Velvet Touch
28 Vida Que Segue
Notas iniciais
Desde o dia em que saíra praticamente escorraçado da casa de Clara, Cadu chegou a conclusão que, de fato, tudo aquilo era real. Clara não fazia mais parte de sua vida, seu filho seria um visitante em sua casa, e os sonhos e planos que tanto idealizara com aquela família, haviam simplesmente acabado.
Apesar das inúmeras discussões, do divórcio, e tudo o mais, até aquele dia ele ainda achava que isso era uma fase. Um momento pontual da vida da ex-esposa, que talvez por ter se casado jovem demais com ele, não tivesse vivido curiosidades de sua própria sexualidade, e que em uma bela manhã de sol, ela acordaria, olharia para o seu lado na cama, e se perguntaria por que havia uma mulher ali.
No entanto, depois de ver tudo o que viu nos olhos tanto de Clara quanto de Marina, o chef definitivamente pendurou as chuteiras, e entregou os pontos daquela briga. Afinal, Clara era mesmo da fotógrafa. Estava estampado no brilho castanho de seus olhos, e se quando casados ele não pôde fazer nada para impedir o desenrolar de tudo isso, agora, definitivamente é que não conseguiria mesmo.
Os dias que as duas passaram com seu filho em Bariloche, lhe pareceram mais como um filme insistente e chato, que repetia-se incansavelmente diante de seus olhos. Como se cumprisse alguma espécie de ritual, todos os dias ele levantava, mal se olhava no espelho, quase não se penteava, tomava banho como que arrastado, ia para o galpão por pura obrigação, passava algumas horas em seu bistrô, e logo desaparecia, indo para o bar mais próximo que encontrasse. A partir daí, sem que se desse conta efetivamente, fez da bebida sua companheira fiel. Era nela que buscava conforto todas as tardes e noites, desde aquele fatídico dia.
Era domingo, e mais uma vez, o dia se arrastava. Apesar do grande movimento no galpão, o bistrô andava meio as moscas aquela tarde. Sentindo a ociosidade lhe inquietar, o chef serviu-se de mais uma dose de whisky, e olhou em seu relógio de pulso no exato momento em que os ponteiros cravaram 16h. Fez as contas mentalmente, e pelo combinado entre ele e Clara, dentro de duas horas, teria que deixar seu filho no Leblon, em companhia da mãe e provavelmente de sua namorada.
Respirou fundo. Pensar em Clara era sempre uma questão delicada. Soltou o ar devagar, deixando seus pulmões se esvaziarem por completo antes de preenche-los novamente. Seu peito não se acalmava. Sua mente não lhe dava sossego. Repetiu esse movimento algumas vezes, buscando alcançar a sobriedade que lhe escapava depressa, tão depressa que parecia praticamente correr para longe de si, com a promessa implícita de nunca mais voltar.
Inesperadamente, sentiu uma fisgada diferente atacar seu músculo cardíaco. Sem poder controlar, sua respiração descompassou-se de uma hora para a outra, e seu coração agora parecia estar prestes a espatifar-se em seu peito.
Tentou ficar em pé, mas suas pernas não lhe atenderam. Tentou chamar alguém, mas a voz desapareceu. Tentou gritar, mas parecia não ter forças dentro de si, para que a tentativa de vibração forçada de suas cordas vocais produzisse algum som. Tentou ao menos agarrar-se a porta de seu escritório, mas no fim, não conseguiu executar nenhuma dessas tarefas, tampouco pôde manter seus próprios olhos abertos, para assistir o peso de seu corpo indo de encontro a cadeira de madeira a sua frente, alcançando o chão logo em seguida.
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Assim como prometera a Clara, Victoria se propôs a ouvi-la. Encostou o carro em um café que costumava frequentar com Vanessa, já próximo a casa da assistente de fotografia, no fim da praia de Ipanema. Antes mesmo de sentarem-se, no exato momento em que ambas saíram do veículo, Clara desatou a falar, atropelando as palavras com sua própria língua, e gesticulando mais do que a francesa já estava acostumada a vê-la fazer habitualmente com ambas as mãos.
O desespero na voz, nos gestos, e nas atitudes de Clara era evidente. Vic via isso, e no fundo, no fundo, impressionava-se com o fato de Marina não perceber a incoerência dos últimos supostos acontecimentos envolvendo a dona de casa. Por um lado, falando em termos racionais, era difícil acreditar que Clara conseguisse ter um comportamento desse tipo. Ainda mais quando tudo colocava em risco sua relação com Marina, a mulher que ela jurou reconquistar, e manter ao seu lado pelo resto da vida. Já por outro, pensando de forma mais emocional, a atitude de Marina chegava a ser compreensível, afinal, Clara tinha tido a infelicidade de mentir para a fotógrafa, e conhecendo a ex-aluna como conhecia, a francesa sabia que isso era uma quebra de confiança que demoraria tempo para ser reparada. E com certeza, naquele momento, isso contaria muitos pontos contra Clara.
_Clara, calma. Já disse que acredito em você. Não precisa tentar me convencer mais. Só me conta tudo o que aconteceu – rebateu a francesa, tencionando calar as argumentações desesperadas, e quase sem sentido que saiam prolixamente da boca da assistente de fotografia.
_Desculpa. Eu... – Clara permitiu-se respirar fundo por um instante, levando a mão direita até o peito, pressionando-o levemente. Como se com esse movimento fosse conseguir segurar, e compassar os batimentos de seu coração, há muito descompassado e acelerado em seu peito – Eu tô meio perdida. Nos dois últimos dias ando só tentando me explicar pra todo mundo, então, enfim... – sorriu amarelo, muito mais amarelo do que gostaria, e ainda tentando entender o motivo de Vic acreditar nela com toda aquela convicção, encarou os olhos azuis da outra – Vic, porque você acredita em mim, e ela nem me ouve?
_É complicado, Clara. Eu tô de fora de tudo isso. Então, querendo ou não, pra mim é mais fácil ver a incoerência dessa história toda. E... Bom... É fato que, infelizmente, você mentiu pra ela. Justamente para ir jantar com a Melissa – disse assumindo um tom delicado e cauteloso, como se encostasse a ponta do dedo na ferida de alguém, não para causar dor, mas apenas para lembra-la de que ela está lá.
_Se você soubesse o quanto eu me arrependo de ter feito isso – disse cansada, ou melhor, cansada não, exausta daquele tema; daquela noite; das lacunas de sua memória; mas principalmente, da simples menção do nome daquela mulher, e de tudo o que sua infeliz decisão lhe acarretara. Respirou fundo mais uma vez, evidenciando toda a exaustão de sua mente, seu corpo, e sua alma. Sem que percebesse conscientemente, baixou a cabeça, deixando seu rosto esconder-se devagar por entre os dedos, que insistiam em permanecer trêmulos.
_Por que você mentiu, Clara? – manteve o mesmo tom delicado e gentil de antes – Eu disse que acredito em você, mas preciso que você confie em mim e me diga a verdade. O que, exatamente, aconteceu naquela noite?
_Eu fui uma idiota, Vic. Essa é a verdade! — irritou-se consigo mesma — Cai na lábia da Melissa, e acabei aqui, nessa situação — respirou fundo, e voltando a encarar a loira nos olhos, contou tudo do que se lembrava.
Falou sobre o convite de Melissa; sobre suas intenções ao aceitar jantar com ela e ir até sua casa; sobre o vinho que beberam; sobre os flashes de memória que tinha daquela noite; e sobre o mistério total que era a forma com a qual havia chego em casa. Victória ouvia o relato da mulher a sua frente, sem esboçar muitas reações, e ao final do discurso de Clara, teve certeza: Melissa definitivamente havia drogado a assistente. E pior, além de Marina olhar apenas para os supostos fatos e não acreditar na namorada, ainda por cima desconhecia e ignorava totalmente a realidade de que a mesma, sem dúvida nenhuma, havia sido vítima de estupro por parte da italiana. Afinal, estando na lei ou não, sexo sem consentimento mútuo, seja entre homem e mulher, ou entre duas mulheres, não deixa de ser exatamente isso: estupro.
_Clara, você tem noção da gravidade do que está me falando? Isso transcende qualquer expectativa de peripécia da Melissa. Isso é crime! — disse buscando conter o tom de voz, contudo, a indignação transbordava de seu interior com um ímpeto raro e quase desconhecido a ela mesma.
Por um minuto, Clara não entendeu o que Victória quis dizer com aquilo. Crime? Como assim crime? Involuntariamente, franziu a sobrancelha. Click. Como se virasse uma pequena e invisível chavinha dentro de sua cabeça, Clara começou a cair em si.
