Venadora
1 Capítulo 1 - Lua cheia
Notas iniciais
A noite estava fria, me vesti e antes de sair de casa empunhei minha bengala e sai cambaleando falsamente pela rua, o relógio da igreja marcava meia noite, a adrenalina começava a fluir pelo meu corpo e a expectativa crescia em meu peito, fazia mais de uma semana que não tinha sorte em encontrar um vampiro pelas ruas, o inverno estava rígido e as poucas pessoas que enfrentavam a neve iam de suas casas para um clube ou para casa de algum amigo, nada vulnerável. Vagava pelas ruas vazias checando cada beco com um olhar rápido, já tinha em minha cabeça que não encontraria nada tão facilmente. Com quase 40 minutos de caminhada cheguei ao centro da cidade, o vento gelado tinha bagunçado meu cabelo e a baixa temperatura tinha corado minhas bochechas e rachado meus lábios, irrelevante. Acabei encontrando um pequeno pub, as portas fechadas revelavam as sombras, silhuetas muito coladas se movendo em sintonia, ao entrar no ambiente fui engolida por uma bolha de ar quente com aroma de cerveja e suor, só então reparei que as janelas já estavam embaçadas e que eu precisava retirar minha jaqueta, foi o que fiz e logo em seguida me sentei próxima ao bar e senti a primeira pulsação na minha nuca, um leve arrepio subindo e se instalando na base no meu pescoço como se alguém assoprasse o local, olhei em volta atenta em busca dos olhos, vermelhos, sanguinários, mas nada encontrei.
A música contínua embalava os corpos no local, mulheres com saias curtas e decotes absurdos se esfregavam em homens bêbados que berravam incentivos medíocres, gritando tão alto a ponto de abafar a voz do cantor, que sozinho tocava um violão velho num palanque improvisado. Alvos tão fáceis! Justamente por esse fato, que eu me encontrava naquele buraco. Com certeza encontraria um deles por ali e se eu tivesse sorte daria de cara com um guardião logo menos, o arrepio em minha nuca não desmentia minhas palavras, mas como previ, ele não se encontrava no salão principal, então fui em direção ao banheiro fingindo mancar apoiada numa bengala de madeira.
O arrepio se demonstrava cada vez mais forte, e o lugar vazio. No caminho levantei a bengala para conseguir tirar a proteção de sua ponta e revelar a lança que havia escondida em sua ponta. Caminhei vagarosamente seguindo meus instintos e ao ouvir os risos vindos de trás de uma porta semiaberta, parei bruscamente rente a ela, a luz estava fraca, mas ainda consegui distinguir os corpos entrelaçados com a penumbra.
Uma garota loira já tinha os lábios vermelhos de tanto serem sugados por prováveis beijos, e frente a ela estava quem eu procurava, ele vestia um casaco pardo e uma calça jeans qualquer, sua mão percorria a extensão das costas da menina que se arrepiava ao toque frio, eu conhecia a sensação, ela estava dopada por aqueles olhos vermelhos. Era um vampiro comum, seus lábios entreabertos revelavam a presa proeminente e ele manobrava habilmente a menina praticamente inerte no seu colo .
Preparei minha estaca e apoiei minha mão na porta enquanto ele a deitava em seus braços, deixando visível a carne branca de seu pescoço, não dei tempo para ele ao menos abrir a boca, empurrei bruscamente a porta com a madeira em punho, o barulho o distraiu e ele derrubou a moça no chão. O vampiro rosnou pra mim, conseguindo somente aumentar minha fúria, corri em sua direção e ele veio ao meu encontro, já estava preparada para o salto que viria em seguida, os recém nascidos da espécie lutam cegamente, estão tão sedentos que não tem estratégia de batalha e acabam sendo mais óbvios do que espertos. Quando ele tentou saltar por cima de mim e me pegar pelas costas, enterrei minha bengala em seu peito, exatamente onde deveria estar seu coração e ele se pulverizou sobre mim.
Tirei o que restou do vampiro da minha cabeça e me voltei pra loira que estava imóvel no chão, o terror estampado em seu rosto e seus olhos fixados em mim. Seria cômico se não fosse trágico, ela tinha quase morrido há 5 minutos por um ser que deveria ficar nas lendas, e foi salva por uma garota de coturno e cabelo vermelho com uma bengala afiada... Ela teria que desenvolver um psicológico muito forte.
Acenei com a cabeça pra ela, num cumprimento silencioso, a garota piscou atônita e desfaleceu no chão. Olhei no meu relógio, 3:30 da manhã, eu tinha um bom tempo pra encontrar um ou outro vampiro, não ia ocupá-lo cuidando de uma desconhecida. Tomei um único cuidado de fechar a porta ao sair, arrumei minha estaca tornando-a novamente uma inofensiva bengala e voltei a cambalear como se tivesse uma perna menor que a outra. Ao sair do bar fitei a lua cheia e sorri em expectativa, a noite começara muito bem e se dependesse de mim não terminaria diferente disso.
Parte 2 – Capítulo 1 — Apresentando
Sou Marie Gardella, uma caça vampiro, tarefa nada fácil de cumprir no século XXI quando são usados instrumentos do século XIX, digamos que as coisas mudaram radicalmente na sociedade nesse tempo. As mulheres não usam mais roupas que pesam mais que seu próprio corpo e penteados que praticamente as impediriam de passar por uma porta normal, e os homens não são mais galantes e cavalheiros como antes, ou seja, não há como dizer se quando se vê uma pessoa atracada com o pescoço de outra ela é um vampiro ou apenas um mortal carregado de hormônios e luxuria.
Me envergonha, lembrar do meu primeiro confronto com um “vampiro” onde ainda não tinha recebido meu vis bulla e minha percepção ainda não era aguçada. Acabei quase rasgando o peito de um garoto de 18 anos que estava animadinho com sua namorada num beco escuro, Hyago se matou de rir de mim – ainda tira com a minha cara, mesmo depois de todo esse tempo. Hyago é meu parceiro de caça, obviamente mais experiente que eu, mas ele não é um Gardella, e de acordo com as lendas somente um de nós pode matar Gualtiero, o príncipe do exercito, que passou a ser nossa maior preocupação depois de Lilith, a escura. Ela o criou como seu primeiro Guardião e a partir daí ele veio crescendo até a morte de sua criadora e agora reina o território que antes pertencia à segunda vampira da história. Nossa missão é acabar com todos os demônios e vampiros seguidores de Gualtiero, o que pode ser bastante inútil se considerar a proporção de quatro venadores americanos contra mais de mil vampiros comuns, mas como uma Gardella eu enfrento isso de peito aberto e agora que os boatos correm, sei que quem eu busco está próximo de mim e no meu sangue corre a certeza de que será pelas minhas mãos de que ele morrerá.
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