Venorian
5 A Mão Esquerda de Deus
Tyler segurava o elmo de Dragomir com força, fez mais algumas vítimas antes de começar a recuar. Sentia vergonha de si mesmo por aquilo, mas não poderia desrespeitar ordens. Tyler foi o último a passar pelo portão antes que ele se fechasse totalmente. Alguns dos novatos reforçaram o portão com dúzias de toras de madeira, tudo para impedir que o aríete dos cavaleiros negros atravessasse. A morte de Dragomir foi um choque e um gatilho para o pânico entre os cavaleiros. Eles acreditavam que era o fim. Alguns choravam em desespero.
– Este é o fim! Nós vamos todos morrer! Este é o fim do reino de Venorian!
Tais gritos ecoavam. Alguns ainda queriam estar no campo de batalha, mas sem o comandante, seria suicídio. Noah e Tyler tentavam apaziguar todos por ali, mas era uma tarefa quase impossível. Alguns líderes discutiam o que fazer, mas não levava a nada.
– Capitão Daemon! Comandante Noah! O que fazemos? Por favor, nos digam o que podemos fazer! – Exclamou um dos soldados, com lágrimas escorrendo pelo rosto e soluçando. Outros faziam o mesmo tipo de pergunta, tentando achar algum pingo de esperança.
– Soldados, acalmem–se! – Tyler gritou em meio aos soldados – Defenderemos Venorian, mesmo que isso custe nossas vidas! Fomos treinados para isso, morram com suas honras, sejam os heróis sobre os quais as próximas gerações lerão, assim como os que nos antecederam.
O garoto levantou sua espada, tingida pelo sangue inimigo:
– Por Venorian! – As duas palavras ecoaram por todo o reino, trazendo esperança aos soldados, que já tinham se dado por vencidos. Noah ouvia atentamente as palavras de Tyler, surpresa e ao mesmo tempo feliz por ainda ter soldados com esperança de vencer. Com o arco pendurado em seu ombro, pegou a espada que já estava guardada na bainha, e a apontou para o alto, seguindo as palavras do companheiro.
– Por Venorian! – Assim que falou, Louis e os arqueiros gritaram junto em concordância.
– Vocês me enchem de orgulho, crianças! – Uma voz imponente ecoou pelo reino. Era como se fosse um soco nos tímpanos de cada soldado por ali. A voz foi poderosa o suficiente para silenciar todos. – Ouvindo tais gritos determinados... Eu não podia mais ficar parado.
Em seguida, passos metálicos, pesados e imponentes desviam o olhares de cada soldado presente. E então, uma luz de esperança queimou no coração de cada um deles graças à figura que se aproximava pela ladeira que levava para a entrada do castelo. O medo cegou cada cavaleiro por lá, fazendo-os esquecer que ainda existia alguém que poderia virar essa situação de cabeça para baixo. A maior esperança de todo reino de Venorian desceu ao campo de batalha.
Diferente de todos os cavaleiros que vestiam armaduras prateadas, este homem vestia uma armadura totalmente branca e reluzente, como se o próprio sol invejasse seu brilho. Seu elmo era totalmente fechado, com apenas uma fenda para os olhos. E diferente dos cavaleiros comuns, este possuía detalhes de asas nas laterais de seu elmo, e uma capa branca e esvoaçante, presa por um botão dourado. Nas costas da capa, estava costurada a letra "V" em preto e um brasão em forma de escudo pentagonal nas cores de Venorian. E em suas mãos, suas armas letais: Na mão direita, um escudo retangular de aço, e na mão esquerda, uma montante de duas mãos.
– Sequem essas lágrimas, homens! Amanhã vocês poderão chorar o quanto quiser! Hoje, vocês sobreviverão! – Sua voz era poderosa, fazia qualquer um se curvar. A imagem deste homem fez os cavaleiros chorarem de alegria e aclamarem os céus com agradecimentos. A última e mais poderosa arma do reino de Venorian chegou. Seu nome: Mikael Siegfried. O Paladino Branco. O soldado capaz de empunhar uma espada de duas mãos em apenas uma com a mesma facilidade de um cavaleiro regular. Ele atravessou o caminho feito pelos soldados até chegar a Noah e Tyler:
– Capitão Daemon... Comandante Noah... Nossa, faz muito tempo que não os vejo. – Disse, com um ar feliz na voz.
