Vem comigo!
3 Sobre perfumes e cigarros
Notas iniciais
Capítulo 3
Estive dispersa durante as aulas como nunca estive antes. Não conseguia parar de pensar em Tiago na biblioteca e me pedindo segredo sobre o ocorrido. Fiquei me perguntando como uma pessoa como Tiago, narcisista, arrogante e superficial poderia estar na biblioteca, na sessão de clássicos. Isso não fazia sentido para mim. Era como vegetarianos em rodízios de carne, cientistas darwinistas em um culto religioso, fãs de heavy metal curtindo um show da Beyoncé, água e vinho. Não se misturavam.
E por que esconder de Maressa? Mentir para ela que estava em seu quarto quando na verdade estava no meio dos livros? Quero dizer, eles eram namorados, não deveria haver mentiras entre eles. Um e o outro deveriam saber quem cada um era de verdade. Namoro era cumplicidade, respeito e honestidade entre os dois... Bem, pelo menos era isso que se via nos livros e filmes de romance. Eu não poderia saber na prática. Nunca havia namorado.
– Ana Carolina? Terra para Ana Carolina? – chamou-me o professor de inglês, fazendo piada.
Eu sobressaltei na carteira, deixando meu estojo cair ao chão, espalhando todas as minhas canetas e provocando risos de toda a sala.
– Você não ouviu o pronunciamento do diretor no autofalante?- o professor me perguntou.
Neguei com a cabeça, me abaixando para pegar o estojo, mas Antônio se propôs a pegar tudo em meu lugar. Eu poderia sentir meu rosto queimando de vergonha. Nunca havia sido pega dispersa dessa forma.
– É para você comparecer na secretaria após essa aula.
– Cuidado para não desmaiar. – alguém disse no fundo da sala. E eu poderia jurar que era alguma amiga da Maressa.
Alguns riram alto em um estardalhaço que colocou a sala inteira em inquietação.
– CHEGA, CHEGA TURMA! VAMOS LÁ! – o professor bateu as palmas da mão para restabelecer a ordem na sala. E apontou a mão, segurando um giz na ponta para mim. – Ana Carolina, como você está muito dispersa hj, vai falar para mim a resposta do próximo exercício.
Agora eu estava enrascada. Eu não sabia qual exercício ele estava se referindo. Olhei o livro, perdida procurando uma salvação divina enquanto as letras todas se embaraçavam e não faziam nenhum sentido para mim. “Próxima página. Exercício nº 12.” Ouvi Antônio sussurrar discretamente. Virei a página rapidamente e para minha sorte, eu já havia feito esses exercícios como tarefa de casa. Pigarreei antes de começar a falar.
– A resposta da número doze... É letra c. – minha voz saiu falha. Eu não conseguia olhar para os lados de tanta vergonha. Poderia sentir os olhares em cima de mim, e as risadinhas abafadas.
– Isso. Letra c!- o professor sorriu. – Agora, como vocês podem perceber nessa questão, a letra d pode ser facilmente confundida com a letra c, só por causa do tempo verbal, que na letra d está no simple past e na letra c, no present perfect. Mas como já disse para vocês, quando uma ação indica um tempo não específico do passado, usamos o present perfect e não o simple past, ok? – ele deu uma longa pausa, olhando para cada um de nós. Eu ainda me recuperava do vexame. Mais um para minha coleção. – Muito bem. Hoje vocês estão livres de dever de casa. Como já vai bater o sinal, vocês estão dispensados por hoje. Na próxima aula continuamos. Valeu pessoal.
E o sino tocou.
Recolhi minhas coisas todas, vagarosamente enquanto toda a sala parecia fugir da bomba atômica de Hiroshima. Não sei o porquê da pressa. Nada sairia do lugar. Nem mesmo os dormitórios.
– Anaaaa! E aí, você parece meio desatenta hoje. – Antônio falou comigo enquanto andávamos para o corredor.
Eu dei um sorrisinho sem graça ao lembrar o vexame na sala de aula e por Antônio me fazer lembrar também.
– Não. Estou tranquila. Só vontade de ir pra casa e ver meu pai mesmo. – respondi. O que também era verdade.
– Tá nada! A Mari falou que você hoje na educação física estava super estranha. O que foi que está acontecendo? Você sabe que pode contar com o Super Antônio aqui! – ele passou os braços por mim, me abraçando enquanto andávamos.
– Menos, Antônio. — Eu me desvencilhei imediatamente, um pouco irritada com Mariana. Não gostei de ela ter comentado com os meninos que eu estava estranha. Principalmente depois que eu havia dito que estava bem. – Porque a Mari disse isso? Não tem nada de errado comigo. Eu estou bem.
Continuei com passos mais largos, deixando Antônio para trás!
