Vendetta
5 Gokudera
Gokudera
O último relance da luz do Sol entrava pela pequenina fresta da janela, mas o Guardião da Tempestade não se importava. Verdade fosse dita, ele nem ao menos notou que o Sol estava se pondo, assim como não havia reparado que o dia nascera, isso horas atrás. Sentado em sua confortável cadeira e com os olhos fixos na pilha de relatórios sobre o lado esquerdo de sua mesa, o homem de cabelos prateados não havia deixado aquela sala nas últimas vinte e quatro horas, com exceção dos minutos necessários para toaletes. Suas refeições foram entregues no escritório e seu contato com outros seres humanos se restringiu ao homem da portaria e Tsuna.
A última linha do último relatório foi lida, relida, revisada e a assinatura do Braço Direito do Décimo preencheu a linha pontilhada no canto inferior direito. A ponta da caneta bateu no papel e naquele momento Gokudera soube que teria de ir embora. Seus olhos verdes se ergueram da mesa pela primeira vez, e foi também a primeira vez que ele viu o Sol em dois dias. A porta − esta bem diante de seus olhos − estava colorida por uma pequena linha alaranjada, que mais lembrava uma fresta de fogo contra a madeira. O silêncio que seguiu aquele momento foi tão necessário e bem recebido que levou um meio sorriso aos lábios sérios do Guardião da Tempestade. É hora de encarar a realidade.
O homem de cabelos prateados juntou os relatórios e os depositou na primeira gaveta de sua mesa. A chave girou com barulho e suas pernas o colocaram de pé. Uma longa espreguiçada foi seguida por um bocejo e somente ao dar o primeiro passo longe daquele local foi que o Braço Direito do Décimo percebeu o quão cansado estava. Eu preciso de um bom banho. Um bom jantar e uma boa companhia... Aquele último e íntimo pensamento o fez passar a mão na nuca, estalando o pescoço e as costas. Não. Aparentemente eu não tenho mais companhia. Gokudera caminhou na direção da porta, abrindo-a e verificando se era realmente o único no andar. O silêncio do corredor o fez respirar fundo e sua mão direita trancou a porta de sua sala antes que suas pernas começassem a levá-lo na direção da saída.
O escritório dos Vongola era localizado no coração de Namimori. Aquele local possuía duas partes, ou como o Jyuudaime gostava de chamar: duas realidades. A primeira parte era a fachada que escondia um sério edifício de quatro andares e vinte salas. As salas dos Guardiões ficavam localizadas no terceiro e quarto andar, enquanto os dois primeiros serviam como salas de reuniões. O próprio escritório de Tsuna ficava no terceiro andar, ao lado da sala do Guardião da Tempestade. A segunda parte do edifício ia além do subsolo − este reservado para o estacionamento. Metros e metros abaixo do solo existia a base de operações dos Vongola que fora criada mesmo depois da batalha do futuro. A ideia partiu do próprio Décimo, que alegou que o local jamais seria utilizado como campo de guerra, mas sim como uma base em que eles pudessem treinar. Na prática o lugar era basicamente utilizado por Spanner e Giannini, e o homem de cabelos prateados sabia que se descesse até lá, tudo o que encontraria eram passagens bloqueadas e robôs.
O destino do Braço Direito do Décimo naquele fim de tarde não era a base secreta subterrânea dos Vongola, mas sim seu confortável e antigo apartamento. As ruas estavam desertas se comparadas ao trânsito dos dias úteis e Gokudera agradeceu mentalmente por ter escolhido fugir justamente em um sábado. Com as ruas vazias, o Guardião da Tempestade chegou à sua casa em poucos minutos. Os olhos verdes e atentos verificaram o entorno enquanto subia as escadas, e antes de virar o corredor de seu andar, o homem de cabelos prateados lançou um curioso olhar na direção de sua porta, apenas para ter certeza de que não teria nenhuma visita inesperada. Para seu alívio pessoal, não havia uma viva alma.
O apartamento estava escuro quando ele entrou. Seus sapatos ficaram na entrada e seu terno foi jogado em cima de um dos sofás. Seus passos o levaram diretamente para o banheiro, onde o restante de suas roupas foi retirada e seu corpo nu adentrou ao box, sem hesitação. A água morna bateu sobre os cabelos e ombros de Gokudera e pela primeira vez em dias ele se sentiu realmente relaxado. Sua vida estava uma bagunça e eram raros os momentos em que ele podia se dar ao luxo de relaxar e aproveitar um bom banho. Nos últimos cinco dias o Guardião da Tempestade perdeu muito mais do que horas de sono. De um lado, ele cancelou a viagem que faria com Masayoshi − seu pseudo amante − recebendo como resposta uma bela e oficial rejeição. De outro, o homem de cabelos prateados viu seu coração ser totalmente despedaço quando ouviu dos próprios lábios de Yamamoto que o moreno pretendia se casar. Obviamente a segunda parte foi a que realmente importou, mas sem ninguém para fazê-lo esquecer da dor, o Braço Direito do Décimo se viu tendo de suportar aquela notícia sem nenhum tipo de apoio.
Gokudera jamais esqueceria a expressão no rosto do Guardião da Chuva quando ele disse que pretendia pedir a namorada em casamento. A notícia chegou aos seus ouvidos ali, naquele mesmo apartamento, e pegou o homem de cabelos prateados totalmente desprevenido. Mentalmente ele pretendia se confessar e com isso fazer com que Yamamoto se afastasse, mas antes que suas palavras pudessem ser proferidas e seu plano entrasse em ação, o moreno solucionou todos os seus problemas, mas com o custo de seu coração. A resposta do Guardião da Tempestade foi um constrangedor e incrédulo silêncio. Sua companhia − e também amor não correspondido − corou e riu, perguntando se aquilo o havia surpreendido tanto assim. Tanto assim? Você não pode imaginar. As horas que seguiram aquela notícia foram passadas como em um transe e o Braço Direito não lembrava sequer o que fez naquele tempo todo, suspeitando que ficou sentado e encarando a tv. O Guardião da Chuva deixou seu apartamento quando o jogo de baseball terminou. Aquela foi a primeira vez que o moreno não passou a noite no local. E depois daquela noite, Gokudera não voltou a vê-lo.
