Vendetta

12 Gokudera


Gokudera

Ele conhecia muito bem a quantidade de passos necessários para caminhar do pequeno portão de entrada à porta. Vinte e sete passos. Vinte e sete passos que cortavam o pequeno jardim através de um caminho de pedras, separadas por poucos centímetros umas das outras. Entre os vãos existia grama verde e bem cuidada, como se alguém se desse ao trabalho de aparar aquela área para que aqueles que a pisassem reparassem no detalhe, mas também na dedicação em manter o local limpo. Entretanto, nunca, em todos aqueles anos, dar aqueles vinte e sete passos pareceu tão importante... e penoso, e quase desumano.

Gokudera encarou a entrada da casa, uma das mãos apoiadas ao portão e a outra dentro do bolso do terno escuro que vestia, sentindo o maço de cigarros e decidindo se o melhor momento para acender um calmante seria antes ou depois de cruzar aquele portão. Eu precisarei de outro cigarro quando for embora. Isso fará pouca diferença. O Guardião da Tempestade retirou a mão do bolso, decidido a deixar para depois. Ele não queria entrar na casa de Tsuna cheirando tabaco.

A decisão de fazer aquela visita foi adiada o máximo possível. O Braço Direito sabia que seu Chefe, e melhor amigo, não queria visitas, mas seria impossível para ele respeitar aquele pedido, quando, no fundo, o homem de cabelos prateados se sentia parcialmente responsável pelo ocorrido. As palavras não saíram de seus lábios, pois ele nunca teria coragem suficiente para proferi-las, mas Hibari só havia ido até a casa de Tsuna porque Gokudera o desafiou. Não que eu não tenha me vingado. Aquele pensamento fez o Guardião da Tempestade sorrir amargamente. Quando soube que Hibari havia comunicado ao Décimo sobre o que aconteceria no futuro, o primeiro pensamento a cruzar a mente do Braço Direito foi telefonar para Dino Cavallone e contar toda a verdade. O homem de cabelos prateados teria levado aquele plano até o fim se Yamamoto não tivesse colocado a mão em seu ombro e o olhado com aqueles belos olhos castanhos, pedindo silenciosamente que ele não fizesse aquilo.

Pensar no moreno fez Gokudera balançar a cabeça e abrir finalmente o portão. Não era saudável pensar no Guardião da Chuva, e todas as vezes que se pegava com a mente em Yamamoto, o Guardião da Tempestade imediatamente se focava em outra coisa. No final das contas, o Chefe dos Cavallone ficou sabendo sobre toda a história, mas não através de seus lábios. Squalo, Vice-Líder da Varia, contara para o louro e tudo o que eles haviam feito em semanas pareceu brincadeira de criança. O italiano tomou as rédeas da situação e pediu que eles esperassem, prometendo uma solução definitiva. Até hoje eu não sei se deveríamos ter acreditado naquilo, o Braço Direito caminhava devagar sobre o caminho de pedra. A cada passo ele se aproximava mais da entrada da casa dos Sawada. A cada passo sua garganta se tornava mais e mais apertada. E a cada passo seu coração batia mais rápido com o prospecto de precisar animar Tsuna, quando ele mesmo precisava de um pouco de ânimo.

A porta apareceu diante dos olhos verdes antes que o homem de cabelos prateados pudesse perceber. Ele já havia feito aquele caminho tantas vezes, mas por motivos completamente diferentes. Não houve um instante em que seu dedo não coçou de entusiasmo e alegria em poder passar cinco minutos ao lado de seu precioso Jyuudaime. A espera pela campainha ser atendida sempre lhe pareceu longa e penosa demais. Porém, naquela tarde, seu dedo tocou a contra gosto o botão, e o som ecoou não somente pelo entorno, mas dentro do próprio Gokudera. Esperar para ser atendido pareceu necessário, e uma parte do Guardião da Tempestade se perguntava se não seria mais fácil se não houvesse ninguém em casa. O problema não seria resolvido, mas eu utilizaria a ausência como desculpa. O Braço Direito mordeu o lábio inferior, sentindo-se ridículo. Você é uma falha humana, Gokudera Hayato. Em todos os sentidos.

A espera durou poucos segundos. Quando a porta foi aberta, Tsuna em pessoa estava do outro lado, sorrindo para o homem em sua soleira.

"Boa tarde, Gokudera." As palavras do Décimo soaram normais, e naquele momento Gokudera procurou algum sinal que pudesse demonstrar a profunda tristeza que seu Chefe pudesse sentir. Ele não encontrou nada.

"Desculpe por importuná-lo sem avisar, Jyuudaime." A voz do homem de cabelos prateados soou séria. "Mas precisamos conversar."

"Entre, por favor."

