Vendetta
23 Dino
Dino
A pior parte nunca foi a longa e quase infinita escadaria.
Muitos dos frequentadores do templo Namimori reclamavam sobre os quase cem degraus que eram necessários ser transpostos para se chegar ao topo. Para Dino, entretanto, aquela sempre foi a parte mais simples. Ele nunca sentiu o trajeto.
Durante aqueles quase sete anos suas pernas pareceram não notar a caminhada. Romário ou outro subordinado sempre estacionava o carro ao pé da escadaria, desejava um bom dia e recebia um largo sorriso como resposta. O louro então subiria os degraus, como se aquela distância não significasse absolutamente nada. Porém, o verdadeiro trabalho, o real problema, começava quando ele já estava no topo. Daquele local ele poderia optar por dois caminhos: seguir reto por cerca de mais vinte passos e adentrar ao espaço público do templo. Aquele era o destino da maioria das pessoas, mas, bem, ele não era a maioria das pessoas. Seu caminho ficava à direita. Era uma trilha de pedra batida, que entrava em uma espécie de floresta e acabava em um jardim. Quando a floresta ficava para trás, a casa do templo se tornava a visível e ali ele começava a ficar preocupado. Do jardim você precisaria caminhar até a casa, subir os degraus de madeira e andar pelo longo corredor externo da sacada. Quanto mais caminhava, mais o italiano notava que pisava em solo desconhecido. Poucos conhecem esse caminho. Quase ninguém se aventura para esse lado. Alguns segundos de caminhada e ele passaria em frente à primeira porta. Ali ficava... nada. O cômodo era vazio e servia como depósito para os materiais de limpeza. A segunda porta era falsa, a terceira, porém, levaria ao quarto do dono do templo. Local este que estou proibido de entrar hehehe.
O Chefe dos Cavallone havia feito todo aquele trajeto. Os quase cem degraus, a caminhada pela floresta, a travessia pelo jardim e os passos necessários através da sacada. Suas pernas o levaram até a larga porta de madeira, que naquela manhã estava aberta. Ele fazia aquele mesmo caminho há cinco dias, pontualmente às 10hs da manhã. Ali, no sexto dia, e assim como nos anteriores, seus passos terminaram quando ele parou em frente ao maior cômodo da casa. A pessoa que ele procurava estava ajoelhada em frente a uma mesinha, os joelhos confortavelmente apoiados em uma almofada verde, os olhos baixos, alguns papéis sobre a superfície de madeira...
Os olhos cor de mel se abaixaram e ele se pôs a retirar os sapatos. Por anos ele repetiu aqueles movimentos, cada vez sentindo algo diferente, mas a emoção que dominou seu coração nos últimos seis dias foi apenas algo similar a tristeza. É sua culpa, Dino. Você está apenas colhendo o que plantou. Os moccasins italianos ficaram do lado de fora e seus lábios murmuraram um baixo "Com licença", antes de dar o primeiro passo. Cruzar aquele pequeno espaço nunca lhe pareceu tão penoso ou difícil. Seu coração batia rápido e sua mão direita coçava sua nuca, em um incômodo gesto que demonstrava claramente seu nervosismo.
"Hoje eu ficarei somente alguns minutos, então peço que me ouça, Kyouya."
As palavras foram ditas primeiro. Os joelhos se flexionaram depois.
Hibari manteve os olhos nos papéis em cima de sua mesinha, ignorando totalmente a pessoa que havia se sentado à sua frente, como se ele ainda estivesse sozinho naquela parte da casa. O louro consultou o relógio. Ele tinha pouco mais de dez minutos para ficar ali, até que Romário começasse a fazer ligações, pedindo para que ele fosse breve.
"Kyouya, por favor, eu preciso da sua atenção." A voz saiu baixa, e o italiano estendeu a mão, mas antes que ela pudesse tocar o braço do Guardião da Nuvem, o moreno o afastou. Seus olhos, porém, ainda estavam nos papéis. "Certo..."
O Chefe dos Cavallone precisou de um longo suspiro ou simplesmente não conseguiria completar a tarefa que o havia levado até ali. Nos últimos seis dias ele visitou aquele homem e havia recebido aquele mesmo tratamento gelado, mas naquela manhã de quinta-feira, em especial, ele tinha um importante motivo para estar ali, além de implorar perdão. Eu nem tenho tempo para me humilhar hoje. Farei isso quando retornar a Namimori. Dino umedeceu os lábios e ergueu os olhos. Por anos ele achou que todas as vezes que falasse com Hibari suas palavras ficariam jogadas ao vento. Seu amante não era a melhor pessoa do mundo quando o assunto era expressões, mas vez ou outra lhe era oferecido um olhar, um menear de cabeça ou um comentário. Entretanto, há dias ele só recebia a mais pura e cruel indiferença. Desde o dia que foi enxotado do templo, o Guardião da Nuvem não havia voltado a falar com ele, e isso fora há mais de três semanas. O louro tentou muitas vezes se desculpar, mas o moreno estava irredutível. Ele provavelmente jamais me perdoará. Eu mudei o futuro e destruí meu presente. No final eu fiquei sem nada. Aquele pensamento o fez sorrir triste. Ele não tinha tempo para aquilo.
"Eu estou retornando à Itália, mas precisava passar aqui para comunicar pessoalmente a você sobre isso e sobre outro assunto." O italiano coçou a nuca novamente. "Bem, eu preciso ser breve, então eu apenas direi o que tenho para dizer. Ontem Yamamoto Takeshi confirmou que o futuro foi mudado. Aparentemente eu estou vivo, assim como Kyoko-chan."
Os olhos negros de Hibari encararam os papéis sobre a mesinha e pela primeira vez em seis dias ele demonstrou ouvir o que sua companhia havia dito. Seu rosto ergueu-se e o Chefe dos Cavallone sentiu o coração bater mais rápido. Antes daquela indiferença se apossar do Guardião da Nuvem, eles haviam brigado e lutado muitas vezes naquelas três semanas. O moreno deixou claro que não queria ter nenhum contato com "infiéis" e acusou Dino de todas as maneiras possíveis. A indiferença, porém, foi definitivamente a pior parte; então, ao receber aquele olhar, o louro sentiu que havia feito progresso.
"Obrigado por me informar." Hibari esboçou um quase inexistente meio sorriso. Seus olhos voltaram a se abaixar e novamente o homem à sua frente deixou de existir.
"Não precisa agradecer, eu vim apenas para comunicar." O italiano abaixou os olhos. Se ele mantivesse o olhar reto, ele precisaria aceitar o fato de que estava sendo ignorado de novo. "Eu tenho mais uma coisa para dizer, então peço que ouça com a mesma atenção."
O Chefe dos Cavallone encarou as próprias mãos. Houve um momento de silêncio enquanto ele ajeitava seus pensamentos. Na verdade, não havia nada que precisasse ser arrumado, mas o que seria dito a seguir era feio, era secreto... e fazia parte dele.
