Vendetta
17 Yamamoto
Yamamoto
O Sol invadiu o quarto pouco a pouco. Inicialmente o céu se tornou azul escuro, depois alaranjado, e finalmente ganhou o tom azul-claro típico do fim de verão. Os primeiros raios entraram pela porta de vidro da sacada do hotel, iluminando primeiramente o outro lado do quarto. Yamamoto já estava acordado, e, apesar de ser um adorador do nascer do Sol e achar que não existisse momento mais belo, naquele início de manhã ele só queria que o grande astro permanecesse escondido um pouco mais. A pessoa em seus braços mexeu-se levemente, murmurando algo completamente indecifrável e voltando a afundar o rosto em seu peito. O Guardião da Chuva abaixou os olhos, ignorante ao fato de que seus lábios haviam se repuxado em um meio sorriso. Seu rosto abaixou-se um pouco, o suficiente para que seu nariz pudesse sentir o cheiro do shampoo que Gokudera havia usado na noite anterior. O nascer do Sol significava que seu momento chegaria ao fim, e, com ele, provavelmente, o fim de horas tão agradáveis.
O moreno não tinha esperanças de ter seus sentimentos correspondidos, não após todos aqueles anos.
Ele havia sido forçoso e ousado de propósito, sabendo que, quando a missão terminasse, o Guardião da Tempestade o colocaria em seu devido lugar e então tudo voltaria ao que era antes. Entretanto, ele não compartilhava desse pensamento. Havia uma gigantesca diferença entre “não saber e não sentir” e “saber e sentir”. Quando Yamamoto ouviu pela primeira vez a confissão do Braço Direito do Décimo, ele se sentiu lisonjeado, mas naquele momento inicial não houve sentimento sufocante ou batidas alucinantes em seu coração. Porém, quando a realização o atingiu, não havia mais como voltar. Não havia como voltarem à amizade antiga, ignorando sentimentos, frases e momentos. Porque independente da resposta que o homem de cabelos prateados fosse dar, no fundo, o Guardião da Chuva sabia que eles não seriam mais aqueles amigos.
Gokudera mexeu-se novamente na cama, fazendo com que o moreno afastasse momentaneamente aqueles pensamentos pessimistas e que não combinavam com sua personalidade esperançosa e positiva. Uma das mãos de Yamamoto desceu pelas costas magras do homem em seus braços e a proximidade entre eles começou a se tornar perigosa. Ele cheira tão bem. O Guardião da Chuva conseguia sentir o próprio coração bater mais rápido conforme se excitava com aquela quase nula distância. Seu corpo reagia de maneira totalmente honesta. Eu quero tocá-lo...
O Guardião da Tempestade mexeu-se mais uma vez, virando-se e ficando de barriga para cima. Os olhos do moreno se apertaram, admirando sua companhia de cima a baixo. O Braço Direito do Décimo umedeceu os lábios em seu sono e Yamamoto seguiu aquele gesto, umedecendo os próprios lábios e imaginando-se beijando novamente aquela boca, invadindo aqueles pequenos lábios com um beijo quente e eufórico. Sua imaginação despia Gokudera, e a curiosidade o fazia imaginar o corpo do homem deitado ao seu lado: os ombros, o peito pálido – quase transparente –, os mamilos rosados, o baixo ventre...
O Guardião da Chuva se moveu levemente na cama, passando as mãos nos cabelos e sentindo o corpo quente. Seus olhos ainda estavam fixos no homem de cabelos prateados, e sua mente lhe mostrava possíveis imagens de sua companhia; imagens essas nem um pouco puras e respeitáveis. Eu acho que é prateado, como seus cabelos... Esse pensamento fez o moreno ficar em pé no mesmo instante. Seu corpo virou-se na direção do banheiro e os curtos passos foram transpostos rapidamente. Yamamoto entrou e trancou a porta com pressa, e assim que se viu finalmente sozinho o Guardião da Chuva desceu a mão direita para dentro da calça do pijama e gemeu baixo.
O banheiro era largo o suficiente para um hotel. O local estava mal iluminado, pois aquelas janelas ainda não recebiam a luz do dia. A voz do moreno ecoava baixa e discreta. Suas mãos moviam-se com pressa ao redor de seu membro enquanto sua respiração tentava manter o mesmo ritmo de seu corpo. Estava acontecendo novamente. Ele já não sabia mais quantas vezes precisou trancar-se em algum lugar para deixar que a imagem do homem de cabelos prateados o torturasse com fantasias. O Braço Direito do Décimo estava em sua mente praticamente o tempo todo: quando ele acordava e quando dormia. Até mesmo naquele íntimo momento Gokudera o acompanhava. Yamamoto tinha os olhos fechados, imaginando a sensação dos lábios do Guardião da Tempestade em seu membro. As mãos pálidas e delgadas masturbando-o, enquanto aquela pequena boca o deixaria louco com estímulos ousados. O anúncio do clímax fez Yamamoto se arrepiar, e o orgasmo chegou quando ele se questionou sobre a sensação de estar dentro de Gokudera. O pensamento foi mais do que seu corpo poderia suportar, pintando sua mão e parte da pia com seu clímax.
O Guardião da Chuva respirou fundo, abrindo os olhos e encarando o teto branco. Seus lábios estavam secos e sua garganta arranhava, mas ele não tinha tempo a perder. O moreno limpou suas mãos e a pia com o papel higiênico, erguendo os olhos e engolindo seco. A imagem que refletia naquele largo espelho era de um homem descomposto, com o rosto vermelho e dificuldade para respirar. Yamamoto lavou as mãos e o rosto, encarando-se novamente. Ele está me deixando louco. Eu não consigo ficar próximo dele sem pensar certas coisas. O que está acontecendo? Os olhos castanhos encararam o box, e o Guardião da Chuva despiu-se em pensar duas vezes. Um banho frio não seria a solução para os seus problemas, mas pelo menos o ajudaria a manter a cabeça no lugar. A água o tocou de maneira ousada, fazendo-o se arrepiar e recuar alguns segundos até ter coragem de realmente colocar o corpo inteiro debaixo daquela temperatura baixa.
O que eu farei quando ele me rejeitar? O moreno encarou o piso claro do box. Eu não posso... não quero voltar àquele tempo de total ignorância. Se ele ainda sente qualquer coisa por mim, então eu não vou desistir. O pensamento o fez sorrir por um breve momento. Entretanto, com a mesma rapidez com que o pensamento positivo apareceu, ele também desapareceu. Na verdade, o que tomou o seu lugar foi a imagem do estranho homem de óculos que estava sempre ao lado de Gokudera. Ele disse que eram amantes, mas será que a relação continua? A expressão de Yamamoto se tornou séria e ele apoiou o punho contra o azulejo. A ideia de imaginar o Braço Direito do Décimo com aquele homem fazia seu sangue ferver. O Guardião da Chuva balançou a cabeça, tentando ao máximo se manter esperançoso. O restante do banho foi passado com ideias e pequenas fantasias pessoais. Havia tanto que ele gostaria de conversar com o homem de cabelos prateados; tanto que ele gostaria de mostrar e compartilhar. E embora não gostasse de utilizar outra toalha além da sua, o moreno se viu enrolando-se no pedaço felpudo branco, e escovando os dentes rapidamente antes de deixar o banheiro. O Guardião da Tempestade ainda dormia profundamente, e havia se arrastado até a beirada da cama. Yamamoto trocou-se e voltou a se deitar, mas dessa vez em sua própria cama. Eu não confio em mim mesmo para estar ao lado dele. A luz do Sol havia invadido boa parte do quarto, iluminando-o e permitindo que o Guardião da Chuva pudesse admirar Gokudera. Onde eu estive todos esses anos? Como eu pude ter sido tão cego? Ele esteve ali o tempo todo.
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O Guardião da Tempestade não era uma das pessoas mais fáceis de acordar pela manhã, então não foi nenhuma surpresa para o moreno ter de se levantar às 8hs para despertar sua companhia de quarto. Geralmente, nas missões, aquela acabava sendo sua tarefa, e ele realmente não se importava em fazer isso. Naquela manhã, em especial, Yamamoto sentou-se na beirada da cama e tocou os cabelos de Gokudera, sorrindo gentilmente. Eles eram finos, totalmente diferentes dos cabelos japoneses. O toque pareceu surtir efeito, mas o Guardião da Tempestade simplesmente rolou na cama e escondeu o rosto nas costas do moreno, resmungando uma ou duas palavras.
"Gokudera, você precisa levantar." O Guardião da Chuva tentou não rir. Seus dedos ainda se perdiam entre os fios prateados.
"Hm..."
"É hora de levantar... Hayato."
Nunca um nome soou de maneira tão natural aos lábios do moreno. Ele não havia se dado conta do que havia dito até ver o Braço Direito do Décimo erguer o rosto. O sono parecia ter desaparecido quase por completo daquele belo rosto, deixando apenas algo muito desconfortável no lugar. O homem de cabelos prateados levantou-se sem fazer nenhum outro comentário, e seguiu na direção do banheiro. Yamamoto encarou a cama vazia, deixando que sua mão corresse livre pelo lençol ainda aquecido pelo corpo de Gokudera. Sua expressão não era séria, mas triste. Não é a primeira vez que eu o chamo pelo primeiro nome, mas pareceu como se eu tivesse cometido um grande erro. O Guardião da Chuva encarou a porta fechada do banheiro e coçou a cabeça, ficando em pé e se espreguiçando. Eu não vou desistir até ouvir minha rejeição oficial. E, mesmo com a autoconfiança levemente abalada, o moreno decidiu esquecer parcialmente aquela história, pelo menos até o fim da missão.
