Vendetta
6 Dino
Dino
"Obrigado. Eu descerei em alguns minutos."
A porta foi fechada e Dino soltou um baixo suspiro enquanto passava uma das mãos nos cabelos. Aquela era a segunda vez que um dos empregados da casa o chamava para o jantar, e ele sabia muito bem que a terceira pessoa que subiria seria Romário e então as coisas ficariam sérias. Seus passos seguiram na direção de sua mesa, mas não ecoaram pelo piso de madeira devido ao largo e caro tapete persa que forrava metade do cômodo. Sentando-se levemente cansado, em sua confortável cadeira de couro, o louro apoiou um dos cotovelos sobre a superfície de madeira e suspirou novamente. Eu estou exausto... Havia uma quantidade grande de papéis e documentos ao lado, fazendo companhia para alguns livros. O trabalho estava ali, bem diante de seus olhos e, para ser sincero, ele esteve ali nas últimas 48hs e certamente estaria ali na manhã seguinte. Eu deveria ter feito isso antes. Talvez se eu tentasse ler antes de dormir...
Aquele pensamento foi acompanhado pelo barulho da porta do banheiro sendo aberta. O quarto do italiano era um dos cômodos mais largos da casa, perdendo apenas para o hall e a sala de jantar. Ele ocupava o espaço de três quartos comuns, e o banheiro era localizado na extremidade direita. O cômodo era luxuoso, mas não como o restante da mansão. Havia uma larga cama de casal, o guarda-roupa era embutido e ficava na extremidade esquerda, quase do tamanho de um outro quarto. O local em que ele estava ficava na outra ponta do cômodo, uma espécie de pequeno escritório onde ele poderia fazer os trabalhos menos pesados e que não exigissem muito de sua atenção. Havia uma mesa, uma cadeira e ao lado duas pequenas estantes com apenas o que havia de necessário como teorias administrativas e Direito. No meio do quarto havia um jogo de sofás e duas poltronas que ocupavam o espaço que deveria estar vago. Em suma, aquele era o segundo refúgio do Chefe da Família Cavallone; o local em que ele poderia permanecer quando sua posição o sufocasse e os problemas estivessem pesados demais. O primeiro lugar ficava do outro lado do oceano, em um país oriental, mais especificamente nos braços de um sério e taciturno homem de 22 anos.
Bem, na prática, seu porto-seguro estava ali, deixando o banheiro e caminhando em sua direção...
Hibari vestia apenas uma roupa de baixo branca e extremamente apertada. Em seus ombros estava uma toalha da mesma cor, e de onde estava Dino precisou abaixar os olhos, pois a cena era forte demais para seu frágil coração. O Guardião da Nuvem continuou a caminhar em sua direção, os passos completamente omitidos pelo tapete creme, mas era muito difícil negligenciar a presença do moreno, ainda mais quando ele estava seminu e literalmente parado à sua frente. O louro ergueu os olhos, esboçando um tímido sorriso, e tentando manter o olhar no rosto de seu amante. A tentativa durou menos de cinco segundos, e antes que o italiano pudesse perceber seus olhos encaravam de soslaio o baixo ventre de Hibari.
"Nós temos de descer para jantar. A comida vai esfriar e Romário ficará bravo se precisar subir para nos chamar."
"Eu não me importo." O Guardião da Nuvem encostou-se à mesa. Daquela posição o Chefe dos Cavallone pôde ver as gotículas de água que brilhavam no peito e braços do moreno. Uma delas descia devagar pelo abdômen, cortando os pequenos músculos que havia naquela região e sumindo na parte alta da roupa de baixo. O louro engoliu seco. Mentalmente ele imaginou sua própria língua fazendo aquele caminho, e tal pensamento foi suficiente para fazê-lo mexer-se inquieto na cadeira.
"Eu me importo." Dino achou melhor encarar a mesa. Era mais seguro e aqueles papéis eram bem menos tentadores. "E você deve estar com fome. Nós não almoçamos e você não pode ficar apenas com o café da manhã no estômago."
O louro apoiou as mãos nos braços da cadeira, ficando em pé, mas sentiu quando seu corpo foi levemente empurrado para sua posição de origem. Ele teria tentado levantar-se novamente se Hibari não tivesse se sentado em seu colo, passando uma perna de cada lado da cadeira. Aquele contato o fez fechar os olhos, sabendo que seu corpo o trairia sem um segundo de dúvida. Eu sou um homem. É natural que eu reaja. E eu não iniciei isso. Eu estava aqui, sentado, quieto e inocente... Os lábios do Guardião da Nuvem tocaram seu pescoço, e o cheiro dos sais de banho misturado ao cheiro natural de seu amante levaram uma onda de eletricidade ao corpo do italiano. Ele podia sentir o baixo ventre do Guardião da Nuvem pressionando sua recém-chegada ereção, e o fazendo pensar em coisas que ele não deveria. Pelo menos não na hora do jantar.
"K-Kyouya... o jantar." A voz do Chefe dos Cavallone saiu quase como um fio. Quem ele queria enganar? O moreno o tinha totalmente nas mãos.
"Depois." Foi a única resposta que Hibari proferiu antes de dominar os lábios de Dino.