"Durante todos esses dias eu vim aqui na esperança de que pudéssemos conversar, mas tudo o que recebi foi a mais pura indiferença. Entretanto, você deveria saber melhor do que ninguém que isso não é capaz de diminuir meu ânimo ou matar meu espírito. Se eu não precisasse retornar à Itália eu estaria aqui amanhã, e depois de amanhã e viria todos os dias até que você decidisse conversar comigo." Dino manteve os olhos baixos, mas ele sabia que o homem à sua frente parecia simplesmente não ouvi-lo. "Você tem todo o direito de me tratar dessa forma. Eu o magoei. Eu fiz algo realmente imperdoável. Eu traí sua confiança. Se eu estou aqui hoje, ajoelhado à sua frente, é porque eu entendo e não tiro os seus motivos para estar decepcionado."
O louro mordeu o lábio e mexeu as mãos. Aquilo seria difícil. Eu nunca gostaria que ele visse esse lado. Kyouya nunca precisaria saber que no fundo eu sou podre, sujo...
"S-Se..." O italiano respirou fundo. Aquilo seria difícil. "Se as nossas posições fossem invertidas. S-Se o eu de dez anos tivesse aparecido e você tivesse dormido com ele, eu não o perdoaria, Kyouya."
As mãos se apertaram. O dia estava quente, um típico dia de fim de verão, mas o Chefe dos Cavallone sentia frio. Seu corpo tremia tamanho a relutância que ele sentia por estar se abrindo totalmente para aquele homem. Sim, ele sabia que era Kyouya. O seu Kyouya, e por esse motivo Dino não queria ter aquela conversa. Os sentimentos que ele estava confessando eram obscuros e moravam em uma parte de seu coração que não era somente sorrisos fáceis, gargalhadas carismáticas e comentários graciosos. Havia um lado negro dentro dele. Um lado que sempre rivalizava com a "máscara de Chefe" que ele escondeu por todos aqueles anos de seu amante. Porém, a simples ideia de que poderia, talvez, perder Hibari para sempre, o fez engolir o orgulho e decidir que abriria seu coração por inteiro se isso significasse se fazer entender.
"Eu não voltaria a vê-lo novamente, não importasse quantas vezes você aparecesse para me visitar. Eu mudaria de casa, sumiria do mapa e deixaria ordens para que você nunca mais entrasse em contato."
A voz do italiano foi se tornando cada vez mais baixa, até simplesmente desaparecer. Seus olhos cor de mel se ergueram e somente naquele momento ele notou que tinha novamente a atenção do Guardião da Nuvem.
"Isso é o que divaguei durante todas essas três semanas. Não pense que não me coloquei no seu lugar, Kyouya, porque isso é o que faço sempre. Todas as vezes que tivemos alguma discussão ou briga, nesses anos, eu sempre pensei na situação através dos seus olhos, e por isso nunca me importei em me humilhar e pedir desculpas." Os lábios do Chefe dos Cavallone formaram um vago meio sorriso. Lembrar-se daquelas brigas passadas parecia divertido comparada à situação atual. "Eu não sou uma pessoa totalmente boa, e eu não perdoaria uma traição sua, exatamente por você ser você, Kyouya. Para que tal coisa acontecesse eu teria de ter falhado como amante, então não haveria motivos para voltarmos a ficar juntos. E não..." Dino respondeu rápido, assim que viu os lábios do moreno se entreabrirem, "... você não falhou como amante. Esta foi uma situação diferente, uma exceção. Porém, eu o traí e não importa o que eu diga, não posso mentir sobre isso."
O louro consultou o relógio. Ele havia passado dos dez minutos iniciais e precisaria ir. A última coisa que ele necessitava era que Romário aparecesse.
"Eu terei de ir agora," o italiano ficou em pé, "eu não sei quando retornarei, mas eu definitivamente voltarei, e, então, se você quiser ou tiver interesse, poderemos conversar. Entretanto, eu gostaria de fazer um pedido, mesmo sabendo que não tenho direito de pedir absolutamente nada.” O louro respirou fundo. “Se... Se nesse tempo você perceber que jamais será capaz de me perdoar, eu quero saber. Eu quero que me avise. Eu quero um término limpo, assim como foi o nosso começo." Aquele pensamento o fez engolir seco. Recordar-se do dia em que ele havia se declarado para Hibari sempre o fazia sorrir. Todavia, ele não sorria naquele momento.
"Eu pensarei a respeito." Os lábios do Guardião da Nuvem se moveram devagar, mas sua voz saiu audível. Os olhos negros estavam fixos no homem à sua frente, e aquela seriedade deixou o Chefe dos Cavallone incomodado, como se a separação fosse inevitável. "Mas eu não vou terminar, Dino." O moreno não tinha expressão. Sua voz possuía o mesmo tom, como se ele não achasse que aquela informação tivesse tanta relevância. "Eu apenas não consigo perdoá-lo, hoje, neste momento."
"Eu entendo." O coração de Dino não ficou mais leve, mesmo após ouvir aquilo. "Cuide-se, Kyouya e não se esqueça de se alimentar."
Hibari abaixou os olhos e ficou em pé. Aquela atitude sim surpreendeu o louro, que deu um passo à frente, levando automaticamente a mão na direção de seu amante.
"K-Kyouya, eu..." A atitude, porém, foi refreada no mesmo instante. O italiano trouxe a mão contra o peito e trincou os dentes, balançando a cabeça em negativo. "Até mais, Kyouya."
"Boa viagem."
A voz do Guardião da Nuvem foi tudo o que o Chefe dos Cavallone ouviu. Ela soou baixa, mas ele não chegou a olhar para trás. Seus pés calçaram os sapatos de maneira apressada, e, enquanto seus passos ecoavam pela sacada de madeira, Dino fazia o impossível para não deixar que todas aquelas emoções dominassem seu corpo. Seus olhos estavam vermelhos e teimavam em ficar cheios d'água. Seu coração batia tão rápido e de maneira tão dolorosa que ele achou que pudesse ter algo mais sério, como um ataque cardíaco. Sua cabeça doía, e quanto mais se afastava da casa do templo, mais forte o louro sabia que teria de ser. A longa escadaria surgiu diante de seus olhos e nunca ele agradeceu por tantos degraus. Seus pés percorreram aquele espaço sem pressa, tocando cada degrau com uma demora proposital. Ele precisava estar recomposto quando encontrasse Romário e seus subordinados. Você é um homem, Dino e precisa agir como tal. Aqueles homens não precisam de um chorão. Você é o Chefe. Aja como um. O Braço Direito o esperava no fim da escada e, ao vê-lo, o Chefe dos Cavallone esboçou um meio sorriso. Havia dois carros menores atrás, e Dino acenou mostrando que estava pronto para ir.
"Vamos para o aeroporto, Romário." O louro disse assim que a porta se fechou ao seu lado esquerdo.
