Vendetta

13 Yamamoto


Yamamoto

"Foi exatamente naquele sofá. Nori-san me fod–”

Seu pai sempre disse que para haver tempestade era preciso a existência da chuva.

Yamamoto nunca entendeu direito o que aquelas palavras significavam, mas Tsuyoshi sempre repetia a mesma frase quando um ou outro trovão era ouvido ao longe. O céu se tornava escuro, quase negro, e o Guardião da Chuva descia as escadarias do restaurante correndo, arrastando a porta e pronto para mais uma tarde de brincadeiras com as crianças do bairro. Seu pai então o segurava pelo colarinho da camiseta, puxando o pequeno moreno para dentro e dizendo que uma tempestade se aproximava.

"Mas eu não vejo a chuva! Você sempre diz que chuva e tempestade andam juntas. Eu quero brincar! Lá fora!".

Tsuyoshi ria, bagunçando ainda mais o já bagunçado cabelo negro, curto e espetado do garoto que era da altura de sua cintura.

"Ouça, Takeshi," a voz do pai soava brincalhona, mas seus olhos estavam sérios. Aquele era um dos momentos que Yamamoto sabia que deveria ouvir não somente com seus ouvidos, mas também com seu coração, "em alguns momentos a tempestade virá antes da chuva, e você ouvirá raios e trovões e uma forte ventania. Essa é a maneira da tempestade chamar a chuva. Em pouco tempo elas se encontrarão, e então todos correrão para suas casas a procura de abrigo. Os que estão na rua, voltando de seus trabalhos, entrarão nos restaurantes e lojas de conveniências. Os garotos, assim como você, fecharão as janelas com medo do que está por vir."

O Guardião da Chuva se lembrava bem daquele dia. A explicação não fez muito sentido, mas ele achou incrível a descrição do encontro entre a chuva e a tempestade.

"E o que acontece quando elas se encontram? Se eu não posso sair ou abrir as janelas, como vou saber?"

Seu pai ergueu os olhos e soltou uma sonora gargalhada, virando o filho e apontando para o céu escuro. As primeiras gotas caíram do céu como pequeninas bolas de baseball e o pequeno moreno viu sua tarde de brincadeiras desaparecerem. "Quando tempestade e chuva se encontram ninguém pode pará-los, Takeshi."

Yamamoto passou anos tentando entender as palavras de seu pai. Aquela questão surgia em sua mente todas as vezes que o céu se tornava escuro e, embora já fosse um homem crescido, ele não havia compreendido o teor e o significado por trás daquele simples comentário... até aquela tarde.

O Guardião da Chuva não sabia que poderia simplesmente perder o controle por causa de simples palavras. Não era de seu feitio. Não fazia parte de sua personalidade se deixar levar por comentários ou provocações. O moreno era naturalmente gentil e amigável, procurando sempre ver o lado bom das pessoas e das situações. Yamamoto não havia perdido o controle durante a luta com Squalo pelo título de Guardião. Ele manteve a paciência durante a luta no futuro, apesar de tudo estar contra ele e os demais. Durante a luta contra a Família Shimon, e apesar de ter sido traído e literalmente apunhalado pelas costas, o Guardião da Chuva não teve nenhuma reação exagerada. A batalha dos Arcobalenos fez todos chegarem ao limite, mas ele se manteve são e centrado, porque no fundo... no fundo o moreno sabia que nada seria resolvido de cabeça quente. Sentar, conversar e ponderar sempre seria o caminho e a opção que ele escolheria. Entretanto, todo esse autocontrole simplesmente escorreu por seus dedos no instante em que as palavras de Gokudera entraram por seus ouvidos.

Ele nunca quis machucá-lo. Ele jamais teria levantado a mão para a pessoa que sempre fora seu melhor amigo durante aqueles seis anos. A ideia de machucar outro ser humano era visto com asco por Yamamoto, ainda mais quando o assunto era seus amigos, pessoas essas tão importantes para ele. Porém, quando o Guardião da Tempestade pronunciou aquilo, foi como se um botão dentro do moreno fosse acionado. Ele sentiu a ira subir por seu pescoço, no exato momento em que seu coração se tornou apertado e a dor sentida foi tão insuportável que o fez revidar aquela ofensa de forma física. O barulho que sua mão fez ao atingir o rosto do Braço Direito do Décimo soou oco em seus ouvidos. A pele quente tocou seus dedos, e automaticamente sua mão pareceu ficar dormente, rejeitando aquele ato tão violento e fora de seu caráter. O Guardião da Chuva não ficou para ver o que aconteceria. Seus pés o levaram para fora da sala, sua mão bateu a porta com raiva e, ao ganhar o corredor, Yamamoto respirou fundo e encarou o chão, sentindo os dentes rangerem de raiva.