O convite foi feito sem nenhum segundo pensamento, e o Guardião da Tempestade agradeceu, pisando dentro da residência dos Sawada. Seus sapatos ficaram na entrada e ele recebeu um par de confortáveis chinelos, seguindo o anfitrião pelo pequeno e estreito corredor, que ele sabia que levaria até a sala de estar. A casa estava silenciosa, e o homem de cabelos prateados sabia bem o motivo. Nana e Iemetsu estavam na Itália e só retornariam no final do ano. Lambo também estava em solo italiano, estudando ao lado de I-Ping em um colégio privado. Os dois não eram mais crianças, e se não lhe falhava a memória, Nana tinha planos de matriculá-los em escolas japonesas quando atingissem a idade para frequentarem o ensino médio. Bianchi morava um pouco nos dois países, e pelo visto a irmã não estava no Japão. O pensamento deixou Gokudera mais aliviado. Sua aversão à irmã melhorara, mas ele já tinha problemas suficientes para precisar se preocupar com dores de barrigas em momentos tão importantes.

Tsuna caminhou até a sala de estar, e foi ali que o Guardião da Tempestade vislumbrou o segundo morador da casa. Reborn estava sentado em uma das poltronas, a perna cruzada e uma xícara de chá em mãos. A versão adulta do Arcobaleno olhou seu visitante com apenas um dos olhos, omitindo o outro com a aba do chapéu. O homem de cabelos prateados meneou a cabeça como cumprimento, sentando-se na poltrona em frente. O silêncio inicial foi seguido pela desconfortável maneira com que o Décimo Vongola se acomodou na beirada de seu sofá. Os olhos de Reborn estavam fixos no jogo de chá localizado na mesinha de centro e em poucos segundos a única coisa audível foi o barulho da louça. Ao contrário de Tsuna, o ex-Arcobaleno fazia questão de beber chá com louça ocidental.

"Quer uma xícara de chá, Gokudera?"

"Não, Jyuudaime, eu estou bem." A resposta foi uma meia verdade, ele sabia. "Eu não pretendo me prolongar. Estou aqui somente para..."

"... tentar limpar a sujeira feita por Hibari, estou certo?"

Havia um tom acusador em todas as palavras ditas pelo Hitman, e infelizmente Gokudera não tinha meios de negar aquilo. Ele sabe. Ele sabe que eu tinha conhecimento e não disse nada. O Guardião da Tempestade se sentia extremamente incomodado naquele momento, e até mesmo a macia poltrona da casa do Décimo parecia espetá-lo.

"Eu não posso retirar o que ele disse, mas vim dar algumas explicações." Aquilo era o melhor que ele poderia dizer. "E eu sinto muito por não ter dito nada antes, Jyuudaime, mas eu não queria preocupá-lo sem motivos."

Reborn não engoliu aquela resposta. O chá dentro de sua xícara também não pareceu agradá-lo e em poucos segundos ele a pousou na mesinha e ficou em pé. O olhar que foi direcionado ao homem de cabelos prateados continha uma pitada de ressentimento e algo ali que beirava a dúvida ou uma sádica curiosidade. Não foram necessárias palavras de despedidas. O barulho da porta de entrada sendo aberta e fechada após alguns instantes respondeu a qualquer pergunta. Sozinho, na sala, e ao lado de Tsuna, o Braço Direito se sentiu mais confortável, mas também mais culpado. Eu não mereço ser chamado de Braço Direito.

"Você não precisa se desculpar, Gokudera." A voz do Décimo fez o Guardião da Tempestade erguer os olhos. Ela estava séria, mas não continha ressentimento. "Eu sei que você se calou para tentar me preservar e agradeço por se preocupar. Peço desculpas pela minha ausência durante esses dias e por não atendê-lo quando me procurou, mas eu precisava pensar sobre algumas coisas."

"Você não precisa se desculpar, Jyuudaime." O homem de cabelos prateados sentiu-se mal. Era ele quem precisava pedir perdão. "Eu queria contar o que eu sabia, mas não encontrei palavras que pudessem transmitir tudo aquilo. No fim, você ficou sabendo através da última pessoa na face da Terra que deveria abrir a boca para dizer qualquer coisa."

Aquele comentário levou um sorriso triste aos lábios do Décimo.

"Hibari-san apenas me disse o que eu precisava saber. Ele não pediu minha ajuda ou conselho, apenas disse o que tinha para dizer e foi embora."

"Ele agiu mal, Jyuudaime. Hibari agiu por egoísmo."

"Agiu?" O homem de cabelos castanhos recostou-se melhor ao sofá e encarou as próprias mãos que estavam entrelaçadas sobre seus joelhos. "Eu falei brevemente com Dino-san, mas continuo não sabendo o que fazer. Ele me pediu paciência, mas a verdade é que não consigo pensar em nada." Tsuna encarou sua companhia e seus olhos pareciam cansados. "No fundo eu não mudei, não é? Eu ainda continuo sendo o mesmo Tsuna-inútil de sempre. O mesmo garoto tolo."

