Vendetta

27 Capítulo Extra


Capítulo Extra

O garoto estava afastado, mas Masayoshi sentia como se ele estivesse ali, ao seu lado. O cheiro do perfume era fraco, agradável e levemente intoxicante. Ele conhecia aquela fragrância. Seus perfumes sempre foram amadeirados, porém, uma vez, há muito tempo, uma vendedora havia lhe oferecido uma amostra de um perfume adocicado. O moreno nunca usou o perfume, pois sabia que aquilo não combinaria com seu jeito ou personalidade. Entretanto, para aquela pessoa não havia cheiro que combinasse melhor.

"Eu já li. Aonde devo assinar?"

A voz tirou o advogado de seus devaneios.

Masayoshi pensou em apenas mencionar a linha pontilhada, mas seu corpo inclinou-se à frente antes que ele percebesse. A ponta de seu dedo bateu no espaço reservado para a assinatura, e daquele ângulo o moreno sentiu um pouco mais o cheiro do perfume. Dois grandes olhos azuis o encararam, e o rapaz meneou a cabeça, assinando com seu nome completo. O cabelo louro caiu-lhe sobre a face, mas logo foi colocado delicadamente atrás da orelha. O advogado assistiu a tudo, os olhos negros levemente cerrados e tentando entender porque sentia certo fascínio por aquela pessoa. A caneta foi pousada sobre a mesa e sua companhia meneou a cabeça.

"Acredito que terminamos." A voz do rapaz era masculina, mas doce. O inegável sotaque tornava as palavras um pouco confusas vez ou outra, mas havia um estranho charme em observá-lo utilizar uma língua que não fosse a materna.

"As cópias serão enviadas para..." Masayoshi precisou reler o nome do comprador. Ele estava com aquele caso há três semanas, mas nunca conseguia se lembrar. "Dino Cavallone. Enviarei amanhã."

"Muito obrigado."

Rafaelle ficou em pé e fez uma reverência tipicamente japonesa. O moreno também ficou em pé, colocando as mãos na cintura. Seus olhos encararam sua companhia, tentando dar um pouco mais de credibilidade para aquele rapaz. O louro era jovem, havia acabado de completar 18 anos, mas aparentava ser muito mais novo. Ele vestia um conjunto social negro que o deixava estranhamente distinto, mas que não combinava com sua aparência jovial. Ele está se esforçando, o advogado ajeitou os óculos, ele mesmo vestia uma calça negra e uma camisa branca, Hayato disse que ele está se esforçando para atingir as expectativas.

Aquela situação toda poderia ser resumida em um nome e sobrenome: Gokudera Hayato. Masayoshi não estaria naquela sala se o Guardião da Tempestade não tivesse telefonado no mês anterior para pedir um favor. Pois, embora não estivessem mais juntos, há dois anos, os dois se tornaram bons amigos. Nos encontramos raramente, o que é uma pena. Aquele amante de Hayato é mais possessivo do que imaginei. Todavia, os encontros entre eles poderiam ser esporádicos, mas a relação de amizade sempre se mostrava forte quando ambos se viam. Quando o Braço Direito do Décimo telefonou e pediu o favor, o moreno imaginou que fosse algo pessoal. O favor não era para o homem de cabelos prateados, mas sim para um terceiro elemento. Um estrangeiro de nome Dino Cavallone tinha interesse em adquirir a área que ficava ao lado do templo Namimori, porém, para isso, precisaria de um advogado japonês. Masayoshi sentiu-se levemente orgulhoso por ter sido requisitado e seria impossível negar qualquer coisa para Gokudera.

O tal Dino Cavallone nunca apareceu.

Em seu lugar havia surgido um rapaz de pouco mais de 1,70m de altura, magro, pálido, grandes olhos azuis e cabelos louros e lisos que batiam um pouco abaixo do ombro. Na primeira vez que se viram, Rafaelle gaguejou, corou e se perdeu nas palavras, e isso apenas para cumprimentá-lo. O moreno precisou convidá-lo para sentar e servi-lo com uma xícara de café até conseguir tirar alguma coisa daquela pessoa. Após o primeiro contato, o louro retornou várias vezes. Aparentemente havia mais burocracia do que o necessário para a aquisição do terreno, então os dois tiveram certo trabalho. Aqueles rápidos encontros na própria casa do advogado se tornaram uma constante, a tal ponto de Masayoshi sentir-se solitário quando Rafaelle deixava a casa. Os dois não falavam sobre nada além de trabalho, mas havia uma espécie de magnetismo natural naquela pessoa. A maneira com que ele movia os lábios ao falar, os olhos tão diferentes, os dedos delgados que sempre escondiam a franja que teimava em cair sobre seu rosto... Em três semanas o advogado havia se acostumado àquela presença e isso o assustava.

O contrato havia sido finalmente assinado, então aquele seria o último encontro.

"Obrigado por seu tempo e esforço." Rafaelle sorriu timidamente. "O pagamento final será feito como de costume."

"Obrigado." Masayoshi colocou os contratos dentro do envelope pardo. "Seu Chefe pretende construir alguma coisa naquele espaço?"

"Não. Ele apenas quer a propriedade." O louro sorriu. A única vez que o moreno conseguia ver um sorriso um pouco mais largo era quando o rapaz mencionava seu Chefe.

"Entendo."

O moreno afastou-se da mesa, pronto para acompanhar sua companhia até a porta, enquanto Rafaelle juntava os últimos papéis e os colocava dentro da maleta que trazia sempre consigo. Os dois deixaram a sala de jantar e seguiram pelo corredor. O louro recolocou os sapatos e agradeceu quando a porta foi aberta. O céu estava cinzento, a temperatura fria, mas aquilo não era inédito para um dia de outono. Entretanto, o italiano não desceu os três degraus que uniam a soleira ao caminho que levaria à calçada. Rafaelle estava de costas, mas quieto. Masayoshi olhou para trás, tentando enxergar sua sala. Talvez aquela pessoa houvesse esquecido algo. Quando seu rosto voltou a olhar para frente o louro o encarava.

"Você gostaria de jantar comigo?"

O convite foi feito de maneira direta e sem margem para falsas interpretações. O moreno sentiu as sobrancelhas se erguerem e, embora não fosse uma pessoa dada a ataques de riso, foi difícil simplesmente não gargalhar. Ele havia ouvido bem? Um garoto 14 anos mais novo o havia convidado para jantar?

"Oh..." Masayoshi esboçou um discreto meio sorriso. Havia um lado levemente sádico em sua personalidade, que gostaria de se divertir um pouco com aquela situação. "Você está me convidando realmente para jantar?"

"Sim." O italiano tinha o rosto absurdamente vermelho, mas sua resposta saiu sem hesitação.

"E você virá me buscar? Quero dizer, dirigindo?"

"Si–– Não!" Rafaelle tornou-se ainda mais rubro, se é que isso ainda era possível. Aquela maldosa pergunta foi feita de maneira intencional. Em frente à casa do advogado havia um táxi estacionado. O italiano ainda não sabia dirigir, então todas as vezes que precisavam se reunir ele vinha escoltado por um táxi.