O Braço Direito sentou-se no banco do motorista e ajeitou o retrovisor. Os olhares se encontraram por um momento e tudo o que o italiano fez foi sorrir.
"Chefe, eu preciso pedir permissão para fazer uma ligação." Romário disse assim que deu partida no carro.
"Fique a vontade." O Chefe dos Cavallone franziu a testa sem entender. "Eu não me importo."
"Mas eu sim, Chefe, então se me permite um pouco de privacidade eu subirei a divisória. É uma ligação pessoal."
Os olhos de Dino se arregalaram e ele tentou argumentar, mas tudo o que recebeu foi o vidro escuro que bloqueou o contato com o banco do motorista. Ele sabe. Naquele carro só havia os dois, e, ao notar que o veículo se movia, o louro abaixou o rosto e não conseguiu mais segurar as lágrimas. Elas desceram pesadas e gordas, e ele levou as mãos até a face, tentando a todo custo omitir o choro que estava preso em sua garganta.
Por três semanas o italiano se manteve forte, pois precisava se focar no plano e dependia da certeza de que tudo havia dado certo. Entretanto, quando ouviu dos lábios da versão futura de Yamamoto Takeshi que tudo estava bem, uma parte de seu coração sentiu-se leve; a outra, porém, sabia que precisaria lidar com um erro que havia sido cometido. O preço que ele teria de pagar por isso estava além de suas limitações, e por noites o Chefe dos Cavallone se perguntou se um dia poderia ser capaz de se redimir.
O carro havia se afastado do templo e percorria as ruas de Namimori na direção do aeroporto. A Família utilizava um avião particular, então não importava o horário, Dino não corria o risco de perder o voo.
E, embora soubesse que teria de trabalhar em dobro quando retornasse, e isso incluía reuniões, relatórios e toda uma infinidade de burocracias, tudo o que o louro conseguia pensar era se aquelas lágrimas deixariam de escorrer por seu rosto quando ele chegasse ao aeroporto, e se um dia ele seria capaz de perdoar a si mesmo por ter magoado a pessoa mais importante de sua vida.
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O trabalho não foi tão maçante ou insuportável como o italiano esperou.
Sua mansão o esperava quando ele retornou, com suas dezenas de subordinados, empregados, cozinheiros e todas as pessoas que faziam parte da Família. O incidente do carro não fora mencionado por Romário, e por isso o Chefe dos Cavallone seria eternamente grato. Sua primeira noite em casa foi tranquila. O Braço Direito não falou sobre trabalho ou nada parecido e Dino pôde simplesmente tomar um rápido banho e se jogar em sua grande e confortável cama. As lembranças – essas presentes em praticamente toda a mansão – não o impediram de simplesmente perder a consciência quase no mesmo instante em que sua cabeça tocou o travesseiro. Seu corpo e sua mente estavam exaustos, e não foi surpreendente que o louro acordasse somente no meio da tarde do dia seguinte. E, desta vez, Romário se mostrou presente.
Uma das coisas incríveis sobre a Máfia é que a situação, muitas vezes, fala por si mesma.
O incidente envolvendo a Família Moretti chegou aos ouvidos de praticamente todos os Chefes mafiosos ao redor do mundo, fosse de uma grande ou pequena Família. Os Cavallone receberam mensagens de apoio dos aliados, mas o que realmente chamou a atenção foram os convites que as Famílias desconhecidas fizeram. Em pouco tempo os Cavallone se tornaram ainda mais relevantes para aquele submundo, e isso só poderia significar mais e mais trabalho.
"Eu não recebi nenhum convite de seu Chefe. Quando ele me fará uma visita e pedirá que sejamos amigos?" Dino tentou soar sério, mas seria impossível. Seus lábios o deduraram e a gargalhada só não foi alta, porque ele sabia como se comportar em lugares públicos.
"Ele o mataria se ouvisse isso, Haneuma." O homem sentado à sua frente esboçou um sorriso involuntário. Até alguém sério como Squalo não podia ignorar um comentário tão pretensioso e totalmente sonhador. "O mundo pode desabafar, mas Xanxus jamais baterá na sua porta pedindo ajuda. Ele te odeia por algum motivo provavelmente ridículo."
Não tão ridículo, pensou o louro, permitindo que sua colher pegasse mais um pouco do mousse em sua taça. Você é apenas atento e esperto para as coisas profissionais, Squalo. Não que eu seja diferente hehehe. O italiano sorriu. Aquela havia sido uma excelente refeição. Os olhos cor de mel se ergueram e por um momento o Chefe dos Cavallone se perguntou se talvez não fosse o momento de abrir os olhos de seu velho amigo de infância. Algumas vezes precisamos de um empurrãozinho externo para vermos certas coisas, e aquela era uma típica situação que Dino achava que poderia ajudar mais do que atrapalhar.
"Ele tem ciúmes. Xanxus me odeia porque acha que temos ou tivemos alguma coisa."
"Eu sei." Mesmo? O louro ficou genuinamente surpreso. O Vice-Líder não era tão cego como ele pensava. "Mas sempre achei que isso fosse apenas provocação barata." O homem de longos cabelos prateados olhou com nojo para a taça de mousse que o italiano degustava. Ele não gosta de coisas doces. Somente naquele momento ele se deu conta de que o assunto havia entrado na parte pessoal. Seu olhar desviou-se rapidamente e por um curto, muito curto momento, o Chefe dos Cavallone achou que ele havia visto seu amigo corar. "Você sempre soube?"
"Sim." Dino mexeu-se na cadeira, incomodado. Aquela seria a primeira vez que ambos pisavam na vida pessoal um do outro, e isso significava reciprocidade. Eu deveria ter ficado quieto. Se Squalo mencionar Kyouya eu não sei como reagir. Havia se passado três dias desde que o louro retornara de Namimori e durante aquele tempo ele se afundou o máximo possível em trabalho, tendo muito pouco tempo para pensar em seu amante. Naquela manhã, o Vice-Líder da Varia apareceu em sua porta, convidando-o para um almoço no centro de Roma. O convite o surpreendeu, mas ele mentiria se dissesse que não ficou feliz por sair um pouco de casa. "Acho que podemos pedir a conta."
O homem de cabelos prateados o olhava sério, e o italiano ergueu a mão, esperando que a atendente fosse rápida. O quanto antes ele fugisse daquela situação, melhor.
"Cinco minutos." Squalo recostou-se melhor à cadeira, fez um gesto arrogante para a atendente que se aproximava, fazendo com que a pobre mulher se afastasse, e cruzou os braços. "Eu fingirei que me importo com você por cinco minutos. Então, fale."
"Hã!?" O Chefe dos Cavallone olhou da mocinha se afastando para o homem à sua frente, sem entender o que estava acontecendo. "Perdão, mas não sei do que você está falando."
