Velvet Touch

29 Por Acaso...


Notas iniciais
Oie gente! Tudo bem com vocês? Quanto tempo, né?! Sei que tem muita gente ai querendo me matar, mas, calma. Não façam isso! Tô pensando em uma estratégia que me faça postar os próximos capítulos dentro de um tempo minimamente decente, mas, não vou prometer nada por enquanto. Independente de qualquer coisa, gostaria de agradecer a todas as leitoras que ainda acompanham a fic, que ainda incentivam, e que sempre me pedem para não abandonar a estória. Em especial, dedico o capítulo a Hilda, que me mandou o e-mail de "cobrança" por caps novos mais fofo que já recebi. As meninas lindas da Gang que sempre me xingam por não estar postando mais, mas sempre surtam loucamente quando tem cap novo disponível. E a Karen, minha namorada, que no final, nunca me deixa desistir da estória. Amo vocês meninas! De coração, me desculpem pela demora! Espero sinceramente que gostem e comentem, pois vou voltar a responder todos os comentários a partir desse cap novamente. Beijos, e Boa leitura ;)

A claridade incômoda provocada pelos primeiros raios de sol da manhã, invadia o quarto de Vanessa sem pedir licença. Com o sono leve que sempre tivera, a ruiva não demorou a abrir os olhos, e assim que os abriu, ficou sem saber definir para si mesma o que era melhor: dormir, ou acordar nos braços da loira que abraçava delicadamente suas costas.

Vanessa nunca chegou a conceber a ideia de um dia, realmente conseguir superar o fim de sua relação com Marina. No fundo, nunca tentou evitar seus sentimentos pela fotógrafa, e sendo intensa desde que se conhecera por gente, sempre experimentou e vivenciou ao máximo os prazeres e desprazeres que aquela espera paciente e tola lhe proporcionava. Afinal, por mais que a chefe dissesse que não, a verdade nua e crua, é que Marina jamais abriu mão de sua companhia, recorrendo sempre aos carinhos de Vanessa quando assim lhe convinha.

Tendo tudo o que sempre quis desde pequena, Marina nunca perdeu o costume, e muito menos o gosto por estar bem no centro do palco da vida. Na mira de todos os holofotes possíveis e imagináveis. Com isso e por isso, mesmo que por vezes de maneira inconsciente, dia a dia, alimentou essa devoção e esperança quase insana que a assistente nutria em relação a ela. Sem alertas, ou maiores sinalizações de que o desejo de ambas, embora tão parecido nas tantas e tantas vezes em que estiveram juntas em uma cama, tomava caminhos bem diferentes um do outro, quando o conceito expandia-se para a vida.

Não que Marina tenha sido má, cruel, ou coisa parecida. Pelo menos, não que tenha agido assim de propósito. Tendo pais mais ausentes do que presentes em sua criação, a vida não tinha sido fácil para Marina em termos emocionais. Apesar da ausência habitual, perder a mãe logo cedo não ajudou, e mesmo com seu pai lhe dando de tudo á nível material, a verdade é que o que a fotógrafa sempre quis, não teria custado nada para Diogo, além de um pouco mais do que a forçada meia hora que ele fingia dispender de seu tempo com a filha, em jantares frios e distantes, nas raras ocasiões em que estava em casa.

De criança carente, Marina passou a adolescente rebelde. Daqueles que fazem de tudo, absolutamente tudo, apenas para chamar a atenção dos pais para si. No entanto, o tempo que Diogo passava em casa era tão pequeno, que em determinado momento, optou por aderir uma postura mais austera do que a anterior, e passou a literalmente ignorar todas as atitudes e peripécias da filha, punindo-a frequentemente com seu silêncio.

A partir daí, Marina passou a introverter cada vez mais seus sentimentos e emoções, tornando-se uma caricatura mal feita das características que dizia odiar no próprio pai. Aprendeu a tratar as emoções como algo desnecessário, descartável, e como uma representação de fraqueza. Portanto, no momento em que deparou-se com o aflorar de sua sexualidade, como se não encontra-se em si mesma a menor necessidade de laços emocionais, passou a agir como uma predadora sexual. Munida de recursos ilimitados a nível financeiro, Marina criava o mundo de fantasia que seu parceiro ou parceira desejavam, e portanto, jamais havia encontrado problema algum em conquistar quem quer que fosse, onde quer que fosse.

