Vendetta

26 Epílogo


Epílogo


[ Dez anos no futuro. ]


Não era fácil cuidar do jardim nos meados de fevereiro.

O clima era absurdamente frio, lembrando aos moradores do Japão que eles não possuíam somente uma estação. A primavera trouxera todo o esplendor que aquele lugar merecia presenciar e por quatro meses o templo Namimori foi um dos mais belos lugares do Japão. Diariamente as pessoas vinham visitá-lo, trazendo seus pedidos e oferendas. Entretanto, o verão fez com que a beleza do local se tornasse desafiante se comparado ao calor excessivo. As visitas diminuíram, as oferendas eram feitas em menor quantidade e Hibari Kyouya finalmente se sentia livre de todo aquele incomodo. O outono trouxe novamente os visitantes, e por meses o Guardião da Nuvem achou que precisaria suportar aquelas pessoas. Seu instinto queria afastá-las, mas ele sabia melhor do que ninguém que não poderia fazer isso. Meu templo, minha responsabilidade.


Naquela época, porém, pela primeira vez desde que assumiu a direção do templo Namimori, o moreno não se importou com as visitas e oferendas. Não que ele houvesse mudado sua essência do dia para a noite. Não que ele, mais do que de repente, houvesse acordado e decidido que amava a humanidade e que cada pessoa merecia o mínimo de sua atenção. Não. Não quando o assunto era Hibari Kyouya.

O único motivo que fez com que o ex-Líder do Comitê Disciplinar simplesmente não se importasse foi porque o outono não havia sido passado no templo. E, para ser ainda mais específico, o Guardião da Nuvem não esteve sequer no Japão. O outono chegou, os visitantes retornaram ao templo, e o moreno passou todos aqueles meses em uma confortável e larga mansão na Itália.


Hibari permaneceu seis meses em solo estrangeiro, exatamente como havia prometido a Dino. Quando o louro retornou para sua vida, naquela ensolarada manhã de primavera, o Guardião da Nuvem prometeu a si mesmo que faria o que quer que aquele homem pedisse. No final, o italiano tinha um plano levemente modesto e que envolvia basicamente o que o moreno tinha em mente: estar junto. A sugestão do Chefe dos Cavallone foi que ambos ficariam um pouco em cada país. Nenhum deles poderia simplesmente abandonar a vida que tinha, isso seria impossível. Entretanto, adaptações e ajustes eram viáveis e quando o ex-Líder do Comitê Disciplinar deixou o templo Namimori, há seis meses, ele não achou que as coisas seriam tão... fáceis.


Morar seis meses na Itália foi muito mais simples do que Hibari jamais imaginou. Ele já havia passado meses, em férias, ao lado de seu amante, mas a viagem dessa vez teve outro gosto, outra cor. Desde o começo ele sabia que ficaria ali, independente do que acontecesse. Os subordinados da Família pareceram ter conhecimento, e o Guardião da Nuvem nunca se sentiu tão importante quanto naquele semestre. Eu estava com tanto medo de me perder naquele homem e achei que o afastamento seria a decisão mais sábia. Aquele pensamento cruzou sua mente diversas vezes, a maioria quando ele se pegava totalmente sozinho naquela larga mansão. E, verdade fosse dita, o moreno teve muito desses momentos solitários.


A agenda de Dino tornou-se extremamente apertada depois de seu retorno. Aliás, tudo se tornou diferente, mas conhecido, quando o louro apareceu no templo naquela bela manhã. Lembranças que Hibari não tinha vivido de repente brotaram em sua mente, como se seu corpo fosse capaz de recordar aquelas situações, mesmo que ele não tivesse realmente presenciado tudo aquilo. E essa regra se aplicava também ao italiano. As lembranças das pessoas mudaram, mas somente os que sabiam sobre o incidente ainda conseguem se lembrar de tudo aquilo. O Guardião da Nuvem, às vezes, se questionava se não teria sido melhor não se lembrar de nada. Esquecer aquele terrível ano, aquelas noites não dormidas, a raiva, a ira e principalmente o arrependimento. Não. Eu não posso olhar para trás. O resultado da decisão que o moreno tomou foi que seis meses depois de permanecer no estrangeiro ele estava de volta ao Japão. Seu coração ansiou por sua amada e querida Namimori há algumas semanas, mas o ex-Líder do Comitê Disciplinar não mencionou uma única vez seus sentimentos saudosistas. Partiu do próprio Chefe da Família Cavallone a ideia de ir ao Japão, e intimamente Hibari se sentiu bem por retornar à sua primeira casa.


O templo Namimori precisou ser um pouco reformado, e, quando se referia a pouco, era realmente pouco. A ida de Dino àquele lugar havia sido discutida antes da viagem à Itália, mas ficou a cargo de Kusakabe cuidar da reforma e organizar a propriedade. A pequenina casa que ficava paralela à casa principal foi basicamente toda refeita. Ali seria o escritório particular do louro, separada cerca de cinco minutos e cortada por um belo e vistoso jardim. O ex-Vice Líder do Comitê Disciplinar construiu um caminho de pedra batida, logo, não seria necessário atravessar sobre a grama e as flores. A casa principal também passou por uma reforma, e o moreno ficou bem surpreso ao notar que seu quarto havia sido ampliado. O cômodo vazio que ficava ao lado esquerdo agora fazia parte de seus aposentos. Havia um guarda-roupa maior, duas cômodas e o banheiro não era mais pequenino e básico, comportando apenas o necessário. Agora existia uma banheira, um espelho largo e dezenas de pequenas modificações que Hibari não teria feito.


A primeira reação que cruzou a mente do Guardião da Nuvem foi em tirar os tonfas de dentro do terno e fazer Kusakabe refazer tudo aquilo. Seu espaço pessoal havia sido invadido e modificado, e aquilo pedia uma surra. Entretanto, aquele assassino pensamento desapareceu no instante seguinte. Dino praticamente correu pelos cômodos como uma criança, e sua voz feliz e animada ecoava pelo templo. Ele estava simplesmente encantado. O quarto, que para o moreno parecia ter sido violado, foi aceita como uma mudança extremamente benéfica. Todas as pequenas alterações foram recebidas de braços abertos pelo louro, que, ao final, tinha o mais infantil e feliz sorriso que alguém poderia ter.


"M-Muito obrigado, Kyouya!" O italiano o abraçou com força. Seu rosto estava corado e seria impossível não notar o quão genuinamente satisfeito e feliz aquela pessoa estava.


A ira de Hibari não fora totalmente aplacada naquele momento, mas ele mentiria se dissesse que aquilo não o deixou um pouco satisfeito. Aquele sacrifício não pareceu nada se comparado aos doze meses que ele passou jogado pelos cômodos, remoendo lembranças de momentos que jamais voltariam. A possibilidade de poder construir novas recordações naquele novo templo pareceu deixá-lo satisfeito com a ideia da mudança, mesmo que o Guardião da Nuvem soubesse que levaria tempo para se acostumar.


Duas semanas haviam se passado desde o retorno a Namimori e a rotina do moreno basicamente também retornara. O clima estava frio por causa do fim do inverno, mas ainda não havia sinal da tão esperada primavera. O ex-Líder do Comitê Disciplinar estava levemente excitado com a ideia de poder passar horas em seu jardim quando a próxima estação chegasse. Ele sabia que estaria em solo japonês durante os próximos seis meses, então teria tempo suficiente para cuidar de sua parte favorita do templo. Com o inverno ainda à espreita, havia pouco a ser feito. Não havia flores, apenas uma grossa camada de neve que cobria tudo e o fazia passar suas horas em acolchoados kimonos e quentes xícaras de chá.


E naquela noite não seria diferente...

Hibari havia acordado um pouco mais tarde. Seu corpo se tornava preguiçoso no inverno e ele sentia vontade de passar o dia debaixo do cobertor, hibernando feito um urso. O espaço ao seu lado esquerdo estava vazio. Dino acordava cedo por causa do trabalho, muitas vezes antes mesmo do dia clarear. O louro seguia então para o escritório atrás da casa principal, retornando somente quando o Guardião da Nuvem despertava. Os dois tomavam café da manhã juntos e aquele era basicamente o tempo que o italiano podia compartilhar com seu amante. O trabalho levava o Chefe dos Cavallone de volta ao escritório e o moreno passava o restante do tempo cuidando de seus próprios assuntos.


O único problema era que não havia muito que fazer naqueles dias. Sua pesquisa com as caixas estava progredindo, mas ele dependia do relatório de Verde, e o ex-Arcobaleno havia dito que só poderia enviá-lo em algumas semanas. Então, sem jardim ou projeto particular, o ex-Líder do Comitê Disciplinar estava simplesmente com muito tempo nas mãos e sem nada para ocupar esse tempo. Existe outra coisa... Hibari abaixou os olhos. Ele estava sentado em sua sala de estar, confortável em sua almofada negra. Em sua mão havia uma fumegante xícara de chá e seu corpo estava protegido por um grosso kimono escuro. A porta estava arrastada e dali ele podia ver a fina neve que caia no jardim. Aquele pensamento o fez encarar o conteúdo de sua xícara, pensando quantas vezes aquele pensamento não havia cortado sua mente.


