Vendetta
16 Gokudera
Gokudera
"Eu vou esperar. Você não precisa responder nada agora; eu espero. Mas apenas prometa que vai pensar sobre o assunto, porque eu não estou brincando. E sei que estou anos e anos atrasado, e que essas palavras deveriam ter sido ditas há tempos, mas e-eu sinto muito... eu posso ser idiota às vezes."
Algo se moveu embaixo de seus pés e Gokudera abriu os olhos no mesmo instante, acordando. Seus olhos verdes piscaram várias vezes, suas sobrancelhas se juntaram e por um breve momento ele não sabia quem era ou onde estava. Para onde ia e de onde vinha. As imagens que ele via eram de fileiras preenchidas por pessoas sentadas. Rostos que ele não conhecia. Faces que ele não tinha interesse em conhecer. Não. Uma deles ele conhecia. Um rosto entre vários que ele jamais esqueceria.
"Gokudera?"
A voz de Yamamoto soou baixa e levemente rouca, fazendo com que o Guardião da Tempestade tivesse um lapso de realidade e imediatismo. Ele lembrava. Ele lembrava quem era e onde estava. Para onde ia e de onda vinha. O que ele não entendia era porque estivera usando o ombro do idiota como apoio.
"Por quanto tempo eu dormi?" O Braço Direito coçou os olhos e endireitou-se melhor na poltrona do avião. O céu do lado de fora da pequenina janela estava escuro.
"Algumas horas, nós estamos chegando." O Guardião da Chuva não pareceu incomodado. "Você pode voltar a dormir se quiser. Eu o acordarei quando pousarmos."
"Eu já dormi o suficiente." O homem de cabelos prateados consultou o relógio. Onze e meia. Sua mente pensou devagar, mas ele não precisou de muito para calcular e perceber que estariam pousando em Roma em poucos minutos.
O moreno não insistiu, fechando os olhos e voltando a cochilar. Gokudera manteve o olhar na janela, imaginando se o idiota ao seu lado também estivera dormindo durante esse tempo. E, se a resposta fosse positiva, será que ambos compartilharam o mesmo sonho? Não foi um sonho. O Guardião da Tempestade suspirou e fechou os olhos, passando a mão na testa. Aquelas palavras foram reais. Eu estava lá quando elas entraram por meus ouvidos. O avião chacoalhou novamente, mas o Braço Direito do Décimo manteve os olhos fechados. Eu consigo visualizar a cena nitidamente, como se ela estivesse mais uma vez acontecendo diante dos meus olhos. O homem de cabelos prateados via o quarto do Guardião da Chuva, a cama em que ele estivera sentado e a maneira como sua mão segurava com força a camisa do homem que o beijava. Eu me lembro daquele beijo... e do anterior.
Eles estavam no quarto do moreno, exatamente há uma semana. Gokudera havia ido até os Yamamoto para informar sobre a ligação que recebera de Dino. A data para o encontro fora marcada e o Guardião da Tempestade precisava comunicar ao moreno sobre os próximos passos. Esse, porém, era apenas um dos motivos que o fez dirigir por 15 minutos até o restaurante. O beijo – o primeiro, aquele que seguiu o tapa – permanecera na mente do Braço Direito por dias, roubando-lhe o sono, a fome e a paz de espírito. Eu só queria colocar as coisas em seus devidos lugares, o homem de cabelos prateados sentiu novamente o avião balançar. Era doloroso se lembrar do que passava por sua mente naquela ocasião. Eu só queria que ele entendesse que o motivo que o levou a me beijar foi mera curiosidade.
Gokudera não era otimista. Em sua mente, em nenhum momento a ideia de que o Guardião da Chuva pudesse retribuir seus sentimentos aconteceu. Para ele Yamamoto estava apenas confuso. Eu não deveria ter dito nada. Se eu tivesse calado a minha boca isso jamais teria acontecido. Uma súbita crise de consciência assolou o Guardião da Tempestade, consumindo horas de seus dias com pensamentos e ideias para encerrar a situação. Por dias ele imaginou momentos e a maneira como falaria com o moreno, mas nenhum de seus cenários mentais e hipotéticos parecia suficiente, ou melhor, real... natural. Ele sempre se viu gaguejando e pulando frases, porém, nada soava mais doloroso do que se imaginar negando aqueles sentimentos, embora ilusórios. O Braço Direito do Décimo não sabia explicar a sensação de ser beijado pelo homem que amou durante seis longos anos. Não houve um momento em que ele duvidasse daqueles sentimentos tão íntimos, e vê-los se tornando realidade o deixava alegre, mas ao mesmo tempo triste. Porque esses sentimentos não são reais. Eles foram plantados ali.
