Vendetta
24 Hibari
Hibari
Ele soube que havia amanhecido quando a fina linha de luz do sol acertou seus olhos de maneira inconveniente.
Hibari automaticamente escondeu o rosto dentro do fino cobertor, como se isso fosse suficiente. Bem, de certa forma havia sido, mas no mesmo instante ele soube que não conseguiria mais voltar a dormir. O Guardião da Nuvem era uma pessoa de sono leve. Quando seus olhos se abriam dificilmente ele voltaria a dormir. Quente. Está quente.
O moreno mexeu-se na cama, virando-se para a esquerda, mas sentindo algo ao seu lado. Alguma coisa grande e pesada o impossibilitava de se mover livremente, e não foi preciso nenhum segundo de pensamento para saber o que impedia seus movimentos naquela cama. O rosto do ex-Líder do Comitê Disciplinar se ergueu levemente, encarando sua companhia. Dino dormia de barriga para cima, a mão direita embaixo do travesseiro de Hibari enquanto a esquerda estava sobre seu próprio travesseiro. Seu rosto estava virado para o outro lado, escondido pelos cabelos louros. Ele deveria cobrir a barriga enquanto dorme. O Guardião da Nuvem pensou ao descer os olhos pelo abdômen nu do italiano. Ele sabia que seu amante geralmente dormia apenas com a alça do pijama, isso porque o moreno insistia que não era uma boa ideia dormirem nus. Entretanto, Hibari não fez menção de cobrir o Chefe dos Cavallone. Seus olhos piscaram algumas vezes, afastando qualquer resquício de sono. Havia algo muito mais interessante ao seu lado e dormir era para os fracos e herbívoros!
Aquela não seria a primeira vez que o Guardião da Nuvem observava sua companhia, mas nunca admirar a beleza de Dino se fez tão necessária. Os olhos negros começaram pelo belo rosto, e foi impossível para o moreno não esticar a mão, afastando um pouco os cabelos que omitiam o que ele queria ver. O louro tinha cílios longos e lábios bem preenchidos. Seu nariz era fino e, apesar dos traços masculinos, havia também algo delicado naquele rosto. Ele disse que sabia que eu o deixaria algum dia. Os dedos do ex-Líder do Comitê Disciplinar desceram pelo maxilar do italiano, tocando seu pescoço e alojando-se no peitoral. Naquela região Hibari permitiu-se uma boa olhada. A ponta de seus dedos desenhava objetos invisíveis somente para ter o máximo possível de contato com aquela área. Ele disse que eu sou bonito. Ele disse que eu poderia ter quem eu quisesse. A mão parou ao chegar ao final do abdômen.
O Guardião da Nuvem engoliu seco, entreabrindo os lábios e sentindo uma quase incontrolável vontade de continuar o que sua mente gritava para que ele fizesse. Eu aposto que ele não acordaria. Hibari ergueu um pouco a calça do pijama, encarando a roupa de baixo branca que seu amante vestia. Seu corpo tremeu com o prospecto de ir um pouco mais além e seus dedos ameaçaram tocar aquela região tão tentadora, porém, ele desistiu assim que o Chefe dos Cavallone mexeu-se na cama. Os olhos negros se ergueram e o moreno soltou um baixo suspiro, levemente contrariado.
O relógio marcava pouco mais de sete da manhã. O ex-Líder do Comitê Disciplinar ficou em pé, coçando a cabeça e dando a volta na cama, seguindo para o banheiro da suíte. Ele sabia que tinha pelo menos trinta minutos até o despertador tocar, e então Dino acordaria. Hoje será outro dia cheio, pensou Hibari ao despir-se da blusa do pijama. Ele vestia somente essa peça e a roupa de baixo vinho. A calça negra estava com o louro.
O banho foi rápido e, após escovar os dentes, o Guardião da Nuvem retornou ao quarto. Seus passos o levaram até o closet, e a escolha para aquela manhã seria um conjunto social negro e uma camisa branca. Ele está gastando muito. O moreno passou os olhos pelas novas peças que enfeitavam o seu lado do closet. Não havia preço nas roupas, mas o ex-Líder do Comitê Disciplinar sabia claramente que elas não haviam sido baratas. Ele não vai deixar de comprá-las, mesmo que eu o proíba. Atrás dos ternos ficava a parte das roupas de inverno e, ao bater os olhos em um belo cachecol vermelho, Hibari sentiu os lábios formarem um discreto e quase invisível sorriso. Mentalmente ele contou quanto tempo ainda levaria até que o verão terminasse e o inverno chegasse. E eu estarei aqui.
Dino dormia profundamente quando o Guardião da Nuvem deixou o closet, totalmente vestido e arrumado. Os olhos negros fitaram seu amante dormir e, apesar de querer permanecer um pouco mais, o moreno sabia que teria tempo para isso depois. Os passos o levaram até a porta, e, ao ganhar o corredor, o ex-Líder do Comitê Disciplinar não ficou surpreso ao ver Romário caminhando através do corredor.
"Bom dia, Hibari." O senhor sorriu e fez uma polida reverência. Embora seguisse para outra direção, o Braço Direito dos Cavallone se aproximou devagar.
"Bom dia." Hibari retribuiu a reverência, meneando a cabeça.
"O café da manhã já está servido. Fique a vontade."
"Obrigado." O Guardião da Nuvem começou a andar ao lado de Romário. Eram raros os momentos em que eles tinham a oportunidade de conversar sem a presença do dono da casa. "Como está a agenda dele? Se você quiser eu acordo o idiota agora mesmo."
"Não é necessário, mas obrigado." O Braço Direito não conseguiu omitir uma baixa risada. "Deixe o Chefe dormir. Ele tem mais... dez minutos." Romário checou o relógio em seu pulso esquerdo. "Na realidade, não há necessidade de acordá-lo tão cedo. O trabalho está adiantado."
"É mesmo?" O moreno soou genuinamente surpreso. Quando o assunto era trabalho de escritório não havia pessoa mais preguiçosa e inútil do que Dino Cavallone.
"O Chefe ficou até tarde nesses últimos dois dias. Faltam poucos papéis e as reuniões que ele precisava ir foram remarcadas. O restante pode ser feito por nós."
Nós. Os passos do ex-Líder do Comitê Disciplinar vacilaram quando ele começou a descer as escadas. Por um momento ele havia esquecido aquele assunto, e seu corpo pareceu responder àquilo. A fome que ele sentiu diminuiu e até mesmo o agradável gosto da pasta de dentes de morangos parecia não surtir efeito. O gosto amargo em sua boca era terrível.
"Ele virá hoje?" A voz de Hibari soou baixa e pesada.