O homem de cabelos prateados evitou Yamamoto de todas as maneiras possíveis. Seus horários no escritório foram mudados, ele não atendia mais as ligações do moreno e até mesmo as visitas se tornaram proibidas. Há dois dias o Guardião da Chuva permaneceu por quase meia hora do lado de fora do apartamento, batendo na porta e tentando fazê-lo atender. Durante esse tempo o Braço Direito do Décimo permaneceu em seu quarto, enrolado em um cobertor e pedindo mentalmente para que aquele homem fosse embora. Depois disso o Guardião da Tempestade fugiu para o escritório e só retornou naquele fim de sábado, sabendo que Yamamoto não o incomodaria naquele final de semana. Ele está muito ocupado propondo para a namorada.
Aquele pensamento o fez socar a parede. A dor não era nada se comparada à frustração que ele sentia. Preso naquele amor não correspondido por anos, Gokudera achou que já havia passado da fase de se chocar com as ironias da vida, mas ele estava completamente enganado. Suas esperanças nunca existiram e do momento que o homem de cabelos prateados assumiu aqueles sentimentos, ele também soube que jamais seria correspondido. Os anos o tornaram mais forte e após viver todo aquele tempo assistindo o moreno viver sua vida, o Guardião da Tempestade acreditou que nada poderia atingi-lo, isso até ouvir que a pessoa que ele tanto amava planejava construir uma vida ao lado de outra pessoa. Não existia palavra para descrever como ele se sentiu e se sentia com relação a isso; assim como não havia nada que pudesse ser feito para remediar a situação. Eu não poderei fugir para sempre, mas farei isso até não conseguir mais. O Braço Direito do Décimo ergueu a cabeça e deixou que a água tocasse seu rosto, torcendo para que isso fosse suficiente para lavar também aqueles sentimentos tão negativos.
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O fim de semana do Guardião da Tempestade passou como um borrão. Suas horas foram passadas dormindo ou comendo, e quando a segunda-feira chegou, Gokudera encarou-se no largo espelho de seu quarto e tentou parecer o mais natural possível. Sua expressão era uma mistura de temor e vergonha e suas bochechas estavam levemente coradas. Ao contrário da semana anterior, daquela vez ele não havia para onde fugir. O trabalho havia sido feito no sábado e não haveria motivo real para não comparecer ao escritório no horário normal, sem contar que estar ao lado de Tsuna era sua obrigação como fiel e competente Braço Direito.
Com mais ansiedade e menos coragem, o homem de cabelos prateados caminhou pelo corredor e só parou na entrada para colocar seus sapatos. A porta do apartamento foi aberta e foi impossível não se surpreender com o simples fato de que ele, aparentemente, não estava sozinho. Masayoshi o esperava do lado de fora, a mão esquerda erguida e pronta para bater na porta. Os dois homens se olharam e naquele momento Gokudera desejou ter saído um pouco mais cedo de casa.
"Bom dia." A voz do moreno ecoou pela mente do Guardião da Tempestade e o fez apertar a maçaneta da porta com um pouco mais de força. A última vez que ambos haviam se visto foi há três dias, quando o homem de cabelos prateados o visitou dizendo que não poderia ir à viagem. A resposta foi um frio olhar e um polido pedido para deixar a casa. "Posso lhe dar uma carona?"
"Eu planejava ir com o meu carro." O Braço Direito do Décimo permaneceu no mesmo lugar. Ele tinha tempo em suas mãos, mas não queria gastá-lo discutindo sobre algo que, para ele, já havia terminado. Os dois estavam naquele relacionamento por pura conveniência e, pelo menos para Gokudera, não havia nada ali além de puro desejo sexual.
Aquele pensamento fez o Guardião da Tempestade sentir uma leve pontada em seu peito. Enquanto evitava alguém que obviamente se importava com ele e gostaria de ser muito mais do que uma companhia noturna, Yamamoto provavelmente estava deixando a casa da namorada depois de um fim de semana digno de um filme americano. O homem de cabelos prateados sentiu fundo em seu peito que estava perdendo seu tempo alimentando um amor que nunca se tornaria real. A realização o fez sentir-se idiota, não somente porque aquilo não fazia o menor sentido, mas porque a pessoa estava bem diante de seus olhos, em uma proximidade que ele sabia que nunca teria com o Guardião da Chuva. Os dois eram amigos há tanto tempo, mas havia uma barreira invisível entre eles e ela jamais seria transposta.
"Podemos conversar durante o jantar?"
A expressão no rosto de Masayoshi suavizou-se ao ouvir o convite e ele ajeitou os óculos, tentando esconder o rosto levemente corado. O Braço Direito não disse nada, mas achou aquela cena extremamente adorável. Quando aquele homem queria, ele conseguia ser interessante. "Eu cozinharei."
"Eu levarei o vinho."
Gokudera esboçou um discreto meio sorriso, dando um passo à frente e inclinando o rosto na direção de sua companhia. O cheiro da colônia daquele homem o fazia lembrar-se de todas as coisas que eles já fizeram juntos, e a necessidade de envolver outro ser humano falou mais alto. Porém, antes que seus lábios tocassem os de Masayoshi, os olhos verdes correram para o lado e naquele momento qualquer decisão e resolução que o Guardião da Tempestade tivesse feito caíram por terra. Suas mãos empurraram levemente o peito do homem à sua frente e seu rosto virou-se totalmente na direção do fim do corredor. Pois parado e encarando a cena com uma mistura de surpresa e seriedade, Yamamoto definitivamente era a última pessoa que ele queria ver.