As ideias ainda ferviam na cabeça do Guardião da Nuvem quando uma sombra familiar surgiu na direção da porta. O moreno pousou a xícara sobre a mesinha, virando o rosto e observando seu fiel Braço Direito fazer uma polida reverência. Kusakabe vem anunciando minhas visitas por mais de dez anos. O ex-Líder do Comitê Disciplinar indagou-se o que havia mudado naqueles anos e a reposta estava em um dos dedos da mão esquerda do homem parado próximo à porta. Ele tem esposa e um filho agora, porém, é o meu amigo mais confiável.


"Kyou-sama." A voz grave e educada do Braço Direito pareceu ecoar por todo o cômodo. "O senhor tem visita."


"Não, eu não tenho." A resposta era sempre a mesma. Aliás, os diálogos que envolviam aquele tipo de situação eram basicamente iguais.


"O Guardião da Tempestade veio vê-lo, Kyou-sama."


"Jogue-o para fora, Kusakabe. E feche a porta. Está frio."


E, como esperado, a visita não esperou pela resposta. Aquele homem nunca esperaria.

Gokudera Hayato simplesmente passou por Kusakabe, apoiando a mão no ombro do Braço Direito e entrando após retirar os sapatos. Hibari meneou a cabeça na direção do sério homem que ainda estava do lado de fora, mostrando que entendia a situação. Kusakabe fez uma polida reverência antes de arrastar a porta e retirar-se.


"Boa noite, Hibari." O homem de cabelos prateados estava basicamente como o Guardião da Nuvem se lembrava: pálido, arrogante, insuportável, atrevido... a única diferença talvez fosse os cabelos um pouco mais longos, quase batendo na altura dos ombros. Naquela noite eles estavam escondidos por um cachecol azul escuro.


"Não tão boa." O moreno voltou a segurar sua xícara de chá. Sua noite havia se tornado ruim no momento em que aquele herbívoro insolente pisou no primeiro degrau da sua escadaria. Não. No momento em que ele sequer lembrou que eu existo.


"Eu vim apenas repassar uma mensagem do Jyuudaime." O Guardião da Tempestade retirou um envelope pequenino e o colocou sobre a mesinha de centro. "Mayumi fará dois anos e o Jyuudaime dará uma festa."


Hibari não moveu um único músculo.


"Ele convida você e o Haneuma a comparecerem." O Braço Direito disse ambos os nomes sem hesitar. Entretanto, o Guardião da Nuvem engoliu seco. Os anos haviam passado, mas ele se recordava muito bem de certa conversa que ambos tiveram exatamente naquela mesma sala. As palavras do homem de cabelos prateados nunca deixaram seu coração. O peso que aquela verdade possuía o assombraria até o último dia de sua vida.


"Você realmente acha que eu irei a um lugar infestado por herbívoros?" O moreno deu um gole em seu chá. A temperatura estava ideal.


"Não, na verdade, eu não me importo se você vai ou não. Estou apenas repassando o convite que o Jyuudaime me entregou. Ele conta com a presença do Haneuma, já que ele é o padrinho da menina."


Hibari já sabia qual seria a resposta de Dino, mas isso não significaria que o idiota sentado à sua frente precisaria saber. O Guardião da Nuvem voltou a encarar seu chá, imaginando se teria tempo de comprar alguma coisa para a pequena Mayumi. Ele a havia visto algumas vezes, e, embora não aparentasse, o moreno adorava crianças e a filha de Tsuna era totalmente o oposto do pai. Mayumi era esperta, corajosa e adorável, além de sempre recebê-lo com um largo sorriso. Aquele pensamento fez o ex-Líder do Comitê Disciplinar controlar a vontade de esboçar um discreto sorriso. Ela é ainda mais apegada ao idiota italiano do que a mim.


"Eu repassarei o recado. Se eu lembrar..." Hibari pousou a xícara sobre a mesa, dando aquele pequeno encontro como encerrado.


Entretanto, Gokudera não se moveu. Os olhos verdes encaravam o Guardião da Nuvem e, conhecendo aquele herbívoro insolente, o moreno sabia que viria algo mais e ele estava preparado. Seus tonfas dormiam confortáveis dentro de seu kimono.


"Eu estou feliz por você, Hibari."


O ex-Líder do Comitê Disciplinar tinha uma expressão branca. Ele não gostava do rumo daquela conversa...


"Eu sei que você me odeia e saiba que isso é totalmente recíproco, mas eu estou genuinamente feliz por você, e isso era algo que eu pretendia ter dito antes, porém, não encontrei a oportunidade." O Braço Direito do Décimo Vongola ficou em pé, mas seu olhar ainda continuava em sua companhia. "Boa noite, Hibari."


O Guardião da Nuvem encarou o que havia sido deixado sobre a mesinha, mas não ouviu quando Gokudera arrastou a porta e saiu. Os olhos negros se abaixaram e o moreno ficou em pé, espreguiçando-se e segurando o convite entre seus dedos. Os passos seguiram surdos até o corredor e Hibari caminhou até a parte de trás de sua casa. O céu possuía uma forte tonalidade azul escura e o vento frio que bateu em suas bochechas o fez pensar em retornar até seu quarto e buscar um casaco ou um cachecol; no fim o Guardião da Nuvem simplesmente vestiu o macio chinelo que estava no primeiro degrau e seguiu pelo caminho de pedra batida que levaria ao escritório do Chefe dos Cavallone.


O lugar havia sido bem iluminado, mas a neve cobria boa parte do caminho. Ao se aproximar um pouco mais, o moreno ouviu a voz de Romário e de outro subordinado. Quando seus pés pisaram na escada de madeira, o ar quente que vinha da pequena casa o atingiu como um abraço apertado. Havia dois subordinados na porta e ambos se calaram ao vê-lo ali. O ex-Líder do Comitê Disciplinar fez uma discreta reverência com a cabeça, seguindo pelo corredor de madeira, na direção das vozes. O lugar não era grande e só havia basicamente um cômodo sendo usado, então seria fácil encontrar seu amante. A luz que vinha da porta aberta indicou o destino final e, ao finalmente parar na entrada, Hibari apertou o convite com um pouco mais de força entre seus dedos.


A pessoa que ele procurava estava sentada atrás de uma larga mesa de madeira. Dino vestia uma charmosa blusa de gola alta negra e seus óculos de leitura estavam na ponta de seu nariz. A mesa estava cheia de papéis, livros e pastas. Romário estava parado próximo à porta, e ao lado do louro, ou melhor, praticamente sobre o italiano estava uma das muitas pessoas que o Guardião da Nuvem simplesmente não suportava e que torcia para que a oportunidade de mordê-lo até a morte surgisse. Todavia, infelizmente, nos últimos dez anos, a chance nunca havia aparecido. Rafaelle estava inclinado ao lado do Chefe dos Cavallone, apontando algo em um dos relatórios. Sua mão esquerda estava sobre o ombro direito de Dino e aquela cena fez o sangue do moreno ferver.


"Boa noite, Hibari." A voz de Romário chamou a atenção dos outros dois, que levantaram os olhos praticamente ao mesmo tempo. Algo naqueles dois homens louros, estrangeiros e belos fez o ex-Líder do Comitê Disciplinar sentir vontade de quebrar aquele lugar.


"Kyouya!" A voz do italiano soou animada como sempre. O Chefe dos Cavallone retirou seus óculos e os pousou sobre a mesa.


"Boa noite, Hibari-san." Rafaelle fez uma polida reverência, mas continuou na mesma posição.


"Eu preciso conversar com o idiota... a sós."


A voz de Hibari soou baixa e séria. O Braço Direito dos Cavallone apenas riu, deixando o cômodo sem questionar. Entretanto, Rafaelle não se moveu, exatamente como o Guardião da Nuvem esperava. O moreno apertou os olhos e fez menção de levar uma das mãos para dentro de seu kimono, mas Dino foi mais rápido.


"Rafaelle, está tudo bem." A voz do louro saiu gentil e ele tocou as costas do homem parado ao seu lado.


"Não, não está, Chefe." O homem com os cabelos mais longos respondeu levemente aborrecido. Em dez anos Rafaelle se tornaria quase uma sombra do italiano. "O trabalho está atrasado e você mesmo pediu para que eu o proibisse de perder o foco, Chefe!"


"Eu sei, eu sei..." O Chefe dos Cavallone riu. "Cinco minutos, está bem?"


Rafaelle não pareceu gostar da resposta, mas não havia muito o que ser feito quando Dino dava a última palavra. O homem de cabelos louros e levemente longos passou por Hibari, mas não sem antes lançar um pesado olhar. Quando a porta foi fechada atrás dele, o Guardião da Nuvem precisou controlar sua vontade assassina de perseguir o atrevido empregado e mordê-lo até a morte.


