Vendetta

2 Gokudera


Gokudera

[ Nove anos no passado – tempo presente. ]

Eu amo Yamamoto, mas ele não sabe sobre os meus sentimentos.

Gokudera fechou o laptop no mesmo instante em que a porta do escritório foi aberta. Uma alta risada ecoou pela sala, lembrando-o de que era hora do almoço. Sua companhia estava parada à porta, os olhos brilhantes e o mesmo sorriso cativante de sempre. O Guardião da Tempestade pegou o terno que estava sobre uma das poltronas de sua sala e caminhou na direção do homem. Entretanto, antes de sair, o Braço Direito do Décimo Vongola se permitiu uma rápida e prazerosa olhada no moreno. Seus pés pararam de andar quando ambos ficaram lado a lado na porta, e os olhos verdes se ergueram lentamente. Yamamoto era alto, mais de um palmo mais alto do que ele. Os anos de baseball haviam criado músculos nos lugares certos, e a pele morena dava àquele homem um incrível e sedutor aspecto saudável. Os olhos eram castanhos e os cabelos curtos e negros. Seus dentes eram brancos e perfeitamente alinhados, como se o Guardião da Chuva tivesse sido meticulosamente feito. Yamamoto abaixou os olhos e sorriu, provavelmente sem entender porque Gokudera o encarava. Eu preciso da minha dose diária de Yamamoto, o homem de cabelos prateados pensou ao abaixar os olhos e ganhar o corredor. Eu apenas posso tê-lo por algumas horas durante o dia.

O restaurante escolhido naquele dia ficava um pouco afastado do centro comercial, então o Guardião da Tempestade precisou utilizar o carro. A primavera havia transformado Namimori em uma cidade bela e animada, e seria impossível não reparar em todas aquelas cores e detalhes. O céu estava azul, mas o Sol não tão quente, apenas agradável. O Braço Direito do Décimo repassava mentalmente o que teria de fazer quando retornasse, imaginando se teria tempo de fazer compras.

"Ah, obrigado por ter me avisado sobre minha pasta. Eu não fazia ideia de que a havia deixado no escritório. Yurika ficou preocupada quando cheguei de mãos abanando." O moreno falava enquanto observava a paisagem. Um de seus braços estava apoiado à janela.

"Eu vi por mero acaso." Mentira. "Da próxima vez olhe antes de ir embora, idiota." Verdade, você é um idiota. "E como está Yurika?"

"Bem, ela está animada porque vai visitar os pais no fim de semana."

O homem de cabelos prateados encarou o semáforo e continuou seu caminho. Ele sabia que poderia perguntar como Yamamoto se sentia com aquela pequena viagem, e divagar um pouco mais sobre o assunto, mas a verdade era que naquele dia ele não se sentia inclinado a ouvir o Guardião da Chuva falar sobre a namorada. Normalmente os dois conversariam por algum tempo a respeito de algum assunto relacionado à mulher, mas não naquele começo de tarde. Há alguns dias Gokudera não conseguia ouvir o nome de Yurika sem sentir uma estranha raiva interna. Eu já passei dessa fase. Eu já tive meu momento de ciúme. Isso é apenas ridículo. Um segundo semáforo fechado fez o Braço Direito do Décimo se permitir alguns minutos de pensamentos. Seus olhos pousaram discretamente em sua companhia, mas o moreno estava ocupado demais admirando a paisagem, ou simplesmente encarando o vazio enquanto pensava na namorada. A segunda mulher mais sortuda do Japão. A primeira obviamente é Kyoko-san!

Os dois Guardiões dos Vongola eram amigos há mais de cinco anos. No começo Gokudera não utilizaria a palavra "amigos", mas a designação resumia bem o tipo de relação que possuíam. Desses anos, há dois Yamamoto havia incluído Yurika como sua namorada. Antes da mulher de cabelos curtos e seios avantajados existiu Ami-chan, Erika e Maya. O homem de cabelos prateados esteve presente em todos os relacionamentos do Guardião da Chuva, e também sofreu em todos. Ami-chan, a primeira, aconteceu no primeiro ano do Ensino Médio e Gokudera ficou completamente devastado quando Yamamoto chegou em uma manhã de quarta-feira, anunciando para ele e Tsuna sobre “A garota que eu gosto hehehe”. O Braço Direito alegou que não se sentia bem desde que chegara ao Colégio, decidindo retornar para seu apartamento. Ele nunca chorou tanto quanto naquele dia, ou nos dias que se seguiram. Com a ajuda de uma receita forjada por Shamal, o homem de cabelos prateados – na época apenas um garoto de quinze anos, inexperiente, arredio e completamente apaixonado – ficou ausente por duas semanas. Gokudera só deixou seu apartamento para visitar seu precioso Jyuudaime. Quando retornou ao Colégio, a aceitação demorou a acontecer, mas ela veio com o tempo, principalmente, pois foi uma questão de dias até o idiota se confessar para Ami-chan e ser, eventualmente, aceito. Erika e Maya conseguiram uma reação bem menos negativa do Guardião da Tempestade, e Yurika simplesmente não o fez sentir quase nada.