"Não se esqueça que eu fui obrigado a ir para o futuro. Eu sei certas coisas." O Vice-Líder estava sério. "Você só se permitiu ser morto no futuro por causa daquele homem. Você se tornou fraco, Haneuma, e durante o tempo que fiquei no futuro eu tive vontade de matá-lo com as minhas próprias mãos, mas simplesmente não pude. Quando fui à sua casa esta manhã eu pretendia beber e encher a cara e não vir aqui te ver comer doce feito uma menininha. Sua cara está péssima e eu sei que é culpa do antissocial que mora em Namimori." O homem de cabelos prateados consultou o relógio. "Quatro minutos e meio."
"Não é culpa dele e eu não sei do que você está falando." Dino sentiu o rosto corar. Por que eu fui abrir a boca?
"Então durante todos esses anos você não foi àquele fim de mundo para simplesmente foder Hibari Kyouya?"
Os olhos cor de mel se ergueram no mesmo instante, sérios e pesados. Aquela frase o fez sentir repulsa e por um momento ele esqueceu que a pessoa com quem conversava era Squalo. Aquele nível de conversa e vocabulário não lhe era estranho, mas ouvir o nome de seu precioso Kyouya naquele contexto o fez sentir sujo, como se o relacionamento que tiveram naqueles anos não passasse de pura necessidade física.
"Desculpe-me, velho amigo, eu esqueci que você não fode. Você faz amor." O sarcasmo pareceu escorrer pelos lábios presunçosos do Vice-Líder.
O louro não conseguiu responder e ambos passaram os próximos minutos no mais puro silêncio. O homem de cabelos prateados consultou novamente o relógio após um tempo, levando a mão até o bolso, retirando algumas notas e colocando-as sobre a mesa. O italiano ergueu os olhos, mas antes que pudesse se despedir a voz de seu amigo cortou sua fala.
"Ele matou mais de 300 pessoas e torturou o Chefe da Família de uma forma que eu acho que nem Xanxus teria sido capaz. Eu nunca mencionei, mas passei aquela hora dentro do escritório da Varia. Tudo o que descobri foi através dos lábios de Xanxus, e ele sentiu um prazer enorme em contar cada detalhe. O homem que ele descreveu não é o mesmo antissocial, arrogante e insensível idiota que consegue brincar com o seu humor. O Guardião da Nuvem dos Vongola é seu calcanhar de Aquiles, Dino, e, se você não fizer algo sobre isso, acabará morto novamente." O Chefe dos Cavallone tentou desviar os olhos, mas não conseguiu. Tudo o que ele havia ouvido até ali era somente a verdade. Doía, mas era a verdade. "Entretanto, ele matou por você. Quantas pessoas fariam isso?" Squalo deu as costas e acenou, afastando-se.
Dino não conseguiu fazer nada além de assistir seu amigo de infância deixar o restaurante.
A atendente se aproximou, mas ele mal conseguiu lembrar se entregou o dinheiro a ela, ou retirou da própria carteira. Seus passos o levaram para fora do restaurante após alguns minutos, e nem o céu azul, e nem o brilho do sol foram capazes de fazê-lo sorrir.
"Vamos para casar, Chefe?" Romário apagava o cigarro enquanto falava.
"Ainda não, Romário." O louro coçou a nuca, olhando de um lado para o outro da rua. Eles estavam em um local movimentado, uma rua basicamente dedicada à gastronomia italiana. "Eu preciso dar uma volta."
"Você sabe que não posso deixá-lo sozinho, Chefe." O Braço Direito deu de ombros e seu sorriso parecia pedir desculpas.
"Eu sei, e desculpe por ser tão egoísta, mas eu apenas não quero retornar agora para casa." Aquele lugar não é somente meu. Em todos os lugares eu vejo Kyouya.
Romário não questionou o pedido do italiano, limitando-se somente a dirigir.
O Chefe dos Cavallone observava as ruas, pensando aonde poderia ir para passar um pouco do tempo. Seus olhos se arregalaram levemente ao entrar no centro comercial, e foi ali que Dino pediu que o carro fosse parado. Seus pés pisaram na calçada e após alguns passos suas mãos abriram a porta de vidro. Ele sabia que seu Braço Direito estava logo atrás, então não haveria problemas. A loja era uma das mais conhecidas (e também caras) do centro de Roma. Ela era famosa por suas roupas de excelente qualidade e por ter os mais variados números.
Entrar ali não foi mero acaso. Os olhos cor de mel pareciam distraídos, mas assim que viram a vitrine, ele soube imediatamente que teria de parar e entrar naquele local. Seu objeto de desejo estava vestindo um dos manequins, e, depois de alguns segundos de observação, o louro virou-se para o atendente que havia se prostrado ao seu lado, sorriu e pediu uma peça igual:
"Eu quero da cor preta, por favor."
"Excelente escolha, senhor." O rapaz não poderia ter mais de 22 anos. Era de altura mediana, cabelos curtos e castanhos e belos olhos azuis. "Quer que embrulhe para presente?"
"N-Não, não precisa, obrigado." O italiano corou, colocando a mão dentro do terno e retirando a carteira. O pagamento foi feito em dinheiro e após alguns segundos ele estava fora da loja.
A sacola ficou ao seu lado no banco do carro, e, embora tivesse dito que não gostaria de retornar para casa, o Chefe dos Cavallone se sentia muito mais inclinado a encarar a realidade. Você é um tolo, Dino Cavallone. Isso não mudará nada. Romário perguntou novamente se ele realmente gostaria de retornar e a resposta de Dino foi apenas um sim, seguido por um meio sorriso. Sua nuca apoiou-se ao macio banco do carro e a voz de Squalo ecoou por sua mente, como uma versão arrogante e ranzinza de sua própria consciência. Nada do que ele me disse foi inédito. Não é como se eu nunca houvesse pensado naquelas coisas. O louro encarava a paisagem do centro de Roma, mas sem realmente prestar atenção em nada.
Eu sempre soube que Kyouya seria minha fraqueza. Do momento em que coloquei meus olhos sobre aquele garoto eu soube que estava completamente preso. Aquela recordação não era exatamente doce. Quando recebeu a missão de treinar o "futuro Guardião da Nuvem da futura Família Vongola", a primeira reação do italiano foi declinar. Ele não aceitou o convite de Reborn de imediato. O Hitman precisou ir até a mansão pessoalmente para convencê-lo. Eu não queria me envolver em mais problemas. A descrição de Kyouya feita por Reborn foi terrível e eu praticamente já sabia que seria problemático. Eu aceitei por pura dívida moral. Entretanto, no momento em que o moreno pisou no terraço do colégio Namimori, o Chefe dos Cavallone sentiu como se aquele fosse o exato local em que ele deveria estar. Eu não consegui sequer desviar os olhos. A presença de Kyouya era tão hipnotizante que eu até mesmo esqueci como era respirar. Eu senti o ar entrar e sair manualmente de meus pulmões. Depois daquele primeiro encontro, o resto virou história...
