Hibari

[ Dez anos no futuro ]

Acordar era a pior parte do dia para Hibari. Não exatamente o momento de acordar, mas sim a realização de que mais um dia começava e que ele teria de deixar a cama.

O quarto estava ensolarado, recebendo os raios de Sol através dos pequeninos furos da porta de madeira. Os olhos negros miraram o teto, focando-se devagar, ainda zonzo por ter acordado tão de repente. O mesmo sonho, pensou o moreno enquanto se virava em seu futon, puxando o fino cobertor para cima de sua cabeça. O verão estava no fim, mas o clima continuava quente, abafado e... claro. Entretanto, Hibari nunca conseguiu dormir descoberto e com roupas leves. Sua cabeça estava levemente dolorida, e seu corpo implorava um pouco mais de tempo. Tempo... tudo por causa de tempo. O Guardião da Nuvem apertou os olhos com mais força e permitiu-se retornar ao mundo dos sonhos. Não haveria nada quando ele acordasse. Não haveria ninguém naquela casa além dele, então por que não? Por que não se perder um pouco em caprichos e atitudes mimadas como dormir até um pouco mais tarde? Provar três ou quatro copos de um caro sake antes de dormir? Ou simplesmente se fechar para o mundo de tal forma que as pessoas começassem a perguntar se você ainda estava vivo.

Por quê? Não haveria nada quando ele acordasse...

Quando o moreno despertou novamente, o quarto já estava abafado e iluminado, levando-o a pensar que dormira muito mais do que pretendia. Seus olhos voltaram a encarar o teto, e a mesma vontade de permanecer imóvel o abateu tão forte que ele praticamente decidiu que não sairia da cama naquele dia. Era culpa, Hibari sabia. Era medo, era o arrependimento, mas principalmente a saudade. Até aqueles últimos meses o ex-Líder do Comitê Disciplinar não sabia o que era sentir aquele nível de saudade. Claro que ele havia experimentado a sensação, mas não com tamanha intensidade. Havia uma gigantesca diferença entre esperar por algo, ou alguém, que eventualmente apareceria. Outra coisa era sentir em todos os seus ossos que não importasse o quão longa fosse a espera, não havia ninguém para retornar. Foi um erro, o moreno sabia. Foi covardice, foi a arrogância, mas principalmente o orgulho. O orgulho que ele vestia quase como uma segunda pele o levou até aquele mesmo momento.

Hibari abriu os olhos, sentando-se em seu futon e encarando seu quarto. Estava organizado e limpo, mas não arrumado. Sua própria vida estava longe de parecer ajeitada, e aquilo parecia refletir em seu entorno. Kusakabe falou sobre o jardim. Ele disse que mais algumas flores morreram. Eu preciso dar atenção ao jardim. Era mais fácil falar do que fazer, certamente. O Guardião da Nuvem não tocara em sua parte favorita da casa desde que...

O moreno engoliu seco, apertando o cobertor com as mãos sem perceber. Os nós de seus dedos se tornaram brancos, tamanha a força que ele empregou no ato inconsciente. Eu preciso de um banho. Um banho e alguma coisa para comer. O ex-Líder do Comitê Disciplinar ficou em pé, arrastando-se pelo quarto e seguindo até o banheiro que ficava ao fundo. A porta de madeira foi empurrada, e os olhos negros abaixaram-se no mesmo instante. Havia um largo espelho em cima da pia, e a última coisa que ele precisava era ver sua imagem. Eu nem ao menos pareço comigo mesmo. O Guardião da Nuvem despiu-se de seu pijama de seda azul-escuro, encarando seu próprio corpo. Ele havia emagrecido a olhos vistos. Suas costelas estavam à mostra e até mesmo suas pernas pareciam mais finas. Porém, nada físico parecia importar, e as únicas vezes em que o moreno se encarava no espelho era para se barbear. E quando esses momentos aconteciam, ele também se lembrava de que o homem que o olhava de volta, com seus olhos fundos e seus lábios crispados, era ninguém mais, ninguém menos, do que o causador de todo aquele sofrimento.

O grande erro foi cometido em uma ensolarada tarde de maio.

Hibari estava ao lado da entrada de seu escritório, a grande porta de madeira arrastada e permitindo que o local recebesse diretamente a claridade do Sol. O corpo do Guardião da Nuvem estava recostado, enquanto seus braços cruzados permaneciam escondidos dentro das mangas do kimono. Não havia ambiente mais agradável do que a serenidade e a calmaria de seu templo. O moreno poderia passar o resto de sua vida ali, naquela mesma posição, que cada segundo seria extremamente bem aproveitado. Entretanto, assim como todos os doces momentos, aquele também chegaria ao fim.

Os passos que ecoaram pelo corredor de madeira eram conhecidos. O dono daquele andar leve e charmoso se aproximou em silêncio, recostando-se à grade de madeira, que era a única coisa que separava a residência do belo e bem cuidado jardim. Dino vestia um conjunto social marrom, mas sem a gravata. Os olhos negros se erguerem levemente, esperando pela pergunta que viria. Ele estivera aguardando aquele momento por dias, e sabia que cedo ou tarde o louro iria até ele.

"O que está acontecendo, Kyouya?"

Nada, ele gostaria de ter respondido.

Nada, era a resposta que deveria ter deixado seus lábios, e talvez tudo o que aconteceu depois pudesse ter sido evitado naquele exato momento.

"Eu não quero mais ser seu amante. Eu estou terminando o que temos."

Havia sido fácil, Hibari precisava admitir. Dizer aquelas palavras havia sido tão simples quanto respirar, e em nenhum momento seu rosto demonstrou qualquer emoção. Sua voz também não soou vacilante ou duvidosa. Era como se eles estivessem conversando normalmente. Porém, independente de como aquilo fora transmitido, não mudava o simples e inegável fato de que era uma grande mentira. Mas a pior parte ainda estava por vir, ele sabia. O italiano não ouviria aquilo e ficaria quieto.

"Quando você deixou de me amar, Kyouya?"

Aquela definitivamente fora a pior parte, e dessa vez o Guardião da Nuvem não conseguiu manter a indiferença. Ele jamais conseguiria responder aquilo, nem que fosse necessário para manter sua mentira. Não. Dizer aquelas palavras seria impossível, então tudo o que o moreno conseguiu fazer foi respirar lentamente e improvisar.

"Você já sabe a resposta, não é?"

O que veio em seguida foi mais uma sucessão de mentiras que somente terminaram quando o ex-Líder do Comitê Disciplinar recebeu a ligação diretamente da Itália. Três palavras. Três palavras foram suficientes para tirar seu chão, seu ar, tudo em que ele havia se apoiado e acreditado em todos aqueles anos.

