Vendetta
14 Yurika
Yurika
Ela soube que tudo havia terminado quando o telefone foi desligado. Suas mãos não tremeram e seus olhos não choraram. Yurika apenas encarou as próprias mãos antes de ficar em pé. Ela tinha meia hora até receber a visita de Yamamoto, então não havia tempo a perder. A jovem moça cruzou a sala de estar e seguiu pelo curto corredor até seu banheiro. Eu preciso estar bonita esta noite. Eu estava bonita quando ele se confessou.
A água da banheira estava quente quando Yurika entrou. Seus olhos se fecharam e seu corpo relaxou quase imediatamente. Nos últimos dias ela esteve bastante ansiosa e tensa e, mesmo sabendo que a parte realmente relevante ainda estava por vir, a jovem se sentia menos cansada e mais alerta. A espuma começou a ser formada pouco a pouco e o cheiro de jasmim inundou o banheiro, fazendo-a abrir os olhos e esboçar um meio sorriso. Ele sempre disse que a banheira era pequena demais. Suas pernas mal conseguiam entrar neste espaço. Yurika riu sozinha, lembrando-se da última vez que tomou um banho de banheira ao lado do Guardião da Chuva. Ele lavou meus cabelos e elogiou meu corte novo. Ele sempre gostou de cabelos curtos. Aquela primeira lembrança não chegou a machucar, mas Yurika sabia que seria uma questão de tempo até que sua mente começasse a lhe mostrar uma infinidade de momentos felizes, e então a dor apareceria. A jovem balançou a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos. Eu preciso me focar no banho. Eu preciso estar bonita para ele.
A escolha para aquela noite foi um simples, mas bonito, vestido de verão azul claro. Ele batia abaixo dos joelhos, e deixava um pouco à mostra seu belo colo. Seus curtos cabelos negros foram penteados e presos ao lado por uma presilha em forma de estrela. Ela não usou maquiagem, apenas um simples brilho nos lábios. Yamamoto não gostava de nada exagerado e durante aqueles anos o moreno sempre elogiou a maneira como Yurika conseguia ser bonita sem precisa fazer basicamente nada.
Quando a escova foi pousada sobre a cama, a campainha tocou.
Até aquele momento a jovem mulher havia se comportado bem, sendo senhora de suas ações e sentimentos. Entretanto, ela mentiria se dissesse que seu coração não pulou uma batida ou que suas mãos não se fecharam sobre seus joelhos. Respire. Apenas respire. Você pode fazer isso. Você tem que fazer isso. Suas pernas a deixaram em pé, e com passos lentos, mas firmes, Yurika deixou o quarto e caminhou até a sala. A silueta do Guardião da Chuva foi facilmente percebida através do detalhe de vidro da porta e naquele momento a jovem moça engoliu seco. Seus olhos se fecharam e, após respirar fundo, a porta foi aberta.
Yurika nunca esqueceria o dia que Yamamoto se confessou para ela.
Era um dia de primavera, no começo de maio. O céu estava claro e a temperatura levemente abafada, uma espécie de amostra grátis do que seria o verão japonês. Eu estava indo para casa quando ele apareceu. Seu nome foi chamado várias vezes, mas antes de se virar Yurika já sabia quem a chamava. Eu o conheci através de Kyoko-chan. O amigo sorridente e engraçado de Kyoko-chan. Eles haviam frequentado o mesmo colégio, mas depois de adultos se viram duas ou três vezes, e em todos esses momentos a jovem mulher teve uma excelente impressão do alto moreno que vivia com um sorriso no rosto. Yamamoto se confessou naquela tarde e a chamou para sair. Yurika só deu a resposta após o encontro e não teria como não ser positiva. Ele me levou ao parque, segurou a minha mão e não riu quando eu disse que tinha medo de altura. Ele corou e riu quando eu o aceitei, dizendo que eu o havia feito o homem mais feliz do mundo. Aquela lembrança terminou quando a porta foi aberta. O homem que a esperava do outro lado era o mesmo que havia se confessado há dois anos. Apenas fisicamente. Os olhos, a expressão e a postura não eram do mesmo moreno. Os lábios da jovem mulher murmuraram um baixo "Boa noite", mas sua mente apenas se questionava o que havia mudado. Quando havia mudado e por quê? Quando eu deixei de ser suficiente?
