Venam - Nascidos para morrer
5 Fuga
Notas iniciais
De agora em diante acho que não vou conseguir postar um por dia como gosto, meus professores resolveram começar a dar trabalhos no mesmo período, uns lindos eles kkkkkk
Enfim, espero que gostem ^^
Devo estar trancada em meu dormitório há horas. Sinto-me sufocada pela falta de janelas, mas não me importo. Envolvo minhas pernas com os braços e enfio a cabeça entre os joelhos, tentando fazer a imagem desaparecer de minha mente.
Pergunto-me o que é mais fácil. Tentar não pensar na garotinha ou me acostumar com a lembrança. Respiro fundo. Fecho os olhos e lembro-me da cena como se passasse em câmera lenta.
Os olhos cor de mel se arregalando, o corpo recebendo o impacto e sendo jogado para trás. O sangue manchando a sala. A boca da menininha aberta e flácida, os olhos vidrados e com a expressão de medo marcada em seu rosto.
– Sofia? – A voz de Leo me desperta.
Abro os olhos, percebendo só agora que eu estava chorando. O garoto cruza o espaço entre nós rapidamente e me abraça, permitindo que eu apoie a cabeça em seu peito.
– O que foi que houve, meu anjo? – pergunta delicadamente.
– Eu matei, Leo. – Percebo o corpo dele ficar tenso. – Matei uma criança.
– Shhh. – Ele acaricia minhas costas. – Consegue me explicar o que aconteceu?
Conto para ele como Idioot me enganou, fazendo-me acreditar que não passava de uma simulação. Termino a história ainda chorando, mas carregada de ódio pelo soldado, um sentimento de raiva tão grande que jamais achei que poderia sentir.
– Isso explica uma coisa.
– O que? – pergunto, subitamente alerta.
– Me falaram pra te trazer isso e liberaram minha entrada no quarto. – Ele estende uma carta. – Disseram que era sua primeira premiação.
Abro a carta com as mãos tremendo. O que estará escrito? Seria uma sentença de morte? Uma intimação que me levaria a uma punição severa?
Observo a letra cursiva e sofisticada à minha frente prendendo a respiração. Leo aperta meu ombro de leve, incentivando-me. Começo a ler em voz alta, para que ele possa ouvir, e também torcendo para que espante qualquer medo que eu venha a sentir.
Srta. Kalt Schmerzen,
É com prazer que venho informar-lhe, através desta, que receberá sua primeira premiação por sua excepcional conduta na Sala de Simulação.
Seu mestre lhe dará maiores informações amanhã, após sua refeição da manhã.
Minhas congratulações,
Malice Tough
Pisco os olhos, pensando se minha mente está me pregando uma peça, se eu entendi direito. Leio mais uma vez, e então outra.
– Leo, acho que meu cérebro enlouqueceu de vez.
Ele solta uma risadinha, seu corpo relaxado agora.
– Na verdade, acho que você é a mais nova pupila da velha.
Acabo sorrindo também, distraída com a situação.
– O que acha que pode ser o tal prêmio?
– Não sei, mas logo vamos descobrir.
Assinto e respiro fundo pela milésima vez. Olho para Leo.
– Que horas são?
– Por volta das dez da noite. Passou o dia aqui, não foi? – ele pergunta fazendo carinho em meus cabelos.
– Sim – murmuro. – A propósito, avise para Gabriel que no meio do corredor da nossa rota existe uma porta com leitor de córnea.
O garoto acena afirmativamente com a cabeça e me observa por um tempo, depois suspira.
– Acho que temos que dormir.
Aconchego-me na cama e Leo me cobre, depositando um beijo em minha testa. Dou um sorriso mínimo e fecho os olhos. Assim que suas mãos deixam o contato com minha pele, porém, um frio me domina e encolho-me. Então a imagem da criança volta à tona em minha mente, não tenho certeza se estou acordada ou sonhando.
Abro os olhos novamente, arfando, e percebo que Leo nem chegou a sair, mas voltou assim que percebeu minha crise, tomando-me em seus braços novamente.
