Vem comigo!

1 A maior surpresa da vida.


CAPÍTULO 1

– E agora, para finalizar nossa Reunião Escolar Mensal, gostaríamos de anunciar em primeira mão, o 1º lugar do Campeonato Estadual de História, que levará para casa, além de uma bolsa de estudos na melhor Universidade do Estado, dois mil reais em dinheiro, para poder investir no que quiser... – Prendi a respiração, com medo do pronunciamento do diretor. — ...Nossa grande aluna, ANA CAROLINA AVILA! – Gritou o diretor, exaltando meu nome o mais alto e compassivo que pode, de cima do teatro lotado.

Encurvei-me na cadeira desejando muito poder me enfiar de baixo dela e dali nunca mais sair. Teria passado despercebida aos olhares do teatro lotado se meus amigos não tivessem me ovacionado de pé aos gritos e aplausos exagerados. Sentia meu rosto queimando e enrubescendo. Não havia algo que temia mais do que chamar a atenção. Fazia de tudo o possível para passar despercebida e tinha conseguido até agora. Agora, todos os olhares estavam sobre mim, buscando os pequenos detalhes que pudessem ser usados contra mim em minha total vulnerabilidade e fragilidade de quem não se encaixa nos padrões dessa escola.

– Parabéns, Aninha!

– Você merece.

Meus amigos me abraçavam e me davam leves batidas nas costas. Mais felizes por mim do que eu mesma. Até porque no momento, eu estava totalmente anestesiada, apavorada por ter todos os olhares curiosos em cima de mim.

–Vamos rápido, Ana Carolina! Venha aqui ao palco. – apressou-me o diretor, puxando-me para a superfície da dormência pavorosa em que eu estava imersa só para depois me afundar novamente. Respirei fundo. Teria que passar pelo corredor de cadeiras ocupadas pelos pares de olhos cruéis. A minha sorte era que a maioria das pessoas ali não estavam dando a mínima para aquela reunião escolar ou o Campeonato Estadual de História. Indiferentes, muitos conversavam e riam sobre assuntos tão fúteis que Einstein, Locke e Aristóteles revirariam em seus caixões decepcionados com o rumo em que se deu a sociedade.

Tentei parecer natural ao caminhar até ao palco. Pior do que eu já estava achando não ficaria. O quanto antes saísse dali de cima, menor seria os estragos. O diretor sacolejou minha mão. O orgulho em seus olhos era claro, mais uma aluna de sua escola havia ganhado mais um Campeonato e consequentemente, mais renome sua escola e seu nome teriam. O Diretor Gregório era o típico administrador escolar moralista que investia pesado em qualquer tipo de campeonato só para mostrar para todo mundo a quantidade de troféus que sua escola acumulava. Os prêmios mais acumulados eram os de esporte, música e campeonatos estudantis de matemática, história e química. Esses últimos todos ganhos por meus amigos, e agora por mim!

Ele me entregou o troféu, só para não quebrar o ritual. Sabíamos que simbolicamente o troféu era meu, mas que mais tarde estaria exposto em uma das estantes do extenso corredor de troféus do Internato São Petersburgo. Peguei o pequeno troféu. Esse se destacaria entre todos os outros do corredor. Uma pequena estátua em vidro fosco, sustentando um livro aberto com as duas mãos e na base, de metal, os escritos em letras versais douradas:

30º CAMPEONATO ESTADUAL DE HISTÓRIA

1º LUGAR

– Obrigada, Diretor Gregório. – Agradeci rápido e me preparei para voltar ao meu lugar.

– Não agradeça a mim. Agradeça a sua escola.

O diretor me conduziu, quase a força até o púlpito, obrigando-me a falar em público.

Daqui de cima, tinha a visão panorâmica de todo a plateia. Podia ver todas as pessoas presentes ali, alguns cochilando no fundo escuro, conversando e dando risadas, outros desinteressados jogando bolinhas de papel nos outros, como se o púlpito tivesse me dado certos poderes especiais, fazendo-me captar cada detalhe minucioso de tudo que estava acontecendo no teatro cheio. Pelo menos eu estava invisível para aquelas pessoas.

Avistei, para meu desgosto e desespero, pessoas que prestavam atenção em cada movimento que eu fazia.

