Vem comigo!

2 É segredo, ok?


CAPÍTULO 2

O frio trouxe o desânimo, apesar de ser sexta feira. Podia perceber as feições cabisbaixas dos alunos agasalhados enquanto suas bandejas eram abastecidas do café da manhã servido no refeitório. Meu desânimo era ainda maior! Teria aula de Educação Física após o café da manhã e mal conseguia me manter acordada. Uma mistura mal sucedida do incômodo por pensar no vexame que passei e curiosidade por querer descobrir o que Tiago Brignoni estava fazendo com Os miseráveis na mão, ontem na biblioteca.

Observei-o de longe. A mesa onde Tiago e seus amigos se sentavam era sempre muito agitada. Envoltos em seu manto de ego inchado, sentiam-se confortáveis para fazer o que quisessem. Riam alto e jogavam pedaços de alimentos entre si... Se jogados em selva aberta, não conseguiríamos distinguir quem eram os verdadeiros animais. Tiago era o único que parecia menos primitivo hoje... Hoje!

Com o olhar furtivo, tentava se desprender da atenção dos amigos entre olhadelas prolongadas para além das janelas e degustadas descompassadas na caneca de leite com café. Daria um rim para saber o que se passava dentro daquela mente. Descobrir as fraquezas e temores que conseguiam abalar alguém metido, arrogante e imbecil como ele. Com certeza não era nada demais, devia ter tido uma discussão ridícula com Maressa, seu time de futebol talvez não estivesse fazendo tanto sucesso, ou seu pai havia mandado pouco dinheiro para que ele pudesse continuar ostentando sua imagem de um legítimo Brignoni, ou até quem sabe, se alguém tivesse o visto escondido entre prateleiras de livros clássicos, mentindo para a namorada, com tanto medo de ser descoberto assim como um rato temeroso por sua vida. Seria ótimo usar suas fraquezas contra ele.

Estremeci quando percebi Tiago me encarando. Eu sabia que esse era o momento em que deveria disfarçar e parar de encará-lo, mas resisti em continuar olhando-o, como se isso fosse me ajudar a desvendar seus mistérios, mergulhando naquele mar azul claro de seus olhos em direção as águas profundas em que ele se escondia.

– Nossa, olha só para eles! São ridículos. — Mari distraiu-me, puxando minha atenção toda para ela.

– Quem Mari?

– O Top 10 do internato!- disse referindo-se aos capitães das equipes.

– Ah, esses são mesmo! Imagina encontrar um deles lendo um livro clássico na biblioteca?- soltei.

Eles riram.

– São tão estúpidos que se estiverem na biblioteca é porque confundiram o caminho.

– Aposto que não sabem nem como pegar em um livro.

– Pois é! E ontem eu...

– Sejam mais discretos! Tiago está olhando para cá! — Mari mantinha um sorriso irônico. Nada a satisfazia mais do que debochar dos Top 10.

Voltei minha atenção para Tiago. O garoto nos olhava, tentando saber do que falávamos. Sabia que era sobre eles.

Mantive firme o olhar no mar de seus olhos e eles estavam agitados... Pude ver seu receio das palavras que sairiam de minha boca. Alguma coisa me dizia que Tiago não era para estar na biblioteca e se isso chegasse aos ouvidos de Maressa e seus amigos, de alguma forma, ele estaria encrencado.

Essa seria uma ótima oportunidade para se vingar de todos os vexames que ele e seus amigos me fizeram passar, no entanto, fui incapaz de prosseguir. O rosto piedoso de Tiago me fez reconhecer que não poderia me rebaixar ao nível deles. Não era da minha conta e eu não poderia espalhar para as pessoas, seja lá que consequências isso traria.

– E aí Ana?

– Ontem você o que Ana?

Engoli as palavras que estavam prontas para sair.

– Eu ontem... Não achei nenhum livro interessante na biblioteca...

– Ahh! — disseram em uníssono sem muito entusiasmo.

E o sinal tocou, avisando que a aula começaria em 15 minutos.