O beijo tinha gosto de menta, e o louro reconheceu sua pasta de dentes no mesmo instante. Suas mãos envolveram a cintura de seu amante com certa pressa, fazendo com que o corpo pálido e delgado do Guardião da Nuvem se aproximasse ainda mais ao seu. Houve um momento de suspiro quando a ereção do italiano pressionou a entrada do homem que estava por cima, e o restante de bom senso que o Chefe dos Cavallone pudesse ter desapareceu naquele momento. Os lábios começaram a se mover com pressa e fome, necessitando de mais contato, mesmo que fosse impossível aumentar o ritmo do beijo. O ex-Líder do Comitê Disciplinar começou a mover o quadril, gemendo baixo enquanto as ereções se esfregavam. Havia certa frustração naquela voz baixa e tão sensual, como se as camadas de roupas estivessem limitando seu prazer.
O único momento em que Dino parou o que fazia foi para umedecer seus dois dedos antes de deslizá-los por dentro da roupa de baixo branca de Hibari, encontrando a entrada de seu amante e penetrando-a. A reação do Guardião da Nuvem foi um gemido contido. Seu corpo arqueou-se um pouco para cima e seus pés encontraram o chão, dando-o o apoio que ele precisava. O louro aproveitou a posição para brincar com um dos mamilos do moreno, mordiscando-o devagar ou simplesmente deixando que sua língua circulasse pela pele rosada; em poucos segundos o quarto encheu-se com gemidos baixos, mas cheios de luxúria. Um terceiro dedo foi adicionado aos outros dois, e o italiano retirou a ereção de Hibari de dentro da roupa de baixo, correndo seus dedos pela pele sensível e levemente úmida por causa do pré-orgasmo. Os gemidos do Guardião da Nuvem se tornaram mais eróticos, incentivando o Chefe dos Cavallone a colocar um pouco mais de empenho em seus dedos, massageando o ponto especial do moreno enquanto sua outra mão o masturbava vigorosamente.
Os dedos do italiano moviam-se com certa facilidade devido às horas anteriores que eles dividiram na cama, mas mesmo assim Hibari achou necessário utilizar outro método. Com o rosto vermelho e a ereção totalmente visível através daquela roupa de baixo, o Guardião da Nuvem saiu do colo de seu amante e ajoelhou-se ao chão, afastando as pernas do Chefe dos Cavallone sem nenhum aviso. Dino ficou surpreso, mas não fez menção de pará-lo. Suas mãos apertaram os braços da cadeira conforme seus olhos encaravam o moreno abrir o zíper de sua calça e abaixá-la com certa pressa. A roupa de baixo vermelha que o louro usava desceu junto com a outra peça, e apesar de se sentir levemente envergonhado por estar totalmente exposto, havia uma parte no italiano que ansiava pelo que viria em seguida. Hibari segurou a ereção em sua mão, lançando um olhar cheio de significados para o homem que o observava de cima. Seus lábios se aproximaram devagar, e quando a ponta de sua língua subiu da base até a ponta do membro do Chefe dos Cavallone, o quarto ganhava uma nova voz, esta mais rouca e menos contida.
O Guardião da Nuvem não oferecia aqueles serviços com frequência, mas nas últimas 48hs Dino perdera a conta de quantas vezes viu aquela cena. Ali, sentado e apenas observando a maneira como o moreno tentava colocar sua ereção por inteiro na boca, o louro lembrou-se do que aconteceu há dois dias, quando ele estava exatamente naquela mesma cadeira. Sua mesa estava com aqueles mesmos papéis e o horário também era basicamente igual. O jantar já havia sido servido, ele havia jantado e tentava adiantar o trabalho quando ouviu o barulho de um carro sendo estacionado em frente à mansão. Seu corpo se pôs de pé e o italiano aproximou-se da janela localizada atrás de sua mesa, ficando absurdamente surpreso ao ver quem saia de dentro do veículo. O Chefe dos Cavallone encontrou seu amante no meio da escadaria e, se ver Hibari ali o havia deixado perplexo, como ele explicaria o que sentiu quando o Guardião da Nuvem segurou seu rosto e o beijou tão intensamente que o ar chegou a lhe faltar? E, ali, na frente de pelo menos meia dúzia de subordinados!
O que seguiu aquele primeiro encontro foi uma noite passada sobre a cama, entre lençóis, lubrificantes, suor e gemidos... muitos gemidos. O moreno nada disse sobre aquela inusitada visita, e quando Dino pensava em perguntar, a conversa era desviada ou retornava para algo de cunho sexual. O segundo dia havia começado daquela mesma maneira, e os dois só deixaram o quarto para duas refeições: café da manhã e jantar. E ali, no terceiro dia do mais puro silêncio, o louro achava difícil conseguir tirar uma resposta de seu amante. Hibari sabia muito bem como deixá-lo completamente desarmado, e bem diante de seus olhos estava a prova. Uma das mãos do italiano tocou os cabelos negros, enquanto seus lábios gemiam baixo. Assistir o Guardião da Nuvem oferecendo prazer, enquanto estava ajoelhado entre suas pernas, as bochechas extremamente coradas e o olhar baixo, era algo que não tinha preço. Depois disso eu perguntarei. Depois... O Chefe dos Cavallone segurou o queixo do moreno e pediu que ele se levantasse. Ele queria chegar ao clímax, mas dentro de seu amante. Hibari passou as costas da mão esquerda sobre seus lábios e ficou em pé, retirando sua roupa de baixo com sensualidade, inclinando-se sobre o homem que estava sentado e guiando a ereção até sua entrada. O gemido inicial foi de dor e durou alguns segundos, até que seu quadril sentou-se por completo. As mãos do Guardião da Nuvem apertaram os ombros de Dino, tamanha a intensidade do que ele havia recebido. O louro segurou a cintura do moreno e apesar de querer se mover, seu corpo não se mexeu.