O grupinho de Tiago Brignoni e seus amigos capitães das equipes esportivas e de música, que mantinham a fama do colégio por conseguirem o 1º lugar em todas as premiações e por serem os estereótipos de caras perfeitos para as garotas do 5º ao 3º ano do Ensino Médio.

Agarrada a Tiago, estava Maressa, e ao seu lado suas cinco seguidoras que ela chamava de amigas. Não eram ninguém e não faziam nada, a não ser desfilar pelo colégio com seus uniformes propositalmente diminuídos, e seus namorados capitães. Entre eles, meus amigos e eu, existia nada mais do que uma relação extrema de ódio. Nos consideravam grandes retardados caretas, e por esse motivo, viviam procurando algum motivo para nos rebaixar e nos intimidar.

– E-eu.. — o nervosismo tomou conta de mim, eu mal conseguia respirar direito, observando suas expressões debochadas. Passei os olhos rapidamente entre a plateia, procurando por meus amigos. Encontrei-os poucas fileiras a frente do grupinho Tiago-Maressa. Sorriam e acenavam, ansiosos pelo meu pequeno discurso. Suspirei para pegar coragem, meus amigos me passavam a segurança que eu precisava. — Eu gostaria de agradecer...

Fui interrompida por uma sucessão de gargalhadas vindas de um só lugar. Voltei meus olhos para os capitães e todos riam escandalosamente. O melhor amigo de Tiago, um moreno forte e alto de fortes expressões, cochichou alguma coisa em seu ouvido e tornou a rir. Tiago me encarava, eu estava ficando assustada. Então, abafou uma risada e abaixou a cabeça. Meu nervosismo e descontrole me impediam de respirar, tentei prosseguir, mas as risadas ecoavam por todos os cantos do teatro. O palco girava e girava e tudo se transformava em borrões pretos e vinhos. Dei alguns passos sem direção, procurando o diretor, mas não conseguia distingui-lo entre os borrões.

– Eu...

Não vi mais nada.

– Ela está acordando!

Abri os olhos devagar deixando que a luz os invadisse. Aos poucos fui percebendo e reconhecendo cada um dos meus amigos. Estava na Enfermaria. Mariana, minha colega de quarto e melhor amiga, era a mais próxima do meu rosto, apreensiva, os grandes olhos verdes arregalados, me encaravam. Eu estava confusa, afinal não entendia por que estavam todos ali, encarando-me.

– O que aconteceu?- minha cabeça pesava, como se alguém tivesse me jogado um tijolo.

– Você desmaiou durante seu discurso. – Fred apareceu em meu campo de visão, arrumando timidamente os óculos.

– NÃO! — espantei-me. – Não. Não. Não! Eu não acredito... Que vergonha! E agora, o que vão pensar de mim? — Me lembrei de como estava nervosa por ter que falar em público e das risadas do grupinho de babacas. Sentei-me de uma vez e minha visão turvou. Seis mãos apressaram-se em me segurar.

A enfermeira apareceu, trazendo nas mãos um aparelho de aferir pressão, um estetoscópio e seu bloquinho de notas. Andréia Paiva era com certeza a melhor enfermeira que poderia existir, além de ser a preferida dos meninos.

– Não se levante tão rápido, mocinha! Você bateu a cabeça em cheio no chão. – advertiu-me, pegando meu braço direito e ajeitando nele o aparelho de pressão. – Primeira vez que fala em público? – perguntou, apertando a bombinha de ar, fazendo com que inflasse a almofada e apertasse meu braço.

– Sim, eu estava muito nervosa. E também, tinha umas pessoas rindo de mim.

Andréia riu.

– Como sabe que riam de você? – perguntou, colocando o estetoscópio gelado no meu toráx.

Eu tinha certeza. Quis responder. Mas não consegui pronunciar. A imagem de Tiago Brignoni encarando-me e sorrindo disfarçadamente apareceu de repente, sem razão nenhuma.

– Quando estamos falando ao público, sendo o centro das atenções, geralmente vemos mais do que realmente é, sabiam? – Andréia, fez algumas anotações em seu bloquinho.

– É mas, quando a Ana caiu no chão, eu ouvi eles rindo dela. – falou Antônio, impondo a voz em tom de defesa.

– Vocês tem que parar com essas rixas escolares. Isso tudo passa um dia. – Andréia riscou dois papeis no que parecia uma assinatura e me entregou um deles.