Gokudera não acreditava que seus sentimentos seriam correspondidos. Aquele tipo de esperança ele nunca teve e nunca teria. Os anos serviram apenas para acalmar os hormônios e o fazer amadurecer. O que no início pareceu o fim do mundo se transformou apenas em mais um dia após o outro. Como amigo do moreno, o homem de cabelos prateados ouviu suas tristezas e problemas com as namoradas, aconselhou em algumas situações, em suma, esteve sempre disponível. O que muitos viam como crueldade Gokudera enxergava como algo natural. Yamamoto não estava errado. Ele não sabia e nunca saberia sobre seus sentimentos, então não havia problema. O Braço Direito do Décimo aproveitava os momentos que tinham a sós, mesmo que o assunto fosse algo que a namorada fez ou fazia. Ignorar o tópico principal e só se focar no timbre da voz do Guardião da Chuva era a melhor parte de todas as conversas.

O carro parou e junto com ele os pensamentos de Gokudera. Seu cinto foi retirado e ele saiu do carro, cobrindo os olhos por causa do Sol e deixando o terno dentro do veículo. Yamamoto já estava na calçada quando o homem de cabelos prateados surgiu e os dois adentraram ao restaurante lado a lado. O ar-condicionado tornava qualquer ambiente agradável e não foi diferente naquele dia. O restaurante familiar ainda estava vazio, mas ambos sabiam que era uma questão de tempo até que o local se tornasse cheio. O Braço Direito do Décimo sugeriu uma mesa afastada da entrada e próxima a um dos ares-condicionados. O moreno aceitou a ideia, afrouxando a gravata logo depois de se sentar.

"O que acha de tomarmos sorvete de sobremesa?" O Guardião da Chuva tinha um sorriso brincalhão nos lábios. Desde os tempos de Colégio ele sugeria sorvete quando o dia estava aberto e o Sol brilhando no céu.

"Mas eu não ficarei torrando no Sol enquanto meu sorvete derrete, e definitivamente não vamos tomá-lo dentro do meu carro."

Yamamoto riu e acrescentou que a sobremesa ficaria por conta dele. O almoço naquele dia seria pago por Gokudera. Os dois amigos possuíam um sistema em que, quando um estava com pouco dinheiro, o outro pagaria e assim o círculo continuaria. O Guardião da Tempestade sabia que o moreno sempre ficava sem dinheiro antes do final do mês e ele não se importava em pagar. No mês passado ele pagou aquela caríssima viagem para Kyoto. Vez ou outra as lembranças daquele fim de semana ainda atormentavam o homem de cabelos prateados. Yurika em pessoa veio entregar-lhe um souvenir da viagem e verdade fosse dita, o Braço Direito do Décimo nunca soube direito como lidar com as namoradas do Guardião da Chuva. O presente continua em uma caixa no fundo do meu guarda-roupa e ficará lá para sempre. A atendente chegou com os cardápios e Gokudera decidiu que era hora de parar de pensar naquilo. Nada vai mudar. Nada.

O moreno escolheu o maior combo do cardápio, mas o Guardião da Tempestade foi mais modesto. Ele não andava sentindo muito apetite, então preferiu um largo prato de salada e uma porção de tempura. Como Yamamoto não bebia álcool (apenas em ocasiões muito especiais) o homem de cabelos prateados decidiu pedir um suco. Não era agradável beber sozinho.

"Eu estou tendo um pouco de trabalho com aquele relatório. Você pediu para que eu escrevesse tudo o que vi, mas... eu não vi nada."

"Impossível, Yamamoto." O Braço Direito do Décimo bebericou um gole d’água do copo que lhe fora servido pela atendente. O líquido desceu deliciosamente por sua garganta. "Você deve ter visto ou ouvido alguma coisa."

"Hm... Eu apenas não lembro."

"Faça um esforço. E não enrole com o relatório. O Jyuudaime o quer antes do fim da semana."