Partiu de Hibari a iniciativa para começar com os movimentos. Com as pernas ao redor do colo do italiano, ele utilizava o chão como apoio e os movimentos eram mais fáceis. Entretanto, o peso de seu corpo tornava cada estocada funda e certeira, e após alguns minutos a ereção do Guardião da Nuvem já anunciava que seu orgasmo aconteceria em poucos minutos. Aquele detalhe não passou despercebido e o Chefe dos Cavallone levou uma das mãos ao membro de seu amante, sorrindo satisfeito ao vê-lo tentar afastar-se, devido ao intenso novo prazer que sentia por aquele duplo estímulo. O moreno era fraco ao prazer, ele sabia. Na realidade, Hibari sempre ficava extremamente dócil quando faziam amor, e somente naquele momento Dino sabia que poderia ter um pouco de vantagem. Sua mão subia e descia com movimentos rápidos, sentindo o calor e a textura da pele daquela região. Após alguns minutos o clímax de seu amante pintou sua mão e peito, e foi impossível segurar seu próprio orgasmo devido à pressão que os músculos do Guardião da Nuvem fizeram sobre sua ereção. Seu gemido foi alto e ele não sabia dizer quantas vezes já havia emitido aquele som naquele mesmo dia.
O louro teve pouco tempo para descansar. Seus lábios foram capturados por um afoito beijo, e mesmo com a mente e o coração cheios de dúvidas, era muito difícil para o italiano ser racional naquela situação. O moreno era a única pessoa que conseguia tirá-lo do sério e, conhecendo seu amante como ele conhecia, o Chefe dos Cavallone sabia que teria de aproveitar a situação, não importasse quanto tempo ela durasse. A carícia foi retribuída, e as mãos de Dino desceram pela cintura úmida de Hibari. O beijo durou longos minutos e quando terminou, o Guardião da Nuvem abriu os olhos e esboçou um discreto meio sorriso. Os olhos do louro estavam semicerrados, mas ele sabia que não havia visto coisas. O moreno saiu sem pressa de cima do colo do italiano, oferecendo a mão para que seu amante o acompanhasse. Por um segundo o Chefe dos Cavallone entreabriu os lábios e fez menção de fazer a única pergunta que habitava sua mente desde que Hibari apareceu na mansão há dois dias. O que houve, Kyouya? Porém, tudo o que ele fez foi segurar aquela mão e ficar em pé, seguindo na direção da cama. Seu corpo estava exausto, mas ele faria tudo o que o Guardião da Nuvem quisesse. Se o que quer que estivesse aborrecendo o moreno pudesse ser esquecido com aquelas horas de prazer, então assim seria.
Porque Dino sabia que cedo ou tarde ele teria de perguntar, e no momento em que seus joelhos se apoiaram na cama e Hibari o puxou para um abraço, o louro soube que talvez não gostasse do que fosse ouvir.
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A noite foi passada sobre a macia e confortável cama. O italiano pegou no sono no auge da madrugada, perdendo a consciência depois de seu último orgasmo. Se o Guardião da Nuvem havia dormido em seguida, ele não sabia. O que o Chefe dos Cavallone, sim, sabia foi que o sol nasceu brilhante, e seus raios adentraram as frestas das cortinas, iluminando o largo cômodo. Dino moveu-se na cama, abrindo os olhos devagar e não ficando surpreso ao ver seu amante em seus braços. O moreno ocupava o seu lado da cama, e metade do corpo estava sobre o louro. Os lábios do italiano se repuxaram em um meio sorriso e ele afastou-se um pouco, substituindo seu corpo por um dos travesseiros, procurando deixar Hibari mais confortável. O Guardião da Nuvem mexeu-se na cama e seus olhos negros se abriram devagar, fitando sua companhia, mas sem dizer nada.
"Bom dia, Kyouya." A frase veio acompanhada por um gentil beijo no alto da cabeça do moreno. Como sempre, não houve resposta. "Quer tomar banho primeiro? Nós precisamos descer para o café."
A expressão no rosto de Hibari era branca. Ele havia apoiado o queixo sobre o travesseiro, olhando para o Chefe dos Cavallone, mas sem dizer nada. Uma das mãos de Dino subiu pelas costas nuas de seu amante e os olhos negros se fecharam, como se aprovassem a carícia. O louro sorriu e substituiu seus dedos por seus lábios, depositando curtos beijos pela extensão da pele pálida. "Nós precisamos conversar, Kyouya." As palavras do italiano saíram baixas, sussuradas. O sotaque tornava cada palavra extremamente charmosa. "Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não é? Eu sempre irei te ouvir e sempre te ajudarei no que for preciso."