"Foi exatamente naquele sofá. Nori-san me fod–”

O moreno havia caminhado três passos pelo corredor quando sua respiração tornou-se difícil. Diante de seus olhos surgiram diversas imagens, como um pequeno filme contendo várias cenas. Os dois amigos caminhando até o colégio, as brigas, as discussões, os momentos em que riram e se divertiram... ele havia construído uma vida ao lado do homem de cabelos prateados, que até aquele dia havia assumido o papel de seu melhor amigo. O Guardião da Chuva arregalou os olhos para esse último pensamento, e foi exatamente nesse momento que os mesmos pés que o levaram para fora da sala seriam os responsáveis por refazerem o caminho, mas dessa vez com o dobro de velocidade. A porta foi reaberta com fúria e sem nenhum tipo de delicadeza. Yamamoto cruzou a distância até a mesa de Gokudera com passos firmes e, quando aquele homem estava ao alcance de seus braços, seu corpo simplesmente fez o que ele vinha negando durante todas aquelas semanas.

Até aquele momento o moreno nunca havia beijado outro homem. Ele não sabia o gosto ou a sensação. Ele não sabia se os movimentos eram os mesmos, se o ritmo era similar ou se sentiria alguma coisa. A realidade retribuiu seu gesto com fervor, e o que já havia começado intenso se transformou em um ato totalmente sem pudores. O Guardião da Chuva sentiu o gosto do tabaco e do desejo, ambos através dos lábios do Braço Direito do Décimo. Sua própria língua invadia a boca do homem em seus braços, vasculhando cada canto, enquanto suas mãos envolviam o Guardião da Tempestade em um apertado abraço. Durante todos aqueles anos ele não sabia que o homem de cabelos prateados possuía lábios macios e era excelente em beijos. Ele não sabia que Gokudera passava seus dedos pelos cabelos das pessoas que tinha em seus braços, e nem que gemia baixo quando as caricias se tornavam mais ousadas. Yamamoto sentiu tudo. Ele sentiu o beijo, sentiu o desejo aflorar em seu peito, sentiu seu corpo aproximar-se mais do Braço Direito, a ponto de encostar sua companhia à mesa, unindo os corpos em um erótico movimento. O Guardião da Chuva nunca possuiu tanto libido por outra pessoa. Nenhuma de suas namoradas conseguiu despertar aquele lado cru e sedento por contato físico. O moreno não conteve seus movimentos ou se reprimiu em tocar a pessoa em seus braços. Era como se fosse um sonho. Ele, ali... com o homem de cabelos prateados. Seu melhor amigo... e um homem.

O beijo terminou quando a falta de ar atingiu ambos. Yamamoto abriu os olhos, encarando dois grandes e verdes olhos que esboçavam surpresa e luxúria. Os olhos castanhos abaixaram levemente o foco, encarando os lábios rosados de Gokudera. A vontade de possuí-los novamente fez seu coração bater mais rápido, mas o Guardião da Chuva apenas deu um passo para trás. Outra parte de seu corpo havia ficado feliz com aquela cena, e ele se sentiu automaticamente envergonhado por isso. Sua respiração estava alta e descompassada, mas a razão começava a cutucar-lhe e naquele momento o moreno soube que se ficasse ali ele não conseguiria se controlar.

Eu não posso dizer que sinto muito. Eu não sinto. Yamamoto refez pela quarta vez o caminho até a porta e deixou a sala com passos vagarosos. O Guardião da Tempestade não tentou impedi-lo e o moreno não seguiu até o estacionamento. Ele não se sentia forte e centrado o suficiente para dirigir um carro, e, honestamente, nada lhe daria mais paz de espírito naquele momento do que algum tempo sozinho. O céu estava azul e o tempo abafado, então o Guardião da Chuva retirou o terno e afrouxou a gravata, pondo-se a caminhar até sua casa. As pessoas passavam por ele sem serem notadas, assim como o barulho nas calçadas e principalmente no centro comercial. A caminhada era longa, ele sabia. No início Yamamoto fazia aquele trajeto para se exercitar, mas conforme o dinheiro dos Vongola começou a entrar, ele achou mais prático e cômodo utilizar um carro. E eu sempre tive a companhia dele.

A caminhada durou pouco mais de meia-hora e o Guardião da Chuva entrou no restaurante de sua família sentindo-se cansado. O local estava cheio e seu pai visivelmente atarefado com pedidos e instruções para os demais ajudantes. O moreno cruzou o local, esforçando-se para sorrir para aqueles que o haviam notado. Ao chegar ao segundo andar, Yamamoto pôde finalmente respirar. Seus sapatos ficaram na entrada e seus pés o levaram diretamente até o banheiro. O peso de todo aquele momento cairia cedo ou tarde em seus ombros, ele sabia. Ele também sabia que teria de lidar com a situação, mas durante os vinte minutos que passou mergulhado na pequena banheira, o Guardião da Chuva não fez nada além de relaxar. Seus braços estavam apoiados nas bordas, seus olhos fechados, mas ele mentiria se dissesse que sua boca não tinha gosto de tabaco e que seus lábios não podiam sentir o beijo.

