Squalo

A situação estava tão ruim que não havia meios de transformá-la em algo pior... ao menos era o que eu pensava. Eu sempre achei que lidaria com os problemas de acordo com meu próprio ritmo, mas esse tipo de pensamento era otimista demais.

Meus problemas nunca foram meus. Eles sempre foram problemas dele. Ele era o problema. Ele era o meu problema.

Não havia espaço para conversas, ele sabia. Na realidade, não havia espaço para nada ou ninguém naquele luxuoso e extravagante quarto de hotel. Tudo naquele cômodo cheirava a desperdício, a começar pelo tamanho do aposento. Não havia necessidade para um lugar que comportaria facilmente cerca de cinquenta pessoas, e que lembrava até mesmo um salão para festas. O cômodo inteiro era forrado com um tapete que deveria ser indiano, cujos desenhos eram tão eróticos que remetiam àquele famoso livro sobre posições sexuais. A mobília era constituída por um jogo de sofás creme, algumas poltronas da mesma cor, duas longas peças de madeira onde estátuas e outros objetos repousavam. O banheiro ficava ao lado esquerdo e era tão decorado quanto o quarto. O gigantesco guarda-roupa estava localizado ao lado da porta, à direita. E a cama... esta ficava no meio do quarto, mas com um dos lados encostado à parede. A peça era de madeira escura e larga o bastante para comportar pelo menos três ou quarto homens bem encorpados. Havia quatro altos pilares que serviam como apoio para o véu que cobria a cama. E assim como nos últimos três dias, naquela noite ela também estava ocupada.

Squalo arqueou as costas e jogou a cabeça para trás. Seus longos e lisos cabelos prateados cobriram seus ombros e costas, como um macio e úmido xale. Seus olhos estavam fechados, e seus lábios entreabertos. Sua garganta arranhava, e foi com muito esforço que ele deixou escapar o quarto gemido alto daquela noite. Por um tempo que pareceu curto, mas ao mesmo tempo longo, o Vice-Líder da Varia não se moveu. Ele tinha plena consciência de que alguma coisa se movia dentro dele, mas não havia como seu corpo reagir àquelas investidas. Eu estou cansado...

O corpo do homem de cabelos prateados caiu no fofo colchão, afundando-se na roupa de cama, completamente úmido com suor. Seus olhos permaneceram mais algum tempo fechados, e foi com certa dificuldade que ele conseguiu focar-se novamente. A princípio tudo o que ele viu foi alguém mover-se ao seu lado, mas em seguida ele já visualizou costas e em poucos segundos a figura do homem nu que deixava a cama para seguir até o banheiro.

"Você vai me deixar assim?" Squalo ergueu a voz. Seu tom saiu mais grosso por causa da garganta seca. A pessoa que ele conversava nem sequer devolveu-lhe um olhar.

A porta do banheiro foi fechada e o Vice-Líder arrastou-se para fora da cama. Suas pernas tremeram, e ele precisou utilizar as mãos para se apoiar em um dos pilares ou teria caído de joelhos sobre o erótico tapete. A pior parte, porém, não foi a incapacidade de ficar totalmente ereto que o irritou. Seus lábios se retorceram em um sorriso amargo ao abaixar os olhos e ver o orgasmo de Xanxus escorrer por entre suas pernas. Eu literalmente pareço uma lata de lixo. Squalo caminhou com dificuldade até o outro lado do quarto, encarando suas roupas e começando a árdua tarefa de se vestir. Normalmente ele faria aquilo sem nem ao menos pensar, mas seu corpo estava dolorido e seus pulsos presos por algemas. Mais um dos caprichos de Xanxus...

O Vice-Líder demorou um tempo considerável para colocar somente a calça, desistindo totalmente da blusa e da jaqueta. As peças restantes foram jogadas sobre suas mãos, no caso de ele encontrar alguém pelos corredores. A porta foi aberta e o homem de cabelos prateados soltou um longo e aliviado suspiro. Seu quarto ficava localizado no andar debaixo, e tudo o que ele queria naquele resto de noite era cozinhar um pouco na larga banheira de sua suíte, comer algo gostoso e dormir... dormir por dias.

O elevador também estava vazio, e o caminho até o quarto foi feito sem problemas. Quando a porta da suíte foi fechada, Squalo jogou as roupas que segurava em algum canto, caminhando até a outra extremidade do cômodo. Seu quarto naquele hotel era muito mais modesto do que o de seu Chefe. O tapete não era indiano e não forrava toda a extensão do quarto. A cama era simples e de casal. Havia menos mobília, menos arte e menos extravagância. Era enxuto e básico, assim como o homem que estava hospedado ali, pelo menos na teoria. O que o Vice-Líder procurava estava sobre uma longa cômoda próxima à janela. Squalo puxou o pano negro que cobria uma longa katana, afastando e abaixando os pulsos em um único movimento. O barulho de algo sendo quebrado ecoou pelo quarto e no segundo seguinte as algemas caíram em pedaços ao chão. E eu provavelmente ganhei uma marca, pensou o homem de cabelos prateados ao encarar os pulsos.