Os dois Guardiões permaneceram mais alguns minutos conversando sobre o atual trabalho, até suas refeições serem servidas. A conversa então deu lugar à degustação, e os olhos verdes de Gokudera vacilaram entre seu próprio prato e a pessoa sentada à sua frente. Yamamoto sempre parecia estar comendo com muito gosto, então era incrivelmente agradável vê-lo apreciar uma refeição. Quando comia algo que não era de seu gosto, o moreno sempre fazia uma expressão diferente, beirando o sério ou o asco, como uma careta. Porém, quando seus lábios tocavam algo que realmente lhe apetecia, o meio sorriso de satisfação rivalizava com seu largo e satisfeito sorriso de pura alegria. Observar o Guardião da Chuva era uma das atividades favoritas de Gokudera.

O almoço transcorreu como qualquer outra refeição que os dois compartilhassem. Trabalho ocupou metade do tempo, e a outra parte foi gasta falando sobre assuntos aleatórios e atualidades. O homem de cabelos prateados pagou a conta e ambos deixaram o local, mas não seguiram até o carro. Yamamoto tomou as rédeas da situação, guiando-os até o próximo quarteirão e parando somente ao chegarem à sorveteria. Havia uma pequena fila e, basicamente todos, com exceção deles mesmos, eram adolescentes. Aquela visão trouxe um sentimento nostálgico ao Guardião da Tempestade, e uma pequena olhada em sua companhia foi possível notar que ele não fora o único a ter aquela sensação. O moreno tinha um meio sorriso nos lábios, mas só fez algum comentário quando eles deixaram o local, cada um segurando seu respectivo picolé.

"Lembra quando vínhamos aqui tomar sorvete aos sábados? Tsuna sempre escolhia baunilha e você chocolate." Aquele comentário foi seguido por uma risada.

Eu continuo escolhendo chocolate. O Braço Direito do Décimo encarou o próprio picolé antes de dar a primeira mordida. "Eu também lembro quando aqueles deliquentes tentaram roubar a mochila do Jyuudaime enquanto estávamos na fila. É preciso muita coragem para fazer algo assim na minha frente!"

"Hahahaha você correu atrás deles por metade da cidade e retornou quase uma hora depois, todo sujo, mas com a mochila nas mãos. Tsuna quase chorou de alegria."

"O que você queria que eu fizesse? Que deixasse o Jyuudame sem mochila?" Os dois Guardiões caminharam até um parque que ficava do outro lado da rua, e em frente à sorveteria. Algumas crianças brincavam no local, então os bancos estavam parcialmente vazios. "Ninguém rouba o Jyuudaime na minha frente e sai ileso."

"Você sempre disse isso quando alguém fazia algo contra o Tsuna."

Gokudera soltou um baixo "tsk", voltando sua atenção para o sorvete. Aquele banco havia sido agraciado com uma deliciosa sombra vinda de uma alta árvore de cerejeira. Havia pequenas e belas pétalas rosadas ao chão, e quando uma brisa mais forte atingia a copa das árvores, a impressão que se tinha era que aquele cenário fazia parte de uma pintura, tamanha a beleza.

Nenhum dos dois continuou a conversa por alguns segundos. O barulho, risadas e gritinhos das crianças parecia ser a única coisa ouvida. Os olhos verdes do Guardião da Tempestade admiravam o entorno, mas inevitavelmente vagavam para sua companhia. Yamamoto olhava para frente, o palito de madeira no canto de sua boca e os olhos brilhantes. O homem de cabelos prateados seguiu aquele olhar, engolindo seco ao perceber que o Guardião da Chuva dedicava às crianças aquele olhar tão terno.

"Elas são incríveis, não?" A voz de Yamamoto saiu baixa. O palito foi para o cesto de lixo ao lado do banco, e ele se inclinou um pouco para trás, encostando-se melhor no assento de madeira. "Yurika falou sobre crianças essa semana."

O Braço Direito do Décimo abaixou os olhos. O último pedaço de sorvete desceu por sua garganta completamente sem gosto, e naquele momento seu almoço havia sido arruinado. Ultimamente ouvir o moreno falar de sua namorada se tornou extremamente doloroso, mas naquele momento, em particular, ele desejou ser surdo para não ter de ouvir aquilo. As mãos de Gokudera tremiam levemente por causa do nervoso e mentalmente ele se via levantando e deixando sua companhia com seus devaneios pessoais. Eu não quero saber! Eu não quero saber! Eu não preciso de um lembrete de que você nunca será meu. Eu digo isso a mim mesmo todos os dias quando acordo e antes de dormir. Por favor, cale-se!

"Eu gostaria de ter um ou dois filhos."