O movimento do restaurante manteria Tsuyoshi ocupado até mais tarde, então o moreno teria tempo suficiente para dedicar a si mesmo. Yamamoto deixou o banheiro apenas com a toalha ao redor de sua cintura, e ao chegar ao quarto sua vestimenta escolhida foi um simples conjunto de moletom branco. Seu corpo deitou-se sobre a cama, e o Guardião da Chuva virou-se na direção da parede. Ele se sentia triste, irritado, enciumado, traído e uma porção de sentimentos que geralmente não faziam parte de seu ser e que até aquele dia haviam passado longe. A descoberta o assustava, mas nada o amedrontava mais do que a maneira como seu coração batia ao lembrar-se da cena ocorrida naquela sala. O tapa, o beijo, a proximidade... E o maior medo do moreno era o que aquilo poderia significar. O que eu fiz?

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Yamamoto nunca foi o tipo de pessoa que evitava situações ou fugia de lutas, mas ele evitou o homem de cabelos prateados durante quase uma semana. Gokudera também não fez questão de encontrá-lo, e o contato que ambos tiveram foi através de mensagens de texto via celular, emails e até mesmo pequenos bilhetes deixados no escritório, todos em horários diferentes. O Guardião da Chuva chegava todas as manhãs pontualmente às 8hs, imaginando se acabaria esbarrando com o Braço Direito do Décimo em um ou outro corredor. Seu coração bateu mais rápido todas as vezes que a porta de sua sala foi aberta, e até mesmo as rápidas visitas à copa ganharam um significado novo. Porém, o horário de almoço era definitivamente o mais penoso. O moreno se acostumara à companhia do Guardião da Tempestade. Os dois eram companhia constante um do outro por anos, e sempre que se sentava em uma mesa de restaurante Yamamoto sentia que faltava alguma coisa, que o lugar em frente ao seu estava vazio demais, solitário demais.

Os dias úteis terminaram e com isso chegou o fim de semana. Se evitar o homem de cabelos prateados havia sido tarefa árdua, o mesmo não poderia ser dito sobre Yurika. A jovem mulher foi atendida todas as vezes que entrou em contato, mas as conversas entre eles foram breves, quase monossilábicas. O Guardião da Chuva ligava quando não recebia a ligação, mas em todos os momentos em que ouvia a voz amável e animada da pessoa que deveria se tornar sua futura esposa, ele sentia como se estivesse cometendo um grave erro. A mentira não era somente com Yurika, mas também com ele mesmo, com Gokudera e com toda aquela situação em que ele havia se metido. Entretanto, a pior parte não era a culpa. Não, o moreno lidaria com aquelas consequências muito facilmente se ele não tivesse percebido que, apesar de não ter visto o Guardião da Tempestade por quase sete dias, sua presença esteve viva durante todo o tempo.

A primeira vez aconteceu depois de um sonho, quase de maneira inconsciente. Em sua fantasia eles haviam permanecido muito mais tempo naquele escritório, e o beijo se transformou rapidamente em algo mais. As roupas foram para o chão e em poucos segundos o Guardião da Chuva estava entre as pernas do homem de cabelos prateados, possuindo-o com um desejo e uma vontade que ele nunca sentira antes. O resultado de um sonho tão intenso não poderia ter sido diferente e, ao acordar na manhã seguinte, o moreno sentiu-se extremamente envergonhado, como se ele tivesse seus 14 anos novamente. O incidente daquela manhã se repetiu naquele mesmo dia durante a tarde e a noite, e basicamente todos os dias daquela última semana, a ponto de Yamamoto tentar permanecer acordado por muito mais tempo do que o necessário, apenas para deitar em sua cama e dormir automaticamente. Mas, infelizmente, a vida não era assim tão conveniente.

Todas as vezes que fechava os olhos a figura de Gokudera surgia como um feitiço. As situações mudavam, assim como os locais e até eles mesmos. Na quarta-feira Yamamoto não estava com seus 21 anos completos, mas sim com 16 e ele e o Guardião da Tempestade praticamente viraram de ponta cabeça o vestiário do colégio Namimori. O Braço Direito do Décimo vestia a camisa de baseball do moreno, e ao imaginar aquela cena acontecendo o Guardião da Chuva suspirou e coçou a cabeça, sentindo-se extremamente culpado. A pior parte, todavia, ficava por conta da ideia de que ele não achava que aquilo fosse errado. Yamamoto tinha plena consciência de que eram homens, e até aquele dia ele nunca se sentira atraído por alguém do mesmo sexo. Mas o homem de cabelos prateados era diferente, o que deixava o sentimento de culpa duas, três, até quatro vezes mais pesado. Ele é meu amigo. Você não se toca pensando em seus amigos. É... errado. Após seus momentos íntimos o Guardião da Chuva era assolado pela culpa, e a silenciosa promessa de que aquela seria a última vez. E então Gokudera surgia em sua mente, e a promessa era quebrada com a mesma rapidez com que o moreno levava para desabotoar a própria calça.