– É bom vê-lo novamente, senhor – Tyler disse em respeito ao Paladino. Noah encarava a armadura, encantada com o brilho da mesma. Havia se encontrado poucas vezes com Mikael, mas o admirava por sua força.
– S-Senhor Siegfried! – Noah dizia gaguejando, porém sorrindo. – É bom vê-lo novamente!
Mikael assentiu em resposta:
– Eu poderia conversar agora, mas... Não temos tempo para isso. – Sua voz tomou um ar sério – Digam-me: Como está a situação? Onde está Dragomir?
Tyler estendeu o elmo de Dragomir a Mikael:
– Temo que a situação esteja pior do que imaginamos – Ele disse com sua usual calmaria.
Mikael segurou o elmo do comandante falecido. Após alguns segundos de silêncio, levantou a voz:
– Vou pedir um favor para você, Daemon. – Elevou ainda mais, para que todos ouvissem – E isso valerá para todos que estão aqui... – Devolveu o elmo para Tyler – Quero que vocês me observem... E não tirem os olhos de mim nem por um segundo. Entendido?
– Sim, senhor – Os soldados responderam em uníssono. Mikael deu as costas para seus homens, caminhando em direção ao portão fechado.
– Subam! Precisamos abrir o portão! – Exclamou um dos soldados.
– Não será necessário! – Respondeu Mikael.
Por uma fração de segundos, a armadura branca de Mikael pareceu brilhar mais forte. O paladino tomou impulso com a perna e, com um chute monumental, os portões gigantes de Venorian se escancaram, como se fossem simples portas de uma casa comum. Um vendaval é criado graças ao ato, esvoaçando a capa do paladino enquanto os soldados tinham que cobrir os olhos para que poeira não voasse nos seus. Com apenas um movimentos simples, Mikael mostrou sua grandeza, deixando todos os soldados temerosos por tamanho poder, e ao mesmo tempo, aliviados por ele ser um aliado.
Mikael caminha devagar a passos largos de confiança e determinação. A muralha de escudos negros ainda avançava mas parou de repente devido a abertura forçada dos portões. então identificaram a figura que vinham. Eles desconheciam quem era. Achavam que era apenas mais um cavaleiro comum. E então, assim como fizeram contra Dragomir, desfizeram a formação e avançaram furiosamente, dessa vez todos de uma vez só. Aproveitariam que o portão estava aberto e fariam sua chacina pela cidade. Tudo que eles tinham que fazer era se livrar daquele "reles soldado", que surgiu do nada. Mas acreditar que aquele homem era um "simples cavaleiro" era um grande erro.
Mikael parou no centro do campo. Ele estava completamente sozinho no meio daquele campo de morte. Na sua frente, centenas e centenas de armaduras negras avançavam contra ele. Mas não parecia amedrontado e nem nada do tipo.
O paladino levantou o escudo, apontando–o para os céus e pareceu reluzir a parca luz solar que atravessava o céu nublado e cinzento. Fendas de luzes se abriram entre as nuvem em uma espécie de vortex, iluminando apenas aquela figura imponente de armadura branca. O som agudo de luz refletindo sobre metal aumenta gradativamente ao mesmo tempo que a armadura de Mikael brilhava ainda mais.
Apenas dez metros separavam ele da onda de impacto das armaduras negras. E então, Mikael age. Colidiu a base do escudo com força no solo, fazendo o chão sob os seus pés tremer como um pequeno terremoto. Um enorme estalo metálico ecoou pelos campos de Venorian. E então, os cavaleiros negros acabaram colidindo contra uma parede invisível a meio metro de distância do paladino. O exército inteiro ficou pasmo e em caos, pois as fileiras traseiras esmagavam as primeiras contra a tal parede.
Um vendaval esvoaçou a capa de Mikael novamente. E em mais um estalo metálico monumental, o exército inteiro foi empurrado para trás, como se a parede tivesse explodido diante de seu corpo. Os soldados das primeiras fileiras acabaram morrendo, tanto pelo esmagamento como pela explosão de energia invisível. Resultado: Um exército inteiro, confuso e caído nas planícies de Venorian, e um ponto de luz no centro do campo brilhando com a intensidade de mil sóis.