"Eu posso ir buscá-lo se desejar.” Ele é adorável. Eu vou devorá-lo de sobremesa e repetirei até ficar satisfeito.

"N-Não, obrigado..." Havia um pouco de orgulho ferido na maneira como aquela resposta foi dada. "P-Podemos nos encontrar no restaurante?"

"Claro. Qual restaurante?"

"Eu telefonarei esta noite para marcamos o dia e o local." O louro deu um passo para trás.

"Certo... Vá com cuidado, Rafaelle."

"T-Tenha um bom dia."

Rafaelle afastou-se com passos rápidos e incertos. Masayoshi permaneceu na soleira de sua porta até o garoto entrar no táxi. Quando a porta foi fechada, o moreno abriu um largo sorriso, rindo baixo e discreto. Ele estava com 32 anos de idade e não achou que naquela altura da vida teria a chance de ver um rapaz de 18 anos convidá-lo para jantar. Depois que Gokudera terminou a conveniente relação que tinham, o advogado permaneceu sozinho por algum tempo até encontrar nova companhia para suas horas solitárias. Por oito meses ele dividiu seu tempo com dois amantes, mas as coisas terminaram como haviam começado, e Masayoshi simplesmente não se deu ao trabalho de procurar mais. Quando precisava de alívio ele se virava sozinho, além de não sentir mais prazer em ter a companhia de outra pessoa.

No dia em que o Guardião da Tempestade ligou e lhe ofereceu aquele trabalho, o moreno aceitou porque a outra parte havia oferecido uma quantia absurda por algo simples. E por que Hayato sempre será Hayato. Rafaelle era uma dos poucos novos rostos que ele havia encontrado naquele último ano e, apesar do estrangeiro fazer seu tipo, o advogado nunca pensou seriamente em tentar qualquer coisa. Eu já não tenho vontade de me relacionar com ninguém, nem mesmo para sexo. Entretanto, ele havia aceitado o convite para jantar, e isso o divertia de certa forma. Ele sabia que o italiano não morava no Japão, então aquilo estava fadado a ser algo simplesmente momentâneo. Masayoshi coçou a nuca e espreguiçou-se enquanto andava por sua sala de estar. Não havia mal em um pouco de diversão, hm?

x

O restaurante escolhido havia sido italiano. Um caro e bem conhecido restaurante.

A comida era boa, os vinhos eram deliciosos, o clima, o entorno, as pessoas... tudo era de qualidade. Entretanto, não importasse de que ângulo olhasse, o moreno não conseguia entender porque Rafaelle estava tão nervoso. Ele mal consegue segurar a taça de vinho.

Eles haviam chegado juntos, praticamente ao mesmo tempo. O advogado recebera a ligação, como combinado, na noite anterior. O louro citou o local e o horário, e em menos de um minuto o jantar havia sido combinado para a noite seguinte. Masayoshi colocou seu melhor terno, passou seu perfume favorito e antes de entrar no restaurante seus olhos fitaram sua companhia vindo do outro lado da rua, descendo do táxi. O moreno sorriu de canto, algo quase impossível de ser visto, mas que pareceu chamar a atenção do italiano. Rafaelle meneou a cabeça, e já estava envergonhado muito antes de serem guiados até a mesa reservada. Este é o melhor restaurante da cidade. Uma reserva aqui não é possível com pelo menos duas semanas de antecedência. O advogado mexeu o vinho no fundo de sua taça e a levou até os lábios. Ele não parece o tipo de pessoa que premedita as coisas. Aliás, ouso pensar que Rafaelle não planejava me convidar para jantar; a ideia simplesmente brotou em sua mente. Masayoshi ajeitou os óculos, imaginando quanto poder o Chefe daquele rapaz possuía em mãos.

O prato escolhido pelo moreno foi uma simples lasagna vegetariana. Ele adorava massas verdes e, apesar de ter ido apenas uma vez aquele restaurante, o advogado se lembrava muito bem do excelente tempero. A fama do local não era superficial. O louro, por sua vez, pediu rondelli de presunto com ricota, mas ao molho marguerita. O vinho também havia sido sua escolha, um encorpado tinto italiano de alguma região da Sicília. O rapaz era um excelente conhecedor de bebidas, e aquele detalhe não passou despercebido por Masayoshi.

O restaurante possuía somente um andar, mas era largo. As primeiras mesas eram compostas por quatro cadeiras e reservadas para grupos. Atrás, dividida por uma divisória, existiam as mesas duplas reservadas para uma ou duas pessoas. Os dois homens estavam em uma mesa próxima à parede. Daquele local eles podiam ouvir a deliciosa música que emanava de dois violinistas e um pianista que estavam em uma espécie de palco montado no centro, mas na extremidade esquerda. Música também foi o primeiro assunto entre eles, e após falarem sobre o tempo, trabalhos e trivialidades da vida, Masayoshi pegou-se encarando sua companhia e tentando imaginar o que mais poderia ser dito quando não havia mais o que comer e o vinho estava no fim. Eu não consigo saber o que ele está pensando... O moreno pousou a taça na mesa. Só haveria um jeito de descobrir.

"Rafaelle..." A voz do advogado soou baixa e sua mão tocou a mão do garoto. "Você gostaria de ir para minha casa?"

A cor rosada pareceu subir da mão até o rosto, terminando no último fio de cabelo. O italiano não retirou a mão, concordando de maneira visivelmente transtornada, mas que só serviu para atiçar um pouco mais os desejos não tão puros de Masayoshi. A atendente foi chamada, a conta depositada sobre a mesa, porém, antes que Rafaelle pudesse levar a mão até a carteira, o moreno pagou ambas as refeições.

"Não, por favor, deixe-me pagar. Eu o convidei." O louro ficou sério pela primeira vez na noite.

"Isso é o de menos, vamos?" O advogado fez sinal para que ele fosse à frente. Seus olhos encararam a figura de sua companhia e sua boca encheu-se de saliva. Você pode me pagar de outra forma, rapaz.

A caminhada até o carro foi feita em silêncio. Masayoshi abriu a porta para o italiano, sentindo-se extremamente cavalheiro naquele dia. A distância até sua casa era de cerca de dez minutos, e ele sabia que esse tempo seria gasto sem palavras. Rafaelle encarava o seu lado da janela, o olhar sério, mas o rosto vermelho. O moreno se martirizava internamente, sabendo que não era justo fazer aquilo. É impossível que ele não saiba o motivo pelo qual eu o estou levando para minha casa. O carro virou à esquerda e seguiu por uma longa subida. O advogado tentou afastar aqueles pensamentos moralistas, e no fim seus desejos carnais acabaram vencendo. O veículo foi estacionado em frente à entrada, como de costume, e ambos abriram as portas ao mesmo tempo. A noite estava fria, formando pequenas fumacinhas embaixo de seus narizes. Masayoshi foi à frente, subindo os curtos degraus e abrindo a porta de sua casa. Rafaelle entrou em seguida, o pescoço afundado dentro do cachecol branco.

"Gostaria de uma xícara de café?" O moreno tentou soar amigável.