Por intermédio de seu tio Ricardo, cumprindo um dos poucos protocolos que ainda era obrigada a se submeter, em uma das festas chatas de sua família, conheceu Vanessa, sobrinha da esposa dele. Tendo praticamente a mesma idade, e compartilhando dos mesmos gostos, a amizade entre elas não demorou mais do que um encontro para aparecer, outro para se consolidar, e desse momento em diante, as duas não se desgrudaram mais.

Sem dificuldade ou esforço algum para cativar e conquistar as pessoas a sua volta, não demorou para que o interesse de Vanessa em Marina se transformasse, passando de uma mera amizade para algo que, mesmo que a ruiva ainda não tivesse a real dimensão da coisa, seria muito, muito, muito maior. Deixando escapar total e completamente o fato desse novo olhar de Vanessa sobre si, ainda explorando todas as alternativas que tinha para tentar chamar a atenção do pai, Marina intensificou sua agenda social, e apesar de negar sua sexualidade para si mesma naquele momento, era frequentemente flagrada com homens e mulheres diferentes a cada nova festa que participava.

Devido à posição social de sua família, vivia tendo fotos não autorizadas publicadas em capas de revistas, e vez ou outra, acabavam por surgir reportagens venenosas em alguma publicação de fofoca a seu respeito. Diogo, já vacinado com o comportamento da filha, mais uma vez, optou por puni-la com seu silêncio, ignorando completamente o fato de Marina não ser apenas um rosto social que aparecia em reportagens de mau gosto, mas sim, sua única filha.

Falhando em todos os níveis quando o assunto era conseguir a atenção do pai, em determinado momento, Marina resolveu desistir de vez. Descobriu seu gosto por fotografia, e optou por seguir com sua vida longe dele. Levando Vanessa a tira colo, viajou para a Europa, e sem aviso prévio, tomou o maior susto da vida, e conheceu lá a pessoa que fez com que todos os seus conceitos mudassem, seu primeiro amor: Victória Bouvier.

Ao contrário de Marina, desde pequena Vanessa sempre sonhara em viver um grande amor. Passar pela experiência de paixões avassaladoras, viver noites em claro pensando em alguém, ter dias de loucura, momentos de insanidade, e por fim, encontrar o seu “felizes para sempre”.

Desde muito jovem, percebeu não ter o mesmo interesse, tampouco a mesma atração que suas amigas pelos homens. Em contrapartida, sempre reparou demais nos detalhes e na delicadeza da feminilidade de outras mulheres, e sendo “da pavirada” –como dizia sua mãe – mais uma vez, ao contrário de Marina, não teve problema nenhum em assumir para si mesma sua sexualidade, passando com facilidade por cima de qualquer dilema moral ou existencial que pudesse surgir em sua cabeça.

Ser introduzida na vida, na rotina, no círculo social, e principalmente no mundo de Marina, era o sonho de muita gente. E apesar de não sonhar com isso previamente, a verdade é que depois de estar ali, inserida naquela realidade, por mais que fosse obrigada a conviver com a evidente falta de percepção da fotógrafa em relação a tudo o que ela sentia, a ruiva sabia que jamais sairia de onde estava. Jamais sairia do lado dela.

A partir daí, mesmo sem investir de maneira mais agressiva, ou tentar fazer com que a amiga efetivamente percebesse seus sentimentos, Vanessa buscou, e sem dificuldade nenhuma, encontrou na sedução natural de Marina, motivos para continuar ali, acreditando, insistindo, e por fim, na busca inconsciente de seu “felizes para sempre”, deixando-se levar por breves beijos roubados, acabou criando e acreditando em seu próprio conto de fadas.

Quando o convite para acompanhar Marina em sua viagem para o velho continente surgiu, a felicidade e esperança de Vanessa era tanta, que a ruiva quase não cabia em si. Comprou briga em casa, largou tudo o que tinha aqui, e sem pensar meia vez que fosse, partiu com a fotografa para viver o que ela fantasiava que seria o início de uma linda história de amor. Contudo, pouco tempo depois de chegarem à Inglaterra, assim que Marina iniciou suas aulas de fotografia em Londres, tudo mudou.

