meu objetivo. Alguma hora eles vão perceber a merda que estão fazendo!
Tomou uma pausa para respirar e continuou:
– Quem sabe, algum dia, essa merda de castelo seja atacado e coloquem os frangotes para lutar! Assim, quando os frangotes estiverem se lastimando nas mãos dos inimigos, verão o erro que cometeram e vão voltar rastejando, pedindo para que eu entre na cavalaria! – Sieg imaginou a cena – Oooooh, isso seria muito engraçado.
– Não se esqueça que essa "merda de castelo" é da minha família, e se ele for atacado, você terá que defendê-lo também – Freya estava transbordando em fúria – e se você disser algo do tipo novamente, será julgado por traição... e você sabe muito bem o que acontece com traidores.
Sieg sentiu o choque das palavras de Freya. Em seguida, o peso das palavras que havia dito. Seu rosto queimou em vergonha:
– F-Freya, eu.. M-Me desculpe – esfregou a testa, julgando a si mesmo – Merda, O que foi que eu disse... – sentou-se ao chão, com um olhar distante – Me desculpe mesmo, Freya, Eu não queria...
– Nunca mais fale dessa forma perto de mim... – Ela interrompeu, afastando-se dos dois garotos.
Eren esfregou a cabeça, sentindo-se desconfortável pelo clima. Limpou a garganta antes de falar:
– Meeeeeus parabéns, Ela te odeia agora...
– Eu juro que não tô no humor para brincadeira agora, Eren...
– Bom, foi você que não soube segurar a língua. Agora arque com as consequências, amigo!
– Eren, se você não quer me ajudar...
– Calma, calma, não leve pro pessoal, Sieg – Sentou-se ao lado do amigo – Eu só queria que você fosse um pouco mais sensato antes de falar. Quem sabe isso melhorasse sua situação.
Sieg estalou a língua antes de Eren continuar a falar:
– Mas eu completo o que Freya disse, Sieg. Quero dizer...ainda falta alguma coisa além de saber se controlar.
– O que você tá querendo dizer?
– Digo... Você pode ser o mais forte dos espadachins... e eu posso ser o melhor arqueiro... Mas não se faz comida só com talheres. Não se faz uma casa só com madeira. Não se faz um cavaleiro só com habilidade. Ainda falta alguma coisa em nós...
– ...Você também não foi aceito?
Eren suspirou:
– Não, não fui... – Soltou uma leve risada – Acho que sei como se sente...
Sieg se sentiu aliviado sabendo que não era o único. Ficou feliz por dentro em saber que Eren continuava "no mesmo nível" que ele.
Sentiu vergonha de si mesmo, viu como Eren estava calmo e tranquilo diante a situação e comparou-se a ele. Eren sempre foi o mais calmo da dupla, sendo a voz da razão de Sieg em momentos como este. Sieg esconde o rosto entre o joelhos:
– Me sinto um idiota...
– Com toda razão. – respondeu Eren – Mas não fique tão emburrado com isso. Você pegou pesado a poucos instantes atrás...mas isso logo passa.
– Você acha? – perguntou, encarando-o de canto de olho.
– Claro que sim! Apenas...não fique tão explosivo como ficou dessa vez. Você acha que os melhores cavaleiros passaram de primeira? Acha que seu pai passou de primeira? – Eren deu um leve tapinha na cabeça do amigo – Você vai ter outras chances, seu idiota.
Sieg se sentiu incrivelmente aliviado. Simplesmente agradecia por Eren estar com ele para acalmá-lo. Poucos minutos de conversa já fizeram-no voltar a seu estado normal. Porém, ainda tinha a consciência pesada pelo o que havia dito à Freya:
– Eu tenho que ir... – disse Sieg, levantando-se.
Do lado de fora do castelo, Freya treinava movimentos de espada numa árvore. Movia-se graciosamente, como se dançasse. Seus curtos cabelos loiro escuro levemente balançavam, acompanhando os movimentos de seu corpo e espada.
O som do galope de cavalo chamou a atenção da garota. Um cavalo branco selado sendo puxado por um cavaleiro de armadura prateada e elmo fechado, montado sobre um cavalo negro. Ao retirar o elmo, revelou os cabelos loiros de Sieg:
– Oh, Freya, você por aqui. Que coincidência, não? – dizia em tom sarcástico.
– O que é que você quer? – ela disse, sem parar seu treinamento.
– Bom... me colocaram na tarefa de levar os cavalos pra passear, mas é chato fazer isso sozinho. Você me acompanharia? – perguntou, de forma natural.
– Por que não pede ao Eren para fazer isso? – Freya fincou a espada na árvore, olhando para Sieg.
– Você sabe muito bem que o Eren não sabe cavalgar tão bem quanto nós, Freya – Puxou o cavalo branco mais perto – E é muito mais divertido cavalgar com você. Vamos! A gente até aposta uma corrida, se quiser.
– Não quero, obrigada... – a garota puxou a espada da árvore, guardando-a – Eu vou voltar para o castelo
Sieg relutou antes de voltar a falar:
– Aaaah, entendi...A famosa Freya Graywind com medo de perder numa corrida de cavalos para um mero aspirante a cavaleiro. Por que não disse isso logo? – exclamou para a garota ouvir, com um sorriso estampado no rosto.
– Cala a boca, Sieg... – a garota disse, desanimada.
– ...Huh... – proferiu, bolando um outro plano.