"Isso não é verdade." Gokudera juntou as sobrancelhas, sentindo-se ofendido. Ele confiava totalmente e cegamente em seu Chefe, e não somente como Braço Direito. Tsuna era a melhor pessoa que ele conhecia. "Qualquer pessoa sã e que estivesse na sua situação estaria com a mesma dúvida."

"Reborn discorda. Ele diz que devo reunir as Famílias aliadas e ‘apagar’ essa nova Família." A expressão de desgosto no rosto do homem de cabelos castanhos demonstrava claramente o que ele pensava sobre aquela idea. "Hibari pensa o mesmo, aliás, eu sei que vocês estão tentando impedi-lo e agradeço por isso."

O Guardião da Tempestade permaneceu alguns segundos em silêncio, escolhendo as palavras que utilizaria em seguida. Ele havia tomado sua decisão e faria o impossível para ajudar Dino e seu plano secreto, então era preciso ter cuidado com o que fosse dito. O Décimo estava visivelmente confuso com toda a situação, e ouvir que seu Braço Direito também estava incerto sobre o desenrolar da história não ajudaria em nada.

"Eu não posso dizer que entendo o que você ou Hibari estão sentido, porque até onde sei eu não perdi, ou melhor, perderei ninguém como vocês perderão." Yamamoto está vivo no futuro, Chrome me garantiu. Ele não é e não será meu, mas tudo o que eu preciso saber é que ele estará vivo. "Então minha opinião é de alguém de fora, e provavelmente não serve para nada além de adicionar mais uma opinião irrelevante ao assunto. Porém, eu não acho que sua decisão, ou a falta dela, seja errada, Jyuudaime. Dino garantiu que resolverá a situação sem que ninguém saia ferido e eu acredito nele. Ele melhor do que ninguém sabe o que está em jogo, então eu digo com convicção que devemos acreditar."

Tsuna ergueu os olhos e sorriu tímido. Naquele momento ele pareceu aquele garoto quieto e azarado que acabou se transformando em seu Chefe e melhor amigo.

"Eu acredito em Dino-san, mas é difícil olhar para Kyouko-chan sem lembrar do que Hibari me disse naquele dia. Ela até mesmo perguntou o que havia de errado por eu não querer vê-la ultimamente. Você acha que agi mal? Eu deveria querer ficar ao lado dela em todos os momentos, mas simplesmente não consigo."

"Não há nada de errado nisso, Jyuudaime." Gokudera sentiu-se comovido. Eles raramente falavam sobre Kyouko ou relacionamentos. Desde sempre ele sabia do interesse do Décimo na irmã mais nova do Guardião do Sol. No dia que Tsuna confessou seus sentimentos, seu Braço Direito estava esperando-o no escritório e sorriu satisfeito ao vê-lo entrar na sala; o rosto corado e um sorriso de extrema satisfação nos lábios. O homem de cabelos prateados jamais esqueceria a maneira como o Décimo lhe disse: "Ela me aceitou, Gokudera! Ela me aceitou!" Então, ouvi-lo dizer aquelas coisas depois de todos aqueles anos era realmente triste.

O homem de cabelos castanhos sorriu de canto, e aquele gesto parecia um pouco mais honesto.

"Desculpe, Jyuudaime. Eu aqui falando e falando quando na verdade não faço ideia do tamanho do seu sofrimento, ou o de Hibari." Gokudera sentiu o peito doer. Era fácil falar quando não estava envolvido. Quando o problema não era diretamente dele. Tudo o que poderia ser feito era apenas imaginar o que Tsuna passava e, honestamente, foi somente naquele mesmo instante que ele realmente se importou com o Guardião da Nuvem, independente das atitudes que o outro houvesse tomado.

"Obrigado, Gokudera." O Décimo corou. "Eu acho que está na hora de fazer alguma coisa. Não posso ficar aqui sentado o tempo todo." O homem de cabelos castanhos pareceu receoso em continuar. "E-Eu gostaria de olhar os relatórios, se possível. Se houver algo que eu possa fazer, qualquer coisa..."

"Eu os encaminharei a você, Jyuudaime." O Guardião da Tempestade ficou em pé. Ele havia ido até ali somente para checar seu amigo, mas sentia que havia feito muito mais, mesmo sem entender direito como. "Eu retornarei ao escritório e os trarei em pessoa, se desejar."

"Não, não. Não se dê ao trabalho." Tsuna corou e ficou em pé também. O velho e tímido Jyuudaime estava de volta. "Eu os lerei amanhã. Retornarei ao trabalho, já fiquei muito tempo em casa."