Quando o beijo terminou, o homem de cabelos prateados precisou de alguns segundos para retornar à realidade. Seu corpo permaneceu imóvel e seus olhos encararam os olhos castanhos e sérios do homem que estava tão próximo de seu alcance, mas tão longe de seu coração. Yamamoto sorriu um daqueles sorrisos curtos, de canto, e que o fazia parecer com 15 anos novamente. Gokudera amava aqueles sorrisos.
"Eu estou perdido, Gokudera, porque eu estou me apaixonando por você."
Os dois permaneceram em silêncio, um curto e constrangedor silêncio, até o Guardião da Tempestade ficar em pé. E então, sem que ele esperasse qualquer tipo de explicação ou comentário, dedos firmes seguraram sua mão como se fosse algo precioso e que precisasse ser tocado com o máximo de cuidado. O homem de cabelos prateados virou-se surpreso e levemente perturbado. O Guardião da Chuva havia voltado a vestir a expressão séria.
"Eu estava falando sério." Havia uma confusa convicção nos olhos do moreno. "Eu gosto de você..."
"Não, não gosta." Gokudera se desvencilhou da mão que o segurava e deu um passo para trás, oferecendo as costas e pronto para ir embora. Seu coração batia absurdamente rápido e ele sabia que deveria estar feliz, contente por ouvir aquilo, mas era impossível. Eu nunca tive ilusões de ser correspondido. Todas as minhas fantasias com Yamamoto foram físicas, exatamente porque eu sempre soube que não teríamos nada emocional. "Esses não são seus sentimentos, você está apenas dizendo isso porque eu di–"
"... disse aquelas coisas?" A voz do Guardião da Chuva tornou-se mais alta e pelo barulho que escutara, o homem que estava um pouco atrás havia se levantado da cama. "Eu não sou uma criança. Eu sei o que estou sentindo. Você me conhece e sabe que eu jamais diria nada que não fosse verdadeiro."
Isso é o que dói mais. O Guardião da Tempestade se virou. Sua convicção estava ali, presa em sua garganta e girando em seu estômago. Ele sabia o que deveria dizer, e como dizer, para acabar com aquela conversa sem sentido. O problema é que havia uma parte do Braço Direito que gostaria de acreditar em tudo aquilo.
"Eu vou esperar. Você não precisa responder nada agora; eu espero. Mas apenas prometa que vai pensar sobre o assunto, porque eu não estou brincando." O moreno corou. Sim, aquele tom avermelhado embaixo da pele sempre morena surpreendeu o homem de cabelos prateados. Seus olhos verdes se arregalaram e quaisquer ideias que ele tivesse até aquele momento foram por água abaixo. "E sei que estou anos e anos atrasado, e que essas palavras deveriam ter sido ditas há tempos, mas e-eu sinto muito... eu posso ser idiota às vezes."
Você continua um idiota. Foi o que Gokudera quis dizer, mas, ao invés disso, seus olhos se abaixaram e ele apenas meneou a cabeça em positivo. Não havia mais nada a ser dito ou feito naquela noite, então ele retornou ao seu apartamento com o coração batendo tão rápido que chegava a ser doloroso. E ali estava ele, uma semana depois de ter ouvido a confissão dos lábios de Yamamoto. Sua resposta não havia sido dada e, sendo totalmente sincero, o Guardião da Tempestade evitou ao máximo que ambos ficassem sozinhos além do necessário. As únicas duas reuniões feitas envolveram Chrome e Tsuna, deixando muito pouco para ser dito entre outras pessoas. Ryohei não tinha conhecimento do que estava acontecendo, e aquela foi uma decisão do próprio Décimo. "Já não basta uma pessoa saber da verdade. Ele não precisa se preocupar preocupação", foram as exatas palavras do Décimo. Chrome se prontificou a ficar ao lado de Tsuna durante a ausência do Braço Direito, e mesmo tendo prometido que manteria os olhos em Mukuro o homem de cabelos prateados ainda tinha suas dúvidas. Hibari havia se fechado no templo, e sua antissociabilidade se tornara ainda pior. Ele não atendia telefonemas ou visitas pessoais, e nem mesmo Kusakabe se arriscava a passar recados. A surra que havia levado do Guardião da Nuvem não deixara nenhum hematoma visível além do ego ferido de Gokudera.