O Guardião da Tempestade deixou o banheiro trajando a mesma roupa, mas os cabelos levemente molhados. Seus olhos estiveram baixos o tempo todo, porém, Yamamoto não se deixou abalar.
"Temos pouco tempo para o café, então o que acha de descermos agora?"
O Braço Direito do Décimo ergueu os olhos momentaneamente, balançando a cabeça em positivo.
"Você pode ir na frente, eu vou trocar de roupa."
A resposta do Guardião da Chuva foi um animado "Tudo bem!", e, apesar de se sentir um pouco relutante em descer sozinho, o moreno achou que o melhor seria evitar qualquer constrangimento. O salão de jantar estava parcialmente vazio quando Yamamoto desceu, e um simpático garçom de cabelos louros se aproximou ao vê-lo entrar, perguntando se ele tinha preferência por alguma mesa. O local escolhido ficava localizado próximo à janela, em uma parte em que o brilho do Sol não era tão forte, mas o suficiente para iluminar o lugar. O homem de cabelos prateados desceu alguns minutos depois, já trajando a roupa social escura que vestiria durante a missão. O Guardião da Chuva sorriu ao recebê-lo, e por dez minutos os dois homens não fizeram nada além de comer. O moreno já não estranhava o café da manhã ocidental, e, embora sentisse saudades do arroz e da deliciosa sopa misô de seu pai, ele não poderia dizer que a xícara de chá e o pão coberto de chocolate não lhe apeteciam. Gokudera comia enquanto mantinha os olhos baixos, e seu café da manhã consistia em uma grande xícara de café preto e meia dúzia de pequenos pães doces.
Yamamoto estava no segundo pão coberto de chocolate quando seus olhos vagaram pelo salão. Era fácil reconhecer os subordinados dos Cavallone entre os hóspedes. Nenhum deles lançava um segundo olhar na direção dos Guardiões, e pareciam realmente apenas pessoas que estavam passando o final de semana naquele caríssimo hotel. Vê-los ali fez com que o Guardião da Chuva se lembrasse da missão que teria pela frente naquela manhã. Seus olhos pousaram automaticamente no homem sentado à sua frente, e por um breve momento ele sorriu. Aparentemente, o Braço Direito do Décimo o encarava, mas assim que os olhares se encontraram, o Guardião da Tempestade disfarçou. Ele é adorável.
"Diga, Gokudera..." O moreno limpou o canto da boca com o guardanapo. "Como é o futuro?"
O homem de cabelos prateados estava mastigando um pedaço de pão, e aquela pergunta pareceu surpreendê-lo. Uma de suas bochechas estava maior do que a outra, e ele permaneceu inerte e pensativo por alguns segundos até voltar a mastigar. As sobrancelhas se tornaram apertadas e os olhos verdes pareceram bravos.
"Eu não sei. Chrome não me disse nada além do que você já sabe."
Aquela era uma curiosidade pessoal de Yamamoto, mas até aquele momento ele não havia encontrado uma oportunidade de perguntar. Quando Gokudera lhe contou toda a história, uma parte do Guardião da Chuva ficou curiosa para ver, nem que fosse através de um pequeno vislumbre, como seria seu futuro. Entretanto, naquele momento, havia uma grande diferença em suas intenções. Eu gostaria de saber a sua resposta, Hayato. Se eu pudesse ir ao futuro eu certamente saberia se deveria ou não ter esperanças. O moreno sorriu triste ao encarar seu prato vazio, imaginando que talvez aquela fosse a última refeição que eles fizessem juntos. Os dois partiriam para Namimori no dia seguinte, e, embora soubesse que eles ainda teriam algumas refeições, ele duvidava que o Braço Direito fosse querer permanecer ao seu lado se a resposta fosse negativa.
O café da manhã passou de maneira levemente embaraçosa, mas nada superaria o caminho de volta ao quarto. Yamamoto decidiu caminhar um pouco à frente, achando que oferecer um pouco de espaço físico talvez ajudasse a melhorar o clima.
O relógio marcava quase 8h40m quando eles entraram no quarto. O Guardião da Chuva pegou sua roupa social e seguiu até o banheiro, sentindo aquela sensação de formigamento no estômago que sempre aparecia antes de uma missão. O homem de cabelos prateados já estava com tudo preparado quando o moreno deixou o banheiro. Externamente o Braço Direito não demonstrava, mas Yamamoto sabia que embaixo do terno existiam pelo menos duas camadas de fogos de artifício e o cinto que representava o elemento da Tempestade. O anel dos Vongola estava em um dos dedos de Gokudera e vê-lo pronto para a ação o deixou levemente animado.
"Gokudera, eu--"
"Sua resposta..." O Guardião da Tempestade ergueu os olhos. Sua expressão era dolorosamente séria. Yamamoto havia aberto a boca simplesmente para perguntar se já era hora de descer para o lobby. "Quando a missão terminar você terá a sua resposta."
O Guardião da Chuva engoliu seco e meneou a cabeça em positivo, aproximando-se do canto da cama e segurando a Shigure Kintoki, que estava enrolada em várias camadas de pano. A espada foi colocada nas costas do moreno, da mesma forma como ele costumava fazer anos atrás com seu taco de baseball. Os dois homens deixaram o quarto de hotel, e a cada passo Yamamoto sentia seu coração bater duas vezes mais rápido. Eles estavam lado a lado, exatamente como sempre estiveram. Em todas as missões, em todas as conversas, em todos os momentos. O Braço Direito sempre esteve ao seu lado, e quando toda aquela bagunça terminasse, ele sabia que sua vida mudaria de uma forma ou de outra. Eu serei outra pessoa quando retornar para esse quarto, o moreno coçou a nuca, entrando no elevador e colocando as mãos dentro dos bolsos da calça, espero voltar como um homem feliz.
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O local apontado por Dino Cavallone, para o que ele mesmo chamou de "assunto final", ficava localizado em uma das extremidades de Roma. A princípio, quando o louro ligou, na semana anterior, e marcou a missão, a ordem foi para que eles desembarcassem em Nápoles. Entretanto, o italiano retificou suas palavras no dia seguinte. Os Moretti eram de Nápoles e a mansão da Família ficava naquela região, porém, eles estariam em Roma durante três semanas, em uma casa alugada. Será que eles desconfiaram? O que aconteceu para que eles mudassem o local da reunião? Para todos os efeitos aquela não era uma missão com o intuito de mudar o futuro, mas sim uma mera e casual reunião de negócios entre os Moretti, os Cavallone e dois empregados do Décimo Vongola. Eu ouvi que o Chefe da Varia quase desistiu de participar ao saber sobre a mudança de lugar. Gokudera disse que ele ameaçou Dino. Mas se a reunião não envolve aquela Família, por que Xanxus está envolvido?
O novo local facilitava a mobilidade do grupo, pois seria possível chegar até lá através da rodovia principal, mas essa opção era somente para os turistas. Yamamoto deixou o quarto de hotel ao lado de Gokudera e não houve conversa durante aqueles curtos segundos até o elevador. Dois andares abaixo três subordinados dos Cavallone juntaram-se a eles e esse padrão seguiu-se até o lobby. Quando as portas do elevador se abriram, todos os que deixaram aquele pequeno espaço possuíam um único objetivo: mudar o futuro. O Guardião da Chuva apertou a alça da espada que estava pendurada em seu ombro direito, ficando levemente surpreso ao encarar a pessoa que os esperava na saída do hotel. Romário ajeitou os óculos enquanto eles se aproximavam, oferecendo o velho e amigável sorriso que o moreno conhecia muito bem.
"Bom dia. Espero que tenham passado uma noite agradável."
Não houve resposta.
"O que houve? Por que você está aqui?" A voz do Guardião da Tempestade saiu séria e levemente rouca. Ele está desconfiando de tudo.
"Não aconteceu nada." Romário riu baixo, acenando para o subordinado que vinha atrás. Yamamoto virou o rosto e percebeu que era o homem que os trouxe na noite anterior, o menos sério e antipático. O subordinado fez um discreto sinal e passou por eles, entrando em um dos carros e sumindo. "Eu vim apenas porque o Chefe pediu. Ele disse que vocês se sentiriam mais confiantes se eu estivesse presente para escoltá-los ao local marcado."
"Você deixou o Haneuma sozinho?" O Braço Direito olhava ao redor enquanto falava.
"Não, ele está bem. Eu não preciso me preocupar." O Braço Direito dos Cavallone abriu a porta do carro escuro e fez uma polida reverência. "Agora, entrem. Nós seguiremos direto para onde o Chefe está."