Yamamoto chegou ao final da semana se sentindo ainda mais perdido do que na semana anterior, sem nenhuma certeza, e a mente povoada de dúvidas. A ideia de que teria de visitar Yurika o assombrou durante todo o dia, mas quando a noite de sábado chegou, ele soube que não haveria como evitar aquele momento. De banho tomado e roupa trocada, o Guardião da Chuva deixou sua casa com um sorriso triste, desejando aos clientes que tivessem uma boa refeição. A noite estava levemente fresca apesar do céu estrelado, e, embora adorasse aquele tipo de clima, naquele dia o moreno não se animou com o brilho das estrelas ou o frescor tocando seu rosto. O caminho até a casa de Yurika foi feito devagar, parando antes que os semáforos se tornassem vermelhos e pensando como encararia a jovem mulher depois do que havia acontecido. Yurika é uma boa mulher. Você é uma péssima pessoa, Takeshi.

O carro foi estacionado na calçada, e como o jardim era pequeno seus passos foram curtos. Ao chegar à soleira Yamamoto tocou a campainha, colocando as mãos dentro dos bolsos e se sentindo nervoso. Quando eu a convidei para sair eu também estava nervoso, mas foi diferente. Yurika era a garota mais bela do colégio e eu jamais esperei que ela me aceitasse. O Guardião da Chuva abaixou os olhos ao ouvir o barulho da maçaneta sendo girada, sabendo que não conseguiria encarar a mulher nos olhos à primeira vista. A porta foi aberta, e o que o recebeu não foram olhos sérios ou cheios de perguntas, mas sim um delicado e inusitado beijo. O moreno arregalou os olhos, visivelmente surpreso. Ele não sentiu os braços envolverem seu pescoço, notando apenas quando os lábios de Yurika estavam sobre os seus, delicados e gentis. Yamamoto fechou os olhos devagar, envolvendo a cintura da jovem mulher e correspondendo ao beijo.

O gestou durou longos minutos. O Guardião da Chuva sentiu quando Yurika afastou o rosto e soltou seu pescoço. Ela era bem mais baixa, não chegando a medir nem mesmo 1,60m. Os olhos castanhos se entreabriram e receberam de volta um meio sorriso. Havia algo errado na expressão da jovem mulher. Ela estava descalça, ali, na soleira da porta, trajando um simples vestido de verão cheio de pequeninas flores. Seus seios eram fartos, então o vestido marcava todas aquelas curvas que Yamamoto conhecia tão bem, mas que já não o encantavam como costumavam encantar. Aquela realização o fez ficar sério e ele teria abaixado o rosto e se desculpado se a próxima pergunta não tivesse chegado aos seus ouvidos antes que ele pudesse pensar direito:

"Você não me ama mais, não é?"

A questão soou mais como uma afirmação aos ouvidos do Guardião da Chuva e sua resposta foi o silêncio. Ele se sentia covarde por não ter coragem de ser tão honesto naquele momento como havia sido ao pedi-la em namoro. Naquela ocasião o moreno estava nervoso e achou que acabaria gaguejando e estragando tudo, mas foi exatamente Gokudera quem o incentivou a ir. Seria irônico se não fosse trágico. Dois anos depois de receber o empurrão certo, Yamamoto estava diante da mesma garota – agora, uma mulher – encarando-a nos olhos, mas pensando em seu melhor amigo... aquele que o ajudou a chegar até ali.

"Eu te amo, Yurika." O Guardião da Chuva disse baixo. Ele não estava mentindo. A mulher diante de seus olhos era exatamente tudo o que ele sempre quis; a esposa ideal, aquela que lhe daria três ou quatro filhos, e ambos morariam em uma casa mais ou menor, com um largo jardim e provavelmente dois cachorros. Esse plano, porém, parecia cada vez mais irrealizável.

