Venorian
1 A Alvorada
Mais um dia amanheceu sobre os campos verdes e vivos do reino de Venorian. Os pássaros cantarolavam felizes sobre as árvores. Os peixes pulavam sobre as águas dos riachos próximos, que corriam gentilmente pelos campos. A vida fluía perfeitamente entre os animais das campinas próximas. Porém, um som acaba assustando um casal de animais silvestres: O tinir de espadas se batendo. Dois cavaleiros trajando armaduras de ferro simples trocavam golpes. Um deles empunhava uma espada e escudo enquanto o outro optou por uma espada de duas mãos, mostrando certa vantagem sobre seu oponente, que parecia confuso com os movimentos rápidos do outro. Ambos usavam elmos que tampavam os rostos, mas era possível ouvir os grunhidos de esforço e a respiração pesada. Os dois combatentes estavam tendo como audiência um grupo de outros 13 jovens trajando a mesma armadura, mas sem o elmo. Além dos jovens, um adulto de expressão rústica que examinava a luta dos dois. Era mais um dia de treinamento dos aspirantes à Cavalaria de Prata de Venorian.
– Vamos! Eu quero mais ritmo nesses movimentos! Lembrem-se do treinamento! –gritava o instrutor
Os dois combatentes estavam tão concentrados em seu confronto que praticamente ignoraram os dizeres do mestre. Um apenas focava no objetivo, que era arrancar o elmo de um dos outros com o golpe de espada. Como as espadas eram apenas para treinamento, não possuíam corte, então não havia perigo de decapitação ou qualquer desmembramento. A batalha se estendeu por mais poucos golpes até que o cavaleiro de duas mãos superou o bloqueio do escudo de seu oponente e o chutou no peito, distanciando-o perfeitamente para que sua espada de duas mãos atingisse a borda do elmo do seu oponente, em um movimento de baixo pra cima, arremessando-o para cima. O derrotado cai sentado, esfregando a cabeça no lado em que recebeu o golpe. Demonstrava estar desnorteado pelo tinir do metal em sua orelha, mas logo sua expressão mudou para surpresa quando viu a ponta da espada do seu oponente diante seus olhos. O vencedor foi declarado.
– Fim do combate! Vencedor: Aleksandru!
Uma salva de palmas sem muita energia foi feita pelos outros jovens, seguido de dizeres sobre a vitória certa do dito Aleksandru. O mesmo respirou fundo para se acalmar e retirou o elmo. Era um jovem de cabelo curto aloirado e liso. Seus olhos eram azuis como turquesa. Balançou a cabeça para secar o suor que pingava de seus cabelos e os esfregou com as mãos para arrumá-los.
– Eu já disse, instrutor... – dizia o loiro – Eu prefiro ser chamado de Sieg.
– O treinamento acabou por hoje. – exclamou, ignorando-o – Lembrem-se: Amanhã teremos os nomes para os favoritos a se juntar à cavalaria. Dispensados!
Todos se levantam e tomam seu rumo. Sieg se espreguiça, tomando seu rumo para a entrada do castelo.
~*~
Já no interior do castelo, Sieg tomava o rumo para seu dormitório.
– Deuses, que cansaço... – suspirava aquela frase – Pelo menos hoje não tem nenhum dever teórico então posso simplesmente...
Sua linha de racicínio para quando uma figura encostada no corredor chama sua atenção. Após alguns segundos, já identificou quem era. Em seguida, abriu um sorriso sarcástico
– Posso saber o que uma donzela delicada como você está fazendo sozinha nesse corredor escuro e aterrorizante... Freya?
– Corta essa, Sieg... Bom... Parabéns pela sua "grande" vitória no treinamento hoje – O tom de sarcasmo na voz da garota era evidente.