"Um dia eu daria uma surra bem dada nesse fedelho e não haverá nada que você poderá fazer." O moreno adentrou mais a sala, observando o italiano se levantar e dar a volta.


"Ele só está fazendo o seu trabalho. Rafaelle é muito mais sério do que Romário e eu realmente não consigo escapar quando ele me vigia." O Chefe dos Cavallone recostou-se à mesa e abriu os braços, fazendo sinal para que o moreno se aproximasse. "Diga o que o trouxe aqui... fora a saudade, claro."


Os olhos do ex-Líder do Comitê Disciplinar se apertaram e ele cogitou a ideia de morder aquela pessoa até a morte.


"O empregado inútil do herbívoro ainda mais inútil veio entregar isso." Hibari aproximou-se mesmo a contragosto, oferecendo o pequenino envelope branco. O nome de Mayumi estava escrito com uma caprichada letra e o Guardião da Nuvem teve certeza de que quem havia escrito fora a Sra. Sawada.


"Oh! Mas já é essa época do ano!?" Dino abriu um largo sorriso muito antes de abrir o envelope. Os belos olhos cor de mel correram as poucas linhas e ele sorriu ainda mais. "O que acha de comprarmos o presente juntos? E... online, certamente." O louro completou muito antes de o moreno formular sua rejeição. "Porém, eu entregarei pessoalmente. Jamais perderia a chance de ver a pequena Mayu-chan. Ela deve estar ainda mais adorável."


O moreno sentiu uma tentadora vontade de ir, mas nada poderia ser mais triste, infernal e sofrível do que estar embaixo do mesmo teto que basicamente todos os inúteis de Namimori. Seu corpo tremeu, rejeitando fisicamente aquela ideia absurda e que o fez sentir vontade de vomitar.


"Eu pedirei a Tsuna que deixe Mayumi uma tarde conosco, como na semana passada, o que acha?"


Aquela ideia fez com que o mal-estar momentâneo de Hibari sumir automaticamente. Na semana anterior, Tsuna pediu para Dino cuidar da pequena por um dia, pois Kyouko havia corrido para o hospital quando soube que Chrome havia dado entrada. Durante um dia inteiro o ex-Líder do Comitê Disciplinar teve uma pequena criatura que não batia sequer em seus joelhos, perambulando pelos corredores, rolando e rindo. Há muito tempo o Guardião da Nuvem não se sentia tão calmo e tranquilo. A ideia de repetir a dose soava simplesmente perfeito.


"Nós precisamos visitar Chrome-chan. Eu quero ver o bebê." O italiano pousou o convite sobre a mesa e segurou a mão do moreno, trazendo-o para perto.


"Com sorte ele não puxou o pai." Hibari até havia sonhado com isso quando soube que a Guardiã da Névoa estava grávida. Em seu sonho a criança era exatamente como Mukuro: psicótica, terrorista, insuportável, e tudo o que tocava se transformava em cinzas.


"É só um bebê, Kyouya. E eu tenho certeza de que Chrome será uma boa mãe. Vamos combinar de visitá-la quando ela estiver totalmente restabelecida, está bem?"


O Guardião da Nuvem deu de ombros, mostrando que não se importaria. Ele adorava crianças, mas pensar em encontrar Rokudo Mukuro fazia qualquer animação desaparecer. O ex-Líder do Comitê Disciplinar ergueu os olhos, surpreso por não ter notado que havia caminhado até seu amante. Seu corpo estava parado entre as pernas do Chefe dos Cavallone, envolvido por dois fortes e protetores braços.


"Eu preciso ir." O moreno mentiu. Ele não tinha absolutamente nada para fazer.


"Hm..." Dino tinha um travesso sorriso nos lábios. A ponta de seu nariz tocou os cabelos escuros, como se os acariciasse. "É por isso que você veio aqui, Kyouya?"


As sobrancelhas se juntaram e Hibari manteve a expressão branca. Ele não entendia.


"Você veio me ver, não? Se quiser eu posso parar tudo e ir com você."


"Você tem bebido enquanto trabalha, Cavallone?" O Guardião da Nuvem tinha a voz entediada. “Aquele fedelho não fiscaliza o que entra nessa sala?”


"Não hehehe." O louro riu e apertou o abraço. "Eu estou dizendo que se você quiser a minha companhia, eu ficarei feliz em retornar com você."


O moreno permaneceu no mesmo lugar, mas aquelas palavras tiveram muito mais impacto do que aparentava. Ele não havia ido até ali somente para repassar o convite. Aliás, aquele não era seu trabalho. O ex-Líder do Comitê Disciplinar sabia que poderia deixar o envelope com Romário ou até mesmo com o insuportável Rafaelle, porém, a verdade era que Hibari queria ver o italiano. Ele estava cansado de passar horas sozinho em sua casa, sabendo que o Chefe dos Cavallone estava tão próximo, quase ao alcance de suas mãos. A ponta dos dedos do Guardião da Nuvem subiu pelo peito de seu amante, sentindo não somente os músculos, mas também a fina lã da blusa. Dino sempre estava bem-vestido, todavia, era no inverno que aquele homem mostrava seu verdadeiro poder. As roupas bonitas, o cabelo perfeitamente escovado, aqueles belos e hipnotizantes olhos cor de mel... aquela pessoa era uma armadilha. Um verdadeiro perigo ambulante. O louro trouxe o corpo do moreno um pouco mais próximo, de modo que ambos se encostassem um no outro. Os lábios do italiano depositaram um casto e provocativo beijo no pescoço nu de Hibari, e aquele simples gesto levou uma onda de arrepios pelo corpo do ex-Líder do Comitê Disciplinar.


"Eu vou parar o meu trabalho e retornar com você..." A voz do Chefe dos Cavallone soou baixa, um sensual e rouco sussurro. Suas mãos desceram da cintura para o quadril de seu amante, apalpando-o com certo pudor, mas também luxúria. "Nós vamos pedir o jantar e teremos uma deliciosa refeição. Depois nós seguiremos para o banheiro..." O Guardião da Nuvem tinha o rosto escondido no pescoço de Dino, mas foi impossível não tremer ao sentir os dedos de seu amante trilhando o caminho de sua coxa até sua virilha. "E tomaremos um longo banho juntos... eu vou ajudá-lo a se ensaboar... aqui e ali..." O moreno mordeu o lábio inferior ao sentir a ponta dos dedos do louro tocar seu membro. Seu corpo inteiro parecia paralisado. Ele queria se afastar, mas não conseguia. Naquele momento o ex-Líder do Comitê Disciplinar havia sido completamente seduzido. "Então nós iremos para o quarto e eu o amarei até o dia nascer, Kyouya, do jeito que você quer e na posição que eu sei que você adora."


A ponta da língua do italiano subiu devagar pela orelha de Hibari, fazendo com que seus lábios gemessem baixo. O Chefe dos Cavallone depositou um beijo no pescoço do Guardião da Nuvem, sugando a pele e deixando ali uma marca vermelha. Quando ergueu o rosto, tudo o que o moreno viu foi um largo sorriso.


"Agora eu vou tentar convencer Rafaelle a me deixar ter minha noite perfeita."


Dino afastou-se devagar e o ex-Líder do Comitê Disciplinar fechou os olhos. Seu corpo havia reagido àquela investida, e, por mais humilhante que isso pudesse soar, ele realmente esperou que algo mais fosse acontecer. Ao notar que não receberia nada, Hibari sentiu vontade de virar-se e morder o louro idiota até a morte por tê-lo incitado daquela maneira. Porém, aquilo não seria inteligente, ele sabia. Aquela raiva poderia ser muito melhor empregada para outra coisa. Outro alguém. A porta foi aberta e, nem tão bem o italiano chamou o nome de Rafaelle, o homem de cabelos longos e louros estava ali.


"Não. Eu não posso liberá-lo, Chefe." Foi a primeira coisa que Rafaelle disse.


"Somente por hoje, está bem? Eu continuarei amanhã e então prometo que não pararei de assinar contratos."


"Não!" O homem que prendia os cabelos em um perfeito rabo de cavalo respondeu sério. "Sem exceções, Chefe."


"M-Mas..." O Chefe dos Cavallone mordeu o lábio inferior e o Guardião da Nuvem revirou os olhos.


"Saia da frente." O moreno aproximou-se e lançou um pesado olhar sobre Rafaelle. Ele era mais baixo, mas possuía uma beleza e petulância que simplesmente o irritavam. "E eu levarei o idiota comigo."


"Não, senhor. O Chefe não é idiota, e não sairá daqui até ter terminado o trabalho."


"Oh!" Hibari abriu um meio sorriso. Suas mãos começaram a formigar de antecipação. Todas as vezes que via uma presa implorar para ser devorada, ele sentia como se o mundo fosse justo novamente.


