Vendetta
15 Xanxus
Xanxus
O lado esquerdo de seu rosto ainda doía, assim como seu abdômen e perna esquerda. Onde o golpe acertara havia uma marca vermelha que certamente se tornaria escura. Se não fossem as cicatrizes que marcavam sua face, Xanxus provavelmente teria motivos para se preocupar... ou não. O Chefe da varia cruzou as pernas e se serviu com outra dose de whisky. Aquele seria seu terceiro corpo, mas a bebida parecia não estar fazendo o efeito desejado. As lembranças da noite anterior ainda borbulhavam em sua mente, e o álcool já deveria tê-lo feito esquecer. Os olhos castanhos se fecharam e era quase como se ele pudesse rever o quarto, a cama e a visão de Squalo dormindo... nu, vulnerável e delicioso.
"O que você quer?" A voz do Vice-Líder soou alta, e, embora os olhos estivessem fechados, Xanxus sabia que ele estava acordado e alerta e provavelmente notou sua presença muito antes da porta ter sido... violada.
"Você."
A resposta foi bem óbvia, e se tinha algo que o Chefe da Varia detestava era de precisar ser redundante. O que ele estaria fazendo no meio da noite depois de ter invadido o quarto do homem de longos cabelos prateados? O moreno queria aquele homem, naquele instante e daquele jeito em que estava. Squalo abriu os olhos e lançou um olhar de puro asco. A mão que estava debaixo do travesseiro mostrou a bainha de uma espada que estivera discretamente escondida. Um sorriso divertido cruzou os lábios do Chefe da Varia e ele sentiu seu sangue ferver com a ideia de precisar caçar sua presa. O sabor da vitória seria muito mais doce.
A espada cortou o ar sem deixar rastro ou fazer barulho. O moreno havia jogado o corpo para trás um segundo antes da lâmina tentar tocar seu rosto. O quarto estava levemente escuro, mas possuía luz noturna suficiente para clarear o que deveria ser visto. A figura pálida e nua do Vice-Líder quase brilhava por causa da lua cheia que invadia a janela. Xanxus sentiu a boca encher-se de saliva e seu baixo ventre reagiu prontamente àquela exposição toda. O homem de longos cabelos prateados, por sua vez, não parecia compartilhar daquele pensamento. Sua expressão era séria e decidida, e pela maneira como segurava a espada, ele certamente não estava brincando.
"Você pode lutar o quanto quiser, mas eu vou possuí-lo nesta cama como venho fazendo pelos últimos anos." Xanxus retirou a arma da cintura e a apontou.
"A única coisa que você terá de mim será mais uma cicatriz para adicionar à sua coleção." Squalo segurou a espada com mais força.
"Esta valerá a pena."
Os dois partiram para o ataque ao mesmo tempo, encontrando-se no caminho. O Chefe da Varia usou toda a força que possuía no braço direito para derrubar o Vice-Líder, fazendo-o cair de costas sobre a cama. O barulho oco que a peça de madeira fez foi seguida pelas tentativas infrutíferas do homem de cabelos prateados de tossir. O moreno o prendia pelo pescoço com o antebraço, mas a sua vantagem durou apenas o suficiente para que a espada passasse voando por seu rosto novamente. Dessa vez ele sentiu o gosto da lâmina, que beijou sua bochecha como uma amante possessiva. O sangue escorreu fino pelo machucado, mas aquilo não era importante. A parte relevante seria se livrar daquele maldito pedaço de metal, que parecia ganhar vida própria nas mãos de Squalo.
Xanxus tinha a vantagem de estar por cima, mas o Vice-Líder era tão rápido e esguio como uma cobra, então seus movimentos pareciam grandes e desajeitados demais em comparação. Por duas vezes ele tentou agarrar um dos ombros do homem que estava por baixo, e por suas vezes o resultado foi o mesmo. Não haveria uma terceira tentativa, o moreno sabia, e isso ficou extremamente claro quando o homem de cabelos prateados o chutou no abdômen com tanta força que o fez voar para o outro lado do quarto, batendo as costas na parede. O barulho foi alto, mas mais alto ainda foi a ira de Xanxus ao bater com o rosto no chão.