– Por Einstein, Ana! Tá bom, eu retiro o que disse. Onde você vai?
– Tenho que ir à secretaria!
– A gente se vê no almoço então? – ele gritou, parado no meio do corredor.
Não respondi.
Cheguei à secretaria. Um imenso hall onde se encontravam ao redor várias portinhas com plaquinhas de acrílico escritas o nome das salas mais importantes da escola. Sala dos Professores, da Psicóloga, sala de reuniões, secretaria, almoxarifado... No centro, um balcão com a recepção com dois sofás pretos para àqueles que deveriam esperar e ao lado da recepção, mais ao fundo, uma enorme porta dupla envolta de colunas de madeira, lembrando um templo grego, como se ali fosse a entrada para o Monte Olimpo, morada dos deuses da mitologia grega. Era a sala do diretor. Eu já devo ter comentado que o diretor tinha um ego e um orgulho enorme de ser quem ele era. O diretor do Internato São Petersburgo. Se não disse, fica registrado aqui.
Aproximei-me do balcão e falei com uma moça que aparentava ser bem nova, que me disse que me chamaram para assinar o recibo do cheque que eu havia ganhado no concurso de história e também o termo de concessão da bolsa de estudos na UniMagnus. A Universidade privada mais cara e também mais bem conceituada do Estado de São Paulo ou quem sabe, até do Brasil. Eu assinaria, mesmo que meu foco fosse a USP e a Unicamp. A moça pediu para que eu esperasse alguns minutos enquanto ela terminava de organizar toda a papelada burocrática. Sentei-me no sofá preto e dei-me de cara com a estante de troféus. Cobria uma grande parte da parede de cima em baixo, toda em vidro, com várias estantes e algumas delas já estavam abarrotadas de troféus de todos os tipos de campeonatos. Vi muitos troféus do futebol, o que me arremeteu mais uma vez a Tiago. Eu raramente havia comparecido a um campeonato desde que entrei no Internato, mas das vezes que compareci, nosso time havia ganhado e sempre era Tiago que segurava o troféu e era arremessado pelos ares. Claro, era ele o capitão. Enchi-me de entusiasmo ao reparar que no centro da estante estava o meu troféu. O troféu que eu havia acabado de ganhar. Eu nunca fora de entrar muito em campeonatos, eu temia só de pensar que poderia chamar atenção de alguém. Eu era muito tímida para me mostrar ao mundo, ou talvez covarde demais.
– NÃO OUSE FAZER ISSO!
Sobressaltei no sofá ao ouvir os berros vindos da sala do diretor. Olhei confusa ao redor do hall para saber se não estaria imaginando situações, mas a moça que havia me atendido olhava para mim com os olhos arregalados. Ficamos nos encarando como se estivéssemos conversando por telepatia no estilo “Você escutou isso? Eu também escutei” até que fomos interrompidas por mais gritos.
– SABE O QUE VOCÊ É? UM BABACA, HIPÓCRITA, EGOCÊNTRICO. ISSO QUE VOCÊ É. NÃO! NÃO...
Alguns momentos de silêncio, no qual eu pude jurar ter ouvido um “calma” baixinho proferido por alguém dentro da sala.
– AH, VAI PRO INFERNO... SEU DESGRAÇADO! –gritou mais uma vez.
E a porta escancarou-se, sendo fechada de forma brusca, fazendo-a estremecer as paredes, anunciando assim um Tiago Brignoni fora de si, que começou a andar de um lado para o outro, com a mão na cintura, apertando cada um dos olhos com o polegar e o indicador. Logo em seguida apareceu o diretor Gregório, em sua plena serenidade, arrumando sua gravata cinza, um pouco desconcertado por saber que todos que estavam do lado de fora haviam ouvido os gritos. O diretor acompanhou Tiago, abraçando-o com um dos braços, para que Tiago pudesse ficar mais próximo enquanto sussurravam algo que eu não consegui escutar e caminhavam até a saída.
– Ana Carolina! – me saudou o diretor em alto som, como se o que havia acontecido em sua sala, seja lá o que fosse, nunca tivesse acontecido. Levantei-me para cumprimenta-lo. – Como vai, querida? Está aqui para assinar os papeis?
Afirmei que sim em um desconcerto estimulado pela curiosidade em saber o que estava acontecendo. Encarei Tiago, mas ele nem ao menos olhou em meu rosto. Com a feição colérica, as sobrancelhas quase juntas em fúria e os olhos fixos no nada, como se ele estivesse matando alguém em seus pensamentos. Porém, fora interrompido com o diretor o chamando.
– Então Tiago, já que o acordo é que você deverá melhorar suas notas esse bimestre, nós temos aqui Ana Carolina, temos Antônio, Mariana e... como é mesmo o nome do outro? Ah sim, Frederico... Que são da mesma turma que você e podem te ajudar com a matéria. Vocês podem combinar um grupo de estudos e já que as provas estão começando... Vocês poderão...