Hibari não percebeu que havia se ajoelhado no box de seu banheiro, notando apenas quando aquela última lembrança o fez abraçar seus próprios braços. Ele tremia. Seu corpo todo tremia pequenos espasmos que o fazia sentir os pelos de seus braços arrepiados, e um estranho frio em sua nuca. As mãos do Guardião da Nuvem apoiaram-se ao piso e seu corpo se projetou um pouco à frente. O acesso de tosse foi longo, provavelmente o mais longo que ele tivera em semanas. Seu estômago dava voltas e ele queria vomitar, mas não havia nada que precisasse sair. Há três dias ele não sabia o que era uma refeição completa. Seu único alimento fora uma rala sopa misô e diversas xícaras de café. Kusakabe diariamente trazia as refeições, mas elas acabavam estragando dentro da geladeira. A comida não tinha gosto, tudo parecia igual, com a mesma aparência ruim, o cheiro azedo e o gosto neutro. Então não era de se espantar que ele houvesse emagrecido daquele jeito. Quando o acesso de tosse parou, o Guardião da Nuvem apoiou as mãos sobre o azulejo da parede, sentindo a água morna bater com força em suas costas. Ele se sentia fraco, fisicamente falando, e patético. Muito patético. O que eu devo fazer? O moreno repetiu novamente aquela sentença. Por quanto tempo ele ouvia aquela pergunta? E por quanto tempo ela permaneceria sem resposta?

O ex-Líder do Comitê Disciplinar nunca havia deixado de amar Dino. Sim, ele sabia o que era amor, mesmo que na maioria das vezes tal sentimento parecesse não ser capaz de brotar em alguém como ele. Ele conheceu o amor através dos olhos cor de mel de certo homem que lhe foi apresentado há 17 anos. "Ele vai ser seu Tutor", eles disseram. "Você deve respeitá-lo e aprenderá muito", eles disseram. E, realmente, ele aprendeu. Hibari aprendeu que não existia nada mais doce do que ser beijado inesperadamente no terraço do colégio, enquanto uma leve brisa soprava e levava para o seu nariz o cheiro da colônia do homem cujos lábios tocavam os dele. Hibari também aprendeu como tocar e ser tocado, como desejar e se fazer desejável, como viver não somente por ele, mas por outra pessoa. Em todos aqueles anos o louro não havia feito nada além de ensiná-lo.

O italiano entrou debaixo da pele do Guardião da Nuvem, marcando-o de tal forma que, quando o moreno se deu conta do quanto havia mudado, aquilo o assustou. Ele nunca conjugara o "nós". Na mente do ex-Líder do Comitê Disciplinar só existia o "eu", e por anos aquilo lhe foi suficiente, e provavelmente teria permanecido daquela forma se o Chefe dos Cavallone não tivesse aparecido em sua vida. O contexto exato Hibari se lembrava muito bem. Algumas semanas antes de terminar com Dino, os dois jantaram em um caríssimo restaurante de Namimori. O louro reservou uma área inteira, garantindo que ninguém os incomodaria. O jantar havia sido delicioso, e o moreno não poderia dizer que não havia se divertido, à sua maneira, claro. Entretanto, foi na hora de pagar a conta que algo dentro de Hibari despertou. A atendente entregou o canhoto fiscal para o italiano, sorrindo largamente antes de se afastar. De onde estava sentado, o Guardião da Nuvem viu claramente quando o Chefe dos Cavallone ergueu o papel para guardá-lo em seu bolso. E ali, naquele curto espaço de tempo, o moreno viu os números anotados nas costas da nota fiscal. Era um telefone.

Aquilo havia sido pequeno e insignificante e o ex-Líder do Comitê Disciplinar jamais teria se importado com aquela tentativa ridícula de flerte... se ele continuasse a mesma pessoa. Hibari já sentira ciúmes antes. Seria impossível, em 17 anos, não se sentir levemente incomodado com a atenção excessiva que seu amante atraia. Dino era naturalmente uma boa pessoa, além de possuir uma beleza encantadoramente adorável. Tudo isso o Guardião da Nuvem sabia e melhor do que ninguém. Porém, naquela noite, não foi apenas ciúmes que ele sentiu, mas sim um estranho gosto de derrota, a gota d’água. O moreno havia mudado e aquilo o assustava. Ele não deveria se importar com coisas supérfluas, como sentimentos, e ele não costumava se importar até o louro aparecer em sua vida.

Depois daquele incidente Hibari passou dias analisando sua realidade, e quanto mais ele descobria, mais decepcionado com si mesmo ele se sentia. Havia roupas do italiano em seu guarda-roupa, sua despensa era dividida entre comida japonesa e comida ocidental, seus corredores tinham o cheiro do Chefe dos Cavallone, e seu corpo inteiro lembrava-se de como era ser amado por aquele homem. Ele havia mudado. O garoto arrogante e que não se preocupava com ninguém além dele mesmo se transformara em um homem – ainda arrogante –, mas que agora sentia ciúme de atendentes aleatórias. Era vergonhoso. O Guardião da Nuvem nunca se sentiu tão envergonhado como naquele dia.

Quando o moreno disse que queria terminar, aquelas palavras obviamente não foram reais. Ele queria sim se ver livre daquela dependência e retornar ao tempo em que apenas o seu ser era suficiente. Mas ninguém o ensinou sobre essas coisas da vida. Ninguém disse que quanto mais você se envolve, mais difícil é soltar as amarras que os unem. Ninguém disse a Hibari que, quando ele deixasse Dino ir, aquele homem realmente iria embora... para longe, para um lugar além do toque de suas mãos, para um lugar em que ele não poderia ir.

Era difícil lidar com a perda. Durante semanas o Guardião da Nuvem se dedicou a ideia da vingança perfeita. Sua memória foi sua melhor amiga, fazendo-o lembrar de datas, cenas e locais. Tudo o que ele precisaria fazer era retornar ao passado em determinado momento e então tudo estaria acabado. Entretanto, até mesmo seu plano havia sido tirado dele, e justamente por aquele que precisava tanto ser vingado. Quando retornou ao seu quarto, dez anos no passado, o moreno jamais esperou encontrar a versão mais jovem de seu amante. Seu objetivo ficou em segundo plano, e, embora não fosse uma pessoa espontânea, o ex-Líder do Comitê Disciplinar não conseguiu dizer não. Seu corpo e alma precisavam daquele homem. O cheiro, a voz, a pele... eram os mesmos. Foi como se o tempo não tivesse passado. Por longos minutos ele se sentiu amado e desejado, e a tristeza de todos aqueles meses pareceu desaparecer em comparação àquela curta felicidade. A realidade, claro, o atingiu, e quando Hibari retornou ao seu tempo, ao seu quarto solitário, à sua grande casa e ao seu jardim semimorto, não havia nada além de arrependimento.