O choro volta sem que eu perceba e os soluços fazem meu corpo tremer. Ele joga as pernas para cima de cama e deita, colocando-me sobre seu peito e permanece quieto enquanto acaricia meus cabelos e espera meu desespero passar.
Tenho medo de ter que matar outras pessoas e todas as vezes passar por algo assim, tendo medo de ter imagens me assombrando todos os dias a todo momento, tenho medo...
– Leo, fique aqui comigo, por favor – sussurro.
O garoto não responde, mas como não se move, percebo que não me deixará.
Quando acordo, Leo não está mais ali, mas entendo que ele não poderia ser pego, mesmo assim me sinto reconfortada. Lembro-me de ter acordado algumas vezes no meio da noite por causa de pesadelos e dele sempre falando comigo e me acalmando até que eu voltasse a dormir.
Percebo que eu não conhecia esse lado do Leo. Ele se tornara meu amigo, mas era sempre hilário e nunca o vi falar sério com ninguém, muito menos consolar alguém.
Enquanto levanto, pergunto-me porque Idioot não está ali dessa vez. Talvez soubesse que não teria sono tranquilo para invejar. Xingo-o mentalmente, o ódio voltando a me inundar, e decido que falaria primeiro com Malice antes de encontra-lo no refeitório.
Caminho pelos corredores, e em algum momento me questiono se vamos usar as mesmas roupas até terminarmos o treinamento. Ou melhor, se eles desejavam isso, já que não ficaremos aqui para descobrir. Minha roupa está suja e amassada por dormir e treinar com ela.
Quando chego à sala de Malice, ela levanta os olhos frios e percebo que já me esperava, pois Idioot está com ela. Minha garganta se fecha.
– Senhora Tough – cumprimento.
– Sim, querida.
Minha cabeça pende levemente para o lado de forma interrogativa. Querida?
– Gostaria de fazer uma denúncia sobre meu mestre, o soldado Idioot.
Assim que termino de falar, me arrependo. O soldado me olha com um sorriso nos lábios e me pergunto qual a desculpa usada por ele para se safar. Malice acreditaria em mim?
– Deseja denunciá-lo... Mas não foi você quem cometeu o homicídio da criança? – Ela ergue uma sobrancelha.
Engulo em seco.
– Sim, mas ele me enganou. Disse que era apenas uma simulação.
– E você tomou a decisão certa – a mulher diz com aprovação. – Não importa quem esteja em seu caminho, não importa quem seja seu alvo, o importante é saber cumprir ordens e completar suas missões. Estou orgulhosa, Sofia. Você teve o melhor desempenho que já vi desde que tudo começou.
Fito a mulher à minha frente sem entender.
– Você me diz que o governo não se importa que crianças sejam mortas?
– Eu te digo que o governo faz o que for preciso para o bem de toda uma nação.
Estremeço diante do olhar gelado da mulher. Cambaleio para trás até conseguir firmar minhas pernas e então viro de costas, prestes a sair da sala.
– Não vai receber seu prêmio? – Idioot fala finalmente.
Eu deveria continuar e sair dali, mas a curiosidade é grande demais pra isso. Viro-me novamente, ficando de frente para o soldado. Ele tira algo de dentro do casaco e quase me jogo atrás de um móvel para me proteger quando levanta uma Glock 23.
Mas ele não atira, na verdade, lança ela no ar em direção a mim. Pego-a, sentindo a familiar sensação de meus dedos aconchegados. Então levanto os olhos novamente.
– Ela é sua agora – Idioot diz. – Faça bom uso.
Saio dali aturdida, acariciando a arma com reverência. Embora ela carregue a lembrança da morte da garota, foi com ela que dei meu primeiro tiro. No corredor, levanto à minha frente e finjo que vou atirar, fechando um olho e mirando em um ponto qualquer.
Até Leo surgir do nada e seus olhos se arregalarem, a arma apontada para sua cabeça. Dou uma risada e não me movo, o dedo no gatilho.
