Venadora
2 Capítulo 2 - Gardella
Notas iniciais
Havia chamas em meu pescoço, minha visão estava turva, espasmos contínuos curvavam minha coluna me elevando do chão e a única coisa que passava pela minha cabeça era o quão idiota eu estava aos olhos daquele garoto. Ele passava varias camadas de um unguento verde na mordida da minha clavícula e a cada toque um urro de dor escapava dos meus lábios, agradeci mentalmente por estar tão tarde e não ter pessoas curiosas pela rua há essa hora. A tontura causada pela dor me arrastava pra inconsciência, mas por um tempo eu resisti, até que a escuridão me envolveu.
Abri meus olhos e não reconheci o lugar que me encontrava, o teto cor de café estava desbotado e o pé direito da sala era tão baixo que me sufocava. Me levantei do sofá em que me encontrava e andei pela sala procurando alguma identificação. Nenhuma janela, uma porta trancada e uma porção de livros amontoados atrás de uma cadeira velha.
Sons de passos atrás da porta me fizeram recuar, me senti absolutamente desprotegida, pensei em voltar a minha posição inicial e fingir ainda estar inconsciente, mas achei altamente covarde, então apenas fiquei estática, olhando pra porta enquanto uma chave a abria.
- Ora, ora, a bela adormecida resolveu acordar? Já eram tempos! – A mulher tagarela vestia um justíssimo vestido rosa, com saltos tão altos que me faziam pensar que ela talvez fosse menor que uma garota de 12 anos, seus dentes brancos e perfeitamente alinhados eram raramente encobertos por lábios grossos também cor de rosa, mas antes que pudesse pensar em uma resposta ela continuou a falar — Bom, bem vinda de volta, sou Nancy Bronw, sua conselheira a partir de agora, como vai?
- Ah, acho que bem – minha voz estava realmente estranha, parecia que não usava minhas cordas vocais há alguns dias, pigarreei e prossegui – Onde estou?
- Aqui vai ser como sua segunda casa agora, se você aceitar, é claro – Ela deu um tapa patético na testa, se corrigindo – Enfim, você é uma Gardella e precisamos de você, mas antes de qualquer coisa vou te levar pra comer alguma coisa e se trocar.
A segui por um corredor mal iluminado por luzes amarelas, com um papel de parede velho e cheiro de mofo até uma sala bem mais atual, toda pintada de branco e com uma luz tão forte que demorei a acostumar. Dentro dela, por volta de dez araras de roupas, exibiam a maior variedade de vestimentas que se possa imaginar, num armário dezenas de pares de sapato e em frente a tudo isso estava Nancy dando pulinhos e batendo palma em minha direção, ela parecia tão artificial e planejada que passou pela minha cabeça ela ser um robô ou algo do tipo.
- É minha sala favorita! Pode escolher o que quiser, eu indico aquele vestido azul logo ali, mas fique á vontade.
O vestido azul que ela se referia era um pedaço mínimo de pano que ficaria tão colado em mim que duvido que conseguiria me mover. Acabei me vestindo com roupas tão casuais que acho que magoei Nancy, mas pouco me importei, calcei os coturnos e fui pra frente do espelho, nada mal.
Mais tarde, estava no mesmo quarto do começo do dia, a claustrofobia que aquele lugar causava era horrível e me impedia de circular, então fiquei sentada na cadeira de madeira até que um rapaz baixinho abriu a porta e me chamou pra fora. O segui por vários corredores, que iam se sofisticando regularmente, até que paramos em frente a uma porta preta reluzente. O garoto a abriu e me deu passagem com um aceno rápido com a cabeça, entrei.
- Seja bem vinda Marie, espero que esteja bem acomodada – Quem falava agora era um senhor de muita idade, suas pálpebras se acumulavam sobre os olhos azuis, e um bigode ralo e branco escondia seu lábio superior.
- Pode-se dizer que sim. Quem é você?
- Jaime Cloud, muito prazer. Você está bem?
- Sim, eu só queria entender porque eu estou aqui.
- Já vai saber, sente-se. Você conhece a história de Judas Iscariotes?
- Bem, não completamente... – disse já sentada numa poltrona branca.
- Pois então, ele traiu Jesus por 30 moedas de prata, mas mesmo assim o Senhor o perdoou, só que Judas não aceitou seu perdão e se enforcou. Acabou amaldiçoado com o inferno eterno, mas ao chegar lá o diabo lhe deu a chance de viver na Terra com um corpo imortal, que se manteria com o sangue humano. Judas passou a ser o primeiro vampiro da história e logo ao matar o primeiro inocente ele se condenou a ter essa maldição pela eternidade. Ele então sacrificou sua filha, Lilith, que se tornou a rainha dos vampiros.
- Mas eu não entendo onde é que eu entro nessa história! – O senhor me ignorou completamente e prosseguiu com aquela baboseira.