Os minutos finais até que o avião pousasse foram passados entre profundos pensamentos. O Guardião da Tempestade suspirou aliviado quando o avião pousou, esperando o tempo necessário para que a aeromoça avisasse que os passageiros poderiam ficar em pé. Yamamoto havia acordado em determinado momento, mas nada disse. Os dois foram os últimos a deixarem a aeronave, seguindo pelo túnel de vidro que levaria ao desembarque. Do lado de fora eles eram esperados por dois homens de aparência taciturna. Os Vongola não passavam pela imigração comum. O visto era checado muito antes de o avião ser pousado, e assim que desciam eles seguiam geralmente por uma saída lateral. Naquela noite em especial eles seriam escoltados por dois membros da Família Cavallone. Dino prometera a segurança dos dois Guardiões já que havia partido dele o convite para a realização da viagem.
O caminho até a saída do aeroporto era curto quando se sabia os locais certos, e em menos de cinco minutos eles estavam na rua. As duas malas já estavam no porta-malas e elas continham apenas roupas. As dinamites e bombas do Braço Direito de Tsuna, assim como a Shigure Kintoki do moreno, havia sido enviada no dia anterior através de um avião particular dos Vongola. E, embora não confiasse em enviar suas armas primeiro, pois isso significava viajar totalmente desprotegido, o homem de cabelos prateados pouco poderia fazer sobre o assunto. O Décimo Vongola, apesar de estar sentado sobre um dos cargos mais poderosos e cobiçosos do mundo mafioso, gostava de seguir as regras. Então, se os aeroportos proibiam armas, ele manteria seus amigos e Guardiões na linha.
"O Chefe pediu para agradecer por terem vindo. Se precisarem de qualquer coisa não hesitem em pedir." O subordinado com a aparência menos séria cortou o silêncio assim que os visitantes entraram no carro. "As reservas já foram feitas no hotel e a chave está no envelope. Há também uma boa quantia em dinheiro para as despesas extras. O cartão dourado servirá no caso de o dinheiro não ser suficiente. Todas as despesas serão pagas pelo Chefe."
Gokudera pousou os olhos no envelope mediano que Yamamoto recebera do subordinado. Ele não viu os grossos maços de dinheiro ou o cartão de crédito ilimitado que havia recebido sem precisa fazer o menor esforço. Seu olhar estava fixo na única chave dentro do envelope, e sua mente automaticamente entendeu o que aquilo significava. Uma estranha e incômoda realização o fez mexer-se no banco.
"Não há outra chave?" O Guardião da Tempestade tentou manter o tom de voz o mais sério possível. "Há apenas uma chave.”
"O Chefe disse que vocês não se importariam com o quarto duplo." O subordinado extremamente sério virou metade do rosto e seus lábios mal se moveram. "Se estão insatisfeitos podemos reservar um segundo quarto."
O Braço Direito do Décimo colocou a franja atrás da orelha, visivelmente desconfortável. Suas costas se encostaram ao banco e por um breve momento ele encarou sua companhia. O Guardião da Chuva tinha os olhos baixos, observando a única chave eletrônica em suas mãos. Aquela cena durou alguns segundos, até o moreno erguer os olhos. O olhar de ambos se encontrou e o homem de cabelos prateados engoliu seco, notando que Yamamoto parecia triste.
"Se não for incômodo, vocês poderiam reservar outro quarto?" O Guardião da Chuva sorriu, mas não havia felicidade naquele gesto.
"Não, não, tudo bem." Gokudera respondeu antes que um dos subordinados afirmasse que poderia realizar aquele pedido. O rosto do Guardião da Tempestade se tornou quente, e ele sabia que iria se arrepender, mas seu comentário anterior fora muito indelicado. Você está sendo egoísta, Hayato. Vocês são amigos. Sempre viajaram e dividiram quartos de hotéis. Nada mudou.