O Guardião da Nuvem se pôs de pé, terminando o banho sem muita vontade e saindo do banheiro enrolado em uma toalha branca. Sua troca de roupa estava dentro do guarda-roupa, e foi com grande força de vontade que ele não dedicou alguns segundos a encarar o outro lado do móvel. A parte reservada para as roupas do italiano estava intacta. Nada havia sido movido do lugar, como se aquelas vestes esperassem que milagrosamente seu dono retornasse. O moreno vestiu-se devagar, questionando-se. Ele não havia deixado o templo em uma semana, e talvez fosse hora de entrar em contato com alguns herbívoros. Se a esposa de Sawada Tsunayoshi estiver viva, então... Não. Hibari abaixou os olhos e passou a faixa do kimono pela cintura, ajeitando-a com destreza. Era preciso afastar aquele pensamento otimista, pois aquilo só o levaria a um falso senso de esperança que certamente acarretaria no mais puro e certo desespero. Esperança é para aqueles que vivem com um olho aberto e outro fechado. Somente herbívoros fracos fecham um dos olhos para a realidade. E ele não era fraco. Se havia algo que o ex-Líder do Comitê Disciplinar tinha a dizer, vivendo naqueles dias e naquela realidade, seria que a situação estava ali, admirada com os dois olhos bem abertos. Ele não fugiria do sofrimento. Ele não mentiria para si mesmo.

Os corredores estavam mal-iluminados, fazendo-o lembrar-se de que era necessário arrastar as portas vez ou outra. O moreno caminhou até a cozinha, abrindo a despensa maquinalmente e ficando surpreso por ver que ela estava cheia. Kusakabe. Em cima da pia havia duas sacolas de comida, e um simples bilhete com o nome de Hibari. O Guardião da Nuvem retirou a sopa misô e abriu uma das gavetas, pegando a primeira colher que apareceu diante de seus olhos. O líquido estava frio, mas desceu delicioso por sua garganta seca. Seu estômago roncou alto, lembrando-o de que aquela era a primeira refeição que ele fazia desde a tarde do dia anterior. A fome foi responsável por fazê-lo terminar a sopa misô e atacar os dois onigiri que estavam perfeitamente embalados na outra sacola. Hibari não fazia ideia da última vez que comera uma refeição completa, e até mesmo o gosto de uma boa comida parecia estrangeiro, longe, como se outra pessoa tivesse vivido aqueles dias.

O segundo onigiri estava no fim quando o Guardião da Nuvem ouviu uma das portas serem arrastadas. Pelo som ele facilmente assimilou a entrada de seu escritório e, apesar de não querer receber ninguém, o moreno tinha plena certeza de que Kusakabe estaria ali para checar se tudo estava bem. Se eu ainda continuo vivo. O ex-Líder do Comitê Disciplinar lambeu as pontas dos dedos e abaixou os olhos, juntando as sobrancelhas e tentando afastar aquela ideia. É estúpido. Não é como se isso fosse resolver as coisas. Uma pergunta. Uma simples pergunta e ele então poderia fazer alguma coisa. Se Sawada Kyouko estiver viva então existe uma grande possibilidade de ele também estar. O pensamento fez o fraco coração de Hibari bater mais rápido e ele precisou levar a mão direita para cima do peito. Era doloroso. Até mesmo as funções básicas de seu corpo lhe causavam dor.

Os pés do Guardião da Nuvem se moveram, mas antes que pudesse deixar a cozinhar eles pararam. O que eu estou fazendo? O moreno apoiou a mão esquerda na parede de madeira, enquanto a sua direita ainda estava sobre seu peito, apertando o tecido do kimono. Aquela ideia era ridícula. Não, a verdade seria uma só, independente se ele gostasse ou não do sabor. Entretanto, o que viria depois? Se Dino estiver realmente vivo o que acontecerá? Hibari sentiu seu corpo tremer novamente, uma reação normal naqueles últimos dias. Todas às vezes em que ele se pegava pensando demais seu corpo reagia, como se repudiasse aqueles pensamentos. E, no fundo, o Guardião da Nuvem sabia que mesmo que o louro estivesse vivo sua situação não mudaria. Aconteceu há dois dias. Se o plano dos herbívoros realmente deu certo então ele já deveria estar aqui. Se Dino tivesse interesse ele estaria aqui.

A rejeição teve um gosto doce aos lábios do moreno e o fez sorrir de canto. Ao contrário das noites e dos dias em que ele passou se martirizando pela morte do italiano, saber que o Chefe dos Cavallone estava vivo, mas indiferente a ele, o deixava parcialmente satisfeito. Eu não consigo ficar feliz em vê-lo apenas vivo, o ex-Líder do Comitê Disciplinar recomeçou a andar, virando à direita e seguindo pelo longo corredor que o levaria até o escritório. Na época a ideia não pareceu tão impossível. Eu o deixei ir e sobrevivi por um mês. Seria o mesmo dessa vez. Hibari mordeu o lábio inferior, tentando imaginar como teria sido se aquele mês houvesse se transformado em dois, três, um ano... dez anos. Uma nova onda de tremores o fez parar, apertando seus braços e o fazendo sentir uma profunda angústia. Não era a mesma coisa. Era diferente. Saber que não teria Dino por motivos de forças maiores o deixava menos desesperado do que a ideia de simplesmente não tê-lo por ter sido rejeitado. Foi assim que ele se sentiu quando eu o deixei ir...?

A luz que vinha do escritório o guiou durante o caminho e aqueles passos vagarosos serviram para preparar o moreno para a resposta que teria de Kusakabe. Se o louro estivesse vivo, então significaria que não havia mais nada que ele pudesse fazer. Todo aquele ano gasto com preparações, ataques e mortes chegaria ao fim e Hibari retornaria a sua vida. Porém, se o italiano ainda estivesse morto, então o Guardião da Nuvem ignoraria totalmente a promessa que fizera à versão mais jovem de seu ex-amante e iria até o fim com seu plano. Não havia como aquele futuro existir se todos os membros da Família Moretti estivessem mortos, e o moreno já havia feito o trabalho naquele presente. Retornar ao passado e terminar o serviço seria fácil se os herbívoros não atrapalhassem. O ex-Líder do Comitê Disciplinar respirou fundo assim que encarou a luz que batia bem diante de seus olhos. Tudo o que ele precisava fazer era virar à direita, encarar Kusakabe e obter sua resposta. A verdade nunca lhe pareceu tão difícil como naquele instante.

Respirando fundo e apertando as mãos ao lado do corpo, Hibari virou e pisou em seu escritório. A luz que vinha da porta aberta o fez levar uma das mãos ao rosto, tentando assim não se cegar pelo brilho. Há dias ele não abria as portas da casa, vivendo apenas com a luz elétrica. Qualquer fresta que recebesse a claridade do Sol lhe parecia estrangeiro... como a pessoa parada da sacada do escritório.

A princípio tudo o que ele enxergou foi uma figura alta e encorpada. A luz do Sol o impedia de ver além, então o Guardião da Nuvem deu alguns passos para o lado, fugindo daquela claridade e indo se refugiar à sombra. Seus olhos se arregalaram lentamente, como se fosse difícil processar o que viam. A pessoa em seu escritório deixara a sacada e estava na entrada, retirando os sapatos com os pés, enquanto apoiava as mãos às paredes de madeira. Os mesmos cabelos louros, perfeitamente escovados e ajeitados quase até o ombro, enquanto a franja estava colocada atrás da orelha. Sua companhia vestia uma calça social negra, uma camisa branca, e havia um charmoso lenço xadrez em seu pescoço. Quando os olhos cor de mel se ergueram e encararam o moreno, um largo e genuíno sorriso cruzou aqueles lábios rosados, formando, em seguida, o nome que o ex-Líder do Comitê Disciplinar mais sentiu falta de ouvir naqueles doze meses:

"Kyouya!"