"K-Kyouya, por favor." Dino se colocou entre os dois antes que o ex-Líder do Comitê Disciplinar pudesse saborear um pouco mais aquele momento. "Rafaelle, desculpe, mas eu preciso parar de trabalhar agora. Eu falei sério sobre amanhã. Nós continuaremos aonde paramos, está bem? Em troca, eu poderia liberá-lo alguns dias na próxima semana... Você poderia dar uma volta em Namimori... tomar um café..."


Os olhos azuis de Rafaelle brilharam e o Guardião da Nuvem soube que havia ganhado seu jantar, seu banho e o que quer que fosse acontecer sobre seu futon. O homem de cabelos longos e louros mordeu o lábio, olhando para seu Chefe como se estivesse realmente com um grande dilema nas mãos. Eu havia me esquecido que o insuportável tem um amante na cidade. O moreno se recordava vagamente do italiano mencionar algo sobre Rafaelle se encontrar há algum tempo com um advogado mais velho e que era conhecido de Gokudera Hayato. Hibari não quis entrar em detalhes, mas se isso significaria se livrar daquele problema, então ele deixaria a surra para outra ocasião. Oportunidades não faltarão. Esse ai é tão petulante quanto é profissional.


"A-Acho que posso abrir uma exceção..." O louro limpou a garganta. Seu rosto estava corado. "Mas saiba que o trabalho virá em primeiro lugar, Chefe! E-Eu não irei me dive––, digo, s-sair se o trabalho não estiver feito."


A maneira como o idiota se perdia nas próprias palavras fez o Guardião da Nuvem sentir um pouco de pena, mas não o suficiente para deixá-lo menos ferino. O moreno lançou um olhar transbordando desdém, passando por Rafaelle e apenas chamando seu amante com um fio de voz. O italiano, entretanto, entendeu imediatamente e, após pedir mais meia dúzia de desculpas, o ex-Líder do Comitê Disciplinar sentiu dois apertados braços ao redor de sua cintura. Romário estava próximo ao caminho de pedra, cigarro nos lábios e uma expressão divertida.


"Romário, por favor, peça o jantar. Eu quero daquele mesmo restaurante que pedimos na sexta passada, lembra? O que vem com um largo prato de hambúrguer." As orelhas de Hibari de repente estavam muito bem atentas. "Peça para você e Rafaelle também. Se não forem jantar aqui levem para o hotel, está bem?"


"Você conseguiu enganar o rapaz, não é, Chefe?" O Braço Direito apagou o cigarro no cinzeiro portátil e riu. "O que você prometeu dessa vez?"


O Chefe dos Cavallone coçou a nuca e sorriu sem graça antes de continuar.


"Ontem ele estava ao telefone com o amante. Aparentemente eles deveriam se encontrar esta semana, mas o trabalho não permitiu. Rafaelle se desculpou tantas vezes que me partiu o coração." Dino parecia genuinamente penalizado. "Sábado eu irei à casa de Tsuna, então precisarei correr com o trabalho, mas quero liberá-lo no fim de semana. Rafaelle não tem nem 26 anos. Não é justo privá-lo de ter sua vida pessoal."


"O que acontecerá se ele ficar sério com essa pessoa?" Romário não parecia preocupado, apenas curioso.


"Então ele terá de fazer a escolha que eu fiz ou simplesmente esquecer."


O louro sorriu e apertou a cintura do Guardião da Nuvem com um pouco mais de força. O moreno fez uma pequena reverência ao passar pelo Braço Direito, não se importando muito quando o italiano entrelaçou ambas as mãos. O ex-Líder do Comitê Disciplinar havia passado da fase em que precisava ser mais discreto quando o assunto era Romário. Durante todos os anos aquele homem havia sido muito mais do que um Braço Direito, e, no fundo, Hibari sabia que o Chefe dos Cavallone o considerava como parte da família. Os dedos do Guardião da Nuvem apertaram a mão de seu amante com um pouco mais de possessividade. Os dois homens percorriam o caminho de pedra, enquanto Dino tagarelava sobre as delícias que eles comeriam no jantar. E, embora estivesse ouvindo atentamente a tudo, o moreno só conseguia pensar em como a volta estava sendo diferente. A neve ainda caia e a temperatura continuava gelada, mas não havia como comparar. Pois, ao lado daquele idiota louro, ele se sentia automaticamente aquecido... como se estivesse constantemente embaixo do Sol. Meu Sol. Meu idiota.


x


Se havia algo que Hibari precisaria assumir era que seu amante não media esforços quando o assunto era agradar. Aquela característica o Guardião da Nuvem notou há muito tempo, antes mesmo de terem começado aquele tumultuado relacionamento. Na época em que treinavam, o louro sempre se mostrou preocupado com hematomas, o calor do sol, o frio, as condições do local... qualquer coisa era motivo para que aquela pessoa se preocupasse, e, embora nunca entendesse como alguém poderia se dar àquele nível de trabalho, o moreno mentiria se dissesse que não havia se acostumado a ser mimado. Naquela noite, o Chefe dos Cavallone manteve a sua primeira parte da promessa. Os dois arrumaram a mesinha de centro, e a comida foi entregue depois de cerca de dez minutos. Romário despediu-se de seu Chefe, e Rafaelle teria ido embora com uma expressão séria se no meio do caminho Dino não o tivesse parado e dito sobre sua ideia com relação ao fim de semana. O rapaz corou e agradeceu muitas vezes, e de onde estava o ex-Líder do Comitê Disciplinar imaginou como aquele homem conseguia lidar com praticamente todo mundo. Ele sabe como colocar um sorriso no rosto. Não existe nada que o idiota não faça para ver as pessoas felizes. Hibari havia se sentado em sua confortável almofada, sentindo-se muito mais tranquilo e livre ao ouvir os passos se aproximarem daquele cômodo. Seu amante sentou-se na almofada em frente e esboçou um largo sorriso.


"Esses meses na Itália me fizeram esquecer como é sentar-se em uma mesa... baixa." O louro separou os hashis. A mesa era baixa, mas larga, e havia uma infinidade de massas, saladas e, claro, hambúrgueres.


"Desde que não se esqueça de tirar os sapatos antes de entrar eu não me importo em comer em uma mesa mais alta." O Guardião da Nuvem estava sendo sincero. Uma parte dele também havia se acostumado a fazer as refeições na larga mesa escura da mansão dos Cavallone.


"Talvez pudéssemos adquirir uma mesa maior e transformar um dos cômodos em uma sala de jantar, o que acha?"


O moreno deu de ombros, servindo-se com o maior hambúrguer da travessa. Delicioso. O tempero era rico, mas fraco; a carne suculenta, mas não gordurosa. O molho de limão tornava tudo melhor e, ao engolir o primeiro pedaço, o ex-Líder do Comitê Disciplinar sentiu que aquela seria a melhor refeição do dia. Os olhos negros se mantiveram baixos por alguns instantes, o suficiente para que ele se deixasse seduzir pelo hambúrguer. Entretanto, seria impossível não oferecer um ou outro olhar para sua companhia. Ignorar o italiano era uma das coisas mais difíceis de serem feitas. O Chefe dos Cavallone não possuía nenhuma característica "ignorável". Aquele homem era bonito, mas não o bonito genérico e convencional. Dino era realmente belo aos olhos, o tipo de pessoa que atraia olhares por onde passava, sem precisar fazer absolutamente nada. A altura, os cabelos louros e sempre arrumados, os olhos que conseguiam demonstrar ingenuidade, mas também luxúria e desejo; os lábios, os dentes alinhados e brancos; os ombros largos, os braços fortes... nada. Não havia nada que não agradasse, e, se a parte física já era bastante, somada à personalidade carismática e magnética, transformava aquele homem em provavelmente um dos melhores partidos existentes.


Aquele pensamento já havia cruzado a mente de Hibari por tantas vezes que ele não se sentiu surpreso ao relembrá-lo. Seus olhos encararam sua companhia, observando o louro se servir de muita salada e apenas um pequeno pedaço de carne. Ele cuida da alimentação. Dino sempre foi cuidadoso com o que come. Nada é demais, tudo é moderado e saudável. Ao lado do prato do italiano havia uma taça de vinho e, embora devesse se sentir receoso, o Guardião da Nuvem não se importou. Tudo mudou. Rafaelle se tornou ainda mais insuportável, fato, mas responsável e zeloso no que diz respeito ao Chefe. E neste momento ele deve ir se encontrar com seu amante secreto. O moreno levou mais um pedaço de hambúrguer aos lábios, tentando imaginar com que tipo de pessoa o empregado do Chefe dos Cavallone estava envolvido.