Não havia nada que o Vice-Líder quisesse tanto quanto um banho e foi para o banheiro que ele seguiu. Seus olhos pararam apenas para encarar o relógio, tentando ignorar que já passava das três da manhã e ele teria pouco mais de duas horas de sono. A banheira era seu objetivo, mas na situação em que ele se encontrava, não havia como esperar a água estar na altura e temperatura ideal. Squalo retirou a calça com rapidez e entrou no box de vidro, abrindo o chuveiro e respirando fundo. Há quanto tempo ele não tomava um banho de verdade? Cerca de três dias mais ou menos, quando ele foi literalmente empurrado para o quarto de Xanxus, só conseguindo escapar naquele momento. Eu não escapei. Ele me deixou ir.

Há três dias ele não sabia o que era caminhar pelos corredores ou conversar com o restante da Varia. No primeiro dia o moreno o prendeu à cama com as algemas. No segundo ele poderia caminhar pelos limites do quarto. No terceiro e último, ele não deixou a cama. Aquela situação não era nova ou inusitada para o Vice-Líder. Eles já passaram do ponto de voltar atrás, e vez ou outra Xanxus o obrigava a obedecer seus caprichos e com isso alimentar seu egoísmo. Os dois homens não fizeram nada além de sexo nos últimos dias. Não havia conversas – longas, curtas ou apenas sociais. Havia desejo e necessidade e uma fome que Squalo só conhecia quando estava nos braços daquele homem.

O banho foi longo e seu corpo implorou aqueles minutos. Seus dedos estavam enrugados quando o chuveiro foi desligado, e foram esses mesmos dedos que se esticaram a fim de pegar a toalha que supostamente deveria estar pendurada em algum lugar do box. Não estava. A única toalha do banheiro era uma pequena toalha de rosto que o Vice-Líder nem se deu ao trabalho de cogitar. Com o corpo ensopado e o cabelo pesado, Squalo abriu a porta do banheiro e pisou no quarto, praguejando todos os palavrões italianos que ele conhecia. O som de sua própria voz saiu rouco e sua garganta chegava a doer quando ele falava.

Entretanto, não seria preciso nenhum som – fosse rouco ou agudo – para descrever a reação do homem de cabelos prateados ao notar que tinha companhia.

Xanxus estava sentado na larga cama de casal vestindo apenas uma calça de couro negra e um par de coturnos. O Líder da Varia tinha uma expressão branca, mas seus olhos estavam fixos na figura que havia acabado de deixar o banho. Squalo pensou em abaixar os olhos, mas sabia que era tarde. O homem sentado em sua cama ergueu uma sobrancelha e tocou a cama com uma das mãos e naquele momento ele soube que seria punido por ter escapado do quarto. O Vice-Líder desviou os olhos e caminhou na direção contrária, seguindo até o guarda-roupa, mas parou antes mesmo de completar o terceiro passo. Os olhos que estavam em suas costas eram intimidantes e perversos demais para que ele arriscasse ficar naquela posição. Resignado, Squalo caminhou na direção da cama, mas não se sentou. Seus passos o levaram até a frente de Xanxus, porém, mentalmente ele esperava que seu Chefe estivesse cansado e que sua presença ali fosse somente uma desculpa para não dormir sozinho.

"Eu estou cansado, vá para o seu quarto." Novamente a voz rouca soou estrangeira aos lábios.

O Líder da Varia não respondeu. Seus olhos estavam fixos na pessoa à sua frente, e aquele estranho brilho era uma incógnita para Squalo. Ele nunca sabia ao certo o que seu amante estava pensando, com exceção do trabalho. Quando o assunto era a Varia eles eram apenas um. As mesmas decisões, as mesmas lutas... uma mente; duas pessoas. Entretanto, além dos limites profissionais eles eram dois seres completamente distintos. Quando estava por baixo (ou por cima, dependendo do humor e do dia), o Vice-Líder sabia muito bem qual era sua posição naquele relacionamento. Não havia pensamentos compartilhados, sentimentos ou ideais. O que existia entre eles era apenas uma estranha e perigosa relação que era vivida sobre uma cama e que durava horas e até mesmo dias.

O homem de longos cabelos prateados não reclamava daquele tipo de envolvimento. Ele sempre gostou de sentir o moreno dentro dele, e todos aqueles jogos não lhe deixavam bravo ou irritado. Xanxus era um excelente amante, mesmo que totalmente egoísta quando o assunto era prazer. O Vice-Líder precisava literalmente "se virar sozinho" na maioria das vezes, mas não era algo que incomodasse. Porém, nas últimas semanas o moreno havia se tornado mais sedento e menos paciente. O trabalho começou a ficar empilhado, e antes do Líder da Varia trancá-lo em sua suíte, Squalo deveria ter se encontrado com Mammon. O ilusionista não entrou em detalhes, mas havia uma estranha seriedade em sua voz quando mencionou o assunto. Aquele mistério todo levou arrepios pelo corpo do homem de cabelos prateados. E isso foi há três dias. Se as coisas continuarem assim eu nunca falarei com Mammon.

"Deite."

O Vice-Líder piscou, sentindo-se trazido à realidade mesmo a contragosto. Suas sobrancelhas se apertaram e seus lábios se entreabriram prontos para ser um pouco mais energético com seu amante. Porém, ele não teve tempo. O moreno o puxou pelo braço e o jogou da cama com força, e por um centímetro Squalo escapou de ter batido a cabeça no encosto de madeira.

"Mas que diabos, Xanxus!" O homem de cabelos prateados estava bravo. Ele aguentara por três dias ser feito quase literalmente de escravo. Eu quero paz, nem que seja por essas malditas duas horas.