O Braço Direito sorriu animado com a ideia, mas ele sabia que havia um lugar que o Décimo precisava ir antes de retornar ao trabalho, e era seu papel avisá-lo. Não como membro da Família, mas sim como melhor amigo.

"Por que não visita os Sasagawa esta noite? Acho que lhe fará bem uma visita antes do retorno ao trabalho."

A reação do homem de cabelos castanhos foi um sorriso vergonhoso. Seus olhos encararam o chão e ele murmurou um baixo: "Talvez eu faça isso..." que, apesar de não soar muito convincente, foi o suficiente para que Gokudera soubesse que sua missão estava completa.

"Eu irei me retirar agora, Jyuudaime. Sua ajuda será essencial e deixarei os documentos dentro de sua gaveta. Qualquer informação eu o deixarei a par. Agora, se me permite, eu retornarei ao escritório."

"Você não precisa ser tão formal, Gokudera." Tsuna riu. "Você não está aqui como meu Braço Direito, não é?"

O homem de cabelos prateados corou e coçou a nuca, fazendo uma polida reverência. O Décimo Vongola ainda insistiu para que ele ficasse um pouco mais, mas o Guardião da Tempestade declinou o convite, e acabou sendo escoltado até a porta pelo amigo. Os dois se despediram com acenos curtos e, quando cruzou novamente o caminho de pedra batida e chegou ao portão, o Braço Direito sentiu-se extremamente bem. A ansiedade que ele sentia desapareceu e, ao entrar em seu carro, Gokudera soube que havia feito a coisa certa.

O caminho de volta não foi nem de longe tão penoso quanto à ida. O Guardião da Tempestade se sentia bem consigo mesmo, embora soubesse que a situação estava longe de ser solucionada. O homem de cabelos prateados desistiu de tentar compreender o que Dino Cavallone tinha em mente. As duas últimas noites foram muito mal dormidas, virando de um lado para o outro da cama, pensando no que aquele homem faria. Eu disse que acreditaria nele e farei isso. Não posso desapontar o Jyuudaime. O veículo parou em um semáforo e o Braço Direito virou o rosto, encarando o entorno enquanto esperava. Seus olhos verdes pararam em um determinado ponto da calçada e sua atenção foi conquistada totalmente. A cor do semáforo mudou, e ele demorou alguns segundos para se dar conta disso. O caminho que o levaria até o escritório seguia em linha reta. Se Gokudera cruzasse mais cinco semáforos, virasse à direita e rodasse por mais dez minutos ele chegaria ao edifício que os Vongola utilizavam como local de trabalho. Entretanto, o Guardião da Tempestade aproximou seu carro da calçada e o estacionou em frente a um Café, saindo do veículo e colocando as mãos dentro dos bolsos. Ele sabia que não conseguiria fazer aquilo sem uma motivação entre seus lábios.

Masayoshi estava em frente à livraria. Ele vestia uma simples calça jeans, um par de tênis e uma camisa branca. Seus fiéis óculos descansavam em seu nariz e pela expressão séria e compenetrada em seu rosto, o livro em suas mãos o envolvia por completo, a ponto de ele somente notar que tinha companhia, quando a fumaça do cigarro do Braço Direito atrapalhou sua linha de visão. Seus olhos – estes belos e negros – se ergueram de maneira incomoda, mas ao ver quem estava à sua frente, a expressão séria se transformou em uma agradável surpresa.

"Olá, Hayato."

A voz de seu ex-amante entrou pelos ouvidos do homem de cabelos prateados e o fez sorrir. Desde a cena na casa de Masayoshi os dois não haviam se encontrado, e aquelas duas semanas pareceram fazer bem ao moreno. Gokudera não lembrava o quão vistoso aquele homem ficava em roupas casuais, e a maneira séria, mas clássica, que aqueles óculos o agraciavam. Vê-lo ali, tão perto e tão ao alcance de suas mãos, fez o Guardião da Tempestade lembrar com certo carinho dos momentos que passaram juntos, mesmo grande parte deles terem sido compartilhados sobre uma cama.

"Como vai?"

"Bem. Você?"

"Bem."

Masayoshi sorriu de canto e voltou a encarar o livro. O Braço Direito deu uma longa tragada no cigarro, dando as costas e expelindo a fumaça para o outro lado. Quando ele se virou, o moreno estava ao seu lado.

"Ocupado? Poderíamos tomar alguma coisa."

"Todas as vezes que você me convida para 'tomar alguma coisa' nunca é simplesmente alguma coisa." Brincou o homem de cabelos prateados.

"Pode começar com um café e terminar com outra coisa... você decide."