A aula de educação física geralmente acontece nas quadras externas do internato, mas hoje por causa do frio, aconteceu na quadra de basquete. Hoje a aula seria uma partida de vôlei. Pior do que a aula de educação física, era a aula de vôlei. Não existia nada nesse mundo que me fizesse gostar. Ver a bola sendo rebatida de um lado para o outro não havia o menor sentido para mim, sem contar que eu particularmente não possuía vocação para nenhum tipo de esporte. Era totalmente desengonçada e sem coordenação motora. O professor pediu para corrermos três voltas pela quadra para o aquecimento inicial.

– Professor, o senhor ficou sabendo quem desmaiou no palco ontem? — Maressa falou o mais alto que pode em sua vozinha aguda.- Ana Carolina Avila. O senhor precisava ter visto como ela cambaleou no palco antes de se esborrachar no chão!

Fechei os olhos com a dor no estômago que senti enquanto Maressa gritava meu nome. As pessoas gargalhavam por pura maldade e outras os seguiam. Senti todo o meu dia sendo ofuscado por uma nuvem negra piorando ainda mais o desânimo do dia frio. Olhei a grande boca, escancarando um sorriso dissimulado de Maressa, a perversidade era clara em seu rosto. Busquei refúgio nos olhos do professor, que não ria, estava estático.

– Já chega pessoal! – ele bateu forte as mãos, como se estivesse espantando galinhas!- Todo mundo correndo. Vamos, não temos a manhã inteira.

Impotente, o professor veio até mim enquanto me preparava para correr. — Você está bem, Ana Carolina? – me perguntou, prestativo.

Afirmei que sim, ainda que muito sem graça. O professor sorriu aliviado, como se isso fosse o máximo que pudesse fazer. A verdade era que o professor fazia parte do grupo de pessoas que não ousavam enfrentar os Top 10, Maressa e suas amigas. Era como se desafiá-los fosse o mesmo que cavar o próprio buraco, ninguém ousava. E eu também estava incluída. Me sentia ainda pior por isso. Enquanto corria aos trancos, imaginava o dia em que teria coragem de enfrentar Maressa e acabar com seu reinado ridículo e inútil.

Depois de corrermos, o professor dividiu a turma de sessenta alunos em dez equipes de seis pessoas, para que pudéssemos jogar vôlei uma equipe contra a outra, até que findasse a aula. Para minha sorte ou desespero, Tiago estava em minha equipe! Fomos os primeiros a jogar e entre minhas manchetes mal feitas e bolas mal defendidas, depois de 15 minutos de jogo, Tiago e o os outros ganharam o primeiro set. A equipe perdedora saiu para que entrasse a próxima, onde um dos jogadores era o capitão de Vôlei do Internato, e em menos de 10 minutos, perdemos.

Aliviada pelo fim de meu mau desempenho e fim de jogo, apressei-me em chegar até ao vestiário. Joguei uma água no rosto para retirar o suor. Lembrei-me que antes de entrar para segunda aula, teria que deixar a ficha médica de ontem na secretária. Burocracia escolar. Tudo que acontecia, era fichado e arquivado. O Internato tinha um excelente controle de seus alunos, agradando aos pais, a Secretaria de Educação e ao Ministério. Olhei-me no espelho, antes de voltar para a quadra, lembrando-me do desmaio. Me vi cambaleando de forma desengonçada até me esborrachar no chão, assim como Maressa havia descrito. Será que tinha sido tão esquisito ao ponto de ser engraçado? Os olhos negros de minha mãe olhavam-me curiosos. Eu não tinha a beleza estonteante de Maressa, com seus cabelos e olhos claros e sua grande boca, mas não era tão esquisita por inteiro. Meus cabelos bem negros e longos e ondulados contrastavam com a minha pele bem clara. Herança do meu pai. Mas meus olhos amendoados e escuros vieram da minha mãe. Mamãe... podia vê-la através de meus olhos, o que era bom, pois sabia que ela sempre estaria comigo, mas que saudade sentia. Já haviam se passado quatro anos.