A resposta para aquela voz elevada foi um olhar sério, mas que não surtiu efeito no Vice-Líder. Ele viu quando Xanxus arrastou-se sobre ele, ainda usando o coturno e a calça. Sua boca foi invadida por uma ardilosa língua antes que ele pudesse recomeçar seu discurso, e em poucos segundos todos os seus argumentos desapareceram.

Beijar o Chefe da Varia era uma aventura perigosa e Squalo sabia bem disso. As pessoas diziam que tudo começava com um beijo, mas, no caso do moreno, aquele mero gesto significava basicamente tudo. O homem de cabelos prateados sabia como seria amado enquanto era beijado. O único momento em que Xanxus era tão transparente era quando estavam na cama, e quando seus lábios se encontravam, a sensação era indescritível. E, naquele momento, nu e molhado por causa do banho, o Vice-Líder não soube direito o que esperar. A língua de seu amante tocava sua própria língua com movimentos lentos e eróticos. Os lábios se moviam sem pressa, mas profundamente. Uma das mãos de Squalo subiu pelo cabelo do moreno, sentindo os fios também úmidos, e foi impossível não gemer em determinado momento, tamanha a intensidade do beijo. Quando o Líder da Varia afastou o rosto, o homem de cabelos prateados cobriu sua própria face com o braço esquerdo, tendo dificuldades para respirar. Ele sentia a pele quente e sua ereção tremer. Ele também sentiu quando Xanxus arrastou-se um pouco para baixo e mordeu levemente o interior de sua coxa direita. A realização do que estava para acontecer foi suficiente para levar uma onda de ansiedade pelo corpo do Vice-Líder. O braço afastou-se de seu rosto e ele abriu os olhos e ergueu a cabeça a tempo de ver o momento exato em que o moreno abocanhava sua ereção.

Naquele momento Squalo soube que faria naquela noite o que quer que seu amante quisesse. O trabalho perdido daqueles três dias, a conversa com Mammon... nada. Não havia nada mais importante do que sentir a língua do moreno subir e descer por seu membro, enquanto seus próprios lábios estavam entreabertos, deixando escapar roucos e satisfeitos gemidos de prazer. As mãos do Vice-Líder apertaram a macia roupa de cama, totalmente ignorante de que ela estava molhada por causa de seu corpo recém-saído do banho. Por três dias ele não havia saído de cima de uma cama por causa dos caprichos de Xanxus, e era irônico pensar que ele estava novamente se rendendo àquele homem, como se todas aquelas setenta e duas horas não significassem nada. O clímax, porém, demorou o máximo que o homem de cabelos prateados conseguiu aguentar. Por duas vezes ele precisou quase destruir a colcha com sua mão, mas ele não poderia simplesmente se render. Eram tão raros os momentos em que o Líder da Varia resolvia presenteá-lo com aquele tipo de carícia, que era preciso aproveitar até o fim.

O orgasmo, todavia, poderia ter sido muito mais erótico se o moreno não tivesse terminado com sua mão ao invés de seus lábios. Uma das fantasias íntimas de Squalo envolvia Xanxus permanecendo até o fim, enquanto ele observaria seu amante engolindo tudo o que havia recebido. Entretanto, o momento de deleite do homem de cabelos prateados durou pouco. Seus olhos se entreabriram e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa o Líder da Varia arrastou-se para fora da cama e deixou o quarto sem dizer uma palavra. Naquele momento Squalo soube que teria algumas horas de sono. Suas preciosas e esperadas horas de descanso depois de dias incansáveis. Entretanto, ao contrário do que esperava, o Vice-Líder não se sentia satisfeito. Sua cama pareceu grande demais e seu quarto sufocante, quase como uma prisão. O homem de cabelos prateados tinha conhecimento de que precisaria de outro banho ou pelo menos uma passada rápida no banheiro, mas esse detalhe não importava naquele momento. Virando-se e enrolando-se com a colcha da cama, Squalo fechou os olhos e sentiu o peso do cansaço levá-lo a outro plano, enquanto sua mente repetia que talvez não fosse de todo ruim subir até a cobertura e passar a noite perdido em grossos e caríssimos lençóis.

x

O dia estava escuro quando o Vice-Líder da Varia abriu os olhos. A brisa que vinha da janela aberta fazia com que as cortinas dançassem e o ar circulasse pelo cômodo. Pouco a pouco o homem de cabelos prateados foi despertando. O quarto estava do mesmo jeito que ele se lembrava, e ao sentar-se sobre a cama – e depois de constatar que ele continuava nu e que seu cabelo estava estranhamente úmido e com uma textura que não lhe agradava – Squalo pousou os olhos no relógio digital que ficava na cômoda, ao lado direito. De início foi difícil entender porque ele enxergava "08:00". Eu fui dormir depois das quatro da manhã. Se o Sol ainda não nasceu então não poderia ser depois das 6hs, pelo menos. O Vice-Líder arrastou-se para fora da cama, caminhando até a janela e debruçando-se levemente. Havia barulho nas ruas. Barulho demais para uma madrugada. Oh, não...