– Mãos para o alto, novinho.
Leo cai na gargalhada e se aproxima de mim balançando a cabeça.
– Você podia ter dito algo muito melhor que isso, sabe.
Reviro os olhos e mostro-lhe a arma.
– É a Glock 23 que usei no treinamento.
Ele assente e percebo que reconhece a arma da história do meu homicídio, mas parece guardar o pensamento para si.
– Esse foi o prêmio?
– Sim – digo, talvez mais animada do que deveria. – Achei o máximo... Quero dizer, podemos usar quando fizermos a rota.
Leo subitamente levanta os olhos, como se lembrasse de alguma coisa. Olha para os lados e então se aproxima de mim, a boca em meu ouvido causando-me arrepios.
– Gabriel está pronto. Está decidido. Será hoje.
Estamos no quarto de Leo nos preparando. Os outros conseguiram coisas e estou nervosa demais para perguntar como. Paul ajusta óculos de visão noturna nos olhos, Ana carrega clorofórmio consigo, Gabriel não desgruda do netbook enquanto repete mais uma vez o que vamos fazer e Leo e eu carregamos armas com silenciadores.
Saímos silenciosamente. O corredor está vazio. Eu e Ana ficamos cada uma em um lado de Paul na frente, Gabriel vem logo atrás com o computador e atrás dele Leo, protegendo nossa retaguarda.
Ao primeiro som que ouvimos, paramos subitamente. Nossa respiração parece ser ouvida em todo o prédio. Olho para Paul, o fugitivo mais relaxado ali, e ele assente, fazendo menção para continuarmos.
Seguimos pelo corredor e quando estamos quase no alto da escada, percebemos um movimento à nossa frente. Minha visão já se acostumou um pouco, então consigo distinguir as coisas mais ou menos. Percebo que Paul faz um movimento ao meu lado e pelo canto do olho vejo ele dando um impulso em Ana, que em um movimento rápido coloca um pano sobre o rosto do soldado, que cai desmaiado.
Descemos a escada em silêncio, a respiração baixa, os passos abafados. Chegamos até uma porta e Gabriel passa na frente e digita coisas freneticamente no netbook. Vejo o símbolo de dois punhos fechados e cruzados enquanto o garoto digita algo em uma caixa de texto.
A porta desliza e daqui podemos ver a porta da saída. Nossa saída. Sorrimos e somos tomados por uma agitação ainda maior. Começamos a caminhar, nos segurando para não correr até lá, quando uma movimentação mostra que um soldado está diante de nós.
– Ele está armado, com o dedo no gatilho – Fico completamente ciente do rosto de Paul colado no meu enquanto ele sussurra, me causando arrepios. – É a sua deixa.
Assinto e levanto a arma. Não sei bem onde mirar, já que não enxergo nada. Vejo mais ou menos a curva de seus ombros, então miro onde imagino ser o coração.
Assim que puxo o gatilho, porém, me assusto ao ouvir o som alto de um tiro. Minha arma não estava com um silenciador? Vejo o soldado cair à minha frente enquanto ouço exclamações ao meu lado.
Viro-me, irritada por não enxergar nada.
– Ana? – A voz de Paul soa alarmada.
– O que foi que houve? – cochicho.
– O tiro a acertou. Está sangrando muito, foi na testa. – Sua voz é fraca e percebo que ele treme quando coloco a mão em suas costas.
Mas já foi, não há como voltar atrás, a bala já se alojou em seu cérebro.
– Precisamos continuar – digo. – Não podemos fazer nada por ela, mas podemos por nós.
Começo a puxá-lo, e ele apoia o peso de seu corpo no meu, me deixando quase sem ar. Chegamos até a porta.
– Agora é simples – Gabriel diz, a voz desprovida de qualquer emoção.
Assim que a porta destranca, o ar gelado da noite nos encontra e vimos as luzes da cidade lá fora. Liberdade é a palavra.
Mas se estamos lidando com o governo, até quando durará essa liberdade?
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