Tiago revirou os olhos, eu podia sentir sua impaciência e irritação.
– Você só pode estar de brincadeira comigo... Não, tá me zoando né? – Tiago mantinha o olhar cerrado para o diretor, ignorando ainda mais a minha presença.
O diretor arrumou o paletó.
– Olha rapaz, você sabe muito bem da sua situação. Não tem ninguém de brincadeira aqui e estou tentando te ajudar. E quer saber, já perdi a minha paciência com você. Ou consegue notas acima de 90 nessas provas que estão chegando ou você está expulso do time do futebol.
– O QUE? – Tiago berrou em desespero, os olhos azuis arregalados agora me notavam e iam incrédulos dos meus para os olhos do diretor. – MAS NÃO FOI ISSO QUE ELE DISSE.
– Eu estou dizendo, como diretor dessa escola. Uma escola de tradição, de le....
– VÃO SE FODER TODOS VOCÊS. – Tiago berrou, dando as costas.
Eu não podia acreditar no que havia escutado. Tiago Brignoni mandou o diretor ir se foder na frente de todo mundo. Levei a mão na boca em espanto. Eu nunca havia me deparado com tanto desrespeito em minha vida.
– SEU PAI VAI FICAR SABENDO DISSO. – o diretor enfim se exaltou. Mas Tiago o ignorou enquanto saia da secretaria em supetão.
Fiquei olhando o chão enquanto isso. Eu não conseguia olhar nos olhos do diretor depois de todo esse constrangimento.
– Se me dão licença. – ele disse, mais uma vez como se nada houvesse acontecido e retornou para sua sala.
– Aqui está Ana Carolina. – a moça estendeu-se no balcão para me entregar os papeis. Confira seus dados e assine na última folha. Assim o fiz sem ao menos encará-la. Eu ainda estava me recuperando de todos aqueles acontecimentos. Quando por fim não pude conter minha indignação.
– Não sei como ainda não expulsaram esse moleque do Internato. Isso é ridículo! – entreguei os papeis a ela.
– Mas claro que isso nunca será possível. O pai dele é o maior patrocinador do Internato. Sem as doações feitas pelos Brignoni, essa escola se afundaria.
Agora tudo fazia sentido. Era por isso que Tiago fazia o que queria. E muito provável que ele nunca seria expulso do time de futebol, mesmo que rasgasse todas as provas na cara dos professores. Confesso que eu estava decepcionada com a escola e com o diretor Gregório. Como poderia se submeter assim à uma Corporação e deixar que o dinheiro e o poder passasse por cima de qualquer princípio e além do mais permitir que uma pessoa como Tiago fosse tão sem limites daquela forma?
Encontrei meus amigos durante o almoço e já nem estava mais brava com Mariana por ela ter comentado sobre minha estranheza. Contei a eles todos os detalhes do que havia acontecido na secretaria. Poupei o acontecido com Tiago na Biblioteca, assim como ele havia me pedido, mesmo que não merecesse. Contei o quanto estava indignada sobre seu pai patrocinar o colégio e por isso Tiago ser mantido ali, porém para meus amigos aquilo não era nenhuma novidade, pois afirmaram que já sabiam. E contei também sobre o diretor ter sugerido que nós o ajudássemos a estudar para as provas. Todos rimos com a impossibilidade da situação. Não por não querermos ajudar, mas porque nem com nossa ajuda, Tiago conseguiria alcançar 90 em todas as matérias. Ele era muito retardado para isso.
Olhei a mesa onde ele e seus amigos costumavam sentar durante as refeições e para minha surpresa, ele não estava presente. Vi Maressa fazer 3 ligações durante todo o almoço e depositar o celular sobre a mesa, decepcionada por não ser atendida.
Após o almoço, eu teria uma hora de descanso antes de ter encontro com o clube do livro. Uma reunião onde todos os alunos, desde o ensino fundamental ao médio, poderiam se reunir para debater sobre o livro em que tínhamos um mês para ler. Eu era a subcoordenadora do Clube e essa reunião nós definiríamos o próximo livro a ser lido.
Após o clube do livro, das quatro às cinco, eu teria aula de xadrez. E após, estaria livre para arrumar minhas coisas e ir para casa, passar o fim de semana. Isso era possível para àqueles que moravam nas duas cidadezinhas entre o internato, o maior hospital psiquiátrico de São Paulo, e a Universidade Estadual também. Era verdade que o Internato recebia alunos de todos os lugares do Brasil. Assim como a Universidade Estadual e o Hospital. Era por isso que as duas cidadezinhas eram apenas cidades dormitórios, lotada de estudantes universitários, médicos, enfermeiros e famílias dos pacientes do Hospital que se mudavam para ficarem próximas de seu trabalho ou de seus parentes internados. E tinham também algumas famílias que haviam nascido ali e acompanhado o crescimento das duas cidades. Esse era meu caso.
