Vendetta
4 Hibari
Hibari
Naquela época eu era ignorante com relação a tudo.
Todas as coisas que obtive com os anos: o anel da Nuvem, o templo Namimori, Dino... Tudo. Eu sempre achei que minha vida fosse apenas o resultado de situações variadas. Aqueles eram meus resultados. Meus prêmios.
Eu nunca estive tão errado.
Não era fácil cuidar do jardim nos meados de junho. O clima começava a ficar abafado, sendo apenas uma pequena amostra do que seria o verão. A primavera trouxe todo o esplendor que aquele lugar merecia presenciar e por dois meses o templo Namimori foi um dos mais belos lugares do Japão. Diariamente as pessoas vinham visitá-lo, trazendo seus pedidos e oferendas. Entretanto, com o verão praticamente à espreita, a beleza do local era desafiante se comparado ao calor que começava a se tornar excessivo. As visitas diminuíram, as oferendas eram feitas em menor quantidade e Hibari Kyouya finalmente se sentia livre de todo aquele incomodo. Ali era apenas... ele. Ele e seu jardim.
Durante aquela manhã o Guardião da Nuvem dos Vongola não fez nada além de se dedicar ao seu cantinho particular. Esse espaço ficava em frente ao seu quarto, e naquela parte do templo quase nenhuma pessoa era permitida. O jardim como um todo era cuidado pelos funcionários do templo, com a supervisão de Kusakabe, claro. Mas aquele local especial era de total responsabilidade do moreno. O trabalho em si era pouco, pois se havia algo que Hibari poderia se vangloriar em sua casa era que tudo estava no lugar. Não havia um milímetro de pó, ou objeto fora do lugar ou flores mortas. Ele havia cuidado do jardim na semana anterior e, na teoria, não havia necessidade de remexer o espaço, pelo menos por enquanto. Porém, naquele dia o Guardião da Nuvem estava levemente inquieto, e era preciso manter suas mãos ocupadas antes que ele saísse por ai mordendo herbívoros até a morte.
Naquela ensolarada e quente manhã, em especial, ele desejava morder italianos até a morte!
A inquietação do moreno começou na noite anterior quando ele recebeu uma vaga mensagem de Dino contendo apenas "Não poderei ir. Ligo amanhã. Ciao." Por longos minutos Hibari não fez nada além de encarar seu telefone celular, esperando o restante da mensagem. Por que havia mais do que aquelas palavras jogadas, certo? O italiano nunca lhe mandava coisas sucintas. Suas frases sempre eram cheias de sentimentos, suas mensagens longas e melosas; isso sem começar a falar dos emoticons e toda aquela baboseira que aparentemente somente o louro se importava. Entretanto, a continuação nunca chegou. Na noite anterior o Chefe dos Cavallone havia combinado de jantar no templo, pois seria sua responsabilidade cozinhar. O Guardião da Nuvem não deu ouvidos quando escutou aquilo pela primeira vez, isso na semana passada. Porém, conforme a data se aproximava, o moreno começou a achar a ideia simpática. Seria bom provar a comida de outra pessoa, e verdade fosse dita (mas nunca em voz alta, claro) ele gostava da comida de Dino. Seu amante possuía uma maneira única de misturar os ingredientes e escolher bons vinhos.
Seu jantar especial nunca aconteceu.
Kusakabe foi responsável por correr até uma loja de conveniência e comprar a primeira coisa que encontrou ao notar que o humor de seu Chefe estava afiado. Hibari foi para cama tarde da noite, disposto a morder o italiano até a morte na próxima vez que o visse. Aquele desejo acordou com ele naquela manhã, e durante todas as horas que permaneceu no jardim, seu par de tonfas esteve ao seu lado, pronto para um pouco de ação. O problema é que a pessoa que merecia uma bela surra ainda não havia aparecido. Aonde quer que o louro estivesse, seria melhor que continuasse lá, pois o que o esperava no templo era apenas dor.
As flores foram podadas, a terra regada e quando não havia mais nada que precisasse ser arrumado e cuidado, o Guardião da Nuvem achou que era hora de encontrar outra coisa para ocupar seu tempo. O relógio em seu discreto e simples escritório marcava pouco mais de onze horas, e seu estômago automaticamente deu sinal de vida. O jantar da loja de conveniência não foi suficiente para satisfazê-lo, longe disso, e seu café da manhã consistiu em uma mera xícara de café sem açúcar.
A fome levou o moreno até a cozinha, mas foi sua despensa cheia que o motivou a cozinhar. Hibari não se importava em arregaçar as mangas, e ele sabia que se quisesse almoçar qualquer coisa descente, ele teria de preparar. O único porém de toda aquela história era que seus ingredientes não era exatamente... japoneses. Certo, ele tinha o suficiente para uma rápida sopa miso, arroz e um peixe frito, mas o restante de toda sua despensa(e geladeira) estava cheia de molhos, condimentos, pacotes de macarrão; e isso sem contar as carnes no refrigerador e os vinhos na parte de baixo da despensa. Aquele pensamento levou uma onda de irritação ao peito do moreno e ele apertou os olhos, sentindo-se patético por ter perdido tempo e dinheiro com tudo aquilo. Eu posso me virar sozinho. Eu já vi o idiota italiano cozinhar. Eu sei fazer isso.
Hibari caminhou até a despensa e ergueu as mãos, abrindo as duas portas e olhando com desafio para aquela infinidade de coisas. Por causa do clima quente, ele precisou trocar seu reforçado kimono negro por um mais fino e leve (e também negro), então foi simples prender as mangas e deixar assim seus braços livres. A escolha para aquele almoço seria um prato de cappelletti ao molho branco, e saber que a massa estava semi-pronta na geladeira o deixou mais aliviado. Seu trabalho seria somente com o molho.