O gosto de ferro encheu sua boca e ele ficou em pé de maneira devagar e sem pressa. O Chefe da Varia cuspiu ao chão e virou o pescoço para a direita e depois para a esquerda, sentindo os estalos. A arma que estava em sua mão foi apontada e quatro tiros ecoaram pelo quarto. Nenhum deles acertou o alvo, mas aquela havia sido sua intenção. Squalo estava sentado na cama, a espada em mãos e os olhos arregalados. Ele achou que eu não fosse atirar, o moreno quase sorriu com aquele pensamento, ele acha que eu não estou falando sério. O quinto disparo, porém, foi intencional e teria acertado a cabeça do Vice-Líder se a lâmina da espada não tivesse desviado seu percurso. Entretanto, aquele precioso segundo era tudo o que Xanxus precisava e ele utilizou aquela vantagem sem nenhum escrúpulo ou receio. A espada dançou no ar e ele dançou no chão, aparecendo à frente do homem de cabelos prateados em uma velocidade espantosa. Com um simples movimento o Chefe da Varia fez a espada voar para o outro lado, caindo embaixo da janela. Sem a única coisa que pudesse defendê-lo, Squalo utilizou a mão boa para acertar um soco no rosto do moreno, mas aquilo lhe custaria caro. Xanxus deu três tapas na bela e furiosa face do Vice-Líder. Sua mão dançou de frente e de costas na pele pálida, até que aquele homem pudesse entender a situação em que estava metido. Os olhos do homem de cabelos prateados o encaravam com ódio e por um mero instante o Chefe da Varia ficou surpreso. Quando sua mão segurou o pescoço de Squalo, os pontapés e socos retornaram, agora com o dobro de força.
Por segundos, que pareceram horas, o Vice-Líder lutou como se sua vida dependesse daquilo. Nunca o moreno viu seu amante tão arredio ou violento. Até parecia que ele não queria aquilo. Os lábios de Xanxus se alargaram em um sorriso e a arma voltou para sua cintura. A mão livre abriu seu cinto com pressa e aquele gesto levou o homem de cabelos prateados para um verdadeiro frenesi. A força dos golpes se tornou maior e junto com a agressão física veio a verbal. Palavras sujas e coisas absurdas escorreram por aqueles lábios. O Chefe da Varia gargalhava, achando tudo aquilo quase verdadeiro. Suas mãos estavam nos ombros de Squalo, prestes a fazê-lo virar-se, quando uma frase em particular chegou aos seus ouvidos e então tudo mudou.
O moreno não era uma pessoa que se importava com o que diziam ao seu respeito ou que mudaria suas atitudes por uma boa ou má impressão que terceiros pudessem ter. Porém, aquelas palavras chegaram até ele, fazendo suas sobrancelhas se juntarem. O que foi aquilo?
"Do que você me chamou, Lixo?" Os lábios do Vice-Líder tremiam, mas ele não respondeu. Os olhos que o encaravam pareciam amedrontados, e por um momento Xanxus achou ter visto uma lágrima escorrer pelo canto do olho esquerdo. Aquilo certamente era um engano. "Você acha que eu vou violentá-lo?"
O segundo momento de silêncio apenas confirmou o primeiro. O Chefe da Varia permaneceu imóvel por alguns segundos, digerindo o que havia acabado de acontecer. Suas mãos soltaram lentamente os ombros do homem que estava por baixo e seu corpo deixou a cama quase em câmera lenta. Naquela ocasião ele não sentiu a dor em seu rosto, abdômen ou perna. O zíper de sua calça foi fechado, assim como seu cinto. O moreno não olhou para trás quando deixou o quarto, seguindo até a mesma porta que ele havia praticamente derrubado ao entrar. Seu quarto ficava há poucos metros, mas Xanxus não conseguiu caminhar até lá. Os passos o levaram até a saída da mansão e ele entrou no primeiro carro disponível, dando partida e decidido a deixar a propriedade.
A expressão no rosto de Squalo atormentou o Chefe da Varia durante aquelas vinte e quatro horas. Ele não havia pregado no sono. Não, ele não ousava fazer isso, pois sabia muito bem que seria perseguido por flashbacks desagradáveis em que ele parecia o vilão da história. O quarto copo de whisky desceu quase dormente por sua garganta, porém, aqueles sentimentos ainda estavam ali. O Sol nasceria a qualquer momento e com o novo dia viriam horas intermináveis e insuportáveis ao lado de gente que ele detestava, e, o pior, precisando ficar ao lado daquele que o havia acusado de utilizar violência para conseguir certas coisas. Como se eu fosse um homem que precisasse disso.
O dia chegou, mas Xanxus não estava acordado para ver tal espetáculo.