_Ela... Eu... Ela... – balbuciava coisas sem sentido, lutando com sua própria mente para não entender a realidade que caia feito uma bomba em seu colo – Vic... Eu... Não! Meu Deus! Não! – sem que se desse conta, escondeu o rosto por entre as mãos mais uma vez. Era verdade que no meio da briga que tiveram, Clara havia prometido colocar Melissa na cadeia, mas no fundo, no fundo, ainda não tinha pensado friamente sobre tudo o que acontecera.
Victória observava a reação de Clara distraída, ainda chocada com as informações que recebera minutos antes, e demorou alguns segundos para perceber que a dona de casa não havia chego a essa conclusão antes. Pela primeira vez na vida, ficou imóvel, sem reação, paralisada. Não sabia o que fazer, falar, tampouco como agir frente a tudo aquilo. Como confortar alguém em uma situação dessas? O que estava passando pela cabeça de Clara naquele momento? O que dizer? Como dizer? Na ausência de algo melhor para fazer, Vic levantou-se e posicionando-se ao lado de Clara, pousou a mão sob seu ombro direito.
Assim que sentiu o toque dos dedos finos e longos da francesa, Clara desabou. As lágrimas banharam seu rosto em uma fração de segundo, e um choro intenso e violento acometeu seu peito sem nenhum aviso prévio. Como uma criança assustada, virou o rosto em direção à loira, e escondendo-se ali, agarrou-se a sua cintura.
_Clara, eu não sei o que dizer exatamente, mas se isso ajudar em alguma coisa: eu estou aqui. Eu prometo que nós vamos desmascarar a Melissa. E que ela vai pagar por qualquer coisa que tenha feito a você!
_Como Vic? Como? Como eu vou poder provar qualquer coisa? Não consigo convencer nem mesmo a Marina! Eu... – os soluços provocados pelo choro intenso, atingiam o peito de Clara com violência, dificultando a fala da assistente.
_Eu ainda não sei, meu anjo – a francesa afagava seus cabelos com a ponta dos dedos – Mas, nós vamos dar um jeito nisso! – Vic realmente não fazia ideia de como faria para conseguir tirar alguma informação de Melissa, mas a promessa era verdadeira. Ajudaria Clara a provar tudo o que acontecera! – Eu mesma vou falar com a Marina hoje, tudo bem? Vou contar tudo pra ela!
_Não! – tirando força sabe-se lá de onde, a voz de Clara saiu encorpada, e um pouco mais alta do que gostaria – Não Vic! Não quero que ninguém saiba disso. Nem a Marina, nem a Vanessa! Por favor!
_Clara, mas... Por quê? – perguntou à loira, visivelmente confusa – A Marina tem que saber o que está acontecendo!
_Não quero Vic! Pelo menos por enquanto – soltou-se da cintura de Victória e baixou a cabeça devagar – Ela não acreditou em mim até agora – as lágrimas pareciam ganhar uma nova motivação para rolar por seu rosto – Eu... Só vou falar pra ela quando tiver como provar isso. Não vou mais ouvir que sou uma mentirosa, traidora, ou qualquer outra coisa assim, Vic – fechou os olhos, saboreando o amargo da lembrança das palavras ditas pela namorada – Então... Por favor! Não fala nada agora.
Não que Vic concordasse plenamente com o que Clara dizia, mas era verdade que Marina não tinha sido nada branda nas acusações que fizera a namorada nos últimos dias. Sabia que assim que Marina tomasse conhecimento de tudo, ficaria magoada com ela por não ter contado antes, mas, devidas as circunstancias, não havia como julgar Clara por não querer abrir o jogo com a fotógrafa agora, e não tinha o direito de questionar o desejo da assistente em manter tudo apenas entre elas. Portanto, resolveu não insistir.
_Tudo bem! Não vou falar nada para a Marina. Tá? – usou o tom mais pacificador e tranquilizador que conseguir encontrar dentro de si.
_Obrigada! E, Vic, eu sei que você e a Vanessa estão namorando, mas, se puder não falar nada para ela também, eu agradeceria, e muito! Realmente não quero ninguém a par dessa história por enquanto. Pode ser? – olhou nos olhos de Victória, e mesmo sem se esforçar para isso, era evidente uma súplica implícita no castanho de seus olhos.
_Tudo bem, meu anjo. Não vou falar com ninguém! – reiterou a francesa, buscando tranquilizar a dona de casa.
_Obrigada, Vic! Muito obrigada! – agradeceu mais uma vez.
Ainda completamente atordoada com tudo o que estava acontecendo em sua vida, enquanto estava sentada ali, Clara sentia sua cabeça rodar. Agradecia imensamente aos céus por ter Victória ao seu lado naquele momento, mas a verdade é que não fazia a mínima ideia de como poderiam fazer para provar o que Melissa tinha feito. Aliás, naquele momento, não conseguia era pensar em nada. Nada tinha nexo dentro de sua cabeça, e percebendo seu corpo enfraquecer, começou a sentir o efeito do cansaço acometer seus sentidos.
_Clara, você está bem? – perguntou Vic ao perceber a dona de casa empalidecer.
_Na verdade, não! – respondeu sem pensar muito, segurando-se na beira da mesa a sua frente – Estou me sentindo um pouco zonza.
_Você não come desde que horas? Aposto que nem dormiu também né? – a preocupação era evidente no tom de voz da francesa.
_Não faço a mínima ideia da ultima vez que comi – sorriu amarelo para a loira a sua frente – Dormir então, sem chance!
_Clara! Não preciso nem falar nada né?! – ralhou com a dona de casa, como uma mãe chama a atenção de um filho rebelde – Vou pedir alguma coisa para você comer.
_Não Vic, eu só preciso ir pra casa! Daqui a pouco o Ivan chega, e eu faço alguma coisa para comermos.
_Não senhora! Vai comer alguma coisa sim. Pode aquietar ai! – impôs a outra – Depois eu levo você pra casa.
Clara não teve mais como debater ou discutir, e no fundo, no fundo, era bom ter alguém ali, cuidando dela, pra variar um pouco das porradas que vinha tomando nos últimos dias. Olhando para aquela cena, não era difícil entender o porquê de Marina e Vanessa terem se apaixonado por aquela mulher. Vic reunia em si todas as melhores características que alguém poderia ter, e pela primeira vez, desde que aquele furacão passara em sua vida, Clara conseguiu sentir-se relativamente bem.
Comeu o lanche que a francesa trouxe para ela, e mesmo sem dizer nada, em silêncio, decidiram não mais tocar no tema Melissa aquela tarde. Depois de dois cappuccinos regados a chantilly, a loira guiou até o Leblon, deixando Clara em casa como prometera.
_Não tenho nem como te agradecer, Vic. Obrigada por ficar do meu lado! – a sinceridade de Clara, podia ser sentida em cada uma das palavras que pronunciava.
_Não tem o que agradecer, Clara. Nós vamos dar um jeito nessa bagunça! Prometo pra você! – olhou nos olhos da outra, e segurou sua mão – Vai ficar tudo bem!
Clara deixou-se ser abraçada pelos braços delicados e fortes de Victória, e depositando toda a sua confiança nas últimas quatro palavras ditas pela loira, seguiu para o vazio de seu apartamento, permitindo-se a esperança de dias melhores.
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Mesmo com seu peso real não passando de algumas poucas gramas, o terror psicológico que aquele pen drive representava, fazia-o pesar toneladas e mais toneladas enquanto repousava sob a palma da mão de Marina. No fundo, no fundo, apesar de fazer uma boa ideia sobre o que poderia encontrar ali, desde o momento em que o havia achado dentro daquele envelope, a fotógrafa sabia que acabaria plugando-o em seu notebook.
Deu dois passos a frente, abriu a tampa do leptop, levou o encaixe do pen drive até a entrada lateral correspondente em seu computador, contudo, no último segundo, ponderou um pouco mais sobre essa decisão. Será que ela precisava ver mais de tudo aquilo? Já não tinha sofrido o suficiente? Já não tinha doído o bastante? Afinal, o que mais poderia haver ali? Algum tipo de arquivo com as fotos que já havia visto, naquele fatídico dia na casa de Clara? Ou talvez fotos do pequeno acervo particular que Melissa pintara, retratando a noite que tivera com sua mulher?