Não mais do que de repente, a fotógrafa entrou em uma crise existencial sem precedentes. Do nada, deixou de exercer a sedução e desenvoltura social que tanto encantava as outras pessoas, e estranhamente, passou a viver uma fase extremamente calada e introspectiva. Com sua habitual insistência, Vanessa tentava aproximar-se mais da amiga, tentando entender melhor o que de diferente havia acontecido à Marina, sem muito sucesso.

Depois de muito tentar, a ruiva teve a resposta que apesar de relativamente esperada, não era bem quista por ela. Marina havia se deparado com a verdade sobre sua sexualidade, e pela primeira vez em sua vida, estava realmente apaixonada. Vanessa a ouviu chorar pela primeira vez. Amparou-a pela primeira vez. E por mais que lhe doesse até o último fio de cabelo, apoiou-a a assumir para si mesma o que sentia, e a viver aquele amor. Seu primeiro amor.

Com uma relutância completamente inútil, depois de alguns meses brigando contra seu coração, Marina acabou por não resistir, e cedeu ao charme natural e espontâneo de Victória, entregando-se a loira da forma mais sincera que pôde. De corpo, alma, e todos os cacos emocionais que colecionava. A partir daí, como já era de se esperar, Marina entrou em um território completamente desconhecido a ela, onde tinha acesso a carinho, amor, e atenção ilimitada, acontecendo de maneira completamente espontânea e desinteressada. Pela primeira vez, não estava em mais um de seus relacionamentos vazios, interesseiros ou descartáveis. Aliás, pela primeira vez, estava em um relacionamento de fato, e sem dúvida nenhuma, Marina não tinha destreza em lidar com essa sua nova realidade, fazendo uma completa e imatura lambança no início de tudo.

Muitas vezes, meteu os pés pelas mãos, falou bobagem, discutiu, não deu importância à algumas coisas, exagerou em outras. No entanto, como se fosse seu encaixe perfeito, Victória nunca saiu dali. Nunca foi embora quando Marina mandou. Nunca se deixou magoar demais pelas bobagens impensadas que ela dizia de cabeça quente. E paciente como sempre, deu o tempo que Marina precisava para lidar com seus verdadeiros alvos de briga. Seus próprios fantasmas emocionais. Esperou, em todas às vezes, que ela se arrependesse; e ela sempre se arrependeu. Até que de tanto brigar consigo mesma, amadureceu, cresceu e mudou.

A intensidade do relacionamento de ambas era tamanha, que mesmo sem que Marina percebesse efetivamente, Vic passou a ser parte absolutamente vital em sua rotina. Se não estavam uma na casa da outra, estavam na universidade. Se não estavam na universidade, estavam em algum parque, bar, PUB, restaurante, cinema, ou teatro. Sempre juntas. Sempre com saudades.

Vanessa, que era obrigada a assistir todas aquelas cenas, até tentou relacionar-se com outras pessoas, mas, no fundo, não conseguia entender porque Marina havia escolhido a loira ao invés dela, e isso a impedia de deixar-se entregar verdadeiramente em qualquer relação que começava. Culpava-se constantemente por ter incentivado a amiga a viver o sentimento que dizia ter por Victória, uma vez que, quando tudo isso começou, apostou, sem pensar meia vez, que Marina não duraria fiel por mais do que um ou dois meses. No entanto, isso não aconteceu, e com isso, dia a dia, a ruiva passou a tornar-se uma pessoa cada vez mais emocionalmente agressiva, irônica, e amarga.

O tempo foi passando, e como não poderia deixar de acontecer, Marina e Victória começaram a ser flagradas frequentemente circulando pelas festas, e eventos sociais dos amigos da alta sociedade. Até que, em uma pequena mostra inicial de seu trabalho, em parceria com Vic, Marina deu uma entrevista corajosa, assumindo publicamente sua homossexualidade, bem como o seu relacionamento com a loira. E por mais que, desta vez, sem nenhuma intenção de fazê-lo, Marina conseguiu, de fato, chamar a atenção do pai para si.

Diogo que há muito ignorava as atitudes da filha, ficou literalmente possesso quando acordou pela manhã, e leu as declarações que Marina havia feito. Sem pensar, passou a mão no telefone e discou o número da morena. Era verdade que já estava pra lá de vacinado com os escândalos envolvendo Marina, no entanto, desta vez era diferente. Desta vez, não era apenas mais uma matéria maldosa de algum jornalista aproveitador, mas sim, sua própria filha dando declarações, que para ele, eram absolutamente absurdas e repulsivas.

