Notas iniciais
Mais um pessoal :D
A ação começa aqui hauhauha :)
Agradeço quem já está lendo/acompanhando/comentando, vocês são umas lindas ♥ (só tem mulheres até agora kkkk)

Após o almoço somos levados até o arsenal. As grandes portas também são movidas por voz. O salão de armas é enorme, fazendo com que eu me sinta extremamente pequena, como uma formiga, ou quem sabe um átomo, um elétron ou um quark.

Aqui tudo é dividido em alas. Nossos mestres nos explicam que à esquerda estão as armas de combate a curta distância, à direita as de longa, e no final da sala aquelas que servem para os dois tipos. No centro, um soldado mexe no balcão digital à sua volta.

– Soldado Yang – os mestres o cumprimentam.

Yang levanta a cabeça e rapidamente noto seus traços orientais. Mais especificamente do Japão. Os olhos repuxados nos cantos, a pele amarelada e o cabelo negro e liso escorrido. Diferente dos outros, ele tem um sorriso amigável no rosto e os ombros relaxados, o que eu jamais esperaria de um japonês. Não por algum tipo de preconceito, mas somos acostumados a vê-los como pessoas focadas no que fazem e preocupadas com seus respectivos trabalhos.

– As novas crianças, claro.

Ele se apresenta a cada um de nós e examina nossas fichas eletrônicas que estão sendo mostradas na mesa. Observa-nos um pouco e seus olhos se pousam sobre mim. Encaro-o firmemente, irritada com essa mania de ficarem achando que sou a encrenqueira, que é o que provavelmente ele está pensando.

– Ana, você pode ir mexer com os arcos. Gabriel, você vai começar com as maças. Leonardo, para as armas de fogo. Paul, espadas. E Sofia... – Ele me observa por um momento. – Na verdade, não sei o que fazer com você.

Reviro os olhos, sentindo-me mais confortável perto de um soldado que não parece um robô.

– Sofia, armas de fogo – digo, dirigindo-me para o mesmo lugar para onde Leo acabara de ir.

Assim que adquiro uma visão das armas de fogo, sinto minhas mãos formigarem e uma excitação envolve meu corpo. Antes que perceba, estou sorrindo, e pego uma arma pequena que está mais próxima. Finjo mirar em um ponto qualquer e coloco o dedo no gatilho.

– Tomaria cuidado com isso daí, se fosse você. – Ouço a voz de Idioot.

Resmungo e abaixo a arma, virando-me para ele. Cruzo os braços e espero pelo que ele vai dizer. O soldado tira a arma delicadamente de minha mão, gira em torno de mim, observando-me e então olha para a parede de armas.

Escolhe uma delas e me entrega.

– Isso é uma pistola. Essa especificamente é uma Glock 23.

Assinto e passo a mão pela arma negra. De alguma forma, sinto uma conexão com ela. Meu sorriso volta a invadir meu rosto.

– Vou poder atirar com ela?

Ele faz um gesto para que o siga e passa por uma porta na lateral da ala que eu não havia notado. Assim que a atravesso, fico surpresa mais uma vez. O espaço se abre para um segundo salão, constituído de várias salas com alvos e bonecos. Em uma parede, Idioot pega protetores auriculares e me entrega, depois me leva para uma das salas de vidro.

O soldado se posta atrás de mim e ajusta minhas mãos na arma, explicando-me como atirar e o que esperar. A arma tem um formato confortável, minha mão pequena encaixando-se nela. Então coloco os protetores e fecho um dos olhos, mirando. Percebo a adrenalina dominar meu corpo. Não quero matar pessoas, mas sempre quis saber como é usar uma arma.

Aperto o gatilho e sinto a arma disparar, uma ligeira pressão fazendo com que minha mão se desestabilize e se mova, acabando com minha mira. Resmungo e tento mais uma vez, e outra, e então outra. Permaneço atirando até que acabe a munição, revoltada por conseguir acertar o boneco apenas uma vez, e ainda por cima no dedinho da mão direita.

– Considere uma proeza, de todos os lugares que você poderia acertar... – Idioot diz e se cala quando lhe lanço um olhar furioso.