"Com minha mulher" a expressão rodava por sua cabeça, soando-lhe especialmente dolorida e irônica. "Tchau, meu amor." A imagem da despedida que tiveram na sala daquele apartamento, o gosto salgado das lágrimas de Clara que invadiram sua boca naquele ultimo beijo, o apertado do abraço, o perfume dos cabelos dela, o barulho da batida da porta. Barulho esse que selava sua saída da vida daquela mulher. Sua saída da vida daquela a quem tinha entregue tudo de si. Tudo. Absolutamente tudo!
Todas essas lembranças, sentimentos, e sensações lhe invadiram novamente, e a melancolia lhe atingiu com força. Por mais que não quisesse admitir, era verdade que, apesar de toda a mágoa que carregava consigo desde que vira aquelas fotos, toda a dor que a lembrança daquelas imagens lhe acarretava, todo o amargo da traição que sentia escorrer por sua garganta, ainda não acreditava piamente que Clara tinha sido capaz de tudo aquilo. Não queria acreditar.
Queria mesmo era poder se agarrar a versão dela de tudo isso. Mas, como acreditar apenas em palavras, quando se tinha tantas provas que mostravam o contrário? Como negar as fotos que teve em mãos? O quadro encostado na parede a sua frente? Como acreditar apenas em suas palavras, quando Clara já havia mentido tão descaradamente para ela? Talvez ela não soubesse que Melissa estava registrando aquele momento, mas, negar que tudo aquilo tinha acontecido? Ah, ai já era um pouco demais! Já era... Impossível demais!
Encarou novamente a pintura a sua frente, e quase que inconscientemente, levantou-se de onde estava, indo em direção ao quadro. Com a ponta dos dedos indicador e médio, delineou o rosto de Clara, como se lhe fizesse um carinho.
_Eu poderia acreditar que você se arrependeu, meu amor. Mas, você continua mentindo pra mim! — disse baixo, olhando fixamente no castanho dos olhos da mulher na tela, quase como se sussurrasse a frase ao ouvido da própria Clara. Da sua Clara.
Baixou a cabeça, e no auge do mais profundo silêncio, sem rompante nenhum, uma única lágrima traduziu a dor que a fotógrafa sentia. Tirou a mão que ainda acariciava o rosto de Clara na tela, e colocou-a sobre seu próprio peito. Respirou fundo, e voltou a olhar para o pen drive ao lado do notebook.
_Se tem que doer, que sangre tudo de uma vez! — pegou novamente o pequeno retângulo branco de plástico — Vamos lá, Marina! Vamos lá!
Sem pensar muito, tampouco dar tempo a si mesma para desistir de fazer aquilo, plugou o pen drive em seu computador, e quase que em um reflexo de auto defesa, fechou os olhos. No entanto, agora era tarde demais para desistir. A curiosidade quase masoquista que aqueles arquivinhos na tela despertavam dentro de si, era algo que não conseguiria mais ignorar. Haviam pelo menos cinco pastas ali, todas nomeadas com "Clara" e um número não sequencial a frente.
Pensou em fazer o bom e velho minha mãe mandou, mas rapidamente percebeu o quão idiota era aquilo. Respirou fundo mais uma vez, como que se preparando para o que viria a seguir. Em seguida, soltou o ar devagar. Como se conseguisse prever que perderia o fôlego assim que clicasse naquele primeiro arquivo, "Clara042", voltou a encher os pulmões com o máximo de oxigênio que pôde.
No exato momento em que a imagem apareceu na tela, Marina empalideceu. Na ânsia de ver logo o que tinha ali, a fotógrafa nem mesmo reparou que o arquivo que clicara correspondia a uma mídia de vídeo, e a visão de Clara entregue aos beijos de Melissa doeu muito mais do que tudo o que já tinha passado até ali.
Como se quisesse se dilacerar de vez, plugou seu fone de ouvido e aumentou o volume do vídeo. Clara estava relativamente quieta no meio de tudo aquilo, mas, enquanto assistia a boca da italiana descer pelo pescoço da ex-namorada, Marina podia ouvir cada estalar dos lábios de Melissa, por menores e mais baixos que fossem.
Automaticamente, sentiu seu estomago embrulhar. O rosto molhar. A falta de ar e o soluço, atropelarem seu peito violentamente. Queria parar com aquilo. Queria simplesmente desligar o computador e sumir dali. Contudo, mesmo sem entender exatamente o porquê, obrigava-se a permanecer sentada ali, torturando-se lentamente com as cenas e sons que via e ouvia.
As mãos de Melissa passavam por aquele corpo que era dela. A língua da italiana fazia os mesmos caminhos que ela própria percorrera, tantas e tantas vezes. Assistiu Melissa tirar a calcinha de Clara, e no exato momento em que decidiu que aquilo já era demais pra ela, ouviu a carioca gemer de expectativa. De desejo. Aquele mesmo gemido que a fotógrafa ouvira Clara deixar escapar, tantas e tantas vezes em sua própria cama.
Olhou para o rosto de Clara com raiva, e a expressão que viu no rosto da dona de casa era confusa. No entanto, isso não interessava mais. Ainda sem apertar o pause, com o dedo indicador pairando levemente sobre o botão do click do mouse, Marina bufava. O que antes era dor, agora virava a mais pura raiva.
Mais uma vez, um gemido baixo escapou dos lábios de Clara no video, e para coroar o momento, Melissa já sabendo que enviaria aquilo para Marina em algum momento, olhou exatamente em direção a câmera, e mordendo seu lábio inferior, deixou uma leve piscadela para a lente. A provocação era evidente e endereçada, mas Marina não tinha como não cair nela, e a fotógrafa sentiu seu sangue literalmente ferver nas veias.
A partir daí, tudo aconteceu rápido demais para que Marina conseguisse processar efetivamente. Em questão de segundos, a fotógrafa simplesmente explodiu. Propositalmente, jogou seu notebook no chão, levantando-se bruscamente de onde estava, e indo em direção a cozinha. Poucos segundos depois, voltou com uma faca empunhada em sua mão direita, e sem pensar meia vez, começou a desferir golpes contra o quadro encostado em sua parede, rasgando a parte da tela que continha a imagem de Melissa de fora a fora.
O silencio não era uma opção, e literalmente aos berros, a única coisa da qual Marina não chamou a italiana naquele momento foi de santa, pois de resto, Melissa foi premiada com absolutamente todos os piores adjetivos já vistos na historia da língua portuguesa.
Vanessa, que estava no andar de cima, ouviu a gritaria começar, e imaginando que o pior pudesse estar acontecendo no estúdio, correu em direção aos berros de Marina, torcendo para não encontrar nenhum cadáver por ali. Assim que empurrou a pesada porta vermelha, foi simultaneamente tomada por dois sentimentos: alívio e espanto.
Obviamente, o alívio advinha do fato de nem Melissa nem Clara estarem ali pessoalmente, como a ruiva imaginara que estivessem no momento em que ouviu os gritos da fotógrafa, minutos antes. Já o espanto, ficava por conta da cena que assistia. Marina estava literalmente esfaqueando a tela enviada por Melissa mais cedo.
_Marina! O que você tá fazendo? Tá maluca? — no fundo, o desejo de rasgar aquela tela havia batido também na ruiva, contudo, o que a preocupava mesmo naquele momento, era a raiva com que Marina executava os golpes contra o quadro. Nunca a tinha visto descontrolada daquele jeito, e seu medo era de que ela acabasse machucando a si mesma com aquela faca — Marina! Para com isso! — chamou seu nome mais alto, mais forte. No entanto, a fotografa não parecia disposta a parar com aquela loucura.
Sem saber exatamente o que fazer, e percebendo uma mancha vermelha espalhar-se, e tingir a faixa branca do curativo feito mais cedo por Vic na mão de Marina, Vanessa resolveu intervir mais diretamente, partindo em direção a fotógrafa e segurando seus braços, a fim de imobiliza-la. Entretanto, a força que Marina dispendia nos músculos naquele momento não era normal, e em um movimento impensado, a fotógrafa acabara cortando a palma da mão de Vanessa.
O sangue começou a escorrer quente e escuro, contrastando perfeitamente com a pele extremamente branca da ruiva; que no primeiro momento, nem mesmo percebeu o que havia acontecido, dando-se conta apenas quando viu os pingos vermelho vivo no chão. Como se voltasse a si, no mesmo instante, Marina parou tudo o que estava fazendo.
_Van! Eu... Não... Eu não queria... Você tá bem? — desesperou-se ao entender que ela era a responsável pelo sangue que pingava da mão de Vanessa.
_Calma Mari, tá tudo bem! Foi só um corte de nada. Tá tudo bem! — disse, tentando acalmar a mulher a sua frente.
_Me desculpa, Van. Eu... — Marina não sabia o que fazer, menos ainda o que falar.