Hibari não sentiu quando suas pernas vacilaram, derrubando-o de joelhos no meio do escritório. Entretanto, ele viu a velocidade com que Dino deixou a entrada e colocou-se ao seu lado, de joelhos, segurando-o com uma expressão séria, enquanto seus belos olhos cor de mel transbordavam preocupação. O Guardião da Nuvem ouviu seu nome ser chamado várias vezes, e a cada vez aquela doce, mas máscula voz, parecia se tornar mais e mais longe. A visão que seus olhos negros mostravam se tornou turva, e foi naqueles braços tão nostálgicos e íntimos que o moreno deixou seu corpo escorregar, sentindo pela primeira vez o que realmente significava estar cansado. Ele é real, pensou o ex-Líder do Comitê Disciplinar ao sentir o cheiro da colônia do louro. As mãos que o agitavam eram quentes, então aquilo não era um sonho. Não poderia ser um sonho. Sua consciência esvaiu-se no segundo seguinte, mas Hibari nunca se sentiu tão feliz como naquele curto momento. Seu trabalho estava feito.

x

O que embalou o Guardião da Nuvem foi um sono sem sonhos. Seus olhos se abriram e no mesmo instante seu corpo projetou-se para frente e seus lábios pronunciaram o único nome que valia a pena ser pronunciado:

"Dino!"

Sua cabeça virou-se para o lado, enquanto suas mãos tateavam às cegas o lençol, procurando qualquer mínima evidência de que tudo aquilo não havia sido um sonho. Ele estava em seu próprio quarto, deitado em seu próprio futon e sobre sua própria roupa de cama. O céu estava escuro do lado de fora, mas a porta de madeira fora arrastada, permitindo que a claridade e a brisa noturna entrassem e iluminassem o cômodo.

O moreno chamou novamente, dessa vez sua voz saiu mais alta e também mais desesperada. Sua mão subiu até o peito, sentindo novamente a aguda dor que o acompanhava naqueles últimos meses. Os tremores retornaram, e com eles a realização de que ele estivera delirando. Kusakabe... Hibari não conseguia se levantar, suas forças lhe faltavam. Kusakabe me trouxe até aqui. Eu desmaiei no escritório. O pânico que aquela ideia trouxe o fez afundar o rosto nos joelhos, abraçando suas pernas. Ele continua morto. Eu preciso fazer alguma coisa. Qualquer coisa! Aquela foi a primeira vez que o ex-Líder do Comitê Disciplinar sentia realmente o gosto da derrota e o sabor era muito cruel. Seu corpo começou a tremer com mais violência, a ponto de seu braço parecer receber um forte puxão. Hibari ergueu a cabeça, como se despertasse, notando pela primeira vez que ele não tremia. Havia uma grande e forte mão o balançando pelo braço. Seus olhos se arregalaram, e seu corpo projetou-se à frente, com pressa, agarrando e abraçando o dono daquela mão como se sua vida dependesse daquilo.

Os braços que o envolveram eram fortes, sempre foram. O Guardião da Nuvem não se importou que seu abraço fosse apertado demais, a ponto de sentir seus próprios ossos estalarem. Seu corpo voltou a tremer, mas ele não se importou. Seus dedos puxavam os cabelos finos e louros, como se não acreditassem que eles eram reais. Seu rosto estava escondido no pescoço do Chefe dos Cavallone, respirando e sentindo aquele homem.

Os tremores passaram conforme o moreno se acalmava. As mãos de Dino subiam e desciam por suas costas, em um gentil e extremamente agradável carinho. Os olhos negros, que estiveram fechados durante todo o tempo, por medo de se abrirem e tudo não passar de ilusão, permitiram-se uma breve espiada, e foi então que a primeira lágrima escorreu por seu rosto.

Aquela lágrima veio acompanhada por outra e outra. O choro foi mudo, mas pesado. Hibari escondeu um pouco mais o rosto no pescoço do louro, e dessa vez não foi possível omitir o tímido soluço que deixou sua garganta. Ele não havia chorado até aquele momento. Durante um ano ele não derramara uma única lágrima por seu falecido amante. Não havia tempo para isso. O Guardião da Nuvem esteve ocupado demais planejando, esquematizando e matando pessoas. Nem quando chegou à Itália, e encarou o corpo do italiano dentro de um caixão, aquela reação apareceu. Eu jamais esquecerei aquele dia, aquele momento... O moreno apertou com mais força seus braços, era doloroso demais. O caixão era branco, com detalhes dourados. Havia um imponente cavalo feito em ouro incrustado na tampa e as flores que forravam o caixão eram belas e brancas e inocentes. O Chefe dos Cavallone repousava tranquilo, uma expressão calma e serena. Romário esteve ao lado o tempo todo. Os olhos inchados e vermelhos, provavelmente depois de ter chorado por incontáveis horas. Entretanto, ele mesmo não chorou. Por um dia inteiro o ex-Líder do Comitê Disciplinar permaneceu ali, em pé e ao lado do caixão. Ele não sentiu fome ou sede ou nada. Não havia nada para sentir. Seu coração havia morrido com Dino. Hibari deixou a Itália somente após o enterro e então, por doze meses, não houve nada em sua mente além de vingança.

Eu matei todos. O Guardião da Nuvem deixou escapar outro soluço. Ele tinha conhecimento de que aquilo era patético e que certamente se arrependeria daquele gesto tão fraco, mas as lágrimas simplesmente não paravam. Eu matei todos os membros daquela suja Família, e nunca me senti tão bem. Todos, eu, com minhas próprias mãos. Há seis meses o moreno havia invadido a residência dos Moretti e literalmente massacrado todos os membros. Cem subordinados e o Vice-Líder, Lorenzo, foram mortos em minutos. Os demais empregados morreram dias depois, mas o Chefe, Rafaelle, porém, esse teve uma morte lenta e extremamente dolorosa. Hibari não era adepto de sadismo, mas ele nunca provou algo tão delicioso como ouvir aquele homem implorar para ser morto. No final, todavia, a situação não mudara. Foi ai que o ex-Líder do Comitê Disciplinar soube que teria de mudar o passado, pois não importasse quantos ele matasse e punisse, Dino não voltaria. Não naquela realidade.

O plano era simples: ele faria novamente o serviço. O Guardião da Nuvem retornaria ao passado e exterminaria todos novamente, um por um, até que não houvesse mais ninguém para atentar contra a vida do louro. O que ele não esperava era a intromissão dos herbívoros, e até mesmo o pedido por parte do próprio italiano. Os braços ao redor de seu corpo se tornaram mais fortes, e depois de um longo suspiro as lágrimas pararam. Eu faria tudo de novo. Eu não sei o que aconteceu no passado para o futuro ter mudado, mas eu faria de novo. Eu os mataria novamente e novamente.