- Judas acabou sendo morto, e Lilith, a escura, reuniu um exercito imenso de demônios e vampiros para dominar o mundo. Só que durante esse tempo uma família cresceu paralelamente ao exercito da rainha, os Gardella. Eles se tornaram os primeiros venadores, perseguiam e destruíam todos os seguidores de Lilith que cruzassem seu caminho, mas a tarefa não foi fácil e eles começaram a recrutar outras pessoas também. No século XIX, os Gardella depois de muita luta e sacrifício conseguiram derrotar a escura e a paz reinou por muitos anos.
— Mas...
- Mas, nos enganamos. Depois da queda de Lilith, assumiu o trono Gualtiero, o príncipe do exercito. Durante centenas de anos ele aumentou radicalmente o número de soldados a seu favor, e os venadores acabaram se aposentando por muito tempo, perdendo força e quantidade. Os Gardella se mudaram pra América e a notícia chegou aos ouvidos do vampiro que agora está movendo todo seu exercito pra cá.
- E minha função é?
- De acordo com as lendas, somente alguém com o sangue Gardella pode destruir quem lidera esses demônios. E digamos que depois da queda de Lilith, sua família decaiu consideravelmente, nos Estados Unidos só existem você e uma senhora de 82 anos, chamada Rose Gardella, que já se aposentou definitivamente do cargo de venadora.
Uma pontada de medo me atingiu, na minha mão estava a única chance de salvar a humanidade de um provável vampiro que tem ao seu lado um exercito de demônios, enquanto do meu tem uma senhora aposentada, um senhor com cheiro de amêndoas e uma mulher histérica. Foi nesse momento que ele entrou na sala, o garoto que me ajudou, e ai tudo veio com muita força. Os olhos vermelhos, a atração, o sorriso gélido, os olhos rosa escuro, as presas, dor. Fiquei absurdamente corada, mas não conseguia desviar o olhar dos olhos cor de chocolate do garoto na minha frente. Um sorriso torto vindo do mesmo cortou meu transe, mas fui abalada por sua voz forte logo em seguida.
- Foi por pouco não? Logo de primeira se encontrar com um guardião é pra poucos!
- Com um o que?
- Com um guardião – Quem falou foi Jaime – os vampiros são divididos em três categorias, os comuns, que são basicamente recém-transformados, não seguem uma legião nem tem um ideal, só querem sangue e fazem de tudo por ele, os olhos são vermelhos e o veneno não tão forte. Os guardiões são os mais fiéis ao seu criador, tem olhos rosa escuro e um veneno absurdo, são muito ferozes e perigosos. Gualtiero foi o primeiro a ser criado por Lilith, ou seja, ele é tão forte quanto ela.
- Sim, mas está faltando mais um não está?
- Imperiais – o garoto disse – São tão rápidos quanto o vento, parecem voar. Possuem espadas afiadíssimas e olhos vermelho arroxeado. Não são tão venenosos, mas mais experientes que qualquer outro, tem séculos ou até milênios de existência. São muito raros, em toda minha vida só enfrentei um, e digamos que a experiência não foi tão bem sucedida.
Risos baixos percorreram a sala, numa piada interna em que fiquei de fora. Um misto de emoções percorria minhas veias, medo, curiosidade, ansiedade e coragem. Comecei a transpirar e meu pé começou a bater no chão impacientemente, o que despertou a atenção de Jaime pra mim.
- Muita informação pra uma só noite não é minha querida? A reunião acaba aqui, continuamos amanhã – Ele se levantou facilmente da cadeira e passou por mim apoiando em meu ombro e me dando um olhar de consolo – Não pense muito nisso.
As pessoas foram saindo até ficar somente eu e o tal garoto na sala.
- Qual é mesmo o seu nome?
- Hyago Riva – respondeu somente isso, se levantou e foi saindo.
- Ei, espera! – Fui atrás dele e o puxei pelo ombro – Qual é a tua?
- Você é tão fácil... Dá pra entender o porquê aquele vampirinho conseguiu chegar tão rapidamente em você! – Estendeu a mão e tocou onde antes os dentes do vampiro haviam me perfurado, a sensibilidade do local me causou um calafrio terrível. Tirei sua mão de lá e abaixei a cabeça – Perdão... Ei, olha pra mim, só não estou em um dia bom.
- Tanto faz! – E realmente não tinha tanta importância, não entendia a causa de me preocupar tanto com o que aquele menino sentia e pensava em relação a mim. Num pequeno surto virei as costas e fui andando corredor adentro.
- Marie! – Olhei pra ele irritada – Seu quarto é pra lá – Disse apontando pra direção contraria da que eu estava indo.
O sorrisinho irônico em seu rosto e o olhar brincalhão me fez ferver de ódio, mas ao mesmo tempo de atração. Dei meia volta e passei por ele sem fita-lo. Depois de um tempo cheguei à saleta onde estava hospedada, me aninhei no sofá e tive um sono sem sonhos.
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