Não houve resposta por algum tempo. O Chefe dos Cavallone depositou um último beijo, este na nuca do Guardião da Nuvem, antes de fazer menção de sair da cama. Entretanto, assim que suas pernas ficaram em pé, uma das mãos do moreno o segurou pelo pulso e seu corpo virou-se. Os dedos se entrelaçaram e por um momento ele cogitou a ideia de voltar para cama e passar a manhã nos braços daquele misterioso homem.
"Eu senti sua falta. Eu preciso de um motivo para visitá-lo?"
A rápida sinceridade fez Dino corar, mas suas dúvidas ainda estavam ali. Seus lábios se repuxaram em um meio sorriso, e ele abaixou-se um pouco, beijando a mão de seu amante antes de seguir para o banheiro. Eu quis ouvir aquelas palavras, mas elas não são totalmente verdadeiras... e nem totalmente falsas. Ele está escondendo alguma coisa.
O banho foi longo e relaxante. A água morna o deixou descansado e o cheiro dos sais de banho que ele havia comprado em sua última viagem à Espanha o despertou totalmente. Quando deixou o banheiro, o louro usava somente a toalha branca ao redor da cintura, e não ficou surpreso ao ver a cama arrumada e seu amante sentado na cadeira, encarando o jardim e o céu extremamente azul. Hibari virou o rosto ao vê-lo, mas permaneceu no mesmo lugar. O italiano deu a volta na cama e entrou na porta que levava ao seu largo closet, caminhando até o local onde ficavam suas camisas sociais.
"Eu terei de me ausentar no almoço. Se quiser comer algo diferente, peça ao cozinheiro." O Chefe dos Cavallone afastava algumas camisas. O barulho dos plásticos era a única coisa naquele local, mas ele pôde sentir quando o Guardião da Nuvem caminhou até a entrada do closet.
"Eu irei com você."
"Não, você não pode ir, Kyouya." Dino pegou uma camisa azul clara e uma calça social negra. Ele está apenas sendo teimoso. "Eu almoçarei com Squalo. Nada demais."
"Eu irei com você."
A insistência fez o louro virar o rosto, apenas para encarar uma face levemente sonolenta e inexpressiva. O moreno vestia apenas a parte de cima do pijama − e que pertencia ao italiano −, e a roupa de baixo. A visão era apetitosa e seu baixo ventre tornou-se apertado por baixo da toalha, mas o Chefe dos Cavallone se manteve sério. A cada segundo suas desconfianças só aumentavam, embora intimamente ele estivesse se sentindo extremamente querido e amado.
Hibari não insistiu, mas permaneceu o tempo todo sentado na cama e com os braços cruzados. Dino vestiu-se e caminhou até ele, suspirando e depositando um estalado beijo no alto da cabeça morena. "Vista-se e vamos tomar café. Eu estou faminto e tenho certeza de que você também está."
"Eu posso tomar o café aqui."
"Claro que pode, mas eu gostaria de ter a sua companhia na mesa e Romário não me deixará tomar o café da manhã aqui. Não depois do bolo que demos na noite passada."
"Você poderia tirar férias." A teimosia do Guardião da Nuvem fez o louro sorrir. Era adorável.
"Sim, eu poderia, mas não agora." O louro abaixou-se, apoiando as mãos sobre os joelhos do moreno. Seus olhos cor de mel se ergueram e o sorriso desapareceu de seus lábios. "Eu não sei o que está te preocupando tanto, mas eu estarei aqui se precisar conversar. Porém, eu tenho trabalho a fazer, Kyouya, mas prometo que estarei de volta até o final da tarde e poderemos passar o tempo que você quiser juntos."
Não houve resposta por parte de Hibari. Os olhos negros desviaram-se após alguns segundos, como se enxergassem algo invisível naquela parte do quarto; ele ficou em pé, caminhando na direção do banheiro. O italiano caminhou até o closet novamente e pegou uma troca de roupas limpas para seu amante. Havia uma parte reservada para o Guardião da Nuvem, e sempre que saia para fazer compras para si mesmo, o Chefe dos Cavallone acabava comprando algum mimo para o moreno. Aquela manhã ensolarada e levemente abafada pedia roupas frescas.
Os dois amantes deixaram o quarto e foi um pouco estranho percorrer a longa escadaria que ligava o hall ao segundo andar. Quatro subordinados esperavam Dino ao pé da escada, e todos, sem exceção, fizeram uma polida reverência e desejaram um sincero e caloroso bom dia ao dono da casa e sua companhia. A figura de Romário surgiu assim que o louro pisou no hall, e pela maneira como o Braço Direito ajeitou os óculos, ele não estava muito bem humorado.
"O café está servido." A voz de Romário saiu baixa. Seus olhos estavam no moreno.
"Squalo confirmou o almoço?" O italiano fingiu não notar o mau humor. Quando deixassem a mansão ele teria todo o tempo do mundo para se desculpar.
"Sim, às 13hs no restaurante de sempre. Eu o dirigirei."
"Certo, isso me dá algumas horas para trabalhar antes do almoço."