O moreno ofereceu o envelope para o Braço Direito de Tsuna e virou o rosto na direção do seu lado da janela, passando o restante do caminho no mais puro silêncio. O homem de cabelos prateados amava Roma. Era uma das suas cidades favoritas no mundo, mas em nenhum momento aquele lugar lhe pareceu tão... cinza. A noite italiana era bela, romântica e conhecida mundialmente pela vida noturna excitante. Entretanto, sentado do lado esquerdo de um caríssimo carro negro, Gokudera apenas via luzes brilhantes e vultos de pessoas conforme o veículo circulava pelas poucas ruas. O hotel era localizado no centro e não foi preciso longos minutos para que chegassem ao destino final. Mais dois subordinados dos Cavallone os esperavam na frente do hotel, mas dessa vez eles pareciam mais simpáticos.
"Bem-vindos, fizeram boa viagem?" O homem da direita tinha cabelo curto e tão ruivo que parecia feito de chamas. O subordinado mais sério desceu do carro e abriu o porta-malas. "Temos homens infiltrados no hotel. Dois em cada andar, então não se preocupem com a segurança. Eles estarão hospedados durante o tempo que vocês permanecerem aqui. Eu e mais dez homens levaremos vocês pessoalmente amanhã. Sairemos daqui às 9hs. Ah! A outra parte da bagagem já foi entregue."
"Obrigado." Yamamoto segurou as duas malas que lhe foram oferecidas e sorriu desconfortável para o subordinado ruivo. Ele gosta disso tanto quanto eu.
"Como está o Haneuma?" Gokudera perguntou por educação. Seria rude não demonstrar pelo menos o mínimo de interesse na pessoa que estava pagando por tudo aquilo.
"Mimado e fugindo do trabalho." O subordinado sério respondeu. "Romário está tentando garantir que o trabalho seja realizado."
Nada novo aqui, pensou o Guardião da Tempestade antes de esticar a mão para segurar sua mala. O moreno, porém, afastou-a de maneira discreta, como se não tivesse visto a tentativa do Braço Direito. Os subordinados dos Cavallone desejaram uma boa noite e o estômago do homem de cabelos prateados rodou várias vezes conforme ele subia a escadaria do hotel. Havia luzes nos degraus e um gigantesco chafariz na entrada. Alguns homens pareciam displicentemente caminhar pela calçada, mas Gokudera sabia que eles estavam ali para garantir a segurança. O Guardião da Chuva permaneceu o tempo inteiro ao lado do Braço Direito; seus olhos vagavam de um lado para o outro, e mesmo depois de passar pela larga porta de vidro o moreno não relaxou. O lobby do hotel era forrado por um belo tapete vinho, e havia quatro recepcionistas falando com hóspedes e atendendo telefonemas.
Ninguém dedicou a eles um segundo olhar. Ninguém os parou enquanto caminhavam na direção do elevador. A porta fechou-se e o homem de cabelos prateados suspirou, colocando a franja atrás da orelha. Seus olhos estavam fixos nas fileiras de números, torcendo para que o oitavo andar chegasse logo. O quarto que seria deles era o de número 80, e assim que chegaram ao corredor foi fácil perceber que era o último quarto. Nunca um caminho foi transposto com tanta relutância. Gokudera sentiu o fofo tapete creme que forrava metade do corredor, como se não estivesse calçando os caríssimos moccasins italianos. Ele sentia a tensão que emanava do corpo do Guardião da Chuva, como se ele não estivesse trajando um conjunto social escuro, aliás, seu melhor conjunto. Não havia um centímetro do corpo do Braço Direito do Décimo que não sabia que ele teria de dar sua resposta de qualquer maneira enquanto ainda estivesse na Itália. Ele vai me pedir uma resposta e eu tenho o dever de oferecê-la.