A realização do que acontecera atingiu o homem de cabelos prateados com menos efeito do que ele esperava, isso se levado em consideração que sua agenda estava cheia. Squalo coçou a nuca enquanto seguia na direção do banheiro, mas não sem antes passar no guarda-roupa para pegar uma toalha. Camareiras não eram permitidas nos quartos dos membros da Varia, então tudo precisava ser feito manualmente. O banho dessa fez foi mais rápido, porém, necessário. O Vice-Líder lavou novamente os cabelos e enquanto se banhava sua mente repassava mentalmente o que ele deveria fazer. Aqueles pensamentos se seguiram durante a próxima meia hora, tempo necessário para que ele secasse seus longos cabelos. Limpo, com os cabelos lavados, vestido e bem dormido, Squalo deixou seu quarto e seguiu pelo longo corredor. Trabalho, trabalho, trabalho...

Mammon não estava em seu quarto e aquele fato não foi nenhuma novidade para o ele. A princípio o homem de cabelos prateados só queria obter informações direto da fonte, mas sabia que manter uma conversa com o ilusionista do grupo seria uma tarefa árdua. Havia, entretanto, uma terceira pessoa que poderia lhe informar exatamente o que estava acontecendo. O problema era que Squalo teria de aguentar calado certas coisas se quisesse qualquer tipo de informação. O quarto que ele procurava ficava na outra ponta do corredor, e a caminhada até aquele lado foi ainda mais vagarosa. Os olhos do Vice-Líder brincaram várias vezes na direção dos elevadores, pensando se Xanxus estaria em seu quarto ou teria decido para jantar.

Lussuria atendeu a porta na segunda batida e Squalo nem precisou dizer o motivo que o levou até ali. O colorido e animado homem o puxou para dentro do quarto, abraçando-o, esfregando-o e tocando-o onde bem quisesse. O Vice-Líder apenas ergueu o rosto e tentou manter-se imóvel enquanto ouvia frases como "Eu senti tanto a sua falta~" e "Eu estava tãããããããoooo preocupado!". O quarto de Lussuria parecia ter saído de um filme. Naquele andar todos os cômodos eram padronizados, mas sempre que ficava em um hotel, o homem de cabelos meio verdes adequava o local aos seus gostos pessoais. Havia lenços e plumas por todos os cantos, além de flores e um estranho cheiro de baunilha e incenso. O próprio Guardião do Sol da Varia vestia um longo sobretudo vermelho, ou pelo menos Squalo torcia para ser um sobretudo e não um roupão de banho...

"VOOOOOIII! Nós precisamos conversar, Lussuria!" O homem de cabelos prateados afastou-se e moveu os ombros, sentindo-se um pouco menos masculino depois daquele abraço.

"Em pé?" Lussuria afastou-se com certa elegância, sentando-se em sua cama em segundos e batendo três vezes no colchão. Aquele gesto fez o estômago vazio do Vice-Líder roncar, recordando-se da cena da noite anterior. "... ou aqui?"

Squalo tentou não perder o controle, mas era difícil. Normalmente ele sabia como colocar aquele predador em seu devido lugar, mas ele ainda se sentia zonzo de sono e a fome sempre o deixava mal-humorado. "O assunto é sério. Eu não encontrei Mammon e preciso saber qual o recado urgente que ele precisava me repassar. Acredito que você saiba a respeito."

A mudança no semblante do homem de cabelos verdes só confirmou o que o Vice-Líder já sabia: o assunto era sério. Lussuria cruzou as pernas e moveu as mãos de maneira inquieta, mas foi somente quando seus óculos escuros foram retirados que Squalo caminhou até uma poltrona próxima e se sentou. O assunto era realmente sério.

"Mammon-chan tem os detalhes, mas aviso de antemão que não é boa coisa, querido." O Guardião do Sol tinha os olhos baixos por causa da claridade no quarto. A necessidade dos óculos escuros não era apenas com a função de ser acessório. "Aparentemente uma antiga Família quer criar laços conosco."

O homem de cabelos prateados permaneceu em silêncio. Até aquele momento não havia nada de curioso ou relevante naquela informação. Todos os dias eles recebiam convites de Famílias que buscavam contratos e amizade com a Varia. "E então?"

"Deixe-me contar uma historinha para você, querido." Lussuria recolocou os óculos e endireitou o corpo, posicionando-se na direção de sua companhia. "Lembra-se da Família que não tinha nome?"

Todos conhecem essa história, pensou o Vice-Líder. Há cerca de cem anos uma poderosa Família italiana foi exterminada. Os motivos nunca foram revelados, mas praticamente todos os membros morreram na conhecida "Lunedì Rosso"¹. A Família sediou um baile e todos os presentes morreram envenenados. Os dois únicos sobreviventes eram empregados insignificantes e foram mandados diretamente para Vindice, onde viveram o resto de seus miseráveis dias. A história é muito conhecida no mundo da máfia, mas não fazia sentido no contexto da conversa que eles estavam tendo.

"Dizem que um dos homens que foram enviados para Vindice era inocente. Um de seus descendentes formou uma nova Família. Eles permaneceram na parte mais suja e obscura da Itália por setenta anos... vivendo invisíveis entre nós, mas na década de oitenta eles se dividiram em duas Famílias. Um--"

"Uma delas sumiu do mapa e a outra foi nomeada Moretti. Blablabla essa história não faz nenhum sentido." Squalo revirou os olhos. A lenda por trás dos Moretti sempre soou dramática demais para o seu gosto. "E então? Qual a ligação entre essa história ridícula e o assunto que eu quero saber? Não me diga que o convite partiu dos Moretti?" Impossível. A Família foi desmembrada há mais de quinze anos.