A resposta pareceu agradar Romário e o senhor sorriu quando chegaram à entrada da sala de jantar. O cômodo era localizado no lado direito do hall, e era o segundo maior local da casa. A decoração parecia ter saído de um filme antigo, com tapetes caros, peças antigas de madeira, quadros, emblemas e uma larga mesa de mogno escuro. Havia comida suficiente para pelo menos umas doze pessoas, e o cheiro do café e dos pães frescos fez a barriga do Chefe dos Cavallone roncar. As moças responsáveis por servirem a comida utilizavam uniformes e esperaram o dono da casa se sentar para então fazerem uma polida reverência antes de deixarem a sala de jantar. Nenhum empregado assistia as refeições quando Hibari estava na mansão, e Dino sabia que eles faziam isso para dar privacidade ao casal. Eles sabem que Kyouya é o outro dono da casa. Eu gosto disso.
O Guardião da Nuvem, por outro lado, não parecia compartilhar aquele pensamento, pelo menos não naquele momento. O moreno sentou-se ao lado direito do louro, e se serviu, mas não disse uma única palavra. Seus belos olhos negros estavam baixos, dirigidos à comida. O italiano decidiu não atrapalhá-lo e deixá-lo com seus pensamentos. O que quer que estivesse incomodando seu precioso Kyouya poderia ser resolvido, ele tinha certeza disso. O Chefe dos Cavallone se serviu com uma alta taça de suco de laranja e pães doces com geleia. Seu estômago pareceu feliz ao receber um pouco de carinho, e por alguns minutos Dino tirou sua atenção de seu amante, para dedicar-se a um outro assunto que também estava roubando seu sono nos últimos dias.
Antes de Hibari invadir sua mansão, o louro havia recebido um estranho convite de Squalo para um almoço. Aquele convite não lhe teria soado tão inusitado se as circunstâncias não fossem suspeitas. Sua relação com seu amigo de infância era boa... beirando o razoável. Desde que o homem de longos cabelos prateados entrou para a Varia a amizade deles tornou-se um pouco distante, e os anos os moldaram e mudaram para o que eram naquele exato presente. O italiano manteve a mesma personalidade levemente ingênua e gentil, embora os anos e a morte prematura de seus pais o tivessem transformado em alguém um pouco mais realista. O Vice-Líder da Varia, por outro lado, ainda carregava o jeito explosivo de ser, porém, sua essência preocupada ainda estava ali... em algum lugar, bem escondido. O tempo os afastou, mas sempre que se viam era como se os dias não tivessem passado. Piadas bobas, brincadeiras ofensivas... a velha amizade retornava.
E naquela tarde, o Chefe dos Cavallone encontraria aquele homem e ouviria o que seu amigo teria a dizer, independente do que fosse. Quando recebeu a ligação de Squalo, Dino estava atrás de sua mesa, no escritório, afundado em papéis que precisavam ser lidos em poucas horas. O telefone só não o surpreendeu mais do que o conteúdo da curta mensagem dita pelos lábios do Vice-Líder: "Eu preciso falar com você. Encontre-me no restaurante próximo à joalheria." A data escolhida fora no domingo, mas ele esteve ocupado demais com Hibari, recebendo e oferecendo prazer para lembrar-se de almoços e conversas. A refeição havia sido adiada para aquela terça-feira, e dessa vez o louro finalmente saberia do que se tratava todo aquele mistério.
O fim do suco de laranja também marcou o final dos pensamentos do italiano. Seus olhos procuraram automaticamente o Guardião da Nuvem, ficando surpreso ao sentir dois olhos negros fitando-o. O moreno tinha o cotovelo direito apoiado na mesa, e sua mão segurava seu rosto, causando em sua bela face uma espécie de tédio. O Chefe dos Cavallone sorriu e levou uma das mãos ao rosto de Hibari, tocando a pele e sorrindo com o contato. "Não quer mais alguma coisa? Você comeu pouco, Kyouya."
"Eu não estou com fome." A resposta saiu baixa e levemente vazia. Seu amante havia bebido meia xícara de café e comido apenas um pão doce pequeno e com manteiga.
"Eu estou preocupado com você, Kyouya. Você não se alimentou direito nesses dias, então faça um esforço para comer, está bem?"
As palavras a princípio não tiveram nenhum efeito, mas no segundo seguinte o Guardião da Nuvem levou a mão até outro pão doce e Dino sorriu satisfeito. O moreno era alto, quase tão alto quanto ele, mas esguio e estranhamente delicado. Desde sempre o louro se preocupava com a saúde de seu amante, pois Hibari tinha o péssimo hábito de pular refeições quando estava ocupado ou trabalhando.
O restante do café da manhã passou no mais puro silêncio. O italiano limpou o canto da boca antes de se levantar, seguindo com o Guardião da Nuvem para fora da sala de jantar. Romário os encontrou novamente no hall, e dessa vez o Chefe dos Cavallone sabia que não teria para onde fugir.
"Os papéis estão no escritório." O Braço Direito falou antes mesmo de ser perguntado. "A reserva no restaurante foi confirmada e sairemos ao meio-dia."
"Certo." Dino tentou não parecer tão desanimado. Ele simplesmente não suportava trabalho de escritório.
Romário deixou a mansão pela larga porta de entrada, e a luz do Sol que invadiu o hall naquele curto espaço de tempo fez os olhos cor de mel se apertarem por causa da claridade. Seu rosto virou-se à direita, pronto para se desculpar com o moreno, mas tudo o que recebeu foi o nada. Hibari subia as escadas e apenas disse um baixo "Eu estarei dormindo", enquanto subia. Os lábios de Dino se repuxaram em um triste meio sorriso, imaginando o quão agradável não seria compartilhar sua cama com o Guardião da Nuvem, ao invés de estar preso com papéis e carimbos em um escritório solitário.