_Ei, eu sei que você não queria fazer isso. Tá tudo bem! Agora me dá isso aqui — com todo o cuidado do mundo, e ignorando completamente o fato de sua mão estar latejando de dor, pegou a faca da mão da outra.
Como se ainda recobrasse sua consciência, Marina olhou em volta, buscando entender exatamente o que tinha acontecido ali. Havia pedaços de tela espalhados por boa parte do estúdio, enquanto na tela original, não restava muito além do rosto de Clara.
_O que aconteceu aqui, Marina? — ainda ignorando a dor que sentia, Vanessa tentou entender o cenário de guerra em que Marina transformara seu estúdio — Dentro do possível, você estava bem na hora que eu sai. O que foi que aconteceu afinal?
_Essa vagabunda, Vanessa! Apontou para os restos mortais da tela que espalhavam-se pelo chão — Essa italiana filha da puta! Destruiu meu relacionamento, tirou a mulher que eu amo de mim e pra que? Por quê? POR PURA DIVERSÃO! — voltou a erguer a voz — Tudo bem que a Clara não é santa nisso tudo, e tem a culpa dela no cartório, mas essa vadia cercou ela, jogou, seduziu, e por quê? Pura competição comigo! — sem conseguir controlar, a fotógrafa sentia-se explodir, interna e externamente, jogando os braços para o ar — Joguinho Vanessa! Por ego! Puro ego! E pra que? Pra no final, poder esfregar na minha cara, exatamente igual ao que ela ta fazendo agora!
Ainda sem entender exatamente o que tinha mudado do momento em que saíra, para aquele, Vanessa decidiu que não era o melhor momento de pressionar e chefe, e optou por deixar o assunto para depois.
_Calma, Mari. Calma! Vem, vamos subir pra dar uma olhada nesse seu curativo, e fazer um pra mim também — disse jogando seu braço por sobre os ombros da outra, enlaçando-a em um meio abraço, e guiando-a em direção a escada.
Sem relutar mais, Marina se deixou ser guiada escada acima por sua assistente. Antes mesmo de chegar em seu quarto, a exaustão parecia acometer cada músculo de seu corpo. Do menor ao maior. E a fotógrafa passou literalmente arrastada pela porta de seus aposentos.
Com toda a paciência do mundo, Vanessa deitou a fotógrafa em sua cama, refez o curativo em sua mão, e logo em seguida tratou do corte em sua própria mão. Após ambos os curativos estarem feitos, a ruiva serviu de colo para as lagrimas que Marina, mais uma vez, prometeu serem as últimas que derramaria por Clara.
_Ela não merece essas lágrimas, Van! — a mágoa e a raiva misturavam-se em sua voz — Não merece!
_Shiiiiuuu... Calma. Fica quietinha um pouco Mari — esticou a mão até a escrivaninha ao lado da cama, e vasculhando um pequeno frasco branco, tirou um comprimido e entregou-o para Marina — Toma, você precisa dormir um pouco — com a outra mão, deslizava seus dedos por entre os cabelos ondulados da outra, fazendo-lhe um meio cafuné — Amanhã é outro dia, e tudo isso vai passar!
_Sabe Van... Da Clara, só me resta a mágoa, por ela ter me enganado desse jeito — escondeu o rosto no colo da amiga — Essa imagem não sai da minha cabeça! E... Dói demais ficar vendo essa cena das duas juntas. Muito mesmo! — ergueu o rosto novamente, encarando Vanessa nos olhos — Agora, da Melissa... Ah, Vanessa, juro pra você, se eu pudesse, matava essa filha da puta!
_Marina! Não fala uma coisa dessas — falhou com a amiga — Nem brincando!
_Mas eu não tô brincando, Van! Não mesmo! — esbravejou — Ela que não apareça na minha frente tão cedo!
_Shiiiiu. Para de falar bobagem, Marina — intensificou os carinhos que fazia na outra — Fica quietinha, que daqui a pouco o remédio faz efeito, e você vai ter ótimas horas de sono — prometeu a ruiva — Vai acordar melhor amanhã.
_Tudo bem, Van — disse vencida, deixando sua cabeça pousar novamente no colo da outra — Você vai ficar aqui comigo né?
_Vou sim, Mari.
_Fala pra Vic vir também — pediu já sonolenta.
_Vou pedir meu anjo, vou pedir.
Minutos depois, destoando completamente do status em que encontrava-se seu estado de espirito, Marina estava completamente absorta em um sono calmo, tranquilo e sereno.
Vanessa, por sua vez, ainda assustada com tudo o que acontecera mais cedo, estava mais alerta do que nunca. Olhou no relógio, e já começava a preocupar-se com a falta de noticias de Victoria. Desvencilhando-se com cuidado da cabeça da fotógrafa, que pousava em seu colo, foi até seu quarto buscar o celular que havia deixado por lá. Assim que pegou o aparelho, havia uma mensagem da namorada, recebida a quase uma hora atrás. Preocupada, leu ali mesmo, em pé:
"Amor, como estão as coisas? Marina tá bem? Vou demorar um pouco para chegar ai. Estou aqui na casa da Melissa, pra acertar detalhes da exposição. Quer aparecer por aqui?"
_Na Melissa? Estranho! — pensou alto — Logo hoje? No meio de todo esse vendaval?
Correu de volta até o quarto de Marina, e assim como no momento em que havia saido de lá, a fotógrafa dormia como uma pedra. Pensou por um instante, e o ciúmes, companheiro tão conhecido de Vanessa, não demorou para falar mais alto do que qualquer outra coisa. Sem mais delongas, escreveu um bilhete com uma lorota qualquer, para o caso da chefe acordar antes que voltassem.
Voltou ao seu quarto, abriu a porta do banheiro, e logo em seguida cogitou desistir da ideia de ir atrás da namorada. Apesar de saber que a fotógrafa não acordaria tão cedo, não queria deixar Marina sozinha em casa daquele jeito. Deu dois passos para trás, saiu novamente de seu banheiro, e assim que pegou o celular para avisar Vic de que não iria ao seu encontro, o aparelho vibrou, notificando a chegada de mais uma mensagem da francesa:
"Amor, a Melissa está dando uma festa. Vou ficar por aqui um pouco. Chego mais tarde! Me manda noticias! Beijo, saudades."
_Ah, mas eu não deixo você sozinha numa festa com essa italiana é de jeito nenhum, Victória Bouvier! — rosnou a ruiva em voz alta.
Sem pensar mais meia vez que fosse, correu para o banho, escolheu a roupa mais sexy que encontrou no seu guarda-roupa, e saiu de encontro a sua francesa.
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Depois da conversa que tivera com Victoria mais cedo, e apesar de permitir-se esperar por dias melhores, Clara estava agora literalmente desnorteada. Apesar de óbvia, a francesa jogara em seu colo uma bomba muito mais pesada do que ela podia suportar naquele momento. "Abuso". "Estupro". Por mais que tentasse tira-las dali, essas eram as palavras que não saiam mais por nada de sua cabeça.
Pensava em Marina. Em como queria que tudo estivesse diferente. Em como queria que fosse ela e não Victória a acreditar em tudo o que dizia. Tentou colocar-se no lugar da namorada: “E se fosse ao contrário”. Mas, essa era uma reflexão absolutamente injusta de se fazer agora. Nessas circunstâncias. Dizer que não, não acreditaria em fotos, e fatos, para acreditar apenas na palavra de Marina, era fácil. Afinal, não tinha acontecido de fato. Não tinha ela sido jogada nessa situação. Contudo, não conseguia parar de martelar as palavras, e os olhares de desprezo da ex-namorada. Ela não havia lhe dado à mínima chance! Não havia considerado nada. Nada. Como ela podia nem ao menos sentar para ouvi-la? Depois de tudo o que passaram para ficarem juntas. De tudo o que sofreram.
Antes de sua mente vagar de vez, foi trazida de volta a sala de seu apartamento com a chegada animada de Ivan. Estranhamente, o menino vinha acompanhado de Virgílio, ao invés do pai.
_Oi cunhado, tudo bem? Aconteceu alguma coisa? – perguntou, estranhando o fato de Cadu não estar ali.
_Oi Clara! Tudo bem! Como foram de viagem? – respondeu, cumprimentando-a com um abraço e um beijo no rosto, como de costume – O Cadu teve alguns compromissos de última hora com fornecedores lá do bistrô, e a Verônica me ligou, pedindo para pegar o Ivan lá no galpão. Disse que tentou falar no seu celular, mas que não tinha conseguido contato.