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Yamamoto entrou e sentou-se em seu lugar usual, na ponta do sofá de três lugares. Yurika foi até a cozinha e trouxe o chá que já estava pronto, pousando duas xícaras na mesinha de centro. O Guardião da Chuva perguntou como ela estava e como tinha passado, sorrindo sincero após ouvir as respostas.
"Você parece bem." A jovem mulher sorriu. Ele parecia bem até demais. Havia um alegre brilho em seus olhos, e ela desconfiou que o sorriso naqueles lábios fosse mais do que mera formalidade. Ele está feliz consigo mesmo.
"Eu estou bem." O moreno deu um gole no chá. O sorriso desapareceu de seus lábios, dando lugar a uma rara expressão séria. Em todos aqueles anos Yamamoto mostrou poucas vezes aquele tipo de expressão.
Por alguns segundos o silêncio foi tudo o que envolveu aquelas duas pessoas. Há dois meses aquela cena jamais teria acontecido. O Guardião da Chuva era inquieto. Ele não conseguia manter suas mãos longe de Yurika, sempre tentando tocá-la ou apertá-la. Aquilo rendia muitos problemas, principalmente na hora de preparar as refeições. O moreno sempre inventava alguma desculpa para ajudar, mas a verdade era que o ex-capitão do time de baseball queria apenas estar perto e mostrar-se presente. Porém, como explicar aquela total falta de contato, ou o simples fato de Yamamoto manter-se fisicamente afastado, as mãos firmes na xícara, sem nenhuma demonstração de afeto?
"Nós precisamos conversar, Yurika." A xícara foi pousada na mesinha e o moreno virou-se. Seus olhos estavam sérios, mas ainda brilhantes.
"Eu sei." A jovem mulher não havia tocado em seu chá, mas naquele momento ela achou que talvez fosse uma boa ideia bebericar um ou dois goles.
Yurika sabia que não teria de esperar muito. No momento em que Yamamoto virou-se melhor no sofá e ergueu os olhos, ela soube que os seus dois anos de relacionamento haviam terminado. A jovem mulher não diria que seus sonhos e esperanças foram quebrados, não naquele momento. Yurika já desconfiava que alguma coisa estivesse errada, e, a partir do momento em que a atenção do Guardião da Chuva deixou de ser exclusivamente sua, ela soube que era hora de preparar o seu adeus.
"Você me disse para retornar a esta casa somente quando eu tivesse uma resposta; somente quando meus sentimentos estivessem claros."
"Eu disse."
Houve uma pausa. O moreno umedeceu os lábios e o coração de Yurika pulou uma batida. Acabou...
"Eu vim terminar nosso relacionamento." As palavras saíram sérias. Os olhos castanhos demonstravam claramente aquela seriedade, exatamente como no dia em que Yamamoto se confessou. Apesar da personalidade brincalhona, não havia sinal de que ele estava brincando. "E... Eu estou apaixonado por outra pessoa."
Eu sabia. Yurika sabia. Takeshi jamais estaria aqui se não fosse sério, real. Ele jamais me deixaria por outro motivo. A jovem moça abaixou os olhos, sentindo que acabaria não conseguindo se conter. Ela sentiu quando as lágrimas encheram seus olhos, mas suas mãos foram mais rápidas. Eu não posso me mostrar fraca. Eu sabia que isso aconteceria. Eu sabia que ele viria para avisar que estaria me deixando. Mas dói. A jovem ergueu o rosto e respirou fundo. O Guardião da Chuva a olhou com olhos que diziam claramente que ele sentia muito. Você deveria estar me pedindo em casamento, dizendo o quanto me ama. Como gostaria de ter muitos filhos; o seu próprio time de baseball. Você não deveria estar aqui dizendo que ama outra mulher.