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O ar estava abafado e o Sol brilhava no céu, ofuscando os belos olhos cor de mel. O carro que o levaria para o almoço no centro de Roma estava estacionado em frente ao último degrau da pequena escadaria de mármore que ligava a mansão ao jardim. Sentado no banco do motorista estava Romário, que esboçou um meio sorriso ao ver seu Chefe descendo os degraus da escadaria.
"Eu realmente não gostaria de sair hoje," Dino murmurou ao parar em frente ao carro. Seus lábios formaram um meio sorriso e ele agradeceu ao subordinado que abriu a porta do veículo para que ele entrasse.
"A noite será fresca." O Braço Direito arrumou o retrovisor, encarando o homem louro sentado no banco de trás. "Tem certeza de que não quer levar o Hibari?"
"Kyouya nunca aceitaria ir a um restaurante no horário de almoço, ainda mais para compartilhar uma refeição ao lado de Squalo." O italiano sorriu. "Eu estou preocupado com ele. Kyouya tem agido de maneira estranha nesses últimos dias."
"Eu perguntei ao Braço Direito e ele me informou que não sabe de nada." Romário deu partida no veículo. "Kusakabe apenas disse que Hibari fez as malas e simplesmente deixou o Templo."
Alguma coisa está acontecendo e ele não quer me dizer. O Chefe dos Cavallone virou o rosto, encarando o segundo andar da mansão. As cortinas de seu quarto estavam fechadas e ele sabia que seu amante não ofereceria nem ao menos um pequeno vislumbre como despedida. O carro deu a volta ao redor do grande e imponente chafariz, que possuía a forma de dois cavalados alados; Dino recostou-se melhor ao banco, permitindo-se uma rápida olhada em uma pequenina parte de seu império.
A propriedade da Família era vasta e seus olhos cor de mel jamais seriam capazes de enxergar toda sua extensão. Entretanto, o pouco que conseguiu ver foi suficiente. O jardim estava verde, extremamente vivo e vistoso. As flores pareciam bem cuidadas e as árvores cheias de frutos enquanto projetavam sombras em lugares estratégicos. O louro amava aquela calmaria e a maneira como sua casa estava localizada afastada de toda a agitação do centro. Os Cavallone haviam construído a mansão muito antes da primeira geração e no decorrer dos anos ela foi apenas reformada de acordo com os gostos pessoais de cada proprietário. Dino, em especial, havia mudado pouca coisa. À seu pedido, havia um estacionamento próximo a casa, o jardim fora ampliado e as paredes repintadas. Na época de seus pais havia um largo curral afastado certa de dez minutos da mansão, mas o louro pediu que ele fosse derrubado. Com os anos e as responsabilidades, o italiano tinha pouco tempo para dedicar à equitação. No local do antigo curral fora construído um sobrado onde moravam alguns de seus subordinados. Romário tinha sua própria residência, esta afastada cerca de vinte minutos. A casa havia servido como residência dos Braços Direitos desde a primeira geração da Família.
O grande portão fechou-se nas costas do automóvel e o Chefe dos Cavallone sentiu-se automaticamente mais solitário. Os dois cavalos que estavam incrustados no portão se encontraram, e Dino imaginou se Hibari estaria confortável na larga cama. Depois que eles se despediram no hall, após o café, o Guardião da Nuvem seguiu para o quarto e ali permaneceu pelo restante da manhã. Quando o louro subiu para tomar banho e trocar de roupa, o moreno dormia profundamente na cama, como uma criança exausta depois de um dia de brincadeiras. Ele vai ficar bravo por eu ter saído sem dizer nada. Mas como eu poderia? O caminho de pedra batida deu lugar à estrada e o italiano recostou-se melhor ao banco, fechando os olhos e permitindo-se relaxar. A viagem até o centro duraria cerca de quarenta minutos, e ele poderia utilizar esse tempo para descansar. O sono chegou após alguns minutos, culpa do ar condicionado ligado e o cansaço dos últimos dias. A mente do Chefe dos Cavallone tornou-se branca pouco a pouco, e a última coisa que ele se lembrou foi do beijo que recebeu de seu amante há dois dias, quando o viu invadindo sua mansão. Dino ainda podia sentir o gosto daquele momento.
O restaurante escolhido por Squalo ficava localizado em uma esquina. O Toscano não era conhecido por suas saladas e pratos leves, o que a princípio não surpreendeu o louro, mas ele nada disse. Conhecendo seu amigo de infância como ele conhecia, era difícil de acreditar que o vice-líder da Varia estivesse preocupado em manter a forma. Se eu me lembro bem, Squalo já foi expulso de um restaurante porque comeu mais do que o valor estabelecido. O pensamento levou um meio sorriso aos lábios do Chefe dos Cavallone assim que ele pisou na calçada.
