No interior do castelo, na sala do trono — a sala mais segura -, estava toda a família real, incluindo a mãe e o pai de Freya. Rei e rainha de Venorian. O irmão mais velho, Adrian e o do meio, atendendo pelo nome de Dan também estavam presentes. Todos sobre a guarda de Sieg, Freya e mais outros dois guardas. Além disso, a novata do castelo, a chamada Maya, também estava presente. O clima estava tenso. Medo estava borbulhando da face do rei, sendo que o mesmo nunca foi para a frente da batalha. Era um homem justo, porém covarde. A rainha também compartilhava do mesmo medo. Adrian fazia o possível para se manter calmo, assim como Dan. Maya também temia pela vida. Os únicos que realmente não demostravam medo eram Sieg e Freya. Sieg estava ocupado demais andando pela sala, impaciente e frustrado. Sieg ansiava pela batalha.

– Infernos! – Exclamou – Eu deveria estar lá embaixo. Não aqui!

– Você foi designado para essa tarefa, Sieg. Pare de ser teimoso e faça seu trabalho direito! – Freya exclamou – Se você desrespeitar o seu superior...

– Eu sei, Freya, eu sei! – gritou– Mas eu não consigo segurar! Eu vejo tantos dos meus companheiros morrendo lá fora e eu aqui, sem poder fazer nada, isso é tão... Tão... Humilhante! Você não se sente assim?

– Eu estou exercendo o meu papel como cavaleira e você também, deveria se orgulhar disso! – Freya respondeu, olhando friamente para Sieg.

Sieg fica sem argumentos. Desviou o olhar após estalar a língua e voltou a se sentar no degrau da plataforma do trono. Mesmo assim, não podia parar de pensar como seus companheiros estavam. Preocupava-se principalmente com Eren, que podia morrer a qualquer instante lá fora. Se pudesse, ele trocaria de lugar com ele. Ficaria tranquilo sabendo que Freya e Eren estariam seguros na sala do trono. Apenas podia rezar para seja lá qual for o deus que estivesse olhando por eles.

Maya observava todas as pessoas dentro daquela sala, que exalavam medo. Era possível ouvir barulhos lá fora e não eram agradáveis. Apenas Freya e Sieg estavam estáveis. Ficou feliz por conhecer a irmã de Adrian, mesmo nessa situação desagradável. Ela parecia ser temperamental. Maya observava outro rapaz para ela desconhecido, mas que tinha muita semelhança com Freya e Adrian, então supôs que seria o terceiro irmão.

A garota fechou os olhos e, sem pensar, começou a rezar. Dizia palavras para si mesma em alguma língua que nem ela se recordava qual, mas foi como um instinto. E então, tudo parecia calmo. Ela relaxou instantaneamente e passou a ouvir com mais atenção os sons de fora do castelo, sua audição parecia mais aguçada. Abriu os olhos assustada, pois não sabia o que tinha acontecido com ela, mas a calma que tomou conta de seu corpo foi tranquilizadora.

– Ei, o que está acontecendo lá fora? – Perguntou para Adrian, que estava próximo.

– É uma guerra, Maya... – Ele sussurrou para ela – ...Estão tentando invadir o nosso castelo.

– Oh! – Ela ficou pensativa – Bom, tudo o que eu vi foram os guardas aparecendo no quarto e me mandando correr até aqui. E depois, só gritos e barulhos. – Virou-se para a porta e ficou observando, enquanto enrolava as pontas do cabelo com o dedo indicador.

Sieg observava a novata, curioso para saber quem seria ela, mas no momento, só podia pensar no caos lá de fora. E somente uma pessoa pairava em sua mente. Levantou-se, caminhou até a janela da torre e teve o vislumbre do caos. Pela distância, não teve detalhes, mas não era preciso. Sua respiração parou quando percebeu o quanto o exército prateado recuava e o mar de armaduras negras apenas aumentava.

– Essa não... – Proferiu em suspiro. Um enorme frio na barriga o tomou. Seu corpo ficou trêmulo. Pela primeira vez na vida, Sieg sentiu o abraço gélido da morte o envolvendo.

– F–Freya... – Chamou Sieg, gesticulando com as mãos para que a amiga se aproximasse. Freya foi até o garoto.

– O que foi? – Perguntou olhando para a janela – Essa não... – Silêncio. Nada mais precisava ser dito.

~*~

No campo, o medo estava cada vez mais intensificado. Os cavaleiros de prata sofreram baixas gigantescas. Mesmo sob o comando perfeito de Dragomir, a derrota estava mais próxima. Tyler já estava chegando ao seu limite, assim como Noah, que sofria mais pelo seu corpo de pequeno porte. Nenhuma flecha sobrou das aljavas dos arqueiros dos muros. Centenas de corpos manchavam o campo em prata e preto. Vendo a situação, Dragomir percebe que seria suicídio continuar ali. E então, rugiu aos céus, com as forças que lhe restava:

– Recuar! Recuem! Para dentro dos muros! Recuar!