"Sim. Ontem eu o ajudei com a mudança e o Chefe pediu que ele viesse hoje para apresentá-lo à Família."
"Entendo." Os degraus terminaram sem que o Guardião da Nuvem percebesse. O barulho de seus caríssimos moccasins italianos ecoou pelo hall, mas pareceu ecoar muito mais alto dentro dele.
"Ele é um bom rapaz, Hibari." Romário parecia ler sua mente. Aquilo deveria ser uma característica inerente aos Braços Direitos de todo o mundo. Kusakabe também tinha aquele péssimo hábito. O italiano idiota faz o mesmo, mas isso é outro assunto... "Você vai ver."
Eu gostaria de não ver. A resposta do moreno foi apenas um breve olhar.
O Braço Direito se despediu ao chegarem à entrada da sala de jantar, e então Hibari pôde finalmente suspirar. Algumas empregadas terminavam de arrumar a mesa, e todas o receberam com um leve menear de cabeça. As últimas arrumações foram feitas em segundos, e quando se sentou em sua cadeira, do lado direito da cadeira principal, o ex-Líder do Comitê Disciplinar estava sozinho.
Havia uma grande diferença entre ter uma refeição solitária em seu templo, em Namimori, e ali, naquela gigantesca e exagerada mansão.
Os olhos negros fitaram a larga mesa. Metade de sua extensão estava coberta por uma bela toalha branca. Havia renda em suas bordas e pequeninos desenhos de pássaros que foram automaticamente aprovados por Hibari. Para o café da manhã havia leite, café, chás, sucos e vitaminas; pães, bolos, cereais e frutas. Parece que uma família inteira irá comer nesta mesa. O moreno levou uma das mãos até uma fatia de pão integral. Mas seremos somente eu e ele. Aquele pensamento o fez corar levemente ao se dar conta que, de certa forma, realmente era uma família que comeria naquela mesa.
O ex-Líder do Comitê Disciplinar passou um pouco de manteiga sobre seu pão, mas antes que aquele pequeno pedaço tocasse seus lábios, a porta da sala de jantar foi aberta.
Hibari nunca esqueceria aquele momento. Aquela lembrança ficaria marcada em sua mente para sempre. O local, o agradável cheiro da comida, o barulho da porta sendo aberta... a voz que acompanhou um estranho, mas conhecido, rosto.
"D-Desculpe." O rapaz estava visivelmente surpreso. "E-Eu não sabia que esta sala estava ocupada. E-Eu sinto muito, senhor."
O Guardião da Nuvem não percebeu que havia ficado em pé, assim como não notou que suas mãos haviam retirado o par de tonfas de dentro de seu terno. Tudo o que ele sabia é que cada milímetro de seu corpo havia reagido de maneira hostil àquele visitante. Seus olhos estavam abertos, sua expressão dura e seus ouvidos atentos a qualquer som. Um movimento. Um movimento era tudo o que ele precisaria para aparecer à frente de sua companhia e atingi-lo com um mortal golpe.
O moreno sabia. Ele soube assim que aquela pessoa entrou na sala de jantar. Eu o procurei por semanas.
"Rafaelle, o que você faz aqui?"
A voz veio do lado de fora da sala de jantar. Romário estava atrás do rapaz no instante seguinte. Seus olhos fitaram Hibari, e naquele momento o ex-Líder do Comitê Disciplinar viu um sincero e profundo pedido de desculpas. Rafaelle virou-se e se desculpou tantas vezes que Hibari parou de contar na oitava tentativa. Seus músculos relaxaram, seus olhos se fecharam e ele voltou a se sentar, guardando seus tonfas novamente. O momento havia passado e ele sabia que nunca mais teria outra chance como aquela.
"Eu realmente sinto muito, Hibari." O Braço Direito entrou sozinho na sala de jantar, fazendo uma reverência. "Ele errou a porta. Eu espero que possa perdoar. O garoto não tem culpa."
O Guardião da Nuvem ergueu os olhos, meneando a cabeça em positivo. Ele não se sentia bem ao ver alguém como Romário humilhando-se daquela maneira.
"O garoto..." A voz do moreno saiu baixa. "Traga o garoto."
"H-Hibari." O Braço Direito engoliu seco, visivelmente surpreso. Não. A palavra correta seria assustado.
"Eu não farei nada, não se preocupe." O moreno levou o pedaço de pão até os lábios.
Romário permaneceu alguns segundos no mesmo lugar até dar meia volta e caminhar até a entrada do cômodo. Daquele ângulo Hibari não conseguia ver o que acontecia, mas ele ouviu claramente as desculpas do garoto e a maneira como sua voz soou surpresa ao ouvir o convite feito através dos lábios do Braço Direito dos Cavallone. Rafaelle surgiu em seu campo de visão, mas Romário permaneceu à porta. Olhos atentos e uma expressão séria.
"B-Bom dia, senhor."
Rafaelle era exatamente como Dino havia descrito, e isso incomodou o ex-Líder do Comitê Disciplinar de uma maneira que ele não esperava. O garoto tinha estatura mediana, pele branca e grandes olhos azuis. Seus cabelos eram louros e lisos, cortados até abaixo de suas orelhas. Um belo rosto, pensou o Guardião da Nuvem ao estudar sua companhia. Rafaelle estava do outro lado da mesa, olhando-o com bochechas coradas e olhos medrosos. Mas não passa de um herbívoro. Ele mal consegue me olhar nos olhos. O moreno achou aquele detalhe simplesmente fascinante e seus lábios formaram um sádico meio sorriso.
"Sente-se."
"Perdão, senhor?" O garoto piscou sem entender o que estava acontecendo.
"Eu disse para você se sentar." Hibari mal moveu os lábios. Ele detestava ter de repetir suas palavras, mas a maneira como aquele garoto tremia à sua presença o havia deixado em um excelente humor.
Os olhos de Rafaelle foram para a porta. O Guardião da Nuvem sabia que ele pedia permissão a Romário, então, quando o garoto finalmente sentou – de maneira desajeitada e quase errando o assento – o moreno soube que havia ganhado a confiança do Braço Direito.
"Coma o que quiser. Há comida suficiente." A voz do ex-Líder do Comitê Disciplinar saiu baixa. Ele havia se servido de outro pão integral.
"E-Eu não estou com fome, senhor."
"Então não coma."