O restaurante era modesto do lado de fora, com meia dúzia de cadeiras sobre a calçada, um letreiro escrito por uma bela e corrida caligrafia e um jovem e simpático rapaz na entrada. Porém, o interior era o que realmente conquistava os frequentadores do local. Seria impossível não notar o quão belo e agradável era o Toscano, especialmente em um dia quente e abafado como aquele. O ar condicionado tocou a pele de Dino como a mão gentil de um amante (tal pensamento foi automaticamente afastado, pois em seus anos de experiência, Hibari o havia atingido com tonfas com mais frequência do que oferecido uma mão carinhosa.), e seus lábios sorriram. A recepcionista era uma bela mulher por volta de seus trinta anos, com a pele morena e grandes olhos verdes que pareciam duas esmeraldas. Tania era seu nome, escrito no crachá pendurado ao lado esquerdo de seu blazer.
"Reserva para Odin Voallenca," A voz do louro saiu quase como música. A sensação de não estar queimando debaixo do Sol o tornava ainda mais gentil. "Acredito que minha companhia já esteja aqui?"
A moça encarou a tela do computador e digitou o sobrenome em uma rapidez espantosa. Em seguida, seus olhos se ergueram e ela sorriu, pegando um dos cardápios que estavam sobre o balcão. "O Sr. Asulqo o espera."
O italiano agradeceu e seguiu a moça até o meio do restaurante. Seus olhos haviam capturado sua companhia na metade do caminho. O Vice-Líder da Varia estava de costas, sentado em uma mesa para duas pessoas, vestindo um conjunto social negro. Seus longos cabelos prateados estavam presos por um discreto rabo de cavalo, e assim que o Chefe dos Cavallone parou ao lado da mesa, Squalo ergueu os olhos, mas não esboçou nenhuma reação.
"Grazzie."
Dino sentou-se em frente à sua companhia e sorriu. Era estranho estar ali, em uma quente tarde de verão, quando ele poderia estar em sua casa, aproveitando o frescor de seu quarto, fazendo amor com Hibari até que ambos perdessem a consciência. Era confuso sentar-se com seu amigo de infância, pois apesar dos anos que passaram lado a lado, ambos seguiram caminhos distintos e teoricamente nada os teria mantido unidos se não fossem os assuntos relacionados à máfia. Era agradável ver um rosto amigo e vivo. Principalmente vivo. As pessoas não tinham uma vida muito longa naquele ramo de trabalho.
"Odin Voallenca?" A voz do Vice-Líder transbordou sarcasmo. "Você ainda usa esse nome ridículo?"
"Eu gosto de como soa." O italiano não mentiu. Havia certo charme em como aquilo soava. "Asulqo Persubi? Eu não acho que você pode dizer qualquer coisa sobre o meu nome."
"O que você queria? Que eu usasse meu nome verdadeiro? O quão estúpido você consegue ser, Cavallone?"
Dino sorriu e agradeceu ao rapaz que veio lhe servir um copo d' água. O líquido desceu deliciosamente por sua garganta seca, e somente quando não havia uma única gota restante foi que o louro continuou sua conversa. "Já escolheu? Eu vou pedir o que sempre peço."
"É tudo a mesma coisa." O cardápio estava fechado e embaixo de um dos cotovelos do homem de cabelos prateados. Algo naquela cena fez o italiano pensar que sua companhia não havia nem se dado ao trabalho de olhar as opções.
O Chefe dos Cavallone pediu frango e uma das poucas saladas, enquanto Squalo optou por um prato cuja carne ocupava quase todo o prato. Ver aquela cena o fez lembrar-se automaticamente dos tempos de escola e da maneira como o Vice-Líder vivia provocando-o por causa de sua lancheira. “Por que você sempre traz maçã de sobremesa? Sua família não é pobre!” Eu sempre ria e dizia que não sabia o que tinha dentro da lancheira até abri-la. Minha mãe preparava o lanche, eu apenas me sentia agradecido por isso.
"Então, você concordou com a aliança com os Moretti?"
Havia mais dois pedaços de frango no prato de Dino quando aquelas palavras chegaram aos seus ouvidos. O louro deu um tímido gole em sua taça de vinho branco, limpando o canto de sua boca com o guardanapo logo em seguida. Então é sobre isso, pensou o italiano. A ideia de que o assunto fosse aquele passou por sua mente, e intimamente ele sabia que cedo ou tarde ouviria aquela pergunta.
"Ainda não. Estou avaliando a situação." A resposta foi dita com a máscara de Chefe. Todas as vezes que precisava conversar sobre assuntos profissionais Dino vestia aquela expressão. Olhos baixos e lábios semicerrados.
Squalo encarou seu prato vazio e entrelaçou os dedos. O silêncio entre eles não era algo surpreendente, mas naquele momento o louro achou que significava muito mais do que a simples falta de assunto. O frango em seu prato sumiu após duas garfadas e ele decidiu que era hora de descobrir um pouco mais.
"Eu soube que seu Chefe aceitou a aliança. Eu fiquei um pouco surpreso. Ele não é o tipo de pessoa que aceita alianças. Há anos Tsuna tenta e não consegue nada, pobre rapaz."
O Vice-Líder ergueu os olhos e naquele momento o italiano soube que seu amigo estava tão surpreso quanto ele. O restante do vinho desceu estrangeiro por sua garganta, e quando a taça foi pousada na mesa, o Chefe dos Cavallone se sentiu um pouco melhor. O homem de cabelos prateados não era fã de açúcar, então eles não precisariam pedir sobremesa.