O Guardião da Chuva aproximou-se devagar e a cada passo o homem de cabelos prateados podia sentir seu próprio coração bater, rápido e nervoso. Suas pernas queriam se mover, correr e se esconder da vergonha que ele sentia, mas seria impossível mexer um músculo que fosse. O Braço Direito do Décimo não viu a expressão no rosto de Masayoshi, mas quando o moreno parou ao lado de seu antigo amante, o coração de Gokudera pulou uma batida.
"Você está bem, Gokudera?" A pergunta foi dirigida à pessoa dentro do apartamento, mas os olhos de Yamamoto estavam fixos em Masayoshi. "Eu estou te procurando há dias e você simplesmente não responde. Está tudo bem?"
Não havia uma resposta pronta para aquele tipo de pergunta, então o corpo do Guardião da Tempestade falou tanto pelo coração quanto pelo cérebro. Suas pernas saíram de dentro do apartamento e sua mão fechou a porta em uma velocidade absurda e naquele momento ele soube que teria de improvisar. Uma parte de sua mente queria mandar Masayoshi embora, para poder passar algum tempo com o Guardião da Chuva depois de todos aqueles dias de nenhum contato. Todavia, a outra parte − esta mais realista − sabia que quem deveria ir era o moreno, pois nada sairia daquela história e o quanto antes o homem de cabelos prateados colocasse um ponto final, mais rápido ele poderia ir procurar a felicidade ao lado de alguém que realmente o desejava. A escolha, entretanto, era bem mais difícil do que ele imaginava.
"Está tudo bem," mentiu o Braço Direito, enquanto colocava as chaves dentro do bolso da calça social negra. "Eu estive ocupado com trabalho e estava seguindo para o escritório. Se não pretende ir, então saia porque eu estou atrasado e quero estar lá quando o Jyuudaime chegar."
"Eu também estou indo." A resposta de Yamamoto saiu rápida. Seus olhos ainda estavam fixos no homem ao seu lado e, olhando de seu ângulo, Gokudera notou que os dois eram basicamente da mesma altura e possuíam traços muito parecidos. Eu sou um idiota...
O Guardião da Tempestade entreabriu os lábios para se despedir de Masayoshi, mas a mão direita de seu ex-amante foi mais rápida. O peso que aqueles dedos tiveram ao tocar seu ombro foi descomunal, mas a pior parte foi sem dúvidas a estranha e desnecessária sensação de que aquele homem não deveria tocá-lo... não na frente do Guardião da Chuva. Não na frente da pessoa que ele tanto amava.
"Nos vemos à noite, Hayato?"
As palavras saíram sem nenhum tom de voz especial e naquele momento o homem de cabelos prateados percebeu que estava reagindo de maneira exagerada àquele inusitado encontro. Masayoshi não demonstrava antipatia ou desdém pelo moreno, mas a expressão de desaprovação no rosto de Yamamoto fez o Braço Direito do Décimo se sentir momentaneamente... feliz. Uma ilusória e falsa felicidade, ele sabia.
"Sim. Eu ligarei para combinarmos o horário. Até mais."
Gokudera puxou o Guardião da Chuva pela manga do terno, mas sua companhia não pareceu querer acompanhá-lo. O moreno lançou um último olhar na direção do homem que ele não conhecia, e só se moveu depois de fazer uma polida reverência. O barulho daqueles passos ecoou com muito mais barulho do que o normal. Yamamoto caminhava no mais puro silêncio ao seu lado, e por três lances de escadas nenhum dos dois ousou dizer uma única palavra. Ao ganhar a rua, o Guardião da Tempestade ergueu os olhos, vislumbrando Masayoshi na sacada do corredor em que ele estivera até poucos segundos. O Guardião da Chuva pareceu entender, e assim que seus olhos negros fitaram o homem, o olhar que foi destinado à sua companhia foi algo que ele não conhecia até aquele momento.
"E-Eu vou no meu carro. Nos encontramos no escritório." O Braço Direito disse enquanto se afastava. A última coisa que ele queria era ficar a sós com o moreno, mesmo que isso soasse totalmente improvável, ainda mais depois de anos de amor não resolvido.
"Não, você vai comigo."
A mão que o segurou pelo braço foi seguida por um aperto que utilizou mais força do que seria necessária para aquela situação. O homem de cabelos prateados virou o rosto, ficando surpreso por aquele estranho humor. Yamamoto não refez o pedido ou disse mais nada, abrindo a porta de seu carro e apontando para dentro. Gokudera ajeitou o terno, lançando um último olhar antes de entrar, e fechando os olhos quando a porta foi batida com um pouco menos de delicadeza do que o usual. Quando o Guardião da Chuva finalmente entrou, o carro foi ligado sem nenhum outro comentário, mas assim que viraram a primeira esquina, a elementar e necessária perguntar deixou os lábios do moreno: "Quem era aquele homem?"
Durante todos aqueles anos o Braço Direito do Décimo colecionou centenas de respostas prontas para aquele momento. Yamamoto não sabia que ele não tinha interesse em mulheres, e as pouquíssimas vezes que o homem de cabelos prateados precisou fingir interesse tudo não passou de superficialidade necessária. O gosto de Gokudera sempre foi por homens, e ele já havia se perguntado se aquilo não começou justamente por causa de seus sentimentos pelo Guardião da Chuva. Porém, independente de onde estava localizada a raiz do problema, a ideia de que um dia o moreno pudesse lhe perguntar algo assim passou por sua mente com certa frequência, e em todos os seus ensaios mentais ele sabia exatamente o que dizer.
O problema era que dessa vez ele não sabia.
O Guardião da Tempestade não sabia − ou não queria saber − que viveria para ver Yamamoto construir sua vida longe dele. Aquele amor sempre foi dosado e comportado. Suas esperanças nunca existiram, então não havia necessidade de comunicar seus gostos sexuais e pessoais. Entretanto, sentado ao lado da pessoa em questão e após aquele incomodo encontro na entrada de sua casa, o Braço Direito se perguntou se não estava na hora de colocar um ponto final em todo aquele sofrimento desnecessário. Se o Guardião da Chuva estava decidido a se casar, então não havia melhor momento para seguir em frente; e no fundo, o homem de cabelos prateados sabia que aquele momento eventualmente chegaria.