Por mais de uma hora Dino não fez nada além de reviver as melhores lembranças que aqueles quase sete anos haviam lhe proporcionado. Cada momento parecia tão querido e especial, que seu sorriso o acompanhou durante o trajeto inteiro. Ele lembrou-se do primeiro beijo, das carícias que trocaram na sala do Comitê Disciplinar. Do dia em que Hibari tentou mordê-lo até a morte após vê-lo perambulando pela escola com o disfarce de professor. No final daquele ano, após a batalha, nós tivemos o festival do colégio. Kyouya nunca apareceu, mas eu me diverti muito. Nós passamos a noite na sala do Comitê Disciplinar. Eu o amei a noite inteira e ele chamou meu nome todas às vezes. Os olhos cor de mel se fecharam e o louro seria capaz de ouvir a voz rouca do Guardião da Nuvem em seus ouvidos. Quando seus olhos se abriram, eles mostraram o grandioso chafariz que ficava no jardim e foi somente naquele instante que ele se deu conta de que havia cochilado por alguns minutos.
"Obrigado, Romário." O italiano sorriu ao sair do carro, trazendo em mãos a sacola da loja.
O Braço Direito desligou o carro e saiu do veículo, sorrindo de canto. O Chefe dos Cavallone virou levemente a cabeça, sem entender onde estava toda a graça. A cabeça de Romário apontou discretamente para cima, e foi somente ao virar o rosto que Dino entendeu. Seus olhos cor de mel se arregalaram um pouco, mas um triste sorriso pintou seus lábios quando ele voltou a encarar o chão. Sua mão direita segurou a alça da sacola com um pouco mais de afinco e foi preciso bastante força de vontade para que suas pernas começassem a caminhar. Eu quero correr, mas não posso. Eu quero subir as escadas e entrar no quarto e abraçá-lo, mas não posso. Entrar no hall da mansão foi difícil, mas começar a subir a escadaria que levaria ao segundo andar foi quase impossível. Em todos esses anos esta é a primeira vez que eu não quero vê-lo. Os olhos do louro estavam nos degraus, no tapete vermelho que forrava cada um deles, e, quando finalmente chegou ao topo da escada, o italiano ergueu o rosto, engolindo seco ao ver Hibari à sua frente. O Guardião da Nuvem tinha o mesmo rosto inexpressivo e os lábios crispados em uma fina linha. O Chefe dos Cavallone levou a mão esquerda até a nuca e esboçou um forçado meio sorriso. Ele não conseguia manter o olhar firme. Eu estou com medo. Os olhos cor de mel pousaram em uma parte do corredor. Eu estou com medo do que ouvirei deste homem.
"Você está atrasado." A voz do moreno saiu baixa. "Seus subordinados disseram que você estaria de volta em pouco tempo."
"Eu acabei me distraindo."
Dino sentiu a sacola em sua mão direita e aquela realização transformou seu sorriso em algo triste. Ele tinha plena consciência de que estava parado no topo da escada, em frente à pessoa que amava, mas não conseguia nem sequer olhá-la direito nos olhos. A vergonha que sentia era tanta, que ele temia mostrar aquele lado para algum subordinado que estivesse por perto. Estamos sozinhos, o louro sabia. Ele sabia que do momento em que havia entrado na mansão, todos os subordinados haviam saído. Somos somente nós dois.
O italiano não previu o movimento seguinte. Na verdade, ele não sentiu nada até algo tocar seu rosto, fazendo-o erguer os olhos. A mão direita de Hibari o surpreendeu, e seu coração bateu tão rápido que seria difícil esconder suas bochechas coradas. Aquela era a primeira vez que ele recebia o toque daquele homem depois da briga que tiveram no templo há três semanas. Seu corpo estava tão carente daquele contato que o Chefe dos Cavallone apenas fechou os olhos por um momento, sem acreditar que finalmente pôde sentir a pele de seu precioso Kyouya contra a sua.
"Você parece horrível, Dino."
"Eu sei."
A mão afastou-se de seu rosto, mas Dino sabia exatamente o que deveria fazer. Seus olhos se abriram e sua mão esquerda esticou-se, segurando firme a mão do homem que estava à sua frente. O Guardião da Nuvem não fez menção de empurrá-lo ou afastar-se, então naquele momento o louro soube que o moreno havia chegado a alguma resolução.
"Vamos para o quarto? Acho que temos muito para conversar." O italiano sorriu um pouco menos triste quando ambos começaram a caminhar pelo largo corredor. "Eu comprei algo." A mão direita esticou-se um pouco, oferecendo a sacola para o moreno. "Eu sei o quanto você gosta desses pijamas de flanela. Você está sempre vestindo os meus."
"Eu não pedi nada." Hibari segurou a sacola.
"Eu sei, mas não é para você." O Chefe dos Cavallone sorriu. "É para mim, mas você pode usar às vezes."
O Guardião da Nuvem não respondeu, mas a mão que segurava a de Dino tornou-se um pouco mais apertada enquanto os dois caminhavam na direção do quarto.
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Não havia nada no moreno que denunciasse que ambos precisassem ter uma conversa séria, aliás, provavelmente a conversa mais séria de todos aqueles anos. Hibari entrou no quarto, a expressão serena e a voz baixa, como sempre. Não havia sinal de mala ou bagagem, mas o louro sabia que as coisas provavelmente haviam sido arrumadas. Seu amante vestia uma simples calça social e uma camisa branca, ambas as peças haviam sido compradas pelo próprio italiano. Ele teve tempo de trocar de roupa, então está aqui há algum tempo. O Chefe dos Cavallone perguntou a que horas o Guardião da Nuvem havia chegado, recebendo uma curta resposta.
"Uma hora depois que você saiu, mais ou menos. Meu voo atrasou algumas horas."
Dino coçou a nuca. Ele não conseguia ficar quieto quando o silêncio estava sobre eles, exatamente como naquele momento.
“Eu vou tomar um banho, Kyouya. Prometo não demorar."
"A casa é sua." O moreno aproximou-se da janela, no exato local em que estava quando o louro desceu do carro e ergueu o rosto.
O italiano seguiu para o closet, pegando a primeira troca de roupa limpa que encontrou pela frente. Passar ao lado de Hibari foi definitivamente a pior parte. Seu coração batia tão rápido e seu corpo estava tão incerto, que ele tropeçou duas vezes até finalmente entrar no banheiro. O Chefe dos Cavallone respirou fundo, trancando a porta e fechando os olhos. Ele não precisava daquele banho, mas Dino também não conseguiria ficar naquele quarto, não depois daquela surpresa. Eu não o esperava tão cedo. Eu não esperava que ele me tocasse depois de todo esse tempo. As roupas foram retiradas devagar. Os passos ecoaram pelo piso branco, e o louro suspirou longamente ao entrar no box. A água morna o atingiu diretamente no rosto e seus olhos cor de mel se fecharam. Ele passaria o tempo que fosse necessário ali, naquele espaço, e só retornaria para o quarto quando voltasse a ser senhor de si mesmo. Aqueles sentimentos conflitantes não combinavam com sua personalidade. O italiano sempre cantou aos quatro cantos sobre seu amor, seus mais sinceros sentimentos por aquele homem, mas de repente ele se sentia como um adolescente inexperiente, que acha que vai ser rejeitado pela namorada somente porque disse algo errado. No meu caso eu não disse, eu fiz algo errado. O Chefe dos Cavallone balançou a cabeça. Chega de fatalismo. Kyouya não merece esse tipo de tratamento.