"Eu gostaria de uma taça de vinho." O louro respondeu enquanto tirava os sapatos.

"Espere no sofá."

O advogado seguiu para a cozinha, indo direto para a porta da despensa que servia como uma mini-adega. Sua escolha foi um vinho francês, e sua mão pegou com graça duas taças que descansavam no porta-copos. O italiano estava sentado no sofá, as pernas juntas e uma postura discreta. As mãos se esfregavam, provavelmente buscando uma maneira de se aquecerem. Ah! O aquecedor. Masayoshi pousou a garrafa e as taças sobre a mesinha de centro, seguindo até o canto da sala. O aquecedor foi ligado e seria uma questão de minutos até aquele lugar se tornar agradável.

"Ótima escolha." Rafaelle sorriu ao segurar a garrafa de vinho.

"Obrigado."

O moreno sentou-se ao lado, bebericando um pouco da beboda. Aquela garrafa havia sido comprada em sua última visita a Veneza, e fora indicação de um amigo (e ex-amante) sommelier. Recordar-se daquele homem fez os lábios do advogado formarem um meio sorriso. Ele era 10 anos mais velho e tão delicioso quanto os vinhos que vendia. Os olhos negros de Masayoshi pousaram em sua companhia, observando aquela pessoa. O louro era pequeno e aparentava ser muito mais jovem. Quando entraram no restaurante, o italiano precisou mostrar a identidade, pois a atendente disse que não poderia servir bebidas para menores. Foi preciso uma longa conversa, já que a maioridade para álcool no Japão era de 21 anos. Ele ficou muito sem graça. Eu precisei falar tudo. Porém, no final, ele só mencionou o nome do Chefe e a situação mudou. O moreno deu mais um gole na taça, não reparando que o conteúdo havia terminado. Ele me faz pensar em muitos absurdos. Eu nunca dormi com alguém tão novo. Soa quase proibido. A taça foi pousada na mesa de centro e o advogado passou a língua pelos lábios. Ele estava no clima para a sobremesa.

Rafaelle pareceu perceber o que estava para acontecer. O vinho havia sumido de sua taça, mas ele a manteve nas mãos, como uma forma de distanciar-se. Masayoshi esticou a mão, retirando-a de entre os dedos e a pousando junto à primeira. Seus dedos tocaram o rosto do louro, sentindo a pele pálida e quente. Os dois se entreolharam e o moreno sorriu de canto antes de se aproximar. Entretanto, o italiano ergueu a mão, fazendo com que o advogado beijasse as pontas de seus dedos ao invés de seus lábios. Fedelho!!

"E-Espere..." A voz de Rafaelle soou trêmula.

"Não me diga que desistiu?" Masayoshi tentava esconder a frustração. Ele não tinha mais idade ou paciência para joguinhos. Por isso eu detesto os mais novos. "Você sabia muito bem o que aconteceria se entrasse aqui novamente. Não diga que não entendeu meu convite."

"N-Não é isso..." O louro pareceu ofendido. Seu olhar desviou-se por um momento e ele agarrou o sobretudo, como se estivesse se protegendo. "M-Mas eu nunca fiz isso antes. É a primeira vez."

"Você é virgem?" E lá vamos nós... O moreno já desconfiava. Aquela timidez excessiva só poderia esconder inexperiência sexual.

"S-Sim." O italiano apertou ainda mais seu sobretudo. "E-Eu nunca estive com ninguém."

"Nós podemos começar devagar..." O advogado não gostava de falta de experiência. Ele não era professor. Não era sua função fazer aquilo, mas ele abriria uma exceção. "Eu prometo que serei gentil..."

"Você não entendeu..." Rafaelle dessa vez usou a palma da mão para afastar o rosto de Masayoshi e aquele gesto o enfureceu. "E-Eu nunca estive com ninguém..." As palavras se tornaram ainda mais confusas. "E-Eu não sei o que fazer..."

"Espere..." O moreno colocou a mão na testa. Aquilo era demais até mesmo para ele. "Você nunca sequer beijou outra pessoa?"

A resposta estava estampada naqueles belos e grandes olhos azuis.

A boca do moreno se entreabriu por um momento. Aquilo era difícil de digerir. Um rapaz bonito e educado como aquele não havia tido nenhum contato com outro ser humano por 18 anos? Qual o problema com os italianos?

As palavras faltaram ao advogado e tudo o que ele conseguiu fazer foi encarar sua companhia com um misto de estupefação e uma absurda curiosidade. O louro abaixou os olhos devagar e foi então que Masayoshi percebeu que estava sendo indiscreto e até mesmo grosseiro.

"Desculpe, eu agi mal." O italiano encarava as próprias mãos. "Eu sei que o levei a acreditar que faríamos alguma coisa esta noite, mas a verdade é que eu não tenho experiência alguma e no final serei apenas peso morto, não é? Eu realmente sinto muito." Rafaelle ficou em pé. A decepção em sua voz e face era tão profunda que chegava a ser quase palpável. "Obrigado por me acompanhar. Eu me diverti bastante e a comida estava deliciosa. E desculpe novamente."

Foi um click.

Um silencioso e íntimo click que fez com que o moreno esticasse a mão e tocasse o pulso do rapaz antes que ele desse o primeiro passo. O advogado sabia a força que usaria naquele movimento, o suficiente para que o louro fosse puxado para trás e caísse sobre seu colo. Sua outra mão serviu como apoio e somente ao ver o italiano sentado em suas pernas foi que Masayoshi conseguiu amenizar um pouco a maneira como seu coração batia. No momento em que viu aquela expressão triste algo dentro do moreno pareceu acordar. Sua mão moveu-se sem que ele pudesse entender o que acontecia, subindo pela nuca de Rafaelle e puxando-a devagar. Os lábios se encontraram de maneira desajeitada, como dois estranhos. O advogado moveu seus próprios lábios vagarosamente, fazendo com que sua companhia os sentisse.

"Abra a boca e feche os olhos, Rafaelle."

A voz de Masayoshi soou rouca e baixa. O louro fez o que lhe foi pedido, mas suas mãos tremiam enquanto se apoiavam aos ombros do moreno. O beijo começou devagar, casto. O advogado esperou, provou e incitou o italiano a seguir seu ritmo. No início apenas os lábios se encontraram, movendo-se devagar. A língua de Masayoshi entrou devagar pela boca de Rafaelle. As mãos em seus ombros se tornaram mais apertadas, e ele encontrou facilmente o que procurava. As línguas se esbarravam desajeitadas e estranhas. Os movimentos do louro eram totalmente inexperientes e ele parou na metade, afastando o rosto corado.

"De-Desculpe, eu não sei o que fazer." Havia lágrimas de pura vergonha em seus olhos.

O moreno precisou se controlar para não abraçá-lo. A ideia de ter alguém sem experiência sempre o desagradou, mas com o italiano era diferente. Seu corpo respondia prontamente à inexperiência e havia algo extremamente sensual em poder ensinar aquelas coisas. O advogado tocou o rosto do rapaz sentado em seu colo e a ponta de seus dedos sentiu os lábios bem preenchidos e vermelhos.