Fui até a cafeteria tomar um cappuccino e aliviar a cabeça de tanta coisa acontecida de ontem para hoje. Que semana agitada. Mas mesmo tentando me aliviar, não conseguia tirar Tiago de minha cabeça, de todas as situações que haviam acontecido e me tornava ligada a ele. E a forma como ele havia me tirado do sério por ter falado daquela forma com o diretor. Nunca, desde o 1º ano de Ensino Médio aqui, eu havia estado em tantas situações em que Tiago também estava. O máximo era juntos na mesma sala de aula.
Meu telefone tocou, fiquei feliz ao ver o número.
Era meu pai. Atendi depressa.
– Oi pai. Você não vai acreditar. Fiquei em primeiro lugar no concurso de História. Ganhei uma bolsa de estudos e dois mil reais em dinheiro, que eu acho que vou doar para alguma instituição de câncer. Seria legal, não é? Poder ajudar tantas pessoas que estão na mesma situação em que mamãe estava.
– Ah, que legal filha. – meu pai parecia distante, como sempre estava. – Bem legal... – ele ficou em silêncio por algum instante. – Escuta, Ana, te liguei para avisar que não vou para casa hoje. Vou ficar para o plantão hoje à noite. Eu sinto muito mais uma vez.
– Mas por que, pai? Isso é muito injusto! Você não é o psiquiatra chefe desse hospital? Não pode mudar a escala? – minha voz engasgava. – A gente podia sair para comemorar pela minha vitória na competição. Não saímos para jantar fora a muito tempo junto com a vovó...
– Eu sei Ana. Mas é o meu trabalho. As coisas não são assim. – ele endureceu a voz. – Olha, eu sinto muito. Mas prometo te recompensar, está bem? Tenho uma notícia para te contar e sábado vamos jantar naquele restaurante que você ama. Quero você e sua avó bem bonitas. É uma notícia importante, ok? Vou mandar o motorista te buscar hoje no internato.
– Notícia? Que notícia? – eu estava muito irritada.
– Sábado te conto. Tenho que desligar agora. Chegou um paciente. Te amo. Até sábado.
E desligou.
Eu não podia acreditar que ele havia feito isso mais uma vez. Ele nem deu a mínima importância para o campeonato. Ele sabia o quanto ganhar havia sido importante para mim. E agora eu também estava preocupada com a repentina notícia importante que ele queria dar. Eu amaria se ele dissesse que iria diminuir os plantões e que passaria mais tempo comigo e com a vovó. Se ao menos mamãe ainda estivesse aqui.
Eu tinha que sair da cafeteria. Longe de qualquer pessoa. O nó na minha garganta apertava cada vez mais. Não iria para a aula de xadrez. Não conseguiria.
Fui caminhando pela escola procurando o lugar mais remoto, onde ninguém seria possível de me encontrar. Passei pelas quadras e campos de esporte, porém nelas ou estavam acontecendo aulas, ou os zeladores estavam fazendo alguma manutenção. Até que cheguei às piscinas de natação. Não havia sequer uma alma viva e por isso estava com o portão fechado. Que inclusive, fui bem rebelde, pulei e me esborrachei no chão, ralando toda a minha mão. Mas eu não me importava, poderia chorar por isso também. Subi até a escadaria que dava acesso às arquibancadas e vi que eu estava enganada. Havia outra pessoa ali também, escondida atrás da parede, onde ninguém poderia a ver caso alguém passasse pelo portão. Gostaria de ter feito o mesmo, mas passei por ela tentando reconhecer quem era a super esperta, mas a blusa azul escura com capuz tampava todo o seu rosto e além disso estava fumando, o que eu esperava ser nada pior que um cigarro. Subi mais algumas arquibancadas, delimitando nosso território de paz, onde cada um poderia ficar tranquilo com seus problemas sem invadirmos a privacidade um do outro. E enquanto olhava a água sem movimento da piscina a minha frente, desabei silenciosamente. Apoiei a cabeça nas mãos e os braços nas pernas, onde eu só conseguia ver o chão. Enquanto isso, as lágrimas caiam no chão encardido a minha frente, e eu não fazia questão de enxugar.
Senti a atmosfera se encharcar com um perfume Calvin Klein que eu tinha a impressão que já havia sentido antes, misturado com o cheiro forte de fumaça de cigarro e alguém havia sentado ao meu lado. Permaneci petrificada.
– Tá chorando?- perguntou em sua voz grave conhecida.
Era ele. Tiago mais uma vez.
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