O banho durou pouco mais de vinte minutos. Verdade fosse dita, ele teria durado muito menos, mas Dino simplesmente não se sentia pronto para retornar ao quarto. A porta do banheiro foi aberta e ele surgiu vestindo um simples conjunto esportivo negro. Seus cabelos estavam úmidos, mas perfeitamente penteados. Os olhos cor de mel não precisaram vasculhar o quarto atrás de sua companhia. Hibari estava sentado no meio da cama, recostado a dois macios travesseiros, enquanto suas mãos seguravam um livro. Ao notar que tinha companhia, os olhos negros se ergueram e o Guardião da Nuvem parou sua leitura. O peito do louro tornou-se apertado e seus pés o levaram até a cama. Seus joelhos se flexionaram, e, embora soubesse que não deveria fazer aquilo antes de conversarem, o corpo do italiano simplesmente não conseguiu se manter longe, não mais. Por todas aquelas semanas ele se viu mantendo distância da pessoa que ele tanto amava. A cada visita ao templo, a cada monólogo, seu corpo implorava um pouco de contato; um aperto de mão, um entrelaçar de dedos, um abraço... qualquer coisa.
O livro foi colocado ao lado e o moreno se deixou abraçar. O Chefe dos Cavallone afundou o rosto no peito daquele homem, sentindo suas bochechas tornarem-se coradas. O cheiro de seu amante era exatamente como ele lembrava, assim como o contato com aquela pele. Durante todos aqueles anos o corpo de Dino havia se condicionado a presença do ex-Líder do Comitê Disciplinar, como um imã. Suas mãos procuravam uma maneira de tocar o Guardião da Nuvem, apenas para senti-lo próximo, perto, ao seu lado. Quando as mãos do moreno tocaram suas costas, o louro apertou ainda mais o abraço, recusando-se a soltá-lo, como uma criança.
"Só mais um pouco, Kyouya." A voz do italiano soou baixa e abafada.
"Eu não vou a lugar algum." Hibari subiu e desceu as mãos lentamente. Sua própria voz não parecia aborrecida.
"Eu sei."
O Chefe dos Cavallone ergueu o rosto devagar. Seus lábios tocaram a pele pálida e quente de seu amante, e naquele momento ele soube que seria impossível parar. Os beijos curtos subiram devagar pelo pescoço, e foi simples encontrar o caminho até a boca do Guardião da Nuvem. O beijo começou lento. O moreno não o afastou ou negou aquela carícia, pelo contrário. Seus lábios se moveram com a mesma velocidade, mas de maneira precisa. A mão direita de Dino subiu até a nuca de Hibari, fazendo com que os rostos se inclinassem levemente. O gesto se intensificou, e, quando o louro deslizou a língua dentro da boca do Guardião da Nuvem, as mãos do homem em seus braços apertaram a blusa escura que ele usava.
Não havia palavra ou sensação que pudesse descrever o sentimento que se apossou de seu corpo naqueles segundos. A saudade que ele sentiu do moreno havia sido tão brutal, que seu ser se recusou a parar o beijo. O ar lhe faltou, mas os lábios do italiano se mantiveram próximos, como se o menor movimento pudesse fazer com que eles se afastassem novamente. As mãos de Hibari subiram pelos ombros largos do Chefe dos Cavallone, descendo pelo peito e empurrando-o levemente para o lado. O beijo recomeçou, mas devagar e gentil dessa vez, enquanto o Guardião da Nuvem inclinava-se sobre seu amante. E foi somente ao sentar sobre o colo de Dino, um joelho de cada lado, que o moreno interrompeu o beijo.
"Diga o que aconteceu."
"Eu já disse. Eu contei nas curtas visitas que fiz ao templo, mas você nunca me ouviu de verdade, não é, Kyouya?" O italiano apertou um pouco mais os braços ao redor do magro corpo de seu amante. Seus lábios sorriram de maneira triste.
O moreno não respondeu, mas seus olhos estavam sérios.
O Chefe dos Cavallone abaixou o olhar, umedecendo os lábios, pronto para o que viria em seguida. Ele havia contado para Hibari, nas visitas diárias que fez ao templo, mas não tudo. A história toda nunca havia sido contada realmente e, no fundo, Dino não sabia ao certo como colocar para fora toda aquela avalanche de lembranças.
"Eu perdoo você." Foram as primeiras palavras que deixaram os lábios do Guardião da Nuvem. O louro subiu as mãos pela cintura do homem em suas pernas, trazendo-o mais para perto e acomodando-o melhor em seu colo.
"Obrigado." O italiano sorriu. Seu corpo já sabia da resposta. Aliás. Ter seu amante ali, em sua casa, já era a resposta. Porém, ouvir claramente que havia sido perdoado o deixou feliz. Nós teremos de conversar sobre isso novamente, eu sei. O Chefe dos Cavallone ergueu os olhos. "Meus pais morreram quando eu tinha doze anos. Eu já contei a história a você. Eu estava na escola quando soube. Romário me buscou e me trouxe até aqui. Todos estavam com rostos tristes e me olhavam com pena. Eu tinha dois tios na época, ambos irmãos de meu pai. Eu fui levado ao escritório e lá me disseram sobre o acidente. O problema é que desde o começo nenhum deles realmente acreditou que fora um acidente." Dino fez uma breve pausa. Ele não se lembrava direito daquele dia. Certas partes não passavam de borrões em sua mente. "O que eu lembro foi que Alfredo foi acusado desde o começo. Um dos meus tios queria interrogá-lo, mas eu não permiti. Eu tinha doze anos, mas sabia muito bem que interrogar servia de eufemismo para outra coisa. Eu pedi a Romário que o levasse para algum lugar seguro. Romário já era meu Braço Direito na época, embora ele trabalhasse mais como babá do que outra coisa."
O louro riu. Lembrar-se das aventuras que havia passado ao lado de Romário era sempre uma ótima recordação.