Yamamoto entrou após o homem se cabelos prateados, e, apesar de estar sentado em um confortável banco de couro e em um espaçoso carro estrangeiro, ele não conseguia se sentir tranquilo. Seus dedos apertavam o pano que envolvia a espada, imaginando se a usaria naquele dia. Eu gostaria que não fosse necessário. Eu gostaria que pudéssemos resolver isso com uma boa conversa. Os olhos castanhos vagaram para o lado, encarando sua companhia. Gokudera tinha os braços cruzados e contra o peito, em uma atitude totalmente defensiva. Seu rosto estava virado para o seu lado da janela, então o Guardião da Chuva não pôde ver a expressão que pintava aquela bela face.
Romário sentou-se ao lado do motorista, então a parte traseira do veículo ficou basicamente reservada para os dois Guardiões dos Vongola. Havia uma fileira de carros que vinha atrás, e mais dois que abriam a escolta na parte dianteira. Em nenhum momento da sua vida o moreno se sentiu tão bem protegido quando naquela manhã. Ele nunca havia sido escoltado por ninguém e para lugar nenhum durante toda a sua vida. O sentimento era brevemente surreal, como se eles fossem celebridades ou pessoas extremamente importantes. A beleza da cidade passava despercebida pelos vidros escuros do carro, e Yamamoto sabia que talvez não se lembrasse futuramente de qualquer outro detalhe que envolvesse a cidade além do quarto de hotel. Os olhos castanhos foram fechados e o Guardião da Chuva recostou-se melhor ao banco, tentando ao máximo relaxar. Aquele era um hábito que ele praticava todas as vezes que se preparava para uma missão. Não havia como saber o rumo das coisas, então quanto mais preparado ele estivesse, melhor.
O carro cortou as ruas de Roma, mas o moreno não viu nada. Seus ouvidos estiveram atentos durante os sessenta minutos que permaneceu dentro do veículo, mas sua atenção esteve em outro lugar. Concentrado e totalmente relaxado, Yamamoto sentia as mudanças na respiração de sua companhia. Gokudera vez ou outra se movia no banco, como se estivesse incomodado, cruzando pernas e braços. Em determinado momento seus dedos tamborilaram no banco e o Guardião da Chuva quase colocou tudo a perder naquele instante. Sua mão direita coçou com a vontade de segurar aqueles dedos entre os seus e com isso, talvez, acalmar um pouco o homem ao seu lado. Esse ímpeto precisou ser controlado, e o moreno fechou a mão em forma de punho, tentando se focar na missão. Normalmente os dois estariam conversando displicentemente sobre alguma bobagem, quebrando o clima pesado. Tudo mudou, mas tudo continua o mesmo.
O veículo parou e os olhos castanhos foram abertos lentamente. A porta do lado esquerdo foi aberta e Yamamoto saiu como se tivesse ensaiado aqueles passos. Sua mão direita segurou a alça da espada, enquanto a esquerda ajeitou charmosamente a gravata. O Guardião da Tempestade vinha logo atrás, acompanhado por mais três subordinados, esses vindos do carro que estava atrás. O estacionamento da mansão era grande, gigantesco. Havia quatro carros estacionados e somente ao olhar ao seu redor foi que o Guardião da Chuva notou que a comitiva que os seguiu não estava ali. Não, eles continuam aqui, mas escondidos. O moreno engoliu seco, tentando não ficar surpreso ao ver quem havia aberto a porta do carro. Bell abriu um largo sorriso e foi somente naquele momento que Yamamoto reconheceu aquela pessoa. Sem a franja em seu rosto, mas com um perfeito penteado, assim como um elegante terno, o Guardião da Tempestade da Varia parecia outra pessoa. Apenas mais um dia. Eu espero que este seja apenas mais um dia.
Romário tomou a dianteira, e os Guardiões seguiram atrás. Havia uma escada que levaria a um nível mais alto, e dali para a entrada da mansão. Os homens da Família Moretti pareciam formigas espalhadas pelo local. O Guardião da Chuva apertou a alça da espada, sentindo que alguma coisa grande estava para acontecer.
“Contem até cinco antes de atacarem.” O moreno franziu a testa, virando o rosto para o lado. Havia um rapaz de altura mediana ao seu lado. Pele branca, cabelos levemente escuros, perfeitamente penteados para trás. Os olhos eram ferinos, sedutores e misteriosos. À primeira vista Yamamoto não o reconheceu, mas assim que encarou os lábios imóveis do rapaz ele soube que aquele era o Guardião da Névoa da Varia. Mammon era o único, além de Chrome Dokuro e Rokudo Mukuro que conseguia se comunicar através de ilusões mentais. Ele está falando dentro da minha cabeça.
“Quantos estão lá dentro?” A voz de Gokudera fez o Guardião da Chuva tremer. Ele sabia que os lábios de sua companhia também não se mexiam, então ele precisaria tomar cuidado com o que pensasse em voz alta.
“Vinte e cinco. O Chefe dos Cavallone está no segundo andar, a terceira porta à esquerda. Vocês não podem avançar até que o térreo esteja limpo. Bell cuidará do segundo andar e eu do primeiro. Subam quando todos os homens estiverem ao chão. O Chefe cuidará do resto.
“Eu não vou ferir ninguém.” O moreno respondeu enquanto apertava o maxilar.
“Faça como quiser, Yamamoto Takeshi. Mas lembre-se que qualquer hesitação pode ser um erro e nós não aceitaremos falhas.”
Mammon lançou um olhar cheio de significados antes de seguir com passos mais rápidos, passando por eles e, literalmente, atravessando a porta da mansão como se seu corpo fosse feito de névoa. Yamamoto sentia os olhos sobre eles, e a sensação permaneceu até que eles entrassem na mansão. O hall não era excessivamente decorado e automaticamente o Guardião da Chuva lembrou-se de algo que Gokudera havia comentado quando eles ainda estavam em Namimori. Eles não têm dinheiro. A casa permanece a mesma há décadas e esses objetos devem ter sido retirados da mansão. O moreno sentiu a porta ser fechada em suas costas, e a alça de sua espada escorregou por seus ombros enquanto ele contava mentalmente até cinco. Ele odiava aquilo. Ele detestava aquela parte do plano, mas sabia bem que, no fundo, o Guardião da Névoa da Varia estava certo. Muito depende que o dia de hoje dê certo, e, infelizmente, hoje eu não posso apenas brincar.
O primeiro homem a ser derrubado foi justamente o que estava atrás.
Yamamoto não precisou retirar a katana de sua proteção, acertando o subordinadodireto no estômago. O segundo homem apareceu diante de seus olhos em uma velocidade perturbadora, e então o Guardião da Chuva precisou levar as coisas um pouco mais a sério. O pano que cobria a Shigure Kintoki foi ao chão, e com a bainha de madeira ele poderia acertar e se defender com mais segurança. O barulho de algo explodindo o fez lembrar-se de Gokudera, e uma vontade quase absurda de procurá-los com os olhos fez seu coração bater mais rápido, mas o moreno não cedeu. Ele jamais me perdoaria se a missão falhasse porque eu estava ocupado demais me preocupando. Eu confio em Hayato.
Se as explosões conseguiam chegar aos demais andares Yamamoto não sabia, mas acreditava que aquilo tinha dedo do Guardião da Névoa da Varia. O térreo foi limpo em menos de cinco minutos e os Guardiões dos Vongola se encontraram no pé da escada. Os dois se olharam por um instante e o moreno começou a subir as escadas. Na teoria aquela havia sido a parte que eles teriam no assunto. Romário ia um pouco à frente, e por um momento Yamamoto se perguntou se ele havia participado da luta ou apenas assistido enquanto ajeitava os óculos e fumava seu cigarro.
O próximo andar estava quieto. Havia cinco homens jogados ao chão, imóveis. O Guardião da Chuva tentou não olhar, torcendo para que aquelas pessoas estivessem vivas. Ele desembainhou a Shigure Kintoki apenas por desencargo de consciência, pois seus golpes haviam sido com as costas da katana. O segundo andar, porém, estava muito mais cruel e realista. Os dez homens que supostamente deveriam garantir a segurança daquela parte da casa haviam sido mortos, e todos possuíam marcas de facas em seus corpos. O moreno engoliu seco, mantendo o olhar reto e seguindo com passos firmes. Ele odiava aquilo. Ele detestava saber que havia um lado sério e malvado naquele jogo de máfia. Os olhos castanhos pousaram no Braço Direito do Décimo, mas sua companhia não demonstrava nada.
A terceira porta à esquerda surgiu muito antes do que Yamamoto esperava. Romário virou o rosto e esboçou um meio sorriso antes de bater três vezes na madeira, anunciando sua chegada. A porta foi aberta do lado de dentro, pelo mesmo subordinado que havia deixado o hotel naquela manhã, e o Guardião da Chuva prendeu a respiração. A prévia ideia que ele tinha do interior era um pouco diferente. O cômodo era visivelmente um escritório, mas as pessoas que ali estavam não pareciam tratar de negócios. Dino Cavallone estava próximo à janela, vestindo um elegante conjunto social negro. O italiano sorriu ao vê-los, mas não existia felicidade naquele gesto. Havia mais dez pessoas no local, incluindo Mammon. Uma delas estava ajoelhada e o moreno pensou que o homem careca e gorducho era quem eles procuravam. Yamamoto entrou após Gokudera, e seus olhos então pousaram no último elemento presente e que não fazia parte da Família Cavallone. Uma criança, o Guardião da Chuva ficou levemente surpreso. Próximo à mesa havia um rapaz que não poderia ter mais de 15 anos. Ele era baixo, magro e de cabelos incrivelmente louros. Os olhos eram azuis e assim que a comitiva entrou, o rapaz os olhou com uma mistura de surpresa e algo que beirava o medo.