O jantar passou praticamente em silêncio, com exceção de poucos comentários. As travessas se tornaram vazias e Hibari foi basicamente o responsável por acabar com os hambúrgueres. Dino elogiou o apetite de seu amante enquanto retiravam a mesa, e os dois seguiram em seguida para a sacada de madeira quando a mesa havia sido limpa e o chá feito. O Guardião da Nuvem recostou-se ao apoio de madeira, sentindo o vento frio bater-lhe no rosto. O jantar havia forrado seu estômago e o chá verde havia aquecido seu espírito, e não havia quase nada que pudesse deixá-lo em tal estado de quase-nirvana. O louro estava ao seu lado, os braços apoiados no apoio e o corpo projetado para frente. A brisa não era forte, mas conseguia fazer os cabelos louros se mexerem, e daquela luz o moreno podia notar o quão finos eram aqueles fios. E macios. Os cabelos dele são gostosos ao toque. Os olhos negros desviaram-se de sua companhia, encarando o jardim. Em breve eu terei meu jardim. A primavera vai me manter ocupado. Eles ficariam até meados de agosto no Japão e então retornariam à Itália. Dino sugeriu intercalarmos o verão. O inverno no Ocidente é muito rigoroso.


Lembrar-se de sua última estadia em solo italiano levou um meio sorriso aos lábios do ex-Líder do Comitê Disciplinar. O tempo passou rápido. Eu não senti que havia se passado seis meses até descobrir que teria de retornar. Os dias de Hibari eram, muitas vezes, ocupados por trabalho. Kusakabe enviava tudo por e-mail e os dois se falavam vez ou outra quando necessário. O italiano também tinha suas responsabilidades, e muitas vezes os dois amantes só se encontravam na hora de dormir, exaustos demais para carícias mais ousadas. Entretanto, quando possuíam tempo, o Guardião da Nuvem não poderia reclamar. O tempo perdido era resposto da melhor maneira possível: entre beijos, abraços e gemidos. Mas ainda não é suficiente, o moreno engoliu seco, nem uma vida inteira me faria esquecer o que foram aqueles doze meses. A saudade e a solidão deixaram marcas profundas e permanentes em seu peito, e Hibari se viu muito mais aberto e receptivo quando o assunto era sexual. Eu senti tanta falta dos abraços apertados e dos beijos intermináveis. Quando retornei ao passado a única coisa que consegui pensar foi em me perder naqueles braços e me afogar naqueles lábios. Um comportamento vergonhoso. Aquele incidente nunca havia sido trazido à tona, mas o ex-Líder do Comitê Disciplinar sabia que o Chefe dos Cavallone se lembrava. Se as minhas memórias foram alteradas, o mesmo pode ser dito sobre as dele. A ideia de ser questionado sobre o assunto o deixava irritado, então ele não se importaria de manter aquele assunto longe de suas conversas.


"Você está com frio, Kyouya?" A voz de Dino o trouxe de volta à realidade. Ela estava próxima. "Suas bochechas estão coradas."


A ponta dos dedos do louro tocou as bochechas do Guardião da Nuvem. O toque foi tão delicado e gentil que seria impossível não aceitá-lo. O moreno não estava necessariamente com frio, mas a pele de seu amante parecia quente e agradável. O italiano aproximou-se um pouco mais e sua mão deslizou até a nuca de Hibari. A iluminação daquele local era boa, então o Guardião da Nuvem viu claramente a maneira como era observado. O Chefe dos Cavallone tinha um sério e perigoso olhar, mas seus lábios pareciam sorrir.


"O que acha de tomarmos o nosso banho? A banheira leva algum tempo para encher."


O moreno desviou os olhos, tentando não se lembrar de quantas vezes eles haviam divido a nova banheira desde que retornaram da Itália. Em todas às vezes o banho nunca chegou a ser concluído. Dino depositou um gentil beijo em uma das bochechas de seu amante e sua mão desceu até a faixa do kimono. O louro a puxou devagar, mas não a retirou, fazendo sinal para que Hibari o seguisse. O ex-Líder do Comitê Disciplinar apertou os olhos, mas começou a andar. Os dois entraram na sala e seguiram até o final, virando à esquerda e caminhando pelo longo corredor. O quarto do Guardião da Nuvem era o último cômodo, e aquela distância só servia para aumentar a ansiedade no peito do moreno. Em determinada parte o italiano soltou a faixa, substituindo-a pela mão de Hibari. Os dois seguiram de mãos dadas até o quarto, e foi então que o Chefe dos Cavallone se virou.


"Você não vai precisar disso, Kyouya." Dino enfiou as mãos discretamente dentro do kimono, retirando o par de tonfas.


"Quem garante?" O Guardião da Nuvem juntou as sobrancelhas. Ele não havia sentido as mãos em sua pele até vê-las retirando suas armas.


"Oh!" O louro ergueu as sobrancelhas. Os tonfas haviam sido colocados sobre a cômoda. "Eu não sabia que você tinha interesse em acessórios..." O sorriso do italiano tornou-se largo e naquele momento o moreno sabia que ouviria algo muito, muito estúpido.


"Apenas... não diga nada." O ex-Líder do Comitê Disciplinar deu as costas. Ele já imaginava o que viria em seguida, pois o idiota havia olhado para o chicote pousado em uma das cadeiras.


"M-Mas, Kyouya!"


Hibari arrastou a porta do banheiro e tentou ignorar o largo espelho que o recebeu. Eu jamais teria colocado algo assim. Seu amante veio logo atrás, entrando e fechando a porta. O Chefe dos Cavallone se apressou em abrir o registro da banheira, sabendo que levaria alguns minutos até que ela estivesse cheia. Dino murmurou algo baixo, escolhendo um dos sais de banho que estava na prateleira e despejando uma generosa quantidade. Um incrível cheiro de primavera inundou o banheiro e o Guardião da Nuvem se sentiu levemente reconfortado. Ele amava o cheiro da primavera.


"Eu espero que não se importe com o aroma. Eu trouxe comigo da Itália, porque sei que você gostou."


O moreno estava próximo a pia. Suas mãos seguraram a faixa do kimono, fazendo curtos movimentos para retirá-la. Entretanto, antes que ele pensasse em começar a se despir, Hibari sentiu quando o louro aproximou-se por trás e o envolveu pela cintura.


"Deixe-me fazer isso por você..."


A maneira como aquelas palavras foram ditas deixava claro que o que quer que acontecesse naquela noite havia começado naquele exato momento. Os longos dedos do italiano soltaram a faixa, e ela desceu até o chão, enrolando-se como uma cobra que dançava ao som de uma muda flauta. O kimomo abriu-se e o Guardião da Nuvem engoliu seco. Seu corpo arrepiou-se, sentindo o pano grosso descer por seus ombros e deixá-lo parcialmente nu. O tecido fez companhia à faixa, e o moreno abaixou os olhos. Ele vestia somente uma roupa de baixo negra e apertada, então qualquer reação que seu corpo tivesse seria totalmente exposta. O Chefe dos Cavallone subiu as mãos pelos braços pálidos, acariciando os ombros e depositando um possessivo beijo no pescoço do ex-Líder do Comitê Disciplinar. O arrepio tornou-se mais forte, e foi impossível não suspirar mais alto quando seu amante encostou seu corpo ao dele. O calor que vinha daquela pessoa, a respiração quente próxima ao seu ouvido, e principalmente a ereção que batia um pouco acima do quadril, faziam com que Hibari começasse a sentir os pensamentos embaralhados. Ele sempre se sentia assim quando seu corpo sobrepunha sua mente.


Dino deslizou os lábios para o outro lado do pescoço do Guardião da Nuvem, enquanto retirava as próprias roupas. A calça escura foi ao chão, assim como a blusa cacharrel e a camisa que estava por baixo. O peitoral nu do louro encostou-se às costas do moreno, e Hibari fechou os dedos contra as palmas de suas mãos, tentando se controlar. O calor daquela pele e o cheiro da colônia de seu amante deixavam o discernimento do Guardião da Nuvem comprometido. Era embriagante. O italiano desceu as pontas dos dedos pela cintura do moreno, entrando levemente pela roupa de baixo e a deslizando devagar pelo quadril do homem em seus braços. Aquela demora proposital levou uma onda de rubor ao rosto do ex-Líder do Comitê Disciplinar. Ele viu a peça de roupa descer por suas pernas, mas tudo o que conseguia realmente encarar era sua própria ereção. Lastimável...


"Vá para a banheira, Kyouya."


A voz do Chefe dos Cavallone o fez encolher os ombros. Seu corpo inteiro se arrepiou ao som, e seu rosto virou-se um pouco, o suficiente para encarar seu amante. Você pagará por isso, Cavallone. Hibari seguiu na direção da banheira, entrando e sentando-se rapidamente. Dino abriu um largo sorriso e suas mãos deslizaram sua própria roupa de baixo vermelha. Os olhos negros do Guardião da Nuvem viram a cena apenas de soslaio. Ele jamais demonstraria interesse, embora seu coração batesse rápido e sua libido implorasse por um pouco de "alegria visual". O louro aproximou-se devagar, sentando-se atrás dele. O moreno sentiu quando sua cintura foi puxada, e seu corpo colocado no espaço entre as longas pernas do italiano.