Gokudera deu a última tragada em seu cigarro, encarando Masayoshi nos olhos. O convite era realmente tentador, ainda mais para alguém na posição em que ele se encontrava. Depois de ter terminado o que quer que tinham, o Guardião da Tempestade não se envolveu com mais ninguém. O estresse e a pressão da atual situação o deixavam esgotado e, para ser bem sincero, seria ótimo pode relaxar um pouco em braços que não lhe eram estranhos. Ele sabia que se aceitasse o convite os dois acabariam na grande casa de Masayoshi e o Braço Direito do Décimo esqueceria todos os seus problemas. Porém, junto com a parte prazerosa daquela decisão também havia as consequências. O homem de cabelos prateados apagou o restante do cigarro no cinzeiro portátil e o guardou novamente em seu bolso. Talvez uma última vez não faça mal. Eu conheço Masayoshi. E não há nada de errado em encontros casuais. Os lábios de Gokudera se entreabriram, mas antes que as palavras pudessem ser proferidas, algo pesado pousou em seu ombro direito. Os olhos verdes se viraram, encontrando um par de sérios olhos castanhos, e naquele momento o Guardião da Tempestade sentiu um estranho déjà vu.

"Eu estava te procurando, Gokudera." A voz de Yamamoto saiu tão séria quanto sua expressão.

A resposta ficou presa na garganta do Braço Direito. Ele não sabia se deveria responder ou questionar. Ignorar ou aceitar. Suas escolhas pareceram terem sido despidas de sua pessoa, e estar entre aqueles dois homens novamente o fez sentir-se estranhamente idiota. O Guardião da Chuva deu um passo à frente, claramente empurrando o homem de cabelos prateados um pouco para trás. Masayoshi não disse nada. Seus olhos estavam na mesma altura dos olhos do moreno, mas sua expressão não estava séria. Na verdade, ele parecia se divertir com aquilo tudo.

"Vamos deixar o café para outra oportunidade, Hayato. Eu vejo que você está ocupado." O ex-amante esboçou um meio sorriso e acenou antes de se afastar.

Gokudera encarou as largas – e tão conhecidas costas de Masayoshi – e sua garganta fechou-se amargamente. Seus pés o levaram até a frente de Yamamoto e sua ira crescia em seu peito, preparando o longo discurso que diria. Aquilo era ridículo. Era a segunda vez que ele precisava lidar com o Guardião da Chuva em uma situação que não deveria sequer envolvê-lo. Entretanto, antes de abrir a boca, os olhos verdes se arregalaram levemente. O moreno tinha uma expressão diferente em seu rosto. Uma mistura de seriedade e tristeza e, para o Braço Direito do Décimo, aquilo era algo novo vindo de alguém tão sossegado quanto o moreno.

"O que quer que você tenha para dizer pode esperar até amanhã, não?" O homem de cabelos prateados não recuou. Ele não gostava nem um pouco da maneira como era observado, mas seus olhos vagavam do rosto de Yamamoto para as costas de Masayoshi no fim da rua, e decidir se deveria ficar ou simplesmente ir atrás do outro homem era perturbador.

"Eu vim te levar de volta." A resposta foi simples, como se estivesse ali o tempo todo.

"Hã?" Gokudera juntou as sobrancelhas e riu nervoso. O que era aquilo?

"Trabalho. Existe trabalho no escritório."

O Guardião da Tempestade não entendia o que aquelas palavras significavam, mas compreendia um pouco – ou acha que compreendia – a maneira como o homem à sua frente o encarava. Yamamoto sempre foi seu Sol. Não importava o quão duras e difíceis fossem as provações, o idiota viciado em baseball sempre daria um jeito de ver o lado positivo da situação, recebendo os imprevistos de braços abertos. Quantas vezes aquela risada alta e vibrante não ecoou por dentro do corpo do Braço Direito do Décimo, trazendo-o de volta à superfície como um sopro de vida? Quantas tardes ele não passou na cobertura do Colégio Namimori, dividindo seu lanche e seu tempo com aquela pessoa? Não havia momentos ruins ou dificuldades que não pudessem ser superadas quando você tinha alguém como o Guardião da Chuva ao seu lado, te oferecendo suporte de todas as maneiras possíveis. Então, por quê? Por que aqueles olhos sempre tão risonhos e brincalhões pareciam ofendidos e até mesmo tristes? Por que os lábios que sempre cantavam palavras tolas e distribuíam risadas agora estavam crispados, como se escondessem palavras que deveriam ser proferidas, mas que não eram permitidas? O homem de cabelos prateados não entendia. Ele não sabia como desvendar aquela estranha mudança que havia se instalado em Yamamoto, porém, tinha uma vaga noção do que poderia ter causado aquela modificação. O pensamento entrou em sua mente devagar, sem pedir licença, e o fez sorrir amargamente.