Passamos o resto da tarde treinando com a Glock e me sinto satisfeita quando saio de lá tendo acertado a orelha esquerda do boneco. Sou perfeita para acertar lugares peculiares.

Meus braços doem por terem ficado levantados por horas e minhas mãos também, já que apertei a arma com cada vez mais raiva depois de certo momento.

De volta ao meu dormitório, encaro o teto branco. Acho estranho que eu tenha mais medo de dormir em um quarto vazio do que em um onde eu pudesse imaginar coisas esquisitas ou pessoas escondidas. Ouço um barulho do lado de fora. Fecho os olhos rapidamente, fingindo estar dormindo, mas tenho certeza que são vozes cochichando.

Depois de alguns minutos, a porta se abre e ouço passos leves sobre o piso. Resolvo espiar, já que está escuro, e me sobressalto ao notar quatro silhuetas e oito pares de olhos temerosos me observando.

– O que vocês estão fazendo aqui? – sussurro, incrédula. – E como conseguiram entrar?

Noto que Gabriel carrega um netbook aberto e não tira os olhos da tela. A porta se move aparentemente sozinha e as luzes se acendem. Finalmente o garoto levanta o olhar para mim.

– Sempre soube que eu teria a chance de invadir um sistema do governo.

– Você invadiu o sistema? – pergunto, boquiaberta.

– Não tenho culpa que me deixaram com esse brinquedinho – o garoto responde dando de ombros.

Os quatro se aproximam e sentam na cama. Nós todos nos olhamos, uma espécie de entendimento acontece ali. Estremeço quando o braço de Paul roça no meu. Por um instante, me pego imaginando se apenas nós dois estivéssemos ali. Mas logo descarto o pensamento egoísta.

– Então, como vamos fugir?

– Primeiro, precisamos de um plano – Leonardo diz como se falasse do tempo.

– E pra isso precisamos conhecer o lugar. Só sabemos onde fica o refeitório, a sala de Malice e o arsenal, não estamos preparados – Paul diz com os olhos alertas fixados na porta.

– Aqui tem um mapa do prédio – Gabriel diz virando o netbook para nós –, mas não sabemos qual o sistema de segurança ou se encontraremos soldados.

– Deveríamos nos dividir. Cada um escolhe um local. Eles não sabem que invadimos o sistema ou já estariam aqui, então não desconfiarão de nada se não nos encontrarmos durante o dia. – Ouço a voz de Ana pela primeira vez. – Além disso, o trabalho será mais rápido e poderão acreditar que todos estamos dispostos a levar toda essa história a sério.

Depois de um tempo, decidimos para qual lugar cada um irá, seguindo uma ordem que nos levaria em linha reta até a saída. Paul ficará com a sala de luta corpo a corpo. Gabriel com a de sistemas digitais, é claro. Ana ficou com a biblioteca. Leonardo com a sala intitulada Geografia e Estratégia. E eu com a Sala de Simulação.

– O que estamos esperando? Vamos dormir – digo e todos os olhares se voltam para mim. – Temos que estar descansados para o tour que faremos amanhã. Afinal, quem aqui não está animado para saber mais sobre nosso maravilhoso local de trabalho?


No dia seguinte, acordo com Idioot ao meu lado mais uma vez. Pergunto-me se ele faz isso porque tem inveja do meu sono tranquilo, porque não é possível que ele tenha esse privilégio.

– O que faremos hoje? – pergunto casualmente enquanto caminhamos até o refeitório.

– Vamos continuar com as armas de fogo.

– Com o boneco? Não há nada mais emocionante? – digo revirando os olhos. – Eu teria uma empolgação melhor se colocassem alguém no lugar, talvez você?

O soldado me encara por um momento e estreita os olhos. Depois abre um sorriso gélido e assente.

– Temos um ótimo lugar para você treinar, se o seu problema é incentivo.

– Que lugar?

– A Sala de Simulação.

Obrigo-me a permanecer com os pés no chão, mas desvio meus olhos dos dele com medo que estejam brilhando o suficiente para que o soldado perceba minha felicidade. Respiro fundo, torcendo para que ele atribua isso ao nervosismo por uma coisa desconhecida.