“Ratos dos Vongola! I-Impossível!”
O Chefe dos Moretti vociferou e Yamamoto arregalou os olhos. Ele olhava na direção em que estavam e sua expressão era assustadora. O homem estava ajoelhado, ele tinha certeza. Porém, seus olhos mal haviam piscado e então a pessoa que deveria estar ao chão havia ficado em pé em uma velocidade incrivelmente absurda para alguém daquele porte físico.
"Largue a arma." A voz do Guardião da Tempestade saiu séria. Em ambas as mãos havia pequenos fogos de artifícios que mais lembravam pequeninas velas. O Guardião da Chuva havia notado tarde demais que o homem ajoelhado ficara em pé e havia praticamente se jogado sobre eles. Ele tinha uma arma escondida. Isso é loucura. Eu estava distraído. "Você não terá tempo de apertar o gatilho. Sua cabeça rolará ao chão antes disso ou eu o explodirei em mil pedacinhos. Você escolhe."
Yamamoto ergueu levemente a espada. Uma fina linha vermelha escorreu pelo pescoço do Chefe dos Moretti e a contragosto a arma foi jogada ao chão. O Braço Direito do Décimo a chutou na direção da janela e somente naquele momento o Guardião da Chuva viu que Romário e mais meia dúzia de subordinados dos Cavallone estavam à porta, todos armados. Dino, ao contrário de todos os demais, manteve-se na mesma posição, recostado à janela e de braços cruzados. Seus olhos, porém, queimavam.
"Ouça bem Lorenzo, porque eu direi apenas uma vez. Sua Família termina aqui, neste momento. Na verdade, ela não é sua. Você se aproveitou de uma tragédia para buscar uma vingança sem sentido, usando uma criança inocente. E sim, como pode ver, eu sei sobre Rafaelle." O louro abaixou os olhos por um momento, como se pensasse.
"Assassino!" A voz do Chefe dos Moretti saiu rouca. "Os Cavallone são assassinos! Vocês mataram um homem inocente. Ele morreu protegendo esse lixo de Família. Vocês tiraram tudo de nós. TUDO!"
"Ninguém morreu." O italiano ergueu os olhos. "Você luta uma batalha perdida por um motivo imaginário, Lorenzo, e é por este motivo que eu estou desfazendo a sua Família."
“Você não tem essa autoridade! Você não pode desfazer uma Família. Seu poder é limitado, garoto!”
“A Itália é minha. Você está dentro de solo italiano então obedecerá as minhas ordens.” A voz do louro saiu séria. Aquela era a primeira vez que o Yamamoto o via agir realmente como um Chefe. Mammon limpou a garganta propositalmente e lançou um sorriso sádico. “B-Boa parte da Itália é minha. N-Não toda...”
O moreno não desviou os olhos do homem que estava sobre a lâmina de sua Shingure Kintoki, mas sua atenção estava totalmente naquelas palavras. Algo naquela história não soava certo.
"Ninguém morreu? Seus homens assassinaram Alfredo por causa daquele acidente! Eles o acusaram de ter matado o Chefe da Família. Um absurdo! Alfredo dedicou a vida para proteger seu pai e no final eles o mataram. Eu estava lá. Eu estava lá e você deu a ordem, seu pirralho petulante!"
"Eu dei." O Chefe dos Cavallone balançou a cabeça em positivo. "Eu disse para executá-lo por traição e sua morte ocasionou o fim da sua Família."
"Assassino!"
Dino suspirou e passou a mão nos cabelos. Seus olhos pousaram em Lorenzo e por um momento pareceu que havia um estranho e mudo entendimento entre eles.
"Alfredo estava aqui o tempo todo. Ele entrou nesta sala. Ele o cumprimentou e perguntou como foi o seu dia e como estavam os negócios. O homem que supostamente morreu naquele dia esteve ao seu lado e você nem ao menos reconheceu o próprio irmão."
O Chefe dos Moretti fez menção de virar-se, mas o gesto apenas fez a linha de sangue em sua bochecha se tornar maior. Yamamoto desviou rapidamente os olhos, encarando o louro e recebendo um menear de cabeça como resposta. A Shigure Kintoki foi afastada lentamente e o homem virou-se, procurando por algo que deveria estar ali. Quando um dos subordinados presentes deu um passo à frente, os olhos do moreno se estreitaram. Ele reconhecia aquele homem. O mesmo subordinado que nos buscou e ofereceu o envelope com o dinheiro. O mesmo homem que esteve no hotel esta manhã. O assombro nos olhos de Lorenzo foi tão real que até mesmo Gokudera recuou seus fogos de artifício.
O Guardião da Chuva não havia reparado direito naquele homem, mas assim que ele ganhou à frente foi fácil notar as peculiaridades e semelhanças: os cabelos eram claros, quase louros, e finos, muito finos. Os olhos eram azuis e cansados, e, fisicamente ele se vestia como o restante dos subordinados dos Cavallone. Seu sorriso era fraco, triste. E ele não parecia feliz ou satisfeito naquele momento.
"Você está... morto."
"Eu estou." O homem de nome Alfredo respondeu baixo. "Para o resto do mundo eu estive morto por 15 anos."
O silêncio que seguiu aquele instante foi torturante. Os dois homens se olharam, mas com expressões e sentimentos diferentes. O Chefe dos Moretti fez menção de se aproximar, mas Yamamoto ergueu a espada novamente, colocando-a entre eles.
"Fique onde está."
"C-Como isso é possível?" Lorenzo virou-se, encarando o Chefe dos Cavallone com olhos ferinos.
"Eu não lhe devo uma explicação, mas eu a oferecerei como uma forma de simpatia." Dino desencostou-se da janela. "Meus pais morreram em um acidente, mas o restante da Família jamais acreditaria nisso. Eles precisavam de um culpado, de alguém que recebesse o peso da culpa em deixar a Família sem um líder, ou melhor, deixá-la para um pirralho petulante de doze anos. Alfredo sugeriu o plano e eu aceitei. Hoje vejo que poderia ter resolvido a situação de outra maneira, mas não posso questionar as atitudes de uma criança de doze anos. A execução foi uma mentira. O homem que morreu era um bandido que estava condenado à prisão perpétua. Meus tios tiveram a justiça que queriam, mas no final eu conquistei um inimigo que eventualmente se tornaria mais poderoso do que eu poderia imaginar."
A realização de que estava ouvindo algo que não lhe dizia respeito fez Yamamoto sentir-se levemente incomodado. Certas coisas naquele jogo de máfia o deixavam indignado e até mesmo furioso, e aquele seria um bom exemplo. A expressão no rosto do Chefe dos Moretti tornou-se dura, mas nada era mais severo do que o olhar de Alfredo. O homem passou a mão na testa e olhou como se pedisse desculpas a Dino.
"Você pretendia usar meu filho para reconstruir uma Família extinta. Você queria transformá-lo em um monstro."
Os lábios de Lorenzo se entreabriram, mas não pronunciaram nada. O Guardião da Chuva apertou um pouco mais o cabo da katana, pronto para qualquer tipo de atitude ríspida. Entretanto, não houve nenhum movimento por parte do Chefe dos Moretti. O homem parecia ter levado um golpe forte demais, e era tão clara a maneira como ele tentava digerir tudo aquilo, que o moreno imaginou quanto ódio aquela pessoa não havia alimentado durante os anos e que de repente era simplesmente inútil. Yamamoto ainda não entendia a situação totalmente, mas era evidente o que o Chefe dos Cavallone havia dito anteriormente sobre o desenrolar da situação estar em suas mãos. Ele sabia de tudo. Somente ele poderia ter feito isso.
O dono da casa ergueu os olhos para o garoto louro que estava do outro lado do cômodo, recebendo em troca uma expressão assustada. O rapaz caminhou até Dino, escondendo-se em suas costas como uma criança.
Alfredo deu um passo à frente, mas antes que o Guardião da Chuva pudesse pedir que ele se afastasse, uma voz rouca e extremamente alta chamou a atenção de todos. O som veio acompanhado de uma alta risada, e não foi preciso muito para que o moreno reconhecesse de quem era aquela voz.
"VROOOOIII!"
Os subordinados que estavam à porta se afastaram ao mesmo tempo em que Xanxus adentrava, arrebentando a madeira com um chute. O moreno não soube dizer se sentiu alívio, felicidade ou medo ao ver Squalo ao lado de seu Chefe. O homem lançou um olhar cheio de maldade ao entrar, sorrindo de orelha a orelha ao encarar Yamamoto.
"Vim buscar o restante do lixo." Xanxus olhou para o Chefe dos Cavallone como se não houvesse mais ninguém na sala.
"E o restante dos homens?" O italiano parecia desconfortável.