"Um amigo." A resposta saiu ensaiada e Gokudera encarou a janela. Não. Ainda não...
"Eu nunca o vi antes."
"Nos conhecemos há algum tempo."
"Onde?"
"Em um bar."
"Eu não sabia que você frequentava esses lugares."
"Às vezes."
Aquela foi toda a conversa que eles travaram durante os quinze minutos que permaneceram dentro do carro. O Guardião da Tempestade não virou o rosto para o outro lado uma única vez, e Yamamoto pareceu não estar inclinado a nenhuma outra conversa. O automóvel adentrou o estacionamento no subsolo e o Braço Direito do Décimo sentiu certo alívio quando finalmente abriu a porta.
"Obrigado pela carona."
Sem esperar nenhuma resposta, o homem de cabelos prateados caminhou na direção do elevador, mas optou pela escada. Seu coração batia rápido, uma estranha mistura de tristeza e medo. A ideia de contar tudo para o Guardião da Chuva não era tentadora, mas ele sabia que aquilo o faria esquecê-lo de uma maneira ou de outra. Eu preciso pensar mais sobre isso. São anos de amizade. Eu não posso simplesmente arremessá-los pela janela desse jeito. Os pensamentos ocuparam a mente de Gokudera até que ele atingisse o terceiro andar. E apenas ao estar seguro em sua sala foi que o suspiro de alívio deixou seus lábios e seus olhos se fecharam por um instante. Respire... respire...
Devido à maratona de trabalho da sexta para o sábado, não havia basicamente nada de relevante para ser feito naquele dia. Tsuna costumava chegar depois das 9hs, o que lhe dava pelo menos uma hora para não fazer absolutamente nada. O Guardião da Tempestade caminhou até o sofá, deitando-se e encarando o teto branco de sua sala. Aquela situação jamais teria acontecido se ele não fosse tão covarde. No fundo o Braço Direito do Décimo sabia muito bem o motivo pelo qual não havia se afastado totalmente do moreno. Eu sei que ele jamais será meu, mas eu quero ter o que Yamamoto puder me oferecer, mesmo que migalhas. O único porém desse tipo de relação era que aquela proximidade, que um dia foi quase tão necessária quanto respirar, havia se tornado dolorosa e o impedia de seguir em frente. Eu tenho a chance de ter alguma coisa séria com uma pessoa séria. Não posso deixar a oportunidade passar. O homem de cabelos prateados cobriu o rosto com um dos braços e fechou os olhos. Aquela não era a vida que ele havia planejado.
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O Décimo Vongola chegou pontualmente às 9hs da manhã, trazendo Reborn ao seu lado. O ex-Arcobaleno lançou um rápido olhar na direção de Gokudera antes de passar pela porta, recebendo uma polida reverência como resposta. O homem de cabelos castanhos sorriu e ficou encantado ao ver que o trabalho havia sido adiantado, elogiando seu amigo e Braço Direito. A culpa momentânea que o Guardião da Tempestade sentiu ao omitir que o trabalho só havia chegado aonde chegou porque ele estivera fugindo, só não foi maior devido à entrada de Reborn na sala. Porém, dessa vez o Hitman não estava sozinho, e sua companhia fez o homem de cabelos prateados sentir-se automaticamente desconfortável.
"Alguma resposta de Xanxus, Gokudera?" Reborn ajeitava a aba do chapéu enquanto caminhava. Mesmo depois de anos ainda era estranho vê-lo em seu tamanho normal.
"Nada. Deixei cinco mensagens para ele e o Vice-Líder da Varia, mas sem nenhuma resposta. Dino Cavallone retornará a Namimori na próxima segunda, e disse que conversará com o Jyuudaime pessoalmente." O Braço Direito respondeu prontamente. Seus olhos estavam fixos no ex-Arcobaleno, mas ele sabia que os olhos do Guardião da Chuva estavam em sua pessoa. "Eu pesquisei sobre a tal Família, mas realmente nada oficial aparece. Talvez seja uma boa ideia pesquisarmos sobre isso pessoalmente."
"Ainda não." O bom humor de Tsuna parecia ter diminuído. Toda vez que tratavam de assuntos sérios e relacionados aos Vongola era como se ele se transformasse em outra pessoa. O Jyuudaime é uma pessoa muito gentil para essa vida. Mas foi essa personalidade que mudou os Vongola... "Antes de qualquer coisa eu quero conversar com Xanxus e Dino-san."
"Não seja ridículo, Tsuna-inútil." A voz de Reborn era grossa e levemente sarcástica. Suas palavras pareciam conter uma pitada de ironia. "A situação exige medidas rápidas e tudo o que você faz é sentar e esperar. Enquanto você senta e espera, Xanxus e Dino provavelmente estão investigando..."
"... e irão reportar o que quer que tenham descoberto." O Décimo estava irredutível.
"Irão? Eu sei que o idiota do Dino irá, mas não espere o mesmo tratamento da Varia. Você sabe que Xanxus só espera um deslize para tomar o seu lugar, e vamos ser realistas, Tsuna, se algo lhe acontecesse seria a oportunidade perfeita para que ele se tornasse o Décimo Primeiro Chefe."
"Reborn!" A voz do homem de cabelos prateadas saiu mais alta. Ouvir que algo poderia acontecer ao seu precioso Chefe era mais do que ele poderia aguentar. "Nós faremos como o Jyuudaime quer, e eu garantirei pessoalmente sua segurança."
"Vocês são dois idiotas." O Hitman respondeu enquanto ajeitava novamente seu chapéu. "Mas diga, Yamamoto, o que acha?"