– O que ela simula exatamente?

– Ela testa seu sangue frio. Você verá uma projeção tão real que sua mente irá lhe trair, e acreditará que realmente está prestes a matar alguém. Mas isso só costuma ser problema para os soldados descartáveis.

Engulo em seco. Tenho certeza que isso foi uma ameaça ou, no mínimo, um aviso. Relaxo um pouco quando vejo os outros quatro sentados na mesa comendo, um pouco rápido demais, os próprios cafés da manhã. Todos me cumprimentam e começam a sair com seus mestres até que sobre apenas eu na mesa, comendo vagarosamente.

Idioot me leva pelos corredores até chegar a uma grande porta com um sistema de identificação ao lado. O painel faz a leitura de suas córneas e então permite a passagem. Rapidamente percebo que precisaremos passar por aquela porta, que fica exatamente no corredor de nossa rota de fuga.

A sala de simulação consiste em um grande espaço, aparentemente vazio, onde eu estou, e uma sala de comandos para onde Idioot se encaminha. Ele volta com um casaco negro e uma espécie de fones de ouvido, que quando colocados no ouvido parecem se adequar ao formato e se infiltrar em meu cérebro.

Quando ele fala, a voz dele parece vir de dentro da minha cabeça.

– Prepare-se. A simulação começará em três, dois...

A sala escurece de uma hora para a outra. Pisco os olhos tentando me acostumar. Tateio à minha volta até ouvir o som de algo arrastando no piso: Idioot jogou a Glock 23 para mim.

Agarro-me a ela e sinto um calafrio percorrer meu corpo. De repente, luzes de postes se acendem e noto que estou em uma rua muito conhecida, aquela pela qual passava todos os dias. Minha casa está ali, a alguns metros de mim.

Meus cabelos se movem com uma brisa gelada e sinto o cheiro de comida sendo preparada, além de vozes vindas das casas próximas a mim.

Começo a correr em direção a minha casa, agarrando-me à esperança de que aquilo é real, que eu estava sonhando, e que meu pai está me esperando. Antes que chegue até lá, porém, os vidros das janelas explodem e noto que pega fogo. Em algum lugar, ouço o grito de meu pai.

Poderia enlouquecer. Poderia me jogar nas chamas. Mas sinto a Glock na minha mão, que é o suficiente para que eu entenda que ainda estou na Sala de Simulação.

Um vulto se move e para diante da casa. Uma menina de cabelos castanhos e lisos com franjinha, brilhantes olhos cor de mel e um sorriso infantil me observa com curiosidade. Ela é tão real, que eu acredito que preciso tirá-la dali antes que o fogo a consuma também.

Sua mão pequenina se move até a parte da frente de seu corpo com um fósforo. Ela o risca, criando uma pequena chama e me observa, rindo, provavelmente da “mágica”.

– Ela é o alvo. E você precisa mata-la – Idioot diz em minha cabeça.

Estou ciente da arma em minha mão, do casaco sobre meus ombros, dos fones em meus ouvidos. Mas não consigo tirar os olhos da menina. Eu jamais poderia matar alguém tão nova, alguém tão inocente.

Mas isso só costuma ser problema para os soldados descartáveis. As palavras ecoam em minha mente.

– É só uma simulação, Sofia. Não está acertando uma criança de verdade – digo para mim mesma antes de colocar o dedo no gatilho.

Miro em sua testa, sabendo que seria a escolha que eu tomaria na realidade, uma morte rápida. Os olhos da menininha se arregalam ligeiramente.

Dessa vez, sei que não vou errar.

E não erro.

A simulação se dissolve e luzes fortes se acendem. Pisco os olhos várias vezes, aturdida, até fixa-los em Idioot. Um estranho sorriso distorcido envolve seu rosto.

Quando olho para o chão à minha frente, vejo o corpo imóvel de uma criancinha com uma bala cravada na testa, o sangue tingindo a sala antes imaculada.

Hoje, eu tirei a vida de uma criança inocente.

Notas finais
Entãaaao, o que acharam da primeira morte?
Achei muito triste assassinar uma criancinha, mas foi meio necessário :(
Beijoss