"Certo." Gokudera deu meia volta e seguiu na direção de seu carro. O Guardião da Chuva o segurou pelo braço, mas o Braço Direito do Décimo o empurrou levemente. Não me toque. "Eu vou no meu carro e você vai no seu. Eu não sei que trabalho é esse que você está falando, mas é bom que ele exista. Você vem agindo de maneira imprópria nos últimos dias e eu estou no meu limite, Yamamoto. A próxima vez que me abordar como fez agora eu juro que não responderei pelos meus atos. Quando esta missão terminar nós vamos ter uma conversa séria e dependendo da situação eu não pretendo trabalhar ao seu lado novamente se for possível."

O moreno não o largou de imediato, mas o fez após alguns segundos. O Guardião da Tempestade entrou no carro e deu partida sem olhar pelo retrovisor para ver se Yamamoto o seguia. Aquele desentendimento sem sentido o havia deixado irritado, não somente porque ele tinha certa ideia do motivo pelo qual o idiota estava agindo daquela forma, mas principalmente por ter perdido a chance de conversar um pouco mais com Masayoshi. Na época em que colocou um ponto final no que tinham, o homem de cabelos prateados somente fez aquilo para se dedicar ao plano e ao momento atual. Com Dino garantindo que tudo daria certo, então não havia motivos para continuar afastado. Não é justo, Gokudera parou em um sinal vermelho, tamborilando os dedos sobre o volante. O barulho que seus anéis fazia ao tocar aquela superfície sequer chegava aos seus ouvidos tamanha a frustração. Eu disse que ele merecia ser amado melhor, por uma pessoa melhor, e o que eu faria? Eu não o amo. Eu só quero uma distração. Mas quando esta missão terminar o que farei? Eu poderia tentar amá-lo. Eu poderia tentar me apaixonar por ele.

O sinal tornou-se verde e o Guardião da Tempestade passou uma das mãos pelos cabelos, sentindo-se estranhamente cansado. A conversa com o Jyuudaime parecia longe, como se tivesse acontecido em outro dia. A ideia de retornar ao escritório estava em seus planos, mas não daquela maneira. Ele não se sentia nem um pouco à vontade em ser praticamente arrastado de volta, por qualquer motivo idiota que Yamamoto tivesse. Os dez minutos que o levaram até o escritório foram gastos com pensamentos e dúvidas. O carro foi estacionado no subsolo, e o Braço Direito do Décimo não se deu ao trabalho de esperar sua companhia. Ele subiu sozinho através do elevador, seguindo para sua sala e esperando realmente que houvesse uma pilha de papéis sobre sua mesa ou as coisas ficariam realmente feias.

Não havia nada. A sala estava do jeito que ele havia deixado no fim de tarde do dia anterior: a mesa limpa e vazia, as poltronas arrumadas e a cortina aberta apenas o suficiente para deixar entrar uma fresta de claridade. O homem de cabelos prateados acendeu as luzes, entrou em sua sala e bateu a porta com força. Ele estava bravo. Realmente bravo. O motivo de toda aquela raiva apareceu em menos de cinco minutos. O Guardião da Chuva entrou sem bater, no momento em que Gokudera andava de um lado para outro na sala. O silêncio que envolveu aquele encontro obviamente só poderia ser quebrado pelo Guardião da Tempestade, e ele não perdeu tempo em deixar transparecer a frustração que sentia.

"É bom que você tenha uma excelente explicação para isso, Yamamoto." O Braço Direito levou a mão até o bolso, retirando um cigarro e acendendo-o em poucos segundos.

O moreno fechou a porta, mas não respondeu. A expressão séria ainda pintava aquelas belas feições, e aparentemente seria difícil arrancar alguma coisa daquele homem.

"Onde está o trabalho? Onde está?"

O homem de cabelos prateados deu uma longa tragada em seu cigarro, dando as costas e encarando a parede. Ele não conseguia olhar em linha reta. Encarar Yamamoto era doloroso demais, independente da situação em que eles se encontravam. Quando Gokudera abriu seu coração e disse depois de todos aqueles anos que era apaixonado pelo Guardião da Chuva, ele achou que aqueles sentimentos fossem desaparecer com os dias. A rejeição foi silenciosa. O moreno apenas o olhou surpreso, as palavras sumiram de seus lábios, mas o Guardião da Tempestade sabia que jamais teria uma chance com aquela pessoa. Seus sentimentos foram enterrados naquele dia, e não importava quanto tempo fosse necessário, ele esqueceria aquele amor não correspondido. Os dias que se seguiram à confissão foram basicamente normais. Yamamoto não o evitou ou o excluiu do trabalho, e era como se nada tivesse acontecido. Entretanto, as coisas estavam diferentes desde o dia da visita àquele hotel. Desde que retornaram o Guardião da Chuva estava mais sério e distante, olhando-o de canto ou simplesmente observando-o com uma expressão alterada. E a quem você quer enganar, Hayato? Ele provavelmente sentiu nojo. Não é todo dia que Yamamoto vê outro homem aceitar investidas como uma mulher barata.