"Mas não como antes." Yurika juntou as mãos à frente do corpo e mexeu com os dedos. Ela sempre fazia aquilo quando estava chateada; era um hábito que o moreno pegou rapidamente. Quando isso acontecia, ele sempre procurava agradá-la com alguma coisa boba ou um abraço inusitado, ou os dois acabavam rolando pelo chão rindo como se o mundo pudesse parar, pois eles estavam felizes. Eu estou feliz agora? Eu a estou fazendo feliz? "Eu quero que seja sincero comigo, Takeshi. Eu sei que alguma coisa está acontecendo. Eu senti a sua distância e sua falta de interesse..." A jovem mulher ergueu os olhos. "Mas eu não senti nada vindo de você quando o beijei."

Isso é porque eu não estava pensando em você. Yamamoto jamais poderia dizer o que se passava por sua mente. Yurika não merecia ouvir aquilo, não quando ela havia sido uma companhia tão agradável e honesta pelos últimos dois anos. Foi graças à jovem mulher que o Guardião da Chuva começou a pensar com certa frequência em coisas como casamentos e filhos, e qualquer pensamento adulto e maduro que o projetasse para um futuro completamente diferente do presente. Mas ele estava ali. Em frente à porta da casa que ele visitou tantas vezes, diante da pessoa que o havia feito feliz por anos, sem saber o que deveria fazer ou dizer.

"Eu sei que existe outra pessoa, e eu conheço você, Takeshi." Yurika riu triste. Daquele ângulo ela parecia tão pequena e indefesa quanto uma criança. "Eu sei que você jamais me magoaria, por isso está tão difícil para você me dizer o que está acontecendo." Por um breve momento a mulher desviou os olhos na direção do jardim, mas logo retornou ao homem que estava à sua frente. "Você dormiu com ela?"

"Não." A resposta saiu rápida e antes que Yamamoto pudesse pensar, porém, ela deixou um amargo gosto em sua boca. "Yurika, vamos entrar e conversar sobre isso melhor. Não é o que você está pensando... do jeito que está pensando."

"Não, eu não estou pensando nada, e você não entrará novamente na minha casa até ser sincero, Takeshi." Yurika deu um passo para trás, pisando na divisória entre a soleira e a entrada. "Você pode tirar os dias que precisar para pensar no que você quer fazer, e quando souber eu estarei esperando a sua resposta. Mas eu quero que seja honesto, não somente comigo, mas com você. Eu estive ao seu lado por dois anos e o conheço mais do que imagina. Você não é somente meu namorado, mas também meu amigo. Se você não me ama mais, se não quer continuar ao meu lado, eu quero que me diga. Eu não direi que entenderei, mas nós sempre conversamos, não é?"

A compreensão e honestidade daquelas palavras fizeram o Guardião da Chuva engolir seco. Enquanto ele lutava internamente para entender o que estava acontecendo, a pessoa diante de seus olhos oferecia sinceridade e uma compreensão que estavam além de suas capacidades. Ela é uma boa mulher e não merece estar nessa situação. O moreno coçou a nuca e esboçou um sorriso cansado. Ele não conseguiria mencionar Gokudera, não naquele momento, mas sabia que precisaria utilizar esse tempo que lhe era oferecido.

"Eu sinto muito, Yurika. Você não merecia isso."

"Eu sei." A jovem mulher deu mais um passo para trás e suas mãos seguraram a maçaneta da porta. "Eu não esperarei para sempre por sua resposta, mas se formos realmente terminar eu quero que seja da maneira como começamos: honestamente. Então, quando tiver sua decisão, eu estarei aqui, Takeshi. Só quero que pense com carinho em tudo o que fizemos nesses dois anos e, mesmo não sabendo o que está acontecendo, digo com convicção que sou melhor do que essa pessoa que te deixou em dúvida. Eu venho te amando por dois anos e não sou uma aventura. Eu quero uma vida ao seu lado, Takeshi."

Yamamoto sorriu e abaixou os olhos, dando meia volta e caminhando na direção de seu carro. A situação parecia maldosamente irônica, a ponto de fazê-lo entrar no veículo e suspirar, imaginando como a vida poderia ser tão complexa, mas ao mesmo tempo tão simples. Yurika estava certa. O desenrolar daquela história terminaria exatamente como começou: com o Guardião da Tempestade entre eles. Foi o Braço Direito do Décimo que o incentivou a falar com a garota, foi ele quem ouviu os problemas e confissões que o Guardião da Chuva costumava ter, e era o homem de cabelos prateados que o fazia estar tão inseguro naquele instante. “Eu venho te amando por dois anos”, a voz de Yurika soou aos ouvidos do moreno quando o carro parou em um semáforo, e naquele momento foi impossível para ele esquecer a declaração de Gokudera. E ele vem me amando por seis anos. A cor verde apareceu no semáforo, mas Yamamoto não sabia para onde ir.