"Yurika, eu realmente sinto muito..."
"E-Eu sei." As lágrimas caíram e não houve nada que ela pudesse fazer para impedi-las. Elas desceram quentes e gorduchas pelo rosto da jovem mulher. Entretanto, quando o moreno fez menção de aproximar-se, Yurika levantou a mão, balançando a cabeça em negativo. "Ela está grávida?"
"N-Não..." Yamamoto juntou as sobrancelhas, sem compreender.
"Você nunca dormiu com ela?" A jovem não sabia por que fazia aquelas perguntas. No fundo Yurika não queria saber de nada, mas as lágrimas não paravam de cair e seu peito doía. Eu quero a verdade.
"Não... Yurika, eu nunca te traí. Eu estou aqui justamente tentando explicar isso."
Mas você irá dormir com ela, não é? As lágrimas continuaram a cair. A jovem ficou em pé e correu até o banheiro. Era impossível. Era impossível manter a compostura quando o homem que ela amava dizia que a estava deixando para ficar com outra pessoa. Takeshi foi meu primeiro tudo. Eu não sabia nada até conhecê-lo. Yurika sentiu quando suas pernas cederam e ela sentou-se de costas para a porta fechada. O choro a atingiu de repente, fazendo-a esconder o rosto entre os joelhos. Por longos minutos, que pareceram horas, a jovem permitiu-se extravasar aquela dor e mostrar um lado descomposto que ela nunca havia mostrado antes. Ela sabia que o moreno estava do outro lado da porta, provavelmente em pé e de braços cruzados, esperando que ela saísse para terem uma conversa definitiva.
"Yurika. Eu voltarei outro dia. Avise-me quando quiser conversar."
A voz de Yamamoto soou baixa, mas apenas constatou o que Yurika desconfiava: ele estava realmente do outro lado da porta. Entretanto, assim que ouviu aquelas palavras, a jovem ficou em pé e pediu que ele esperasse. Yurika lavou o rosto várias vezes antes de ter coragem de se encarar no espelho do banheiro. Eu pareço uma idiota. Se ele for embora eu não terei coragem de procurá-lo novamente e nunca terminaremos de verdade. A porta do banheiro foi aberta, mas o Guardião da Chuva não estava lá. Yurika foi encontrá-lo na sala, sentado no mesmo lugar. O moreno a olhou sério e ficou em pé. Seu rosto estava vermelho e seus olhos úmidos com lágrimas. A jovem fez uma pequena reverência, desculpando-se pela cena.
"Eu realmente sinto muito e queria que as coisas tivessem acontecido de maneira diferente."
"Eu sei." Yurika forçou um sorriso. Ela recebeu aquele homem com um sorriso e se despediria com um sorriso. "Eu sei que você não estaria aqui se não fosse sério."
"Eu nunca quis magoá-la, Yurika. Para mim você sempre será importante. Eu nunca vou esquecer o tempo que passamos juntos."
"Então, por quê? Por que você está me deixando, Takeshi? O que ela tem de diferente? O que ela pode te oferecer que eu não posso?"
As lágrimas voltaram a cair, mas dessa vez ela não fugiria. Ela ouviria até o final.
Yamamoto abaixou os olhos, demonstrando claramente que não responderia. Aquela atitude deixou Yurika levemente irritada. Ele está protegendo a outra mulher. Mesmo no final Takeshi continua sendo Takeshi. Ele jamais falaria de outra pessoa. A jovem mulher limpou o rosto e respirou fundo.
"Certo, nós terminamos."
"Eu quero ter certeza de que você ficará bem."