Por um segundo Gokudera havia se esquecido que eles não eram os únicos presentes na sala. O Guardião da Chuva havia entrado quieto e permanecido calado, e com exceção do olhar sério, não haveria como notá-lo ali, o que por si só era totalmente irônico. O moreno possuía uma personalidade animada, carismática e hipnotizante. Por todos aqueles anos, não importasse por onde passasse, Yamamoto sempre seria o centro das atenções sem o menor esforço. O Guardião da Tempestade, em particular, adorava admirá-lo. Era como sentar em um banco de praça em uma manhã de primavera após um árduo inverno: o céu estava azul, o Sol era quente e agradável e tudo parecia que ficaria bem. Porém, naquele momento, nada parecia muito bem.
O Guardião da Chuva hesitou por um momento, e era clara a maneira como os outros dois presentes notaram que havia algo diferente. O olhar que o Décimo lhe lançou o fez recuar, mas o Braço Direito permaneceu no mesmo lugar, fingindo não notar. Quando o moreno finalmente falou, o que saiu foi uma risada sem graça e forçada, e as mesmas palavras que o homem de cabelos prateados havia utilizado anteriormente.
"Vamos esperar e ver o que acontecerá." Yamamoto coçou a nuca.
Com o assunto pseudo-resolvido, Gokudera pediu licença e retirou-se da sala antes que o clima se tornasse ainda pior. Os passos até sua própria sala foram dados de maneira apressada, e assim que entrou, o Guardião da Tempestade juntou as sobrancelhas, ficando surpreso ao ver que tinha companhia. Uma das poltronas em sua sala estava ocupada por uma bela mulher que não aparentava mais do que 25 anos. Sua pele era branca e seus olhos escuros, assim como seus cabelos que batiam quase em sua cintura. A mulher vestia uma roupa social negra, e assim que se levantou e ergueu o rosto, o Braço Direito do Décimo reconheceu imediatamente de quem se tratava.
"Bom dia, Gokudera Hayato." A voz de Chrome parecia estrangeira em sua sala. Ela provavelmente nunca estivera ali em todos aqueles anos. Não. Nem mesmo aquela Chrome estivera ali antes.
"Você é do futuro..." O homem de cabelos prateados fechou a porta, girando a chave. Instintivamente ele sentiu que o que quer que aquela mulher estivesse fazendo ali, seria melhor que eles não fossem incomodados.
"Nós precisamos conversar, Gokudera Hayato."
Gokudera é suficiente. A polidez e seriedade continuavam presentes na futura Guardiã da Névoa. Sua expressão era branca e tudo o que ele via era a bela mulher em sua sala. Gokudera caminhou até aquele lado, sentando-se na poltrona que ficava em frente à Chrome. "O que a trouxe aqui? E, aliás, como a outra Chrome entrou?"
"Isso não é relevante no momento, então peço que ouça o que eu tenho a dizer."
O Guardião da Tempestade inclinou-se um pouco à frente, apoiando os cotovelos em seus joelhos ao ver a Guardiã da Névoa sentando-se novamente. Havia um envelope em sua mão esquerda e ele foi oferecido ao Braço Direito do Décimo.
"Nós precisamos da sua ajuda." A mulher começou. "Eu trago uma mensagem sua."
"Minha?" O homem de cabelos prateados entendeu no mesmo instante do que ela falava. Naquele momento sua atenção foi totalmente conquistada.
"Nós precisamos de sua ajuda para realizarmos o plano, mas você me disse que o você dessa época jamais aceitaria ajudar se não fosse explicado o quão importante e vital esse plano significa." Chrome abaixou o único olho visível. O olho direito estava escondido por trás de um tapa-olho, que naquela ocasião possuía a figura de uma rosa vermelha. "Coisas ruins acontecerão se não mudarmos o presente. O que eu direi nesse momento não poderá deixar essa sala ou você colocará tudo a perder. Você... quero dizer, o Gokudera Hayato que conheço, junto com outras pessoas, demorou meses para pensar nesse plano, então peço que--"
"O que aconteceu?" Gokudera cortou a Guardiã da Névoa. Seu coração batia absurdamente rápido e algo dentro dele dizia que ele não gostaria do que ouviria, mas que precisava saber de qualquer forma.
"Pessoas morrerão."
"Quem?"
A jovem mulher manteve o olho fixo no homem sentado à sua frente. "Dino Cavallone... e Sawada Kyoko."
O envelope escorregou dos dedos do Guardião da Tempestade no instante em que ele ficou em pé. A surpresa por ouvir aquilo foi tão grande que ele precisou caminhar. Caminhar para ficar longe da pessoa que havia vindo de alguma parte obscura do futuro e dito ali, bem na sua face, que duas pessoas extremamente importantes morreriam. O Braço Direito levou a mão até o bolso, retirando um cigarro e o levando de maneira trêmula até os lábios. O isqueiro escorregou até o chão, e ele demorou alguns segundos até finalmente acender o cigarro. A tragada foi longa e pareceu que a nicotina invadiu cada célula de seu corpo, deixando-o incrivelmente relaxado. Entretanto, a maneira como Chrome o olhava, sem esboçar nenhuma reação, só demonstrava que o que ele havia ouvido era verdadeiro. Não. Não pode ser. O Jyuudaime não merece isso. Não é justo.
"Como?" A voz do homem de cabelos prateados saiu como um fio. Seus dedos seguravam o cigarro de maneira nervosa. "Como eles morreram?"
"Assassinados. Ambos." A Guardiã da Névoa encarava suas próprias mãos.
"Quando?"
"Um ano atrás."
"Um ano?" Gokudera sentiu vontade de atirar o cigarro ao chão, tamanha sua frustração. "Por que diabos vocês demoraram um ano para avisar?"
"Como eu disse, o plano demorou meses para ser con--"
"Para o inferno com o plano!" O Guardião da Tempestade aproximou-se novamente das poltronas. Seu rosto estava vermelho e ele fazia o impossível para manter sua voz baixa. O escritório do Jyuudaime ficava ao lado. "Quem fez isso? Por quê? Kyoko não tem nada a ver com os Vongola!"