A porta abriu quando a chave foi introduzida no pequenino espaço embaixo da maçaneta dourada. O click fez o coração do homem de cabelos prateados bater mais rápido, imaginando como havia conseguido fazer aquilo antes. Ele e Yamamoto, durante aqueles anos, haviam dividido dezenas de quartos de hotéis durante as missões. Nunca foi tão custoso dar o primeiro passo quando lhe foi oferecido a vantagem de entrar primeiro. Gokudera retirou os sapatos, sabendo que o Guardião da Chuva faria o mesmo. Não era necessário manter o costume japonês em um hotel italiano, mas o Braço Direito sempre achou que seria bom ser solidário com seu companheiro de quarto. Havia um curto corredor que virava à direita, e então o medo pessoal do homem de cabelos prateados tornou-se real. Havia duas camas, ambas divididas por uma larga cômoda onde um caríssimo abajur de vidro repousava. Havia uma base telefônica com dois aparelhos à frente do abajur e dois tablets. Uma gigantesca e desnecessária tv estava pendurada do outro lado do quarto, e o guarda-roupa de madeira clara ficava ao lado da porta que dava para o banheiro. Não havia nada de novo ou relevante naquele simples quarto, com exceção de quatro malas em cima de uma cama e um embrulho em tecido vermelho sobre a outra.
"Se você quiser podemos trocar de cama." Gokudera foi direto para a cama próxima à porta de vidro que dava vista para a sacada. Suas quatro malas estavam ali.
"Eu não me importo com a cama." O Guardião da Chuva colocou uma das malas que estava em suas mãos sobre a cama escolhida pelo Braço Direito e seguiu para a outra. Seus olhos estiveram baixos o tempo todo. "Eu vou tomar um banho. Se quiser descer para jantar não precisa me esperar. Eu não estou com fome."
O Guardião da Tempestade permaneceu de costas, encarando as malas, até que a porta do banheiro fosse fechada. Seus olhos se fecharam lentamente e ele respirou fundo, virando-se e indo até a cama do moreno, abrindo uma das malas e retirando a toalha azul. Seus pés o levaram até a porta do banheiro e ele pendurou a toalha na maçaneta antes de seguir pelo curto corredor, recolocando seus sapatos e deixando o quarto. Somente ao ganhar o corredor do oitavo andar foi que o Braço Direito do Décimo conseguiu finalmente respirar. Suas mãos procuraram trêmulas pelo maço de cigarros, mas em vão. Eu os deixei na mala, porque não poderia carregá-los durante o voo. O homem de cabelos prateados soltou um aborrecido tsk, seguindo pelo corredor, na direção do elevador.
O salão de jantar ficava ao lado esquerdo, e pelo pouco que Gokudera pode ver o local era extremamente bem arrumado. Pessoas se serviam no buffet e outras aguardavam seus pedidos serem atendidos enquanto vestiam caros ternos e exuberantes vestidos. A escolha do Guardião da Tempestade, porém, estava longe do jantar suculento ou do glamour em passear entre pessoas que nadavam em dinheiro. Ao lado direito do lobby havia um bar e ali ele sabia que seria bem vindo. O barman se aproximou assim que ele sentou em um dos banquinhos, e apesar de enferrujado o Braço Direito pediu um maço de cigarros e uma taça de vinho branco. Acender o cigarro foi mais importante do que bebericar o caro vinho que lhe havia sido servido, e na primeira tragada ele já sentiu como se o mundo houvesse se tornado menos cruel e seus problemas muito menores. O vinho desceu por sua garganta adoçando suas dúvidas e purificando seus nervos. Uma segunda taça foi pedida, e com ela veio a terceira tragada no cigarro. Finalmente, sossego.
O bar estava vazio se comparado ao salão de jantar. Havia cerca de quatro pessoas sentadas nos banquinhos e dois casais em mesas espalhadas. Três barmen eram responsáveis por servirem os clientes por trás do balcão, enquanto outros três garçons iam e vinham das mesas quando requisitados. Por vinte minutos Gokudera afastou sua mente da bagunça que ele havia se metido. A missão seria realizada no dia seguinte e com sorte tudo terminaria bem e então sua vida voltaria ao normal. O problema é que não voltaria, e o Guardião da Tempestade sabia disso melhor do que ninguém. Os dias calmos haviam terminado, e o mesmo poderia ser dito sobre sua amizade com o moreno. Independente do que acontecesse durante a viagem, ele tinha plena consciência de que sua relação com o Guardião da Chuva nunca mais seria a mesma. Um segundo cigarro foi acesso e uma terceira taça de vinho requisitada. O Braço Direito passou a mão livre em sua nuca, sentindo os ombros rígidos por causa da tensão. Os olhos verdes encararam o líquido levemente transparente em sua taça e ele se perguntou novamente o que faria quando retornasse ao quarto.