"Precisamente." Lussuria parecia triunfante por ter contado a primeira parte da história sem ter sido importunado. "E não é só isso. Aparentemente o convite foi estendido para duas outras Famílias, cujos laços que nos unem, apesar de frágeis, ainda são presentes."

Os Vongola. Eu tenho certeza de que eles querem aliança com Sawada. Todos querem aliança com aquela Família. “E quem seria a segunda Família?”

"Você é amigo de infância do Chefe da outra Família, e é exatamente nesse ponto que eu acredito que minha história ridícula e mentirosa fará sentido. Eu não preciso lembrá-lo quem foi o suspeito número um do assassinato do nono Chefe dos Cavallone, preciso?"

O sorriso presunçoso desapareceu dos lábios do homem de cabelos prateados e seus dentes se cerraram. As lembranças daquele dia nunca sairiam de sua mente, não importasse quantos anos se passassem. Ele estava sentado ao lado de Dino Cavallone, na sala de aula, quando um homem entrou e aproximou-se do professor, murmurando meia dúzia de palavras em seu ouvido. No segundo seguinte o mesmo professor aproximou-se da mesa em que estavam e pediu que o pequeno garoto louro se levantasse e acompanhasse o estranho homem. Dino levantou-se e arrumou suas coisas, sorrindo e acenando para Squalo antes de se retirar. Por duas horas o Vice-Líder não teve notícias de seu amigo. Quando a aula terminou, Squalo caminhou até a mesa do professor e perguntou o que havia acontecido. Ele não estava necessariamente preocupado, mas algo em seu peito dizia que ele precisava saber. O professor esperou o último aluno sair e então comunicou que os pais de Dino haviam sofrido um acidente naquela manhã. Como o homem de cabelos prateados – na época apenas mais um garoto de dez anos – sentiu-se naquele dia foi indescritível, e seu amigo nunca mais foi o mesmo.

Aquelas amargas recordações estavam guardadas em uma parte da memória e ali ficariam. Entretanto, seria impossível não se lembrar que, na época, o principal suspeito foi o subordinado responsável por dirigir o Chefe da Família, e que coincidentemente tinha o sobrenome Moretti. O homem não morreu no acidente, e seu retorno apenas serviu para aumentar as suspeitas de que não havia sido um acidente, mas sim algo premeditado. O pequeno Dino não poderia fazer nada a respeito, então a decisão coube aos regentes que o acompanhariam até a maioridade. O homem de nome Rafael – Squalo jamais esqueceria aquele nome – enviou o subordinado suspeito para Vindice e o homem morreu cinco meses depois de causas desconhecidas. Depois do incidente os Moretti perderam a credibilidade que possuíam e se tornaram sombras do que um dia haviam sido. Para um convite de aliança surgir depois de mais de uma década, só poderia significar problemas. E eles ainda querem a amizade com os Cavallone. Não me faça rir!

O homem de cabelos prateados moveu-se na poltrona e descruzou as pernas. Sua companhia não fez nenhum outro comentário, o que só poderia significar que Lussuria acreditava que o assunto era sério o bastante para não ser necessária mais nenhuma informação. O Vice-Líder ficou em pé, caminhando na direção da porta e juntando as sobrancelhas assim que ganhou o corredor. Não houve despedidas ou abraços apertados, seguidos por mãos aqui e ali. Squalo passou a mão boa nos cabelos, retirando aqueles que teimavam em cair em seu rosto. Ele havia deixado a franja crescer e ela praticamente se igualara ao restante do cabelo, mas havia uma parte teimosa que sempre cobria sua visão nos momentos em que ele precisava enxergar tudo.

A responsabilidade de um Vice-Líder não é nada quando o Chefe em questão está presente e precisa dar a última palavra. Se Xanxus sabia do assunto a palavra final seria dele. Ele conhece a história, mas Xanxus é imprevisível. Squalo não precisou esperar muito pelo elevador, mas foi estranho entrar naquele pequeno local depois da noite anterior. Eu passei três dias a mercê daquele homem e agora retorno ao quarto por livre e espontânea vontade. O tempo que ele passou dentro do elevador foi extremamente rápido, e antes que pudesse pensar em um contra-argumento a porta se abriu, permitindo que ele avistasse diretamente a cobertura. Aquilo tudo pertencia ao Chefe da Varia.

Xanxus estava sentado no largo sofá creme de dez lugares. Sua pessoa ocupava apenas o assento do meio, mas havia companhia em ambos os seus lados. À direita uma bela morena, e à esquerda uma ruiva que não parecia ter mais de vinte anos. As duas estavam seminuas, vestindo apenas lingerie. O Vice-Líder entrou na suíte e não esboçou nenhuma reação. Era difícil reagir a uma coisa que era tão comum quanto respirar. Ele já perdera a conta de quantas vezes pegou o moreno acompanhado por belas mulheres e, para ser sincero, aquele havia sido um momento extremamente puro e inocente, se comparado as coisas que ele já vira.

"Precisamos conversar."

O Chefe da Varia não se moveu. Suas mãos estavam ao redor das cinturas das duas moças, mas seus olhos – sérios e brilhantes – encaravam o homem que acabava de entrar em sua suíte. Aparentemente ele não se importava em conversar com platéia.

"Saiam." Squalo aproximou-se do sofá e apontou para a porta do elevador ainda aberta. As duas mulheres se entreolharam e trocaram risadinhas, mas não se moveram. O homem de cabelos prateados ergueu os olhos e a mão esquerda. Aquela mão sempre estava um pouco atrás ou ao lado de seu corpo, e só era usada em casos em que o diálogo não funcionava. Pelo menos com civis...