– Não somos nós! Eles que nos implicam. – Antônio continuava, e todos os outros concordavam.

Eu só conseguia pensar o quão baixa uma pessoa conseguia chegar a ponto de rir de outra em seus momentos de maiores dificuldades. E o pior, a troco de que? Meu medo de palco me levou aos extremos e agora toda a escola me caçoaria. Eu podia dar adeus a minha invisibilidade tão bem cultivada e a culpa era daqueles babacas. Todo aquele cinismo de Tiago, me encarando e rindo, me levavam a uma conclusão, só podia ter sido ele quem começou. Tiago, era o exemplo perfeito do tipo de aluno que ninguém deveria ser. Filho do Presidente da Corporação Brignoni, umas das empresas mais renomadas de São Paulo, parecia não dar valor a tudo que tinha. Suas notas eram péssimas, vivia faltando aulas, desafiando os professores, pregando peças nos alunos e funcionários. Era como se tudo que importasse para Tiago, era sua beleza e seu bom status como capitão do time de futebol. E esse também era o motivo pelo qual o diretor ainda não havia o expulsado. Sem Tiago, o Internato de São Petersburgo não teria seu renome por ter o melhor time de futebol.

– Está tudo bem com você. Da próxima vez, para diminuir seu nervosismo, tente encontrar um ponto fixo acima do público e comece a falar naturalmente. O medo não tem solução, mas ele pode ser driblado. – Andréia sorriu.

Desci da maca, e meus amigos me deram novamente os parabéns pela premiação. Uma forma de consolação para que eu não me importasse tanto com o acontecido. Afinal, minha premiação fora “ um acontecimento muito maior do que meu desmaio. Amanhã ninguém mais lembraria.” Me disseram. Eu esperava que sim.

– Que dia! — disse Fred enquanto saíamos da enfermaria. – A primeira coisa que vou fazer quando chegar no meu quarto é assistir ao último episódio de Nazo no Shojo.

– Melhor episódio que já lançaram! Acho que você vai gostar... Vai acontecer uma coisa com o Shihu... – Antônio quase gritava pelo pátio vazio enquanto andávamos a caminho dos dormitórios. O dormitório feminino e masculino eram dois grandes e antigos prédios, assim como todo o colégio, com três andares cada, localizado ao Sul do prédio principal. Ficavam a longas distâncias um do outro, mas de modo que da porta principal do masculino, poderia ver, bem pequenina, a porta principal do feminino. Uma forma irônica dos fundadores do Internato para dizer “ a tentação que não poderão nunca ter acesso.” E nunca mesmo. Cada dormitório dispunha de dois auxiliares, que moravam no Internato assim como nós e impediam o acesso de meninos no dormitório feminino e vice versa. Além de uma enorme placa metálica ao lado da porta principal advertindo o acesso, sob pena de Detenção Grave.

Olhei para o céu enquanto caminhava. Já estava escuro. Podia ver a constelação de Oríon e sua principal estrela, Rigel, brilhando tremulantes no céu pouco estrelado. Será que o grande caçador, Oríon, filho de Poseidon com uma mortal, e amado por Ártemis, teria ficado muito nervoso ao ponto de desmaiar, diante de uma grande plateia? Ainda podia sentir o peso do meu vexame sobre as minhas costas. Precisava de alguma coisa para poder esquecer, ou isso me atormentaria durante o resto da semana!

– Quantas horas? – perguntei. Talvez a Biblioteca ainda estivesse aberta.

Mari, Antônio e Fred olharam em seus relógios e celulares simultaneamente.

– 7:40 da noite! – Mari foi a mais rápida dos três.

– Acho que vou à biblioteca! — Parei de andar. – Alguém quer vir?

– Mas a biblioteca já está quase fechando! – me alertou Mari.

– Eu não vou. Tenho um episódio de anime para assistir.

– Ainda tenho dever de matemática para terminar. Deixa pra próxima. – Antônio desculpou-se.

– Então eu vou! – disse, dando meia volta. A biblioteca não ficava muito longe dali, mas teria que me apressar se quisesse ter tempo para escolher um bom livro.

– Você devia ir descansar, Ana! – Mari gritou quando já estava distante.

Entrei na biblioteca e Dona Joana, uma bibliotecária já aposentada que ficava responsável pelo 3º turno de funcionamento da biblioteca, dava baixa nos últimos livros do dia.