"Aqui é o paraíso." O Chefe dos Cavallone subiu as mãos molhadas pelos ombros pálidos de seu amante. "A água está muito quente para você, Kyouya?"


Hibari meneou a cabeça em negativo. A banheira era larga, mas eles eram dois homens altos e, embora ele próprio não fosse musculoso, Dino era encorpado, então aquele espaço parecia pequeno, mas confortável.


"Por que você me trouxe aqui?" O Guardião da Nuvem tocou uma parte cheia de espuma. O cheiro era incrivelmente agradável e, apesar de não assumir, ele estava incrivelmente confortável naquela posição, mas ele não bancaria o ingênuo ou inocente.


"Você queria ir logo para o futon, não é?" O louro cantou as palavras de maneira pervertida. Tudo dito por aqueles lábios e com aquele sotaque soava pervertido. O moreno apertou os olhos e fez menção de se levantar, mas os braços fortes do italiano o mantiveram no mesmo lugar. "Calma, calma!" O Chefe dos Cavallone riu baixo, envolvendo o pálido corpo do ex-Líder do Comitê Disciplinar em um forte abraço. "Eu o trouxe aqui porque você parecia com muito frio quando foi me visitar no escritório. Sua pele estava vermelha, mas gelada. Achei que um banho fosse deixá-lo mais aquecido. Você não pode ficar perambulando por ai, Kyouya. Não nesse frio."


"Você é estúpido." Hibari não se moveu. Era tão agradavelmente confortável estar naqueles braços. "Este não é meu primeiro inverno. Muito antes de você aparecer eu já sabia sobre o inverno japonês. E eu já tenho mais de 30 anos, sua preocupação é totalmente dispensável."


"Ahh~" Dino arrastou as palavras. "Mas quem disse que idade tem relação com preocupação? Eu sempre me preocuparei com você, Kyouya." As mãos do louro desceram pelos ombros do Guardião da Nuvem e sua voz se tornou mais próxima. "Eu garantirei que você esteja sempre quente durante o inverno."


O moreno já esperava que aquela última parte fosse dita exatamente para soar perverso. O que ele não esperava era que seu amante subiria a língua por sua orelha direita. Aquela carícia o fez se encolher, ao mesmo tempo em que seus lábios soltaram um involuntário gemido. O ex-Líder do Comitê Disciplinar virou o rosto, irritado com aquele inusitado agrado. Entretanto, embora seus lábios estivessem entreabertos, as palavras venenosas não encontraram oportunidade de sair. A língua do italiano invadiu sua boca assim que viu uma chance e Hibari se viu preso em um quente e intenso beijo. Suas mãos se fecharam em forma de punho, e ele tentou dar um soco contra o peito do Chefe dos Cavallone, mas não houve força ou espírito para isso. Seus dedos se suavizaram e tocaram o ombro de seu amante conforme seus próprios lábios respondiam à carícia. Os olhos negros se fecharam e o Guardião da Nuvem soube que não poderia mais fugir.


Havia algo extremamente peculiar e prático em estar dentro de uma banheira quando o intuito era sexual. O moreno não sentiu quando foi virado, ou quando Dino o puxou para sentar-se em seu colo. A água batia um pouco acima de sua cintura, e metade de seu corpo estava submerso por causa da espuma. Porém, ele sabia o que acontecia naquela região. Hibari sentia a ereção embaixo de seu corpo, e a maneira como seu próprio membro tocava o abdômen do louro. O beijo havia se tornado menos contido e mais necessitado. O ex-Líder do Comitê Disciplinar segurava o rosto de seu amante entre suas mãos, movendo os lábios com pressa e deixando que sua língua percorresse todo o interior da boca do italiano. As mãos do Chefe dos Cavallone desceram por sua cintura, percorrendo as poucas curvas e apertando-as com possessividade. Um dos dedos tocou sua entrada, fazendo o moreno tremer levemente. Os olhos cor de mel se entreabriram e Dino sorriu.


"Você consegue ficar em pé, Kyouya?" As sobrancelhas negras se juntaram e Hibari não entendeu direito o pedido. Entretanto, seu corpo obedeceu, a contragosto, e ele ficou em pé. "Apóie suas mãos na parede... Isso, assim mesmo."


O louro sorriu e puxou o quadril do Guardião da Nuvem um pouco para baixo. O moreno gostaria de ter tido tempo para ficar surpreso, mas infelizmente até aquela reação fora roubada de sua pessoa. Tudo o que Hibari viu foi a maneira como sua ereção entrou pelos lábios do italiano, e a forma como eles se fecharam ao redor do membro. Uma onda de prazer correu por todo seu corpo e o ex-Líder do Comitê Disciplinar fechou os olhos. A língua do Chefe dos Cavallone circulava sua ereção, enquanto uma das mãos auxiliava no estímulo, masturbando a base do membro. O Guardião da Nuvem não conseguiu omitir os gemidos, e não percebeu que seu quadril havia começado a se mover, procurando receber um pouco mais daquela tão desejada carícia. O barulho de algo sendo aberto chegou até os seus ouvidos, mas Hibari deu pouca importância. Ele sabia que aquele era o som de Dino abrindo o tubo de lubrificante que ficava na borda da banheira. Ele também sabia que sentiria algo quente em sua entrada, seguido por uma incomodada sensação de algo grande querendo entrar em um lugar muito pequeno. Porém, apesar de ter sentido tudo isso, o moreno ansiava por aquele ousado toque. Há muito tempo ele não conseguia chegar ao orgasmo sem receber aquele estímulo. Até mesmo quando tinha seus momentos íntimos e solitários Hibari precisava de mais do que pura masturbação. Ele me transformou nisso, o ex-Líder do Comitê Disciplinar fechou as mãos que estavam apoiadas ao azulejo da parede. O gemido que deixou seus lábios foi alto e agudo. O louro havia penetrado dois dedos de uma vez e atingido seu ponto especial logo na primeira tentativa, eu deveria ser mais forte do que essas necessidades mundanas, mas é impossível.


Desde que havia “recebido” seu amante de volta, o Guardião da Nuvem perdera as contas de quantas vezes ele havia se permitido ser um pouco mais solto quando o assunto era sexo. Quando eles finalmente fizeram amor, após o retorno do italiano, o moreno deixou-se perder totalmente naquele homem. Os dois haviam passado um dia praticamente inteiro sobre o futon e o Chefe dos Cavallone o havia possuído de todas as maneiras que alguém poderia ser possuído. Nós só paramos porque perdemos a consciência. Eu mal consegui me mover quando acordei. Hibari lembrava-se vivamente daquele dia. Ele nunca esteve tão excitado e receptivo como naquelas 24 horas.


A recordação, porém, foi interrompida após alguns instantes. O Guardião da Nuvem sentiu a garganta arranhar, notando que não havia parado de gemer. Seu quadril movia-se para trás e seu corpo estava insatisfeito. Dino pareceu ter entendido e o moreno afastou uma das pernas, permitindo que ele saísse da banheira e ficasse em pé. O fundo da banheira era emborrachado, então não haveria receio de um deles escorregar. O ex-Líder do Comitê Disciplinar arrepiou-se ao sentir as mãos grandes e firmes ao redor de seu quadril, mas aquilo não era suficiente para afastar a ansiedade que ele sentia pelo que viria em seguida. Pois, não importasse quantos anos passasse, ele sempre sentiria uma enorme satisfação em receber aquele homem. A ereção do louro o penetrou devagar, entrando com um pouco de força. Os pés de Hibari arquearam-se, depositando o peso do corpo sobre as pontas dos dedos. A pressão o fez prender a respiração, e ele sentiu claramente o membro dentro de si. Seu corpo acompanhou o segundo movimento, e, conforme o italiano se retirava de dentro dele, o Guardião da Nuvem relaxava. Então, quando a segunda estocada o atingiu, não havia nada que o moreno pudesse fazer além de gemer e arrepiar-se enquanto chegava ao orgasmo.


A primeira voz havia sumido devido ao intenso prazer, mas o mesmo não poderia ser dito sobre a voz do Chefe dos Cavallone. Suas estocadas se tornaram mais fortes, provavelmente por causa da pressão, e Dino pôde deixar aquele tom sensual e rouco ecoar pelo banheiro todas as vezes que penetrava seu amante. Hibari precisou de alguns minutos até conseguir se recompor totalmente. Suas pernas estavam moles e seu corpo parecia incrivelmente mais pesado. O louro havia erguido seu quadril um pouco mais, conforme o ritmo aumentara, e suas mãos seguravam com mais força a cintura do Guardião da Nuvem.