As duas mulheres praticamente saltaram do sofá ao avistarem a espada presa à mão não tão boa do Vice-Líder, correndo para a direita e pegando as roupas que estavam espalhadas pelo cômodo. Em segundos as duas entraram no elevador que havia levado o homem de cabelos prateados, e então a suíte voltou a pertencer aos dois amantes. "O que pretende fazer sobre o convite dos Moretti?"

O moreno ainda tinha a mesma expressão séria e seus olhos seguiam Squalo pelo quarto. O Vice-Líder caminhou até o bar e se serviu de um copo de whisky, retornando ao centro do cômodo e sentando-se em uma poltrona próxima a seu Chefe.

"Nada." Xanxus respondeu quase sem mover os lábios. "Eu não tenho interesses nesse tipo de coisa."

"Você ouviu toda a história? Eles convidaram os Vongola e os Cavallone."

"Preocupado com seu velho amigo de infância?" Havia sarcasmo naquele comentário, mas o homem de cabelos prateados não se importou. Xanxus era sempre sarcástico no que se referia a Dino. Ele detesta o homem sem motivo algum.

"Eu vim avisar que investigarei essa Família. Será uma investigação particular. Eu não pretendo arrastar a Varia nesse tipo de coisa."

"Não, você não irá."

O Chefe da Família apoiou a cabeça no encosto do sofá e encarou o teto. Somente naquele momento Squalo notou que o zíper da calça de couro do moreno estava aberto. "Se você tem tempo para esse tipo de bobagem, então pense em um meio de tirarmos aquele fedelho da chefia dos Vongola."

Fedelho. Sawada Tsunayoshi já é um homem de quase vinte e um anos. O Vice-Líder bebericou sua bebida. E você ainda continua com esse assunto? "Eu não estou pedindo sua permissão, Xanxus. Eu apenas vim comunicar o que farei." O homem de cabelos prateados apoiou o copo na mesinha de centro e ficou em pé. Beber com o estômago vazio nunca era uma boa ideia, e ele sentiu a cabeça rodar ao se levantar.

Xanxus riu alto com o comentário, inclinando a cabeça para frente e puxando seu amante pelo braço. Se Squalo não tivesse bebido aquele copo de whisky ele teria facilmente se desvencilhado daquele puxão e se afastado. Ele sabia muito bem por que o moreno requisitou sua companhia. Era fácil quando se notava a ereção do Chefe da Varia presa àquela calça de couro. O homem de cabelos prateados ainda tentou se afastar, mas assim que seu quadril sentou sobre o colo de Xanxus, ele soube que não sairia daquele quarto, pelo menos naquela noite.

O beijo foi eufórico e teve gosto de álcool e uma muda e mútua irritação. Squalo ergueu a mão direita, passando-a pelos cabelos de seu amante e os puxando com certa força para traz. O Chefe da Varia pendeu a cabeça, e o homem de cabelos prateados inclinou-se e o beijou com mais profundidade. Havia possessividade no gesto, e naquele momento o Vice-Líder ainda não sabia que havia feito aquilo por um simples e humano sentimento. Xanxus não pareceu se importar com aquele nível de carícia, mas em poucos segundos as posições se inverteram: o moreno empurrou Squalo sobre o sofá, mas sem interromper o beijo. O homem de cabelos prateados só teve tempo de retirar a lâmina que estava grudada à mão esquerda e jogá-la sobre o caro tapete indiano. Aquela mão seria inútil para o que eles fariam, mas ele não arriscaria ouvir de seu amante que eles começariam a utilizar armas enquanto faziam sexo.

"Muitas roupas..."

A voz do Chefe da Varia soou baixa e abafada. Seus dentes mordiam com força o pescoço do homem em seus braços, enquanto ele tentava retirar a jaqueta de couro e principalmente a calça. Squalo gostaria de ter dito que é assim que as pessoas normalmente andam: vestidas, e não seminuas e sendo acariciadas por duas beldades, mas ele achou melhor calar-se. Sua jaqueta estava com o zíper travado, mas foi com extrema facilidade que o homem de cabelos prateados abriu aquela peça, mostrando por baixo uma simples camiseta regata branca. Sua calça, porém, precisaria de um pequeno truque. O zíper ficava ao lado e escondido por botões, e se o Vice-Líder não tivesse se deixado levar pela euforia, teria percebido que jogar sua arma ao chão havia sido um terrível erro.

Xanxus tentou abrir a calça apenas uma vez. Na segunda tentativa ele estava com a lâmina que seu amante havia atirado ao chão, e foi com um estranho barulho que a calça de Squalo foi rasgada. A ponta do metal acabou arranhando sua perna, mas ele não se importou. Na verdade, o homem de cabelos prateados havia se sentido muito mais livre quando viu os pedaços de sua calça favorita sendo atirados para o lado.

"Você pagou por ela e pagará por outra calça."

A voz do Vice-Líder saiu enevoada por desejo. Ele não estava usando roupa debaixo naquele dia, e assim que sua calça foi retirada o moreno começou a masturbá-lo.