Sieg cavalgou até ficar de frente à Freya, bloqueando o caminho. Decidiu falar diretamente com a garota:
– Pelo menos você tem tempo para poder me ouvir? Eu só peço 5...não, 3 minutos de sua atenção. Por favor, Freya... – seus olhos a encaravam diretamente, suplicantes e esperançosos.
– Se eu concordar em levar essas drogas de cavalos para passear, você para de me importunar? – A raiva era evidente no tom de voz de Freya.
Sieg assentiu, puxando o cavalo branco pra mais perto da garota:
– Ótimo... – Ela subiu no cavalo sem nenhuma dificuldade – De novo... O que é que você quer?
– Antes de mais nada... – Sieg tomou a frente – Quero que você me siga, Sim? Tem uma coisa que eu quero te mostrar...
– Claro...mostre o caminho
Sieg chicoteou com a alça para o cavalo avançar, sendo seguido por Freya. Ambos cavalgavam velozes, porém graciosamente. Seguiram uma trilha para longe do castelo, dando uma volta para chegar a um monte alto, de fácil acesso para qualquer tipo de montaria.
Chegando no topo do monte, ficaram à beirada, protegida por uma cerca velha e caída. O topo do monte estava enfeitado por inúmeras flores douradas e vermelhas, e um grande carvalho quase centralizado. Da beirada, possuíam uma visão imponente da terras de Venorian.
Viam o riacho cortando a enorme pradaria. Via os aspirantes a cavaleiros cavalgando, seguindo o instrutor. Viam o denso bosque que se formava ao horizonte. E, acima de tudo, viam os muros do castelo de Venorian, que mesmo estando a quilômetros de distância, continuava sendo a coisa mais poderosa construída por ali. Somente Freya e Sieg sabem o valor dessa visão nostálgica que possuíam:
– Por acaso aqui te traz lembranças? – perguntou, em voz tênue.
– Não acredito que você ainda se lembrava desse lugar... – A garota desceu de seu cavalo, encostando-se na cerca para poder melhor apreciar a vista que o monte os proporcionava.
– Como eu ia esquecer? – Sieg riu, descendo do cavalo – Eu que te trouxe aqui pela primeira vez, lembra? – ficou ao lado dela, ainda inseguro, porém sem demonstrar.
– A primeira vez que tive coragem de sair do castelo... – O olhar de Freya se voltou para a grande fortaleza de pedra que era o castelo de Venorian – É realmente intimidador, não?
– De fato... – Sieg pôs as mãos na própria cintura, inspirando ar fresco e expirando com força – Lembro que naquela época que seu pai me achava má influência, alguns meses depois de você ter me conhecido você ficou toda rebelde e desobediente com ele – Sieg riu – É, acho que eu tive um pouco de culpa de você não ser uma dama da corte que seu pai quis que fosse...
– Você foi só o impulso que eu precisava... – ela disse, ainda deixando seus olhos vagarem pelo vasto campo de visão de todo o reino.
Sieg olhou para Freya de canto de olho, com um esboço de sorriso:
– Eu...eu só queria que você soubesse que...desde aquela época... Desde o dia que a gente se conheceu, por mais que a gente goste de zombar um com o outro, eu jamais iria querer te ver triste, zangada ou chateada comigo. Você é a melhor amiga que eu podia pedir. Quando eu percebi o que eu fiz, eu fiquei com muita vergonha. Achei que jamais olharia na sua cara de novo. Pode perguntar pro Eren, ele confirma isso – disse, colocando mais ênfase na última frase – Eu...eu peço sinceras desculpas, Freya... – Sieg desvia o olhar para o horizonte, colocando as mãos sobre a cabeça – E você está certa... Eu não tô pronto pra ser merda de cavaleiro nenhum... Que tipo de cavaleiro seria eu se eu trouxe tristeza para o rosto de alguém tão especial pra mim? Eu realmente sinto muito...
– Não tem problema... Eu acho que eu exagerei também com aquela coisa de traição e... – Sua frase foi interrompida por um longo suspiro – Me desculpe por ter sido idiota com você, Sieg
– Na verdade, você estava certa – Ele soltou uma leve risada – Você tinha toda razão para ficar daquele jeito...
Um silêncio se instaura. Ambos se entreolhavam por um bom tempo, sorrindo. Sieg desviou o olhar, limpando a garganta:
– E-Então...eu tô perdoado? – perguntou, ainda inseguro.
– Está sim... – ela riu, dando um leve soco no braço de Sieg.
Sieg esfregou o braço atingido:
– V-valeu...
O vento soprou forte, balançando os cabelos dos dois jovens, as flores e as folhas do carvalho. Ao olhar para o horizonte, viu nuvens cinzentas se formando. Prelúdio de uma tempestade:
– Vamos voltar logo, antes que chova ferro sobre nossas cabeças! – O garoto disse.
– Então, você vem ou não? – Freya subiu em seu cavalo, provocando o amigo.
Sieg lançou um sorriso desafiador em resposta. Montou sobre seu cavalo negro e tomou a frente, a galopes velozes, logo seguido por Freya de volta ao castelo.
Já estavam no meio do caminho quando o som do sino do castelo chama a sua atenção. Ambos se entre olharam, com péssimos pressentimentos:
– Freya... Esse sino não seria o...
– Aaaah não... – Freya chicoteou as rédeas do cavalo, fazendo-o cavalgar mais rápido – Você e sua língua gigante...
Sieg engoliu seco, lembrando-se das palavras que disse. Chicoteou o cavalo para cavalgar mais rápido. Em seguida, praguejou os céus:
– Me trazer coisa ruim você sabe trazer, agora trazer dinheiro que é bom, nada, né?!?
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