E por cerca de dez minutos o moreno se sentiu novamente com 16 anos, quando os dois começaram a fazer amor. Aquilo tudo era novo e curioso para o ex-Líder do Comitê Disciplinar. Ele nunca esqueceria sua primeira vez, a dor quase insuportável, mas também a primeira vez que seu orgasmo aconteceu sem que ele precisasse se tocar. Eu gritei feito uma garotinha, Hibari podia ouvir sua própria voz ecoar pelo banheiro. Sua ereção havia retornado, e mentalmente ele pedia para que seu amante fosse mais rápido. Depois da primeira vez, não foi difícil repetir o ato. O italiano o cercava, o cortejava, e o Guardião da Nuvem sempre negava, aceitando vez ou outra, embora, por dentro, quisesse dizer sim todas às vezes.


Estar nos braços do Chefe dos Cavallone era tão fácil e necessário quanto respirar e o moreno sabia que não conseguiria mais viver sem aquele homem e seu amor. Hibari nunca havia conhecido outros lábios ou outras mãos. Seu corpo e alma só conheciam Dino, e em nenhum momento, durante todos aqueles anos, o ex-Líder do Comitê Disciplinar sequer cogitou ter outra pessoa. O louro sempre foi suficiente. Não... O Guardião da Nuvem mordeu as costas da própria mão ao sentir a última estocada. A voz do italiano saiu alta e rouca, anunciando seu clímax. Ele sempre foi mais do que suficiente.


Os joelhos do moreno cederam, mas ele sabia que seria segurado. O Chefe dos Cavallone o amparou e o virou rapidamente, empurrando-o contra o azulejo e quase o fazendo cair. Hibari não teve tempo de gemer ao sentir o membro deslizar por sua entrada, ou reclamar sobre a temperatura fria do azulejo em suas costas. Seus lábios foram invadidos por um profundo beijo, e seria impossível não retribuí-lo. A respiração de Dino era descompassada, alta e aquela carícia transbordava desejo e uma natural necessidade por mais. As mãos do Guardião da Nuvem apertavam as costas de seu amante, sentindo os músculos através da pele molhada. Os corpos se juntaram e se esfregaram, e foi automática a maneira como o moreno desceu uma das mãos até seu baixo ventre, juntando os membros e masturbando-os ao mesmo tempo.


"V... Vamos para o quarto, Kyouya." A voz do louro saiu baixa. Seu sotaque era ainda mais evidente quando ele estava excitado.


Hibari entreabriu os olhos, mas não sabia se teria forças suficientes para sair da banheira. O italiano o segurou pela cintura e tomou as rédeas da situação, dando o primeiro passo. Suas mãos puxaram seu amante, e o Guardião da Nuvem se viu tocando o piso gelado com seus pés; os lábios do Chefe dos Cavallone voltaram a beijá-lo, e o curto caminho até o cômodo ao lado foi feito com passos desajeitados, entre beijos eufóricos e diversas paradas.


Por mais de duas vezes o moreno se viu pressionado contra a parede, fosse a do banheiro, fosse a do quarto. A fome e desejo de seu amante eram tão evidentes que Hibari não se importou de ter caído de qualquer jeito sobre o futon. Suas costas sentiram o chão, mas isso era irrelevante se comparada à maneira nem um pouco delicada com que Dino afastou suas pernas o penetrou. Seus lábios gemeram alto, e sua nuca arqueou-se para trás. Seu corpo inteiro havia se arrepiado, e se a primeira sensação não foi suficiente, a segunda estocada o fez, literalmente, pedir para que o louro fizesse aquilo novamente. O Guardião da Nuvem não era o tipo falante enquanto fazia amor. Suas reações se tornaram mais honestas com o passar dos anos, mas o moreno somente deixava aquele lado aflorar em situações extremas... como aquela. Momentos em que tudo o que ele queria era sentir o italiano dentro dele, movendo-se, provando-o e exibindo aquela erótica expressão que demonstrava o quanto ele gostava de estar dentro de seu amante.


O Chefe dos Cavallone se inclinou para frente, apoiando as mãos ao lado da cabeça do ex-Líder do Comitê Disciplinar. Hibari abriu os olhos, e os dois se encararam. O ritmo continuava forte e rápido, e a cada estocada os lábios do Guardião da Nuvem gemiam. Ver-se refletido nos olhos cor de mel o fazia sentir-se desejado, como se aquele homem o saboreasse por inteiro. Os gemidos do louro se tornaram mais altos quando seu quadril começou a mover-se mais rápido e ambas as vozes ecoavam pelo quarto como um dueto. Naquela noite Hibari retornou a sua juventude. Cabulando aulas para fazer amor no sofá da sala do Comitê Disciplinar; o coração batendo rapidamente a cada orgasmo; seu nome sendo proferido por uma voz doce, amorosa e incrivelmente sensual. E novamente o Guardião da Nuvem se permitiu um pouco mais de ousadia, aceitando certas posições e descobrindo que fazer amor sobre a cômoda nova não era assim tão desconfortável. Não quando a pessoa entre suas pernas e em seu coração era Dino Cavallone...


x


O inverno ainda permaneceria em Namimori por algumas semanas, então não haveria ilusões de que o moreno acordaria com a luz do sol invadindo a janela. O cheiro das flores o lembraria que havia um jardim que merecia sua atenção, e, quando abrisse os olhos negros, o ex-Líder do Comitê Disciplinar encararia um novo e iluminado dia. Mas, claro, essa era apenas uma fantasia. Um desejo íntimo que precisaria esperar até que a primavera começasse e a neve derretesse. A realidade, porém, estava se mostrando incrivelmente mais prazerosa, úmida, pegajosa e por que não sensual? Não havia flores em seu quarto. Não havia o cantar dos pássaros, mas sim o abafado som de gemidos e respirações quase em uníssono vindo debaixo de uma grossa camada de cobertores.


O moreno apertou o lençol, perguntando-se mentalmente quantas vezes ele havia feito aquele movimento na noite anterior. Nós deveríamos estar na sala... tomando café e não aqui. O ex-Líder do Comitê Disciplinar precisou parar o pensamento. Ele não conseguia gemer e pensar ao mesmo tempo. As imagens daquele começo de manhã povoaram sua mente, todas ao mesmo tempo, como uma série de flashbacks. Eles haviam acordado, Hibari se lembrava disso, pois precisou de certo auxílio para caminhar até o banheiro. Ambos tiveram um decente banho de banheira, dessa vez sem toques ou carícias ousadas. Nós dividimos a pia, escovamos os dentes lado a lado... O Guardião da Nuvem recordava de ter pensado que aquele homem parecia belo até mesmo ao estar completamente descomposto. Eles haviam retornado para o quarto e Dino ficou responsável por trocar a roupa de cama. Tudo estava limpo e cheiroso e macio... Como nós viemos parar aqui novamente? O moreno não se lembrava ao certo, mas envolvia tropeços... Ele tropeçou. O idiota tropeçou e me derrubou, e caímos com a pilha de cobertores. O louro riu, o ex-Líder do Comitê Disciplinar o ameaçou de mordê-lo até a morte, e a próxima coisa que Hibari soube foi que eles estavam nus, entre beijos e apertos.


A realização de que ele havia sido sugestionado fez o Guardião da Nuvem se sentir irritado, mas aquele pensamento teria de ser guardado com carinho para uma próxima oportunidade. O moreno deixou escapar outro gemido, sem acreditar que mesmo após a noite anterior eles ainda possuíam energia para fazer aquilo logo pela manhã. Hibari estava deitado sobre o futon, de barriga para baixo e o rosto afundado em seu travesseiro. O italiano estava sobre ele, literalmente. Ao contrário da maioria das vezes que escolhiam aquela posição, naquele momento, o Chefe dos Cavallone não o possuía de uma maneira constrangedora – embora fosse a favorita do ex-Líder do Comitê Disciplinar. Dino o penetrava enquanto estava deitado sobre suas costas, os corpos grudados, e em uma velocidade absurdamente lenta.


O Guardião da Nuvem preferia movimentos mais rápidos, pois seu corpo se adaptava a adrenalina e ele não tinha tempo para analisar a situação. Quando o louro resolvia fazer amor daquela maneira, o moreno sentia como se estivesse sendo devorado aos poucos, como se seu amante quisesse prová-lo devagar para melhor saborear o prato. Porém, a parte mais constrangedora era a sensação de se sentir penetrado. Hibari podia sentir totalmente cada estocada... a maneira como a ereção o invadia, o caminho que ela percorria, a extensão do membro... tudo, cada movimento. E se isso não fosse suficiente, o Guardião da Nuvem ainda precisava lidar com a respiração do Chefe dos Cavallone em seu pescoço, deixando-o excitado, quando ele já havia chegado ao orgasmo.