"Todos mortos." Squalo respondeu afastando a Shingure Kintoki com a mão e acertando o Chefe dos Moretti com um golpe tão forte que o homem caiu de joelhos, sem chance alguma de se defender.
O Guardião da Chuva deu um passo à frente, mas recuou ao receber um olhar do Chefe da Varia. Xanxus deu meia volta e agarrou Lorenzo pelo pescoço, abrindo um largo e cruel sorriso.
"Nós vamos nos divertir. Você vai aprender que não se mente para a Varia."
"S-Squalo."
"Você fica aqui." O Guardião da Chuva da Varia ergueu a espada presa em sua mão esquerda e o moreno precisou dar um passo para trás ou teria recebido a lâmina direto no olho direito. "Isso não é assunto seu, Yamamoto."
"O que você fará com ele?"
A resposta foi um largo sorriso, tão cruel e frio quanto o de Xanxus. O Chefe dos Moretti foi arrastado para fora, e nenhum dos presentes fez nada para impedir. O moreno virou-se para Dino, seu coração batendo mais rápido e completamente indignado com o que havia acabado de ver.
"YAMAMOTO!"
A mão do Guardião da Chuva teria erguido a espada para ir atrás de Squalo se a voz do Braço Direito do Décimo não tivesse chegado aos seus ouvidos. Os olhos castanhos seguiram aquele timbre, encarando surpreso o dono da voz. O homem de cabelos prateados o olhou sério e fez negativo com a cabeça, mas seus olhos verdes não demonstravam aquela seriedade. Ele também está revoltado.
"Eu sinto muito, mas fazia parte do acordo." Dino parecia tão indignado quanto os demais presentes. "Eu precisava deles."
"Você não precisa se desculpar." Alfredo se pronunciou. Seus olhos azuis pareciam ainda mais cansados. "Ele teria feito algo muito pior com você, garoto, e eu jamais permitiria isso. Seus pais o estimavam muito e eu não suportaria viver sabendo que a Família que eu servi com tanto amor acabara por causa de uma vingança sem sentido."
Um sorriso tímido e infantil pintou os lábios do louro, e o clima tornou-se um pouco mais leve. Yamamoto apertou o cabo da espada, a mão inquieta e os olhos ainda fixos em Gokudera. Até aquele momento nenhum deles notara que Romário havia ido até o outro lado do cômodo ou que alguns minutos haviam passado. Ninguém ousava dizer nada, todos perdidos em seus próprios pensamentos e suas próprias dores. Quando a voz do Braço Direito dos Cavallone foi ouvida, o italiano sorriu um pouco mais sincero.
"Venha cá, rapaz.”
Romário ofereceu a mão ao garoto que estava escondido nas costas de Dino, e foi com um pouco de relutância que ela foi aceita. O rapaz de cabelos louros parecia um animal acuado, olhando ao seu redor, mas sempre procurando os olhos do Chefe dos Cavallone como apoio. O italiano sorriu e fez sinal para que Romário se afastasse, pois ele cuidaria do assunto.
“Rafaelle, este é o homem que eu havia mencionado.”
O rapaz virou-se e levou a mão aos lábios, visivelmente chocado. Não foi preciso muito para que Yamamoto entendesse o que estava acontecendo. Até para um idiota aquilo era extremamente claro, e uma parte dentro dele lembrou-se de seu pai em Namimori, e seus lábios se repuxaram em um meio sorriso triste. Quando ele foi ao futuro, antes da luta contra Byakuran, naquele futuro seu pai estava morto e o Guardião da Chuva jamais esqueceria o vazio que sentiu ao descobrir tal coisa. Os olhos castanhos se abaixaram por um momento, mas voltaram a se erguer ao sentir algo tocar-lhe o ombro. O Braço Direito do Décimo estava ao seu lado, em uma muda e reconfortável presença.
Os dois Guardiões encararam a cena com olhos atentos. O garoto de cabelos louros recuou por um tempo, mas quando Alfredo o chamou pelo nome, foi como se tudo o que ele precisasse fosse um pequenino incentivo. Rafaelle correu até os braços do pai e o abraçou, chorando tão alto e desesperado que até mesmo os olhos do moreno se encheram de lágrimas. Ele era fraco com relações entre pais e filhos, aquilo era um fato. O homem de cabelos prateados o olhou, mas não fez comentário, pelo menos não com relação aos olhos vermelhos.
"Eu nunca achei que diria isso, mas o Haneuma é incrível." A voz do Guardião da Tempestade soou baixa, quase um sussurro. Aquele comentário fez Yamamoto juntar as sobrancelhas, sem compreender exatamente o que aquelas palavras queriam dizer. "O homem que o matará, ou o matou no futuro, está diante dos seus olhos e ele não faz nada. Eu não sei se conseguiria manter esse nível de confiança." Gokudera abaixou os belos olhos verdes. "Não existe garantia de que esse menino não se transformará naquele monstro."
O Guardião da Chuva ergueu os olhos, encarando o louro do outro lado do escritório. Dino estava de braços cruzados, mas havia um largo e satisfeito sorriso em seu rosto. Não havia sinal de vingança ou medo. Temor ou desconfiança. Ele fez a coisa certa. No fundo ele sabe que fez o certo, independente do que for acontecer no futuro. O moreno voltou a pousar os olhos na cena entre pai e filho ainda abraçados, e aquilo o fez sorrir.
"Dino está acreditando no futuro, Gokudera. Ele está fazendo o que eu faria, pois, da mesma forma como não temos como saber se esta criança fará a mesma coisa, também não podemos condená-la por algo que ela ainda não tenha feito. E você faria o mesmo. Você não é um assassino."
O Braço Direito do Décimo pareceu não estar totalmente convencido, mas Yamamoto achou que havia dito o suficiente. Alfredo se desvencilhou do abraço e virou-se para o Chefe dos Cavallone, sorrindo e agradecendo entre as gordas lágrimas que escorriam por seu rosto.
"Eu não sei como agradecer. Obrigado por me devolver meu filho."
"Eu não fiz nada além da minha obrigação. Você serviu meus pais por longos anos e me serviu como um fiel membro da Família." O italiano aproximou-se de Rafaelle e abaixou-se, apoiando um dos joelhos ao chão. "Eu estou te devolvendo o seu pai. Desculpe a demora, Rafaelle." O Chefe dos Cavallone bagunçou os cabelos do rapaz, mas voltou à atenção ao pai. "Mas se você quiser realmente me agradecer, Alfredo, então trabalhe para mim. Assuma seu antigo cargo na Família e eu farei com que seu filho seja recebido de braços abertos. Ele ocupará o seu lugar no futuro e os filhos dele terão a mesma regalia até o fim dos tempos."
Gokudera deu um passo à frente, mas o Guardião da Chuva o segurou pelo braço, fazendo negativo com a cabeça. Ele sabia bem o que o homem ao seu lado pensava, e, embora também achasse um pouco arriscado, a escolha era exclusivamente de Dino e não havia nada que eles pudessem fazer.
"Meus tios morreram e ninguém mais será contra uma ordem minha. Aqueles que sobreviveram àquela geração sabem de tudo, então você não precisa se preocupar em como será recebido." O louro continuou. "E seria uma honra tê-lo ao meu lado novamente. Eu sempre estou necessitado de bons conselhos."
Alfredo enxugou as lágrimas que ainda teimavam em cair e fez uma polida reverência, agradecendo a honra de poder ocupar novamente seu cargo como conselheiro da Família Cavallone. Rafaelle limpou o rosto choroso e fez o mesmo gesto apenas para imitar o pai, e o italiano riu e agradeceu aos dois com um grande sorriso.
"Q-Quanto a Lorenzo..." O antigo-novo membro da Família perguntou baixo e de maneira incerta.
"Sinto muito, mas eu não posso fazer nada. Os Moretti serão desfeitos e todos os envolvidos acabarão cedo ou tarde sendo enviados para Vindice. Quanto ao seu irmão, espero que ele sobreviva ao que quer que Xanxus tenha planejado. O Chefe da Varia não é alguém que você quer ter como inimigo."
O moreno abaixou os olhos e puxou o braço do Guardião da Tempestade. Os dois deram meia volta, afastando-se do cômodo sem serem barrados por nenhum dos subordinados. Os andares estavam tomados por membros da Família Cavallone e a cada passo que dava Yamamoto sentia-se cada vez mais leve. Ele queria sair daquela casa o quanto antes. Ele queria esquecer o que havia visto e ouvido. O Guardião da Chuva não reparou que ainda segurava com força o cabo da Shigure Kintoki, pois sua atenção esteve em sua companhia o tempo todo. Intimamente o moreno se perguntava se o Braço Direito estava bem, emocionalmente falando. O Sol estava forte do lado de fora, e acertou os olhos de Yamamoto, fazendo-o proteger-se com a mão livre. Havia homens por todos os lados da entrada, alguns caídos e feridos, outros mortos e muitos amarrados ou rendidos. Os subordinados dos Cavallone se afastaram quando eles passaram, mas antes que pudessem estar totalmente fora do perímetro, uma voz conhecida chegou até eles.