Freya Graywind, uma jovem tão masculinizada que, se não fosse por seus longos e marcantes cílios e suas bochechas rosadas, seria facilmente confundida como sendo apenas mais um cavaleiro. Pelo contrário, vinha de uma linhagem real, sendo a mais nova entre três irmãos, por isso, nunca seria a real herdeira do trono e nem se interessava por isso. Gostava de brigas, desafios, e não toda a ladainha de uma "madame da realeza". Sieg ri em escárnio.
– Bom, não era como se não fosse esperado... – Sieg fez um gesto com a cabeça, pedindo para Freya o acompanhar enquanto caminha pelo corredor – E então, posso saber o que a senhorita estava fazendo para não estar no treinamento hoje? Senti sua falta lá...
– Ocupada com mais um sermão sobre como eu deveria ser uma dama exemplar – a garota solta um suspiro – Se eu não vou ficar com aquela droga de trono, pra que me preocupar com essas idiotices?
Sieg coloca a mão atrás da cabeça:
– Vai saber. Vai ver que aos olhos dos velhotes lá de cima, você tem que ser uma princesinha desesperada por resgate e dependente de um príncipe baitola. – Sieg abre um sorriso com a imagem que veio na sua mente, deixando escapar uma risada – E, na minha opinião, isso seria muito engraçado.
– Cala a boca, seu idiota! – Freya empurra Sieg para o lado usando os ombros, fazendo-o bater contra a parede do corredor com certa força. Apesar de mulher, Freya apresentava uma força física surpreendente. Sieg esfrega o ombro dolorido.
– A-Ai! Calma aí, foi só uma piada, garota. D-deuses, Você tá bem estressada hoje... – Ele massageia o ombro – E pelo visto treinou pelas escondidas, não foi? Ai...
– E o que é que tem se eu treinei? – A jovem lança um olhar desafiador para Sieg, que abre um sorriso em resposta.
– Além do próprio instrutor, você é a única que faz eu me divertir nos treinos. Quando um de nós falta, todo mundo sabe quem vai descer a porrada no resto da turma. – Sieg se lembrou dos dizeres do resto da turma sobre sua vitória. Lembrou que, no raciocínio deles, ele seria o vencedor mesmo antes da batalha começar – E quando nós dois estamos no treinamento, as apostas são engraçadas em quem vai vencer. Engraçado, né?
– Acho que formamos um bom casal... – A garota respondeu. Após perceber o que havia dito, corou e escondeu seu rosto com ajuda de sua longa e desgrenhada franja – Digo... uma boa dupla.
Ele tropeça, pego de surpresa pelo comentário da garota:
– A-Ah sim...somos sim uma boa dupla... – Sieg desvia o olhar, esfregando a cabeça. Um silêncio desconfortável se formou sobre os dois, ambos corados. Logo o rapaz quebra o silêncio, de forma insegura – Quase esqueci: você viu o Eren por aí? Ele já acabou o treino de arqueiro?
– Não tive nem sinal dele o dia todo... – Freya continuava andando, evitando ao máximo olhar para o rosto de Sieg – Provavelmente ainda está no treino ou... Eu sei lá. – Ela limpou a garganta antes de responder.
– Que tal pagar uma visita pra ele? Ou a senhorita está muito ocupada agora com seu incrível trabalho de princesa? – Sieg coloca as mãos para trás da cabeça novamente.
– Para com isso, você sabe o quanto eu odeio quando começamos a falar sobre toda essa babaquice real... – A garota soltou outro suspiro – Será que não dá pra ficar um dia sem mencionar a palavra "princesa"? Que saco!
– Caramba, você não tá no humor hoje mesmo... – Ele deu de ombros – Tá, tanto faz, desculpa... Mas e aí, você vem comigo ou não?
– E eu lá tenho algo melhor pra fazer?
Freya e Sieg se conheciam desde que eram apenas crianças, quando o garoto e seu pai, um paladino de alto calão, mudaram-se para o castelo de Venorian, sendo apresentados ao Rei e seus três filhos. A amizade entre os dois baseava-se no quanto conseguiam provocar um ao outro, o que os divertia muito.