Aquele era Mikael Siegfried. Também conhecido como "A Mão Esquerda de Deus". E este era apenas o começo de seu julgamento.
~*~
Dentro da torre principal do castelo de Venorian, onde a família real e alguns dos guardas estavam, Sieg e Freya observavam a batalha da janela:
– Sieg... algum dia você vai ser o salvador de tudo, igual ao seu pai – A garota disse, abismada com tamanha força – Guarde minhas palavras...
Sieg estava mudo, boquiaberto, pasmo. Seu corpo tremia pela visão que tinha. Nunca tinha visto seu pai lutar, muito menos daquela forma. Em algum momento, quando a muralha invisível surgiu, ele podia jurar com os pés juntos que havia visto um transparente e colossal escudo retangular igual ao do seu pai descer dos céus e bloqueando o caminho dos cavaleiros negros. Como se algum tipo de Deus tivesse bloqueado o caminho com seu escudo, igual a Mikael. Sieg engole em seco.
– P-Pai... – Foi a única coisa que proferiu, em um sussurro.
Por detrás da muralha de Venorian, os soldados olhavam, impressionados com a facilidade do Paladino Siegfried a aniquilar o exército de Cavaleiros Negros. Tyler bufou, mostrando o que talvez fosse um esboço de sorriso em seu rosto.
Mikael retira o escudo do solo, esperando seus oponentes pelo menos se levantarem, pois odiaria enfrentar alguém que não pode se defender. Empunhou sua montante e apontou para os cavaleiros negros, que ainda desacreditavam no que aconteceu. Sua armadura branca reluziu novamente. E então, o paladino levanta sua voz, que soou como um trovão:
– Por Deus... Por Venorian! – O corpo branco se propulsionou para frente em uma explosão de energia invisível, como se ele tivesse saltado para frente. Siegfried desferiu sua montante em um corte rápido enquanto se movia. O resultado foi apenas um: Uma série de corpos cortados ao meio em apenas um movimento. Mikael era um ponto branco num mar de aço negro. Seus oponentes acharam que venceriam se atacassem em conjunto. Mais um erro idiota. Mikael rodopiou, e com a espada, cortou mais uma série de corpos
– Cavaleiros de Namuras... Eu sou seu juiz. – Exclamou – E todos vocês irão para os portões do inferno! O julgamento começa agora!
Foi um massacre, uma obliteração de apenas um lado. Siegfried cortava, chutava, espancava com o escudo, se movia em uma velocidade incrível. As chances de seus oponentes eram menores do que zero. Em sua mão esquerda, carregava um vendaval de morte.
O paladino partia dezenas de corpos com apenas um corte. Esmagava a caixa torácica de seus oponentes com chutes, mesmo protegidos pela armadura. Decepava dezenas e dezenas de cabeças em uma dança mortal. Quebrava ossos e pescoços com as pancadas de seu escudo. Em sua visão, seus inimigos se moviam em câmera lenta, enquanto aos olhos dos cavaleiros negros, o paladino era um facho de luz. Quando eles perceberam, já estavam quase todos mortos.
Mikael transbordava o tipo mais puro de energia, a ponto de atingir os cavaleiros amedrontados atrás das muralhas. O exército prateado assistia de camarote a "Mão Esquerda de Deus" fazer seu julgamento divino. Ao mesmo tempo que sentiam-se envergonhados por acharem que a esperança havia acabado, seus corações ficaram eufóricos. A vontade de lutar havia retornado. O calor pela batalha afastou o abraço congelante da morte que eles sentiam. Todos choravam em determinação e fúria.
– Soldados! – exclamou um dos capitães – não podemos deixar lorde Mikael fazer tudo sozinho! Temos que garantir a segurança de sua retaguarda! – O exército de Venorian urrou tão alto que foi capaz de ser ouvido por toda a cidade e por toda a planície. Por debaixo do elmo, Mikael sorri.
Em uma corrida desenfreada, as poucas centenas de soldados que restaram de Venorian atacam novamente. Mas essa seria a melhor oportunidade, Mikael chamou a atenção de todos para si, e fez o exército negro dar as costas para o castelo. Agora os cavaleiros de Namuras tinham que lidar com duas forças monumentais: A fúria dos sobreviventes de Venorian e o exército de um homem só que era o paladino. Tyler e Noah haviam voltado para o combate, seguindo a determinação dos cavaleiros. E isso mostrava a verdadeira força da lenda viva que era Mikael Siegfried: Não era sua força. Não era sua habilidade. Mas seu desejo de proteger aqueles ao seu redor. Isso o fazia ser respeitado. Isso o fazia ser seguido. E isso o que fazia este cavaleiro imbatível. Isso foi o que imortalizou seu nome.