Havia algo extremamente erótico em vestir apenas a camiseta regata enquanto Xanxus brincava com sua ereção. Daquela posição Squalo poderia ver tudo, e o volume dentro da calça de seu amante começou a deixá-lo inquieto. Os dedos de sua mão direita tentaram apertar o sofá quando ele viu o moreno umedecendo os próprios dedos. Seus lábios gemeram mais alto e seu rosto virou-se para o lado ao sentir-se invadido. O homem de cabelos prateados sabia que havia lubrificante por ali, mas não havia como sair daquela posição. Não quando o dedo do Chefe da Varia havia encontrado seu ponto especial em tão pouco tempo.

Os cinco minutos seguintes foram uma mistura quase insuportável de dor e prazer. O segundo dedo de Xanxus não conseguiu passagem e aquilo pareceu aborrecer o moreno, pois em um segundo o Vice-Líder estava deitado e refletindo se o prazer que sentia em sua ereção era suficiente para fazê-lo esquecer a incomoda maneira como seu amante tentava penetrá-lo de maneira forçosa, mas que era fisicamente impossível continuar; para no segundo seguinte ser virado de maneira grosseira e com tanta força que seu corpo quase caiu. Sua mão direita conseguiu segurar o alto do sofá a tempo, mas antes que ele pudesse revidar verbalmente a agressão que sofrera, seu quadril foi levemente erguido e seus joelhos precisaram manter o apoio naquele macio e caro sofá. A sensação que veio em seguida só não foi mais erótica do que a frase que a acompanhou:

"Você geme como uma garotinha, Lixo!"

Não houve dor, ao menos nos minutos seguintes. O homem de cabelos prateados apertava o alto do sofá com força, deixando que sua voz de extrema satisfação ecoasse por toda a cobertura. Ele sentia a língua de seu amante em sua entrada. A mão que o masturbava. A gota de suor que escorria por seu rosto e pingava sobre o sofá. Eram tantas sensações diferentes, tantos estímulos e tanta necessidade que em determinado momento o Vice-Líder pediu para que Xanxus colocasse fim ao seu sofrimento e que lhe desse o que ele tanto queria (a frase foi muito mais direta e muito menos polida). Não foi preciso dizer que o pedido foi ouvido e atendido ao pé da letra. Squalo sentiu os cabelos sendo puxados no mesmo instante em que foi penetrado pelo moreno, e a dupla dor foi tão intensa – e tão prazerosa – que seu orgasmo chegou ao mesmo tempo. Sua mente tornou-se confusa e seu corpo mole, mas não havia como escapar do que estava acontecendo. Não quando o homem que o possuía era Xanxus.

O sexo entre eles sempre foi uma estranha mistura de sadismo e sensualidade. Desde a primeira vez que seus corpos se encontraram – isso há treze anos mais ou menos –, em nenhum momento o Chefe da Varia disse uma palavra sobre o que faziam. Todas as conversas ficavam implícitas, todos os desejos eram satisfeitos, então não havia necessidade para que aquilo que possuíam fosse explicado. Profissionalmente falando eles eram perfeitos um para o outro. Xanxus era um excelente Chefe apesar de seu temperamento, e Squalo o completava, sabendo ler as entrelinhas, os silêncios e principalmente os olhares. Na cama, entretanto, a compatibilidade era diferente. Pois, por mais que dividissem momentos juntos, eles não possuíam um relacionamento. Não havia cobranças ou obrigações. Os dois estavam livres para dormir com outras pessoas, e era exatamente o que faziam. Ver Xanxus ao lado de duas mulheres não o surpreendeu. Ele também tinha seus momentos, suas morenas e suas ruivas.

A única constante era que, apesar de tudo, no fim da noite, ambos estavam daquela maneira... um nos braços do outro.

O orgasmo do Chefe da Varia chegou em poucos minutos e Squalo não teve tempo de dizer que seu amante deveria retirar-se de dentro dele antes de chegar ao clímax. O homem de cabelos prateados lançou um carregado olhar quando o moreno afastou-se, mas suas reclamações, pedidos e sugestões teriam de esperar. Não bem Xanxus retirou-se, o Chefe da Varia o puxou pelo braço, trazendo-o para perto e mantendo-o em pé. O beijo foi quente e tinha gosto de suor, e era clara a maneira como aqueles lábios diziam que a noite não havia acabado. Squalo ainda tentou lutar, mas quando um dos dedos do moreno voltou a penetrar sua entrada, o homem de cabelos prateados desistiu. Quem ele queria enganar? Escapar de Xanxus era impossível.

A próxima parada foi a gigantesca cama de casal. Ali o Vice-Líder pôde tomar um pouco as rédeas da situação e ele não perdeu a chance para escolher sua posição favorita. Squalo sentou-se na nova ereção de seu amante e naquele momento nada mais importou. A estranha Família, os Cavallone, os Vongola, as mulheres que estiveram naquele quarto, a grosseria do Chefe da Varia... nada. Naquele quarto só existiam os dois, e ele sabia que só deixaria aquele cômodo quando estivesse sujo e dolorido e cansado demais para até mesmo pensar. É perfeito. Eu não preciso de mais nada. Seu corpo elevou-se um pouco, utilizando o abdômen moreno e cheio de cicatrizes de seu amante como apoio. Ao sentar pela segunda vez, uma onda de prazer o fez gemer quando o membro do moreno atingiu seu ponto especial. O corpo do Vice-Líder arqueou-se um pouco à frente e sua cabeça inclinou-se para trás, saboreando aquele pequeno momento de deleite. A terceira estocada foi com um pouco mais de força, e a partir da quinta Xanxus passou a ajudá-lo, praticamente puxando sua cintura para baixo. O relógio marcava quase nove e meia da noite, e eles não tinham hora para parar.