"Eu acho que isso tudo é armação." A voz de Squalo saiu mais baixa do que de costume, mas a seriedade em seus olhos era hipnotizante. "Eu acho que aquela Família nos convidou, e convidou os outros Chefes, por pura fachada. O objetivo deles é você. E não venha me dizer que não sabe disso, Dino."
Ele fala como Romário. Dino não pôde evitar um meio sorriso. Quando a mensagem dos Moretti chegou até suas mãos, seu Braço Direito deixou bem claro no mesmo instante em que repassava o envelope que aquilo não cheirava bem. Por dentro o louro se sentiu aliviado, já que conhecia melhor do que ninguém a história daquela Família, e ouvir que eles queriam ter laços com os Cavallone o deixava levemente feliz. Entretanto, ele mentiria se dissesse que a desconfiança não o assolou naquele mesmo instante e a ideia de que aquilo tudo fosse armado não passou por sua cabeça. Eles não sabem o que eu sei. Para eles eu sou apenas ingênuo. Apenas um alvo pronto para ser atingido, mas eu não posso fazer nada... por enquanto.
"Eu considerarei suas palavras, obrigado." O italiano sorriu novamente.
"Você está sendo estúpido, Haneuma." O homem de cabelos prateados juntou as sobrancelhas. "Algo está acontecendo e você não quer ver. As mesmas pessoas que mataram seus pais querem uma aliança com o herdeiro da Família? O quão idiota você é?"
O sorriso desapareceu dos lábios do Chefe dos Cavallone, mas ele não se zangou. Aquele assunto nunca o aborreceu, apenas o entristeceu em determinado momento de sua vida, mas não mais. Eu era uma criança, um menino. Eu sou um homem agora. "Meus pais morreram decorrente de um acidente. Os Moretti não tiveram parte nisso."
"Isso é o que você diz." Squalo parecia visivelmente contrariado e era fácil perceber que o almoço havia terminado. "Eu não vou desistir enquanto não provar que isso tudo está sendo planejado, e quando isso acontecer eu vou acabar com todos eles." Havia ressentimento e uma pitada de contrariedade que não passaram despercebidos por Dino. Seus olhos cor de mel se abaixaram e ele piscou longamente. É Xanxus. Ele está preocupado com Xanxus.
"Avise-me se descobrir algo." O louro ergueu a mão assim que viu o Vice-Líder ficar em pé e levar a mão direita para dentro do bolso da calça. "É por minha conta. Há meses que venho tentando convidá-lo para almoçar, mas você nunca aceita. Obrigado pela companhia."
O homem de cabelos prateados encarou sua companhia por um momento, retirando a mão do bolso e saindo da mesa sem olhar para trás. O italiano permaneceu no mesmo lugar até que o jovem garçom retornasse com a conta. O valor das refeições era alto no Toscano, mas o Chefe dos Cavallone sentiu que seu dinheiro foi muito bem investido. O caminho até a saída do restaurante foi curto, e assim que saiu do frescor do ar condicionado para ganhar a calçada quente e ensolarada, Dino sentiu-se um pouco mais cansado. Romário o esperava do lado de fora, abrindo a porta e entrando no veículo apenas quando seu Chefe estava bem protegido. O louro sorriu com aquela preocupação, fingindo ignorância com relação aos três outros carros que estavam estacionados em locais estratégicos da rua, todos contendo pelo menos cinco subordinados prontos para defendê-lo se alguma casualidade acontecesse.
"Você não parece bem, Chefe." O Braço Direito comentou assim que deu partida no carro.
A resposta foi um meio sorriso acompanhado por um breve suspiro.
Não houve conversa pelo restante do caminho até a mansão. O Sol ainda brilhava forte no céu quando o italiano desceu do carro e seguiu na direção da entrada. Seus olhos ergueram-se momentaneamente e seu coração pulou uma batida ao ver Hibari por trás da grossa cortina vinho de seu quarto. Os passos que começaram lentos e preguiçosos se transformaram em uma vigorosa caminhada, e quando chegou ao corredor do segundo andar, o Chefe dos Cavallone se pegou correndo e abrindo a porta de seu quarto às pressas.
Eu preciso dele. Eu preciso do Kyouya. Dino não entendia porque seu peito estava tão apertado, ou porque assim que viu o Guardião da Nuvem sentado em sua cama o peso que estava em suas costas desapareceu quase automaticamente. Eu não preciso usar a máscara de Chefe nesse quarto. Eu não preciso tomar decisões. A porta foi fechada e o louro caminhou na direção da cama, sentindo uma mistura de saudade e uma estranha tristeza. O moreno o esperou no meio da cama e quando o Chefe dos Cavallone estava ao alcance de seus dedos, Hibari o puxou pela gola da camisa e o beijou profundamente. As mãos do italiano retiraram com pressa a calça de moletom que seu amante usava e em poucos segundos ambos estavam completamente nus sobre a cama. O Guardião da Nuvem não pareceu se preocupar com a pele úmida de suor do Chefe dos Cavallone e, honestamente, Dino nem se quer lembrava-se que estivera fora daquele pequeno e íntimo espaço. Perdido nos lábios e braços da pessoa que ele tanto amava, o louro tentava afastar a sensação de perda que se instalou de repente em seu peito e o fazia sentir como se aqueles momentos de felicidade estivessem com os dias contados.
Continua...
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