"Manteiga, cebola, creme de leite..."
O Guardião da Nuvem separou os ingredientes que usaria e os deixou no balcão. Seus olhos se fecharam e ele repassou a receita mentalmente por três vezes. Entretanto, quando estava pronto para começar, sua mão correu para o faqueiro e a próxima coisa que ele soube foi que uma das facas deixou sua mão para acertar o outro lado da cozinha, fincando-se na madeira da parede.
E, literalmente, ao lado da faca estava o belo – e indesejado, e covarde, e pseudo mordido até a morte – rosto de Dino.
O italiano tinha os olhos arregalados e mesmo estando um pouco distante, o moreno sabia que ele havia prendido a respiração por causa do susto. Hibari apertou os olhos e levou a mão para mais uma das facas. O jogo era de seis, então havia munição suficiente para pelo menos dois ou três buracos naquele homem.
"E-Espere, Kyouya!" A voz do louro saiu apressada e ele colocou as mãos à frente do corpo, pedindo calma. Havia uma sacola em sua mão direita, e não seria necessário ser o melhor conhecedor de Namimori para saber que a o arco-íris estampado na sacola pertencia a uma famosa doceria local. "Eu vim em paz."
"É mesmo?" O Guardião da Nuvem atirou a segunda faca, mas dessa vez o Chefe dos Cavallone desviou sem problemas. "Pois retorne pelo caminho que fez. Eu não o quero aqui."
"K-Kyouya, nós precisamos conversar!" O rosto de Dino estava vermelho. Ao se desviar do segundo ataque ele aproveitou para dar um passo à frente, diminuindo um pouco a distância entre eles. "Eu vim me desculpar por ontem. Eu trouxe b-bolo, vê?"
"Não estou interesso em você, ou em suas desculpas..." Hibari abaixou os olhos e encarou a sacola. "Mas você pode deixar o bolo."
Pela primeira vez desde que chegou àquela cozinha o italiano sorriu. Suas mãos ainda pediam paciência, mas seus pés caminharam menos incertos na direção onde seu precioso amante estava. Ao chegar ao balcão – que literalmente estava entre eles – o louro colocou a sobremesa sobre a superfície de madeira e coçou a nuca, corando, mas dessa vez não por medo ou receio.
"Desculpe por ontem. Eu não tive tempo e mandei a mensagem às pressas. Eu sei que quebrei minha promessa, mas algo inesperado aconteceu e eu acabei retornando muito tarde para o hotel, e não achei justo importuná-lo depois de ter desmarcado o que tínhamos. Eu realmente sinto muito, Kyouya."
"Eu não me importo." O Guardião da Nuvem não tinha expressão, mesmo que por dentro ele estivesse levemente desapontado. "Você já disse suas desculpas e deixou o bolo. Retire-se agora."
"Eu pensei que poderíamos almoçar juntos." O Chefe dos Cavallone riu sem graça e seus belos olhos cor de mel encararam o que estava sobre o balcão. "Eu posso ajudá-lo com isso e terminaríamos mais rápido. Eu terei de ir embora depois das duas horas, mas até lá eu quero te fazer companhia. Eu senti sua falta ontem, Kyouya."
"Não, eu não quero sua companhia." O moreno segurou o bolo e o levou até a geladeira. Ele sabia muito bem que seu amante usaria esse tempo para dar a volta no balcão e aparecer atrás, ou ao seu lado, assim que ele se virasse. Hibari não poderia dizer que ficou chateado ao ver Dino realmente atrás dele.
"Depois do almoço eu conto o que aconteceu, então, por favor, deixe-me ficar, está bem? Eu preciso de você, nem que for por alguns minutos, ou não suportarei a reunião que tenho à tarde."
O Guardião da Nuvem possuía poucas armas quando Dino falava exatamente o que ele queria ouvir. Some as palavras doces àqueles brilhantes olhos cor de mel, e era preciso muita força de vontade – ou raiva acumulada – para que ele tivesse coragem de morder aquele homem até a morte depois de ter escutado tudo aquilo. Não havia mentiras naquele olhar, e o moreno sabia que seu amante falava a verdade. Só havia uma coisa capaz de afastar o italiano, e infelizmente ele entendia totalmente. Todavia, isso não significava que demonstraria que compreendia.
"Faça como quiser."
Apesar da resposta atravessada e a raiva que sentiu ao rever o louro, Hibari permitiu que seu amante dominasse sua cozinha. O Chefe dos Cavallone deu instruções explicativas, e disse que ficaria responsável pelo preparado do molho, enquanto o Guardião da Nuvem mexeria a panela. Aquele trabalho irrelevante e totalmente desnecessário fez o moreno apertar os olhos, mas Dino avisou duas vezes que não correria o risco de deixar que "seu precioso Kyouya" machucasse os dedos. Isso é estúpido, pensou Hibari ao encarar a colher de pau em sua mão, eu acabei de atirar duas facas, e ele age como se nada tivesse acontecido.
O italiano passou sua atenção à cebola e ao champignon, enquanto comentava sobre o quanto havia sentido falta da companhia de seu amante, e como esperava vê-lo durante a noite.
"Assim que eu sair da reunião eu estarei retornando, então me espere, Kyouya."
"Como ontem?" A resposta saiu atravessada, e o Guardião da Nuvem tinha os olhos apertados.
"N-Não como ontem..." O louro riu sem graça. "Eu realmente voltarei hoje à noite, e trarei o jantar. Deseja algo diferente?"
"Sushi." A resposta saiu natural. Há dias o moreno vinha desejando comer um bom e fresco prato de sushi.
"Eu passarei nos Yamamoto antes de vir aqui, ou prefere que eu o leve até o restaurante? Seria interessante se jantássemos fora, nee?"