"Você está muito nervoso, precisa relaxar." Masayoshi retirou o cachecol do pescoço de Rafaelle. Seus dedos começaram a abrir o sobretudo, até sentirem os olhos azuis o encarando com nervosismo. "Não se preocupe, nós não faremos nada além de beijos esta noite. Eu apenas quero que você se sinta à vontade."

As palavras pareceram surtir efeito e o louro deixou que seu sobretudo fosse retirado. Por baixo do casaco claro havia uma blusa fina de lã escura. O moreno fez sinal para que ele se levantasse um pouco e se sentasse novamente, mas desta vez com um joelho de cada lado. O italiano obedeceu sem pestanejar, mas assim que sentou seu corpo ergueu-se levemente. O advogado o segurou pela cintura, temendo que ele fugisse.

"A culpa é sua." Masayoshi sorriu ao se referir a sua própria ereção. Suas mãos desceram devagar pelo corpo do rapaz, e, ao sentar-se novamente, o louro deixou escapar um suspiro tão sensual que foi difícil para o moreno controlar seu corpo. "E eu acredito que não sou o único." O italiano corou, mas não respondeu. O advogado o trouxe mais para perto, fazendo com que os corpos se encontrassem. "Eu quero que segure meu rosto... isso, assim. E quero que me beije como quiser. Não existe segredo. Apenas deixe seus instintos guiá-lo, está bem?"

Masayoshi não sabia se foi o clima, ou aquele íntimo contato, ou simplesmente porque Rafaelle possuía hormônios demais estocados, mas assim que os lábios voltaram a se encontrar foi como se uma onda de eletricidade percorresse ambos os corpos. As línguas se encontraram rapidamente, e o louro moveu seus lábios com vontade e pressa, mesmo que ainda de maneira desajeitada. O moreno segurava a cintura do rapaz com força, mantendo o contato sempre presente. O beijo foi longo e transbordou desejo. Em determinado momento o italiano começou a mover o quadril sobre a ereção do advogado, provavelmente por puro reflexo. Os suspiros logo se transformaram em baixos gemidos, e as curtas pausas para ar eram praticamente inexistentes.

"Bom, não é?" Masayoshi passou a ponta da língua pelos lábios do rapaz. Rafaelle segurou seu rosto e o beijou com fúria, como se já soubesse exatamente o que fazer. Essas crianças de hoje são assustadoras. Uma das mãos do moreno desceu pela coxa do louro. Ele havia dito que não faria nada, mas seria impossível. Ele estava tão excitado que a única coisa que o impedia de simplesmente possuir aquele rapaz, ali, naquele momento, era sua moral. "Rafaelle..." A voz do advogado soou rouca. Seus lábios desceram pelo pescoço pálido, provando a pele e deixando uma visível marca de beijo. "Eu quero tocar você..."

Desta vez o garoto não negou ou teve qualquer acesso de timidez. Os olhos azuis estavam embaçados por prazer e o advogado sabia que se insistisse um pouco mais ele conseguiria até mesmo dormir com o rapaz. Ainda não.

"Você já fez isso antes?" Masayoshi abria os botões da calça escura do italiano. Ele sentia a ereção por baixo daquela camada de roupa.

"C-Claro! Eu não sou uma criança!" A resposta saiu rapidamente.

"Hm..." O moreno abaixou os olhos, sentindo o corpo tremer por antecipação. A ereção de Rafaelle era incrivelmente visível por baixo da roupa de baixo branca. Ela estava úmida por causa do pré-orgasmo, tornando tudo ainda mais interessante. "Abra a minha calça."

As mãos do louro tremeram o tempo todo. O zíper da calça do advogado desceu devagar, porém, o rapaz tornou-se tímido demais para continuar. Masayoshi tentou não rir, retirando sua ereção de dentro da roupa de baixo negra e fazendo o mesmo com o membro do italiano. Houve um baixo gemido quando ambas as ereções se encontraram.

"Você terá de me ajudar." O moreno segurou as mãos de Rafaelle, fazendo com que elas tocassem também os membros. O rapaz parecia mais curioso do que tímido. "Acha que consegue?"

"S-Sim..."

O advogado voltou a capturar os lábios de Rafaelle e foi uma questão de tempo até ambos estarem novamente no clima. Desta vez os gemidos foram mais altos, e aqueles sons se misturavam ao barulho do beijo, aos suspiros, e ao erótico som das duas ereções sendo masturbadas ao mesmo tempo. Em determinado momento o louro estava tão concentrado que Masayoshi não se importou em fazer todo o trabalho. O clímax do italiano veio primeiro, atingindo a camisa que o moreno vestia. Rafaelle não se afastou, pelo contrário. Seus lábios se projetaram para frente e partiu dele a iniciativa para o beijo. Desta vez foi o advogado quem se surpreendeu, não somente pela carícia, mas pela maneira como os dedos daquele rapaz se moviam sobre sua ereção. O orgasmo de Masayoshi aconteceu pouco tempo depois, e ele não fez nada além de deixar com que sua companhia movesse aqueles belos e finos dedos ao redor de seu membro. O beijo, porém, durou muito tempo. Os dois permaneceram naquela posição e, embora o desejo ainda existisse, havia algo terno na forma como os lábios se moviam. Quando eles se afastaram Rafaelle tinha um sorriso infantil e satisfeito.

"Foi bom, não?" O moreno beijou o queixo do louro. Seus lábios sorriam. Aquilo havia sido melhor do que muitas noites de sexo que ele já havia feito.

"Sim..."

O italiano fechou os olhos e permitiu-se ser um pouco mimado. Outro beijo aconteceria após alguns segundos, mas ele não seria o último da noite. O advogado ajudou Rafaelle a se limpar, e os dois entraram em um estranho e íntimo contato, todavia, sem nenhuma conotação sexual. Havia um ar diferente entre eles, a maneira como se olhavam e falavam, como se aquela não fosse a primeira vez. Masayoshi chamou um táxi e acompanhou o louro até a porta. Ali eles trocaram o último beijo da noite, e só pararam quando o taxista buzinou.

"E-Eu posso voltar outro dia?" Aquelas palavras de repente trouxeram o moreno para a realidade.

"Quanto tempo você ficará no Japão?"

"Duas semanas." O italiano pareceu ter sentido a mesma coisa. Até aquele momento nenhum deles pareceu ter se lembrado de um simples e vital detalhe: eles moravam em países diferentes.

"Então eu serei seu por essas duas semanas." O advogado segurou a mão de Rafaelle, depositando um gentil beijo. "Use-as bem."

O louro corou e sorriu, acenando antes de descer até a calçada.

Masayoshi permaneceu na soleira, como de costume, e entrou apenas quando o táxi havia deixado a rua. Seus olhos negros encararam o corredor e ele passou a mão na nuca. Aquela era sua casa. Aquele era seu corredor. Porém, havia algo diferente.

Ele não sentia como se fosse a mesma pessoa.

x

Masayoshi não se lembrava da última vez que se permitiu alguns dias de férias, mas por quase duas semanas sua agenda esteve fechada. Na verdade, o trabalho não parou. Durante o dia ele se dedicada aos clientes, participava de reuniões, assistia casos, etc. Entretanto, durante a noite – quase todas as noites – ele se pegava recebendo a inusitada visita de um rapaz que havia mantido sua promessa.