~*~
Sieg e Freya assistiam a reviravolta trazida pelo paladino. A energia que Mikael emanava era tão grande e tão intensa que atingia como uma avalanche o corpo de Sieg. Ele continuou boquiaberto. Seu corpo tremia em calafrios. Ele desacreditava no que via diante dele. "Não é possível", pensava "Aquele realmente é o meu pai?"
A relação de Sieg com seu pai era forte, mas logo quando chegou no castelo aos cinco anos de idade, acabou se distanciando dele graças aos seus afazeres e ao dever de seu pai de proteger Venorian de exércitos inimigos. Provavelmente, aquela era a primeira vez que Sieg via seu pai em treze anos. E a imagem reduzia seu próprio tamanho.
Sieg enfezou-se. Não aguentava mais ficar parado naquele lugar, viu a reviravolta dos cavaleiros prateados e isso inspirou seu espirito de luta. Rosnou alto e bateu forte na batente da janela, tomou rumo à porta de saída da sala do trono a passos rápidos e furiosos. Ignorou a família real, ignorou Freya, ignorou as ordens. Ele tinha que, pelo menos, chegar perto do campo de batalha com a espada em mãos. E mais: Não poderia perder aquela chance de se mostrar um cavaleiro de verdade.
Freya tentou agarrar o braço do garoto, sem sucesso. Começou a segui-lo:
– Sieg! Si... – Parou logo a frente da porta, bufando – Alguém tem que ficar aqui protegendo esse lugar, não vou desrespeitar ordens! – A garota logo se sentou em um dos degraus para o trono, encostando a cabeça sobre suas próprias mãos com a testa franzida. Sieg desceu as escadas a passos rápidos, com sua fiel espada de duas mãos nas costas. Trajava sua armadura prateada que usava nos treinamentos. O tempo de sua corrida passava despercebido pelos "flashbacks" de todos os momentos importantes que teve nos treinamentos. Sua expressão: Determinação e fúria. Ele almejava aquele momento há anos:
– Se eu correr, – Dizia para si mesmo – ...devo parar na frente do portão principal em poucos minu-... – Quando chegou ao final da escada, logo se deparou, no fim do corredor, a um homem trajando uma armadura negra, com uma espada e um escudo, ambos ensanguentados. Sieg entrou em choque, aquilo foi inesperado: Um Cavaleiro Negro adentrou o castelo.
"Como?", Sieg pensava. Talvez o dano das catapultas tivesse sido suficiente para que abrisse um buraco. Ou então ele deveria ter conseguido flanquear o campo de batalha pelo bosque, se esgueirando para a muralha e pelas ruas caóticas de Venorian a ponto de conseguir arrombar as portas do palácio e subir até ali. A espada e o escudo ensanguentados mostram que ele teve que sujar as mãos para poder chegar ali
O garoto deu um passo hesitante para trás. Não esperava encontrar um inimigo logo de cara. Suas pernas tremiam e engoliu em seco. No instante seguinte, sacudiu a cabeça, retomou a determinação e sacou a montante de suas costas:
– Que você seja o primeiro de muitos, seu filho da puta! – esbravejou. Em seguida, foi para o ataque.
O cavaleiro negro respondeu, correndo em rota de colisão ao rapaz. O sangue de Sieg fervia. Seu olhos estavam furiosos. Mas o primeiro contato com seu inimigo foi uma pancada de escudo contra seu tronco, fazendo-o cair sentado. Recuperando-se do golpe, Sieg se levanta e desfere uma série de cortes, todos com força e a maestria que mostrava no treino, mas o cavaleiro negro bloqueava alguns com o escudo e refletia outros com sua espada negra.
Sieg soltava urros de fúria, extravasando toda a sede de batalha que possuía, mas sua fúria apenas resultava em golpes bloqueados e pancadas de escudo que o empurravam para trás. Sieg estava em desvantagem, não apenas pelo fato de que uma espada de duas mãos era pesada e dificultava seus movimentos contra um oponente de espada e escudo com uma maior agilidade, mas também por sua experiência de combate ser praticamente nula.