Após retornar à mansão, no meio da madrugada do dia seguinte, e trazer consigo uma garrafa de whisky, o sono veio naturalmente, e por algumas horas ele se desligou totalmente do mundo. Seu momento de sossego, porém, foi interrompido por um balançar forte e violento em seu ombro, fazendo-o ficar alerta praticamente de imediato. Sua mão segurou o pulso daquele que o importunava, torcendo-o e fazendo a pessoa cair de joelhos. A voz de Bell chegou aos seus ouvidos antes que seus olhos pudessem estar abertos, e, ao perceber que quem o despertava não era quem sua mente pensava, o pulso foi solto e o Chefe da Varia voltou a fechar os olhos.
Os passos de Bell foram abafados pelo tapete, mas o moreno ouviu claramente quando ele fechou a porta do quarto e comunicou a quem quer que estivesse no corredor que "Era inútil! O Chefe está um farrapo!". Maldito! Eu pareço melhor do que você em qualquer circunstância! A resposta foi um suspiro cansado, e quando a voz de Lussuria chegou até os ouvidos de Xanxus, avisando que o acordaria com um “doce e profundo beijo”, o Chefe da Varia ficou em pé no mesmo instante, caminhando na direção do banheiro como se de repente algo muito importante o tivesse feito levantar. O banho foi rápido e frio e clareou a mente do moreno, que estava ofuscada pela ressaca e a total falta de vontade de comparecer aonde ele deveria ir naquela manhã. Lussuria e Bell não estavam mais no corredor quando Xanxus saiu, e mesmo que estivessem ele simplesmente não se importaria. Sua troca de roupa foi rápida e em minutos ele descia as escadas. Leviathan o esperava na ponta da escada, visivelmente tenso por causa de sua “missão”.
"Tem certeza de que não quer o café da manhã?" Lussuria estava em frente à sala de jantar quando o Chefe da Varia passou. O Guardião do Sol vestia um estúpido avental cor de rosa e intimamente Xanxus torcia para que ele não estivesse nu por baixo daquele pedaço de pano. "Você pode sentir fome no caminho, querido!"
O moreno ignorou totalmente aquela parte, não somente pela preocupação desnecessária, mas também por causa da terrível visão. Leviathan caminhava atrás, cada passo parecendo um martírio. Ele não está aqui... aquele Lixo.
"P-Por favor, Chefe." O Guardião do Trovão abriu a porta de maneira desajeitada e fez sinal para que seu Chefe entrasse.
Xanxus sentou-se e olhou para o lado, pousando os olhos em Mammon. O Guardião da Névoa tinha metade do rosto encoberto pelo capuz e parecia olhar para frente.
"Tem certeza de que não quer que eu o acompanhe, Chefe? Pode ser perigoso. Pode ser uma cilada."
"Saia."
Em uma piscada de olhos Mammon desapareceu, como se nunca tivesse estado ali. Levi sentou-se no banco do motorista e deu partida no carro, e então o Chefe da Varia pôde finalmente recostar-se ao banco e fechar os olhos. A ideia de que aquele encontro seria dolorosamente inútil passou por sua mente desde que ouviu aquelas palavras deixarem os lábios de Squalo, isso há quatro dias. Pois, embora a situação estivesse um pouco complicada entre eles, o moreno sabia que encontraria o Guardião da Chuva no lugar em que estava sendo dirigido, e, apesar disso deixá-lo furioso, não haveria outra maneira. Quando isso terminar eu colocarei aquele Lixo em seu devido lugar. Com um largo e satisfeito sorriso Xanxus dormiu novamente.
x
A mansão da Família Cavallone era localizada afastada do centro de Roma. A rodovia que a ligava ao mundo era cruzada quase por inteiro e em determinada parte havia uma segunda alternativa, um caminho à direita que levaria à casa principal. A partir daquele pequeno desvio o restante era propriedade de uma das maiores Famílias mafiosa da Itália. O Chefe da Varia, em particular, detestava Dino Cavallone. Ele poderia enumerar dezenas ou centenas de motivos para tal repúdio, mas sabia que no final ainda não seria suficiente.