Dizem que nada como o tempo para fazer acostumar o coração do vazio que a falta de uma pessoa fazia, e apesar de ter se acostumado, todos os dias me lembrava dela. Do orgulho que demonstrava quando lhe mostrava que minhas notas estavam cada vez melhor, da sua presença em estar comigo em todos os melhores momentos da minha vida e do seu sorriso... Mamãe até em seu último momento de vida, quando o câncer já havia se multiplicado por sua medula óssea e não havia mais o que fazer, não parou de sorrir. Foi ela quem manteve as esperanças até o fim quando já não tínhamos forças para prosseguir. Desse sorriso, eu nunca esqueceria... E eu sabia que ela estava comigo onde quer que eu fosse. Bastaria olhar no espelho.

Dei um longo suspiro para poder retornar à quadra. Não podia deixar que mais nada pudesse estragar meu dia.

– Ana Carolina! – chamou-me uma voz grave.

Virei-me de ímpeto e Tiago estava encostado na parede do corredor do vestiário feminino, com a mão no bolso, como se estivesse me esperando sair. Senti um frio na barriga do que pudesse vir a ser. Tiago se aproximou devagar.

– O que você quer? – eu disse em tom defensivo.

– Você contou para seus amigos sobre o que viu ontem? — Tiago mantinha a firmeza na fala, provinda de sua personalidade prepotente.

Demorei um tempo para pensar. Não sabia se falava a verdade ou inventava uma história vantajosa sobre a situação.

– E se eu tiver contado? Qual o problema?- foi o que saiu.

Tiago levou as mãos na cabeça, jogando-a para cima. Sua preocupação era evidente. Aproveitei mais um pouco de sua vulnerabilidade.

– É só uma biblioteca! – ri. – Gostar de ler não é defeito pra ninguém.

– Você não entende! – ele disse, procurando manter o tom de voz baixo para que ninguém pudesse escutá-lo.

Ignorei-o.

– Sabe que para uma pessoa como você, Os Miseráveis é um livro e tanto. A escola tem que saber! Eles vão ficar surpresos.

– Por que está fazendo isso comigo?- Tiago sustentava um olhar piedoso. Eu não sabia se era verdadeiro, sua cabeça pendia para um lado como se não pudesse mais se aguentar em pé. Analisei-o. Olhando Tiago mais de perto, pude notar que suas orelhas eram maiores e desproporcionais ao seu rosto, mas que isso não lhe atribuía pontos negativos, pelo contrário, adicionava a ele um charme ainda maior.

Tentei manter a seriedade e a compostura. Ter um dos Top 10 tão próximo era nocauteante e mais extasiante ainda era fazê-lo de bobo, revelando suas fraquezas tão fácil para alguém como eu que até ontem parecia tão insignificante aos olhos deles dando-os o direito de nos pisotear. Nunca imaginei que a sensação de poder fosse tão boa e que pessoas como Tiago tinham sim um ponto fraco que pudesse ser dominado.

– É porque nós zoamos você e seus amigos?- ele me encarava, com olhos desesperados como se eu tivesse uma granada a ponto de jogar ao chão. — Não pode descontar só em mim por isso! Eu não sou o único.

– Nessas horas ninguém quer ser culpado. Agora chegou a vez de vocês sentirem na pele o que é ser humilhado por toda a escola.

Destruir sua reputação de galã descolado era o seu maior medo.

– Eu sinto muito Ana Carolina! – Tiago sobressaltou. – Se isso chegar ao ouvido da Maressa, ela vai ficar louca! — ele choramingou excessivamente dramático e se aproximou do meu rosto com as mãos juntas na boca, como se estivesse sussurrando uma oração. – Olha só, não é só porque eu estava na biblioteca. Ou lendo um livro, ou por causa de uma merda de reputação... Tem muito mais coisa envolvida... – ele me encarou atônito, como quem já havia falado mais do que devia.

Não consegui compreender todo o drama, mas parecia mesmo que Tiago estava falando sério e que havia mesmo muitas outras coisas envolvidas. Apesar de estar muito curiosa para saber o que estava se passando, decidi não prolongar a conversa e deixar o assunto enterrado. Era a tal da consciência me cobrando certa ética. O tal de “não faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você”. E apesar de se tratar de Tiago Brignoni, eu na verdade não queria ser responsável por estragar a vida de ninguém. Já que era isso que estava parecendo, com tanto drama por causa de um livro. Eu ri.