"O Chefe agradece a ajuda." Romário sorriu. "Ele gostaria de falar com vocês com um pouco mais de calma, mas pediu que eu enviasse um carro para levá-los para o hotel."
"Nós ficaremos bens, mas aceitamos o carro." O Guardião da Chuva coçou a nuca, levemente sem graça. "E não precisamos de escolta. É meio... embaraçoso hehehe."
O Braço Direito dos Cavallone riu e fez sinal para um dos subordinados que estava próximo.
"Entregue um dos carros a eles e liberem as saídas." Romário voltou a atenção para os dois Guardiões quando o subordinado se afastou. "Novamente, obrigado pela cooperação."
"O Haneuma..." O homem de cabelos prateados falava enquanto acendia um cigarro. "Tem certeza de que aquela foi a decisão certa? O garoto está ali, tudo pode terminar. Não há garantias de que o futuro será mudado por causa do dia de hoje."
"Ele sabe disso, Guardião da Tempestade dos Vongola." O Braço Direito sorriu. "O Chefe sabe disso melhor do que você imagina, mas também sabe que vingança gera vingança. Se ele matasse o menino, aquilo provocaria uma segunda vingança por parte de outra pessoa e o ciclo nunca teria fim. Ele está apostando que o que aconteceu hoje poderá ser capaz de mudar o futuro e eu quero acreditar nisso também."
"A decisão é de vocês. Meu trabalho aqui está feito."
Gokudera deu meia volta e começou a se afastar. O moreno desculpou-se com Romário e agradeceu pelo carro, apertando o passo e aproximando-se do homem de cabelos prateados. A caminhada até onde os veículos estavam foi parcialmente longa, e, ao chegarem, havia um carro popular disponível para eles. Qualquer coisa menos uma limousine. Entretanto, antes que pudesse abrir a porta, algo barulhento fez com que os dois Guardiões se virassem. Romário estava no mesmo lugar, mas havia se abaixado para ajudar um desfalecido Dino Cavallone a ficar em pé.
“O que aconteceu agora?” O Braço Direito do Décimo deu um passo à frente. Ele ainda estava tenso.
“Eu não planejava falar com vocês agora, mas precisava aproveitar a oportunidade. Obrigado pela cooperação.” O louro falou assim que se aproximou.
“Se eu soubesse que Xanxus faria o que fez eu não teria participado.” O Guardião da Tempestade não perdeu tempo.
“Eu sei, e peço desculpas por isso.” O italiano coçou a nuca, levemente constrangido. “Eu não posso demorar, apenas queria saber se vocês têm notícias de Tsuna.”
Aquele nome pareceu dar vida ao homem de cabelos prateados. Os olhos verdes brilharam e no mesmo instante Gokudera enfiou a mão dentro do bolso da calça, retirando o celular.
“Eu falei com o Décimo ontem, mas já que você insiste, Haneuma, eu posso ligar de novo.” Yamamoto virou o rosto e escondeu a vontade de rir. Porém, algo puxou a manga de seu terno, fazendo-o virar-se novamente. “A-Acho melhor você ligar. O Jyuudaime pode me achar inconveniente por telefonar dois dias seguidos.”
“Hahahaha Tsuna jamais pensaria isso, Gokudera.” O Guardião da Chuva sentiu o telefone ser colocado à força em sua mão.
Os olhos de Dino brilharam com aquele comentário e o moreno sorriu, imaginando o quão preocupado ele não estaria com Hibari. Ele não veio saber somente sobre Tsuna. Eu provavelmente faria o mesmo. A relação entre o Chefe dos Cavallone e o Guardião da Nuvem sempre foi cercada por mistérios e muita discrição, mas após todos aqueles anos não era difícil imaginar o que existia realmente entre eles. O moreno segurou o telefone celular entre seus dedos, procurando o número de Chrome, já que a jovem mulher havia ficado responsável por garantir que Tsuna ficasse protegido. Enquanto aguardava o tom de espera, Yamamoto ergueu os olhos e encarou o italiano. Os olhos cor de mel pareciam aflitos e curiosos, provavelmente escondendo uma angústia que ninguém poderia imaginar. Quando o outro lado da linha atendeu, o Guardião da Chuva sentiu-se mais aliviado. Porém, a voz não era de Chrome.
"Oh! Yamamoto Takeshi. A que devo a honra dessa ligação?"
"M-Mukuro?" A resposta foi uma vaga e estranha risada. Dino cruzou os braços e se tornou um pouco mais sério, e não era preciso mencionar a expressão de puro pavor que pintava o belo rosto do Braço Direito do Décimo. "Eu gostaria de falar com a Chrome."
"Ela não está aqui. Está tomando conta do Décimo Vongola." O outro Guardião da Névoa pareceu afastar os lábios do telefone. "Você acredita nisso? Ela não me deixou proteger o Sawada Tsunayoshi kufufufufu."
O moreno revirou os olhos, imaginando que Chrome era realmente uma pessoa precavida.
"Onde você está? Se ela está com Tsuna quem está no templo?"
"Eu estou."
A resposta não foi ouvida pelos demais, mas a maneira como o louro passou a mão nos cabelos só demonstrou que ele sabia da resposta. O italiano nunca foi fã de Mukuro, e todas as vezes que o estranho homem estava envolvido o Chefe dos Cavallone se tornava realmente sério. Ele está com ciúme. Yamamoto ficou surpreso por notar aquilo. Até aquele momento tal ideia não havia passado por sua mente. Ele não conseguia imaginar Dino como uma pessoa ciumenta. Ele sabe que Mukuro e Chrome são uma coisa só, não?
"Ele está ai? Mukuro, é importante que você diga a verdade."
"Você é sempre tão entediante, Yamamoto Takeshi. Você sempre foi o mais comum, normal e chato." A voz do outro Guardião da Névoa saiu aborrecida. "Ele está no templo, eu estou recebendo notícias diretas do Braço Direito. Eu não posso ir além das escadarias como você bem sabe."
O Guardião da Chuva coçou a cabeça. Ele lembrava vagamente de algo que acontecera há cerca de três ou quatro anos. Hibari havia desafiado Mukuro com o intuito de devolver uma luta que tiveram há muito tempo. O moreno não estava lá e não soube a conclusão de tal duelo, porém, o que chegou ao seu conhecimento foi que Chrome precisou ir ao templo, pois a destruição foi tanta que seriam necessários meses de trabalho para reconstruir certas partes. Os reparos foram feitos, mas boa parte do local passou meses sendo apenas ilusões. Depois disso a jovem mulher proibiu Mukuro de pisar além da grande escadaria.
A ligação foi encerrada com um breve "Até logo~", seguido por uma risada vaga do outro lado. O Chefe dos Cavallone agradeceu, mas seus olhos pareciam sérios e levemente inquietos. Romário, que até aquele momento permaneceu afastado, aproximou-se e tocou o ombro de Dino. Os olhos cor de mel fitaram Yamamoto e o homem de cabelos prateados, aguardando sua resposta.
“Eles estão bem... ambos.” O Guardião da Chuva olhava do louro para o Braço Direito do Décimo. “Chrome está com Tsuna e Mukuro está na escadaria do templo. Kusakabe o informou que Hibari está bem.”
A expressão de alívio no rosto do italiano foi tão evidente que o moreno se sentiu feliz por ter dado aquela notícia. Eu não sei por qual motivo Dino está tão angustiado, mas eu espero ter ajudado.
“Muito obrigado.” O Chefe dos Cavallone até respirava de maneira diferente. Eu preciso retornar agora, mas agradecerei de maneira apropriada quando as coisas se acalmarem.”
“Não se esqueça de agradecer ao Jyuudaime, Haneuma.” Gokudera ainda estava irritado.
“Eu irei, não se preocupe.”
Dino fez uma polida e elegante reverência antes de seguir pela entrada ao lado de Romário. O moreno permaneceu no mesmo local, até se dar conta de que estava com o celular do homem de cabelos prateados em sua mão.
"Aqui,” Yamamoto entregou o telefone celular e segurou a chave do carro. “Eu dirijo.”
"Apenas tente não matar ninguém pelo caminho, idiota. Nós não estamos em Namimori." O Guardião da Tempestade abriu a porta do veículo e sentou-se com barulho.
O moreno riu e toda a tensão que ele sentira nos últimos minutos pareceu escorrer por seus dedos. O carro cruzou o jardim da mansão, e quanto mais se afastava de toda aquela confusão, mais tranquilo o Guardião da Chuva se sentia. O Braço Direito do Décimo acendeu um segundo cigarro e recostou-se melhor ao banco; em poucos minutos não existia mais missão ou preocupação com sobrevivência. Independente dos resultados que aquela missão traria, naquele momento o moreno sabia que havia feito tudo o que estava em suas mãos. Ainda não...
Yamamoto não havia prestado atenção no caminho quando eles foram levados até a mansão, mas estranhamente seu corpo parecia se recordar. Eles seguiram pela estrada por alguns minutos, e somente ao entrar no centro de Roma foi que o Guardião da Chuva notou que eles estavam sendo seguidos, ou melhor, escoltados. O moreno riu baixo, chamando a atenção de sua companhia, que até aquele momento havia ficado tão quieto que parecia dormir de olhos abertos.