A ideia de entrar em um local cheio de gente, e ainda mais gente conhecida fez o estômago de Hibari revirar. Ele não suportaria uma refeição ao lado do filho do dono do restaurante e seus sorrisos e alegria exagerada. Sem contar que o homem nunca estava sozinho. Ao seu lado sempre estava Gokudera Hayato, e esse ai era tão insuportável quanto o próprio Guardião da Chuva. Não, jantar com aquelas pessoas era implorar uma indigestão e o Guardião da Nuvem prezava demais suas refeições para deixar que isso acontecesse. Evitar os Vongola fazia parte de seu dia a dia, e ele não se sujeitaria a encontrá-los por livre e espontânea vontade.
O silêncio do moreno foi a resposta que o Chefe dos Cavallone recebeu. Sua conversa mudou para os planos que tinha para aquela noite, e assim que os ingredientes estavam prontos, Dino aproximou-se do fogão e despejou um pouco de manteiga dentro da panela.
"Eu terei de retornar à Itália depois de amanhã e devo ficar algum tempo ausente." A voz do italiano soou séria. "Gostaria de ir comigo?"
Aquele inusitado convite surpreendeu levemente Hibari. Seus olhos encararam a cebola que fritava na manteiga, e mesmo já sabendo a resposta que daria, as palavras não saíram, mas dessa vez não por serem óbvias. O louro sempre o chamava para ir à Itália, e vez ou outra o Guardião da Nuvem aceitava, mas daquela vez alguma coisa estava diferente. Talvez fosse o tom de voz, ou a pseudo-briga que ambos tiveram há poucos minutos, mas a maneira como os olhos do Chefe dos Cavallone brilharam demonstrava muito mais do que um simples "fim de semana em Roma".
"Não."
"Certo." Dino sorriu e voltou ao balcão para pegar o creme de leite. "Vamos em uma próxima oportunidade, está bem?"
Em poucos minutos a cozinha do templo cheirava a manteiga, cebola e creme de leite. O moreno mexia a panela, mas sentia os olhos fiscalizantes de seu amante a todo o momento. Quando apenas olhar se tornou difícil para o italiano, ele se aproximou, abraçando Hibari por trás e apoiando o queixo em seu ombro esquerdo.
"Você deveria ter colocado um avental, Kyouya. Eu o devoraria em segundos!"
Os olhos negros do Guardião da Nuvem se apertaram e ele desejou morder o louro até a morte com aquela colher de pau, mas controlou aquele instinto assassino. O abraço tornou-se um pouco mais apertado, e o Chefe dos Cavallone calou-se, contentando-se em apenas sentir seu amante em seus braços, enquanto o silêncio envolvia ambos. Os movimentos que o moreno fazia com a colher eram vagarosos, e ele honestamente não se importava em ter Dino pendurado em seus ombros. O cheiro da colônia do italiano o deixava calmo, aquele familiar cheiro que o acompanhava por todos aqueles anos. Não importasse onde estivesse, que roupa vestisse ou em que parte do cômodo andasse, era como se o italiano estivesse em todos os lugares e isso incluía o templo. Há alguns anos Hibari notou que sua casa já não era somente sua, assim como sua própria vida não lhe pertencia totalmente. Antes de conhecer o louro, se alguém aparecesse e lhe dissesse que um dia ele estaria cozinhando ao lado de um "amante", o Guardião da Nuvem teria mordido essa pessoa até a morte por tamanha calúnia. E apesar dos pesares, contra todas as lógicas possíveis e imagináveis, ali estava ele.
O molho ficou pronto e o segundo passo era apenas esperar a massa ser aquecida na água quente. O Chefe dos Cavallone ficou responsável por arrumar a pequena mesa na sala de jantar, enquanto o moreno observaria o progresso do almoço. Dino ia e vinha, da cozinha para a sala, e essas curtas visitas sempre eram acompanhadas de comentários sobre o que fariam naquela noite.
"Eu estava pensando em trazer um filme, o que acha? Você pode escolher."
Hibari deu pouca importância para aquele comentário, pois a última vez que ambos decidiram assistir a um filme, os créditos subiram na tela enquanto o Guardião da Nuvem literalmente subia sobre o italiano. Aquela lembrança o fez cruzar os braços, tentando afastar para longe certas memórias.
"Eu acho que está bom. Pegue o escorredor, Kyouya."
O estômago do moreno roncou quando ele finalmente se ajoelhou próximo à sua pequena mesa de jantar. O louro escolheu um vinho branco, e assim que a boa educação permitiu que ele começasse a comer, Hibari não perdeu tempo. O primeiro cappelletti derreteu em sua boca, e por um longo momento o Guardião da Nuvem não notou que estava sendo observado. O Chefe dos Cavallone o olhava com um meio sorriso, enquanto sua mão direita segurava a taça de vinho. O moreno limpou o canto da boca e ficou sério. Ele já estava acostumado a ser admirado por aquele homem, mas não significava que isso o deixava à vontade. Dino sorriu novamente e pousou a taça na mesa, inclinando-se um pouco e tocando os lábios de Hibari com um macio beijo.
Poucas coisas na vida conseguiam obter alguma reação de alguém como o Guardião da Nuvem, e os beijos do italiano sempre tinham aquele efeito sobre ele. Dizer que não viu quando o corpo do louro se colocou à frente seria tão falso quanto afirmar que ele não sabia que seria beijado. Entretanto, o moreno nada fez para evitar aquele gesto. Seus olhos se fecharam devagar ao notar que o Chefe dos Cavallone não havia afastado o rosto, e seus lábios se entreabriram, tocando com um pouco mais de intimidade os lábios de seu amante. O meio sorriso de Dino era fácil de ser percebido, mesmo com os olhos fechados. A língua do italiano deslizou para dentro da boca de Hibari e ele sentiu o doce gosto do vinho. O garfo que estava em sua mão logo foi esquecido, e antes que o Guardião da Nuvem pudesse se dar conta, seus dedos corriam pelos cabelos finos e louros.