A ligação não durou mais do que 10 minutos, contudo, por mais que não tenha sido longa em duração, causou danos profundos e relativamente irreparáveis na relação já extremamente desgastada que Marina e o pai mantinham. Verdadeiramente magoada, decidiu se afastar de vez do pai, e não havendo nenhuma insistência ou resistência a essa ideia por parte de Diogo, decidiu que, de fato, nunca mais o procuraria.

A partir daí, buscando amparo no despontar de sua carreira, em seu relacionamento, e eventualmente em Vanessa, resolveu que o mais condizente com sua decisão seria sair o mais rápido possível da aba de seu pai. Uma vez que, como se isso o redimisse, ou de alguma forma o isentasse de suas demais responsabilidades paternas, Diogo manteve intocada a gorda mesada que enviava todos os meses para a filha, não a desamparando nunca a nível financeiro.

Conforme a proximidade entre Victória e Marina se intensificava, mesmo que de maneira não totalmente consciente, Vanessa era posta cada vez mais de lado pela fotógrafa, causando na ruiva, um sentimento crescente de magoa e raiva em relação a francesa. Como se ela fosse a responsável exclusiva pelo distanciamento de Marina. Como se ela a tivesse roubado dela.

Por um segundo, voltando parcialmente de seus devaneios, Vanessa suspirou. Olhou para o lado, e como se seu olhar a tivesse despertado, Vic abriu os olhos.

_Oi. Bom dia, amor! – disse baixo e preguiçosamente, sem conseguir chamar a total atenção da namorada – Ei, onde essa cabecinha está logo cedo hein? – dessa vez a voz rouca e ainda sonolenta de Vic, enfim trouxe Vanessa de vez de volta para a realidade.

_Bom dia, dorminhoca! Tudo bem? – respondeu a ruiva, enlaçando a outra em um abraço apertado – Estava pensando em como é muito louco estarmos aqui, onde estamos hoje – riu baixo.

_Como assim? – perguntou a loira, aconchegando-se mais nos braços da namorada.

_Ah, amor. Assim. Juntas! – deixou seus dedos deslizarem pelos fios loiros do cabelo da outra – Já te odiei tanto nessa vida – riu mais uma vez.

_Me odiou? – disse desvencilhando-se do abraço da namorada, e fazendo cara de magoada – Porque?

_Ah, Vi. Naquela época, na Europa – abraçou-a novamente – lembra?

_Eu sabia que não gostava de mim, por causa da Marina, mas que tinha me odiado não sabia não! – disse cedendo ao aconchego do abraço que recebia – Que horror, amor! – riu baixo no colo da outra.

_Pois é. E agora, veja bem onde estamos! – disse beijando o topo da cabeça da namorada. Victória riu.

_E onde estamos amor? – brincou, virando-se para poder encarar os olhos verdes da ruiva.

_Como assim? – vacilou Vanessa, sem saber exatamente qual era a profundidade da pergunta da outra – Onde estamos?

_Ué amor, assim – sorriu, vendo a típica ruguinha de preocupação aparecer na testa da namorada – Onde estamos?

_Não tô entendendo amor – esquivou-se Vanessa – Você que conversar sobre isso agora? – perguntou receosa, torcendo para que como de costume, o assunto tomasse outro rumo.

_Então, na verdade, lembra do que eu disse ontem? Que tinha uma coisa pra te falar?

_Lembro sim. Mas, depois você não disse mais nada – sorriu com a lembrança da noite passada.

_Culpa sua – sorriu de volta, compartilhando em silêncio das mesmas lembranças que a namorada – Mas, você ainda quer saber o que é?

_Claro né amor! Até parece que não sabe que namora a pessoa mais curiosa desse mundo – deu um breve beijo nos lábios da loira – Conta! – disse empolgada.

_Huuumm – fez mistério, pensou se aquele era o melhor jeito de dizer aquelas palavras, e decidiu – Vamos fazer assim, você sai pra jantar comigo hoje, e aí eu te conto. Tudo bem?

Vanessa protestou, mas antes que pudesse reclamar demais, Vic tratou de ocupar os lábios da ruiva com os seus, distraindo-a rapidamente.