Naquela noite – ou melhor, no dia seguinte – Squalo acordou com a luz do Sol em seu rosto. Seu primeiro pensamento foi em virar o rosto e, assim que o fez, encontrou o peito do Chefe da Varia. Seu corpo automaticamente encostou-se ao daquele homem e, mesmo ainda zonzo, seu corpo se recordava do que haviam feito e refeito tantas vezes na noite anterior. A ereção que tocava seu estômago o trouxe de volta a realidade aos poucos, mas ele ainda não estava pronto para isso. Havia um fino cobertor sobre ambos, e foi por baixo desse pedaço de pano que o homem de cabelos prateados se arrastou até que seus lábios tocassem o membro do Chefe da Varia. A pele de Xanxus cheirava a morangos e baunilha, mas o gosto era exatamente como Squalo se recordava. Ele acordou antes e tomou um banho. Maldito! Eu teria matado por um banho. O Vice-Líder não queria imaginar o estado em que estava, pelo menos não por enquanto.

A ereção tremeu em seus lábios ao ser abocanhada e um baixo gemido chegou aos ouvidos do homem de cabelos prateados, fazendo-o aumentar os movimentos que sua língua fazia. Em poucos segundos as mãos de Xanxus agarraram seus cabelos, mas os puxões não lhe incomodavam. Ele já estava acostumado àquilo, e se o Vice-Líder realmente se importasse seus cabelos já teriam sido cordados há tempos.

O orgasmo do Chefe da Varia feio rápido e forte. O homem de cabelos prateados permaneceu naquela posição até ter engolido tudo o que havia recebido, saindo debaixo da coberta e limpando o canto da boca ao ficar em pé. O moreno o olhava com a pele levemente vermelha e algo que lembrava um sorriso de satisfação. Squalo, entretanto, sorriu largamente antes de se afastar: "Obrigada pelo café da manhã."

A calça estava em pedaços, a camiseta regata havia sido rasgada no meio da madrugada, então a única roupa que ele ainda possuía era sua jaqueta.

"Eu estou pegando sua calça emprestada." O Vice-Líder falou enquanto vestia a peça. A calça ficou um pouco larga, mas serviria para o curto caminho até seu quarto.

"Volte pelado, Lixo. Eu não me importo." A voz de Xanxus soou rouca. Ele sentou-se melhor na cama e seus olhos se direcionaram para seu amante.

Eu sei que não. "Eu quero uma calça nova. Aquela era minha favorita." Squalo fechou a jaqueta e virou-se para o Chefe da Varia. Mantenha os olhos altos. Mantenha os olhos altos. Era difícil ignorar que seu amante estava sentado, nu e de frente para ele. Ele é perfeito. As cicatrizes e as marcas jamais seriam capazes de omitir a natural beleza daquele homem.

"O acordo..." O moreno aumentou o tom de voz, chamando a atenção do homem de cabelos prateados. "Eu fecharei o acordo com os Moretti."

Os lábios de Squalo tornaram-se uma fina linha, mas ele nada disse. Seus passos foram incertos, mas ele caminhou até o elevador, apertando o botão e finalmente deixando transparecer o que sentia. Aquela atitude era esperada de alguém como o moreno, mas ele não conseguia esconder que estava irritado. O Vice-Líder sabia que aquilo só foi dito para aborrecê-lo, e independente do que pudesse acontecer por causa daquela aliança, estava em suas mãos escolher o que faria.

Os segundos que o levaram até o andar debaixo foram irrelevantes. A porta se abriu, mas ele não caminhou até seu quarto. Na realidade, o homem de cabelos prateados não notou a porta aberta. O elevador desceu e desceu e desceu, até que o térreo surgiu diante de seus olhos e com isso a pessoa que ele procurava. Mammon o olhou por baixo do capuz, mas nenhum deles disse nada por alguns instantes.

"Eu quero que me conte tudo o que sabe sobre aquela Família." A voz de Squalo soou séria.

"Eu estou ocupado." O Guardião da Névoa da Varia entrou no elevador e respondeu no mesmo instante.

"Como se eu me importasse. Esta é uma ordem. Esteja no meu quarto em vinte minutos ou eu juro que vou até o inferno caçá-lo."

"Você não é meu Chefe."

"Seu Chefe acabou de aceitar a aliança. Você fará o que eu disse."

Mammon não pestanejou.

A porta do elevador fechou-se e dessa vez a atenção do Vice-Líder estava de volta. Seus olhos contavam os andares que ainda faltavam e quando finalmente o corredor surgiu, seus passos foram firmes.

Ele não acreditava em histórias antigas e absurdas. Ele não acreditava naquele nível de conspiração de faz de conta. Porém, no momento em que Xanxus disse que faria aliança com os Moretti, o homem de cabelos prateados sentiu-se novamente com dez anos, parado em frente à mesa do professor, ouvindo sobre os pais de Dino. A sensação de completa impotência o bateu na face depois de todos aqueles anos, mas dessa vez seria diferente. Ninguém perderá nada se depender mim. Especialmente ele.

Continua...

¹ — “Red Monday”; “A segunda-feira Vermelha”. (obrigada yuuki pela ajuda)