A fome que o moreno sentia ainda estava presente, mas ela havia mudado de foco com aquele beijo. A carícia durou longos minutos, e quando os lábios se afastaram, Hibari soube que teria de deixar seu almoço para depois. O Chefe dos Cavallone ficou em pé e ofereceu a mão, mas sem dizer uma única palavra. Não era necessário transformar aquele pedido em uma frase, e quando o Guardião da Nuvem aceitou aquele convite, ele soube quase imediatamente que, no fundo, era por Dino que ele havia ansiado esse tempo todo. O cuidado excessivo com o jardim, as horas passadas admirando a paisagem no dia anterior... Hibari esperava. Ele esperava porque sabia que cedo ou tarde aquele homem retornaria e todos os momentos de raiva e ansiedade que sentiu desapareceriam. O italiano possuía aquele estranho efeito sobre ele, como o Sol que consegue animar o dia de qualquer pessoa quando resolve mostrar seu esplendor. Perto do italiano o Guardião da Nuvem se sentia irrelevante, como uma de suas flores se comparada ao grande astro.
Os beijos continuaram através da sala de jantar e seguiram pelo corredor. As paredes internas, ao contrário das externas, eram feitas somente de madeira e não papel de arroz, então o moreno não se importou em ser encostado e apertado. As mãos do louro haviam aberto seu fino kimono negro, e a faixa caído em alguma parte do corredor. Com total acesso ao que estava por baixo do tecido, o Chefe dos Cavallone não perdeu tempo; seus toques tornaram-se mais firmes e objetivos. Seus dedos encontraram fácil acesso dentro da roupa de baixo que Hibari vestia, e naquela altura do campeonato – e apesar de no início o Guardião da Nuvem ter tentado, mesmo que não muito, evitar aquilo – naquele momento não havia nada que ele quisesse mais do que estar nos braços de Dino.
O quarto estava há poucos passos, mas nunca aquela distância insignificante lhe pareceu tão longa... e impossível de ser atravessada. A gravata listrada que o italiano vestia foi retirada, sua camisa branca aberta e o cinto foi arrancado por dedos pálidos, delgados e apressados. A ereção por baixo da calça social era impossível de ser ignorada, e quando o beijo tornou-se mais profundo, o moreno inclinou-se um pouco mais à frente, encostando seu corpo ao de seu amante. A reação foi imediata. Os lábios do louro gemeram baixo e suas mãos – grandes e firmes – deslizaram o kimono de Hibari até que ele caísse ao chão.
"Q-Quarto..." A voz do Guardião da Nuvem saiu baixa. Seu rosto estava levemente corado e seus olhos fechados. Os beijos que o Chefe dos Cavallone depositava em seu pálido pescoço o deixava distraído.
"Logo."
A resposta de Dino saiu baixa, e aquela voz tão próxima e sedutora só serviu para fazer o moreno corar ainda mais. Os olhos negros se abriram, e por um breve momento Hibari juntou as sobrancelhas, ficando surpreso ao ver seu amante ajoelhar-se literalmente aos seus pés. O que o recebeu foram dois grandes e enigmáticos olhos cor de mel e um travesso e simpático meio sorriso. Não, pensou o Guardião da Nuvem ao tentar segurar sua roupa de baixo, em vão. O italiano ergueu uma sobrancelha, segurando os pulsos do moreno e os deixando bem firmes e rentes à parede de madeira. Os lábios rosados do louro então tocaram a ereção de Hibari sobre a fina camada de tecido e seu corpo tremeu. Suas mãos tentaram impedir que seu amante continuasse com aquilo, mas naquele momento o Chefe dos Cavallone possuía uma força descomunal. O contato tornou-se ainda mais erótico quando Dino substituiu seus lábios por sua língua, e então a tortura do Guardião da Nuvem começou.
A pouca resistência que o moreno tinha foi vencida por alguns segundos de pouca insistência. A roupa de baixo – que naquela ocasião era vinho – desceu pelas pernas de Hibari, mas ele não teve coragem de olhar. Seu rosto estava extremamente vermelho, e ele não conseguiria encarar o que estava acontecendo. O Guardião da Nuvem não viu quando o italiano segurou seu membro e o levou até seus lábios com delicadeza. Ele não viu os olhos cor de mel que o encaravam, saboreando intimamente aquela visão. Ele não viu o louro levar a mão livre até sua própria calça e começar a se tocar enquanto oferecia prazer ao homem que literalmente tremia em seus lábios. O que o moreno, sim, ouviu foram os sons que os beijos do Chefe dos Cavallone emitiam, o barulho do zíper da calça sendo aberto, e a melhor parte, sem dúvidas, foram os gemidos baixos que Dino deixava transparecer enquanto se masturbava.
A tortura de Hibari durou alguns minutos. Suas pernas mal conseguiram sustentá-lo, e por duas vezes ele sentiu seus joelhos desistirem do trabalho, mas em nenhum momento o Guardião da Nuvem se moveu. Após os segundos iniciais de pudor seus olhos se abriram, e era um grande bônus poder assistir tudo o que acontecia em seu baixo ventre. Os olhos cor de mel o fitavam o tempo todo, e muitas vezes o italiano mal piscava. A atenção do moreno estava em toda a cena, e em determinado momento ele sentiu inveja da mão esquerda do louro. Suas mãos e lábios estavam solitários, mas ele não possuía coragem suficiente para propor qualquer coisa, então tudo o que Hibari fez foi assistir e imaginar que era ele quem fazia o trabalho. O orgasmo chegou com aviso, mas o Chefe dos Cavallone não se moveu, como era seu costume. O Guardião da Nuvem encostou as palmas das mãos à parede, procurando manter-se em pé. Seu corpo inteiro queimava, mas sua mente estava clara o suficiente para sentir seu amante se afastar. Os passos não ecoaram pelo piso de madeira, mas o moreno sabia que fora deixado só. Aquela sensação, porém, não foi nem um pouco agradável, e ele se recusou a abrir os olhos. Ele não estará aqui, então não há nada para ver.