"Temos companhia. Dino provavelmente enviou alguém para garantir nossa segurança."
"Ele deveria pensar sobre a própria segurança." Gokudera virou-se no banco, apertando os olhos para ver o carro que vinha ao longe. "Levar o inimigo para dentro da sua própria casa. Que absurdo!"
"Esqueça isso, Gokudera." Yamamoto deu de ombros, sorrindo. "Eu quero acreditar que ele fez a coisa certa, e, bem, de qualquer forma, saberemos em pouco tempo se o plano funcionou, não é? Aliás, como faremos isso? Da última vez Chrome se disponibilizou a ir, mas eu estava pensando se eu não poderia ir em seu lugar desta vez.
"Hã?" A reação do Guardião da Tempestade foi tão sincera que fez com que o moreno risse. "Você? Um idiota no futuro?"
"Hahahaha eu estou apenas curioso." O Guardião da Chuva coçou o queixo. "Eu quero ver o que acontecerá e saber que tipo de vida eu terei, o que eu farei, onde morarei... essas coisas."
O Braço Direito do Décimo voltou a encarar a janela, mas Yamamoto viu claramente a maneira como ele mordeu levemente o lábio inferior. Aquele era um hábito que o homem de cabelos prateados tinha quando estava pensando em algo que o deixava confuso ou temeroso.
"Você irá se casar." A voz de Gokudera saiu tão clara quanto um céu de verão. "Chrome me disse isso quando eu perguntei sobre o futuro."
O moreno não diminuiu a velocidade ou fez nenhum comentário sobre aquilo. Seus olhos estavam fixos nas ruas que eram pequenas e estreitas e pareciam as mesmas, não importasse para onde eles seguissem. O carro entrou por uma rua um pouco mais larga e seguiu até uma avenida. Ali, pela primeira vez, Yamamoto olhou ao redor, abrindo um meio sorriso ao encontrar o que tanto procurava. O veículo parou no sinal vermelho, mas assim que a passagem se tornou livre, o Guardião da Chuva desviou-se do caminho original.
"Não me diga que se perdeu?" O Braço Direito virou-se curioso. "Se você não lembra onde fica o hotel eu posso dirigir.”
"Eu sei exatamente onde fica o hotel." O moreno dobrou à esquerda, dando a volta ao redor do local em que eles estiveram inicialmente. O carro parou em outro sinal vermelho. "Mas eu não vou retornar para lá até que tenhamos conversado.”
O homem de cabelos prateados arregalou os olhos, virando o rosto praticamente no mesmo instante.
"Não é hora para isso, Yamamoto, nós temos uma miss–"
"Que foi encerrada. Nosso trabalho aqui está terminado e só precisamos esperar para retornarmos amanhã para o Japão." Yamamoto diminuiu a velocidade e parou o carro ao lado de uma calçada. "E eu preciso ouvir a sua resposta."
"Você é surdo?" Gokudera virou-se com fúria. Seu rosto estava sério e bravo. "Eu acabei de dizer que você estará casado no futuro. Minha resposta é totalmente irrelevante, porque o seu futuro é um só. Vamos retornar ao hotel e fingir que nada disso aconteceu."
"Não, não vamos." O Guardião da Chuva desceu do carro e deu a volta com passos rápidos, abrindo a porta do lado em que estava o Braço Direito, e fazendo sinal para que ele saísse. "Dino mudou seu futuro e eu posso fazer o mesmo. Eu não sei o que Chrome viu ou o que ela te disse, mas eu posso dizer com absoluta certeza de que há algo errado com aquele futuro. Agora, por favor, venha comigo."
O Guardião da Tempestade hesitou, olhou para os lados e acabou saindo do veículo totalmente a contragosto. O moreno apontou para frente, na direção do pequenino parque. O carro havia sido estacionado próximo à calçada e os dois seguiram pelo caminho de pedra batida que ficava além da calçada. O local não lembrava em nada o parque japonês em que eles costumavam passar boa parte das tardes, mas ele não poderia dizer que não possuía uma beleza peculiar. Havia um largo chafariz no centro e vários bancos espalhados. Os Guardiões dos Vongola caminharam até um que estava vazio, mas que recebia uma boa proteção das árvores. Yamamoto sentou-se primeiro, dando espaço para que sua companhia escolhesse a distância que queria colocar entre eles. O homem de cabelos prateados sentou o mais afastado que pôde, cruzando os braços e as pernas.
Não havia nada que o Guardião da Chuva pudesse falar, e ele sabia disso. Todas as palavras já haviam sido ditas, todos os sentimentos expostos e explicados. A decisão era somente de Gokudera, e durante os minutos que passou ali, no mais puro silêncio, o moreno lutou contra si mesmo e a vontade de pedir mais uma vez por uma chance. Ele não se importava em parecer que estivesse implorando ou mendigando aquilo. O Guardião da Tempestade tinha todo o direito de lhe negar tudo, e no fundo o que ele pedia estava além do que qualquer pessoa poderia oferecer. Yamamoto inclinou-se à frente e apoiou os cotovelos sobre os joelhos, encarando o chão. Aquela posição evitava que ele olhasse diretamente para o homem sentado ao seu lado, assim como permitia que seus pensamentos fossem colocados em ordem.
"Você está cometendo um erro, Yamamoto." O Braço Direito moveu-se no banco. Sua voz soou baixa, mas não havia sinal da irritação anterior.
"Por quê?" O Guardião da Chuva não se virou. Ele acreditava que quanto menos encarasse sua companhia, mais fácil seria ouvir o restante.
"Porque esses sentimentos não são reais. Você pensa que são, mas a verdade é que se eu não tivesse dito nada naquele dia você jamais estaria sentado neste banco e não estaríamos tendo essa conversa desnecessária."
O moreno manteve os olhos no chão, mas sabia que o homem ao seu lado havia acendido um cigarro.
"Você pode estar certo quanto a isso."
As palavras saíram estranhas. E, apesar de não ser uma pessoa que pensava demais, Yamamoto havia questionado bastante aquela hipótese. Ele já havia feito aquelas mesmas perguntas em busca de respostas. Por noites ele passou deitado em sua cama, encarando o teto e tentando entender o que havia acontecido. De repente o Guardião da Chuva era outra pessoa. Seus desejos, suas fantasias, seus valores mudaram, ou melhor, despertaram.
"Eu poderia passar minha vida ignorante desses sentimentos se você não tivesse dito nada, mas você disse." O moreno virou-se pela primeira vez desde que havia se sentado. "E você pode duvidar, mas eu tenho plena certeza e convicção quanto ao que sinto por você, Gokudera. Eu não consigo vê-lo apenas como mais um amigo, um colega de trabalho ou conhecido. Todas as vezes que eu o vejo eu preciso me controlar para simplesmente não abraçá-lo. Ontem, enquanto estávamos na cama, você não faz ideia do quanto lutei contra mim mesmo para não fazer o que meu corpo pedia que eu fizesse."
O Guardião da Tempestade manteve os olhos em linha reta, ouvindo a tudo e sem esboçar nenhuma reação. Entretanto, Yamamoto sorriu ao ver as bochechas coradas e isso o fez sentar-se melhor no banco e espreguiçar-se. De nada adiantaria estar preocupado com uma possível rejeição, porque aqueles eram eles. Sempre foram e sempre seriam eles.
"Eu não vou desistir de você." As palavras saíram naturais dos lábios do Guardião da Chuva, como se sempre estivessem estado ali. "Se você me rejeitar hoje, amanhã eu tentarei novamente, e depois de amanhã e na semana seguinte, e no próximo mês... Eu não vou deixá-lo ir sem que me ofereça uma chance."
O Braço Direito do Décimo Vongola deu uma longa tragada no cigarro, retirando o cinzeiro portátil do bolso, abrindo-o e batendo de leve as cinzas.
"Você teve quatro namoradas em todos esses anos. Ami, Erika, Maya e Yurika. Você nunca saiu com outro homem e todos os seus relacionamentos foram longos. Você ao menos sabe como funciona entre homens?" Gokudera virou-se. Seu rosto estava sério. "Você acha que sabe, mas você não sabe de nada, Yamamoto. Eu não tenho curvas, eu tenho músculos aonde deveria ter curvas. Eu não tenho seios grandes e pele delicada e macia. Eu cheiro a cigarros, cafeína e pólvora o tempo todo. Lembre de todas as suas namoradas e você vai entender que tudo não passa de coisa da sua cabeça. Eu gosto de homens, eu sempre gostei, mas você não... você gosta de garotas baixas e delicadas, e com seios grandes e personalidade tola. Eu não me encaixo em nada disso, então não me faça perder tempo com explicações quando a resposta é óbvia."
Os olhos castanhos do moreno não perderam um segundo daquela interessante explicação. As palavras entraram pelos ouvidos de Yamamoto, e, embora tenha entendido, o que realmente havia lhe interessado foi a maneira com que tudo aquilo havia sido dito. Os lábios rosados, os olhos verdes, a franja prateada que se movia conforme a cabeça do Guardião da Tempestade se mexia... todos os pequenos detalhes não passaram despercebidos pelo Guardião da Chuva, e, quando o discurso negativo do Braço Direito terminou, tudo o que o moreno conseguiu fazer foi sorrir.