O Guardião da Tempestade fez a única coisa que parecia viável naquela situação. Sua mão correu para o bolso da calça e ele acendeu um cigarro em uma velocidade espantosa, recostando-se melhor ao banco e erguendo os olhos. Havia cerca de dez crianças ao todo. Algumas brincavam no banco de areia, e outras em balanços e escorregadores. O Braço Direito do Décimo não sentiu nada ao ver a cena. Ele não era fã de crianças, e não tinha nenhuma intenção em constituir família, então aquele cenário não lhe causava absolutamente nada. A primeira tragada não aliviou seu estado, mas na segunda e na terceira ele conseguiu respirar normalmente. O Guardião da Chuva ficou em silêncio, apenas admirando a cena e exibindo meios sorrisos. Gokudera acendeu um segundo cigarro quando o primeiro terminou e os dois amigos continuaram em silêncio.

"Yurika perguntou se você está saindo com alguém. Ela gostaria de convidá-lo para almoçarmos juntos algum dia."

Se não bastasse ouvir sobre os planos futuros de Yamamoto, que obviamente não o incluía, a ideia de compartilhar uma refeição com a namorada do homem que ele amava era demais até mesmo para o Guardião da Tempestade. O homem de cabelos prateados apagou o cigarro no cinzeiro portátil que sempre carregava em um dos bolsos, ficando de pé e avisando que iria embora. O moreno também ficou em pé e coçou a cabeça, seguindo-o, mas sem perguntar nada. Somente ao entrarem no carro foi que o Guardião da Chuva fez o comentário que o Braço Direito já esperava.

"Desculpe se eu pareci intrometido. Mas eu também estou um pouco curioso. Eu nunca o vejo com ninguém."

Gokudera já estava acostumado à densidade e falta de tato por parte de Yamamoto, então aquele tipo de comentário não o afetava. Porém, naquela tarde, havia algo no peito do homem de cabelos prateados, uma raiva e ressentimento que começavam a criar raízes ali. Anos de negação e sentimentos reprimidos estavam começando a afetá-lo a ponto de, às vezes, evitar a presença do moreno porque a dor chegava a ser insuportável. O Braço Direito deu a partida no veículo e seguiu pelo caminho que havia feito há pouco mais de uma hora. Nenhum dos dois Guardiões abriu a boca durante aqueles minutos, e Yamamoto desculpou-se novamente assim que desceu do carro. A resposta do Guardião da Tempestade foi um breve aceno antes do veículo voltar a andar.

Naquela tarde Gokudera não retornaria ao trabalho. Sua mão correu até o celular que estava dentro do porta-luvas, apertando um dos botões e jogando-o no banco ao lado, mas garantindo que o viva-voz estivesse ligado. O tom de chamada durou três toques, até que uma voz masculina atendesse.

"Você está livre?" O homem de cabelos prateados aproveitou o semáforo fechado para retirar sua gravata e jogá-la no banco de trás. Seu humor estava péssimo.

"Sim, eu estou de folga hoje. Acredito que mencionei na semana passada..." A voz soou irônica.

"Eu estou indo para sua casa."

A pessoa do outro lado da linha permaneceu alguns segundos em silêncio, até responder um baixo "Eu estarei esperando com o chá pronto." A ligação foi encerrada e o Braço Direito do Décimo acelerou.

Seu destino ficava localizado em uma área nobre de Namimori, reservada em sua maioria para os hotéis e mansões. O carro ainda rodou cerca de dez minutos até parar em frente a um sobrado azul-claro. O portão era alto e largo, seu dedo apertou o interfone e no mesmo instante o portão automático foi aberto. Aquela não era a primeira vez que o Guardião da Tempestade entrava naquela casa, mas não importasse quantas vezes ele visitasse aquele homem, a sensação de que estava fazendo algo errado sempre o assombrava. Um pouco tarde para arrependimentos, Gokudera pensou consigo mesmo ao parar em frente à porta de madeira. Os nós de seus dedos não chegaram a tocar à superfície escura, pois ela foi aberta muito antes.

A pessoa que o recebeu era alta. Sua pele era levemente morena, seus olhos castanhos e seu cabelo curto e negro. Naquela tarde ele usava um par de óculos para leitura e seus lábios não sorriam. Os olhos do homem encararam os olhos verdes do homem de cabelos prateados, e ele deu espaço para que sua companhia entrasse. O Braço Direito do Décimo pediu licença, retirando os sapatos e cruzando o corredor com passos lentos. A sala era larga e bem mobiliada, com um caríssimo jogo de sofás escuros, uma enorme tv em uma das extremidades e uma mesinha de centro cheia de papeis; sem contar as cortinas, os vasos e os quadros. Gokudera suspirou baixo e virou-se, pronto para se desculpar por ter vindo em um horário tão importuno.

"Café ou chá?"

O homem estava logo atrás do Guardião da Tempestade quando ele se virou. A proximidade entre eles era tão pequena que o Braço Direito sentiu o cheiro da colônia que sua companhia usava e aquilo o deixou arrepiado. Sua mão subiu até o pescoço do moreno, e ele abriu os botões da camisa, deixando-a cair sobre o piso branco. Os óculos do homem foram retirados em seguida, e a próxima coisa que o jovem de cabelos prateados soube foi que havia sido puxado por dois grandes e fortes braços.