O moreno não acreditou que ele retornaria. Quando Rafaelle deixou sua casa, o advogado achou que aquela seria mais uma típica despedida entre pessoas que não eram nem amigos e nem amantes. Porém, duas noites depois daquela, o louro estava novamente na soleira de sua porta. O rosto vermelho – e ele tinha certeza de que aquilo não era decorrência exclusivamente do frio –, os cabelos pintados por pequenos flocos de neve, e o mesmo olhar cheio de expectativas. Seria desnecessário dizer o que todas aquelas visitas significaram, ou o que ambos fizeram naqueles preciosos dias. Masayoshi ficou surpreso com a facilidade com que o italiano aprendia as coisas. Os beijos se tornaram melhores, menos desajeitados e mais profundos. Rafaelle demorou algum tempo para ter coragem de tocar o moreno, mas após a quinta noite o pudor deu lugar à curiosidade e o advogado mentiria se dissesse que não sentiu uma pontinha de satisfação por ser justo ele a incitar tais desejos.

Entretanto, não houve sexo. Os beijos eram ousados, os toques cheios de uma forte luxúria, mas Masayoshi deu o seu melhor para não chegar aos finalmentes. Nós fizemos quase tudo, mas Rafaelle não parece pronto. Aquele pensamento cruzou novamente a mente do moreno. Ele havia deixado seus devaneios esvaírem por um momento. Seus lábios se moveram devagar, ainda sentindo o gosto do vinho, enquanto suas mãos apertavam as coxas de sua companhia.

"Rafaelle..." A voz soou rouca. Os dois estavam sobre a larga cama de casal, vestindo apenas as calças sociais. A perda de roupas foi consecutiva. Em uma semana eles deixaram a sala para o conforto do quarto, e a temperatura também se tornou diferente. O louro estava por cima, os lábios se movendo como se tivessem nascido para fazer aquilo. Ambos estavam levemente suados e as respirações estavam ofegantes por causa do recente orgasmo. Eles não faziam sexo, mas o mesmo não poderia ser dito sobre quantas vezes eles não se perderam na busca por prazer.

"Vamos até o fim, Masayoshi-san." O italiano afastou os lábios. Seu rosto estava absurdamente corado.

"Eu não acho que seja uma boa ideia." Masayoshi tentou não soar excitado. Havia algo extremamente erótico em ouvir-se sendo chamado por aquele honorífico através daqueles lábios quase infantis.

"Permita-me discordar."

O moreno descobriu, durante aqueles dias, que o louro possuía métodos eficazes de sempre conseguir o que queria. O italiano era tão curioso quanto inexperiente, e quando beijar se tornou insuficiente o advogado precisou mostrar os truques que tinha nas mangas. A primeira vez que Masayoshi ofereceu sexo oral a Rafaelle foi como se o Natal tivesse chegado novamente. Ignorando o fato de que o orgasmo do louro aconteceu em uma questão de segundos, o rapaz havia ficado encantado com aquilo, praticamente pedindo para fazer o mesmo. A prática realmente levava a perfeição e, em duas semanas, o que havia começado bagunçado e mal feito se transformou em uma das coisas mais prazerosas que o advogado já recebeu na vida. O italiano arrastou-se até seu baixo ventre, colocando a ereção entre seus lábios. Os dois haviam acabado de se tocarem, então o membro de Masayoshi estava incrivelmente sensível. Os suspiros baixos o fizeram fechar os olhos, sentindo as pequeninas ondas de eletricidade que percorriam todo seu corpo. Rafaelle era dedicado, seus movimentos eram precisos e havia uma beleza hipnótica em ver uma face tão inocente fazendo algo tão... deliciosamente sujo.

"Masayoshi-san..." Os olhos negros se abriram devagar. O louro havia erguido a cabeça, e o olhava como se implorasse. "Diga o que eu preciso fazer, porque eu realmente quero ir até o fim."

O moreno passou as mãos nos cabelos. Ele sabia que a decisão estava em suas mãos. Uma oportunidade como aquela não batia duas vezes em sua porta. As inúmeras possibilidades que somente um amante inexperiente proporcionava eram incríveis, porém, o advogado estava receoso. Ele sabia que Rafaelle iria embora em no máximo dois dias e que aquela era provavelmente a última noite que tinham juntos. Masayoshi suspirou, fazendo um gesto com as mãos para que sua companhia se livrasse das roupas restantes. O louro retirou a calça e a roupa de baixo quase ao mesmo tempo, arrastando-se para o outro lado da cama e não se importando de deixar seu corpo visível. O moreno retirou somente a calça e ficou em pé, abrindo seu largo guarda-roupa e pegando o tubo de lubrificante. Os preservativos ficavam em uma pequena caixinha e ele pegou uma quantidade a olho.

"Nós vamos tentar, mas se eu notar que não é possível nós vamos parar."

Quem eu estou querendo enganar? O advogado ajoelhou-se na cama, sobrepondo o italiano. Sua companhia era menor e mais delicada, quase indefesa. Masayoshi afastou as pernas sem nenhum tipo de aviso, puxando o rapaz um pouco mais para baixo. Aquele simples gesto pareceu excitar Rafaelle e todo aquele erótico jogo de poder tornava a situação peculiar. O tubo de lubrificante foi aberto e o moreno despejou uma generosa quantidade diretamente sobre a entrada do louro. Ele está pronto. Eu só adiei esse momento porque parte de mim não queria manchar algo tão... puro. Durante aqueles dias os dois trocaram carícias mais íntimas e o advogado conseguiu penetrar dois dedos. Rafaelle chegou ao orgasmo no mesmo instante. Naquela noite, Masayoshi manteve os mesmos movimentos lentos. O primeiro dedo precisou de algum tempo, mas o segundo entrou com mais facilidade, e, como esperado, o louro chegou ao clímax após alguns segundos. O moreno sorriu de canto, satisfeito. Não era tão comum conseguir chegar ao orgasmo apenas com aquele estímulo. Grande parte dos homens precisava também se masturbar.

A preparação durou o tempo suficiente para que o italiano tivesse uma nova ereção. O advogado estava em seu limite, sem acreditar que havia conseguido se conter por tanto tempo. A roupa de baixo foi retirada e o preservativo colocado com rapidez e destreza. Masayoshi encarou sua companhia, sorrindo de canto e abaixando-se. Seus lábios tocaram a testa de Rafaelle, depositando um gentil beijo. Ele não parece assustado. Ele realmente deve estar curioso.

"A-Apenas vá devagar, e-está bem?" O louro tinha a voz trêmula. Ele não aparentava o nervosismo que sua voz denunciava.

"Eu jamais o machucaria."