O carro saiu da rodovia e seguiu pela direita, e foi somente nesse momento que o moreno acordou. Ele estivera pouquíssimas vezes na mansão do louro, mas se lembrava bem do caminho e do bem cuidado entorno. As árvores eram vistosas, a estrada bem pavimentada e todo aquele excessivo zelo fizeram Xanxus sentir o estômago revirar. Eles seguiriam por aquele caminho por pouco mais de dez minutos, e então avistariam o largo portão de ferro guardado por dois cavalos alados, que pareciam saudar os visitantes com um grande e imponente "C". A visão do portão, porém, não o animou. Havia meia dúzia de subordinados da Família na entrada, e todos, sem exceção, não pareceram felizes em vê-lo. Os dois cavalos se afastaram quando o portão se abriu, e então o veículo pôde seguir caminho. A mansão dos Cavallone surgiu no campo de visão após alguns minutos e o Chefe da Varia sentou-se melhor no banco. Era hora do show.
O Braço Direito dos Cavallone foi quem abriu a porta do carro. Romário fez uma leve reverência quando o moreno pisou em frente à mansão, anunciando que o dono da casa o esperava no escritório. Xanxus não esperou por Leviathan, muito menos por algum convite para entrar. A porta da mansão foi aberta antes que ele terminasse de subir os cinco degraus de mármore, e mais subordinados o saudaram. A casa do Chefe dos Cavallone possuía dois andares, mas era pequena se comparada à mansão do Líder da Varia. Entretanto, era dentro da casa que os frequentadores realmente podiam ver um pouco do que Dino ostentava. A riqueza e poder eram facilmente vistos através da minuciosa decoração do hall, com seu largo e brilhante lustre que pendia sobre o centro, como um Sol. O caríssimo tapete de veludo vermelho que forrava a escadaria que levava ao segundo andar – andar este que o moreno nunca visitou e não queria nem ao menos saber o que continha. Havia belos e caros quadros nas paredes, estátuas e uma infinidade de objetos de luxo. Xanxus conhecia todos e nenhum. Ele não se importava se o louro escolhia a cor azul ao invés da verde ou se sua sala de jantar possuía mesas e cadeiras. O que realmente lhe interessava era cruzar aquele curto caminho, resolver aquela situação tediosa, e voltar para sua larga mansão.
Romário o guiou, mas o Chefe da Varia só notou que tinha companhia ao parar em frente a uma grande porta de madeira escura. O Braço Direito sorriu e bateu três vezes na superfície antes de girar a maçaneta e pedir que o moreno entrasse. Xanxus pisou dentro do escritório, sentindo a porta sendo fechada em suas costas. Ele já tinha estado naquele local. Ele sabia onde se localizava cada móvel daquela sala. A mesa, as estantes, o tapete e as poltronas. Ele também soube, quase de imediato, que o dono da casa estava recostado à mesa e de braços cruzados. O Chefe da Varia pensou ter ouvido um "Bom dia, Xanxus!" dito pelos lábios de Dino, mas não teve certeza. Ele não estava prestando atenção naquele homem. Ele não se importava em ser bem recebido ou cumprimentado pelo Chefe dos Cavallone. Porque, no exato momento em que pisou no escritório, seus olhos foram automaticamente fisgados pela pessoa sentada em uma das poltronas.
O cabelo era longo... tão longo que descia pelas costas como uma cascata de finos fios prateados que mais lembravam uma queda de gelo. A roupa que o homem usava era escura, mas não eram suas usuais calças e jaquetas de couro, mas sim um simples conjunto social negro. O moreno sabia que aquela pessoa era seu Braço Direito, mas havia algo diferente... algo novo. O Guardião da Chuva estava de costas, mas assim que a porta se fechou, ele ficou em pé e virou-se na direção do novo convidado. Foi somente naquele instante que Xanxus entendeu porque sentiu um estranho sentimento saudosista ao encarar o homem de cabelos prateados. Ele parece... mais velho.
"Olá, Xanxus."
A voz era a mesma. Rouca, sedosa e levemente alta, mas o homem que a proferia, embora possuísse quase a mesma aparência de Squalo, também esbanjava uma estranha e madura beleza que somente os anos seriam capazes de oferecer. As palavras exatas faltaram aos lábios do Chefe da Varia, pois mesmo que soubesse que estava ali somente para ouvir, ele sentia que deveria dizer alguma coisa.
"Podemos começar?" Dino desencostou-se da mesa e somente naquele instante o moreno se deu conta de que estava em pé. Seus passos o levaram até uma das poltronas e ele se sentou, tirando os olhos do Guardião da Chuva, mesmo a contragosto. "Prometo ser breve."