Ambos viram uma série de corredores até sair do outro lado do castelo, onde os arqueiros poderiam treinar sem se preocupar em atingir algum transeunte às cegas. O treinamento parecia estar no fim, quando uma última fileira de aprendizes de arqueiros toma linha na frente de alvos a 60 metros de distância. No meio da fila, estava Erendor, ou, como chamado por Sieg e Freya, Eren.
Era um jovem um pouco mais baixo que Sieg, com cabelos castanhos claros e arrumados com a franja repartida ao meio. Seus olhos eram vermelho sangue e possuía um único brinco de cruz na orelha direita. Ao comando do instrutor, todos soltam as flechas dos arcos, atingindo os alvos. Eren se mostrava um exímio arqueiro, pois foi um dos poucos que conseguiu atingir o centro perfeito do alvo. O instrutor aclama o sucesso do garoto, que logo cora em timidez. Após o instrutor dispensar a classe, Eren desviou a atenção para o portão do castelo, onde Sieg e Freya o esperavam, e acenou com um sorriso. Em seguida, correu ao encontro dos dois, carregando a aljava e o arco de madeira.
– Como você tá, queridinho do professor? – perguntou Sieg, com um sorriso sarcástico.
– Sieg! Freya! Como vão vocês? – perguntou Eren, ofegante.
– Bem... – Freya respondeu seca e rapidamente – Próxima pergunta?
Eren fica sem jeito com a resposta. Responde, cauteloso:
– U-Uuuh... Tá tudo bem, Freya? – Odiaria despertar a raiva da garota. Ainda mais sabendo que ela era mais forte que ele em questão de combate físico
– Tudo ótimo. – A jovem deu um leve puxão na bochecha de Eren, mantendo sua expressão séria.
– A- Ai! Ai!... – Soltou o garoto com o beliscão – T-tem certeza? Parece até que você... – A frase se interrompeu quando o garoto percebeu os gestos de Sieg para que ele não falasse mais ou iria se arrepender.
– Você se incomodou com um puxãozinho desses? – Freya riu em deboche – Pelo menos você ainda tem a sua mira pra te salvar...
– U-uuuh...obrigado? – Disse Eren, confuso pela mudança de humor. Esfregava a bochecha beliscada. Sieg suspirou em alívio. Odiaria ter que segurar Freya para não bater no pobre garoto de novo.
– Então... Vamos ficar parados aqui como um trio de árvores? Eu estou morrendo de tédio aqui... – Ela disse, puxando Sieg e Eren pelo braço. Sieg e Eren ficam desconcertados, mas logo voltam a andar com as próprias pernas, confusos.
– E-Ei, espera aí! – Gaguejou Eren.
– Aonde a gente vai? – Perguntou Sieg.
– Qualquer lugar longe desse buraco! – Freya continuava a puxar os dois garotos pelo braço.
A caminhada pelos corredores do castelo cessou apenas quando os três se depararam com um dos cavaleiros mais avançados do lugar, um jovem de cabelos negros e olhos amarelos, afiados e misteriosos como os de um lobo.
– Onde os três pensam que vão? Já terminaram todo o treino? – Ele disse, sua voz grave e imponente tomou conta do lugar.
– Não é da sua conta! – Freya se pronunciou – Importa o que estamos fazendo?
– Na verdade, pra mim, pouco importa. Mas, se querem ser cavaleiros, no mínimo façam seus trabalhos direito – O garoto respondeu, lançando um olhar ameaçador para ela. Sieg tomou a frente e encarou o jovem de olhos dourados.
– Você realmente é "8 ou 80", Tyler. Quando finalmente abre essa maldita boca pra falar, simplesmente é pra falar merda. Nem pra ser educado e falar "Boa tarde".