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O desconforto da velha poltrona de hospital, somada ao desconforto emocional e psicológico que acompanhava Clara nos últimos tempos, a impediram de sequer conseguir pensar em pregar os olhos. O cansaço a chamava, a cada cinco minutos. No entanto, sua mente não permitia que seu corpo repousasse, e para variar, somou mais uma noite em claro para sua pequena e recente coleção.

Quando chegou ao hospital, em meio à madrugada, Cadu dormia profundamente por conta da montanha de remédios que vinha tomando, e pelo que a médica lhe disse, nem sequer fazia ideia de sua presença ali. Não tinha certeza de como seria a reação do ex-marido ao vê-la, mas a verdade é que quando a Dra. Silvia ligara para ela na noite anterior, apesar de todos os pesares e ressalvas, não pôde conceber outra atitude, se não a de ir prestar sua ajuda e solidariedade ao ex-marido.

Assim como a noite, as primeiras horas da manhã se arrastavam. Cadu não abria os olhos, e apesar dos aparelhos indicarem normalidade nos sinais vitais, Clara passava a ficar verdadeiramente preocupada com o que pudesse estar acontecendo. Decidiu sair para procurar pela Dra. Silvia, que já não aparecia por ali há algumas horas, no entanto, no mesmo momento em que tomou essa decisão, ouviu a voz fraca e sonolenta do chef chamar seu nome.

_Clara?– perguntou mais para si mesmo do que para a outra pessoa presente em seu quarto.

_Oi Cadu! – respondeu voltando a aproximar-se da cama – Como está se sentindo?

_Clara, é você? – questionou novamente, incrédulo de estar mesmo vendo-a parada ali, em pé, bem na sua frente – Quem te disse que eu estava aqui? – Por um minuto, baseando-se no peso de sua cabeça e no embaralhado de suas ideias, pensou que a imagem da ex-esposa fosse apenas uma ilusão causada pelos remédios.

_Sou eu mesma, Cadu – reforçou a dona de casa – A Dra. Silvia me ligou ontem a noite, e vim para cá, ver como estava – disse com seu tom preocupado de sempre.

_Não precisava. Tá tudo bem! – afirmou baixo, buscando tranquilizar a mãe de seu filho – Foi só um susto. Aposto que a Silvia deve me liberar daqui a pouco! – sorriu amarelo.

_Não precisa mentir para mim, a Silvia me alertou sobre a gravidade da situação Cadu – disse aproximando-se um pouco mais do ex-marido – Mas, tenho certeza de que você vai sair dessa.

_Bom, se a Silvia já fofocou tudo com você, não tenho porque tentar esconder – disse cabisbaixo, assumindo um tom igualmente preocupado.

_Ei... – segurou a mão do chef – Você é um homem forte! Tem um filho lindo para ver crescer, e do jeito que é teimoso e cabeça dura, sei que não o deixaria para eu criar sozinha! – brincou, tentando descontrair um pouco.

_Falando nele, ele sabe que eu tô aqui? – perguntou apreensivo.

_Sim e não. Ele só sabe que você está no hospital, mas disse que foi só um mal estar. Não tem noção da gravidade da situação. Pode ficar tranquilo – disse pressionando sua mão por sobre a dele.

Quase que involuntariamente, Cadu olhou para a mão da esposa pairando por cima da sua, e por um momento, sem que pudesse efetivamente controlar, sentiu todas as falhas barreiras que tentou construir contra o que sentia por sua ex-esposa, caírem bem ali, na sua frente, uma a uma. Por mais que tentasse, ainda não conseguia ver sua vida sem Clara, e estar ali, naquela cama de hospital, naquele momento, era apenas mais uma prova da decadência de homem que ele se tornara sem ela.

Curtiu o calor dos dedos de Clara por sobre os seus por mais alguns segundos. Pensou em dizer alguma coisa. Pensou em agradecer a presença dela ali. Encarou-a nos olhos, respirou fundo. Mas, antes que pudesse decidir exatamente o que fazer, ou dizer, teve seu conflito interno abruptamente interrompido pela chegada repentina de Silvia.

_Vejo que meu paciente preferido finalmente acordou! – brincou, tentando descontrair mais a si própria do que o ex-casal presente no quarto, em razão das notícias que vinha para dar – Como está se sentindo hoje? – perguntou ao chef, cumprimentando Clara com dois beijos no rosto.