Dino retornou em poucos segundos, e a próxima coisa que Hibari soube foi que uma doce e rouca voz em seu ouvido pediu para que ele se virasse. A realização do que estava para acontecer o fez abrir os olhos, apenas para encarar um par de olhos cor de mel que transbordavam desejo e antecipação. O rosto do italiano estava vermelho, e o Guardião da Nuvem permitiu que seus olhos se abaixassem e encarassem o baixo ventre de seu amante. Uma de suas mãos ergueu-se lentamente, tocando a ereção do louro e finalmente sentindo o calor daquela pele. A reação por parte do Chefe dos Cavallone foi automática. O gemido foi levemente ansioso e Dino moveu o corpo um pouco mais à frente, mostrando que queria que seu amante fosse um pouco mais longe. O moreno desceu a mão até a base do membro do italiano, corando ao ouvir novamente aqueles doces gemidos. Porém, o momento de observação de Hibari duraria muito pouco. Um dos dedos do louro encontrou sua entrada e, apesar do lubrificante, a dor que acompanhou aquela invasão o fez morder os lábios com força.
O tempo de preparação variava de acordo com o humor, e o Guardião da Nuvem sabia disso melhor do que ninguém. Em alguns dias ele não se importava em passar longos minutos sendo torturado pelo Chefe dos Cavallone, porque seu corpo exigia tempo e cuidado. Entretanto, havia outros momentos – e aquele começo de tarde, em especial, se encaixaria perfeitamente nessa categoria –, em que tudo o que o moreno queria era que seu amante fosse um pouco menos delicado e mais objetivo. Sua mão havia retornado ao trabalho após a surpresa inicial, e todo aquele erótico clima só o deixava mais e mais impaciente. Quando o segundo dedo de Dino o penetrou sem muitas dificuldades, Hibari deliberadamente se virou. Ele não diria diretamente o que queria, mas sabia muito bem que poderia se comunicar com o italiano através de pequenos gestos. Aquele, porém, estava longe de ser uma limitada ação, e a reação que se seguiu também não poderia ser considerada contida ou gentil.
Os dedos do Guardião da Nuvem procuraram apoio, mas tudo o que encontraram foi a grossa parede de madeira. As pontas de seus pés se ergueram momentaneamente, e o gemido que escapou dos lábios do moreno ao ser penetrado foi mais alto do que ele gostaria e incrivelmente satisfatório. Não houve delicadeza ou contenção naquele ato, ou no seguinte, ou nas estocadas que se seguiram. A ansiedade e saudade do louro estavam em cada movimento, e seria impossível não se sentir amado e desejado, sabendo que a pessoa em questão estava doando-se por inteiro naquele mesmo momento. Hibari sentiu quando sua cintura foi segurada, e com aquele novo apoio o Chefe dos Cavallone tinha uma mira certa. Toda vez que o membro de Dino encontrava seu ponto especial, o Guardião da Nuvem deixava escapar um gemido, e ele não precisaria dizer que sua voz basicamente ecoava sem parar naquele esquecido corredor.
Agir daquela maneira não era uma constante na vida do moreno, mas era algo regular quando ele estava envolvido com o italiano. Só havia uma pessoa na face da Terra que conseguia fazê-lo comportar-se daquela forma, e quando estavam juntos, e apesar de nunca demonstrar, o moreno se sentia totalmente à vontade. Não era novidade para ele ser envolvido pelo louro em lugares inusitados do templo. O que acontecia naquele corredor lembrava em muito o primeiro mês que seguiu a sua posse da propriedade. O Chefe dos Cavallone se permitiu um mês de férias, e aproveitou aquelas quatro semanas para praticamente morar no templo. Os dois basicamente utilizaram cada centímetro daquela casa como cama, mesmo Hibari reclamando todas as vezes e jurando que aquilo nunca mais voltaria a acontecer. Obviamente suas palavras saíram pelas muitas janelas e portas do local, pois durante aquele mês, se ele fosse totalmente sincero consigo mesmo, o Guardião da Nuvem nunca se sentiu tão querido. Dino possuía uma maneira singular de fazê-lo sentir-se assim, e naquelas semanas o italiano não poupou esforços em deixar seu amante saber disso. O resultado daquele tempo foi que o moreno nunca mais caminhou pela casa sem se lembrar do louro, e isso de certa forma foi um pouco cruel. Quando estava só, ou quando o Chefe dos Cavallone não podia visitar o Japão, tudo o que o reconfortava – e o lembrava o quão solitário estava – eram as recordações. Aquele começo de tarde também seria, futuramente, uma lembrança, ele sabia.
O clímax de Dino veio forte e intenso, fazendo com que Hibari apertasse as mãos em formas de punho, tamanha a pressão que sentiu em seu quadril. O ar lhe faltou momentaneamente, mas quando ele saiu, foi acompanhado de um erótico gemido de contentamento. O Guardião da Nuvem ainda sentia seu amante dentro dele, e o calor do orgasmo o deixava ainda mais quente. Sua própria ereção havia retornado, mas ele não queria terminar sozinho. O italiano moveu-se dentro dele, acertando seu ponto especial e o fazendo tremer. Uma das mãos do louro segurou a ereção de seu amante e automaticamente a cabeça do moreno inclinou-se para trás, tamanha a satisfação que aquilo o fazia sentir. Sua nuca encontrou o ombro de seu amante e seus olhos se fecharam, sentindo os dedos masturbando-o com pressa.