– Respeite os seus superiores, Aleksandru – O olhar do moreno voltou-se para Sieg – Você pode ser filho de Mikael, mas com essa postura, nunca será um Cavaleiro de Prata.
– Não vai ser um esquisitão como você que vai dizer isso. – Sieg bufou. Em seguida, continuou a caminhada, gesticulando com a cabeça para Freya e Eren o seguir. Parou ao lado de Tyler, encarando-o de perto e sussurrando alto – E mais: Amanhã, quando EU virar cavaleiro com as melhores notas da turma, quem vai me dever respeito é você, Sr. Boca de Siri. Lembre-se disso.
Freya puxou Eren pelo braço, segurando o riso. Eren se desconcertou, mas logo continuou a caminhada. Sieg trocou olhares com Tyler por mais alguns instantes antes de seguir os dois, respirando fundo para aliviar o stress para passar o resto do dia com seus companheiros. Sieg e Tyler possuem um histórico de rivalidade nesses anos que se conhecem. O fato dessa relação antagonista podia ser justificado por um ser um cavaleiro de prata prodígio enquanto o outro ainda era apenas um aspirante. Não há recordações de qualquer momento em que Sieg e Tyler riram estando na presença do outro. Na verdade, não há recordações de se ver Tyler sorrindo. Mas, de qualquer jeito, Sieg não deixava isso atrapalhar seu objetivo.
E em um abrir e fechar de olhos, o dia de amanhã nasce...
~ * ~
Há muito tempo, no que viria a ser Týr-Sathien como conhecemos hoje, ocorreu a criação de dois seres místicos com poderes incríveis. Dois pequenos bebês, completamente saudáveis, em berços de magia. De onde nasceram? Ninguém sabe. Alguns dizem que são a reencarnação de uma poderosa bruxa, dividida entre suas vertentes: o bem e o mal. Mitos e mitos circundam a criação delas. Eram exatamente iguais, quando nasceram. Conforme seu rápido desenvolvimento(em dois ou três anos humanos, já se tornaram adultas), foram desenvolvendo características peculiares e conhecendo mais de seus poderes mágicos.
Uma delas, de cabelos vermelho sangue e olhos brilhantes da mesma coloração, mostrou-se uma feiticeira negra. Seu nome é Astaroth. Ela é uma das vertentes: o mal. A outra, de cabelos lilás, olhos turquesa e um cristal esverdeado que lembra uma tatuagem em sua testa, é conhecida como Maya, a outra vertente: o bem. Ambas possuem magias altamente poderosas, e uma batalha as fez perder tudo.
Astaroth e Maya são irmãs e no passado, por uma luta de poder, ambas perderam a memória e por isso “renasceram”, distantes e desconhecidas. No início de tudo, eram muito poderosas e tinham inúmeros seguidores. Governavam reinos distantes, rivais e tinham poderes equivalentes, portanto, a batalha entre as duas nunca acabaria. Em uma dessas lutas, ambas tentaram utilizar magias muito poderosas, acima de seus poderes e acabaram ambas seriamente machucadas e perderam totalmente a memória, iniciando um descanso de quase 2 mil anos.
Quando acordaram dessa hibernação, estavam em lugares completamente distantes uma da outra, sem saber o que eram e pareciam adolescentes, já que não tinham mais poderes. Em seus pulsos, havia uma pequena tatuagem dourada com seus nomes.
~ * ~
Depois de alguns dias, perdida dentro de uma floresta, Maya finalmente encontrou uma saída. Deu de cara com um muro alto, cinza e feito de rochas. Intrigada, deu a volta e encontrou a entrada do castelo grande e robusto de Venorian, um dos poderosos reinos da atual Týr-Sathien. Assustada, não sabia muito bem o que fazer. Percebeu que tinham alguns guardas na frente da entrada e resolveu perguntar onde ela estava.