O moreno não soube por que disse justamente aquilo, mas as palavras parecem ter funcionado. O italiano balançou a cabeça em positivo, afastando as próprias pernas como se mostrasse que dava permissão para o que aconteceria em seguida. O advogado desceu ambas as mãos ao redor da cintura de Rafaelle, notando que elas tremiam. Aquilo era tão inédito que o deixou surpreso. Eu estou nervoso. Eu nunca estive nervoso ao fazer sexo. Masayoshi pegou o travesseiro mais próximo, colocando-o embaixo do quadril de seu parceiro. Aquilo facilitaria o ato e ele não precisaria colocar muita força em suas estocadas. A ereção entrou devagar, invadindo aquele apertado espaço. A respiração do louro estava alta e o moreno sabia que precisaria acalmá-lo ou jamais conseguiria ir até o fim. O advogado inclinou-se um pouco à frente, o suficiente para que seus lábios tocassem os lábios do rapaz que estava por baixo.

"Concentre-se em mim, está bem?"

A voz de Masayoshi soou baixa, quase um sussurro. Sua língua invadiu a boca do louro, sendo recebida de maneira necessitada. O beijo se tornou profundo, intenso, e, quando o membro finalmente deslizou por completo dentro do italiano, o moreno juntou as sobrancelhas e gemeu. Apertado... muito apertado.

"E-Eu me sinto estranho." Rafaelle havia aberto os olhos. Aquelas duas poças azuis estavam úmidas.

"Não se preocupe, agora a coisa realmente fica boa."

O advogado lambeu os lábios do louro antes de voltar à posição inicial. Suas mãos seguraram a cintura do rapaz e seu membro retirou-se devagar, penetrando-o novamente. O italiano gemeu alto e tentou fechar as pernas, mas Masayoshi não permitiu. A terceira estocada foi mais rápida e acertou o ponto especial de Rafaelle, fazendo-o arquear as costas do colchão e gemer novamente, mas desta vez seu timbre havia sido outro. O moreno retirou os óculos, deixando-os sobre a cama. As estocadas seguintes marcaram o início do ritmo e com ele as incríveis e satisfatórias reações de Rafaelle. O garoto não se importava em deixar sua voz ecoar pelo quarto. A cada penetrada era como se ele estivesse sendo torturado. Após os minutos iniciais, o advogado notou que o quadril do louro começava a se mover para baixo, mostrando inconsciente que aquele corpo aprovava o estímulo e que pedia mais. A excitação de Masayoshi se tornou maior e suas estocadas mais fortes.

Durante cinco minutos o moreno possuiu aquele rapaz como se sua vida dependesse daquilo. Ele sabia que precisaria ir devagar, ainda mais com alguém inexperiente, mas foi impossível. A maneira como o italiano reagia, a expressão em seu rosto, a voz erótica e satisfeita... tudo naquela pessoa transbordada sensualidade. Entretanto, não seria possível esquecer a inexperiência, pois em cinco minutos Rafaelle chegaria novamente ao orgasmo, e infelizmente o advogado o acompanharia. Foi impossível para ele controlar seu próprio clímax, ainda mais quando os músculos do louro pressionaram seu membro. Eram raros os momentos em que Masayoshi chegava ao orgasmo junto de seus amantes, mas o dueto de gemidos o deixou satisfeito. O italiano o olhava diretamente, a pele vermelha e a respiração descompassada. O moreno saiu de dentro daquele pequeno corpo, retirando o preservativo, lacrando-o e jogando-o no lixo que ficava embaixo da cama. Seu corpo inclinou-se à frente e ele beijou aqueles lábios rosados com fome.

"Você não se sente estranho agora, não?"

Rafaelle balançou a cabeça em negativo, segurando o rosto do advogado e retribuindo a carícia. Os dois permaneceram naquela posição por longos minutos. Não foi preciso nenhum acordo verbal para avisar que eles continuariam. Os corpos se envolviam com paixão e necessidade; os lábios se moviam com pressa e, ao sentir sua ereção reaparecer, o moreno mordeu levemente a orelha do louro, pedindo que ele se virasse.

A segunda vez foi ainda melhor do que a primeira. O advogado não sabia se havia sido a posição, ou porque seu membro se movia com muito mais facilidade, mas a verdade é que ele não sentiu a resistência inicial, muito pelo contrário. O italiano estava muito mais receptivo, incitando-o com movimentos ousados e pedindo que ele o penetrasse com força. Há muito tempo Masayoshi não fazia sexo de forma tão gratificante. Mikael foi o único homem que conseguiu me fazer sentir essa vontade.

Os gemidos ecoavam pelas paredes, e a temperatura do quarto contrastava totalmente com a brisa gélida que soprava do lado de fora. E, naquele momento, o moreno pensou como seria dormir com a mesma pessoa todos os dias. Como seria poder tocar, beijar e sentir uma única pessoa. Como seria se Rafaelle não precisasse ir...

x

O advogado acordou sem que o despertador precisasse ser acionado. Acostumado a levantar cedo, Masayoshi sentiu quando seu corpo lhe disse que o descanso havia sido suficiente. O moreno levou a mão até a cômoda, tateando a superfície e derrubando o tubo de lubrificante antes que pudesse achar seus óculos. O relógio marcava pouco mais de 8hs, e o barulho pareceu ter incomodado sua companhia. O louro estava deitado ao lado, completamente enrolado no edredom, como uma lagarta dentro do casulo. A única parte visível eram seus cabelos e a cena fez o advogado sorrir. Suas pernas o colocaram de pé e Masayoshi espreguiçou-se, nu e arrepiado por causa do tempo frio. Eu preciso de um banho... O moreno coçou a nuca e deixou o quarto, abrindo e fechando a porta com cuidado. Ele provavelmente não acordará tão cedo.

O banho foi rápido e relaxante. A casa inteira parecia fazer parte de um necrotério, então a primeira coisa que o advogado fez ao sair do banho foi ligar o aquecedor e se dirigir até a cozinha. A cafeteira começou a trabalhar ao lado da torradeira, enquanto Masayoshi lavava as taças que foram utilizadas na noite anterior. Sua cabeça estava clara, suas ideias incrivelmente ordenadas e ele não se surpreendeu por se sentir tão dono de si mesmo. O café da manhã foi tomado na sala, após uma rápida passada na entrada da casa para pegar o jornal que havia sido entregue nas escadas. Não havia nada de inédito nas notícias ou qualquer coisa que valesse a pena ler com afinco. A Economia está em crise desde que nasci... O moreno bebericou um pouco de café. Aquele gesto o fez lembrar-se da noite anterior. Eu dormi com um garoto. Então existe algo além do fundo do poço, hm? O advogado deu de ombros e voltou sua atenção para o jornal. Ele não era o tipo de pessoa que chorava pelo leite derramado, ainda mais quando o assunto era sexual.

Rafaelle acordou depois das 10hs. Masayoshi havia tomado café e repassava alguns trabalhos pendentes quando o louro apareceu na sala. Ele vestia uma camisa branca – que era do moreno, provavelmente pega por engano –, e seus cabelos estavam completamente desarrumados. O advogado parou o que lia, erguendo os olhos e tentando não sorrir.

"B-Bom dia." O italiano tentava fazer com que a camisa cobrisse suas coxas. Era impossível.

"Bom dia. Como se sente?"

"B-Bem..." Rafaelle desistira de omitir suas pernas e agora tentava domar seus cabelos. "Eu gostaria de usar o banheiro."