Hibari serviu-se de um pouco de chá e por alguns minutos sua atenção saiu do rapaz à sua frente para o seu próprio café da manhã. Seu estômago tornou-se manso conforme recebia comida, e, quando estava quase satisfeito, o Guardião da Nuvem soube que era hora de dedicar alguma atenção à sua companhia. Rafaelle ainda mantinha os olhos baixos, mas o moreno sabia que ele estava atento. Eu não acredito que esse herbívoro foi responsável por matar Dino. O ex-Líder do Comitê Disciplinar mexeu sua xícara de chá. Ele parece tão inútil e covarde quanto Sawada Tsunayoshi e aquele outro herbívoro da família Shimon. Como o mundo pode produzir tais pessoas? Onde está a seleção natural? Aquele pensamento fez as sobrancelhas de Hibari se juntarem. Um pensamento levou a outro e em segundos ele se perguntou como os outros Guardiões haviam sobrevivido durante todos aqueles anos. Ele era facilmente a melhor escolha da seleção natural!
"S-Senhor." A voz de Rafaelle roubou a atenção do Guardião da Nuvem. Porém, seus olhos negros não se ergueram. "E-Eu gostaria de pedir licença para me retirar. O C-Ch-Chefe não irá gostar de me ver aqui."
Ele não vai se importar, herbívoro. O moreno provou seu chá. Estava doce como ele gostava. O idiota não parou de falar sobre vocês nos últimos dias. Lembrar-se daquilo fez o ex-Líder do Comitê Disciplinar apertar o maxilar. Desde que chegou à Itália, há três dias, o único assunto que o Chefe dos Cavallone parecia ter era a mudança do rapaz para a propriedade e como ele esperava ver o tipo de treinamento que Romário teria para o futuro Braço Direito da Família. Hibari ouviu a tudo, fingindo não escutar, claro. Mentalmente ele só pensava em como seria sua reação ao encontrar o responsável pela pior experiência de sua vida. Bem, a pessoa estava diante de seus olhos e, apesar da reação inicial, naquele momento o Guardião da Nuvem mentiria se dissesse que sentia qualquer tipo de ameaça por parte de Rafaelle. Ele estava certo. O moreno fechou os olhos e deu mais um gole em sua xícara de chá. Era uma questão de segundos...
"Bom dia!"
Dino entrou na sala de jantar e foi como se o Sol surgisse por trás de grossas nuvens.
Hibari não teria erguido os olhos em uma situação normal. Ele estava acostumado à figura do louro e os dois compartilhavam uma rotina certa para o café da manhã. O italiano entraria, caminharia até ele e depositaria um gentil beijo no alto de sua cabeça, murmurando novamente um bom dia. Em seguida ele se sentaria em sua cadeira e perguntaria se o Guardião da Nuvem dormira bem na noite anterior. E, então, somente após ouvir sua resposta, o Chefe dos Cavallone começaria a se servir.
Entretanto, o moreno ergueu os olhos... e viu o exato momento em que Dino entrou na sala de jantar. Rafaelle pôs-se de pé no mesmo instante, quase puxando a toalha de mesa junto com suas mãos. Seu rosto estava tão vermelho que seria até cômico em qualquer outra ocasião. As palavras pareceram ficar presas em sua garganta, um mudo pedido de desculpas. O dono da casa deu a volta na mesa, e foi somente ao tocar a cabeça de Rafaelle, bagunçando os cabelos do garoto, que Hibari percebeu que havia algo diferente... que ele não havia ganhado o seu bom dia, ou o seu beijo... ou a atenção do italiano. Hã!?
"Hehehe vejo que você já conhece a casa, Rafaelle."
A voz e a risada do Chefe dos Cavallone ecoaram por todo o cômodo. Seu bom humor era tão visível que parecia que seu corpo emanava uma luz própria. O rapaz pareceu ainda menor ao lado do dono da casa, e daquele ângulo o Guardião da Nuvem viu muito mais do que queria ter visto. Seus olhos estavam atentos quando Rafaelle abaixou o rosto ao sentir a mão do louro em sua cabeça. Sua bochecha se tornou ainda mais vermelha, mas foi o que veio depois que fez o moreno apertar seus olhos. O garoto ergueu o rosto, desculpando-se novamente. Entretanto, havia algo ali. Algo novo. Quando pediu desculpas, Rafaelle não tinha os olhos brilhantes ou nenhuma reação exagerada. Ele trata Dino de maneira diferente, concluiu o ex-Líder do Comitê Disciplinar ao ver o garoto sentar-se pela segunda vez.
"Bom dia, Kyouya." As palavras de Dino chegaram assim que o louro sentou-se. Havia um gracioso sorriso em seus lábios, e uma parte do coração de Hibari se sentiu aquecida por receber aquela exclusiva atenção. "Eu acredito que já tenha sido apresentado a ele, Rafaelle."
"N-Não, Chefe." O garoto ergueu os olhos, mas eles não encaravam diretamente o Guardião da Nuvem.
"Oh!" O italiano pareceu achar aquilo extremamente divertido. "Bem, este é Hibari Kyouya. Ele é o Guardião da Nuvem dos Vongola."
O moreno sentiu seu coração bater mais rápido. O Chefe dos Cavallone sempre o apresentava da mesma maneira. Nunca, naqueles quase sete anos, Dino o apresentou como amante. Aquilo nunca fora conversado entre eles, mas também não havia sido necessário. Porém, pela primeira vez Hibari se sentiu incomodado. Havia outra designação para a sua pessoa, certo? E ele não trabalhava para os Vongola, então, por que precisava ser apresentado daquela forma? Os olhos do Guardião da Nuvem se apertaram, fitando Rafaelle. Seu peito tornou-se apertado, principalmente pela maneira como o louro encarava seu amante. Eu preciso colocar esse pirralho em seu lugar. Ele conhecia aquele olhar. Ele conhecia muito bem o que havia por trás daquela admiração toda. Eu preciso ter cuidado com este rapaz.
"E o outro dono desta casa... ocasionalmente."
As palavras saíram baixas, como era o tom natural de sua voz.
O italiano engasgou com seu café, e Rafaelle virou o rosto, encarando-o diretamente pela primeira vez. Os olhos azuis não pareceram surpresos, pelo contrário. O rapaz esboçou um tímido sorriso e meneou a cabeça em positivo.
"Eu já tinha conhecimento sobre isso, senhor." Rafaelle ficou em pé, fazendo uma polida reverência. "Meu nome é Rafaelle, é um prazer conhecê-lo."
O Chefe dos Cavallone ainda tossiu algumas vezes, mas, quando os olhos negros do moreno pousaram em seu amante, a coloração rosada que estampava as bochechas de Dino não era decorrente do acesso de tosse. O louro lançou um rápido olhar, e seu rosto tornou-se ainda mais vermelho, embora seus lábios ainda mantivessem o sorriso. O ex-Líder do Comitê Disciplinar serviu-se de um pequeno pedaço de pão doce, sentindo-se satisfeito consigo mesmo. Rafaelle e o italiano iniciaram uma conversa tediosa sobre trabalho e treinamento, e o Guardião da Nuvem automaticamente bloqueou o assunto, focando-se somente no agradável timbre da voz do Chefe dos Cavallone.