"Eu vou esperar. Você não precisa responder nada agora, eu espero..."
Se eu disser “não”, eu terei perdido um amigo por nada, mas será a coisa certa a fazer. Yamamoto tinha uma vida certa antes de eu estragar tudo. Ele tem Yurika, o casamento, e os futuros filhos. Chrome mesma disse, ele usará uma aliança dourada no dedo esquerdo. Ele se casará. Nunca existiu esperança para mim. O homem de cabelos prateados recolocou os lábios na lateral da taça, bebendo um gole de vinho. O álcool começava a fazer efeito, mesmo que brevemente. Ele só está curioso. Talvez se eu dormisse com ele as coisas acabariam mais rapidamente. Yamamoto perceberia imediatamente que havia feito uma má escolha e eu estaria livre. Com sorte nós manteríamos a amizade. Aquele pensamento o fez sorrir amargamente. Sexo com o Guardião da Chuva sempre acontecia em suas fantasias, mas ele nunca pensara seriamente sobre o assunto, assim como basicamente tudo o que era relacionado ao moreno. A ideia de realmente ter o homem que sempre amou sobre ele, entre suas pernas, beijando-o e tocando-o parecia tão fantasioso que foi impossível conter uma risada baixa. Você é o idiota, Hayato.
O cigarro foi fumado até o fim. A taça de vinho tornou-se vazia e o Guardião da Tempestade depositou três notas sobre o balcão antes de deixar o bar. O caminho até o quarto pareceu mais longo, seus passos mais lentos e sua atenção levemente turva. Ao parar em frente à porta de seu quarto o Braço Direito ergueu as sobrancelhas, lembrando-se de que só havia uma chave e ela estava do lado de dentro. Três leves batidas soaram e após alguns segundos seu colega de quarto apareceu para deixá-lo entrar. Yamamoto vestia uma calça de moletom negra e uma camisa branca que lhe caía perfeitamente. O homem de cabelos prateados agradeceu e entrou, parando apenas para retirar os sapatos. Ele cheira a shampoo... A Shingure Kintoki estava sobre a cama, assim como os produtos que o Guardião da Chuva utilizava para limpar a espada. Gokudera seguiu para sua cama apenas para pegar a primeira troca de roupas que encontrou na mala e dirigiu-se para o banheiro sem dizer uma única palavra. A toalha azul estava pendurada em um canto e aquilo o fez sorrir triste. O idiota sempre se esquece de levar a toalha para o banho e se recusa a utilizar a do hotel. Como pode ser tão... idiota?
As roupas foram retiradas e deixadas sobre um cesto atrás da porta. Ele sabia que elas seriam enviadas para a lavanderia do hotel e retornariam limpas, passadas e cheirosas para que ele as vestisse quando retornasse, em dois dias, para o Japão. O banheiro era espaçoso o suficiente para suportar uma banheira oval e um box de vidro transparente. O Guardião da Tempestade foi direto para o box, imaginando que acabaria dormindo se optasse pela banheira. O clima estava quente e abafado, e seu estado emocional e físico pedia um banho frio. A água caiu forte sobre seu rosto, escurecendo seus cabelos prateados e tocando seu corpo em lugares que somente eram conhecidos por amantes. Os olhos verdes foram fechados e o Braço Direito dedicou dez minutos para um completo banho. Havia sabonetes com fragrâncias diferentes, sais de banho e cremes, todos enfileirados em uma prateleira em um dos cantos do largo box. Gokudera identificou facilmente aquele que Yamamoto escolhera, mas o dispensou imediatamente. Ele sabia melhor do que ninguém que sentir o cheiro do Guardião da Chuva acabaria despertando certos desejos, e ele precisava evitar tudo o que fosse proibido e excitante demais, pelo menos enquanto os dois estivessem dividindo o mesmo quarto.