"Alfredo era o Braço Direito de meu pai e eu sabia que ele não havia feito o que todos o acusavam. Aquele homem jamais trairia a Família, mas eu era apenas uma criança e não sabia o que fazer. Por dias eu apenas ouvi e observei esta casa se tornar cada vez mais cheia. Aliados, inimigos, pessoas estranhas... todos queriam saber o que aconteceria com os Cavallone, já que a Família havia ficado nas mãos de um garotinho." O italiano sorriu, depositando um curto beijo no pescoço de Hibari. O Guardião da Nuvem o olhava atento. "Quando foi apontado que eu seria o Chefe, então eu decidi que faria a coisa certa. Foi o próprio Alfredo que sugeriu o plano, mas até hoje eu não acredito que Romário e alguns subordinados aceitaram compactuar com isso. Eu sabia que meus tios acabariam matando o homem, logo, eu ofereci a única coisa que tinha em mãos: o exílio. Tirá-lo do país foi simples, mas eu precisei pagar uma fortuna para que Vindice aceitasse um prisioneiro trocado. No final, Alfredo foi para Portugal, deixando o filho com os avós, mas conservando sua vida. Eu mantive minha promessa por todos esses anos. Eu paguei moradia para o menino, seus estudos, alimentação, tudo o que ele precisou. Meu último tio morreu no ano passado, então estávamos pensando em como fazer Alfredo retornar. Eu jamais esperei que fosse dessa maneira."
"Você conhecia o garoto..." O moreno parecia levemente contrariado. "Você conhecia o garoto que futuramente te mataria?"
"Rafaelle? Sim, um adorável rapaz. Gentil e educado. Eu o visitava pelo menos uma vez ao ano."
"Você é descuidado." O ex-Líder do Comitê Disciplinar desviou os olhos.
"Rafaelle jamais faria nada assim. Aquele futuro só aconteceu porque eu não estava tão presente como deveria e porque os Moretti mentiram." O Chefe dos Cavallone sorriu. "Tudo o que eu fiz foi trazer Alfredo à Itália e devolvê-lo ao filho."
"Só isso?" Hibari apertou os olhos, visivelmente descrente.
"Sim. Só isso. A Varia levou os líderes dos Moretti, portanto, não existe ninguém para enfiar ideias distorcidas na cabeça do rapaz. Alfredo retornou à Família e Yamamoto Takeshi me confirmou que estou vivo e feliz no futuro; o mesmo vale para Kyoko-chan."
O Guardião da Nuvem ergueu levemente o rosto, encarando o homem em seus braços com um estranho e peculiar olhar.
"Você disse que o homem foi restituído à Família. O que você quis dizer com isso?"
"Alfredo é secretário de Romário. Ele já é um senhor de idade e eu jamais permitiria que fizesse trabalho pesado, então eu o deixei com a parte administrativa. Para ser sincero, eu já fazia isso há anos. Ele morava em Portugal, mas continuava parte da Família. Era o mínimo que eu poderia oferecer para alguém que fez tanto pelos Cavallone."
"Eu estou falando do garoto." Os olhos negros brilhavam. Kyouya está bravo.
"Ah..." Dino coçou a nuca, sorrindo sem graça. "Rafaelle faz parte da Família agora. Ele mesmo pediu por isso, eu não tive como recusar. E-Ele me olhou com aqueles grandes olhos azuis e rosto corado e-e disse que trabalharia duro pela Família. Eu o deixei com Romário. Ele será treinado para ser o futuro Braço Direito."
O golpe atingiu a cabeça do louro em uma velocidade absurda, mas o italiano nada sentiu. Seus lábios riram ao sentir o macio travesseiro, e tudo o que ele conseguiu fazer foi gargalhar, enquanto empurrava o moreno na direção da cama. Hibari, porém, não ria. Sua expressão era séria, e o Chefe dos Cavallone soube no exato momento que seu amante não havia gostado do que ouvira.
"Eu sei o que você está pensando, Kyouya, mas eu confio no rapaz. E eu confio no relato que Yamamoto fez. Ele disse coisas sucintas, reais e que fizeram sentido. Eu não morrerei, não daquela forma. Rafaelle se transformará na sombra de Romário e ele será extremamente dedicado a mim." Dino sentiu o rosto corar. Ele se lembrava da conversa que tivera com o Guardião da Chuva do futuro, e certas informações o deixaram extremamente feliz. "Você sabia que, no futuro, eu morarei com você no templo?"
"Impossível." A resposta saiu rápida dos lábios do Guardião da Nuvem. "Herbívoros não podem morar naquele lugar. Eu jamais permitirei."
"Oh, você irá." O louro sorriu triunfante. "Eu passo metade do ano em Namimori e depois voltamos para cá. Sim, voltamos. Você vem comigo quando eu retorno para a Itália."
"Impossível." A mesma expressão branca pintou o rosto do moreno. "Há algo errado com esse futuro, eu não o quero. Vamos mudá-lo."
O italiano riu, afundando o rosto no pescoço do homem que estava por baixo. Seu corpo deitou-se devagar e seus olhos se fecharam. O Chefe dos Cavallone se sentia cansado, mas extremamente feliz. As mãos do ex-Líder do Comitê Disciplinar subiram por suas costas, mas Dino não se moveu. Ambos permaneceram naquela posição por alguns minutos, aproveitando o mais puro silêncio. O louro sentia o coração bater mais rápido, e as palavras de Squalo ecoavam em sua mente de maneira dolorosa. As mãos em suas costas se moveram e quase no mesmo instante o italiano sentiu as lágrimas deixarem seus olhos.
Ele não sabia ao certo porque estava chorando. Não havia motivos para tristeza, não quando a pessoa que ele tanto amava estava literalmente em seus braços. O futuro havia sido mudado, tudo voltara ao seu lugar, mas o Chefe dos Cavallone não conseguia esquecer o que seu amigo de infância havia dito. O abraço ao redor de seu corpo tornou-se mais apertado, e as próprias mãos de Dino envolveram as magras costas de Hibari.
"Desculpe, Kyouya..." A voz do louro saiu abafada por causa do choro. Ele não tinha coragem de encarar seu amante. "Desculpe por traí-lo. Eu realmente sinto muito."
As últimas palavras foram ditas por uma voz baixa e quase inaudível.
O Guardião da Nuvem não respondeu, e o italiano não esperava realmente uma resposta. Entretanto, ele sentiu as mãos que subiram e desceram por suas costas, e aquele pequeno gesto só serviu para fazer com que mais lágrimas escorressem por seu rosto.
"Eu sei." A voz do moreno saiu baixa e fez com que o Chefe dos Cavallone abrisse os olhos, mas se mantivesse na mesma posição. "Eu sei por que você fez aquilo e sei que sente muito."
O abraço durou mais alguns minutos. Dino apoiou os braços na cama, afastando-se devagar, mas garantindo que seu rosto se virasse antes de encarar o homem que estava por baixo. As costas de suas mãos enxugaram rapidamente seus olhos, mas antes que o louro pudesse levantar-se da cama, os braços de Hibari o envolveram, e dessa vez foi a vez do ex-Líder do Comitê Disciplinar abraçá-lo.
"Eu terminei com você no futuro porque eu estava com medo." O tom do Guardião da Nuvem soou baixo. O italiano fez menção de se virar, mas seria impossível por causa dos braços que o envolviam por trás. "Eu estava com medo de mudar."