– Hã... Suponho que vossa mercê seja sentinela responsável pela vigilância desta fortaleza. Pergunto-me se é suscetível que o rei deste majestoso castelo me ofereça amparo nesta noite? Não me recordo de como surgi neste local. – ela disse, preocupada. Utilizava um vestido até um pouco antes do joelho, rasgado nas pontas e estava descalça, com as pernas cheias de cortes começando a cicatrizar. Seus olhos turquesa tinham um brilho triste, e suas bochechas estavam com cortes pequenos e sangue espalhado. O vestido era um modelo sem mangas e possuía um laço verde no busto, que também estava com partes rasgadas e chamuscadas.
O rapaz, confuso, olhou para a garota. Ela estava muito magra, toda suja e cheia de cortes. Rapidamente, virou-se para o guarda ao seu lado e disse:
– Harry, chame algum superior do palácio. Imagino que Adrian possa vir aqui. Diga que é urgente – e voltou-se para Maya – Você está bem? Em alguns minutos algum superior estará aqui para ouvi-la. – Maya assentiu e ficou aguardando, olhando para o chão, envergonhada.
Alguns minutos depois, Maya foi chamada por um dos guardas. Seguindo-o até uma das muitas salas do castelo, aonde se deparou com Adrian Graywind, irmão mais velho de Freya e herdeiro do trono. Seus cabelos, assim como os da irmã, eram num tom de loiro escuro e seus olhos, como de toda a família Graywind, eram uma mistura entre o azul e o verde.
– Em que posso ajudá-la? – Ele disse, olhando para uma série de pergaminhos a sua frente. Sua voz era doce e convidativa
– Olá. Ahn.. Eu sou Maya... eu acho. – sussurrou as últimas palavras para si mesma – Não me recordo de como cheguei até aqui. Encontrei-me perdida pela floresta nos últimos dias. Além disso... Hã... Possuo muitas feridas em minha pele. – Disse baixo, ruborizando, com o cabelo escondendo seu rosto. Sentia-se desconfortável com a situação, seu vestido estava curto demais e os cortes doíam bastante. “Ainda bem que ele é educado”, pensava consigo mesma.
Observava atentamente o lugar, as roupas utilizadas pelas pessoas do castelo, tudo parecia tão novo.
– Não possuo estadia, nem sei onde estou. Eu poderia trabalhar em qualquer coisa se vossa majestade puder me oferecer algum lugar para dormir. – Os olhos de Maya enchiam-se de lágrimas. "Com o que eu trabalharia? Nem sei o que posso fazer! Não me lembro de nada... Isso é tão frustrante.", sua cabeça enchia-se de pensamentos desagradáveis.
– Não se preocupe com trabalho – Adrian olhou para Maya, sorrindo – Acredito que não esteja em condições para isso. – Ele se levantou, andando em volta da sala antes de se virar para a garota novamente, dando-lhe outro sorriso acolhedor.
– Prometo que receberá o melhor tratamento durante sua estadia.
– Muito obrigada – As lágrimas escorriam os olhos de Maya. Ela estava muito feliz por ter sido acolhida. Levantou a cabeça, tirou os cabelos do rosto, enxugou as lágrimas com as costas das mãos e retribuiu um sorriso tímido para Adrian.
Adrian estava caminhando para algum lugar e Maya o seguia. O castelo, deslumbrante, possui quadros grandes e tapetes que devem valer fortunas decorando diversas salas e corredores. Caminhando tranquilamente, vinham dois rapazes no sentido oposto do corredor. Maya observava algum quadro enquanto caminhava próxima de Adrian, enquanto os dois jovens olhavam com curiosidade para ela.
Eren e Sieg caminhavam após terem tomado o café da manhã e irem ao seus campos de treinamento. Riam e debochavam de piadas internas que contavam um ao outro quando perceberam a presença do príncipe Adrian e a jovem misteriosa. Em resposta, tomaram pose de respeito e se curvaram.