_Como assim a Verônica ligou? – por mais que se sentisse sem forças, não conseguia não indignar-se com a irresponsabilidade do ex-marido.
_Relaxa, mãe! Eu também nem vi ele sair, foi inesperado mesmo – disse o menino, e tentando evitar que aquilo tomasse proporções maiores, tratou logo de mudar de assunto – E a Marina? Cadê?
_A Marina... Ela... Tá lá na casa dela, filho – mesmo esforçando-se para não deixar transparecer, Clara não conseguia esconder o pesar em dar aquela notícia ao filho.
_Ué, mas ela não falou que ia ficar aqui em casa? – Ivan percebeu a mudança na voz de sua mãe em falar da namorada, mas, não conseguiu entender exatamente o que tinha acontecido.
_Sim... Mas... Ela teve que resolver algumas coisas do estúdio, e precisou ir para casa! – como sempre, Clara mentia muito mal.
_Clara, está tudo bem? – perguntou Virgílio, percebendo que algo estava errado.
_Tudo bem sim cunhado – respirou fundo, tentando soar mais convincente até para si mesma – Só mesmo cansada da viagem, e tudo o mais! – como sempre, falhou com louvor.
_Entendi. Bom, vou deixar vocês então! Qualquer coisa, é só bater lá em casa. A Helena está morrendo de saudades de você! – dirigiu-se a Clara, que agora que Virgílio olhava com mais atenção, estava visivelmente abatida.
_Ah, só da mamãe? E de mim tio? – questionou Ivan, fazendo bico.
_De você principalmente – respondeu rindo – Espero vocês lá mais tarde!
_Hoje não prometo cunhado, mas amanhã passamos por lá!
Ambos despediram-se de Virgílio, e desconfiado como sempre, Ivan retomara os questionamentos sobre o paradeiro de Marina. Apesar de não soar muito convincente, Clara conseguiu esquivar-se de todas as perguntas feitas pelo menino. Sentindo seu corpo lhe pedir por descanso, caminhou até a porta de seu quarto.
Por um minuto, parou ali e observou sua cama vazia. Será que em algum momento conseguiria sentir algo que não fosse dor? Será que em algum momento, aquele vazio, aquele aperto no peito, aquela sensação de falta de ar, e o desanimo constante simplesmente cessariam? Será que tinha fim aquele espiral de sofrimento no qual se encontrava? Deixou a cabeça baixar devagar. Era inacreditável. Era duro demais pra ser verdade.
Quase que inconscientemente, Clara moveu seus pés para trás. Não queria sentir a ausência do calor do corpo de Marina em sua cama, e arrastou-se de volta para a sala. Sentou-se em seu sofá, e pediu para Ivan que abaixasse o volume do game que jogava. Apesar do calor que fazia lá fora, Clara sentia frio.
_Filho, pega uma coberta no quarto para a mamãe?! – pediu ao garoto, que continuava a jogar seu vídeo game na sala ao lado.
_Caraca mãe, você tá com frio? Tá um super calor! Tô derretendo aqui! – rebateu.
_Eu sei, mas acho que não tô me sentindo muito bem. Pega lá pra mamãe, por favor.
Sem reclamar, Ivan foi até o quarto da mãe, abriu seu guarda-roupa, e tirou um edredom de lá de dentro. A coberta estava em uma prateleira um pouco mais alta do que ele, e com a força que precisou colocar para puxa-la de lá, acabou desequilibrando-se um pouco. Deu alguns passos para trás e caiu sentado na cama de sua mãe. A felicidade e o deslumbre de Ivan com a viagem que haviam acabado de fazer ainda era tanto, que seria difícil imaginar alguma situação que lhe roubasse o bom humor.
Sem tempo ruim, riu de si mesmo e levantou-se num pulo, agarrando-se a coberta. Sem que percebesse, deixou que a ponta do edredom esbarrasse em uma pequena caixinha de madeira que estava na escrivaninha, do lado da cama. Assustou-se com o barulho de metal batendo no assoalho do quarto, e virou-se para ver o que havia derrubado. No primeiro momento, não parecia haver nada demais ali, só aqueles negócios coloridos que a mãe usava para prender o cabelo, uns dois brincos preferidos, e mais algumas outras bugigangas sem muita importância. No entanto, sabendo que a mãe odiava que mexesse ou bagunçasse suas coisas, o menino resolveu atrasar a entrega do edredom para Clara, e arrumar logo aquele auê que havia provocado no chão do quarto.
Pegou a caixinha, que rolara para debaixo da cama, e sem muito critério ou cuidado para guardar os objetos que se perdiam pelo chão, foi jogando um a um de qualquer jeito dentro da caixa. Assim que achou que tinha acabado, olhou em volta, e meio escondido ao lado do pé da cama, alguma coisa meio prateada brilhava. Com preguiça de levantar de onde estava, esticou seu braço e com algum esforço conseguiu alcançar o anel, reconhecendo-o no exato momento em que o pegara em sua mão. Olhou na parte de dentro e a inscrição que lia-se ali, era exatamente a que deveria estar na aliança de Marina.
Sem entender nada, o menino levantou-se, e com o edredom em uma mão e a aliança na outra, correu até a sala.
_Mãe, o que a aliança da Marina está fazendo aqui? – a curiosidade era evidente em sua voz, contudo, apesar de querer saber o que tinha acontecido, havia certo receio por parte do menino, de que as notícias não fossem boas afinal.
_Ivan! – ralhou Clara – O que você estava fazendo mexendo nas minhas coisas? – seu tom de voz subira mais do que desejara, assustando Ivan – Eu já não cansei de falar que não é pra mexer nas minhas coisas?
_Mas mãe... Eu não mexi em nada! Eu fui pegar a coberta, e ai bati sem querer na caixinha que tava lá do lado da cama – o menino falava rápido, tentando explicar o que tinha acontecido – ela rolou pra debaixo da sua cama, e ai caiu tudo! Eu só peguei, e coloquei de volta no lugar – baixou a cabeça, chateado com a bronca da mãe.
_Tudo bem, filho. Me desculpe! – pediu Clara, percebendo o quão desnecessária fora a bronca que dera no menino.
_Tá. Mas, o que a aliança da Marina tá fazendo aqui? – insistiu.
_Ela... Foi lavar a mão... E esqueceu ai! Foi isso! – mais uma vez, Clara mentia tão mal, que jamais conseguiria convencer nem a si mesma, fará qualquer outra pessoa.
_Então... Eu, posso ligar pra ela pra avisar?
_Não! – a resposta saíra rápida demais, involuntária demais, suspeita demais – Não filho. Ela tava cansada, cheia de coisa pra resolver. Amanhã eu ligo pra ela e falo. Tudo bem?
_Mãe... O que tá acontecendo? Por que eu não posso ligar pra Marina? Ela é minha amiga, sabia?
_Ai Filho... – Clara não sabia mais como mentir.
_Vocês brigaram? – perguntou num tom de voz baixo, quase com medo da resposta.
_Ivan... Tá tudo bem, filho. A gente, só teve uma discussão, mas, tá tudo bem!
_Então... Então eu posso ligar pra ela, ué. Por que não posso? – insistia o menino.
_Não filho, por favor! Não! Depois... Amanhã. Outra hora! – mesmo sem perceber efetivamente, algumas lágrimas intrometidas começavam a rolar pelo rosto de Clara.
Percebendo que a coisa era mais séria do que a mãe estava lhe contando, Ivan decidiu parar de perguntar. Deu alguns passos em direção a Clara, aconchegou-se ao seu lado no sofá e passou seus braços pela cintura da mãe.
_Vai ficar tudo bem, mãe! Eu... Eu vou falar com ela! – apesar de sua pouca idade, desde que o pai saíra de casa, Ivan considerava-se responsável por proteger sua mãe de todos os males, e vê-la ali, chorando, era algo que lhe doía muito mais do que pensou que pudesse doer – Vai ficar tudo bem, você vai ver!
A ingenuidade contida nas palavras de Ivan era tanta, que por um momento, Clara permitiu-se até acreditar no que o menino lhe dizia. “Vai ficar tudo bem”. Era a segunda vez que ouvia aquelas quatro palavrinhas sendo pronunciadas juntas naquele dia. “Vai ficar tudo bem!”. Como se fosse um pequeno mantra particular, Clara passou a repetir essa expressão incansavelmente em sua mente. Abraçou seu filho com força.
Precisava levantar dali, e o principal motivo que tinha para isso, era exatamente aquele menino loirinho que apertava em seus braços agora. Respirou fundo, e como se esse movimento lhe enchesse de coragem, reuniu o resto de forças que ainda tinha em si, e beijando o topo da cabeça de Ivan, pediu para que ele fosse tomar banho e se preparar para o jantar.