O Chefe dos Cavallone sentou-se em sua cadeira atrás da mesa e sorriu. Algo naquele sorriso deixou Xanxus desconfortável, como se o homem sentado à pouco mais de dois metros soubesse de algo que ele não sabia. A expressão no rosto do Líder da Varia tornou-se ainda mais séria.
"Vá direto ao assunto, Cavallone. Eu não tenho tempo para seus jogos."
O italiano desculpou-se sem ter motivo, e retirou uma folha de papel de dentro de uma das gavetas.
"Nos encontraremos na próxima segunda-feira às 10hs da manhã. O local será a mansão, em Nápoles. Eu enviei o mapa através de Squalo... quero dizer, o outro Squalo."
Xanxus estudou Dino com olhos atentos e levemente apertados. Ele já havia ouvido aquela conversa antes, mas dos lábios cheios de arrogância de seu Braço Direito. O Chefe dos Cavallone se reuniria pessoalmente em Nápoles para tratar com os Moretti. Haveria cerca de cinquenta homens da própria Família fazendo sua segurança, porém, eles estariam em território inimigo. Bell e Mammon deveriam se infiltrar disfarçadamente como membros dos Cavallone até a chegada do restante da Família. A função da Varia, porém, não era assim tão nobre e o moreno só havia aceitado o trabalho porque sabia que poderia se permitir ir um pouco mais além.
"Deixe-me ver se entendi..." O Líder da Varia cruzou as pernas e apoiou o cotovelo no braço da confortável poltrona. "Você me quer no perímetro, a tempo suficiente para sua conversa fiada terminar e então poderei fazer o que eu quiser?"
"Esse foi o acordo." O louro sorriu, mas não parecia sincero. Por dentro Dino deveria estar odiando aquela parte do plano. "Os Moretti usarão o garoto como desculpa para iniciar uma disputa. Eles se aproximaram de nós com intenções maliciosas e planejam um ataque interno em poucos anos. Se você não quiser fazer o serviço, outra Família fará."
"E quem disse que eu não farei?" O moreno ficou em pé. Aquilo era o suficiente. "Mas que fique claro que esta será a última vez que limpamos o seu traseiro, Cavallone." Xanxus manteve os olhos fixos no italiano, embora sua atenção quisesse ir um pouco para o lado. "O seu futuro pouco me importa e eu não dou a mínima se você vive ou morre. Isso não é da minha conta. Envolva a Varia novamente nos seus esquemas e eu garantirei que você não terá um amanhã." Os olhos castanhos pousaram finalmente na pessoa que ele tanto queria ver. Havia certo fascínio proibido em admirar a versão mais velha de seu amante. “E isso vale para você também, Lixo.”
O mesmo sorriso pintou os lábios do Chefe dos Cavallone, e o moreno deu as costas, dando aquela conversa por encerrada. Mais de uma hora de viagem para passar cinco minutos ouvindo conversa fiada era demais para ele.
"Espere, eu voltarei com você."
O Chefe da Varia parou, a mão esquerda na maçaneta da porta. Seu corpo virou-se devagar, encarando a versão dez anos mais velha de Squalo aproximar-se com passos vagarosos, quase que flutuando no ar. Os olhos de Xanxus se apertaram, pensando o que aquele homem fazia ali e porque o Lixo-do-presente não havia feito parte daquela patética reunião. Entretanto, o moreno nada disse. A porta foi aberta e ele continuou a andar, totalmente indiferente se sua companhia o acompanhava. Ele queria sair daquela casa o quanto antes, e seus passos se tornaram mais rápidos ao chegar ao hall. Leviathan lançou um olhar assombrado ao ver o homem que saia atrás de seu Chefe, e Xanxus fingiu não notar. Squalo retribuiu o olhar com um sorriso sádico, pegando a chave das mãos do Guardião do Trovão e sentando-se no banco do motorista.
"Você volta com o meu carro, Levi." O homem de cabelos prateados retirou a chave do bolso e atirou-a nas mãos de Levi. "Você dirige muito devagar."
O Chefe da Varia entrou no veículo, em silêncio. O carro moveu-se e deu a volta pelo chafariz em forma de cavalo, cruzando a entrada da mansão. A mão de Xanxus foi automaticamente para a arma em sua cintura, imaginando o que significava tudo aquilo.
"Eu não vou atacá-lo, Chefe." Os olhos de Squalo refletiam através do retrovisor, e, embora não conseguisse vê-lo diretamente, o moreno sabia que ele estava sorrindo.
"O que você faz aqui Lixo-do-futuro?"