"Eu ficarei. Não hoje, mas amanhã. Você não precisa mais se preocupar comigo."
"Eu sempre vou me preocupar com você, Yurika, e você sabe disso. O que nós tivemos foi uma das melhores coisas que já me aconteceu."
"Eu não quero mais ouvir essas coisas. Eu não quero mais ouvir o quão boa eu sou, porque eu sei que não sou o suficiente. Se eu fosse realmente boa você não estaria me trocando por outra."
O Guardião da Chuva não respondeu. Seu olhar estava baixo e era visível a maneira como aquela conversa o deixava desconfortável. Tudo ao redor do moreno basicamente descrevia um silencioso pedido de desculpas, e Yurika sabia disso melhor do que ninguém. Eles estavam juntos há dois anos, mas antes disso eles foram colegas de sala e, mesmo de longe, ela sabia como aquele rapaz se comportava.
"Existe algo que eu possa fazer para te fazer mudar de ideia?" As palavras deixaram os lábios da jovem sem que ela notasse. Intimamente Yurika não gostaria de estar dizendo aquilo. Não era de seu feitio se mostrar fraca ou até mesmo implorar certas coisas. Ela era bonita e inteligente. Todos os seus relacionamentos anteriores terminaram por sua própria opção. Takeshi é diferente. A jovem sabia. Ele é tudo o que eu sempre quis.
"Não." A resposta saiu baixa, mas direta. Os olhos castanhos se ergueram. Eles estavam úmidos com lágrimas. "Eu sinto muito Yurika, mas eu não pretendo retornar a esta casa. Eu prometi que seria honesto com você e que te daria a minha resposta. E é isso que estou fazendo."
As lágrimas voltaram a escorrer e Yurika precisou virar o rosto para poder enxugá-las. Seu coração estava apertado, sua garganta seca e tudo o que ela queria era deixar aquela onda de emoções afogá-la, mas sabia que só conseguiria fazer isso a sós. Entretanto, a jovem tinha conhecimento de que, no momento em que Yamamoto deixasse aquela sala, ele nunca mais retornaria. Não como seu adorável namorado. Não como seu carinhoso amante. E não como seu fiel amigo. Acabou. Yurika teve certeza disso quando ergueu os olhos e viu o Guardião da Chuva enxugar discretamente os olhos. Ele está sofrendo também. Aquela visão a deixou reconfortada, mesmo que no fundo a jovem soubesse que aquele sentimento era egoísta, mas também humano. Sua mão direita fechou-se em forma de punho e Yurika respirou fundo.
"Obrigada por ter sido honesto, Takeshi." A voz saiu chorosa, ela tinha consciência disso, mas não teria como ser diferente. "Mas eu quero ficar sozinha agora."
O moreno entreabriu os lábios, mas aquele gesto durou um breve momento. Yamamoto meneou a cabeça em positivo, passando novamente a mão pelos cabelos e se afastando devagar. A jovem moça permaneceu no mesmo lugar, segurando o máximo possível o choro enquanto encarava as costas daquele que ela havia chamado de seu por tanto tempo. Quando a porta foi fechada, Yurika abaixou os olhos, mas continuou na mesma posição. Somente quando ouviu o carro sendo ligado foi que seus joelhos cederam e a avalanche de emoções que ela havia acumulado durante todas aquelas semanas a possuiu. A jovem sabia. Ela soube desde o dia em que o moreno a levou para jantar fora, há algumas semanas, que havia algo diferente. Em um dia Yamamoto era agradável e atencioso; no outro, o Guardião da Chuva havia se tornado distante, evitando tocá-la ou estar a sós com ela. Eu sabia que existia outra pessoa. Yurika encostou a testa ao chão e abraçou seus próprios braços enquanto o choro deixava sua garganta de maneira desesperada. Eles tinham planos, mas, agora, ela precisaria aprender a planejar sozinha.
Continua...
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