"Você não mudou nada, Kyouya. Você continua o mesmo Kyouya que eu conheci há sete anos." O Chefe dos Cavallone sorriu. Ele não mentira. Aquele homem sentado em sua cama e que o abraçava forte era o mesmo garoto arrogante, egoísta e antissocial que ele conhecera no terraço do Colégio. "Se você tivesse mudado eu não o amaria como o amo."
"Você mudou também, idiota. Você não deve ter notado, mas mudou."
"Claro que mudei." Dino fechou os olhos. Ele sabia que aquele era um raro momento. Aquela era a maneira que seu amante havia encontrado para que eles conversassem. "Agora eu sou mais independente e não preciso dos meus subordinados me seguindo a todo lugar. Ao seu lado eu me tornei mais organizado, centrado e Romário disse que menos desastrado, apesar de que isso eu nunca fui, então acredito que ele estava delirando quando disse isso hehehehe." O louro sentiu os lábios sorrirem. "Eu sei que você mudou, Kyouya, mas nenhuma das suas mudanças te transformou em outra pessoa, você pode confiar no que eu digo. Você é mais honesto agora, e carinhoso e gentil, mas comigo e não com os outros. Você ainda enxota os Vongola e trata Tsuna como um capacho. Você mordeu o pobre Gokudera Hayato quase até a morte e, sim, eu sei dessa história." O italiano riu. Seu Braço Direito havia narrado a história entre gargalhadas, dizendo que ouvir diretamente de Kusakabe havia sido muito mais divertido. "Você mudou comigo e por mim, Kyouya, então, qual o problema?"
Os braços ao redor do peito do Chefe dos Cavallone desceram devagar e naquele momento Dino soube que seu momento de sinceridade havia acabado. Seu corpo virou-se devagar, encarando um sério e relutante Hibari Kyouya. O homem tinha o olhar baixo, e quando o louro tentou virar o rosto em sua direção, uma mão forte a afastou.
"Eu não deixarei aquele futuro acontecer, Kyouya. Jamais. O único motivo que me fez aceitar aquele término ridículo foi porque eu sempre achei que não te merecia."
Os olhos negros se ergueram e as sobrancelhas escuras se juntaram.
O italiano sentiu o rosto corar e seus olhos encararam a roupa de cama escarlate. Você começou, você termina, Dino. Aquela era uma das verdades que o Chefe dos Cavallone guardava a sete chaves em seu peito. Ela ficava lado a lado com aquele seu lago egoísta e que desejava monopolizar o Guardião da Nuvem.
"No fundo eu sabia que um dia você ficaria cheio de mim e me deixaria para trás. Eu soube disso desde o começo, então não fiquei surpreso quando descobri que tínhamos terminado no futuro. D-Digo, você é incrível, Kyouya. Forte, bonito, charmoso, sensual... você poderia ter quem quisesse. Qualquer mulher ou qualquer homem, então eu sabia que um dia você diria que eu não era suficiente para você e q–"
Duas grandes mãos seguraram o rosto de Dino e o fizeram se calar. O moreno o olhava com uma expressão confusa e descrente, o que era uma grande novidade para o louro.
"Você está falando sério." A voz do ex-Líder do Comitê Disciplinar saiu levemente trêmula.
"Claro que estou. Eu nunca brinco quando o assunto é você, Kyouya!" O italiano mexeu os lábios devagar. Era difícil falar com alguém apertando suas bochechas daquela maneira.
"Você é realmente idiota."
As mãos soltaram seu rosto e Hibari abaixou o olhar. Um som completamente estrangeiro deixou seus lábios e o Chefe dos Cavallone não poderia ficar mais surpreso ao ver que o Guardião da Nuvem estava... rindo. Um riso tímido, contido e quase neutro, mas um riso. Aquilo fez o rosto de Dino corar, e ele realmente se sentiu idiota.
"D-Do que você está rindo, Kyouya? Eu estou sendo 100% sincero aqui!"
O moreno virou o rosto e, embora não risse claramente, a maneira como seus olhos brilhavam denunciava que aquele homem estava se divertindo.
"Eu sabia que você era estúpido, mas o nível do que acabei de ouvir é novo, Cavallone. Eu não tenho palavras."
"Kyouya!"
O louro segurou o braço de seu amante com força. Seu rosto estava vermelho e ele se sentia realmente tolo por ter aberto seu coração e agora ser alvo de piadas internas. Eu não deveria ter dito nada. Agora Kyouya sabe que eu vivo constantemente com medo de perdê-lo. Hibari encarou o braço que o segurava, e, quando seus olhos se ergueram, o livro que estava sobre a cama praticamente voou na direção do rosto do italiano. O Chefe dos Cavallone teve tempo apenas de esquivar o corpo, rolando para o outro lado da cama. Seu amante estava sobre ele no segundo seguinte, e o livro pressionava sua garganta, mas sem força.
"Lembre-se bem, Dino. Eu já disse isso uma vez, mas aparentemente você se esqueceu das minhas palavras: eu sou o único que pode mordê-lo até a morte. O seu dia vai chegar e será pelas minhas mãos. Até lá faça o favor de se manter vivo." A voz do Guardião da Nuvem soou baixa e seus lábios estavam próximos. "Outras pessoas vão tentar machucá-lo novamente, e eu não poderei estar lá todas às vezes, então me prometa que vai fazer o impossível para se manter vivo. Se eu souber que outra pessoa tentou mordê-lo até a morte eu juro que você vai se arrepender."
Dino arregalou os olhos devagar. Seu coração começou a bater rápido e ele podia sentir suas bochechas corarem. Os olhos negros que o fitavam eram ameaçadores, sérios, mas emitiam muito mais do que uma simples ameaça. As mãos do louro subiram devagar, envolvendo a cintura do homem que estava por cima e seus lábios formaram um meio sorriso.
"Eu prometo, Kyouya. Eu serei mais cuidadoso daqui para frente."
O livro em sua garganta tornou-se menos mortal, e, quando o moreno o afastou, o italiano o puxou para um esperado e longo beijo. Hibari relutou, de início, mas não havia nada no mundo que fizesse o Chefe dos Cavallone soltar aquele homem de seus braços. Em poucos segundos Hibari apoiou os cotovelos ao redor da cabeça de Dino, abrindo mais a boca e movendo os lábios com mais pressa. O beijo se tornou profundo e naquele momento o louro soube que ambos haviam dito tudo o que precisava ser dito. Ele sabia que em algum momento o assunto retornaria, mas os dois encontrariam um jeito de resolverem a situação. As mãos do louro subiram por dentro da camisa que o Guardião da Nuvem usava e seu corpo virou-se rapidamente, ficando por cima. Os olhos cor de mel se entreabriram e, ao se ver refletido nos negros e profundos olhos de seu amante, o italiano agradeceu mentalmente por estar vivo. Pois, nos braços do moreno, ele sempre se sentiria a pessoa mais viva do mundo.
Continua...
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