"Ela terá, no futuro." Chrome ergueu os olhos. "Ela se tornará a esposa de Sawada Tsunayoshi."
Se a situação não fosse tão trágica o Braço Direito teria ficado extremamente feliz com a notícia. Desde sempre seu precioso Chefe e amigo era apaixonado pela garota, e apesar de ambos estarem namorando, Tsuna ainda agia como nos tempos de Colégio quando estavam juntos, temendo cometer algum erro que fizesse com que Kyoko se afastasse. Ele não merece isso. Ninguém merece esse futuro.
"Gokudera Hayato, eu peço que sente e ouça. Meu tempo aqui é limitado."
O homem de cabelos prateados apagou o cigarro no cinzeiro portátil que estava em seu bolso, sentando-se com barulho. Suas mãos pegaram o envelope do chão e ele o abriu sem pensar duas vezes. O conteúdo consistia em duas folhas. A primeira era uma lista de nomes de um lado, e uma lista de lugares e datas do outro.
"Você precisará de ajuda para concluir esse plano, e a sugestão que me foi fornecida foi o nome de Yamamoto Takeshi. Você disse que é a opção mais óbvia.” As coisas se tornam melhores a cada minuto. "Muito em breve a Varia entrará em contato com você, provavelmente através do Vice-líder da Família. Superbi Squalo fará parte do plano, então aceite a ajuda, não importa o preço que tenha de pagar.
"O que temos de fazer? E quem são essas pessoas?" Gokudera não reconhecia nenhum dos nomes que estavam naquela lista, com exceção do Chefe da Família Moretti. O homem havia enviado uma mensagem há alguns dias buscando aliança com os Vongola. Reborn havia rasgado a mensagem, avisando que eles não aceitariam. Desde então Tsuna e os demais Guardiões estavam atrás de informações mais precisas sobre a tal Família.
"Vocês devem parar Hibari Kyouya a qualquer custo."
"Hibari?" O Guardião da Tempestade não compreendeu a princípio, mas a realização o atingiu rapidamente. Haneuma...
"O Hibari Kyouya do meu tempo não é o mesmo homem que você conhece e ele colocará tudo a perder, por isso vocês devem pará-lo. Sangue atrai sangue, e o que aconteceu no futuro não pode se repetir aqui, no seu presente." Chrome consultou o relógio em seu pulso esquerdo. "O Guardião da Nuvem do seu tempo sabe do plano. Você mesmo passou as coordenadas e se ele seguir o que foi indicado, o futuro será mudado."
"Mas qual é o plano? Como pararemos Hibari?"
"Dino Cavallone sabe o que fazer. Você precisará entrar em contato com ele."
O Braço Direito encarou os papéis em sua mão e entendeu porque aquele plano precisaria de ajuda. Encontrar o Chefe dos Cavallone não seria o problema, mas como comunicar a alguém que ela morrerá a não ser que siga um plano entregue por uma pessoa vinda do futuro? Loucura!
"Hibari Kyouya... e eu me refiro aos dois. Fará o impossível para que você não entre em contato com Dino Cavallone, então discrição será essencial para o andamento do plano." Chrome consultou novamente o relógio. "O homem por trás dos crimes não passa de uma criança nessa época. Mas as pessoas que estão por trás não se importam em usar uma criança."
"Eu ainda não entendo."
"Está tudo explicar em uma das folhas, por isso é imperativo que você entre em contato com Dino Cavallone. Ele saberá o que fazer. Não... ele é o único que pode resolver essa situação. O problema é basicamente dele."
A sensação de mal-estar que dominou o homem de cabelos prateados durante a manhã parecia ter aumentado. Aquilo em suas mãos pesava toneladas e não eram somente folhas de papéis. O peso da vida de duas pessoas era muito mais do que ele poderia carregar.
"E-Eu farei o que você disse, mas como saberei que funcionou?"
"Você saberá." A Guardiã da Névoa ficou em pé. "Se for possível eu o visitarei novamente."
Gokudera não soube por que ficou em pé, mas a maneira como a mulher o olhou o deixou envergonhado. Havia um estranho brilho no único olho visível de Chrome, e assim que se encararam, a Guardiã da Névoa virou-se e esperou...
Uma pergunta. Uma única pergunta e todas as suas dúvidas seriam sanadas. Um pequeno vislumbre do futuro e o Guardião da Tempestade teria a certeza que precisava.
"Você tem um minuto, Gokudera Hayato. Pergunte."
"O futuro..." A voz do Braço Direito saiu trêmula. "Diga-me algo sobre o futuro." Yamamoto se casou? Quantos filhos ele tem?
Chrome o olhou e deu as costas, caminhando na direção da porta.
"No futuro... Y-Yamamoto, no futuro... Ele é feliz?!"
A jovem mulher permaneceu alguns segundos de costas, virando metade do rosto. Seu olho esquerdo encarou a pessoa no meio do escritório, como se conseguisse enxergá-lo por dentro. O que é isso? Um sorriso?
"Ele vive em um largo apartamento e usa uma aliança na mão esquerda. Pelo que me consta ele é uma pessoa feliz."
A Guardiã da Névoa desapareceu antes de tocar a maçaneta da porta, e se o simples fato de ninguém ter surgido em seu lugar não fosse surpreendente o suficiente, ouvir sobre aquele futuro o havia deixado totalmente desconcertado. O homem de cabelos prateados sentou-se devagar na poltrona, sem saber o que fazer com o desespero em seu peito. Sua gravata foi retirada, o ar começou a lhe faltar e foi impossível não sentir o peso de todas aquelas informações. O envelope e seu conteúdo foram pousados na mesinha de vidro que ficava entre os sofás e as poltronas, e Gokudera levantou-se, passando a mão nos cabelos e começando a andar. O futuro é pior do que eu imaginava. A realização de que estava correndo contra o tempo para solucionar uma situação altamente importante contrastava totalmente com sua vontade pessoal de largar tudo e ir para seu apartamento, deitar em sua cama e permanecer naquela posição por tempo indeterminado. Eu sabia. Eu sempre soube. Tolo... tolo em acreditar que algo mudaria.