"Dino me chamou. Ele queria um relatório completo e somente alguém do futuro poderia entregá-lo."
Dino, de novo. Os lábios do Chefe da Varia se tornaram uma fina linha. Xanxus virou o rosto na direção da janela, mas manteve a mão firme ao redor de sua arma. O veículo se aproximou do portão e os dois cavalos alados se separaram, permitindo que o carro saísse. Um pouco atrás vinha Levi, e, por cerca de dez minutos, os dois veículos permaneceram separados por alguns metros de distância. Squalo tomou à esquerda e deveria ter seguido em linha reta para chegar à rodovia, mas o caminho escolhido foi outro. O caríssimo carro escuro entrou entre as árvores, sumindo naquela paisagem verde. O moreno encarou as costas do motorista, imaginando o que estava acontecendo. O carro do Guardião do Trovão desapareceu de vista e quanto mais se afastavam do caminho principal, mais deserto se tornava o entorno.
"Eu não estou te sequestrando." O homem de cabelos prateados respondeu ao olhar sério que recebeu através do retrovisor. O carro seguiu por mais alguns minutos, até finalmente parar em frente a um alto pinheiro. O Chefe da Varia ergueu o rosto e retirou a arma da cintura no exato momento em que viu Squalo soltar o cinto de segurança.
"Achei que não precisássemos de acessórios."
O Guardião da Chuva sorriu ao virar-se no banco, empurrando gentilmente para o lado a arma que estava apontada em sua direção, e jogando-se no colo de Xanxus. O moreno franziu as sobrancelhas, sem ter tempo de argumentar ou fomentar uma pergunta. Seus lábios foram sequestrados por um profundo beijo e imediatamente a arma deixou suas mãos para que ela estivesse livre para puxar o terno de Squalo sem nenhum tipo de delicadeza. As próprias mãos do homem de cabelos prateados abriam sua camisa, encontrando fácil acesso dentro da calça de couro do Chefe da Varia.
"Você continua não valendo nada, Lixo." Xanxus sorriu de canto ao olhar para sua ereção entre os dedos delgados do homem que estava sentado em seu colo. "Você não está velho demais para isso?"
"Você, no futuro, é mais velho do que eu e consegue. Não me diga que está com problemas, Xanxus."
"Você tem muita coragem de dizer essas coisas na minha cara." O moreno segurou o Guardião da Chuva pelas bochechas.
"Eu não estarei aqui em alguns minutos." Squalo se desvencilhou da mão em seu rosto e utilizou sua mão livre para tocar a face do homem que estava por baixo. "Eu me lembro disso..." Os dedos do futuro Braço Direito tocaram o recente hematoma que estava no rosto do Chefe da Varia. "Você tentou invadir meu quarto."
A expressão no rosto de Xanxus se tornou dura e automaticamente as palavras do outro Squalo ecoaram em sua mente. O homem em seu colo notou a mudança e pareceu sorrir com a reação que conseguira. O Guardião da Chuva empurrou o banco do motorista para frente, criando espaço suficiente para que ele pudesse se ajoelhar entre as pernas do moreno.
"Eu deveria matá-lo, sabia?" O Chefe da Varia não se moveu. Ele viu quando o homem de cabelos prateados abriu ainda mais o zíper de sua calça e se inclinou sobre o colo. Ele testemunhou claramente a maneira charmosa como seu Braço Direito colocou a longa franja atrás da orelha antes que seus lábios tocassem a ereção em sua mão. A respiração de Xanxus tornou-se mais alta, mas seus olhos estavam alertas.
A resposta de Squalo foi um simples olhar. A língua rosada do homem entre suas pernas desceu por toda a extensão de seu membro, subindo novamente, apenas para descer por uma segunda vez. Esses movimentos, ou melhor, essa tortura, durou o tempo suficiente para que o moreno agarrasse os fios prateados e o forçasse a fazer a coisa direito. O Guardião da Chuva pareceu não se importar com a maneira como o membro invadiu sua boca, ou como seus cabelos eram puxados. Em poucos segundos o carro encheu-se com o barulho de gemidos baixos e os sons que Squalo produzia enquanto trabalhava. É diferente. Esse homem é diferente. Xanxus notou rapidamente a diferença na técnica. O homem entre suas pernas era habilidoso no que fazia, e em pouco tempo o Chefe da Varia sentiu o clímax se aproximar, gemendo um pouco mais alto enquanto preenchia os lábios de Squalo com seu orgasmo. Os olhos castanhos permaneceram abertos, apenas observando o homem de cabelos prateados engolir o que havia recebido e continuar com o estímulo. Aquela visão era extremamente erótica, e em poucos segundos o moreno estava novamente excitado.