Sem questionar, Ivan foi até seu quarto, e da mesma maneira que fizera tempos atrás, escondido, pegou o celular que ganhara de seus pais e discou o número da fotógrafa. Sabia que essa história estava muito mal contada por sua mãe, e pelo jeito, não era uma boa ideia pressiona-la para saber mais. Portanto, a única pessoa que poderia lhe ajudar com tudo isso, agora, era Marina.
Discou seu número uma, duas, três vezes, e sem saber se ela não queria falar com ele, ou se de fato, não podia atender naquele momento, Ivan não obteve sucesso em nenhuma das tentativas.
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Extremamente indignada, e decidida a ajudar Clara com essa história toda, Victória decide ir até a casa de Melissa. Tinha prometido a assistente de fotografia que não contaria nada do que estava acontecendo para sua namorada, e ao menos por enquanto, nem mesmo para Marina. Portanto, não poderia abrir o jogo com nenhuma das duas sobre o seu real motivo de estar indo para lá.
Já a caminho da casa da italiana, sabendo que ia soar estranho de qualquer jeito, sem pensar demais, achou o pretexto perfeito para estar ali: a exposição. Digitou um SMS rápido para Vanessa e em poucos minutos desde que tomara sua decisão de ir até lá, já guiava seu carro pela entrada da rua de Melissa.
Assim que chegou por ali, percebeu uma movimentação diferente. Um número maior do que o normal de carros, desfilava pela rua, parecendo estarem todos endereçados exatamente para a casa da italiana. Sem entender muito bem o que estava acontecendo de início, seguiu até a portaria principal da casa, e informando-se com alguns dos seguranças da artista, recebeu a informação de que melissa estava dando uma festa.
Involuntariamente, pensou sobre qual seria o motivo do evento, e arrepiou-se de cima a baixo com a remota possibilidade de ser algum tipo de comemoração, pelo “sucesso” dos últimos acontecimentos envolvendo Clara e Marina. No fundo, se antes de tudo isso, a loira já não duvidava de mais nada que viesse de Melissa, agora então, todas as possibilidades, das mais nojentas as mais brandas, eram sempre muito possíveis.
Por um segundo, ainda dentro do carro, perguntou-se se conseguiria fazer aquilo. Teria estômago para olhar na cara dela novamente? Num ato reflexo de sua mente, cogitou ir embora. Contudo, antes que pudesse dar corpo a essa ideia, vinda sabe-se lá de onde, Melissa materializou-se na porta de seu carro.
_Oi minha francesa linda! Tudo bem? – disse já abrindo a porta do carro da outra – Que bom que está aqui!
Vendo-se relativamente sem escapatória, Vic respirou fundo e decidiu descer logo do veículo.
_Oi Mel – foi difícil sorrir, mas se queria tentar tirar alguma coisa de Melissa, teria que manter as aparências intactas – Tudo bem linda, e você?! – depositou um beijo em cada uma de suas bochechas.
_Tudo ótimo! Resolvi dar uma festinha de última hora.
_Tô vendo! – riu – Qual o motivo de toda essa comemoração? – perguntou sentindo já saber a real resposta para essa questão.
_Na verdade, nada de especial – sorriu, e sem dúvida nenhuma, a malícia que cintilou nos olhos da italiana naquele momento, veio a confirmar todas as suspeitas de Victória com relação ao motivo daquela festa.
A francesa sentiu seu estômago embrulhar. E mais uma vez, pensou em desistir.
_Hãn... Eu vim para vermos algumas coisas para a exposição, mas acho que é melhor voltar em outra hora né, agora não vai dar pra vermos muita coisa – riu baixo, tentando fingir a simpatia de sempre.
_Magina que você vai vir até a porta de uma festa minha, e não vai entrar! Nem pense nisso, dona Victória! – disse enlaçando a cintura da outra, guiando-a em direção a entrada de sua casa.
_Mas, Mel... Eu nem estou vestida pra isso agora – pensou na primeira desculpa que veio a sua mente. Definitivamente, Victória não queria mesmo estar ali.
_Como se você precisasse de roupa para estar linda – sim, era normal Melissa cantar todas as mulheres que passavam em sua frente, mas a morena parecia especialmente galanteadora aquela noite – Vem Vi! Para de bobeira – disse puxando-a casa adentro.
A festa não estava cheia, até porque, acredito que seria impossível abarrotar a enorme casa de Melissa, porém, se o evento não contava com quantidade, sem duvida nenhuma esbanjava qualidade. Havia muita gente da nata carioca transitando por ali. Artistas, músicos, críticos, e famosos de diversas áreas, passeavam da piscina para a sala, esbanjando sorrisos e taças tanto cheias, quanto vazias de champanhe.
Melissa, como toda boa anfitriã, interagia na medida certa com todos que passavam por ali, com exceção de um rapaz, um tal de Denis, com quem demonstrava grande intimidade. Ele não era estranho aos olhos de Vic, contudo, a francesa não conseguia lembrar-se de onde o conhecia.
Passado um tempo que estava ali, lembrou-se que não havia avisado a namorada sobre a festa, e resolveu enviar uma nova mensagem para Vanessa, que estranhamente, ainda não tinha respondido o SMS anterior. Decidiu não insistir para que a ruiva aparecesse por lá, afinal, já que não podia abrir o jogo com ela sobre o porquê estava ali, resolveu que era melhor ficar a sós com a italiana e seus convidados.
A música estava alta lá fora, e com isso, Vic optou por ficar na parte interna da casa. Simpática por natureza, e com uma assinatura pra lá de conhecida na fotografia, Victória não demorou a ter seu sobrenome sendo elogiado pelos quatro cantos da casa de Melissa, e em pouco tempo, já interagia com grande parte dos convidados. Muitos, já extremamente bêbados a essa altura do campeonato, contavam segredos e curiosidades de bastidores de suas respectivas profissões, expondo uma ou outra figura famosa que não estivesse presente, é claro.
Pondo em prática seu plano de tentar arrancar alguma coisa de Melissa, partiu a procura da italiana pela festa, encontrando-a com Denis, sentados a beira da piscina. Ao dar-se conta da aproximação da loira, Melissa não conteve o sorriso, e quase rasgando o rosto de fora a fora, indicou seu lado com a palma da mão, para que a outra se sentasse.
_Não apresenta mais os amigos, Mel?! – disse, encarando Denis inocentemente.
_Ah, que cabeça a minha! – respondeu, levando uma das mãos até a testa – Vic, esse é o Denis. Denis, essa é Victória Bouvier. Um dos maiores nomes em fotografia da atualidade!
A loira cumprimentou o rapaz, e aproveitando a deixa, sentou-se no meio dos dois.
_Prazer Denis! – disse animada, gastado um de seus melhores sorrisos.
_O prazer é todo meu, sem dúvida nenhuma – a malícia banhava cada uma das palavras do traficante.
_Ei, pode tirando o olho viu?! – ralhou Melissa, puxando Vic para perto de si – Essa aqui já tem dona hoje! – depositou um beijo no rosto da loira.
_Ah, não! Não vá me dizer que você também joga no time da Mel?! – perguntou o rapaz, já relativamente decepcionado.
_É, sinto muito em te dar essa notícia, mas, sim! – riu, ainda tentando lembrar-se de onde o conhecia. Olhando-o ali mais de perto, recordava-se de já ter cruzado com aquele rapaz em outras festas que participara no período em que estava no Rio de Janeiro, no entanto, ainda não conseguia lembrar-se exatamente quem ele era.
_Olha, acho que eu também vou virar lésbica, porque sinceramente, ser hétero não tá fácil pra ninguém – brincou Denis, arrancando as primeiras risadas sinceras da francesa.
_Ixi, acho que você tá começando a usar suas mercadorias né, Denis?! – gargalhou Melissa, já visivelmente alcoolizada – Louco!
Todos riram, e antes que Victória pudesse falar qualquer outra coisa, a italiana já a puxava para cima, chamando-a para dançar consigo a música que acabara de começar na pista, ali mesmo, do outro lado da piscina. Denis, por sua vez, levantou-se também, e dirigiu-se a uma mesa posicionada mais ao canto da área externa da casa de Melissa.
Apesar dos puxões insistentes da italiana, Vic mantinha sua atenção extremamente focada em Denis, e assim que o viu descarregar alguns papelotes de cocaína em cima de uma mesa que nem tinha percebido ali antes, teve certeza de que ele tratava-se mesmo de quem ela suspeitava. “O traficante dos famosos”.