O beijo tinha gosto de desejo e cafeína. Da sala para o quarto no segundo andar foram precisos poucos passos. Gokudera conhecia aquele caminho, e sabia que teria de subir 12 degraus e caminhar mais alguns segundos até entrar no primeiro quarto à esquerda. Quando suas costas finalmente encontraram o macio colchão, suas roupas haviam ficado no caminho e ele estava completamente nu. O ritmo do beijo havia aumentado, e quando sua companhia se livrou do restante de suas próprias roupas, o Guardião da Tempestade colocou para fora da cama, do quarto, da casa e de sua vida, qualquer lembrança que não fosse bem-vinda. Seus olhos verdes se fecharam, e a sensação que a mão do homem o fazia sentir pareceu duplicar de intensidade. Há quanto tempo ele estava naquela situação? Difícil dizer. Mas não pense sobre isso. Apenas... não pense sobre nada.

Foi em uma tarde de outono que Gokudera dormiu pela primeira vez com outro ser humano, que coincidentemente era outro garoto. Ele tinha 15 anos completos naquela data, mas o momento não possuiu nada de especial ou mágico. O local também não havia sido meticulosamente escolhido, assim como sua companhia. Tudo o que o Guardião da Tempestade sabia era que após dez minutos de dor, prazer, gemidos e suor ele deixou a casa do rapaz e seguiu para seu apartamento. O caminho que havia feito foi desconhecido. O Braço Direito do Décimo apenas soube que percorrera aquelas ruas de maneira correta quando seus pés pisaram dentro de seu apartamento e seus joelhos falharam. Ele permaneceu deitado na entrada por longos minutos, seguindo depois para o banho. Eu nunca esquecerei aquele dia... Foi o dia em que Yamamoto anunciou que estava namorando. A primeira de quatro namoradas.

Seria impossível para o homem de cabelos prateados – naquela época um inexperiente e arredio adolescente – esquecer aquelas quatro palavras e, principalmente, o peso que elas tiveram a partir daquele momento. Quando o Guardião da Chuva apareceu no terraço com seu usual sorriso e sua habitual caixinha de suco de uva, Gokudera jamais esperaria ouvir o discurso que se seguiu: "Eu tenho uma namorada!" Os lábios do moreno sorriram e suas bochechas coraram. Entretanto, o que realmente confirmou aquela declaração foram os olhos negros de Yamamoto. Eles brilhavam. Brilhavam mais do que o céu em uma noite estrelada. O idiota estava falando a verdade.

Naquele instante o Guardião da Tempestade soube que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Ele não conseguiu parabenizá-lo, como Tsuna fez. O Jyuudaime estava tão genuinamente feliz e satisfeito por ouvir aquilo, que na época o Braço Direito sentiu como se tivesse cometido uma afronta em não fazer o mesmo. Mas como ele poderia? A pessoa que eu amava havia acabado de dizer que estava comprometida. Eu nunca fiquei feliz, não importasse quantas vezes ouvisse aquelas mesmas palavras. Tudo o que o rapaz de cabelos prateados fez foi se levantar e deixar o terraço. Destino? Coincidência? Não. Gokudera não acreditava em nada disso. Porém, como explicar que depois de dois lances de escadas ele esbarraria em um veterano que lhe havia confessado no mês anterior? O que aconteceu após aquele reencontro foi apenas um exemplo de como seria a vida do Guardião da Tempestade. O veterano – cujo nome ele nem ao menos lembrava — foi o primeiro substituto de Yamamoto. Eles permaneceram naquela silenciosa e sexual relação até que o rapaz se graduou e então o Braço Direito precisou arrumou outra pessoa. Esse comportamento se estendeu até o final do Colégio, e ganhou um novo significado ao entrar na vida adulta.

Quando se é jovem e as obrigações escolares tomam praticamente todo seu tempo, é natural que as pessoas fiquem curiosas sobre certos assuntos. Entretanto, adultos não necessitavam dar satisfações, e não precisar inventar histórias mirabolantes todas as vezes que Tsuna, ou o próprio Guardião da Chuva perguntavam sobre uma "possível namorada", era algo extremamente libertador. O homem que o preparava naquela tarde era uma das companhias fáceis que Gokudera conhecera. O local exato ele não se lembrava, mas sabia que havia sido um bar. Masayoshi Hiroki era um respeitado e sério advogado. Os dois se encontravam pelo menos uma vez por semana ou quando tinham tempos nas mãos. Os locais eram sempre a própria casa de Masayoshi ou algum motel. A única regra que o Guardião da Tempestade sempre teve era que nenhum amante poderia ser levado para seu apartamento. Aquele é o único lugar onde nenhum deles entrará. É o meu lugar. É o lugar dele.