Dino havia feito a coisa certa, o moreno sabia. O rapaz sentado à sua frente não era um assassino a sangue frio. Hibari tinha um instinto natural para detectar esse tipo de coisa, mas tudo o que sentia quando olhava Rafaelle era certo incomodo por causa da atenção que o louro dedicava a ele. Entretanto, foi também naquele momento que o Guardião da Nuvem decidiu que observaria de perto o desenvolvimento do rapaz. Eu garantirei que ele não saia da linha. Se eventualmente esse pirralho fizer qualquer coisa eu o morderei pessoalmente até a morte. Aquele pensamento foi seguido por um meio sorriso. Aparentemente suas visitas frequentes à Itália não seriam assim tão impossíveis. Eu preciso tomar conta do que é meu.
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A partir daquele dia Rafaelle moraria na propriedade dos Cavallone. Ele teria como residência o largo sobrado em que Romário morava e, desde que permanecesse junto à Família, aquele dia também marcaria o início de seu treinamento. Tudo isso Hibari soube muito antes de conhecer Rafaelle e após vê-lo pessoalmente ele gostava ainda menos da ideia. Aquele seria o sexto dia de sua estadia em solo italiano, e quanto mais via, mais incomodado ele se sentia com o pouco tempo que seu amante lhe dedicava. Certo, o Guardião da Nuvem sabia melhor do que ninguém o que significava o termo "responsabilidade". Ele vivia com aquilo em suas costas desde pequeno, mas durante todos aqueles anos, todas as vezes que esteve na Itália, o Chefe dos Cavallone sempre encontrou tempo para ele; fosse entre as reuniões, fossem alguns minutos antes do jantar... Entretanto, o moreno não havia visto o italiano em pessoa há dois dias. A agenda de Dino estava incrivelmente apertada e o próprio idiota explicou seu problema desde o início:
"Eu não estava te esperando, Kyouya. Se eu soubesse que você viria, eu jamais teria marcado essas reuniões!"
Hibari sabia que aquilo era verdade, porém, foi impossível não se sentir levemente contrariado quando, há três dias – o único dia que o louro teve disponível –, seu amante escolheu mostrar a propriedade para o novo empregado em vez de estar fazendo qualquer outra coisa com o Guardião da Nuvem. Depois daquela tarde o italiano mergulhou em reuniões, trabalhos intermináveis de escritórios e visitas à casa de Romário. O moreno fora convidado em todos esses pequenos passeios, mas obviamente todos os convites foram declinados. Hibari apenas sentia quando o Chefe dos Cavallone entrava no quarto para dormir e quando saia, na manhã seguinte, para trabalhar. Durante o espaço entre um e outro, o Guardião da Nuvem esteve basicamente sozinho.
O relógio marcava pouco mais de 23hs. Daquele ângulo o Guardião da Nuvem conseguia ver quem saia e chegava (ou pelo menos na parte principal da extensa propriedade). As janelas do quarto do dono da casa tinham aquela incrível vantagem, e foi lá que o moreno se postou após o jantar. Ele já estava cansado de refeições solitárias, da quantidade absurda de comida apenas para uma pessoa, do silêncio mórbido e da incomoda sensação de que não pertencia totalmente àquele lugar. Os olhos negros correram o quarto, pousando na mala que havia sido feita e que estava em cima de um dos sofás. Seu voo havia sido marcado para dali três horas, e o ex-Líder do Comitê Disciplinar esperava o subordinado que o levaria até o aeroporto.
O problema é que o homem estava demorando muito. O estacionamento é ao lado da casa. Vinte minutos para pegar um carro é um absurdo. Os olhos negros se apertaram e Hibari deu um passo para trás. Não seria educado pegar “emprestado” um carro da Família, mas ele queria estar longe quando Dino chegasse. Seus olhos se abaixaram novamente, em uma vã tentativa de dar mais uma chance para o subordinado. Entretanto, assim que um largo carro negro surgiu através do jardim, vindo do portão principal, o Guardião da Nuvem soube que sua fuga silenciosa jamais aconteceria. Odeio incompetentes.
A limousine parou em frente ao chafariz e o louro deixou o carro acompanhado de Rafaelle. Se a cena por si só não tivesse feito os olhos negros se apertarem, o moreno achou simplesmente ultrajante ver o subordinado que deveria ter buscado o carro ir direto para seu Chefe, saído de lugar algum. O homem murmurou meia dúzia de palavras para o italiano, e no mesmo instante o Chefe dos Cavallone ergueu o rosto. Os olhares se encontraram e Hibari afastou-se da janela. Ele podia contar mentalmente os segundos necessários para que Dino corresse através do hall e subisse as escadas com pressa. O idiota provavelmente tropeçaria em boa parte dos degraus, então seria necessário adicionar alguns segundos a mais à conta. O Guardião da Nuvem teve tempo de caminhar até a cama e sentar-se tranquilamente até a porta do quarto ser aberta com uma pressa dispensável.
"Como assim você está indo embora, Kyouya?" O louro tinha o rosto vermelho, mas seus cabelos estavam perfeitamente arrumados. Ele estava muito bem vestido, calça social negra e uma camisa branca por baixo de um caríssimo terno feito sob medida.
"Meu voo sai em três horas." O moreno tinha a voz baixa. Ele queria ter evitado aquela conversa, mas aparentemente seria impossível.
"Você não me disse nada. Eu não sabia que você já pretendia ir." O italiano deu um passo à frente, tropeçando na ponta do fofo tapete que forrava a área ao redor da cama. Seu corpo ficou em pé no mesmo instante, mas algo na maneira como aquele homem andava fez os olhos negros do ex-Líder do Comitê Disciplinar se apertarem.
"Você está bêbado." Aquilo era uma afirmativa e não uma pergunta.
"Não, eu só bebi um pouco." O Chefe dos Cavallone juntou as sobrancelhas enquanto se aproximava. "Era uma festa, eu não poderia dizer não."
Hibari ficou em pé, seus olhos se ergueram assim que Dino ficou em frente a ele, e apesar de ter se sentido levemente negligenciado nos últimos dias o Guardião da Nuvem não estava bravo. Sua mão tocou de leve o peito de seu amante, e ele ajeitou com a ponta dos dedos o tecido da camisa.
"Eu ligo quando chegar."
"K-Kyouya..." A voz do louro soou baixa. "Você não poderia ficar um pouco mais? Talvez um ou dois dias?"