_Viiiii, dança comigo! – Melissa chamava sua atenção para ela.
_A música tá acabando, meu bem – gentilmente, tentou se desfazer do contato da outra, porém, sem muito sucesso.
_Tudo beeeem. Então vamos tomar uma dose ali no bar, e depois você dança comigo! – antes que a loira pudesse dizer qualquer coisa, Melissa continuou – E eu não aceito não como resposta, viu?!
Sem muita opção, Victória acompanhou Melissa em uma generosa dose de whisky, e como que cronometrado, assim que terminaram seus respectivos copos, o som de “Team” da cantora Lorde começou a ecoar pelo ambiente. Assim como dissera antes, a italiana não deixou Vic rejeitar seu convite, e enlaçando sua cintura com uma das mãos levou-a até a pista de dança.
Definitivamente, Vic não queria estar naquela situação. Afinal, se só o fato de olhar para Melissa já lhe dava urticárias, bancar a menina interessada era quase impossível. Contudo, apesar dos pesares, aquela acabava sendo uma ótima situação para que tentasse roubar alguma informação da italiana, e já que estava ali pra isso mesmo, resolveu embarcar na onda da outra.
_Mel, o que você quis dizer com aquele “essa já tem dona hoje”? – perguntou, jogando os braços por sobre os ombros de Melissa e baixando seu tom de voz.
_Ah, na verdade foi despretensioso – escorregou os dedos pela cintura da francesa – Mas... Você sabe que sempre há um lugar na minha cama pra você, né?! – pra variar, a morena não perdia tempo.
_Um lugar? Hum... Não gosto muito de dividir as coisas – o estômago de Vic voltava a embrulhar a cada palavra mentirosa que pronunciava.
_Não? Dá última vez, você dividiu direitinho! – provocou Melissa, lembrando da noite que passara com a loira e sua namorada.
_Foi um momento... – antes que pudesse concluir a frase, a italiana puxou-a pela cintura, colando seu corpo no dela – Uau. Como você tá rápida hoje! – provocou Vic.
_Sabe que... Você nunca me disse o que achou daquela noite aqui em casa – os dedos de Melissa desciam inadvertidamente pelo quadril da outra.
_Foi ótimo! Mas, como eu disse: não gosto de dividir as coisas – Vic deixou seus dedos subirem pela nuca da morena.
_Ah é?! – aproximou a boca do pescoço branco e fino da francesa – Mas, hoje posso ser só sua. Se você quiser! – sussurrou no ouvido direito de Vic, depositando um beijo demorado logo abaixo de sua orelha.
Por mais que tivessem motivações diferentes, ambas estavam tão absortas e concentradas uma na outra, que nem a italiana, nem a francesa, deram-se conta de que Vanessa estava bem ali, em pé, do lado das duas.
_Ah, mas ela não vai querer viu Melissa. Não mesmo! – o olhar da ruiva não perdoava, e o verde dos seus olhos, fuzilavam os azuis de Vic sem dó.
_Amor! Você veio! – disse desvencilhando-se da italiana e indo em direção a Vanessa, que sem pensar meia vez, esquivou-se do seu contato.
_Ainda bem que eu vim, não é Victória?! – esbravejou.
_Vixe! Já chegou com tudo hein Vanessinha – provocou a morena, que de tão bêbada já enrolava um pouco a fala.
_Melissa, você me poupe de ter que ouvir sua voz, ou então corre o risco de eu meter a mão na sua cara aqui mesmo! – ameaçou, chamando a atenção de alguns convidados que passavam por ali.
_Vanessa! – exclamou Victória – Vem. Vamos embora! – fez que iria abraça-la, mas, mais uma vez, a ruiva esquivou-se de seu toque.
_Agora que eu cheguei você quer ir, né?! Tem vergonha de ficar se esfregando com essa vagabunda não Victória? Hein? – tudo bem que Vanessa não tinha um bom histórico, quando o tema era ciúmes, mas, dessa vez, devido a todos os últimos acontecimentos, ela estava passando dos limites rápido demais.
_Calma, Van. Tem Melissa pra todo mundo! – disse em meio a gargalhadas, tirando o pingo de paciência que ainda restava em Vanessa.
_Ah, Melissa! Como você é nojenta! – deu um passo a frente, posicionando-se perigosamente perto demais da italiana.
_Nojenta? Bem que você gostou quando provou, né?! – provocou mais uma vez, dando uma piscadela em direção à ruiva.
Se Vanessa já estava possessa com a cena que vira antes, ali, naquele momento, Melissa havia cruzado a fronteira do tolerável para a ruiva. Sem que se desse conta efetivamente, o corpo todo de Vanessa já preparava-se para armar o tapa, pelo qual a italiana parecia estar implorando desde que a ruiva chegara. Conhecendo a namorada que tinha, antes que tudo pudesse sair de controle, Victória interviu.
_Chega vocês duas! – decretou a francesa, colocando-se entre uma e outra – Vanessa, vem – puxou a namorada pela cintura – Vamos embora amor. Em casa a gente conversa!
_Vi, o convite continua em pé, viu?! Quando você quiser! – disse Melissa, vendo-as se afastar.
–-//--
Absolutamente contrariada, e querendo uma boa explicação para tudo o que vira e ouvira acontecer entre a namorada e Melissa, Vanessa não se deu por vencida, e assim que ambas entraram no carro da francesa, a ruiva desatou a falar.
_Que baixaria era aquela, Victória?
_Ei, calma. Você conhece a Melissa! Ela acha que não precisa de permissão pra nada – a verdade é que Vic não sabia como explicar aquela cena, sem quebrar o voto de segredo que fizera com Clara, e mentir para a namorada era algo que ela realmente odiava ter que fazer.
_Victória, eu estava lá, ok?! Eu vi! – Vanessa estava irredutível.
_Amor... Calma! Que coisa! – a loira tentava conseguir tempo para pensar no que dizer.
_Como calma, Victória? Como calma? Vai. Me fala! Você ia passar a noite com aquela vadia da Melissa? – a ruiva não conseguia controlar o tom de voz que usava, e a cada pergunta sem resposta que fazia, sentia a raiva crescer dentro de si.
Deliberadamente, Vic mudara o caminho que fazia, e entrando em uma paralela mais tranquila, estacionou o carro. Ainda sem saber muito bem como faria pra sair de tudo aquilo, virou-se no banco do motorista, ficando de frente para a namorada.
_Vanessa, primeira coisa, calma! Por favor! – disse olhando fixamente em seus olhos – Segunda coisa, amor, é obvio que eu não ia passar a noite com ela! A única mulher pra quem eu tenho olhos, é essa que esta exatamente aqui – passou a ponta dos dedos pelo rosto de Vanessa.
_Vic, eu vi! Você tava na dela! – apesar de soar mais calma, o interior de Vanessa ainda era um turbilhão – Fala a verdade pra mim! Por favor!
_Ei... Eu não minto pra você, meu amor! – fez um novo carinho em seu rosto.
_Então... Porque você estava lá? Porque não veio pra casa? Porque ficou naquela festa?
_Eu fui até lá pra cuidar de alguns últimos detalhes pra exposição, amor – Vic corroía-se por dentro por ter que mentir para Vanessa, mas conhecia a namorada bem o suficiente para saber que se contasse a verdade, ela acabaria fazendo uma bobagem – E você conhece o jeito da Melissa, ela não me deixou ir embora sem pelo menos tomar alguns drinks, e me apresentar para alguns dos convidados. Desculpa pela cena que você viu, mas, eu juro pra você, que jamais... – segurou o queixo da namorada, fazendo-a olhar em seus olhos – Jamais, eu iria pra cama com outra mulher.
_Eu... Eu não quero você perto dela, amor! Essa mulher é maluca! – por mais que uma pulguinha insistisse em habitar a parte de trás da orelha de Vanessa, ela acreditava em sua namorada – Ela pintou quadros dela com a Clara! Mandou um desse pra Marina hoje.
_Não acredito! Jura? – apesar de esperar sempre qualquer coisa de Melissa, era incrível como o sadismo dela ainda conseguia surpreender – Como a Marina tá?
_Eu dei um comprimido pra ela dormir. Nada de homeopatia dessa vez! – riu baixo – Tava capotada quando eu sai. Pediu pra você ir dormir lá!
Agora que as coisas pareciam soar mais amigáveis dentro do carro, Vic permitiu-se contemplar a namorada, olhando-a de cima a baixo.
_Amor, você tá linda! – disse não para agrada-la, não para ganhar pontos, apenas expressou exatamente o que pensou naquele momento.