"Lixo."
Squalo ergueu os olhos e a cabeça, passando as costas da mão sobre os lábios. Seu corpo projetou-se para frente, o suficiente para que ele se livrasse da calça e da roupa de baixo que usava. Os joelhos apoiaram-se um de cada lado do corpo de Xanxus, enquanto o Chefe da Varia guiava a ereção de seu Braço Direito até seus lábios. O Guardião da Chuva provavelmente estava no limite durante todo aquele tempo, pois, assim que sentiu a ereção receber aquele estímulo, Squalo gemeu deliciosamente alto, movendo o quadril levemente para frente. Aquela reação tão natural fez o moreno sorrir com os prospectos de devorar aquele homem. Seus lábios se afastaram da ereção, o suficiente para que ele umedecesse dois dedos. Um deles penetrou o homem de cabelos prateados de uma vez, mas sem encontrar muita dificuldade.
"Sua culpa." A voz do Braço Direito saiu ofegante e ele sorriu ao sentir os olhos maldosos de Xanxus. "Você é insaciável no futuro. Antes de eu ser trazido para cá nós estávamos fodendo como coelhos."
"Certas coisas nunca mudam."
Havia uma estranha alegria em poder dizer aquelas palavras, e o Chefe da Varia não compreendia porque ficara satisfeito em ouvir aquela última parte. Seus lábios voltaram a dar atenção ao membro do Guardião da Chuva, e um segundo dedo foi fazer companhia ao primeiro. Os gemidos que saíram dos lábios de Squalo se misturavam com palavras desconexas que logo se tornaram palavrões. O moreno riu em determinado momento, retirando seus dedos e empurrando o homem de cabelos prateados para o lado. O Braço Direito afundou o rosto no banco do automóvel, como se já soubesse o que viria em seguida. Xanxus o penetrou sem hesitação, arrancando um alto e rouco gemido. A segunda estocada foi logo em seguida e com o dobro de força, e dessa vez quem riu foi Squalo, uma risada cheia de erotismo e estranho contentamento.
"Eu sei que você pode fazer melhor do que isso. Eu não estou acostumado a ser tão bem tratado."
A gargalhada do Chefe da Varia ecoou pelo carro e suas mãos seguraram firmemente o quadril do homem que estava por baixo. A terceira estocada penetrou fundo e foi responsável por pintar o banco com o orgasmo do homem de cabelos prateados. A voz de Squalo desapareceu, dando lugar à respiração ofegante. Xanxus continuou a se mover com a mesma força e velocidade, sentindo-se no céu. O clímax tornou a entrada do Braço Direito ainda mais apertada e naquele momento não havia melhor lugar para se estar. O ritmo fez com que a ereção do Guardião da Chuva retornasse após alguns minutos e então os gemidos se tornaram mais altos. O moreno não se lembrava da última vez que havia feito sexo tão cru como aquele. Seu corpo movia-se por puro instinto, penetrando completamente o homem que estava por baixo. Suas mãos tornaram-se úmidas de suor, assim como a pele pálida de Squalo. E durante o tempo que permaneceu entrando e saindo do corpo de seu Braço Direito, o Chefe da Varia se esqueceu da briga há dois dias e das palavras que escutara. Nada importava além daquele momento. Nem Dino e seu estúpido plano; nem o Squalo do presente e seu repentino puritanismo... nada. Tudo o que realmente merecia atenção estava ali... ao alcance de suas mãos.
Xanxus chegou ao clímax primeiro, mas o Guardião da Chuva o seguiu na estocada seguinte.
O moreno sentou-se no banco, completamente exausto. O homem de cabelos prateados deixou seu corpo cair sobre o banco, indiferente à sujeira que estava o local. A visão de seu Braço Direito completamente nu ao seu lado fez o Chefe da Varia sorrir.
"Você dirige agora." Squalo arrastou-se para o encosto do banco, sentando-se ao lado do moreno.
"Eu não sou seu motorista." Xanxus tentou tirar os olhos de Squalo ali, nu e limpando seu abdômen e peito com a própria roupa de baixo, mas seria impossível. Os anos não tornaram aquele homem menos desejável. Aliás, ele não notara nenhuma diferença física enquanto o possuía até alguns segundos. Mas, ali, naquele momento, ele pôde ver as primeiras marcas ao redor dos olhos do Guardião da Chuva, e uma fina mecha branca entre os cabelos prateados.