"Eu estou aqui." A voz do Chefe dos Cavallone entrou pelos ouvidos do moreno e se espalhou por todo o seu corpo. Era o melhor som que ele já ouvira na vida. "Eu realmente estou aqui, Kyouya."

Kyouya. Diga mais uma vez. Chame meu nome novamente. O ex-Líder do Comitê Disciplinar enxugou os olhos com pressa, mas não mudou de posição. Ele estava sentado sobre o colo de Dino, e daquela maneira nenhum dos dois poderia se encarar diretamente. Eu preciso falar. Eu preciso falar antes que eu perca a coragem. Hibari engoliu as lágrimas, respirando fundo.

"Eu tenho algo a dizer."

"Eu também."

"Eu falarei primeiro, então cale a boca e ouça."

"Não dessa vez." O louro soou divertido. Seu abraço se tornou mais apertado. "Eu falarei e você escutará e então eu ouvirei o que quer que você tenha a dizer."

O Guardião da Nuvem não rebateu. Ele vinha refutando por 17 anos. Era hora de simplesmente ouvir.

"Eu nunca deveria ter aceitado. Quando você disse que queria terminar, eu nunca deveria ter concordado com aquilo tão facilmente. Eu fui fraco. Eu o deixei ir sem lutar ou realmente argumentar, porque, no fundo, eu achei que você merecia alguém melhor."

O moreno juntou as sobrancelhas. O que era aquilo? Não seja estúpido. Você é a melhor pessoa que eu conheço.

"Mas eu o deixei ir," continuou o italiano, "eu acreditei que você não me queria mais e me resignei a aceitar o que você tinha para me oferecer, porque achei que era o que eu merecia. Eu me senti ganancioso, como se durante todos esses anos eu tivesse simplesmente recebido muito mais do que merecia. Eu sinto muito, Kyouya. Eu sinto muito se não sou o que você queria, se não sou o bastante, mas eu sou somente... eu. Eu prometo mudar. Eu prometo ser o que você quer, mas po–"

"Eu sabia que não deveria deixá-lo falar primeiro."

A voz de Hibari soou mais alta e séria. Seu corpo se projetou para trás, o suficiente para encarar o homem que estava por baixo. O Chefe dos Cavallone tinha uma expressão triste e seus olhos cor de mel estavam vermelhos e úmidos. Fora isso, aquele era exatamente o mesmo homem que deixou aquele mesmo quarto há um ano, para nunca mais retornar. Dino tinha 37 anos, mas parecia incrivelmente mais jovem, como sempre aparentou. Os cabelos continuavam bem louros e vivos, os olhos possuíam o brilho de sempre, e a única coisa diferente que poderia ser notada era uma pequenina ruga que aparecia ao redor daqueles belos olhos quando o louro sorria. Entretanto, aquilo não significava absolutamente nada para o ex-Líder do Comitê Disciplinar. O tempo jamais importaria para ele. Eu nunca sequer achei que fosse envelhecer ao lado de alguém. Ele mudou tudo. A mão direita do Guardião da Nuvem tocou aquele rosto tão familiar, e seu corpo pareceu sorrir com o contato. Ele não tremia ou sentia dores. Seu coração, sim, batia mais rápido, mas isso era por outro motivo...

"Agora é minha vez, então ouça bem porque eu provavelmente não repetirei nada disso... tão cedo." O rosto do moreno ficou um pouco mais quente. Em circunstâncias normais ele jamais faria aquilo, mas aquela não era uma circunstância normal, e ele abriria uma exceção nem que isso lhe custasse todo seu orgulho e amor próprio. Dino merece isso. Eu devo a ele cada uma dessas palavras. Eu devo a esse homem muito mais do que ele pode imaginar, e se existe alguém não merecedor aqui sou eu. Sempre fui eu.

Hibari abaixou os olhos por um momento, juntando as forças necessárias para aquela árdua tarefa. Era preciso muito mais do que coragem para dizer o que precisava ser dito. Ele nunca foi uma pessoa comunicativa ou boa com diálogos. No fundo, o Guardião da Nuvem sempre menosprezou aqueles que eram incapazes de ver além de seus olhares e atitudes. A única exceção para tudo isso sempre foi Dino. Pois, apesar de sua natural idiotice, aquele homem conseguia entendê-lo tão bem, que no começo o moreno não quis acreditar que outro ser humano pudesse realmente fazer aquilo. E ali estava ele, necessitando de um momento de sinceridade que não viria com facilidade, claro, mas que precisaria acontecer. Se havia algo que o ex-Líder do Comitê Disciplinar aprendera naqueles doze meses foi que, às vezes, certas coisas precisavam ser ditas.

"Eu menti. Eu menti quando terminei nosso relacionamento." A voz de Hibari saiu baixa, mas séria. Seus olhos encaravam o homem em seus braços, mesmo sendo difícil manter aquele olhar. "Não havia nada realmente errado. Você não fez nada, ou disse nada. Você não tem culpa alguma no que aconteceu." Essa vai ser a parte mais complicada, o Guardião da Nuvem vacilou. Ele raramente admitia o que estava para admitir. "O que eu sentia, sinto, nunca mudou."

Seria difícil para o moreno ignorar o sorriso trêmulo que pintou os lábios do louro ou a maneira adorável com que ele enxugou uma lágrima que escorreu pelo canto daqueles belos olhos. Ver a honestidade com que aquele homem lidava com os próprios sentimentos sempre o fez sentir imaturo, como um fedelho que achava que poderia controlar a brincadeira porque tinha o brinquedo mais caro.

"Então o que aconteceu?" O italiano tinha a voz baixa e carinhosa. Sua mão estava entrelaçada a de Hibari, e aquele toque era extremamente agradável, quente... humano. "Se você me amava, o que houve?"

Você disse a pior parte. O que vem agora não é nada. Lembre-se dos doze meses, Hibari Kyouya. Nunca esqueça, nunca.

"Eu estava com medo." Aquela frase deixou seus lábios com a voz ainda mais baixa. O gosto que ela deixara foi amargo, mas nem tudo na vida era doce ou agradável. E aquela verdade, em particular, era um dos maiores segredos pessoais que o ex-Líder do Comitê Disciplinar possuía. "Eu estava com medo da pessoa que eu estava me tornando."

Dúvida e curiosidade pintaram as belas feições do Chefe dos Cavallone, mas ele nada disse. O Guardião da Nuvem umedeceu os lábios, sabendo que teria de ir até o fim.

"Eu mudei. Eu não sou a mesma pessoa que era quando tinha 15 anos, e eu me odiei por isso. Por sua causa eu estava me tornando fraco e vulnerável. Por sua causa eu passei a pensar em bobagens que jamais teriam cruzado minha mente em circunstâncias normais, e quando Romário disse que..." O moreno pausou. Dino o olhou sério o tempo todo, mas naquele momento em particular seus olhos pareceram tristes. "Eu ouvi o que Romário disse sobre a necessidade da Família continuar."