– Por favor, sabem que não precisam me tratar dessa forma – Ele disse, gesticulando para que os dois voltassem a se posicionar normalmente – Por acaso não viram a Freya por aí, viram?
– Conhecendo sua irmã, deve estar fugindo de mais um daqueles sermões chatos – disse Sieg, até levar uma cotovelada de Eren na costela.
– Sieg! Olha o jeito como fala!
– Ai! Essa doeu, seu maldito!
– ...Como sempre. – Adrian riu, voltando sua atenção para Maya – Venha, vou lhe mostrar seus aposentos.
Maya observou como os dois garotos se comportavam perto de Adrian. "Freya? Oh, irmã de Adrian!" A palavra 'irmã' soa como um soco no estômago para Maya, mas ela não entende muito bem o motivo, já que não se lembra de Astaroth. Escutou com atenção o diálogo e deu uma risada tímida quando aparentemente Sieg terminou de falar. Achou os garotos simpáticos. Ficou imaginando como seria a irmã de Adrian, se ela seria agitada como os garotos ou mais parecida com a personalidade calma do príncipe.
– Oi! Eu sou Maya! – disse alegremente aos dois e logo se virou e concordou com Adrian, esperando para segui-lo pelo castelo novamente. A garota seguiu Adrian por uma série de corredores até um quarto simples, com apenas uma cama e um gaveteiro, ambos pequenos.
– Não é muita coisa, mas é o que posso lhe oferecer – Ele disse, olhando em volta – Se precisar de algo, deixarei um guarda sempre por perto, assim poderei saber. Diferente do atual rei, Adrian era compreensivo e preferia ganhar guerras com palavras a ganhá-las com exércitos.
Chegando ao quarto, Maya ficou ternamente agradecida pelo cuidado de Adrian.
– Muito obrigada, Adrian. Não sei como te agradecer. – Disse, sorrindo. Em um impulso, Maya abraçou-o, logo se afastando e ficando com o rosto vermelho. – Oh, desculpe – olhando para o chão, enrolava as pontas do cabelo com as mãos, em sinal de nervosismo.
– N-Não tem problema... – ele gaguejou, corado – Maya. – Ele sorriu ao dizer o nome da garota.
Maya olhou para Adrian, ainda com o rosto vermelho e um pouco de preocupação em seu olhar
– Adrian, onde posso encontrar... Algum equipamento de primeiros socorros? Preciso limpar esses ferimentos – Engoliu em seco, imaginando que isso seria doloroso, mas não seria nada bom ter uma infecção. Ainda haviam pequenos cortes abertos em suas pernas.
– Acredito que tenha um naquela gaveta... Mas posso chamar alguém pra fazer isso por você — Adrian ainda estava corado e gaguejando um pouco.
– Obrigada novamente, mas prefiro limpá-los sozinha... – Sorriu para Adrian – Ei, estou muito, muito agradecida. Espero realmente que possa trabalhar em algo para recompensá-lo quando estiver... Hã... Sem esses machucados. – Maya fez uma reverência para o príncipe e se dirigiu até a cômoda do quarto, pegando uma pequena caixa de primeiros socorros dentro da gaveta. Sentou-se na cama e abriu-a, separando algumas coisas para limpar os ferimentos.
Pegou um algodão, molhando-o com o líquido antiséptico e colocou-o sobre um dos cortes da perna, soltando um suspiro de dor, mas continuou até limpar todo o sangue que havia ali, fazendo o mesmo com os outros cortes das pernas. Ainda haviam alguns cortes no rosto. Adrian dirigiu-se até a porta, abrindo-a com cuidado.
– Se cuide... – Ele disse antes de sair do quarto.
Maya pegou um pequeno espelho dentro da caixa e terminou com os cortes que haviam no rosto, então todos já estavam limpos. Guardou a caixa e deitou-se na cama. Estava sem dormir há alguns dias. Caiu em sono profundo.
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