Por alguns minutos os gemidos voltaram a ecoar pelo corredor. O Chefe dos Cavallone não se retirou de dentro dele, e só parou de se mover quando o segundo orgasmo de Hibari pintou aquela parte da parede. Dessa vez os joelhos do Guardião da Nuvem cederam, mas ele tinha o apoio de Dino para mantê-lo em pé. O que o recebeu foi um sorriso e um abraço apertado, seguido por um estalado beijo em sua têmpora direita.
"Eu preciso de um banho," a voz do italiano era baixa e rouca. "E depois eu terei de ir."
Ouvir aquelas palavras fez os lábios do moreno se crisparem em uma fina linha. Por um breve momento ele havia esquecido sua realidade, e o fato de que não passaria à tarde com seu amante. Seu corpo endireitou-se devagar, e ele ainda precisou permanecer algum tempo em pé antes de conseguir fazer qualquer outra coisa. O louro havia vestido sua calça e lhe estendia seu kimono e roupa de baixo, olhando-o com um meio sorriso triste. Hibari aceitou suas roupas, mas antes que pudesse simplesmente se resignar a concordar com o que lhe fora oferecido, o Chefe dos Cavallone levou uma de suas mãos até os lábios e a beijou com carinho.
"Vamos juntos para o banho. Eu quero passar o máximo de tempo possível ao seu lado. Eu falei sério quando disse que voltarei à noite, então não faça essa cara, Kyouya."
O Guardião da Nuvem não soube o que responder, pois ele não conseguia imaginar a expressão que tinha em seu rosto, mas sabia que o que quer que estivesse ali, fora suficiente para dar-lhe um banho na companhia daquele homem. Os passos até o quarto foram poucos, e somente ao entrar no cômodo foi que o moreno notou que eles estavam muito próximos de seu próprio futon. Porém, ao encarar o local em que normalmente dormia, Hibari não pôde deixar de pensar que o sexo não teria sido tão bom em um lugar confortável como fora naquele esquecido corredor. Dino guiava o caminho, seguindo para o banheiro particular do dono do templo. O local era uma porta do lado direito do quarto, que muitas vezes se passava como mais uma parte da parede. O local era pequeno, ainda mais para dois homens crescidos, mas era também íntimo e suficiente para o que fariam.
Não houve toques ousados ou gemidos sensuais no pequeno box de vidro fumê. O banho foi longo e cheio de carícias castas e longos beijos. A ponta dos dedos do italiano desenhava sobre a pele do Guardião da Nuvem, subindo e descendo por suas costas, ombros e braços. Com a esponja em mãos, o louro ensaboou seu amante dos pés à cabeça, fazendo-o corar em certas partes, mas sem se mover ou dizer não. Quando foi sua vez, havia certa expectativa no coração do moreno. O corpo do Chefe dos Cavallone sempre foi motivo de admiração por parte de Hibari. Dino tinha a pele branca, mas no verão sempre esboçava um bronzeado bem discreto. Aquele detalhe contrastava de maneira adorável com os cabelos naturalmente louros e que haviam crescido um pouco mais nos últimos meses, descendo pelas orelhas e tocando um pouco a nuca. Entretanto, nada hipnotizava o Guardião da Nuvem como aqueles belos olhos cor de mel. Eles eram grandes e brilhantes e pareciam sempre olhá-lo como uma doçura que ele sabia que não merecia. Todas as vezes que se via refletido naqueles olhos o moreno imaginava o que se passava pela mente de seu amante, e principalmente a pergunta que povoava sua mente vez ou outra: Por que eu? A resposta, todavia, sempre acontecia na forma de um longo beijo.
O italiano almoçou rapidamente após o banho. O louro saiu do banheiro primeiro, e quando Hibari entrou no pequeno cômodo utilizado como sala de jantar, a comida estava quente novamente e seu prato o esperava. O Chefe dos Cavallone o fez companhia por alguns minutos, levantando-se quando o prato do Guardião da Nuvem estava ainda na metade.
"Eu adoraria passar à tarde com você, mas preciso ir. Se não quiser lavar a louça eu farei isso à noite."
O moreno não tirou os olhos da pequena mesa à sua frente. Aquele sempre era o momento mais difícil, e após aquelas agradáveis horas, ver Dino partir ia contra seu orgulho e amor próprio, mas seria impossível não se sentir incomodado. "Eu não esperarei. Se você chegar e eu estiver dormindo, não faça barulho."
"Eu estarei de volta muito antes da sua hora de dormir, Kyouya." A voz do italiano saiu cantante, e a próxima coisa que Hibari sentiu foi um gentil beijo no alto de sua cabeça molhada. "Vejo você mais tarde."
Os passos do louro só foram ouvidos quando ele colocou os sapatos que estavam do lado de fora da sala. O barulho dos passos ecoou pelo corredor de madeira, afastando-se. Quando o som cessou, os olhos negros do Guardião da Nuvem encararam seu prato, e a maneira como seu garfo cutucava um dos cappellettis. Sua fome havia passado há muito tempo, e ele basicamente havia sentado ali somente por pura obrigação. O moreno levou o guardanapo ao lábio e ficou em pé, segurando os dois pratos e seguindo na direção da cozinha. Foi preciso mais duas viagens até que tudo o que estava sobre a mesa fosse levado e arrumado, e ao perceber que estava livre da louça, Hibari também se viu sozinho em sua própria casa.