O moreno levou a mão novamente até seu baixo ventre, começando a se masturbar. Seu membro ainda estava sensível por causa do clímax anterior, há pouco mais de dez minutos, mas seria impossível para ele não se permitir mais aquele segundo momento de prazer extremo. Os movimentos de Dino só aumentaram o ritmo quando anunciaram seu orgasmo, e mesmo assim suas últimas estocadas foram lentas e preencheram o ex-Líder do Comitê Disciplinar por completo. Hibari sentiu quando o louro retirou-se de dentro dele após alguns segundos e o virou. O italiano roubou um rápido beijo antes de esconder-se dentro do cobertor. O Guardião da Nuvem sabia o que aconteceria e seus olhos se fecharam satisfeitos ao sentir os lábios do Chefe dos Cavallone abocanhar sua ereção. Dino parecia ávido em fazer aquilo, conseguindo com que os gemidos que deixavam os lábios do moreno fossem quase tão altos quanto os da noite anterior. O segundo clímax do ex-Líder do Comitê Disciplinar teria demorado alguns minutos se seu amante não o tivesse penetrado com dois de seus dedos. Hibari não foi avisado, apenas sentiu o arrepio percorrer seu corpo completamente enquanto seus lábios gemiam e seu orgasmo descia pela garganta do louro. A exaustão o abraçou e naquele momento o Guardião da Nuvem soube que ficaria imprestável para o resto do dia. O italiano demorou alguns segundos para subir, beijando seu abdômen e peitoral antes de deixar mais uma marca no pescoço do moreno.


"Você está bem, Kyouya?" A resposta foi um olhar sério. O que aquele tolo pensava? "Hehehe desculpe, eu me excedi." O Chefe dos Cavallone corou, escondendo o rosto no pescoço de Hibari.


"Seu cão de guarda deve estar nervoso." O Guardião da Nuvem não queria lembrar-se de Rafaelle, mas seria impossível. Na verdade, ele não acreditava que o rapaz não havia invadido o quarto e aparecido no meio do ato.


"Rafaelle não virá, pelo menos durante a manhã." Dino riu. "Ele também deve estar ocupado."


O moreno juntou as sobrancelhas discretamente. Ele não tinha interesse em saber sobre a vida sexual de outras pessoas. O Chefe dos Cavallone apoiou o queixo em seu peito pálido e ergueu os grandes e brilhantes olhos cor de mel. Um sorriso satisfeito cruzou aqueles lábios e por um momento o coração do ex-Líder do Comitê Disciplinar pulou uma batida.


“Fome?” Dino ergueu a mão e tocou a testa de seu amante. A ponta de seus dedos entrou entre os grossos fios de cabelo, afagando-os com uma gentileza incrivelmente agradável.


“Um pouco.” Hibari não mentiu. Ele sentia fome, mas também vontade de tomar outro banho. Entretanto, nada era mais forte do que o cansaço e consequentemente o sono.


“Quer dormir um pouco mais? Eu garanto que ninguém aparecerá aqui durante a manhã.”


“Você vai para o escritório?” O Guardião da Nuvem sentia os olhos pesados, mas ele não dormiria se isso significasse que o louro o deixaria ali sozinho.


“Não, somente depois do almoço.” O italiano sorriu. “Eu ficarei aqui com você durante a manhã, se quiser, claro.” Havia certa inocência naquelas palavras, como um real pedido por permissão.


Eu gostaria disso. O moreno permitiu-se piscar longamente por um momento. Quando seus olhos se abriram, o Chefe dos Cavallone esboçava o mesmo meio sorriso.


“Venha cá.”


Dino deitou-se ao lado e virou o corpo de Hibari devagar. Mentalmente o Guardião da Nuvem agradeceu, pois não sentia que teria forças sequer para isso. O louro o trouxe para perto, colocando a mão sob o travesseiro que dividiam e procurando deixar seu amante mais confortável. O moreno piscou novamente, sentindo que em uma dessas piscadas ele não teria forças para abrir os olhos. Sua mão esquerda saiu de dentro dos cobertores e ele tocou o belo rosto do italiano. A pele estava quente, e o Chefe dos Cavallone fechou os olhos, aprovando a carícia.


“Nee, Kyouya.” Dino ainda mantinha os olhos fechados. “Quando a primavera chegar eu quero ajudá-lo com o jardim. Nós poderíamos plantar girassóis. Eu gosto de girassóis.”


Hibari achou a ideia interessante, mas sua resposta foi o silêncio. Seus olhos se mantiveram abertos pelo máximo de tempo que ele conseguiu. O louro ainda falou mais algumas coisas, mas a voz foi se tornando cada vez mais longe até não existir nada além de silêncio e tranquilidade. O corpo do Guardião da Nuvem relaxou e os músculos cansados imploravam um pouco de descanso. Entretanto, o moreno não teve medo de dormir. Ele já não tinha receio de acordar sozinho, em uma casa gigantesca, em uma vida solitária e vazia.


“I stand alone”¹ decorou a entrada de sua casa por um dia.

Por 24 horas a placa ficou pendurada, isso há mais de 15 anos, em seu primeiro dia como morador do templo. O ex-Líder do Comitê Disciplinar lembrava-se bem da maneira como o italiano simplesmente ficou na ponta dos pés e retirou a placa. Na época o Guardião da Nuvem ficou irritadíssimo, exigindo que ela fosse devolvida. Porém, o Chefe dos Cavallone nunca retornou aquele pedaço de madeira, e, antes de ir embora, naquele mesmo dia, Dino virou-se para ele e disse:


“Você não está sozinho, Kyouya. Eu prometo que enquanto eu existir neste mundo você nunca ficará sozinho.”


A promessa, como era de se esperar, continuaria a ser cumprida quando Hibari abrisse seus olhos.


– FIM.

¹ Literalmente “Eu me mantenho sozinho”. Na arc do futuro o Hibari tinha essa placa pendurada em sua sala no templo.


— x -

Notas da autora:


E eu termino Vendetta hehehehe.

Por meses eu me peguei pensando o que sentiria quando finalmente chegasse o momento de escrever algumas linhas para os leitores, então vamos lá...


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Bem, Vendetta nasceu em um momento em que eu tinha muito tempo livre, ideias e inspiração. Logo de início eu sabia que este seria meu maior projeto, tanto no quesito extensão quanto plot, desenvolvimento de personagens, e etc. Agora que tudo terminou eu me sinto um pouco vazia. Foram meses de muito trabalho, escrevendo, reescrevendo, mudando pequenas coisas e revisando. E é nessa parte que eu começo meus agradecimentos aos leitores, pois graças há algumas opiniões eu pude concluir a fanfic. Uma das coisas mágicas sobre publicar algo periodicamente é que você pode sempre melhorar seu trabalho. Eu senti isso com Vendetta. Inicialmente eu não pretendia dar tanta importância para os meus ocs, Yurika e Masayoshi. Eles nasceram apenas para desenvolverem o enredo e os personagens, mas, conforme fui postando, percebi que poderia melhorar a estória se oferecesse aos leitores um pouco mais de “insight” sobre esses personagens. O mesmo pode ser dito sobre os capítulos finais. Eu pretendia terminar a fanfic há umas duas ou três semanas, mas achei que os leitores mereciam algo mais. Capítulos extras que mostrassem o depois. Pensem que os três últimos capítulos foram pequenos epílogos.


Então, eu agradeço aos leitores que me acompanharam nessa empreitada. Vendetta foi mais do que uma mera fanfic para mim, ela me fez crescer como autora e pessoa. Muito aconteceu nesse meio tempo, e eu abri os olhos para várias coisas, entre elas a vontade de escrever melhor e compartilhar trabalhos de qualidade. Não sei se um dia alguma outra fanfic minha conseguirá superar Vendetta, mas deixo aqui meu mais sincero muito obrigada a todos vocês. Eu não teria conseguido concluir o trabalho sem o apoio de cada um. Obrigada, de verdade.


E antes de ir, aviso que a partir de hoje eu entro em hiatus. Embora eu tenha adorado Vendetta, eu confesso que ela foi bem cansativa, e que preciso de umas férias desse fandom e desses personagens. Eu retornarei, claro, ainda este ano, com os especiais de final de ano. Não vou me restringir ao Natal como fiz anteriormente, assim como não irei me focar somente com KHR. Eu pretendo postar sobre este fandom, mas também farei especiais sobre Gintama, Durarara!! E Kuroko no Basket.


Aos leitores que me perguntaram sobre a continuação de Between you and me, ela acontecerá provavelmente em fevereiro. Mas não se exaltem, até lá eu postarei dois oneshots que servirão como prólogos para a longfic futura. Um deles será postado até o final de novembro, enquanto o outro fará parte do especial de final de ano.


Agora que terminei meus recados eu posso ir embora.


Vejo vocês por ai.


p.s: Editado em 28/10/2012: A fanfic oficialmente termina neste capítulo. Aos fãs de D18/8059/XS a estória termina neste ponto. Entretanto, eu postarei um especial extra sobre o Masayoshi e o Rafaelle no próximo domingo. Eu resolvi oferecer um insight sobre esses dois personagens. :)