O moreno não respondeu. Seus olhos se abaixaram lentamente e, embora ele soubesse que não tinha uma justificativa real para aquela atitude, Hibari tentou pensar em uma resposta. Ele não tinha trabalho em Namimori. Sua pesquisa com as caixas estava progredindo, mas nada que exigisse sua presença. Kusakabe pode cuidar disso. Seus assuntos com os Vongola eram nulos, e estar em outro país criava a incrível vantagem de não correr o risco de ser atormentado pelos herbívoros. Porém, o ex-Líder do Comitê Disciplinar jamais poderia dizer a verdade. Ele nunca diria ao italiano que estava indo embora justamente porque não queria ficar sozinho. A solidão daquela casa não era a mesma de Namimori. Em seu templo o Guardião da Nuvem conseguia lidar muito bem com a distância. Ele havia feito isso por seis anos. Entretanto, ali, naquela mansão, a solidão doía. Sua velha amiga o machucava.
"Desculpe estar tão distante nesses dias." A voz do Chefe dos Cavallone fez os olhos negros se erguerem. "Eu tenho feito o possível para terminar o trabalho o quanto antes, mas algumas coisas ainda estão pendentes."
"Você pode tirar a manhã livre?" O moreno sentiu sua garganta arranhar. Não era de seu feitio fazer aquele tipo de pedido.
Dino tinha os olhos baixos. Seu rosto estava levemente corado, provavelmente por causa da quantidade de bebida que ele havia ingerido.
"Não, mas eu irei." O tolo sorriso que sempre pintava os lábios do louro fez o coração de Hibari pular uma batida. "Eu preciso primeiro de um banho."
As mãos que tocavam o peito do italiano desceram devagar, mas antes que pudessem se afastar o Chefe dos Cavallone segurou uma delas entre seus dedos. Seu corpo moveu-se para trás e o Guardião da Nuvem sabia muito bem para onde estava sendo guiado. Os passos não ecoaram pelo fofo tapete, mas ecoaram quando os dois amantes entraram no largo banheiro da suíte. A porta fechou-se nas costas do moreno, e, como um animal, Dino inclinou-se à frente. Ele sempre fora mais alto, porém, naquele momento aquele homem pareceu gigantesco. Os olhos negros estavam abertos e encaravam sua companhia, mas sem demonstrar nada.
"O quão bêbado você está?"
"Muito." Os lábios do louro se repuxaram em um largo sorriso e uma de suas mãos segurou o queixo do ex-Líder do Comitê Disciplinar. "Mas não se preocupe. Eu me lembrarei de tudo o que fizermos nesta noite."
"É mesmo?" A voz de Hibari transbordava ironia. Ele não estava desacostumado a ver Dino alterado por causa de álcool, e, no fundo, era deu seu conhecimento que seu amante falou a verdade quando dissera que foi inevitável não beber. Eu já estive em uma dessas festas. O Guardião da Nuvem sabia que era uma desfeita enorme para um Chefe negar bebida, ainda mais quando outro Chefe a oferecia. Todavia, não era o álcool que deixava o moreno alerta. Era a maneira como o louro agia quando estava um pouco alterado.
O italiano riu àquela provocação, mas seus olhos se mantiveram o tempo todo na pessoa à sua frente. Uma das mãos do Chefe dos Cavallone subiu pelo abdômen de Hibari e, embora estivesse vestindo uma camisa roxa por baixo do terno, ele sentiu como se os dedos de seu amante houvessem tocado diretamente sua pele. Os botões da camisa foram abertos e ela deslizou por seus ombros junto com o terno. A maneira como os olhos cor de mel brilharam fez com que o Guardião da Nuvem se sentisse levemente incomodado. Os dedos desceram pela cintura, abrindo o cinto e retirando-o sem problemas. O moreno manteve o olhar fixo em seu amante, mas quando Dino deu um passo à frente ele precisou erguer o rosto. A figura do louro criou uma estranha sombra e o ex-Líder do Comitê Disciplinar não percebeu que havia engolido seco. Os lábios se aproximaram devagar, e a cada segundo o corpo de Hibari tremia, esperando o contato direto. Porém, ao contrário do beijo que ele esperava, os lábios do italiano depositaram um casto beijo em sua bochecha.
O Guardião da Nuvem juntou as sobrancelhas, ficando levemente confuso. O Chefe dos Cavallone deu um passo para trás e sorriu, retirando seu terno e jogando-o ao chão. Os sapatos foram tirados sem esforço e a camisa foi aberta sem pressa, e o mesmo poderia ser dito sobre seu cinto e calça social. Entretanto, foi ao ver seu amante apenas com a roupa de baixo que o moreno entendeu o que estava acontecendo, ou o que aconteceria muito em breve. Seus lábios se tornaram secos e seu baixo ventre respondeu automaticamente ao ver a ereção por baixo da única peça que Dino vestia. O Ex-líder do Comitê Disciplinar não percebeu que suas mãos abriam o zíper de sua própria calça; ele apenas notou tal fato quando precisou dar um passo à frente, livrando-se da peça de roupa e de seus sapatos. O louro esticou a mão direita e sorriu, apontando displicentemente para onde estava o largo box de vidro. Hibari esticou a mão e, quando os dedos se entrelaçaram, ele sentiu pequenos choques de desejo. Os passos que os levaram até o box foram poucos, e, assim que entrou naquele espaço, o italiano arrastou a porta de vidro e abriu o registro do chuveiro. A água caiu sobre o Guardião da Nuvem, mas ele não percebeu. Seus olhos, seus sentidos e sua atenção estavam totalmente no homem à sua frente.
O Chefe dos Cavallone não precisou dar um passo à frente. Antes que aquele homem pudesse sequer cogitar se aproximar, o moreno sentiu quando suas mãos se esticaram e o puxaram pelo pescoço. O beijo aconteceu no meio do caminho, e pela primeira vez em dias Hibari sentiu novamente o que significava estar nos braços de seu amante. Os dois haviam feito amor na primeira noite que ele passou na Itália, mas o Guardião da Nuvem estava tão exausto devido à viagem que os dois não tiveram muito tempo para se divertirem. Os dias que se seguiram foram atarefados para o louro, então aquela seria basicamente a primeira vez que o moreno realmente sentia Dino em seus braços. O beijo começou quente, eufórico e necessitado. O ex-Líder do Comitê Disciplinar sentiu suas costas recostarem-se ao azulejo, mas não foi necessariamente a temperatura fria que o fez gemer baixo. Um dos joelhos do italiano pressionava sua ereção e, embora ainda estivesse usando a roupa de baixo, Hibari sentiu diretamente aquele ousado toque.