Não havia jardim para ser podado ou regado; cômodo para ser limpo ou organizado. Os relatórios relacionados aos Vongola estavam lidos, revisados, assinados e já entregues às mãos de Kusakabe. A própria pesquisa do Guardião da Nuvem sobre as caixas especiais e os anéis estava relativamente avançada, então não havia absolutamente nada que ele pudesse fazer para passar seu tempo. E notando que estava totalmente solitário em sua propriedade, o moreno seguiu para o quarto, decidido a ler. O cômodo estava bem iluminado por causa da porta aberta, e dali seu jardim era visto e admirado. A melhor visão da propriedade era, sem dúvidas, daquele local, e Hibari decidiu que se sentaria na sacada. Entretanto, antes de dar o terceiro passo na direção da cômoda, a fim de pegar um dos livros que estava dentro a primeira gaveta, as pernas do Guardião da Nuvem simplesmente não se moveram.
Aquela estranha sensação não era nova, ele sabia. Ele também sabia o que viria em seguida, e seus olhos se fecharam no mesmo instante. O ar que até um segundo atrás esteve puro e cheirava à flores e grama molhada de repente tinha odor de fumaça e queimado. Sua garganta tossiu duas vezes ao inalar aquele ar, e uma estranha sensação o fez flexionar os joelhos levemente. A impressão que o moreno sempre tinha ao viver aquele tipo de situação era como se alguém tentasse puxar seu chão, mas sem sucesso. Quando seus pés pareceram pisar em solo firme, os olhos negros fizeram menção de se abrirem, mas era muito cedo. A fumaça ainda estava densa e foi preciso alguns segundos até que seus olhos se acostumassem à nova realidade.
O chão de madeira, a pouca mobília e as paredes sem quadros ou figuras foram facilmente identificadas e o moreno não precisou esperar a fumaça se dissipar por completo para descobrir que estava exatamente em seu quarto. Porém, no mesmo instante que sua mente lhe disse que o local era conhecido, seu coração avisou que não. Havia algo diferente ali, e não era somente o passar dos anos. Hibari balançou as mãos diante de seus olhos e deu o primeiro passo em seu velho e novo quarto. O cômodo estava exatamente como ele havia deixado, isso dez anos no passado, mas existia ali uma estranha escuridão que não vinha somente da porta fechada da sacada. A mão pálida e delgada arrastou a porta de madeira e a certeza que o Guardião da Nuvem precisava apareceu diante de seus olhos, como um tapa na face.
O jardim – ou o que havia sobrado dele – tornara-se uma planície lisa e amarronzada. As duas macieiras que ficavam na direção da porta da sacada, e serviam quase como a entrada do jardim, haviam sido derrubadas e em seu lugar existiam dois tocos serrados rentes ao chão. As flores não existiam mais e o que quer que tivesse acontecido com sua parte favorita do templo não fora da noite para o dia. O moreno deu meia volta, encarando o quarto com as sobrancelhas juntas. Uma melhor olhada no local e ele notou que aparentemente não era somente seu jardim que havia morrido. Sua casa nunca foi o lugar mais vivo e animado do mundo, mas Hibari saberia a diferença, e aquela casa estava definhando. O que aconteceu aqui?
A porta do guarda-roupa foi a segunda a ser aberta. Ali nada parecia diferente do normal: havia roupas sociais e kimonos, e o lado esquerdo era reservado para as roupas de Dino. Encarar aquela parte fez o coração do Guardião da Nuvem bater um pouco mais rápido, pensando que depois de todos aqueles anos o italiano ainda fazia parte de sua vida. Seus dedos da mão esquerda tocaram uma camisa branca do louro, e imediatamente aquela lisonjeira sensação passou. O tecido não estava macio, aliás, as roupas daquele guarda-roupa não cheiravam a limpeza. Era mofo. Hibari pegou a camisa que supostamente pertencia ao Chefe dos Cavallone, e seus olhos se fixaram no terno que estava atrás, coberto por um plástico empoeirado. Aquele lugar não era mexido há muito tempo, e sem perceber o Guardião da Nuvem largou a camisa ao chão e deu um passo para trás. Seu coração ainda batia rápido, mas dessa vez não era de felicidade.
Os passos que levaram o moreno para fora do quarto foram rápidos e pesados. Eles ecoaram pelo chão de madeira e quanto mais ele caminhava por sua própria casa, mais estrangeiro aquele lugar lhe parecia. Cozinha, escritório... nada. Não havia nada ali que o fizesse sentir-se em casa ou que ao menos recordasse o ambiente que ele deixara há poucos minutos. Aquele lugar não era o seu templo, o que o fez pensar se o homem que vivia ali era realmente Hibari Kyouya. A caminhada do Guardião da Nuvem só terminou quando ele finalmente chegou ao maior cômodo da casa, e foi ali também – na grande sala – que ele soube que conseguiria todas as respostas que queria. Pois parado em frente à porta aberta e olhando-o com uma estranha seriedade, estava uma versão mais velha de Gokudera Hayato.
O homem o olhou sem mover um músculo em seu rosto. Em dez anos o Guardião da Tempestade dos Vongola mudaria muito pouco. Seus cabelos ainda eram prateados e cresceram um pouco mais, batendo quase nos ombros. O cigarro não estava em seus lábios, mas a expressão de arrogância não deixava sua face com a mesma frequência. Gokudera desencostou-se da porta, endireitou os ombros e pela primeira vez em todos aqueles anos o Guardião da Nuvem o viu engolir seco antes de falar.
"Nós precisamos conversar e só temos dez minutos, então peço que sente e não me faça perder tempo."