"Segunda porta no corredor." Masayoshi ficou em pé. "Fique a vontade para tomar um banho. Eu levarei uma toalha e suas roupas devem estar limpas."

"Obrigado."

O rapaz seguiu rapidamente até o corredor e o moreno se dirigiu para a cozinha. A cafeteira voltou a funcionar e o advogado usou aquele tempo para arrumar a cama, abrir as janelas e ir até a área de serviço. Ele havia lavado as roupas do italiano, pois elas estavam simplesmente imprestáveis depois de toda a brincadeira da noite anterior. A secadora havia feito o trabalho, então só restava passar. Masayoshi fez tudo aquilo em menos de dez minutos. Quando Rafaelle reapareceu, ele parecia outro: os cabelos estavam lavados e penteados, suas roupas limpas e seus olhos brilhavam. O café da manhã havia sido servido e ele agradeceu várias vezes pela hospitalidade antes de se sentar. O moreno o acompanhou durante a refeição, mas não beliscou nada. A conversa entre eles foi basicamente nula e, quando terminou, o louro agradeceu e disse que precisaria ir.

"Quando você retorna para a Itália?"

O advogado ajudou sua companhia a vestir o sobretudo.

"Esta noite." O italiano abaixou os olhos e agradeceu a ajuda. "Mas meu Chefe tem uma reunião depois do almoço e eu preciso estar presente."

Masayoshi não questionou ou sugeriu nada. Os dois caminharam na direção da porta e Rafaelle calçou os sapatos e ajeitou o cachecol branco em seu pescoço. O moreno fez menção de girar a chave, mas sua companhia virou-se e foi impossível não se distrair. O louro aproximou-se devagar, puxando o advogado pela camisa e o beijando profundamente. Masayoshi jamais negaria um beijo, então não foi preciso muito para colocá-lo no clima. Suas mãos envolveram o rapaz, e seu corpo o guiou até o lado, prensando-o contra a parede e intensificando a carícia. O beijo foi lento, mas profundo. As línguas se encontravam e se misturavam e seria impossível dizer que até duas semanas o italiano nunca havia feito aquilo antes. Quando os lábios se afastaram, Rafaelle pareceu querer dizer alguma coisa, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. O moreno sorriu, tocando a cabeça loura e bagunçando-a devagar.

"Adeus, Rafaelle."

O rapaz ergueu os olhos azuis e naquele momento o advogado sentiu algo apertado em seu peito. Rafaelle desejou um baixo "Até logo", saindo quando a porta foi aberta. O táxi já estava do outro lado da calçada, mas Masayoshi não permaneceu na soleira para se despedir visualmente do italiano. A porta foi fechada e o moreno encarou a mão que havia acabado de girar a chave. Aquela foi a primeira vez que ele se despedia de um amante. Hayato simplesmente foi embora depois que terminamos. Mikael estava embaixo de outro homem e todos os restantes foram antes que eu acordasse ou eu ia embora dos motéis primeiro. O advogado coçou a nuca e seguiu pelo corredor. Era hora de retornar a sua vida.

x

As estações mudaram. O inverno, naquele ano, havia sido extremamente rigoroso, a ponto de Masayoshi precisar dormir com o aquecedor ligado. As ruas ganharam a cor cinza, a neve havia se acumulado sobre as calçadas e não havia melhor companhia para as noites do que uma boa xícara de chá e um cobertor quente. Em outra época o moreno teria optado por uma companhia mais, digamos, "humana". Porém, naqueles três meses, o advogado não havia tocado outro ser humano. Ele tentou, claro, mas antes mesmo que seus lábios beijassem a companhia fácil que ele havia conhecido no bar Masayoshi sabia que não conseguiria.

A princípio ele achou que estivesse ficando velho, que a sua fase de diversão havia terminado. Entretanto, aquela ideia logo foi afastada, pois, se ele não possuía mais libido, como explicar a ereção que surgia todas as manhãs? Ou que reaparecia durante a tarde? O problema não estava em seus 32 anos, mas sim em algo que havia passado rapidamente por sua vida, mas o tocado de uma maneira que ninguém havia feito antes. O moreno não queria trazer para sua casa desconhecidos. Ele não queria envolver estranhos. O que o advogado queria estava além do oceano, em outro continente, e que provavelmente não se lembrava mais de que ele existia.

Rafaelle não voltou a contatá-lo. Uma semana depois do ocorrido naquela casa, o contrato foi oficializado, porém, quem retornou sua ligação foi um estrangeiro de nome Romário. Quando questionou sobre o louro, a resposta do outro homem foi apenas "Ocupado...". O advogado também não entrou em contato. Sua mente esteve, por todos aqueles três meses, povoada por lembranças daquelas duas semanas que passaram juntos, mas Masayoshi não era o tipo de pessoa que se permitia fantasiar relacionamentos mentais ou reencontros românticos. Ele já havia aceitado que eles provavelmente não se encontrariam mais, e aquilo não o incomodava muito. Ele apenas me fez lembrar Mikael. A semelhança era muito grande. Com a mente decidida a não se importar, o moreno abraçou o inverno como um amante ousado e seguiu em frente.

O céu estava azul naquela manhã. A temperatura ainda não estava alta ou agradável, mas o frio absurdo não seria mais sentido pelo menos por uns seis meses. O advogado estava na cozinha quando o telefone tocou. Ele ficou um pouco surpreso por causa do horário, mas sorriu ao ver o nome no visor do telefone.

"Bom dia, Hayato."

"Bom dia." A voz do outro lado não parecia sonolenta, apesar de ainda ser pouco mais de 7hs da manhã. "Desculpe se eu o acordei."

"Eu já estava acordado." Masayoshi deu um gole na xícara que estava em suas mãos. O café desceu quente e ideal. "A que devo a honra em poder ouvir sua voz?" A pessoa do outro lado não respondeu de imediato. Quando finalmente falou, a voz do Guardião da Tempestade parecia mais baixa. Oh, ele está escondido. "Você está se escondendo do namorado, Hayato? Por acaso ele ficaria bravo se soubesse que você está me telefonando?"

Silêncio. É incrivelmente satisfatório estar certo.

"Como eu dizia..." O Braço Direito do Décimo continuou como se não tivesse ouvido nada. "Eu apenas quero confirmar se você recebeu meu e-mail. Eu preciso desses documentos até o fim de semana e sei que estou pedindo algo quase impossível, então me comprometo a pagar o dobro pelo trabalho."

"Não é impossível." Masayoshi pousou a xícara sobre a mesinha de centro de sua sala. "Eu comecei a olhá-los e posso entregá-los na sexta. Eu cobrarei o mesmo, mas quero entregá-los pessoalmente."

"Você está fazendo de propósito, não é?" O homem de cabelos prateados suspirou.

"Sim." O moreno riu baixo. Ele havia se esquecido como adorava falar com aquela pessoa.

"Certo, eu vou buscá-los." Gokudera concordou após alguns resmungos. "Mas você parece diferente. Aconteceu alguma coisa?"