Ele estava diante de alguém que já havia sujado as mãos com sangue, enquanto ele mesmo nunca estivera em um campo de batalha de verdade, onde erros acarretariam a morte. O cavaleiro negro começou a partir para o ataque, vendo a falta de habilidade de seu oponente. Fazia cortes e estocadas que Sieg conseguia, no desespero, defender. O jovem já sabia que aquilo não era um treinamento. Aquela era uma espada de verdade, que cortava carne e fazia vítimas. Sieg sabia que não podia permitir-se errar.
O jovem tentava rebater, mas tudo que recebia em resposta eram mais golpes de escudos, que já começavam a doer. Sieg já sentia o peso da dor e da exaustão na batalha enquanto seu oponente continuava com tudo. Ele ofegava e uma pancada de escudo no rosto e em seu estômago resultou a Sieg começar a babar e cuspir sangue. Mas ele não pretendia se dar por vencido. Ele não podia se permitir morrer ali. Levantou a espada novamente, com os braços trêmulos e deu um golpe fraco contra o escudo do cavaleiro, que em resposta, estocou o rosto de Sieg, que conseguiu desviar a tempo, mas trouxe um corte a sua bochecha. Mas aproveitando a abertura, o cavaleiro negro chutou o corpo de Sieg com força a ponto de arremessá-lo ao chão e lançar a montante de Sieg longe. A dor que percorria o corpo do jovem cavaleiro era intensa demais para que ele se levantasse.
O cavaleiro negro não mostrava trégua. Tentou estocar e cortar o jovem, que rolava pelo chão para desviar e se arrastava miseravelmente para tentar se afastar do seu algoz e alcançar a espada. Quando finalmente chegou a poucos centímetros da montante, o cavaleiro negro a chutou para mais longe.
Sieg viu a espada se afastar novamente, assim como suas esperanças de vitória. mas em contrapartida, via a morte se aproximar, ao ver o brilho da espada do cavaleiro negro erguida, pronto para uma estocada. Sieg se desespera. "Eu não posso morrer!", pensava "Não aqui! Não desse jeito!".
Ele fechou os olhos em instinto quando viu o cavaleiro negro mover o braço para estocar seu peito. Porém, ouviu o som de um gemido de dor. Em seguida, ouviu o som de um corpo metálico caindo. Sieg abriu os olhos, receoso. E então percebeu o corpo do cavaleiro negro morto, estirado ao seu lado. Quando a confusão se afastou de sua mente, percebeu o motivo da morte dele: Uma flecha na sua nuca exposta. mas se questionava de onde havia vindo aquela flecha
– Sieg! – gritou uma voz do fundo do corredor. Aquela voz, para Sieg, era uma benção. Eren havia chegado. Uma terceira pessoa se juntou ao grupo, Freya, que descia as escadas o mais rápido que podia, alcançando os dois garotos:
– Sieg, você está bem?
– Eu acho... – Gemeu o garoto, se se encostando à parede. Cuspiu um pouco de sangue para tirar o excesso da boca. Sieg ofegava pesadamente, tanto pela dor como pelo susto que tomou. Por um momento, ele jurou que seria sua morte:
– O-Obrigado Eren... Mas, como você...
– Logo depois que garantiram a segurança do povo, eu voltei pra cá para ver como vocês estavam – Eren olhou para o corpo do cavaleiro morto – E vejo que cheguei bem na hora...
– Se você tivesse atrasado por um segundo – Sieg limpa a lateral da boca – Acho que seria eu que estaria estirado no chão...
Freya andou até Sieg, abraçando-o:
– Seu idiota...