O moreno instintivamente levou a mão para dentro do kimono negro, apenas para constatar que havia deixou seu par de tonfas sobre a cômoda do quarto, isso dez anos no passado. A vontade de morder aquele homem insolente até a morte o fazia quase tremer de ansiedade, mas suas pernas moveram-se até a costumeira mesinha de centro e ele se ajoelhou, trincando os dentes e tentando se controlar. Por mais que sua raiva estivesse nas alturas, havia uma parte de Hibari que precisava saber o que estava acontecendo e, principalmente, porque aquela angústia o havia possuído desde que vira o morto jardim e as roupas empoeiradas dentro do guarda-roupa. O homem de cabelos prateados deixou os sapatos do lado de fora e entrou na sala, ajoelhando-se do outro lado da mesinha e retirando um envelope pardo de dentro do terno negro. O pedaço de papel foi empurrado na direção de sua companhia.
"Volte com isso para o passado." O Braço Direito do Décimo do futuro disse enquanto retirava um maço de cigarros de dentro de um dos bolsos. "Guarde-o em local seguro e ouça bem o que vou dizer, Hibari, porque é de extrema importância que você me escute."
"Jogue isso fora." Hibari mal moveu os lábios ao falar. Seus olhos estavam fixos no cigarro que o homem à sua frente havia acendido.
"Desculpe, mas não farei isso. Eu não conseguirei prosseguir sem ajuda, então peço que ignore." A voz do Guardião da Tempestade fez o moreno apertar as mãos sobre o colo. Havia algo diferente, uma gentileza que ele nunca havia recebido daquela pessoa e aquilo o deixava apreensivo.
O Guardião da Nuvem abaixou os olhos e encarou o envelope. Seu desejo era de abrir aquele pedaço de papel, mas somente quando fez menção de erguer uma das mãos foi que ele notou que estava tremendo. Seus olhos se levantaram e quando encontraram os olhos verdes de Gokudera Hayato, o moreno se sentiu vazio. Havia uma profunda tristeza por trás daquele olhar, e a expressão desolada no rosto demonstrava que o homem não gostaria de estar tendo aquela conversa.
"O envelope contém instruções sobre o que você deve fazer quando retornar e um resumo da situação. Você não conseguirá fazer isso sozinho, mas em pouco tempo receberá ajuda de outras pessoas. Aceite a ajuda, Hibari. Não seja arrogante ou egoísta. Você não conseguirá sozinho e tudo depende que isso dê certo. Se você não fizer o que eu estou indicando o futuro não mudará. Você só tem uma chance, entendeu? Uma. E em hipótese alguma conte o que você lerá para o Jyuudaime. A pessoa que você deve procurar sou eu, o eu da sua época. Ele saberá o que fazer. Mas você não pode falar com o Jyuudaime."
"O que está acontecendo?" Foi a única coisa que o Guardião da Nuvem conseguiu dizer. Sua voz saiu sem vida, como se ele tivesse entendido. Por dentro seu coração batia tão rápido que chegava a doer.
"Muitas coisas aconteceram. Você só está aqui porque o outro Hibari achou que precisava ir ao seu tempo. É uma tentativa vã, ele não vai conseguir, por isso você tem que detê-lo."
Os olhos negros se apertaram levemente. Do que aquele homem falava? "Seja mais claro, Gokudera Hayato."
"Você... no futuro tem um plano que não dará certo, então eu estou lhe oferecendo... não, estou pedindo que mude seus próprios planos enquanto ainda há tempo." O homem de cabelos prateados consultou o relógio. Sua expressão tornou-se quase dolorosa. "Ouça, Hibari, eu sei que tudo o que eu estou dizendo parece ridículo e você provavelmente não acredita em nada, mas vai acreditar quando ler o conteúdo do envelope. Muita gente depende que você faça a coisa certa, inclusive você mesmo. Então, eu imploro, mude o futuro."
O moreno arregalou os olhos e teria dito qualquer coisa se a cena em si não tivesse lhe roubado todas as palavras. O Braço Direito do Décimo afastou-se um pouco e abaixou a cabeça até que sua testa tocasse o chão. Aquele pedido não fora uma brincadeira, e o que quer que tivesse acontecido naquela época era sério o bastante para fazer aquele homem se humilhar daquela maneira. As mãos de Hibari finalmente tocaram o envelope, e o peso que aquele mero papel pareceu ter foi quase impossível de ser segurado.
"Diga, o que aconteceu aqui?" O Guardião da Nuvem não conseguia olhar além da porta aberta. Seu jardim devastado era demais para que ele pudesse suportar.
Gokudera não ergueu a cabeça no instante que ouviu a pergunta, mas quando o fez, seus olhos estavam levemente vermelhos e eles novamente encararam o relógio em seu pulso. Seu corpo ficou em pé e ele olhou para baixo com uma expressão que só demonstrava dor. "Você, ou melhor, o outro você não mora mais nesse templo há quase um ano."
"Por quê?" As mãos apertaram levemente o envelope.
"Você deixou essa casa no dia em que soube que Dino Cavallone foi morto na Itália." O Guardião da Tempestade engoliu seco novamente. "Agora você tem um motivo para acreditar no que eu disse."
A fumaça abraçou a sala e com isso ofuscou a visão de Hibari. Seus olhos se fecharam, e ele não soube por quanto tempo eles permaneceram daquela maneira. A mesma sensação o fez prender a respiração. O chão voltou a lhe faltar e dessa fez havia algo em sua garganta que o fez sentir ânsia. Quando seus olhos finalmente se abriram, o moreno estava de volta à sua realidade. Seu quarto estava exatamente como ele havia deixado, com sua mobília, seu guarda-roupa e seu jardim florido. Porém, em sua mão havia o envelope amassado que o homem de cabelos prateados do futuro havia lhe dado. O Guardião da Nuvem ficou em pé e caminhou até a porta da sacada, encarando a vista. Seus olhos fitaram as duas macieiras e as flores, mas eles não viram nada.
Hibari havia morrido um pouco ao retornar ao presente.
Continua...
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