"O que você fazia conversando com aquele homem?" A voz do moreno saiu rouca e baixa. O Braço Direito do Décimo se virou, o cigarro nos lábios e uma expressão curiosa.

"E desde quando eu preciso dar satisfações? Eu não sei o que está acontecendo com você, mas quem eu encontro ou deixo de encontrar é problema meu."

A resposta acertou Yamamoto como um tapa na face, e foi clara a maneira como ele mordeu o maxilar com força. Seus olhos, porém, ainda estavam fixos no homem de cabelos prateados.

"Naquela noite... você realmente foi se encontrar com aquele outro homem?"

Ah, então é sobre isso? Gokudera deu uma profunda tragada em seu cigarro, aproveitando tudo o que a nicotina tinha para oferecer.

"Novamente, isso não é assunto seu." O Guardião da Tempestade caminhou até sua mesa e apagou o cigarro no cinzeiro que sempre ficava ao seu lado direito.

"É trabalho, não? Então é problema meu." O Guardião da Chuva pareceu responder entre os dentes.

O Braço Direito colocou a franja atrás da orelha, recostou-se à sua mesa e cruzou os braços. Ele não entendia o que estava acontecendo, porque aquelas perguntas tão pessoais estavam sendo feitas justamente quando o moreno já sabia das respostas.

"O que você quer que eu diga? Que eu lhe conte com detalhes o que fiz naquela noite?"

Os olhos castanhos de Yamamoto se arregalaram levemente, e o que era raiva se transformou em algo cruel. O Guardião da Chuva ergueu levemente o rosto, e daquele ângulo parecia que ele olhava o homem de cabelos prateados de cima, criando uma estranha e incomoda ironia. Gokudera abaixou os olhos verdes, sentindo-se envergonhado. Ele jamais quis dizer aquelas coisas, principalmente para o moreno. Ele amava aquele homem. Suas palavras eram sempre zangadas e arrogantes, mas não havia outra maneira de agir. Era sua personalidade, sua essência, seu caráter. Mas por que aquelas perguntas? Por que Yamamoto queria saber sobre coisas que não lhe diziam respeito e que só serviriam para humilhá-lo ainda mais. Como se não ser correspondido por seu amor de anos já não fosse o suficiente. Não existe como ele me detestar mais, não é? O Guardião da Tempestade descruzou os braços e apoiou as mãos sobre a mesa. Seus dedos se curvaram, apertando a superfície de madeira em uma vã tentativa de encontrar apoio emocional naquele gesto. Se eu tivesse ficado quieto nada disso teria acontecido. Se eu tivesse me calado e aceitado a vida como ela é eu não estaria aqui hoje. Não estaria ouvindo esses absurdos e, mais ainda, não teria estragado a amizade que tínhamos. E mesmo que não tivéssemos nada... mesmo que nem nos falássemos aquilo era suficiente. Muito mais do que eu poderia merecer.

"Masayoshi estava me convidando para acompanhá-lo para um café." O Braço Direito respondeu sem emoção. "Nós provavelmente iríamos para a casa dele se você não tivesse aparecido."

O Guardião da Chuva nada disse. Seus olhos ainda estavam sérios. Ele esperava pelo que viria em seguida...

"E sim, eu fui me encontrar com Tomozaku naquela noite. Nós jantamos no hotel."

"Só jantaram?" Havia cinismo naquele tom de voz, algo completamente novo para o homem de cabelos prateados. Seus olhos se ergueram e ele ficou surpreso. Aquela era a primeira vez que ouvia aquilo. O homem que estava a poucos metros definitivamente não era o Yamamoto que ele conhecia.

"Eu não lhe devo explicações. Tudo o que ele me informou eu coloquei no relatório e eu tenho certeza de que você o leu. As demais informações são pessoais."

"Entendo." A resposta claramente demonstrava o contrário. O moreno abaixou os olhos e coçou o queixo no exato local em que ele havia ganhado uma cicatriz no ano anterior, durante uma missão. Gokudera se lembrava vivamente daquele dia e do momento em que o Guardião da Chuva recebeu o golpe que fora direcionado a ele. O resultado foi que o Braço Direito do Décimo teve chances de revidar e com isso a luta foi ganha, mas a custo de uma pequena e permanente cicatriz no queixo de seu amigo. "Eu estou um pouco surpreso, Gokudera. Durante todos esses anos eu não imaginei que você fosse... assim." O Guardião da Tempestade engoliu seco. Ele poderia ouvir humilhações de todo mundo, menos daquela pessoa. "Primeiro você me conta uma incrível história sobre estar apaixonado por mim e depois aceita passar a noite na cama de todos os homens disponíveis no Japão. O que eu devo tirar disso?"