A onda de memórias sumiu da mente do Braço Direito do Décimo quando seu orgasmo chegou. Ele estava tão entretido com aquelas lembranças que só notou que estava pronto quando seus lábios gemeram e seu corpo relaxou. Sua pele estava úmida de suor quando o moreno o virou, afastando um pouco as pernas e penetrando-o. Gokudera apertou um dos travesseiros, mas a dor não foi suficiente para encobrir o prazer. Masayoshi era experiente e habilidoso, e naquele quesito ele não tinha do que reclamar. O homem sabia onde tocar e como deixá-lo relaxado, exatamente como naquele momento. O Guardião da Tempestade gemeu ao sentir-se penetrado pela segunda vez, e na terceira estocada seu quadril já se movia para trás, esperando receber seu amante por completo.

Por duas horas a mente do Braço Direito não pensou em nada além do que eles faziam. As posições e os locais mudaram, mas o desejo que o homem de cabelos prateados sentia não diminuiu. Seus olhos permaneceram fechados boa parte do tempo, mas quando se abriam e viam pequenos vislumbres, tudo o que ele enxergava era Yamamoto. Desde sempre só havia Yamamoto. Do veterano de cinco anos atrás ao advogado que o envolvia naquele começo de noite, todos os escolhidos possuíam fisicamente certa semelhança com o Guardião da Chuva. Eu sou patético.

"Eu viajarei para Osaka. Quer ir?"

Gokudera estava de costas, parado no meio da sala e terminando de fechar os botões de sua camisa quando aquelas palavras entraram por seus ouvidos. Não era a primeira vez que Masayoshi o convidava para deixar a cidade, mas seria a primeira vez que o Guardião da Tempestade se sentiu tentado a aceitar. Deus sabe que eu preciso de descanso e isso significaria ficar alguns dias longe de Yamamoto. E isso eu preciso mais do que descanso.

"Quando?"

"Em duas semanas. Eu preciso ver um cliente, mas poderemos permanecer quantos dias você quiser."

O silêncio entre os dois homens foi longo. O Braço Direito do Décimo ajeitou a camisa e seguiu na direção da porta. O dono da casa estava sentado em um dos braços do sofá, vestindo nada além de sua calça meio aberta e uma expressão séria. O homem de cabelos prateados desceu o degrau da entrada e colocou os sapatos, virando o rosto e esboçando um cansado meio sorriso:

"Eu irei."

A expressão surpresa no rosto de Masayoshi foi a última coisa que Gokudera viu antes de deixar a casa. O céu havia escurecido e a temperatura se tornado mais amena.

Não havia segredo por trás daquela resposta. Há algum tempo o Guardião da Tempestade reparou que o moreno estava mais envolvido do que ele naquela estranha e cômoda relação. Masayoshi sempre o convidava para permanecer, fosse para o jantar ou até mesmo para passar a noite. Eu sempre deixei claro o tipo de relacionamento que temos, mas ele é a primeira pessoa com que permaneço por tanto tempo. A dúvida entre continuar levando a situação ou simplesmente terminá-la ocupou a mente do Braço Direito por vários dias. Eu poderia simplesmente me afastar e encontrar outra companhia. Uma nova companhia. Porém, todas as vezes que se imaginava vagando novamente pelas noites de Namimori, tudo o que o homem de cabelos prateados sentia era asco. Não importa o quanto eu procure. Ele nunca será meu.

O caminho até o apartamento foi feito sem pressa. O homem de cabelos prateados repassou o que teria de fazer no dia seguinte, fazendo notas mentais sobre relatórios e pontos importantes que não deveriam ser esquecidos. Ao parar o carro no estacionamento, Gokudera revirou os olhos ao lembrar-se de que deveria ter passado em uma loja de conveniência, pois sua despensa estava completamente vazia. A ideia de retornar nem foi cogitada, e o Guardião da Tempestade simplesmente desistiu de jantar naquela noite. Eu sairei mais cedo e tomarei um café reforçado. O idiota provavelmente trará alguma bobagem para comermos durante o período da manhã. O Braço Direito coçou a cabeça e voltou a pensar no trabalho.