– Qual é a graça?- perguntou.

– Que drama! Eu não contei para ninguém! Não precisa chorar!- ri com ironia.

– Ótimo? – Tiago se aprumou, ríspido. – E nem vai, não é?.

Olhei-o indignada pelo pedido. Como o mundo da volta! Depois de tantas chacotas e humilhações, agora ele dependia de mim para manter sua imagem.

– Não vou contar!- falei em um tom alto. — E vê se não me enche mais. E qualquer coisa que vocês e seus amigos fizerem contra nós, eu vou me lembrar bem dessa história!

Ele riu com sarcasmo e superioridade costumeira.

– Bem, não posso responder pelos outros. Mas acho que temos um trato.

Olhei mais uma vez nos olhos de Tiago, nós dois sabíamos que ameaça-lo com seu segredo seria em vão. Sabíamos que eu não era capaz de fazer mal para ninguém e ameaçá-lo seria em vão, mesmo que as provocações continuassem.

– Tanto faz, Tiago. Agora me dá licença, que eu tenho mais o que fazer. – e deixei-o, frustrada por minha ingenuidade e minha não periculosidade. Eu não era uma ameaça nem para uma mosca.

As partidas de vôlei ainda estavam acontecendo, parecia serem os últimos times jogando, pois o capital de vôlei ainda estava em quadra. Todos os outros sentados na arquibancada, recuperando o fôlego ou conversando. Quantos minutos se passaram enquanto eu estava nos vestiários? Eu não fazia a mínima ideia. Sentei na arquibancada, ainda indignada.

– O que foi Aninha?- Mari perguntou.

– Nada! — respondi automaticamente.

Por mais que eu quisesse me vangloriar sobre meu breve domínio sobre Tiago Brignoni com minha melhor amiga, tirar sarro dele por ele pedir segredo sobre ir à biblioteca ou até mesmo compartilhar com ela a minha curiosidade em saber o que era que Tiago tanto temia que descobrissem, eu não devia falar. Não podia comentar minha conversa com Tiago sem contar toda a história

Ela continuou me olhando, esperando que eu desembuchasse. Mari sabia quando eu estava estranha. Ela me conhecia de todos os jeitos, afinal havíamos sido criadas juntas desde pequena. A mãe da Mari sempre fora amiga da minha, mas depois que minha mãe faleceu, era raro que eu a visse, por um lado porque logo comecei a estudar no internato e por outro lado porque após mamãe falecer, meu pai se afastou da maioria das pessoas que poderiam lembrá-lo de minha mãe. De fato até de mim. Ele dobrou os plantões no hospital, tornando-se raro às vezes em que estávamos juntos. Mas de vez em quando, nas sextas feiras, quando enfim podíamos passar os finais de semana em casa, eu conseguia encontra-lo lá também.

– Não aconteceu nada! Sério. – disse enquanto acompanhava Tiago aparecer dos vestiários distraído, e sendo abordado pelo professor de educação física. Enquanto conversavam, Tiago me lançou uma breve olhada.

– Nem acredito que hoje é sexta feira! – Mari comentou. – Vai para casa hoje à noite?

– Acho que vou! Tô com saudade do meu pai! Talvez hoje o encontre lá– respondi mudando o foco dos meus pensamentos para bem longe de Tiago, deixando seus olhos no vácuo e colocando fim em nossa comparsa.

– Esse final de semana estou cheia de coisas para fazer... Não vai dar para aproveitar em nada meus pais! As provas começam segunda! –Mari disse.

– É mesmo. Mas ainda bem que segunda é prova de história! Não vou precisar estudar muito!

– Ridícula! – Mari me disse fingindo uma cara de tédio.

– O que? Eu não tenho culpa se amo a matéria! – respondi.

– Ahh, cala essa boca!- ela disse em tom sarcástico.

E nós duas rimos. Mari não era não boa em história, mas era gênio em biologia. Não tinha nada que ela não sabia. Desde o interior de células eucarióticas à classificações de subespécies. Ela era demais!

O sino por fim tocou. Era hora de tomar banho e ir para aulas. Aulas legais. Não as que envolvia algum esforço físico.