Dino Cavallone... Kyoko... Yamamoto. Ele teria de lutar para salvar um futuro que ele não desejava que acontecesse.
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Não havia trabalho naquela manhã e Gokudera abraçou o tempo livre como um amante que retorna após permanecer anos longe da pessoa amada. As horas passaram e ele permaneceu deitado em seu pequeno sofá, encarando o mesmo teto branco, como se somente aquele gesto trivial pudesse resolver todos os seus problemas. A rápida conversa que teve com a Guardiã da Névoa do futuro não trouxe nada além de insegurança e medo. O conteúdo do envelope havia sido lido e relido tantas vezes que o homem de cabelos prateados sabia exatamente cada palavra. O que ele não sabia, entretanto, era como realizar aquele plano sem que o resultado fosse uma grande falha. Não vai funcionar, foi o único pensamento que cruzou a mente do Guardião da Tempestade, e não importava quantos caminhos ele tentasse encontrar, as chances daquilo dar certo eram tão baixas que a mera ideia de tentar já era por si só uma derrota.
O Braço Direito do Décimo virou-se no sofá, coincidindo com o barulho de duas leves batidas em sua porta, que ele não ouviu; assim como não escutou quando a pessoa pediu licença antes de entrar e os passos dessa mesma pessoa não ecoaram enquanto cruzava a sala, parando consequentemente ao lado do sofá. Gokudera encarou um par de sapatos escuros, notando pela primeira vez que tinha companhia. Seus olhos verdes se ergueram, subindo pelas longas pernas e não ficando surpreso ao ver que sua visita inusitada era Yamamoto... a pessoa que não havia saído de sua mente a manhã inteira, mas também a última que ele gostaria de ver.
O Guardião da Chuva vestia uma séria e pesada expressão em seu belo rosto. Gokudera sentou-se no sofá, ignorando o cabelo levemente amassado devido às horas naquela mesma posição. Sua companhia apenas o olhava, sem esboçar nenhum comentário, o que tornava a situação estranhamente incomoda. Por um breve momento o homem de cabelos prateados esqueceu seu problema presente, pois o futuro lhe soou tão mais deprimente e preocupante, que lidar com o moreno, ali, bem na sua frente, parecia uma tarefa totalmente fácil.
"Eu vim convidá-lo para almoçar." A voz de Yamamoto saiu tão séria quanto sua expressão. Ambas não combinavam com sua personalidade.
"Eu não estou com fome." O Guardião da Tempestade ficou em pé, pegando o envelope que estava sobre a mesinha de vidro e afastando-se. Ele teria de falar com Yamamoto sobre aquele assunto, mas não imediatamente. Havia um outro assunto muito mais urgente e pendente para ser resolvido.
"Então vamos dar uma volta." O Guardião da Chuva não recuou. "Eu preciso falar com você, Gokudera."
Os passos do Braço Direito o levaram até sua mesa. O envelope foi colocado em uma gaveta que ficava sempre trancada e cuja chave Gokudera carregava consigo para cima e para baixo. O convite de Yamamoto não o surpreendeu e a última parte o deixou apenas levemente triste. A ansiedade que ele sentiu naquela manhã praticamente não existia mais, e assim que se virou e encarou o Guardião da Chuva nos olhos, Gokudera soube que era hora de fazer o que ele já deveria ter feito há anos. Seus lábios responderam um baixo "Certo" e suas pernas o levaram até a porta. O moreno o seguiu sem fazer nenhum outro comentário e os dois Guardiões deixaram a sala e caminharam no mais puro silêncio pelo longo corredor do terceiro andar.
O homem de cabelos prateados e Yamamoto gostavam de caminhar até os parques próximos ao escritório depois do almoço. O lugar escolhido para aquele dia era grande e possuía vários bancos espalhados, além de grandes árvores que garantiam sombras em dias quentes e uma bela vista na primavera. Naquela manhã de junho a visão era bela, levemente abafada devido ao fim da primavera e início do verão, porém, incrivelmente bonita e convidativa. O local escolhido foi um banco que ficava embaixo de uma alta árvore de cerejeira, cujas pétalas pintavam aquele local como se o banco estivesse sobre um tapete cor de rosa. O Guardião da Tempestade afastou as pétalas antes de se sentar, indo imediatamente procurar um cigarro em seu bolso.
O moreno sentou-se ao seu lado, mas não disse nada.
Por cerca de cinco minutos não houve sequer a menção de uma palavra ou gesto que pudesse dar a menor dica para o que viria em seguida. O Braço Direito do Décimo fumou seu cigarro com uma estranha tranquilidade, apagando-o no cinzeiro portátil dentro de seu terno. Seus olhos verdes então encararam sua companhia pela primeira vez, notando que o Guardião da Chuva tinha uma expressão calma e serena, enquanto seus olhos sorriam para a cena que acontecia diante de seus olhos. Gokudera seguiu aquele olhar, não ficando surpreso ao ver que o homem ao seu lado admirava meia dúzia de crianças correndo. A cena pedia um segundo cigarro, mas o Guardião da Tempestade não o fez.