Só havia duas coisas que eram capazes de tirá-lo de órbita. Uma delas esteve em sua mente durante os quatro lances de escadas. A outra estava sentada em frente ao seu apartamento, vestindo um conjunto esportivo vermelho e seu velho e confortável sorriso. O homem de cabelos prateados só notou Yamamoto na soleira da porta quando estava perto o suficiente para que sua reação fosse honesta demais para ser omitida. Seus olhos verdes se arregalaram e ele tentou dar um passo para trás, mas sua companhia ficou em pé e sorriu... aquele quente e amigável sorriso, e naquele momento Gokudera soube que não poderia recuar. Não havia nada que ele pudesse fazer contra o sorriso do Guardião da Chuva. Nunca houve.

"Você parece que viu um fantasma, Gokudera!" O moreno bateu as mãos nas pernas e estendeu uma sacola de plástico. "Eu trouxe o jantar."

"O que você faz aqui?" O Guardião da Tempestade não se moveu. A realização de que ele havia acabado de retornar da casa de outro homem, cheirando a outro homem, após ter dormido com esse mesmo homem o enojava. "Eu não estava esperando visitas. Está tarde, Yamamoto." Suas mãos apertaram a parte da frente da camisa, como uma forma de tentar se proteger contra aquela vergonha.

"Eu sei, mas hoje é a abertura do campeonato e..."

"... e você não tem tv a cabo, eu sei." O Braço Direito soltou um suspiro cansado. Ele havia se esquecido. Todos os anos, naquela mesma época, o Guardião da Chuva praticamente vivia com ele, pelo menos durante o período do campeonato japonês de baseball.

"Por favor...?" Yamamoto juntou as mãos e fez uma polida reverência. "Eu prometo que irei embora quando o jogo terminar."

O jogo terminará de madrugada. Nós dois sabemos que você dormirá no sofá, assim como tem feito pelos últimos cinco anos. O homem de cabelos prateados permaneceu alguns segundos em silêncio, suspirando pela segunda vez. "Certo, mas eu dormirei primeiro, e não te farei companhia durante todo o jogo. Você sabe como acho isso idiota."

O Guardião da Chuva abriu um largo sorriso e deu um passo à frente. Seus braços estavam abertos, mas antes que ele pudesse se aproximar um centímetro que fosse Gokudera ergueu as mãos e fez negativo com a cabeça. Seu coração batia rápido e mentalmente ele implorava que o moreno se afastasse. Ele se sentia imundo para tocá-lo.

Os dois adentraram ao apartamento e o Guardião da Tempestade praticamente fugiu na direção do banheiro. Yamamoto disse que arrumaria a sala, mas tudo o que ouviu foi o silêncio como resposta.

O Braço Direito trancou a porta e fechou os olhos, recostando-se àquela área de madeira. Seu coração batia rápido e sua mente parecia girar, tornando tudo ainda mais difícil de digerir. As roupas foram retiradas sem pressa, sendo colocadas dentro do cesto de roupa suja. Os passos até o pequeno box foram vagarosos, e quando a água fria finalmente bateu sobre o homem de cabelos prateados, o peso daquela situação também o atingiu.

As pessoas aguentavam algumas coisas até certo limite, e ninguém sabia melhor sobre isso do que Gokudera. A cada dia e a cada momento que ele precisava lidar com Yamamoto aproximavam-no do adeus definitivo. Por várias vezes o Guardião da Tempestade ensaiou uma briga, disposto a se afastar definitivamente daquele homem e, com isso, colocar um fim permanente àquele sofrimento. Porém, todas as vezes que tentou, alguma coisa acontecia, o que tornava inviável seu plano. O Jyuudaime era basicamente o motivo principal, pois todas as vezes que imaginava como seria o trabalho, o Braço Direito inevitavelmente divagava que seu Chefe ficaria em uma situação constrangedora, e isso ele jamais permitiria. A primeira – e última – vez que o homem de cabelos prateados foi até o fim com essa ideia aconteceu há cerca de dois anos. Naquela época Gokudera atingiu o fundo do poço com relação a sua situação com o Guardião da Chuva. Ele havia sido apresentado à atual namorada do moreno, Yurika, e suas saídas noturnas tornaram-se tão constantes que estavam afetando seu trabalho. Yamamoto o questionou em uma manhã e aquele foi o estopim de uma calorosa briga. O Guardião da Tempestade nunca esteve tão bravo como naquele dia, e suas palavras saíram afiadas e cheias de veneno. Por trás daquele discurso falso estavam seus mais sinceros e magoados sentimentos. Ao invés do "Você não vê o quanto eu gosto de você?", ele disse "Isso não é assunto seu." O "Essa mulher nunca o amará como eu te amo", deu lugar ao "Cuide de seus assuntos." Entretanto, no final, contra todos os seus esforços, tudo o que o Guardião da Chuva fez foi sorrir... aquele sorriso, enquanto pedia desculpas e dizia que estava somente preocupado, porque ele se importava: “Eu me importo com você, Gokudera. Eu apenas quero entendê-lo melhor, então deixe-me fazer parte da sua vida”, dito com olhos genuinamente preocupados e um meio sorriso tão doce que seria impossível negá-lo. Depois daquele incidente foi difícil criar outra situação. Não havia palavras ou até mesmo ações que pudessem armá-lo novamente contra o moreno.