"Hahahahaha eu realmente estou apaixonado por você, Hayato."
A reação que o moreno tanto esperou aconteceu bem diante de seus olhos, e sem que fosse sua intenção. O homem de cabelos prateados corou tão violentamente que foi impossível não notar. O cigarro que estava entre seus dedos caiu ao chão, mas antes que Gokudera pudesse ficar em pé, Yamamoto o segurou pelo pulso, fazendo-o permanecer.
"Eu não gosto de homens, mas eu gosto de você, e acontece de você ser um homem. E você tem razão, eu gosto de garotas com seios fartos, eles são bonitos de se ver, mas é algo que eu viveria sem. E se você for me rejeitar utilizando esses argumentos então eu simplesmente não aceitarei. Ah! E sobre sexo entre homens eu sei como funciona, eu fiz a minha pesquisa."
"Hã?" O Guardião da Tempestade juntou as sobrancelhas, confuso. "O que você quer dizer com ‘pesquisa’?”
"Eu procurei sobre o assunto em livros e filmes. Existe uma infinidade de fontes na internet, se você me permite dizer."
"Você está querendo me dizer que assistiu pornografia... gay?" As palavras deixaram os belos lábios do Braço Direito de Tsuna em uma voz baixa e de maneira pausada.
"Sim." Yamamoto respondeu prontamente. Ele não entendia porque não deveria dizer a verdade.
A risada do homem de cabelos prateados foi baixa e discreta, como sempre acontecia quando ele queria rir. Gokudera escondeu o rosto em uma das mãos, mas era clara a maneira como ele se divertia. O Guardião da Chuva ergueu as sobrancelhas, sem entender o motivo da graça inusitada.
"Você é inacreditável, Yamamoto. E eu achei que sua idiotice não poderia aumentar, mas depois dessa você subiu de nível." O Braço Direito do Décimo enxugou o canto dos olhos, e encarou sua companhia enquanto ainda ria.
"Eu só queria estar preparado para a sua resposta." O moreno coçou a nuca, sentindo-se levemente envergonhado. "Eu estou falando sério. Eu jamais brincaria com os seus sentimentos e você sabe disso."
"Eu sei." O riso morreu lentamente e a expressão séria voltou a vestir o rosto do Guardião da Tempestade. "Você não brincaria com os sentimentos de ninguém, esse é quem você é. Porém, você está querendo abrir mão de muito para receber pouco. A troca é injusta. A vida que você pode ter com Yurika ou qualquer outra mulher é superior a qualquer coisa que eu possa oferecer."
"Como?" Yamamoto juntou as sobrancelhas, sério. Ele não gostava do rumo daquela conversa. Na verdade, ele não gostava quando o homem de cabelos prateados se menosprezava daquela forma.
"Isso." Gokudera apontou para frente e os olhos castanhos seguiram na direção apontada. Próximo ao chafariz havia pelo menos meia dúzia de crianças brincando com uma bola. Elas não pareciam ter mais de três ou quatro anos. Nos bancos próximos estavam jovens mulheres, provavelmente as mães das crianças. "Da última vez que sentamos em um banco de praça você disse que estava pensando em propor à Yurika. Eu acredito que essa é a melhor decisão que você pode tomar. Yurika é uma boa mulher e poderá te dar uma grande família. Eu nunca poderei te dar isso. A vida ao meu lado será tediosa e passaremos mais tempo brigando do que sendo felizes, porque, bem, você é um idiota. Perto do amor de Yurika o meu é... insignificante."
"Eu não posso voltar para Yurika." O Guardião da Chuva encarou a Shigure Kintoki enrolada no pano e repousando em seu colo. Ele não havia reparado que saiu do carro segurando o embrulho. "Eu terminei com ela no mesmo dia em que tivemos aquela conversa no meu quarto. Quando você foi embora eu dirigi até a casa dela e terminei o relacionamento. Não foi fácil, ela chorou e eu me senti miserável por ter feito uma mulher tão incrível como ela chorar, mas não seria justo. Yurika merece alguém que a ame por completo, e eu só poderia amá-la aos pedaços, pois todas as vezes que estivéssemos juntos eu estaria desejando que ela fosse você."
O moreno suspirou e encarou o céu azul.
"Eu sempre quis uma família grande. Cinco filhos, casa cheia, muito barulho... porque eu nunca tive isso. Minha mãe morreu quando eu era uma criança, então sempre fomos eu e meu pai. E, embora os ajudantes sempre estivessem lá e o restaurante cheio todas as noites, não era como ter uma mãe e irmãos. Então eu desejei ter o que eu não tive, e, realmente, se eu pensasse em construir esse futuro, Yurika seria minha primeira opção. Ela é boa e doce, e certamente seria uma boa mãe. Quando nós tivemos aquela conversa eu tinha esse pensamento em mente. Entretanto, hoje, agora, eu não me importo em não ter essas coisas. Aquele sonho fazia parte da vida que eu tinha com Yurika. Não era um sonho meu."
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!"Então o que você está me dizendo é que basicamente pode mudar de ideia amanhã, daqui um ano ou dez anos e decidir que quer uma mulher?" A voz de Gokudera saiu ácida. "Eu estou perdendo meu tempo aqui."
"Não, sou eu quem está perdendo tempo."
Yamamoto ficou em pé e respirou fundo. Ele havia imaginado aquela conversa centenas de vezes em sua mente, mas em todas as suas projeções mentais ele não encontrou aquele nível de teimosia.
"Apenas me diga, Hayato, se eu tenho alguma chance. Eu disse que não vou desistir e eu manterei minha palavra, mas apenas se você ainda sentir o mesmo. Se aquele sentimento ainda estiver em seu peito, então me diga." O Guardião da Chuva virou-se sério. Ele queria abraçar e beijar aquele homem, e forçar seus sentimentos e declarações, mas sabia que seria impossível. Para cada argumento positivo que ele possuísse, o homem de cabelos prateados rebatia com três negativos. "Porque eu não sei mais o que dizer para te convencer de que estou sendo sincero, e que eu realmente te amo de verdade. Eu te conheço. Eu conheço sua personalidade, seus defeitos e qualidades. Eu não acordei um dia e me apaixonei por uma projeção, por minhas próprias expectativas. Naquele dia suas palavras me acordaram, como se eu tivesse esperado minha vida inteira apenas para ouvi-las. Você pode ou não acreditar no que eu digo, mas se existir, nem que for uma pequena dúvida, por favor, diga. Porque eu farei o impossível para que você se apaixone novamente por mim, nem que para isso eu precise esperar seis anos."
Aquela foi a primeira vez que o moreno havia sido tão sincero em uma declaração, e seu coração batia tão rápido que chegava a ser doloroso. Gokudera, desta vez, ouviu a tudo enquanto encarava Yamamoto diretamente. Os olhos verdes se abaixaram e por alguns segundos – o tempo mais longo que o Guardião da Chuva já esperou – não fez nada além de permanecer em silêncio. Todos aqueles anos da mais pura amizade passaram diante dos olhos do Guardião da Chuva, deixando-o com o gosto amargo da derrota. Se eu tivesse percebido antes. Se eu tivesse notado alguma coisa... qualquer coisa. Um sorriso, um olhar, uma frase... Os olhos castanhos começaram a ficar cheios de lágrimas. Ele não sabia se conseguiria aguentar uma rejeição direta, mesmo sendo extremamente otimista. E, quando o Braço Direito do Décimo ergueu o rosto, Yamamoto sentiu-se novamente com 15 anos, totalmente inexperiente e tolo.
"Como você espera que eu esqueça algo que alimentei por tantos anos?" O homem de cabelos prateados corou. "Você realmente é um idiota, sabia? Por me fazer esperar todo esse tempo."
Não foi difícil colocar um largo sorriso nos lábios depois de ouvir aquelas palavras. O coração do Guardião da Chuva batia rápido e seu corpo tremia de ansiedade. Por um momento ele quase derrubou a Shigure Kintoki no chão, simplesmente para ficar com as mãos livres e assim abraçar o homem que estava sentado bem diante de seus olhos, e que o olhava incerto, mas com o rosto corado e uma adorável expressão de timidez. Como pude ser tão cego durante todos esses anos? O moreno abaixou-se e se ajoelhou, pousando a katana sobre o banco enquanto segurava a mão de Gokudera entre as suas.
"Obrigado, Hayato."
O Guardião da Tempestade abaixou levemente a cabeça e passou a mão livre sobre os olhos. E por um breve momento Yamamoto achou ter visto uma lágrima escorrer por aqueles belos olhos, mas certamente havia sido impressão, ou ele queria acreditar nisso. O céu estava azul, o clima agradável, e ele havia prometido a si mesmo que amaria aquele homem com todas as suas forças e do jeito que ele merecia ser amado. Aqueles seis anos não passariam de uma memória esquecida no meio de tantas outras que eles fariam juntos. E que, apesar de ser representado pelo elemento da chuva, o moreno faria o impossível para ser o Sol na vida daquele que o amou por tanto tempo, devolvendo a alegria, aquecendo seus dias frios e iluminando seu caminho.
Continua...
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