Yamamoto sempre quis uma família grande. A primeira vez que o homem de cabelos prateados ouviu aquilo foi quando os dois ainda estavam no Colégio, pouco antes do moreno arrumar sua primeira namorada. A frase atingiu o Braço Direito do Décimo violentamente e, para ser sincero, aquele foi o primeiro de muitos momentos dolorosos que ele viveria ao lado do Guardião da Chuva. Seus sentimentos sempre permaneceram escondidos, e não houve um único momento em que Gokudera pensou em relatá-los para a pessoa em questão. Ele não poderia dar o que Yamamoto queria. Não haveria famílias grandes com ele, ou casa cheia, ou feriados animados entre familiares. Ele era um homem, um homem que ainda por cima era solitário e praticamente sem nenhum vínculo familiar. Não havia nada que o Braço Direito pudesse oferecer além de seus sentimentos e, no fundo, aquilo não era nada se comparado ao que o moreno queria e precisava. Agora mais do que nunca eu não posso dizer nada. Ele se casará e provavelmente terá dois ou três filhos Não existe espaço para mim no futuro desse homem. Aquela amarga realização levou um sorriso ainda mais amargo aos lábios do homem de cabelos prateados. O Guardião da Chuva estava ali... tão próximo, tão ao alcance de seus dedos... tão perto da verdade, e ele não poderia dizer ou fazer nada.
"Você está muito quieto, Yamamoto." O Guardião da Tempestade fingiu-se de ignorante.
Não houve resposta inicial. A expressão calma transformou-se em séria, e o moreno encostou-se melhor ao banco, colocando as mãos sobre os joelhos e encarando algo que Gokudera não via. "Aquele homem... Quem é ele, Gokudera?"
A pergunta veio acompanhada por olhos sérios e preocupados. O homem de cabelos prateados sentiu-se levemente reconfortado por um momento ao pensar que ele não merecia aquele nível de preocupação. Seus olhos se abaixaram, encarando as crianças brincarem no parque, mas sem enxergá-las. Tudo o que ele realmente via eram eles mesmos: ele, Tsuna e Yamamoto correndo naquele mesmo local há alguns anos. O Guardião da Chuva com suas brincadeiras idiotas enquanto o Décimo ria e o Braço Direito discutia e se enfurecia por pouca coisa. Aquela lembrança não era tão antiga, mas naquele momento ela soava como uma recordação que não lhe pertencia... como se aquela fosse a vida de outra pessoa. É hora de dizer adeus àquele garoto. Eu sou um homem agora.
"Ele é meu amante." As palavras saíram naturais, como se estivessem na ponta de sua língua durante o tempo todo. O moreno não esboçou nenhuma expressão diferente. Os olhos castanhos ainda estavam fixos no homem ao seu lado. "Eu gosto de homens."
Yamamoto permaneceu no mesmo lugar, mas seus olhos se desviaram e naquele momento o Guardião da Tempestade sentiu o coração bater mais rápido pela primeira vez desde que deixara sua sala. Ele conseguia ver claramente a amizade de anos se desfazendo diante de seus olhos. Entretanto, o que veio em seguida foi tão inesperado e doloroso, que o homem de cabelos prateados entendeu no exato momento que o pior não era perder a amizade do Guardião da Chuva. Havia algo ainda mais doloroso...
"Eu fico mais aliviado." O meio sorriso levemente nervoso que brotou nos lábios do moreno atingiu o peito do Braço Direito como um punhal. Ele não esperava por aquilo. Ele não esperava por simpatia e compreensão. Não, por favor, não diga mais nada... "Eu estou feliz por você."
O homem de cabelos prateados ficou em pé, dando um passo à frente. Seus olhos não viram, mas ele sabia que sua companhia tinha uma expressão confusa. Cale a boca! Seu peito estava apertado, sua respiração alta e seus olhos cheios d' água. Aquela frase havia sido ainda mais dolorosa do que as palavras de Chrome naquela manhã, e não havia como Gokudera receber aquilo sem vacilar. Aquele dia estava sendo o pior de sua vida, e tudo o que ele queria era ir embora para longe, bem longe de toda aquela bagunça. Porém, aquele era um desejo impossível, ele sabia.
O Guardião da Tempestade respirou fundo e fez menção de se virar, mas algo roubou sua atenção. O leve toque no hino do time de baseball japonês cortou o silêncio, e Yamamoto levou a mão até o bolso, olhando da figura do homem à sua frente para o celular, e ficando visivelmente dividido. O moreno apertou o aparelho nas mãos com uma expressão séria e pediu licença com a mão, dizendo um baixo "Espere ai" antes de se afastar. O doce nome de Yurika chegou aos ouvidos do Braço Direito do Décimo e seus olhos se abaixaram. O Guardião da Chuva havia dado as costas e se afastado um pouco, e o homem de cabelos prateados fez o mesmo, mas seguindo em outra direção. Ele não soube dizer o quanto andou e se o moreno sequer notou que estava sozinho quando a ligação terminou, mas o Guardião da Tempestade só parou ao chegar a seu apartamento. A distância era considerável, mas o que o surpreendeu foi que ele não notou que havia feito aquele trajeto até que sua chave girasse na porta e ele entrasse.
Os joelhos vacilaram e Gokudera sentou-se no degrau da entrada de seu apartamento no instante em que o acesso de choro fechou sua garganta e o fez soluçar. Ele nunca chorou daquela maneira por causa de Yamamoto. Durante todos aqueles anos, nenhuma lágrima tão pesada foi derramada até aquele momento. Elas desceram gordas e salgadas por seu belo rosto, enquanto aqueles sentimentos oprimidos deixavam seu peito em um barulhento choro. Tudo parecia machucá-lo de uma só vez: o presente e o futuro. A única coisa que o Braço Direito do Décimo poderia se apegar era seu doce passado, lugar em que suas lembranças eram agradáveis, mesmo que dolorosas.
E naquele começo de tarde, o Guardião da Tempestade chorou até que não houvesse mais nenhuma lágrima capaz de deixar seus olhos. Seu corpo esticou-se em seu corredor e ele adormeceu completamente exausto. Ninguém poderia machucá-lo no mundo dos sonhos, pelo menos por enquanto, e quando o homem de cabelos prateados acordasse, haveria trabalho a fazer, um futuro para ser mudado e seria preciso aceitar a realidade que ele possuía.
A vida continuaria quando seus olhos se abrissem. Com Yamamoto ou sem ele.
Continua...
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