O Braço Direito do Décimo apoiou as mãos no azulejo e abaixou o rosto. A água fria escorria por seus cabelos, descendo por seu rosto e misturando-se as suas próprias lágrimas. Doía. A dor que ele sentia por estar naquela situação era tão intensa, que até mesmo ficar em pé naquele box se tornava uma tarefa difícil. Há meses o homem de cabelos prateados não se permitia extravazar aquele amor não correspondido, mas naquela noite ele sentia como se as coisas estivessem se tornando cada vez mais complicadas. Você sabe o que fazer. Você sabe o que deve falar para que Yamamoto se afaste de uma vez por todas.

As lágrimas silenciosas se transformaram em um mudo choro. Gokudera sentia seu corpo cansado, realmente exausto por anos de não-tentativas e sentimentos reprimidos. Não importava quantas pessoas ele conhecesse ou quantos homens dormisse. Nenhum deles era quem ele realmente queria e, honestamente, era o bastante. Era hora de colocar um ponto final àquilo. As novas lágrimas não foram derramadas devido aos inúmeros momentos em que o Guardião da Tempestade precisou passar ao lado do moreno e suas namoradas; ou em todas as vezes que foi o ombro amigo a aconselhar o homem que amava a consertar relacionamentos que ele odiava e que torcia para que terminassem. Aquele choro antecipava o fim. O final de anos de amizade e o começo de anos de estranheza e indiferença. O Jyuudaime entenderia, ele sabia. Se havia alguém cuja compreensão era vasta e caridosa, esse alguém era Tsuna. A melhor pessoa que ele conhecia.

O banho foi longo, embora boa parte do tempo o Braço Direito não tenha feito nada além de ficar recostado ao azulejo, sentindo a água lavar muito mais do que seu corpo. Com uma toalha ao redor da cintura ele deixou o banheiro e seguiu até seu quarto, no final do corredor. As roupas foram escolhidas ao mero acaso, e o homem de cabelos prateados ainda permaneceu algum tempo parado no meio do cômodo, respirando fundo, enquanto seus olhos estavam fechados. Eu posso fazer isso. Eu preciso fazer isso. Quando os olhos verdes se abriram novamente, elem não transbordavam confiança, mas sim conformismo. Gokudera deixou o quarto e cruzou o curto corredor, sentindo o coração bater mais rápido conforme ouvia o barulho da tv se tornar mais alto, aproximando-se da sala. Yamamoto estava sentado no sofá mais largo e de frente à tv. Seus olhos estavam fixos na tela, mas assim que viu sua companhia sentar-se na poltrona ao lado, a atenção então foi para o dono da casa. O Guardião da Tempestade olhou da tv para o homem sentado tão próximo, mas totalmente inalcançável. Seus lábios foram umedecidos e uma de suas mãos agarrou o braço da poltrona em busca de apoio, qualquer que fosse o apoio. Agora. Eu só preciso dizer tudo isso e ele jamais retornará.

"Tem algo que eu preciso conversar com você, Gokudera."

As palavras surpreenderam o Braço Direito do Décimo, desarmando-o completamente. Seus olhos verdes se tornaram arregalados e seu coração batia tão alto e forte em seu peito que era doloroso permanecer em silêncio. O moreno o olhou e esboçou um tímido sorriso, esperando um sinal para que pudesse continuar. O homem de cabelos prateados engoliu seco e acomodou-se melhor na poltrona, procurando assim algum tipo de conforto caso o que ele ouvisse fosse o que sua mente gritava. Ele não sabe. Yamamoto não tem ideia dos meus sentimentos. É outra coisa. Ele não pode saber. Ele não sabe de nada.

O Guardião da Chuva coçou a cabeça e inclinou o corpo um pouco à frente, apoiando os cotovelos sobre seus joelhos. Suas mãos se juntaram e seus olhos ficaram momentaneamente baixos antes de voltarem a encarar Gokudera. Havia um misto de timidez e seriedade naquela expressão, e a cada segundo que o Guardião da Tempestade esperava naquele silêncio, mais temeroso ele se tornava com relação ao que viria em seguida. Quando os olhares se encontraram, o Braço Direito do Décimo prendeu a respiração.

"Eu pedirei Yurika em casamento." Yamamoto esboçou um inocente meio sorriso. "Eu queria que você e Tsuna fossem meus padrinhos."

Continua...