Apesar de sorrir involuntariamente para a namorada, Vanessa não cedeu.
_Nem vem com essa fala mansa, Victória! – falou emburrada, quase como uma criança que faz birra.
_Não amor, não é fala mansa... Você... Tá linda mesmo – ajeitou uma mecha ruiva que insistia em não parar quieta, e aproveitando um segundo de distração da outra, aproximou seu rosto do dela – Pra que eu iria querer outra pessoa, se tenho tudo o que eu preciso bem aqui?!
_Agora você fala isso né?! Só porque eu tô brava com você! – virou o rosto de leve.
_Ei... Para de ser boba amor! – disse passando a pontinha do nariz pelo pescoço da outra – Tenho um segredo pra te contar.
_É mesmo? – perguntou, fingindo-se de desinteressada – E que segredo seria esse?
_Isso eu só posso te contar mais tarde. Lá no seu quarto! – colou boca no ouvido da ruiva, deixando sua respiração pesar por ali.
O cheiro do perfume da namorada invadiu os sentidos de Victória. Há dias não tinha a namorada só pra ela, e a saudade gritou dentro de si naquele momento. Sem perceber exatamente, deixou que seus dedos escorregassem pela lateral do corpo da outra, indo em direção a sua cintura. Depositou beijos pela sua orelha, mandíbula, bochecha, queixo. Desceu um pouco mais com a mão que pairava em sua cintura, passando a ponta das unhas pelas coxas brancas da ruiva.
Sem fingir mais desinteresse, Vanessa jogou um dos braços pelo pescoço da namorada, e segurando os fios de cabelo loiro em sua nuca, puxou-a para um beijo urgente. Vic correspondeu à necessidade da boca da outra, beijando-a com a mesma urgência com que era beijada. Seus dedos agora não respeitavam mais os limites impostos pelo tecido fino do vestido que Vanessa usava, e subindo-o lentamente por suas coxas, deixou que sua mão subisse até a altura da virilha da outra.
_Amor... – chamou Vanessa, já um pouco ofegante – Porque esse carro ainda está estacionado? – delicadamente, tirou a mão de Victória de onde estava, encarando-a nos olhos – Dirige!
Sem forças para questionar, ou dizer qualquer coisa que fosse, Vic simplesmente virou a chave e deu partida no carro.
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Clara estava anestesiada. Aquilo tudo parecia interminável, inesgotável, inacabável. Colocou Ivan para dormir, e sem mais delongas, deixou-se cair grosseiramente no sofá da sala. A noite caia, e com ela, o cansaço e a exaustão desferiam golpes pesados e certeiros por todo o corpo da dona de casa. A cabeça doía, o estômago ardia, os músculos falhavam. Contudo, a dolorida realidade de não poder encontrar Marina deitada em sua cama, não poder sentir o cheiro de seu perfume exalando naquele ambiente, tampouco ser recebida pelo olhar carinhoso, malicioso e intenso de sua mulher, fazia com que a coragem de arrastar-se até o quarto, se esvaísse antes mesmo de virar uma ideia real em sua mente.
A briga involuntária que era travada por seus olhos, entre manterem-se abertos ou fechados, foi vencida pelo breu da inconsciência. O esgotamento físico e mental em que se encontrava, lhe afundava cada vez mais naquele sofá. O sono que lhe acometia era pesado, denso, tenso. Sua mente, na realidade, não descansava; não permitia-se vagar pelos limites inconscientes de seu psiquismo, proporcionando apenas o desligamento parcial do funcionamento de seu corpo.
Como um bebê recém nascido, que na base do choro, exige a atenção imediata de seus pais, o grito estridente de seu celular começou a ecoar insistente e quase insuportável pela sala. Clara cogitou não atender, contudo, a melodia vinda do aparelho, que outrora lhe agradava tanto, neste momento a irritava ridícula e profundamente.
Vagando ainda entre o despertar e a sonolência, uma ideia quase absurda perscrutou a mente da dona de casa: "e se fosse ela? E se fosse sua Marina ligando?!". Apesar de a possibilidade não fazer o menor sentido, o ditado que classifica a esperança como sendo a última que morre, nunca esteve tão certo na vida de Clara quanto naquele momento.
Abriu os olhos, e levantou-se num pulo. Mesmo sabendo que a possibilidade de ser a fotógrafa do outro lado linha, era a mais remota possível e imaginável, Clara não podia perder essa chance. Apesar de nem ao menos sentir suas pernas direito, correu em direção ao aparelho que ainda berrava do outro lado da sala, e sem olhar no visor, atendeu antes que a pessoa do outro lado desistisse.
_Alô?! Marina?! — perguntou ofegante. Em parte pela forma com que acordara e pela corrida até o telefone, e em parte pela ansiedade e expectativa de ouvir o som da voz de sua fotógrafa.
_Clara? — o timbre era sim feminino, contudo, para infelicidade da dona de casa, não era o de Marina — É a Silvia, tudo bem?
_Silvia? Oi. Tudo bem, e você? Aconteceu alguma coisa? O Felipe aprontou alguma? — apesar de estar um pouco mais distante de sua família do que o habitual, Clara sabia que seu irmão e a Dra. Silvia tinham iniciado um relacionamento, e não pensou em mais nada que pudesse justificar uma ligação da médica aquela hora da noite.
_Não, não. O Felipe está bem. Aliás, ele até que anda bem comportado nos últimos tempos — riu baixo, um riso mais nervoso do que qualquer outra coisa — Desculpa ligar tão tarde, mas, achei que apesar de qualquer coisa, você deveria ser avisada.
_Ai Silvia, não me diga que é má notícia! Por favor! — a voz de Clara, era de fato suplicante. Tanto que, por um segundo, a médica cogitou até desistir da notícia. No entanto, era tarde para isso.
_Receio não poder fugir muito disso, Clara. Mas, vou falar de uma vez — respirou fundo, tomando fôlego para despejar a noticia no colo da outra — Hoje a tarde, o Cadu deu entrada no hospital comigo.
_O Cadu? — a mágoa do ex-marido ainda era tamanha, que de forma absolutamente involuntária, Clara soou completamente desinteressada.
_Sim. A situação dele não é nada boa, Clara. Estamos monitorando, e acompanhando tudo muito de perto, mas se o quadro dele não se estabilizar dentro de 48hs teremos que começar a pensar em um transplante de coração.
Clara emudeceu. Apesar de todos os pesares, ofensas, brigas, mágoas, agressões, e tudo o mais, Clara não tinha como ignorar o quanto Cadu era especial em sua vida. Foram companheiros, cúmplices, parceiros, amigos e amantes durante mais de uma década. E além de tudo isso, ele era nada mais, nada menos, do que pai do seu filho.
Sem saber exatamente o que o silêncio do outro lado da linha queria dizer, Silvia esperou alguns instantes. No entanto, como Clara não voltava a dizer nada, começou a achar que tinha tomado a decisão errada.
_Me desculpe, Clara. O Cadu pediu para não avisar ninguém. Sei que vocês estão separados, mas, achei que você deveria saber o que esta acontecendo.
_Não Silvia, por favor, não se desculpe. É só que... Não imagino o Cadu em uma maca de hospital de novo. Achei que... Tudo isso estava resolvido — sua cabeça rodava — Meu Deus! Onde ele está?
_Aqui no Pró-Cardíaco — antes que pudesse continuar, foi interrompida pela outra.
_E eu posso ir até ai? Você vai estar no hospital? — mesmo que por motivos diferentes, mais uma vez naquele dia, a adrenalina e o desespero voltavam a tomar conta de Clara.
_Vou sim, Clara. Mas, é melhor vir amanhã, agora não adiantaria muita coi... — antes que pudesse concluir, Clara atropelou-se nas palavras, e sem considerar o que a médica dizia, tomou sua decisão.
_Tô indo praí, Silvia! Chego em meia hora mais ou menos — sem mais delongas ou despedidas, bateu o telefone e encerrou a ligação.
Correu para o quarto, escancarou a porta de seu guarda-roupa, pegou o primeiro conjunto de jeans e camiseta que viu, e jogou-os em cima da cama. Suspendeu seus cabelos em um rabo de cavalo pouco ajeitado, e assim que olhou para a roupa em cima do edredom, lembrou-se de sua fotógrafa. Como sempre, era à imagem dela que recorria toda vez que estava em apuros, e mais do que nunca, desejou ter as mãos de Marina segurando as suas.
Vestiu-se rapidamente, e sentou-se na beira da cama. Era oficial. O mundo estava mesmo desabando em sua cabeça!
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