Os lábios do Chefe dos Cavallone desceram por seu pescoço, mordendo-o levemente. As mãos de Dino apalpavam seu corpo, sentindo os poucos músculos que o Guardião da Nuvem possuía. O moreno tinha os olhos fechados, experimentando cada sensação. Ele não viu, mas notou quando o louro se ajoelhou. Seus olhos então se abriram e ele abaixou o rosto. Uma de suas mãos tocou a face de seu amante, colocando os cabelos atrás da orelha. A água caia nas costas do italiano, então daquele ângulo o moreno poderia ver tudo o que aconteceria. O Chefe dos Cavallone abriu um sorriso de canto antes que sua língua subisse pelo tecido da roupa de baixo negra. Aquele gesto fez Hibari morder os lábios, tentando omitir um gemido contido. Dali o Guardião da Nuvem tinha plena visão do que Dino fazia. O contraste da língua avermelhava com o tecido negro era excitante, mas nada fazia seu corpo vibrar de prazer como a ideia de se livrar daquela incômoda peça da roupa. Ele está me provocando. O moreno não conseguiu esconder um dos gemidos. O louro passou a usar seus dedos e o duplo estímulo começou a deixá-lo necessitado de um contato direto.
O sofrimento pessoal de Hibari durou longos minutos. Seus lábios já estavam vermelhos por causa das mordidas quando o italiano finalmente desceu a roupa de baixo escura. O Guardião da Nuvem estava tão excitado que precisou cobrir a boca ao sentir o Chefe dos Cavallone tocar sua ereção diretamente com seus lábios. Seu corpo inteiro pareceu tremer com aquele simples toque, e o estímulo tornou-se duplamente mais intenso quando Dino entreabriu os lábios, permitindo que o membro do moreno entrasse por completo em sua boca. O ex-Líder do Comitê Disciplinar desistiu de omitir suas reações. Suas mãos apertaram os dois apoios dentro do box e sua voz ecoou baixa pelo largo banheiro. Os olhos negros se abriram e se apenas sentir o louro oferecendo prazer já era torturante, observar conseguia ser ainda pior. O italiano mantinha os olhos abertos, encarando seu amante de maneira provocante, enquanto seus lábios e mão faziam o serviço.
Aqueles segundos passaram como se fossem horas, e Hibari observou tudo. Seu corpo tremeu quando o orgasmo veio e infelizmente seus olhos se fecharam sem que ele tivesse controle sobre aquela ação. Ele apenas sentiu os lábios do italiano subirem por seu abdômen após alguns segundos, e, quando o gostoso som da risada de seu amante chegou aos seus ouvidos, o Guardião da Nuvem abriu os olhos.
"Vire-se, Kyouya."
As palavras não foram ditas, mas cantadas. O moreno sentiu o coração bater mais rápido ao encarar o olhar que o Chefe dos Cavallone lhe oferecia, e seu corpo virou-se obediente. Ele sabia o que viria em seguida, e cada fibra de seu ser ansiava para que acontecesse logo. Suas pernas se afastaram, coincidindo com a maneira ousada com que a mão de Dino desceu por seu quadril, tocando sua entrada sem nenhum pudor. A temperatura fria do lubrificante o fez morder os lábios, e foi acompanhada pela invasão de um dos dedos do louro. O corpo do moreno tremeu levemente e ele ficou na ponta dos pés.
"Você precisa relaxar, Kyouya." A voz veio de sua orelha direita. O ex-Líder do Comitê Disciplinar fechou os olhos. Seu corpo inteiro havia se arrepiado. O dedo que o invadia o penetrou novamente, e a outra mão do italiano segurou firme a cintura de Hibari.
Foi preciso alguns minutos para que o corpo do Guardião da Nuvem se acostumasse à invasão. Um segundo dedo havia sido adicionado ao primeiro, e ambos se moviam com certa liberdade dentro do corpo do moreno quando o Chefe dos Cavallone deu sinal de que sua paciência havia acabado. Hibari sentiu os dedos deixarem seu corpo, e sua testa automaticamente encostou-se ao azulejo frio. Ele não viu, mas pôde ouvir claramente os movimentos do homem que estava por trás. Dino retirou a roupa de baixo vermelha que usava, e o barulho do tecido molhado deslizando por suas longas pernas levou uma onda de estranho desejo pelo corpo do Guardião da Nuvem, como se mesmo de costas ele pudesse enxergar o que acontecia. Seus ouvidos captaram o tubo de lubrificante sendo aberto novamente, e ele deduziu que o louro despejava um pouco mais do conteúdo a prova d'água em sua própria ereção. Quando o italiano finalmente se aproximou, o moreno estava tão sensível e consciente do que aconteceria que seus lábios gemeram baixo. Aquilo pareceu deixar seu amante feliz, pois o Chefe dos Cavallone deixou que sua língua subisse pelo pescoço do ex-Líder do Comitê Disciplinar e seus dentes mordiscaram de leve a orelha direita. O membro de Dino deslizou com certa facilidade dentro de Hibari, fazendo-o ficar na ponta dos pés. O louro o segurou pela cintura, mordendo gentilmente o ombro pálido e murmurando algo em italiano que o Guardião da Nuvem não conseguiu identificar. A pressão em seu quadril era tamanha que o moreno pôde sentir seu próprio coração bater forte, respondendo à excitação que percorria seu ser.
O Chefe dos Cavallone retirou-se devagar, puxando o corpo do ex-Líder do Comitê Disciplinar um pouco para trás. Hibari gemeu ao sentir a segunda estocada, tentando apertar o azulejo, mas sabendo que aquela tentativa seria redundante. A terceira vez que Dino o penetrou foi proposital. O Guardião da Nuvem abaixou o rosto, sem conseguir omitir um gemido mais alto. Seu corpo o traía, seus sentidos o denunciavam e seu amante sabia exatamente onde deveria tocar. Era injusto. Era injusto que somente naqueles momentos ele não conseguisse se esconder por trás da máscara de indiferença e tédio que sempre o acompanhava.
As mãos do italiano eram grandes e fortes, e subiam e desciam pela cintura do moreno a cada penetrada. O ritmo estava mais forçoso e rápido do que de costume, mas Hibari nunca teve motivos para reclamar. Durante todos aqueles anos ele havia se perdido nos braços daquele homem de diversas maneiras. Normalmente o Chefe dos Cavallone gostava de saborear o momento, e, por ter uma personalidade calma e paciente, Dino não se importava de passar horas em preliminares até saborear o prato principal. Entretanto, houve momentos, especialmente após brigas ou longos períodos de distância, em que o louro pareceu um pouco mais forçoso ou necessitado de prazer. O Guardião da Nuvem, em particular, preferia ser possuído sem pressa e com certa gentileza. Ele não desgostava daqueles momentos, exatamente como naquele instante, em que as estocadas eram fortes e apressadas, mas ele também gostava de ser saboreado devagar, beijado sem pressa, tocado com erotismo e possuído com luxúria; assim poderia sentir seu amante por completo.