As palavras foram acompanhadas por passos, e passos acompanhados por dois olhos cheios de falsa ironia. Quando terminou de falar, Yamamoto estava parado em frente ao homem de cabelos prateados. Os dois se encararam diretamente, como se não houvesse nada que pudesse ficar entre eles. Gokudera mantinha a expressão branca, um misto de indiferença e total desinteresse, mas aquilo era somente na superfície. Por dentro seu coração batia rápido, seus músculos tremiam e ele implorava para que aquilo terminasse. A vontade de correr e nunca mais retornar era tão forte que o fez desviar os olhos por um instante na direção da porta que estava localizada ao longe. Aquele mero segundo pareceu ser o suficiente para dar coragem para que ele respondesse. Terminou. Meu amargo amor terminou.

"Nós jantamos. Eu jantei lasanha e bebi duas taças de vinho. Seguimos para o escritório. Aquele mesmo da última visita, o com a decoração em preto e branco.” O coração do Guardião da Tempestade doía. Ele queria chorar, ele queria gritar, correr, esconder-se do mundo, esconder-se do moreno. Em sua mente, as lembranças de todos aqueles anos apenas serviam para dar a força necessária para dizer as próximas palavras. Quando aquilo deixasse seus lábios tudo terminaria e ele poderia finalmente seguir em frente. “Foi exatamente naquele sofá. Nori-san me fod–”

Gokudera não viu o tapa que atingiu seu rosto com estalo e o fez até mesmo virar a cabeça.

Gokudera não viu a expressão que Yamamoto tinha em seu rosto quando o atingiu.

Gokudera não conseguia imaginar a expressão que ele mesmo tinha em seu rosto quando foi atingido.

Entretanto, Gokudera viu quando o Guardião da Chuva lhe deu as costas e caminhou com passos largos na direção da porta, abrindo-a e saindo sem olhar para trás. O barulho que a porta fez ao ser batida com violência o fez tremer, trazendo-o de volta à realidade. Uma de suas mãos tocou o lado direito, no exato local em que ele havia recebido o tapa. Ele podia sentir a área latejar, mas a dor física era irrelevante se comparada à vergonha que ele sentia. Tudo aquilo foi uma mentira. Não havia acontecido absolutamente nada entre ele e o Chefe da máfia local. O Guardião da Tempestade foi sim ao hotel no horário combinado. Ele realmente comeu lasanha e bebeu duas taças de vinho, mas assim que sentiu as investidas de Tomozaku, suas dinamites estavam muito bem preparadas e os subordinados não conseguiram chegar a tempo. Quando apareceram, o próprio Chefe estava amarrado a uma cadeira com uma grande dinamite presa ao peito. Naquelas circunstâncias, qualquer pessoa cantaria igual a um passarinho. Todas as informações que recebera haviam sido com suas roupas vestidas, sentado na poltrona, com as pernas cruzadas e apenas ouvindo. Eu jamais teria dormido com aquele homem, o Braço Direito do Décimo sentiu os olhos cheios de lágrimas, mas ele achou que eu havia feito. Para Yamamoto eu não passo de lixo. Algo pior do que uma prostituta barata.

As duas lágrimas escorreram pelos cantos dos olhos do homem de cabelos prateados no exato momento em que a porta foi reaberta. A fúria que acompanhou aquele gesto foi maior do que a utilizada para fechar a porta, e Gokudera só teve tempo de erguer a cabeça. Yamamoto cruzou a sala com passos decididos e, antes que o Guardião da Tempestade pudesse fomentar uma pergunta, seus lábios foram capturados pelos lábios do moreno. O Braço Direito do Décimo arregalou os olhos, sem entender o que estava acontecendo. Em um segundo ele estava ali, sozinho e lamentando sua má sorte, para no outro ter o Guardião da Chuva invadindo sua sala, seu espaço pessoal e agora sua boca. A língua de Yamamoto pediu passagem e foi naquele momento que o homem de cabelos prateados perdeu completamente o controle. Seus olhos se fecharam e seu corpo jogou-se para frente, sendo recebido pelos braços fortes do moreno. As mãos de Gokudera deslizaram pelo cabelo curto do Guardião da Chuva, segurando-o e apertando-o, enquanto seus lábios se moviam com fome, em movimentos exagerados e extremamente necessitados. Por seis anos ele sonhou e fantasiou em como seria sentir aqueles lábios junto aos seus. Por todos aqueles anos ele se convenceu de que nunca receberia sequer uma migalha de atenção daquele homem. Por todo aquele tempo ele não amou ninguém além de Yamamoto. O Guardião da Chuva deu um passo à frente, prensando o corpo dos dois com um pouco mais de força sobre a mesa, e naquele momento Gokudera entendeu Hibari Kyouya. Naquele rápido e inesperado momento ele pensou que também seria capaz de matar por aquele homem.

Continua...