O louro abaixou os olhos e esboçou um sorriso cansado, como se lembrasse da conversa. Hibari jamais esqueceria. Aquilo foi o estopim de tudo. Ele estava na Itália, na grande mansão dos Cavallone quando ouviu por mero acaso uma conversa entre o italiano e seu Braço Direito. Romário mencionou a necessidade de um herdeiro, pois seu Chefe já estava com 37 anos. A resposta de Dino foi uma risada alta, dizendo que "Pensaria sobre isso em outra oportunidade." O que aparentemente soava como uma conversa corriqueira atingiu o Guardião da Nuvem fundo... fundo demais. Quantas vezes aquele assunto não havia surgido entre eles durante aqueles anos? Até quando Dino permaneceria alheio a uma obrigação como aquela? Quando retornou a Namimori, o moreno já não se sentia o mesmo. A ideia de que seu amante teria de produzir um filho, e que para isso necessitaria de uma mulher, acordara uma fera que ele jamais achou que habitasse seu corpo. Sentimentos que ele não achou que tivesse e, principalmente, pensamentos que até aquele momento não haviam cruzado sua mente. Ciúme, egoísmo e possessividade. Por anos ele não sentira nada daquilo, não com aquela intensidade. A única saída que o ex-Líder do Comitê Disciplinar encontrou para lidar com aquele turbilhão de decepções foi deixar o Chefe dos Cavallone ir, pouco a pouco. Ele jamais aceitaria que seu amante dormisse com outra pessoa; ele morderia aquele homem até a morte por isso, então, o melhor caminho era se afastar enquanto o inevitável momento não acontecia. Foi extremamente egoísta, mas eu nunca fui uma pessoa altruísta.

"Nós deveríamos ter conversado sobre isso, Kyouya." O italiano ainda estava sério. "Você deveria ter me dito que havia escutado a conversa e eu teria sentado e explicado exatamente o que te direi agora. Isso teria poupado muito sofrimento."

Hibari abaixou os olhos, sentindo-se humilhado. Sua vontade era de recorrer ao seu par de tonfas que estava dentro de sua cômoda, mas ele sabia que não era possível. Não naquela situação. Eu o morderei até a morte depois por me dizer o que eu já sei.

"Esse assunto não é novidade, aliás, eu venho escutado sobre casamentos e filhos muito antes de conhecê-lo. Eu sou o Chefe da Família Cavallone, mas existem mais pessoas envolvidas, como parentes e sócios. Todos trabalham para o mesmo fim, embora, vez ou outra, nossas decisões sejam divergentes." Havia uma peculiar doçura na maneira como Dino falava, como se explicasse para uma criança. O Guardião da Nuvem omitia ao máximo sua fúria. "Mas embora eu seja o Chefe e saiba de minhas responsabilidades, eu também sou um homem, e jamais teria te traído, Kyouya. Se ter um herdeiro fosse realmente importante, e não houvesse outra alternativa, eu teria simplesmente escolhido alguma moça e concebido artificialmente. Mas traí-lo?" O italiano corou, balançou a cabeça em negativo e rindo envergonhado. "Eu nem me lembro mais como é dormir com uma mulher, e eu tenho certeza que simplesmente não conseguiria. Aquela foi uma experiência única."

O moreno sentiu um forte alívio ao ouvir aquelas palavras, mas ao mesmo tempo sentiu-se bobo. Aquela ideia havia passado por sua mente, mas ele não esperava ouvi-la através dos lábios do Chefe dos Cavallone.

"Sobre o futuro da minha Família você não precisa se preocupar, pois tudo será arranjado. Eu já tenho algo em mente e não precisarei dormir com ninguém para que isso aconteça. Sabe, Kyouya, os Chefes não são escolhidos por sangue, não a maioria. Se seguíssemos essa linha de pensamento Xanxus teria assumido por direito os Vongola, e somente Deus sabe que fim aquilo teria." Dino mexeu os ombros e fez uma rápida careta. "Os Cavallone já tiveram Chefes sem ligação de sangue. O segundo Chefe dos Cavallone não teve herdeiros, então o filho de sua irmã se tornou o terceiro Chefe, mas não por pressão; por escolha. Linhagem sanguínea não tem tanta importância nesse mundo de Máfia." O louro sorriu, tocando o rosto de seu amante. "E eu estou muito feliz em saber que fui responsável por mudá-lo, mesmo que um pouco. Você pode ver essas mudanças de maneira negativa, mas eu apenas as vejo como uma consequência natural de todos esses anos de convívio. Eu também mudei, Kyouya, e mudei por sua causa, por causa da sua influência." A voz do italiano levou uma onda de arrepios pelo corpo do Guardião da Nuvem, e ao contrário dos tremores involuntários que ele sentiu anteriormente, devido à angústia e arrependimento, aqueles eram quentes e agradáveis. Ele sentia a mesma coisa há 17 anos, todas às vezes que aquele homem o tocava. "Mas diga, eu posso continuar aqui? Posso visitá-lo? Você me deixaria voltar para você, Kyouya?"

A pergunta pegou o moreno de guarda baixa, fazendo-o arregalar os olhos levemente. Era ele quem deveria dizer aquilo. Eram dele aquelas palavras, e ouvi-las através dos lábios do Chefe dos Cavallone o fez sentir fraco e imaturo. Está errado. Lembre-se dos doze meses.

"Eu sinto muito," as palavras soaram estrangeiras aos seus lábios. "Mas você poderia me receber de volta?"

Os olhos cor de mel se arregalaram devagar, surpresos. Os braços de Dino envolveram o magro e fraco corpo de Hibari, e naquele momento ele soube que tudo havia terminado. As tristezas, o ressentimento e todos aqueles meses de arrependimento tinham chegado ao fim. Seus músculos relaxaram, permitindo sentir aquele homem por completo. Não havia local mais seguro do que os braços do louro, nunca houve. O italiano sempre seria sua melhor parte, seu porto-seguro, a única coisa que tornava sua vida colorida. E saber que, apesar de todos os seus erros, aquele homem havia retornado para ele era muito mais do que o ex-Líder do Comitê Disciplinar esperava e merecida. Eu não o deixarei ir novamente. Eu jamais deixarei que ele se afaste.

Hibari sentiu quando os lábios tocaram seu pescoço, fazendo seu corpo inteiro tremer. Eu senti falta desses lábios, o Guardião da Nuvem fechou os olhos, deixando que seu amante subisse com a carícia, tocando então seu maxilar. O Chefe dos Cavallone segurou seu magro rosto com ambas as mãos, esboçando um aconchegante e adorável meio sorriso. “Eu te amo, Kyouya”, foi murmurado em silêncio, mas chegou aos ouvidos do moreno em voz alta, fazendo-o apertar a camisa daquele homem. Os lábios se aproximaram devagar, e quando o beijo finalmente aconteceu, o ex-Líder do Comitê Disciplinar tremeu novamente. Sua língua não permaneceu imóvel ou inerte. Ela foi rápida, invadindo a boca de seu amante enquanto ele tentava mostrar o nível de saudade que havia sentido.