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Não existia melhor ocupação para esquecer os problemas do que ajudar Tsuyoshi no restaurante. O Guardião da Chuva ofereceu ajuda ao pai, e foi aceito com um largo e feliz sorriso. Tsuyoshi o deixou como atendente, e era a função do moreno receber os clientes, acomodá-los nas mesas e anotar os pedidos. Grande parte dos frequentadores eram velhos conhecidos da família, então, por três dias, Yamamoto ouviu brincadeiras, recebeu sorrisos e felicitações de pessoas que praticamente o viram crescer e estavam muito orgulhosos do resultado. Suas respostas sempre eram uma sonora e embaraçosa gargalhada, ou apenas um menear de cabeça, mostrando que ele estava agradecido com o comentário, mas que se sentia um pouco relutante em aceitar tais gracejos; porque, honestamente, o Guardião da Chuva se sentia tudo, menos maduro.

Ajudar no restaurante foi apenas uma desculpa para mantê-lo longe do real problema que era se aproximar de Gokudera. A realização de que aquela era a melhor saída o atingiu na noite em que ele retornou da casa de Yurika, surpreendendo-o por não ter pensado mais cedo em algo tão elementar. O Guardião da Tempestade havia sido sincero com seus sentimentos quando confessou seu amor, mesmo que aquela declaração mais tivesse soado como uma conversa informal, cuja informação foi apenas compartilhada por não ter mais significado algum. Na verdade, aquele era um dos medos do moreno. Ele sabia que estava mergulhando mais e mais naquela história, mas não havia garantia nenhuma de que o homem de cabelos prateados ainda sentisse o mesmo. No dia em que ambos se beijaram, o Braço Direito do Décimo respondeu a carícia, mas Yamamoto também era homem. Ele entendia essas coisas.

Quando aquela realização aconteceu, muitas outras a seguiram. O Guardião da Chuva entendeu a raiva que sentiu quando viu Gokudera ao lado do estranho homem que costumava ser seu amante, ou ainda pior, o ciúme que se apossou de seu corpo ao ouvir que o Guardião da Tempestade havia dormido com o Chefe da máfia local – assunto esse que ainda aborrecia o moreno todas as vezes que se recordava. Entretanto, como negar todos aqueles novos e curiosos sentimentos que estavam sempre acompanhados por momentos que os dois compartilharam juntos. Gokudera havia sido seu melhor amigo, companhia presente em todos os momentos, fossem pessoais ou fossem aqueles que envolvessem as brincadeiras de máfia. E, então, aquele garoto arrogante e egoísta se transformou em algo mais. Algo que Yamamoto não queria perder, mas não sabia se algum dia havia realmente possuído.

A porta do restaurante foi arrastada e o barulho fez o Guardião da Chuva encarar o teto. Ele havia ido até a despensa ao fundo do restaurante para pegar dois vidros pequenos de shoyo para as mesas cinco e nove. A voz de seu pai ecoou pelo pequenino e estreito corredor de madeira, e o moreno riu consigo mesmo imaginando que o próximo cliente era algum velho conhecido.

"Deixe isso ai, Takeshi. Touya, leve para as mesas, por favor." Tsuyoshi praticamente arrancou os vidros de shoyo das mãos do filho. "Vá anotar o pedido da mesa oito, Takeshi, e seu turno termina aqui. Você ajudou o suficiente. Pode ir conversar com seu amigo."

Yamamoto soube naquele exato momento o que encontraria ao virar o rosto na direção da esquecida mesa de número oito, localizada no canto direito, mas foi impossível esconder sua reação. O homem estava de costas e vestia roupa social negra, que contrastava bastante com seus curtos cabelos prateados. O Guardião da Chuva sabia que Gokudera segurava o cardápio por mera educação, pois pedia geralmente a mesma coisa todas as vezes que visitava o restaurante. O moreno sorriu nervoso para o pai, sentindo as pernas incertas durante os passos que o levaram cada vez mais próximo da pessoa que não havia saído de sua mente por quase duas semanas, e que aparecera tão de repente. Quanto mais se aproximava, mais tenso Yamamoto se tornava. Seus olhos fitavam o Guardião da Tempestade com curiosidade e fascinação, e ele se perguntou se havia notado antes que o Braço Direito do Décimo possuía um belo perfil. Seu nariz era fino, assim como seus lábios, mas esses eram rosados e dava a pele pálida uma estranha aparência de saúde. Ao chegar ao lado da mesa, o Guardião da Chuva respirou fundo.

"Uma porção de tuna, certo?" Sua voz saiu animada, o que o deixou surpreso. Mentalmente ele se imaginou gaguejando e se perdendo nas palavras. É normal. Nós nos conhecemos há muito tempo, não existe estranheza entre nós.

"Não." O homem de cabelos prateados fechou o cardápio e ergueu o rosto. Quando os olhos verdes encararam Yamamoto, foi como se seu coração ganhasse vida própria. "Hoje eu quero uma porção média de yakisoba."