"Então você ficará aqui para sempre, porque quando o outro retornar ele não ficará no mesmo carro que você."
A verdade acertou o Chefe da Varia como um soco no estômago. Squalo abriu a porta do carro e saiu, pegando sua calça e vestindo-se do lado de fora. O ar que entrou pela porta aberta fez Xanxus abrir sua própria janela. O carro cheirava a sexo e sêmen e desejo reprimido.
"Eu vim ajudá-lo, Xanxus." O Guardião da Chuva disse do lado de fora do veículo. "Poupá-lo de anos de abstinência."
"Abstinência?" O moreno gargalhou. Aquilo era absurdo. Alguém como ele jamais ficaria sem companhia. Homens e mulheres. Ele perdera a conta de quantos já dividiram sua cama. O Braço Direito era apenas a companhia mais próxima e fácil. Sexo ele sempre encontraria.
"Soa absurdo agora, mas espere para ver como será em dois ou três anos." Squalo entrou novamente no carro e sorriu. "Se você não corrigir o que fez eu só dormirei com você novamente daqui a oito anos."
As sobrancelhas de Xanxus se juntaram. O que aquele Lixo estava falando? Não havia possibilidade de que aquilo fosse real. Ele jamais esperaria oito anos para dormir com alguém. O que não era dele poderia simplesmente ser tomado.
"É mesmo?" O Chefe da Varia sorriu irônico. "E nesse tempo todo eu permaneci... sozinho?"
"Não. Você dormiu com metade da Itália." O homem de cabelos prateados deu de ombros. "Mas, um dia, daqui a oito anos, você estará na porta da minha casa, completamente molhado pela chuva. Eu abrirei a porta e você não dirá o que está fazendo lá. Não poderia ser trabalho porque eu deixarei a Varia em seis meses e me mudarei para uma casa em Roma.
"Você o quê?" Aquela parte irritou o moreno. O quão idiota Squalo poderia ser?
"Eu perguntarei se você gostaria de entrar e por um longo tempo você permanecerá ali, na soleira da minha porta, embaixo de uma forte chuva e sem dizer uma única palavra. Quando eu repetir o convite, você abaixará os olhos e pedirá desculpas."
O Chefe da Varia riu. Não uma risada contida ou maldosa, mas sim uma espontânea e genuína gargalhada. Aquela história era tão absurda que só poderia ser recebida com uma risada. Por um longo tempo Xanxus não conseguiu se controlar. Seus olhos se encheram de lágrimas, tamanha a graça contida naquele absurdo. Ele? Pedindo desculpas? Esse homem está louco. Eu jamais faria isso.
"Eu não sei que homem é esse que dirá tal coisa, mas eu posso garantir que não serei eu."
Squalo, porém, não ria, e ao notar tal fato o moreno sentiu sua própria graça ir se dissipando pouco a pouco. No lugar do sorriso irônico havia uma expressão séria, quase dolorosa. O homem de cabelos prateados ergueu o pulso, encarando o relógio e parecendo pensativo. Seus olhos se ergueram e encontraram os de Xanxus. Por um momento o moreno sentiu uma estranha sensação que o fez se arrepiar. A graça havia acabado por completo e o Braço Direito consultou por uma segunda vez o relógio antes de se aproximar. Seus lábios tocaram o ouvido do Chefe da Varia e ele murmurou quatro palavras. Porém, antes que Xanxus pudesse fazer qualquer pergunta, uma surda explosão o fez arregalar os olhos. O carro tornou-se cheio de uma estranha fumaça que ocupou todo o veículo e o moreno precisou sair para respirar melhor. A visibilidade permaneceu ruim por alguns segundos, até que uma estranha e conhecida voz chegou aos seus ouvidos, acompanhada pelo habitual jeito explosivo de falar.
"VROOII! Quem está ai? Apareça, maldito!"
A fumaça se dissipou pouco a pouco.
O Chefe da Varia permaneceu do lado de fora do carro, digerindo o que havia acontecido naqueles últimos vinte minutos. Quando o carro tornou-se visível, a figura de Squalo deixando o veículo e olhando-o com uma absurda surpresa o fez entender as palavras que havia escutado. Xanxus gargalhou alto e passou a mão pelos cabelos. Ele sabia exatamente o que deveria fazer.
Continua...
Fale com o autor