A brisa noturna fez a copa das árvores balançarem, produzindo um agradável som de vida. Hibari fechou os olhos e permitiu-se ficar um pouco mais naqueles braços e lábios, imaginando que teria de recomeçar do zero com seu jardim.

A vida havia retornado para aquela casa.

x

"É muito, eu não quero."

"Não é muito. É suficiente," a voz de Dino soava reprovadora, como uma mãe educando o filho, "e coma todas as cenouras. Eu sei o quanto você odeia cenouras, mas você não vai deixar esta mesa até esse prato estar limpo, Kyouya."

O Guardião da Nuvem abaixou os olhos, encarando o prato de risotto que estava bem diante de seus olhos. À direita havia um prato com curry e do outro lado alguma mistura de folhas e... cenouras. Seus braços moveram-se até o chão, pois ele os utilizaria para ficar em pé. Porém, antes que pudesse completar o movimento, uma das mãos do louro o empurrou para baixo, fazendo-o sentar-se novamente. Eu quero mordê-lo até a morte.

"Você pode fazer isso depois." O italiano parecia ter entendido o que aquela áurea assassina e aqueles dois olhos negros e semicerrados significavam. "Agora, coma."

A colher foi oferecida para o moreno, que aceitou após mais alguns segundos de pura e inútil teimosia. Logo na primeira colherada seu estômago roncou, e após a segunda foi difícil simplesmente parar de comer. O Chefe dos Cavallone sempre foi um bom cozinheiro. Durante aqueles anos partia dele os pratos mais inusitados e as misturas mais deliciosas. Naquela noite, em especial, a comida parecia ter um gosto incrivelmente agradável, não somente por causa dos dias que o ex-Líder do Comitê Disciplinar passou sem uma refeição decente.

Quando não havia mais nada para ser dito ou explicado, partiu de Dino a iniciativa para o longo e aguardado beijo. Ele não se lembrou da última vez que aquele pequeno gesto tivesse tido um gosto tão bom. O beijo é diferente. O outro Dino beija diferente. O Guardião da Nuvem pensou quando os lábios se afastaram devido à falta de ar. Ele provavelmente estava pensando em mim, mas no outro eu. O moreno teria recomeçado o beijo, mas o louro o afastou com um polido gesto e fez negativo com a cabeça.

"Você precisa de um bom banho e eu preciso terminar o seu jantar. Eu estava na cozinha quando ouvi meu nome ser chamado," a expressão do italiano estava dura, "você está anêmico, sabia? E muito magro. Precisamos dar um jeito nisso." Hibari protestou o máximo que conseguiu, mas no final acabou sendo escoltado pelo Chefe dos Cavallone, porém, foi deixado sozinho no pequeno banheiro. Ele quis entrar, mas não o fez. Tolo. Justo hoje que eu não teria me incomodado em fazer o que ele quisesse...

Após o banho, o ex-Líder do Comitê Disciplinar seguiu até a cozinha, recostando-se à porta, e observando Dino terminar o jantar. As mangas da camisa haviam sido levantadas até a altura dos cotovelos, e a franja presa por duas presilhas, dando ao louro uma aparência feminina, mas incrivelmente bela. O Guardião da Nuvem não sentiu a espera. Seus olhos devoravam cada pedacinho de seu amante, enquanto seu coração se sentia aquecido pela simples visão de ver aquele homem ali, bem diante de seus olhos, bem vivo. Da cozinha eles seguiram para o cômodo utilizado como sala de jantar. O italiano arrumou a mesinha, servindo uma quantia absurda ao moreno. A porta que dava para a sacada havia sido arrastada, recebendo a brisa noturna e o cheiro do verão. Ele está bebendo água, Hibari notou ao erguer os olhos. Ele já havia devorado metade do conteúdo de seu prato. A porção do Chefe dos Cavallone era bem menor, e ele tinha um copo d' água ao invés da taça de vinho que sempre o acompanhara nesses anos. Sábia escolha.

O risotto foi terminado, e, apesar de não ser muito fã de cozidos de carne, o ex-Líder do Comitê Disciplinar se pegou devorando o prato que havia sido feito para ele. A parte difícil, porém, foi a salada, principalmente mastigar e engolir aquelas cenouras. Havia um sorriso de vitória e realização nos lábios de Dino, e aquela expressão era mais dolorosa do que comer aquilo. Quando não havia sequer um grão de nada em nenhum dos pratos, o louro bateu algumas palmas e sorriu satisfeito, ficando em pé e começando a retirar a mesa.

"Fique aqui, eu vou trazer a sobremesa."

"Você acha que eu consigo comer mais alguma coisa?" Hibari limpou o canto da boca com o guardanapo. Naqueles doze meses, aquela foi a primeira vez que ele comia realmente bem.

"É torta de morangos. Hm, eu vou deixá-la na geladeira então..."

"Eu posso abrir uma exceção."

O italiano riu e fez sinal negativo com a mão quando o Guardião da Nuvem fez menção de ajudá-lo com a louça. O moreno então permaneceu sentado, assistindo o Chefe dos Cavallone ir e vir três vezes até finalmente aparecer com dois pequeninos pratos. Cada um deles possuía uma generosa fatia de torta de morangos, uma das sobremesas favoritas do ex-Líder do Comitê Disciplinar. Dessa vez Hibari comeu com certo gosto, deliciando-se a cada pedaço. Dino comia devagar, seus olhos cor de mel presos na figura ao seu lado e sorrindo vez ou outra, como se visse algo incrível. A torta já estava no final quando o louro sentou-se diferente. Ele não aguentava ficar ajoelhado por muito tempo.

"Nee, Kyouya..." A voz do italiano soou baixa, e a maneira como seus olhos se desviaram rapidamente ao serem encarados só podia significar uma coisa: ele quer pedir algo. "Eu planejava dizer isso depois, mas quero usar a oportunidade."

"O que você quer?" O Guardião da Nuvem manteve os olhos erguidos. Até aquele momento ele não havia perguntado por quanto tempo seu amante permaneceria em Namimori. A ideia de que talvez o Chefe dos Cavallone precisasse ir embora o fez apertar uma das mãos em forma de punho.

Dino brincou com o garfo em seus lábios por alguns momentos, lançando furtivos olhares na direção do moreno. Aquela atitude infantil, mas adorável, começou a aborrecer Hibari, que já estava a ponto de ameaçá-lo com seu próprio garfo, quando as palavras finalmente foram ditas:

"Nee, eu quero morar aqui."

O Guardião da Nuvem não respondeu, não por não ter o que dizer, mas sim porque aquilo parecia confuso, estranho. Seus dedos seguraram com um pouco mais de firmeza o garfo, cortando um pedaço grande da torta.

"E-Eu sei que é muito de repente, e ainda não tivemos tempo de ficarmos um com o outro, digo, direito, mas isso é algo que eu tenho em mente basicamente desde o dia em que você se mudou para cá."

"E você não disse nada? Esse tempo todo?"