"Carne?"

"Você já me viu comendo frango?"

"Hahaha você deveria experimentar. Você pode gostar." A frase saiu estranha através dos lábios do Guardião da Chuva e ele sentiu como se não estivesse mais falando sobre o pedido em si. O que eu estou fazendo?

"Eu já experimentei." Gokudera ofereceu o cardápio e voltou a abaixar os olhos. Havia uma pitada de tristeza e conformismo naquele gesto. "Eu já tive o suficiente e não pretendo repetir. O gosto não era como imaginei. A realidade é sempre inferior, não?"

O moreno não se lembrou de agradecer ou dizer nenhuma outra palavra. Seus passos o levaram novamente até o balcão e ele depositou o pedido sobre a peça de madeira e retirou o avental, seguindo na direção da escada que levava ao segundo andar. Yamamoto sabia que o pedido seria levado por um dos ajudantes, já que sua função era apenas recepcionar. Os degraus pareceram longos e cansativos e ao chegar ao segundo andar o Guardião da Chuva passou a mão pelos cabelos, sentindo-se frustrado. Ele não entendia o que o Braço Direito do Décimo fazia ali, mas aquele encontro não estava em seus planos ou havia sido como ele esperava.

Deixando o corredor e seguindo até seu quarto, o moreno arrastou a porta e sentou-se em sua cama. A janela estava aberta, permitindo que uma agradável brisa entrasse e fizesse o ar do local circular. A cortina se agitava levemente quando a brisa se tornava mais forte e o céu estava escuro e estrelado. Yamamoto apoiou os cotovelos em suas pernas e afundou o rosto em suas mãos, respirando fundo e procurando retornar ao seu estado normal. Seu coração batia rapidamente, tanto pela surpresa tanto pelas palavras duras, mas reais e sinceras, que partiram dos lábios do homem de cabelos prateados. Por quanto tempo ele permaneceu naquela posição, apenas aproveitando o silêncio e pensando no que deveria ou não fazer, o Guardião da Chuva não sabia. A brisa tornou-se mais forte e a cortina mexeu-se um pouco mais, batendo em sua nuca e o fazendo erguer os olhos no exato momento em que a porta de seu quarto foi arrastada. Expectativas e decepções se misturaram e pareceram entrar junto com Gokudera. O Guardião da Tempestade arrastou a porta novamente ao pisar dentro do cômodo e caminhou poucos passos, sentando-se ao lado do moreno, mas no mais puro silêncio. Os olhos de Yamamoto estavam fixos em suas mãos, e ele não sabia como havia conseguido passar todos aqueles anos sentado ao lado do Braço Direito do Décimo sem sentir todo aquele nervosismo e excitação que corriam por seu corpo.

"Nós precisamos conversar, Yamamoto."

A voz do homem de cabelos prateados era naturalmente rouca, mas naquele momento ela pareceu ainda mais interessante de se ouvir. O Guardião da Chuva reclinou-se um pouco para trás, mostrando que havia ouvido, mas que não era capaz de responder. Na verdade, as palavras simplesmente lhe faltavam.

"Dino ligou esta tarde e marcou o dia que devemos ir à Itália." Gokudera continuou. "Eu vim avisá-lo para saber se tem interesse em ir. Para ser sincero eu gostaria de ir sozinho, assim você poderia ficar aqui tomando conta do Jyuudaime."

"Eu irei." O moreno respondeu prontamente. "Eu vou com você. Chrome ou Ryohei ou até mesmo Hibari podem cuidar de Tsuna. Eu confio neles e você também deveria confiar."

"Hibari está fora da situação. Eu não confio em Chrome quando ela tem aquele lunático do Mukuro como sombra e Ryohei..." O Guardião da Tempestade fez uma pausa desconfortável.

Yamamoto riu baixo. Era extremamente agradável poder ter aquele tipo de momento com o Braço Direito do Décimo. Os últimos dias haviam sido confusos e cheios de dúvidas e ele havia esquecido como era viver aquele nível de cumplicidade. "Eles darão conta do serviço, e eu não o deixaria viajar sozinho, não enquanto a situação não for resolvida."

O homem de cabelos prateados respondeu um baixo "Você que sabe...", e aparentemente o assunto deu-se por encerrado. O Guardião da Chuva desviou os olhos para sua companhia, pela primeira vez, notando que Gokudera encarava as próprias mãos. Aquele silêncio estranho e constrangedor o deixou levemente desconfortável, mas também o fez sentir um pouco mais confiante. Não era de seu feitio adiar conversas ou se calar quando era preciso falar e se impor, e, honestamente, aquela situação não poderia se estender por mais nenhum dia sem uma solução... independente de qual fosse.