O chuveiro foi desligado e o homem de cabelos prateados deixou o box enquanto se enxugava. A roupa escolhida foi um pijama listrado em azul e branco, um número maior do que o ideal. Ele gostava de dormir com roupas confortáveis e que permitissem que seu corpo pudesse se mover sem problemas. A mão esquerda segurava a maçaneta, enquanto a direita mexia a toalha que estava em seus cabelos; e foi naquele instante que o Guardião da Tempestade hesitou. Até aquele momento a realidade o visitava vez ou outra, fazendo-o lembrar-se aqui e ali sobre a decisão que estava unicamente em suas mãos. O Braço Direito encarou os pés descalços sobre o piso branco, imaginando o quanto doeria rejeitar o moreno depois de todos aqueles anos amando-o como um louco. Seu corpo permaneceu naquela posição por longos minutos, até que Gokudera se deu conta de que aquilo era ridículo e ele não poderia passar a noite na porta de um banheiro de hotel. A toalha foi pendurada, a maçaneta girou e o quarto mostrou-se visível. E, embora seu estômago girasse, era preciso ser adulto e encarar suas escolhas.
O Guardião da Chuva guardava a katana na bainha quando o homem de cabelos prateados deixou o banheiro. O moreno lançou um rápido olhar, mas nada disse, voltando a atenção para o seu trabalho. O Guardião da Tempestade seguiu até sua cama e abriu as quatro malas, encarando seu arsenal de dinamites. Ele havia arrumado tudo antes da viagem, sabendo que não teria tempo de prepará-las. Tudo estava organizado por letalidade, embaladas de maneira segura e que não causaria riscos a nenhum deles. As malas foram fechadas, retiradas da cama com cuidado e empurradas para a parte debaixo. A última coisa a ser retirada foi a mala de roupas e somente ao virar-se para caminhar na direção do guarda-roupa foi que o Braço Direito percebeu que estava sendo observado.
"Tem certeza de que é seguro colocar esses fogos de artifício debaixo da cama?" Yamamoto parecia genuinamente preocupado. Sua expressão era séria e ele tinha aquela ruga entre as sobrancelhas. Ela só aparecia quando ele se preocupava.
Fogos de artifício!
“Eles estão seguros, mas seguros do que essa sua espada idiota. Tem certeza que ela vai funcionar se alguma coisa acontecer? Eu não quero precisar perder tempo te salvando caso a coisa fique feia." O Guardião da Tempestade cruzou o quarto e abriu o guarda-roupa, deixando sua mala em um canto. Retornar para sua cama foi bem mais rápido e fácil.
O moreno riu com o comentário e por um breve momento Gokudera sentiu-se em mais uma das muitas viagens que eles haviam feito. A tensão da missão sempre era dispersa pelos comentários bobos e a total falta de seriedade com que o Guardião da Chuva encarava as coisas. Ouvir aquela risada o fez sentir que no fundo tudo aquilo poderia ser coisa de sua cabeça, que talvez Yamamoto não estivesse se importando tanto com a situação. O Braço Direito deitou-se na cama e suspirou, fechando os olhos. O vinho o havia deixado levemente zonzo e mesmo o banho não ajudara. Ele sabia que precisaria ficar alguns minutos deitado se quisesse ter a mínima chance de conversar seriamente com o moreno.
Por quanto tempo ele permaneceu deitado, relaxado e despreocupado era difícil dizer. O quarto pareceu distante e pouco a pouco Gokudera sentiu o sono se aproximar. Quando seu corpo começava a ceder ao cansaço, os olhos verdes se abriram devagar como resposta a algo que tocou seu braço. Havia um par de olhos castanhos sobre ele, a cerca de um palmo de distância. Ele não havia sentido o Guardião da Chuva se aproximar ou quando seu colchão foi abaixado pelo peso do homem que estava sobre ele, mas sem tocá-lo diretamente. O moreno apoiava as mãos ao lado do colchão e pela primeira vez em dias eles se olharam diretamente.
Não foi por instinto que o Guardião da Tempestade ergueu a mão e tocou o belo rosto de Yamamoto, descendo as costas de seus dedos sobre o maxilar bem definido e chegando à charmosa cicatriz no queixo. Eu me lembro desse dia. O idiota deveria estar do outro lado do galpão, mas de repente ele estava ali... diante dos meus olhos, recebendo o golpe que deveria ser meu, ganhando a cicatriz que deveria ser minha. Salvando uma vida que não tinha valor algum. O Braço Direito do Décimo entreabriu os lábios. Aquele era o momento perfeito para acabar com aquela fantasia. Uma palavra. Uma simples palavra mudaria o curso de uma vida inteira. Ele poderia viver por um breve momento a ilusão de ter Yamamoto, pelo menos até que o outro percebesse o erro que estava cometendo; ou poderia acabar com tudo e devolver o Guardião da Chuva para a futura esposa – esta que deveria aguardar ansiosamente por ele no Japão, sem ter ideia de que ele estava por cima de outro homem. Entretanto, nenhuma palavra deixou os lábios do homem de cabelos prateados. Sua decisão não conseguiu ganhar forma, e tudo o que ele fez foi fechar lentamente os olhos conforme sentia que o rosto do moreno se aproximava.