"Eu tinha certeza de que você jamais aceitaria." O louro movia os olhos entre o prato vazio e o rosto sério do moreno. "Mas eu decidi arriscar, mesmo que isso signifique ouvir uma negativa. E antes que me responda, eu não me refiro a morar aqui em período integral. Eu não posso deixar a Itália, e sei que, infelizmente, você não pode ir morar comigo. Então eu gostaria de permanecer aqui enquanto estiver em Namimori. Eu quero passar o máximo de tempo ao seu lado, sem as burocracias de hotéis."

O ex-Líder do Comitê Disciplinar não se surpreendeu com o pedido, mas mentiria se dissesse que não ficou vagamente desapontado ao ouvir que a estadia não seria por tempo integral. Aquela ideia já passara por sua mente, por ser cômoda. Se o italiano ficasse no templo, pouparia o trabalho de ter de se locomover até o meio da cidade para vê-lo. O Chefe dos Cavallone estaria com ele dia e noite e, naquele momento, nada lhe parecia mais agradável. O último pedaço de torta derreteu na boca de Hibari e ele limpou os lábios, bolando sua resposta. Romário e pelo menos mais três ou quatro subordinados podem ficar na casa ao lado, o templo possuía três casas ao todo. A maior era reservada para o responsável pelo local, e as outras duas eram destinadas aos hóspedes. Desde que assumira a gerência do templo, isso há mais de dez anos, o Guardião da Nuvem nunca havia permitido que ninguém vivesse ali além dele mesmo. Como se o idiota estrangeiro já não morasse aqui basicamente.

"Eu não me importo." O moreno respondeu sem emoção. Por dentro ele estava mais do que ok com a ideia. "Mas nada além de três ou quatro subordinados. Minha casa não é uma pousada de férias. E sem visita dos herbívoros. Eu sei que você adora se misturar com aquele tipo de gente, mas na primeira visita eu o morderei até a morte e então o enxotarei daqui."

As palavras saíram mais ácidas do que ele pretendia, ainda mais depois de tudo. Entretanto, Dino não pareceu se importar. Na verdade, ele não pareceu sentir nada além de uma grande felicidade. Seus lábios se repuxaram em um largo sorriso e ele agradeceu tantas vezes que Hibari se sentiu levemente embaraçado por receber tantos "obrigados" por algo tão pequeno.

"Amanhã eu trarei minhas coisas. Romário está com elas no hotel."

"Você pretende ficar até amanhã?" O Guardião da Nuvem sentiu-se incomodado. Ele não sabia bem como reagiria se o louro dissesse que iria embora ainda naquela noite ou até mesmo que ficaria no Japão por poucos dias.

"Eu vou ficar em Namimori pelos próximos três meses." O italiano ficou em pé, colocando um prato sobre o outro. "Depois eu retorno para a Itália, mas volto novamente. Eu não pretendo me ausentar do seu lado por muito tempo, então vá se acostumando com a ideia de me ter por perto com mais frequência."

O moreno permaneceu sozinho na sala de jantar enquanto o Chefe dos Cavallone levava o restante da louça para a cozinha. Aquele breve momento foi suficiente para que o ex-Líder do Comitê Disciplinar se sentisse incrivelmente solitário. Era difícil acreditar que depois de ter sobrevivido doze meses através de uma vida beirando a miserável, ele estivesse ali, sentado e limpo, depois de jantar a comida preparada por seu próprio amante e que, apesar de tudo, ainda continuava seu. Ele poderia ter simplesmente me dado as costas. Dino não tinha obrigação alguma de vir aqui ou até mesmo me aceitar de volta. Nada do que eu faça será capaz de se igualar ao que esse homem vem fazendo por mim durante todos esses anos. O louro aproximou-se e Hibari ficou em pé. Ele se sentia exausto, como se o sono e o cansaço de todo aquele ano tivessem finalmente lhe acertado. Seus olhos estavam pesados, seus músculos doloridos, mas seu coração aliviado.

"Eu acho que você quer dormir, não? Mas espere um pouco, Kyouya, você acabou de comer."

"Eu ficarei no quarto."

"Então eu farei companhia."

O italiano o acompanhou novamente pelo corredor e os dois entraram no quarto lado a lado. O Chefe dos Cavallone havia arrumado o futon enquanto o Guardião da Nuvem estava no banho, adicionando mais espaço e travesseiros. O moreno, porém, ignorou o futon e seguiu até a larga porta de madeira que dava para a sacada. Ele adorava aquele lugar. Ele adorava passar horas sentado ali, simplesmente admirando o céu, as estrelas, a lua e seu jardim. Infelizmente esse último teria de receber atenção especial, pois muito pouco havia sobrado da bela paisagem. O ex-Líder do Comitê Disciplinar recostou-se à porta, sentindo as mãos de Dino abraçando a cintura e prendendo-o em seus braços. O coração de Hibari batia mais rápido, sem saber se alguém como ele merecia estar vivendo aquele momento, aquela segunda chance.

Nenhum dos dois disse nada. Eventualmente o louro sentou-se e o Guardião da Nuvem o acompanhou, sem saber por quanto tempo permaneceu entre os braços de seu amante. Ele não fazia ideia de que horas eram. Tudo o que o moreno sabia era que o céu estava escuro e as estrelas brilhavam, e nunca aqueles braços lhe pareceram tão seguros... tão necessários.

O sono chegou e o pegou totalmente desprevenido. Não houve sonhos ou pesadelos. Os olhos negros se abriram lentamente, preguiçosos e parcialmente sonolentos. Ele pôde ver a claridade, deduzindo que já havia amanhecido. Seu coração bateu mais rápido e seu corpo moveu-se bruscamente por puro instinto. Naqueles últimos meses era daquela maneira que ele costumava acordar: de sobressalto, afobado e procurando por alguém que não estaria ao seu lado.

Mas, naquela manhã, ele não estava sozinho.

Hibari abriu os olhos, percebendo que seu rosto estava escondido no peito do Chefe dos Cavallone. O movimento brusco não foi capaz de acordar seu amante, que apenas mexeu-se sobre o futon, apertando ainda mais os braços ao redor do corpo do Guardião da Nuvem. Por um breve momento foi difícil respirar. O moreno sentia calor, mas aquilo não o faria se mover um centímetro sequer. As lembranças da noite anterior o inundaram lentamente, até que ele estivesse totalmente submerso pela presença do louro. Suas mãos apertaram um pouco mais as costas do homem que o envolvia e seus olhos se fecharam. Julgando a coloração amarelada que o Sol refletia na porta fechada, provavelmente já havia passado do meio-dia, mas o ex-Líder do Comitê Disciplinar não se importou. O italiano poderia buscar suas coisas ao anoitecer ou simplesmente pedir que Romário trouxesse tudo. Independente do que ele decidisse, Hibari estaria ao seu lado. Pois, quando o Chefe dos Cavallone mencionou que passaria mais tempo no Japão, o Guardião da Nuvem já havia tomado sua decisão: se Dino fosse, ele iria. O moreno não gostava de abandonar sua preciosa Namimori, mas ele não tinha planos de deixar seu amante escapar por seus dedos novamente. Não existia vida sem a luz do Sol. Sem a luz do seu Sol particular.

Continua...