"Eu sinto muito por aquele dia." O moreno voltou a apoiar os cotovelos em suas pernas, mas sua cabeça estava virada na direção de sua companhia, porém, sem encará-lo diretamente.

"Eu também." Gokudera mexeu seus dedos. Sua voz era baixa, quase como se ele não quisesse tocar naquele assunto.

"Eu estou me referindo ao tapa, Gokudera." O ex-capitão do time de baseball do colégio Namimori ficou sério. Aquele ato violento o assombrou por todo aquele tempo, e ele não via a hora de se desculpar. “Eu realmente sinto muito. Eu não tenho palavras para me desculpar pelo que fiz. Eu nunca tive a intenção de machucá-lo.”

O Guardião da Tempestade ergueu os olhos e foi naquele exato momento que Yamamoto viu sua oportunidade. O olhar caiu sobre ele de maneira tão genuinamente surpresa que parecia até mesmo inocente. Havia descrença no rosto do Braço Direito do Décimo, como se ele jamais esperasse ouvir aquelas palavras. O Guardião da Chuva ficou sério e sentou-se direito, notando que ele não fora o único que passou dias remoendo aquela situação. Estava claro e totalmente exposto nas feições do homem sentado ao seu lado que ele pensara sobre o assunto, mas havia simplesmente se convencido de que fora um erro e que nada sairia dali além de um pedido formal de desculpas. O coração do moreno bateu mais rápido, se é que aquilo ainda era possível naquela altura do campeonato, e ele decidiu fazer o que seu coração e mente gritavam. Ele devia isso... para ele, para o homem de cabelos prateados e para Yurika.

"Eu vou beijá-lo novamente." A escolha de palavras foi proposital. Yamamoto poderia simplesmente ter dito que queria beijar Gokudera, mas aquilo seria uma meia-verdade, pois ele não queria apenas, ele iria fazer aquilo. "Porque eu preciso beijá-lo de novo."

A reação do Guardião da Tempestade foi semelhante à anterior. Suas sobrancelhas se juntaram e ele olhou para o Guardião da Chuva de maneira ultrajante, tentando encontrar no rosto do homem ao seu lado algum traço de riso ou brincadeira. Ao notar que as feições do moreno não esboçavam nada além da verdade, o Braço Direito do Décimo se tornou sério e fez menção de se levantar. Porém, foi incrivelmente fácil e simples para Yamamoto segurá-lo pelo pulso, fazendo com que ele voltasse a se sentar. Foi ainda mais fácil inclinar seu rosto e tocar os lábios do homem de cabelos prateados com seus próprios lábios, como se ele conhecesse o caminho... como se ele tivesse feito aquilo durante toda a sua vida. A textura dos lábios era exatamente como ele lembrava e os movimentos eram semelhantes aos que ficaram em sua mente por todos aqueles dias. O beijo começou devagar, contrário àquela primeira vez. Houve certa resistência por parte de Gokudera, mas assim que a língua de Yamamoto pediu passagem, o Guardião da Tempestade pareceu ter desistido da luta.

O Guardião da Chuva nunca ficou tão feliz por sentir o gosto de shoyo em sua boca. Sua mão tocou o rosto do Braço Direito do Décimo, deixando que seus dedos se perdessem naquela parte do cabelo que ficava na altura da nuca. Os fios eram extremamente finos e delicados, macios ao toque e agradáveis. Uma das mãos do homem de cabelos prateados tocava a mão do moreno e ele pôde notar claramente que Gokudera tremia de nervoso. O beijo foi longo, muito mais longo do que o primeiro. Ele foi interrompido depois de algum tempo, mas retornou sem que nenhum deles precisasse pedir ou avisar que haveria uma continuação. Naqueles preciosos minutos a mente de Yamamoto nunca esteve tão lúcida. Ele viu sua vida por trás de seus olhos fechados, relembrou momentos, viu cenas presentes e momentos que ainda aconteceriam. Quando os lábios finalmente se afastaram, o Guardião da Chuva sorriu largamente e riu baixo. Nada parecia mais engraçado do que aquele momento.

"D-Do que você está rindo, idiota?" As bochechas do Guardião da Tempestade estavam incrivelmente rosadas.

O moreno passou a língua nos lábios, ainda sentindo o beijo. Seu coração batia rápido e o sorriso parecia não querer deixar seu rosto, como se houvesse sido esculpido ali. Eu já tenho a minha certeza.

"Eu estou perdido, Gokudera," Yamamoto virou-se para sua companhia e seu sorriso aumentou, enquanto seus olhos castanhos brilhavam, "porque eu estou me apaixonando por você."

Continua...

Notas finais
O capítulo 14 será postado no domingo (19/8), como de costume, porém, na quarta-feira (15/8), eu postarei um capítulo extra. Ele será o "13.5" e acontecerá depois deste e antes do 14. :)