O inevitável beijo teve o efeito que três taças de vinho jamais teriam. Gokudera sentiu-se adormecido e flutuante quando Yamamoto deitou-se sobre ele. Seus lábios moveram-se e ele permitiu que a língua do homem que estava por cima invadisse sua boca. Suas mãos subiram pelas costas fortes e morenas, imaginando o contraste entre as peles. Ele era de um branco pálido, quase doentio, enquanto o Guardião da Chuva possuía um natural e saudável bronzeado que o tornava ainda mais apetitoso e desejável. As pontas dos dedos do Braço Direito de Tsuna apertavam a pele com força, sentindo os músculos duros e bem trabalhos devido aos tempo dedicado ao baseball. Durante anos ele imaginou como seria tocar aquele homem daquela forma; como seria senti-lo entre seus lábios, pele com pele. A sensação era infinitamente melhor do que seus sonhos masturbatórios. O moreno cheirava a sabonete, e limpeza e homem. Seus lábios tinham o gosto da menta da pasta de dente. Seu beijo e a maneira sem pudores com que Yamamoto esfregava seu baixo ventre transbordavam desejo contido. Nada naquele homem parecia falso. A maneira como a língua do Guardião da Chuva envolvia a do homem de cabelos prateados não era fantasiosa. A mão firme e grande que subia e descia pela delgada cintura do Guardião da Tempestade era quente e parecia querer tocar muito, mas tocando pouco. A ereção que tocava a sua própria não teria aparecido se não houvesse o mínimo desejo e isso ele sabia e muito bem.
O Braço Direito do Décimo permaneceu por longos minutos mergulhado naquela quente e eufórica chuva de verão. O que afastou um pouco o rosto de Yamamoto não foi a falta de desejo, mas sim a necessidade por um pouco de ar. Entretanto, havia um meio sorriso naqueles lábios vermelhos. Os olhos castanhos estavam semicerrados, mas pareciam sorrir também, como se aquela pessoa não conhecesse outro sentimento além da felicidade.
"Eu posso dormir aqui esta noite?"
A pergunta entrou baixa e vaga pelos ouvidos do homem de cabelos prateados, e ele apenas meneou a cabeça em positivo. O Guardião da Chuva arrastou-se para o lado, apoiando a cabeça no travesseiro e assumindo seu lugar na beirada da cama. Gokudera virou-se, ficando de frente ao homem que ele deveria estar rejeitando, mas ao invés disso permitia que passasse a noite em sua cama. A distância entre eles era pequena, e tornou-se ainda menor quando o moreno o puxou gentilmente pela cintura para um segundo beijo. A mão direita do Guardião da Tempestade tocou o rosto de Yamamoto e seus dedos desceram sem pressa pelo pescoço moreno. Sua perna direita passou por cima da perna do Guardião da Chuva e os corpos se encaixaram com perfeição. E, naquele momento, assim como no anterior, não houve um centímetro do corpo do Braço Direito que se sentisse inclinado a conversar seriamente com o moreno. O beijo tornou sua mente branca, como se não existisse nada mais importante no mundo do que aqueles lábios e aquele momento.
Quando o beijo terminou, o homem de cabelos prateados escondeu seu rosto no pescoço de Yamamoto, fechando os olhos e deixando que seu corpo se acalmasse. Sua respiração era alta e suas bochechas estavam terrivelmente vermelhas. O sono veio acompanhado da calmaria, e Gokudera perdeu a consciência sem que pudesse ter dito uma única palavra. As últimas coisas que ele sentiu foram os fortes braços do Guardião da Chuva ao redor de seu corpo e a agradável brisa que entrava pela porta de vidro da sacada.
... e ele nunca se sentiu tão bem protegido e amado como naquela noite.
Continua...
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