Sexo o moreno sabia que poderia ter com qualquer pessoa. O que ele e o italiano possuíam era algo mais. Era aquilo que o fazia ter certeza de que em sua vida só existiu e só existiria o Chefe dos Cavallone. Aquele corpo jamais conheceu ou conheceria o toque de outra pessoa. Nenhum outro homem veria suas formas e ele não daria um filho a nenhuma mulher. A mão que acariciava suas costas, a respiração alta e completamente descompassada em seu ouvido, a voz rouca e que murmurava seu nome a cada estocada... tudo era daquela pessoa. Tudo vinha daquele homem.
Hibari não chegava ao clímax tão rápido desde sua adolescência. Quando eles começaram a dormir juntos, Dino não precisava fazer muito para que seu orgasmo chegasse. O tempo o deixou mais experiente, mas quando suas pernas quase vacilaram e seus lábios ecoaram um satisfeito gemido de prazer, o Guardião da Nuvem se sentiu novamente com 15 anos, na sala do Comitê Disciplinar, no dia em que o louro o possuiu sobre sua sagrada mesa. Ele se lembrava daquele dia, e como esquecer? O barulho do ato em si, a maneira como sua nuca inclinou-se além da madeira da mesa, os gemidos de pura satisfação que teimavam em deixar seus lábios, embora o moreno tentasse omiti-los. Aquele dia ficaria marcado na memória do ex-Líder do Comitê Disciplinar por ter sido a primeira vez que ele “pediu”. Hibari pediu para que Dino fosse mais rápido, para que aquele homem o penetrasse, para ser completamente e totalmente possuído.
As mãos de seu amante estavam firmes em sua cintura, impedindo-o de cair ao chão e afastando aquelas doces lembranças. O moreno sentiu quando seu corpo foi pressionado contra o azulejo e as estocadas do italiano se tornaram ainda mais fortes. O corpo inteiro do ex-Líder do Comitê Disciplinar ainda sentia os efeitos do orgasmo, mas era difícil raciocinar quando havia algo intenso devorando-o com fome e pressa. A maneira como o membro do Chefe dos Cavallone deslizava dentro dele, o contato do peito e abdômen às suas costas, os gemidos, as palavras desconexas em italiano... aquilo só servia para atiçar sua libido e lembrá-lo de que aquilo era somente o começo; que seu amante jamais estaria satisfeito com somente aquele simples banho.
O clímax de Dino veio após alguns minutos, fazendo-o apertar as mãos que estavam em sua cintura, em uma tentativa inútil de manter-se em pé. Os braços do louro o apertaram devagar, e após algum tempo Hibari virou-se. O que o recebeu foi um longo e intenso beijo. A língua do italiano pediu passagem logo de início, e o Guardião da Nuvem segurou o rosto de seu amante, sentindo-se levemente trêmulo.
"Vamos para o quarto." A voz do homem à sua frente soou rouca e transbordando desejo. “Eu quero você de novo, mas em cima de uma cama.”
"O banho..." Foi a única coisa que o moreno conseguiu dizer. Sua mente estava branca.
"Nós podemos tomar outro depois."
O Chefe dos Cavallone respondeu com um sorriso tão adorável que seria muito difícil negar qualquer coisa àquela pessoa. Os beijos se iniciaram quando ambos deixaram o box e continuaram durante toda a caminhada até o quarto; Hibari só se separou daqueles lábios ao sentir o macio colchão em suas costas. O quarto estava menos claro do que o banheiro, mas ele já estava acostumado a fazer amor em lugares iluminados. Na verdade, ele até gostava de poder ver, ainda mais quando a pessoa em questão era Dino. Ele disse que eu sou bonito e charmoso. A mão direita do Guardião da Nuvem tocou a face do homem que estava por cima, vendo-o sorrir. O louro virou o rosto, beijando a palma da mão e lambendo-a em seguida. Ele não faz ideia do poder que tem. Eu não sou nada perto dele. O moreno abaixou os olhos, dando uma boa olhada no peitoral, abdômen definido e a nova ereção de seu amante... tudo era perfeito naquele homem, e mesmo assim o italiano teve coragem de dizer que se sentia inseguro, que temia ser deixado para trás.
"Eu não vou a lugar algum." Os lábios de Hibari se moveram sem que ele tivesse conhecimento. As costas de sua mão acariciavam o rosto do Chefe dos Cavallone. "Eu não vou deixá-lo para trás. Eu não tenho interesse em outro ser humano. Se você me deixar eu passarei o resto da vida sozinho."
"Isso seria um desperdício, Kyouya." Não havia sinal de que Dino continuava sobre o efeito de álcool. Os olhos cor de mel voltaram a ter o doce brilho de sempre. "Existem pessoas muito mais interessantes do que eu."
Não, não existem. O Guardião da Nuvem fez negativo com a cabeça, deixando que a ponta de seus dedos corresse através dos macios fios louros dos cabelos de seu amante.
"Eu ficarei aqui até você terminar seu trabalho. Então seguiremos para Namimori. Você pode ficar no templo... por um tempo, mas sem seus empregados."
Os olhos cor de mel brilharam com aquele prospecto e a resposta do Chefe dos Cavallone foi um doce e gentil beijo. Os braços do moreno entrelaçaram o pescoço do homem que estava por cima, mostrando que ele queria muito mais contato físico. O beijo durou longos minutos e, quando o ar começou a lhe faltar, o ex-Líder do Comitê Disciplinar empurrou levemente o peito de seu amante, virando-se e ficando por cima. Uma das sobrancelhas louras se ergueu de maneira travessa e os lábios de Dino formaram um meio sorriso. Hibari sentia o coração bater rápido, deixando que suas mãos corressem pelo peitoral de Dino. Ele é perfeito. Tirando a personalidade pegajosa, a falta de direção e equilíbrio... O quadril do Guardião da Nuvem ergueu-se devagar e ele utilizou uma das mãos para guiar a ereção do louro até sua entrada. O membro entrou devagar, fazendo o moreno gemer baixo quando estava completamente preenchido. O italiano o segurou firme pela cintura e, embora seu peito subisse e descesse, resultado do nível de excitação que ele sentia, a expressão no rosto do Chefe dos Cavallone demonstrava que ele esperaria o tempo que fosse necessário para que seu amante começasse a se mover. Hibari permaneceu naquela posição pelo tempo que conseguiu. Quando seu quadril finalmente se moveu, ele disse adeus às horas de solidão.