Desta vez foi o advogado quem ficou em silêncio. Masayoshi coçou a nuca, encarando um dos quadros pendurados em sua parede. A paisagem era abstrata e com tons azuis. Aconteceu alguma coisa?

"Não. Tudo continua a mesma coisa." O moreno coçou a nuca. "Hayato, eu posso fazer uma pergunta?"

"Hm..."

"Você está feliz?"

O advogado não sabia por que havia dito aquilo. Ele sabia que o Guardião da Tempestade estava feliz. Há algumas semanas ele havia visto o Braço Direito no centro comercial acompanhado de seu amante. Os dois pareciam alheios, presos em seu próprio mundo pessoal. Aquela foi a primeira fez que Masayoshi viu um sorriso tão genuinamente feliz partindo daquela pessoa.

"Sim." A voz do homem de cabelos prateados soou mais baixa e com um tom diferente. Ele está sorrindo. "Eu estou muito feliz."

"Bom saber."

O moreno também sorriu. Ele estava contente por Gokudera.

O advogado entreabriu os lábios para marcar o local do encontro, mas o barulho da campainha fez com que aquele pensamento se dispersasse. Os dois acabaram se despedindo às pressas e Masayoshi desligou o telefone enquanto caminhava na direção da porta. Ele não havia saído ainda, então provavelmente o rapaz que entregava os jornais desistira de atirá-los sobre o portão. Nos dias frios os jornais acabavam enterrados na neve. Mas o inverno ficou para trás...

A porta foi aberta e o moreno sentiu seus dedos apertarem o telefone com força.

O jornal estava ali, mas quem o segurava não era o garoto que os entregava todas as manhãs. A pessoa ainda era um garoto, mas não japonês. A altura ainda era mediana, a pele continuava branca, mas os cabelos louros estavam um pouco maiores, descendo pelos ombros. Entretanto, os olhos azuis eram os mesmos: belos, profundos e tímidos.

"B-Bom dia!" A voz de Rafaelle saiu baixa e ele ofereceu o jornal rapidamente.

"Bom dia." Masayoshi sentiu os músculos de seu rosto se repuxarem, mas ele não sorriu.

"Desculpe por vir tão cedo." O louro passou a mão na nuca. Ele vestia uma roupa social escura. "Eu me esqueci do fuso horário."

"Você chegou agora?" O moreno ficou surpreso.

"S-Sim." O italiano abaixou os olhos por um momento. "Você está ocupado?"

"Não."

"V-Você está sozinho?"

"Sim."

"Você está saindo com alguém?"

"Não."

"Você saiu com alguém?"

"Não."

Rafaelle umedeceu os lábios. Seu rosto então se tornou rubro. O advogado sentiu quando seu coração bateu mais rápido. Ele sabia.

"Eu não posso estar aqui todos os dias. Meu trabalho requer que eu passe pelo menos metade do ano na Itália, então não existe a possibilidade de nos vermos com frequência." A voz do louro saiu calma e alta o suficiente para que cada palavra fosse facilmente ouvida. Suas bochechas estavam coradas, mas seus olhos possuíam uma hipnótica seriedade que durou apenas aquelas primeiras frases. "M-Mas eu não consigo esquecê-lo, Hiroki-san. Eu pensei em você o tempo todo e até convenci meu Chefe a vir ao Japão para que eu pudesse vê-lo." A voz calma se transformou em algo nervoso. "E-Eu estou apaixonado por você e eu gos––"

Masayoshi não era romântico. Ele nunca entendeu as declarações longas e sentimentais ou as manifestações públicas de carinho e sabia que nunca entenderia. Sua mente era racional e prática, e certas coisas simplesmente não faziam sentido para ele. Durante aqueles 32 anos a única pessoa que conseguiu fazer seu coração tocar uma nota diferente havia sido Mikael, mas aquela experiência fora tão terrível e desastrosa que fora suficiente para que o moreno lacrasse seu coração.

Ele não queria sofrer. Ele não queria passar novamente pela terrível experiência de ver alguém que estimava traindo sua confiança. Então o advogado se fechou. Evitou momentos e situações, agiu somente buscando o que seu corpo queria. Gokudera conseguiu um lugar especial em sua vida e foi com o Guardião da Tempestade que ele reaprendeu a confiar nas pessoas. O Braço Direito do Décimo nunca o traiu, nunca o usou ou esteve com ele para obter vantagem. Mas o homem de cabelos prateados não era mais seu amante e estava genuinamente feliz. Então, o que restaria para Masayoshi? O que ele receberia como prêmio de consolação?

Aquilo passou por sua mente por algum tempo, mas o moreno não era o tipo de pessoa que se perdia em fantasias. A vida não era cor de rosa ou certa ou errada. As pessoas faziam suas escolhas diariamente, elas optavam pelo estilo de vida que mais lhe agradassem e aquilo poderia ou não incluir uma pessoa. O advogado estava satisfeito com sua escolha. Ele não saia às ruas atrás de companhia ou sonhava que um dia, magicamente, algum rapaz belo e sensual apareceria à sua porta e eles seriam felizes para sempre. Porém...

O telefone caiu ao chão e Masayoshi utilizou a mão livre para puxar Rafaelle para dentro. O rapaz não teve tempo de entrar direito, pois o moreno o empurrou contra a parede, beijando-o com vontade. O jornal foi fazer companhia ao telefone, no instante em que as mãos do louro seguraram seu rosto e os lábios retribuíram à carícia. Naquele momento o advogado entendeu o que aqueles três meses significaram. A falta de interesse em outras pessoas, o conformismo, a sensação de que aquela casa era grande demais para apenas uma pessoa. E quem se importava se eles não poderiam se ver todos os dias? A Itália não era em outro planeta e ele melhor do que ninguém sabia que poderia utilizar alguns dias de férias vez ou outra. O beijo se tornou mais profundo e Masayoshi abraçou o corpo do italiano com possessividade. O mesmo cheiro, o mesmo gosto, a mesma pessoa. Os lábios se afastaram e o moreno sorriu ao encarar o rosto corado e os olhos cheios de lágrimas.

"I-Isso foi um sim?" O louro tremia levemente.

"Sim. Foi um sim."

O moreno riu consigo mesmo, depositando um gentil beijo na testa do italiano.

Rafaelle enxugou as lágrimas que escorriam por suas bochechas e o advogado bagunçou um pouco os finos fios louros, imaginando se aqueles sentimentos estiveram torturando aquele rapaz durante todos aqueles meses. Os braços de Masayoshi abraçaram seu amante e ele sorriu ao sentir-se também abraçado. O moreno sabia que não seria fácil. Que a distância sempre estaria entre eles, assim como a diferença de idade, de trabalho e todas as pequenas implicações da vida. Entretanto, pela primeira vez em sua vida, o advogado sentiu que valia a pena arriscar. Que era certo permitir que aquela pessoa entrasse em seu coração.

Masayoshi segurou o rosto do italiano e o beijou novamente, mas desta vez sem pressa. Rafaelle subiu as mãos trêmulas por seu peito, repousando-as sobre seu coração.

As estações mudaram e a primavera havia finalmente chegado.

- FIM.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!