–F–Freya...? – Sieg soltou um leve gemido por seu corpo estar dolorido, mas logo corou, confuso. Ela logo o soltou, dando–lhe um tapa:
– Eu falei pra você não desrespeitar as ordens! – Os olhos da garota, assim como sua voz, estavam trêmulos. Sieg esfregou a bochecha, encarando aquilo como uma punição merecida. Recusava a virar o rosto de volta, seus olhos fitavam o chão, vergonhosos pela situação que enfrentava:
–Eu sei... – Disse, em tom baixo – Eu lembro que você disse isso... Minha mente dizia que isso era errado... Mas... – Sieg encarou Freya, colocando a mão fechada no peito – Meu coração dizia que eu estava certo! – exclamou
– Você é inacreditável, Sieg... – Ela respondeu, seguindo de volta à sala do trono. Sieg escorregou os pés, sentando-se recostado à parede. Ficou de cabeça baixa, não mostrando qual era sua expressão. Eren se abaixou, ficando ao lado do amigo:
– Sieg, você...
– Me deixe sozinho, Eren...
– Hã?
– Eu vou ficar bem. Só quero... ficar sozinho por um momento. Por favor.
Eren ficou confuso. Mas respeitou o desejo do amigo:
– Claro, como quiser... – Se levantou, subindo para a sala do trono assim como Freya.
E por lá, Sieg ficou, mergulhado nos próprios pensamentos...
~*~
O som do campo de batalha ainda ecoava, porém estava em seus momentos finais. Os cavaleiros negros, mesmo estando em maior número, estavam sufocados pelo ataque dos cavaleiros de prata. Mikael continuava seu massacre, sendo visto como um verdadeiro anjo da morte para as forças de Namuras.
Tyler tomava a frente da fileira, assim como Noah, ambos exerciam seu trabalho de comandantes. Enquanto Noah eliminava os oponentes rapidamente, Tyler se divertia esquartejando os cavaleiros negros. E então, a corneta dos cavaleiros negros tocou, simbolizando o toque de retirada. Muitos dos líderes já estavam mortos. Sem liderança, os cavaleiros negros não tinham a menor chance.
Aos montes e aos gritos, as forças de Namuras corriam para o bosque. Uma vez intimidadores como um monstro, agora covardes como um bando de ratos, o exército negro se retirou do campo de batalha. Isso não impediu Tyler de fazer suas últimas vítimas antes das armaduras negras saírem por completo.
Tyler bufou, ajeitando os cabelos negros, quase que totalmente cobertos pelo vermelho, com as mãos, igualmente ensanguentadas:
– Acredito que ganhamos essa... – Ele disse, ofegante. Os urros de felicidade dos soldados tomam a planície. todos gritavam quase as mesmas coisas “Aclamado seja Venorian!”, “Vitória!”, “Pelos deuses, nós vencemos!”, “Por Venorian!”. Todos celebravam. Jogavam os elmos para cima e se abraçavam em companheirismo. Mais um dia nasceria para Venorian.
Porém, entre todos os gritos, somente um cavaleiro continuou calmo, com o olhar ao horizonte para onde os cavaleiros negros correram. Mikael estava quieto e sério, tão sério ao ponto de nem precisar retirar o elmo para mostrar a expressão. Somente o ar que o rodeava dizia tudo. Em seguida se virou, caminhando a direção dos muros, atravessando os cavaleiros que celebravam.
Alguns se ajoelhavam diante dele, louvando-o como se fosse algum tipo de deus. Mikael mostrou ignorar tudo aquilo. E então, ficou de frente a Tyler e Noah:
– Missão cumprida. Garantimos mais um dia para Venorian. – Mikael curvou a cabeça em respeito – Foi uma honra lutar com todos vocês, Capitão Daemon. Comandante Noah.
– Devemos essa vitória ao senhor – Tyler curvou-se diante do paladino – Muito obrigado por lutar tão bravamente ao lado de meros soldados. – Mikael fez um gesto para Tyler se levantar. Ele dispensava tal tratamento.
– Vocês não são meros soldados, Daemon. Vocês são todos meus irmãos de espada. E a guerra é o laço que une a todos nós. Não importa o quão difícil seja a situação – Mikael colocou as mãos no elmo, retirando-o finalmente – Eu sempre protegerei meus irmãos.
Mesmo que já tendo passado da faixa dos trinta anos, Mikael possuía uma estética de um jovem adulto preservado pelo tempo, com cabelos loiros tão claros que chegavam ao branco, profundos olhos azuis e poucos pelos no rosto, mostrando ser uma barba jovem
– Mas lembrem–se: Hoje foi apenas uma vitória. – Mikael olhou para trás, com a mesma expressão séria que fez por debaixo do elmo – A verdadeira guerra ainda está por vir...
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