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Ele soube que havia amanhecido quando seus olhos se abriram e viram a chuva bater no vidro da janela do quarto.
Hibari automaticamente escondeu o rosto dentro do fino cobertor, como se isso fosse suficiente. Bem, de certa forma havia sido, mas no mesmo instante ele soube que não conseguiria mais voltar a dormir. O Guardião da Nuvem era uma pessoa de sono leve. Quando seus olhos se abriam dificilmente ele voltaria a dormir. Frio. Está frio.
"Você está com frio, Kyouya?" A voz veio do seu lado, mais especificamente de suas costas. O moreno virou-se na cama, encarando seu amante sentado ao seu lado. Dino não parecia descomposto e sonolento como ele. O louro estava vestido, arrumado e usava seus óculos de leitura. Havia um laptop em seu colo e um gentil sorriso em seus lábios. "Volte a dormir, eu vou pegar um cobertor mais grosso."
"Não, eu já estou acordado."
O ex-Líder do Comitê Disciplinar sentou-se na cama, encarando as gotículas que se formavam na janela. Seus olhos se abaixaram e ele percebeu que estava completamente nu. Aquela sensação o fez suspirar, mas não seria capaz de mantê-lo na cama. Hibari ficou em pé e deu a volta na cama, tendo plena consciência do estranho olhar que recebia do italiano. Ao passar para o outro lado, o Guardião da Nuvem lançou uma rápida olhada à sua companhia, sorrindo intimamente ao ver o Chefe dos Cavallone ajeitar os óculos, tentando esconder o rosto corado. O olhar faminto, porém, o seguiu até que a porta do banheiro fosse fechada.
O tão esperado e necessitado banho do moreno lhe roubou meia-hora daquela manhã. Hibari sentiu quando a porta do banheiro foi aberta em determinado momento, mas ele sabia o motivo para aquela rápida visita. Sua troca de roupas estava fielmente colocada sobre a pia, e ele se trocou após escovar os dentes. A cama havia sido arrumada, as cortinas abertas, e Dino estava sentado do outro lado do cômodo. Seu amante ficou em pé ao vê-lo, mas o moreno fez sinal para que ele voltasse a se sentar.
"Eu estarei esperando na sala de jantar."
"E-Eu desço com você, Kyouya." O laptop aberto, os papéis, os livros... Ele está ocupado. "Eu só preciso terminar de revisar esse relatório. Cinco minutos, prometo."
"Estarei esperando."
O corredor estava frio e aquilo era raro para o verão italiano. Porém, o conjunto de moletom que o louro havia escolhido o protegeu até que ele descesse as escadas e entrasse na sala de jantar. Romário conversava com um dos subordinados quando ele entrou, e mentalmente o moreno agradeceu pelo empregado não ser Rafaelle. O Braço Direito dispensou sua companhia, aproximando-se de Hibari com um sorriso.
"Vejo que decidiu ficar."
O Guardião da Nuvem respondeu com um menear de cabeça, sentando-se em seu lugar costumeiro.
"O quão ocupado ele está?"
"Pouco." Romário ajeitou os óculos. "O Chefe correu com o trabalho nesses dias, então pouca coisa ficou pendente. O relatório é a última parte e, embora eu tenha dito que não precisava ser feito hoje, ele insistiu. O Chefe disse que quer ir para Namimori amanhã cedo, e que não pretende voltar até o começo do outono, então eu deixei que ele cuidasse do relatório."
Ouvir que estaria voltando para Namimori fez o coração do moreno se alegrar um pouco mais. Seus olhos negros fitaram o Braço Direito, sabendo que havia mais alguma coisa. Romário não era um homem de meias palavras. Se ele ainda estava ali era porque havia mais alguma coisa que precisava ser dita.
"Eu nunca tive a oportunidade de agradecê-lo." O Braço Direito coçou a nuca. "Obrigado por ter cuidado do Chefe por todos esses anos, Hibari." Romário fez uma polida reverência.
"Eu não fiz nada." O Guardião da Nuvem foi sincero.
"Permita-me não concordar com essa afirmativa." Romário sorriu de canto. "Eu sei que muitos vão dizer que você é o ponto fraco do Chefe, mas eu discordo. Eu venho cuidando de Dino desde que ele nasceu, então eu posso dizer isso com convicção: o Chefe seria uma pessoa diferente se não tivesse recebido o convite de Reborn para ir ao Japão. E eu tenho conhecimento sobre o que aconteceu no futuro, e sei que você também cuidará do Chefe daqui a dez anos."
O moreno sentiu a garganta se tornar seca, mas sua expressão continuou branca.
"Por favor, continue cuidando do Chefe."
"Não é como se eu tivesse escolha." Hibari deu de ombros.
"De qualquer forma, obrigado. Obrigado de verdade, Hibari Kyouya."
O sorriso que Romário lhe ofereceu fez o Guardião da Nuvem sentir-se levemente feliz. O fim da rápida conversa aconteceu com a entrada do assunto principal. Dino cumprimentou seu Braço Direito com um animado bom dia, dando a volta na mesa e depositando um gentil beijo no alto da cabeça do moreno.
"Amanhã poderemos ir para Namimori, Kyouya, não é ótimo?"
Hibari fingiu ignorância, concordando com a cabeça. Romário saiu da sala de jantar sorrateiramente, mas a impressão que aquelas palavras deixaram no peito do Guardião da Nuvem não foi esquecida. O moreno mantinha o olhar em seu amante, ouvindo sobre os planos que aquela pessoa tinha para as férias que passaria no Japão. No fundo o ex-Líder do Comitê Disciplinar sabia que metade daquilo tudo não seria feito, pois ambos passariam basicamente boa parte do tempo sobre o futon de seu quarto. Entretanto, Hibari nada disse. Ele adorava ouvir o som da voz de Dino, o sotaque tão adorável e evidente, mas principalmente a maneira como aquele homem o incluía em todos os planos, como se fosse natural não pensar somente nele e para ele.
O Guardião da Nuvem não notou que sua mão tocou o rosto do louro, percebendo apenas quando seu amante parou de falar. Uma das mãos do italiano segurou a do moreno, depositando um casto beijo na pele pálida. Havia um tolo meio sorriso nos lábios do Chefe dos Cavallone e, embora não tivesse dito uma única palavra, Hibari sentia como se eles estivessem conversando através daquele silencioso olhar, e aquilo só o deixou ainda mais certo de que não poderia haver outra pessoa no mundo capaz de fazê-lo sentir o que ele sentia. Não havia espaço em seu coração para qualquer outra pessoa além de Dino Cavallone. Aquele homem sempre seria mais do que suficiente.
Continua...
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