Os soldados prateados logo perderam as esperanças. Se o próprio comandante não aguentava mais, que chance eles teriam? Os soldados corriam aos montes, o mais rápido possível para dentro dos muros. Na linha de frente sobrara apenas uma centena de soldados, incluindo Tyler e Noah, ambos ofegantes. Dragomir dirigiu-se para o rapaz

– Daemon! Tome o comando! Garanta a segurança de todos dentro do muro!

– Sim, senhor! – Tyler gritou enquanto decapitava mais um covarde do exército de Namuras, seu rosto, cabelos, armadura e espadas estavam tingidos com a cor vermelha. "Que droga", pensou, "Se continuarem avançando desse jeito, não vamos conseguir". Mais algumas dúzias de vítimas foram feitas perante a espada do garoto de olhos dourados, ele já estava mais do que acima do limite

– Capitã Noah, não podemos mais continuar... O que devemos fazer? – O jovem perguntou. Ao lado de Tyler, Noah lutava ofegante. Os arqueiros dentro perto das muralhas já estavam sem flechas, então a possível vantagem que poderiam ter, já não era mais possível.

– Tsc... Que droga. – Dizia um pouco sem ar.

Tanto Noah quanto os outros arqueiros, tinham o treinamento básico na esgrima para dar o devido apoio aos cavaleiros quando estritamente necessário, porém, diferente dos mesmos, não tinham tanta resistência física. Eram treinados para dar o devido suporte longe da linha de frente. Louis havia chegado ao local assim que as flechas de seu grupo haviam acabado, porém já estavam sem energia para prolongar ainda mais a batalha.

– Vários dos nossos já morreram, precisamos recuar... Meus homens também não irão aguentar por muito mais tempo. – Dizia para Tyler, frustada. Olhando a situação em volta, tentou pensar em algo para dar uma reviravolta na batalha, porém nada veio em sua mente. Tirando a espada do peito do Cavaleiro Negro que havia acabado de matar, finalmente deu o comando.

– Homens! Recuar! –

Quando a ordem foi dada, uma marcha mortal de cavaleiros negros avançava a passos rápidos. Eles tinham uma formação perfeita: Uma muralha de escudos negros que cortava a planície. O medo dominava o coração de todos os prateados, que recuavam, mas ao mesmo tempo, desejavam continuar. Desejavam lutar e morrer como heróis do que fugir como covardes. E Karlos Dragomir era um desses. Enquanto seus homens davam as costas e corriam para dentro dos muros, Dragomir continuou de pé, encarando a enorme marcha dos cavaleiros negros.

Então, ele descarta o escudo, não ia mais precisar dele. E então retirou o elmo, mostrando ser um senhor de meia idade, com cabelos grisalhos e penteados para trás e uma barba igualmente grisalha. Sua expressão era de fúria. Antes que aquele dia acabasse, decidiu provar que Venorian não será o reino que foge com medo das sombras. Mas decidiu ficar até o fim. E então rugiu o nome de Tyler, chamando sua atenção novamente. O garoto estava ocupado demais esquartejando um último soldado negro, mas finalmente foi ao seu encontro

– Daemon... Lembra-se da minha esposa, Anny? – Ofegou, em um ar tênue.

– Claro que sim, senhor – O jovem respondeu, também ofegante. Karlos entregou o elmo para o jovem. E então trocou olhares com ele, dispensando palavras.

– Nada precisa ser dito. – Disse, com um sorriso.

Dragomir dispensou Tyler e, com um urro furioso, avançou contra a muralha de escudos. A formação foi desfeita quando os cavaleiros negros perceberam a aproximação do "último cavaleiro de prata". Avançaram um a um para cima de Karlos, mas sua fúria os esquartejava. Decepou a perna do primeiro, rasgou a garganta do segundo, o terceiro morreu com a espada cravada no peito. Um decapitado, outro cortado ao meio pela cintura. Dragomir provou o orgulho de Venorian naqueles golpes. Queria mentalizar na memória do reino de Namuras que "um reino se destacará mais do que outros".

Ele fez mais quatro vítimas e estava prestes a fazer a quinta, quando sentiu o aço da espada de um cavaleiro negro atravessar suas costas e sair pelo seu estômago. Karlos sentiu o gosto de sangue e cuspiu. Cambaleou alguns passos a frente, prestes a cair de joelhos. Mas sua fúria era implacável. Mesmo com uma espada atravessada em seu corpo, Dragomir se virou, e em um movimento fatal, decepou seu algoz. E cortou o estomago, fazendo sua sexta vítima, até que outro cavaleiro negro decepou seu braço que segurava a espada. Seu rugido de fúria ensurdeceu os próximos. Dragomir estava exausto, com sua visão turva. Seus batimentos desaceleravam devido à falta de sangue. E então, após cinco passos, caiu de joelhos fitando o chão. Ele já sabia que não tinha escolha. Um cavaleiro negro o impediu de cair, segurando-o pelos cabelos. Ao ver o brilho da espada negra, Dragomir profere aos céus:

– Deus... Por que nos abandonastes? – A espada desce sobre seu pescoço, separando sua cabeça do corpo. Dragomir agora é história.