– Já vamos fechar! – me alertou com a voz baixa, mesmo a biblioteca estando praticamente vazia.

– É rapidinho dona Joana. – passei por ela com pressa, me dirigindo ao segundo andar.

Nem preciso dizer que a biblioteca era meu lugar favorito no Internato. Apesar de ser um antigo prédio por fora, por dentro, parecia um verdadeiro ambiente futurista. Bem grande, dispunha de dois vastos andares, com números incontáveis de livros, revistas, jornais. Tínhamos uma área de filmes de qualquer gênero, desde os educativos aos de entretenimento. Do lado da área de filmes, contávamos com 30 computadores para livre acesso, além de uma cafeteria e a sala de Artes, onde os alunos que tinham aulas de Artes em sua grade curricular, vinham para cá. As mesas e estantes eram todas de madeira marfim e as cadeiras, de um plástico resistente, transparente. Não tinha como não amar.

Sem tempo e sem opção para escolher um livro, fui até as últimas prateleiras do segundo andar, onde ficavam os livros clássicos. Percorri os olhos pelos livros rapidamente, procurando um título que me chamasse a atenção. Eu não sabia exatamente pelo o que estava procurando, mas só esse exercício me aliviava do peso que sentia. Foi quando ouvi murmúrios alvoroçados vindos da prateleira a frente da minha. Eu não era a única a frequentar a biblioteca em seu horário de fechamento.

– Já disse que não, Maressa!- ouvi uma voz grave proferir em tom impaciente.

MARESSA? Será que tinha escutado direito? Apressei-me em tirar os livros da estante de onde vinha a voz. Para não fazer barulho, fui retirando os livros do lugar, devagar, para poder enxergar o que tinha do outro lado, e com muita dificuldade de ver por entre as frestas, descobri que o dono da voz, era também dono de largas costas e braços bem torneados.

– Porque não... Estou no meu quarto!- mesmo falando baixo, consegui escutar. — alguém estava escondendo algo e eu precisava descobrir quem era. Coloquei os livros de qualquer jeito na estante e sorrateiramente fui até a ponta. Hesitei, com medo. Talvez eu não devesse me intrometer.

– Por que estou falando baixo? Mas que... Eu estou cansado, Maressa! Pelo amor de Deus... Tive um treino pesado hoje... NÃO! Tchau. Eu já disse tchau.

Meu coração despencou até meu estômago e congelou todo o resto. Eu mal podia acreditar quem era. Não era possível! Eu tinha que ver isso.

Apareci sem hesitar do outro lado e Tiago Brignoni sobressaltou-se quase derrubando o livro que segurava na mão. Estávamos chocados. Tiago me encarava com o rosto perplexo, a boca entreaberta, sem conseguir pronunciar uma só palavra.

Eu nunca tinha estado tão perto de Tiago Brignoni como agora. Seus cabelos loiros despenteados quase lhe tocavam os olhos, pequenos e tão azuis como as águas oceânicas de uma ilha paradisíaca qualquer. Os cílios proeminentes lhes davam um ar quase angelical, se não estivéssemos falando de um completo babaca. Sua boca pequena e fina em total harmonia com seu maxilar quadrado e bem marcado. Sem falar na pequena pinta rente ao canto dos lábios superiores. Seu corpo esguio, totalmente petrificado, revelava uma musculação perfeita, sem exageros. Eu finalmente compreendia o porquê de tantas meninas enlouquecidas por isso!

Tiago colocou o livro de capa vermelha e espessa em um espaço vazio da estante com brutalidade e impaciência, e saiu a passadas largas, o rosto abaixado, constrangido. Passou por mim com muito cuidado, se esquivando para não me tocar. Das escadas, pude ouvir o peso que colou nos pés para descê-las com pressa, como se elas fossem um estorvo, impedindo-o de sair o mais depressa possível dali. Fui até a estante onde ele havia colocado o livro vermelho e o peguei, ainda perplexa pelo o que tinha acabado de ver. O título me deixou ainda mais encabulada. Em letras bem desenhadas, quase apagadas, se liam:

Os Miseráveis

Victor Hugo

Volume 1

– MENTIRA!

Tiago Brignoni lendo um clássico livro francês do século dezenove! Só podia ser piada.