_Oi Silvia – apesar da interrupção de seu pequeno momento com Clara, involuntariamente, Cadu sorriu ao ver sua médica e amiga – Na verdade, eu acordei tem bem pouco tempo. Estou me sentindo meio sonolento ainda, mas, a dor no peito e a dificuldade pra respirar passaram. Ou não acordaram ainda! – riu baixo, tentando fazer graça da própria situação.

_Mesmo? – disse tirando o estetoscópio do pescoço e, apesar de os aparelhos indicarem quase tudo que ela precisava saber, deu início as checagens habituais em seu paciente – Isso é muito bom saber, Cadu. Sinal que acertamos nos remédios administrados ontem – devolveu a piada do chef.

Ambos, médica e paciente riram. Mecanicamente, Silvia terminou de realizar os exames e checagens que realizava, colocou o estetoscópio em volta de seu pescoço novamente e respirando fundo, preparou-se para prosseguir com as novidades.

_Então Cadu, tenho novidades sobre o processo do seu diagnóstico – parou por um instante – As notícias não são das melhores.

_Como assim? – antecipou-se Clara – O que ele tem Silvia?

_Na verdade, o quadro do Cadu não é nada bom – virou-se para encarar seu paciente – Seu coração não está respondendo aos medicamentos como deveria, isso faz com que ele trabalhe abaixo do necessário, impactando no funcionamento saudável de todas as suas demais funções vitais. Por isso a falta de ar, as dores musculares frequentes, dores no peito, as oscilações constantes de pressão e todo o resto.

_Entendi – automaticamente, Cadu baixou a cabeça – Mas, Silvia... Qual a minha real situação? – sem que percebesse, como se na verdade tivesse medo de fazer a pergunta que fizera, baixou um pouco mais seu tom de voz – Quais os próximos passos?

_Então... Vamos tentar uma nova medicação para os próximos dois dias – antes que pudesse concluir, foi interrompida por Clara.

_Mas, Silvia, você mesma não mencionou que acertaram na medicação dele aqui no hospital? Não tô entendendo! – disse confusa, voltando a postar-se ao lado do chef, e segurar sua mão.

_Sim, Clara. Mas a questão é que aqui, ele tem o auxilio das máquinas e de medicação intravenosa pesada. Ele não pode passar o resto da vida internado, tampouco pode ter esse tipo de atenção fora daqui, então temos que achar um meio termo – ponderou por um minuto, buscando a melhor maneira de prosseguir com as informações que tinha a passar – E essa tentativa, infelizmente, é a última que nos separa da necessidade de um transplante de coração.

Clara ficou pálida. Cadu, por sua vez, já vinha esperando o pior para si mesmo a tanto tempo, que pareceu não abalar-se muito com a novidade trazida pela médica.

_E quais são as chances de isso funcionar? – perguntou o chef, desanimado.

_Não consigo te precisar quais as chances exatas, Cadu. Mas, estamos de verdade apostando nisso – encorajou a médica – No entanto, mesmo que os remédios não respondam como precisamos, temos a melhor equipe médica aqui, e no caso de termos que fazer o transplante, garanto que você não terá nada menos do que o acompanhamento mais especializado do país – disse Silvia, buscando tranquilizar tanto Cadu, quanto Clara.

_E como vai ser esse processo, Silvia? – questionou Clara, tentando entender melhor quais eram os próximos passos a serem seguidos – O que precisamos fazer?

_Na verdade, por agora vocês não tem que fazer nada. Assim que essa medicação acabar – disse apontando para os dois suportes que seguravam as pequenas bolsas de soro e remédio ao lado da cama do chef – Vamos trocar pela medicação que estamos apostando que vai solucionar as questões apresentadas pelo Cadu, e aí, não temos o que fazer se não esperar – desta vez, quem se aproximou de Cadu foi a médica, segurando sua outra mão por entre os dedos – Vamos acompanhar as próximas horas de perto, e ver como seu coração se comporta. Pode ser que nessa noite, com a mudança da medicação, você volte a sentir um pouco de dor no peito, ou até mesmo dificuldade para respirar em alguns momentos, mas de início, isso é normal.

_Tudo bem Silvia – disse encarando a médica – Muito obrigada por tudo!

Sem poder fazer mais nada por seu paciente naquele momento, Silvia decidiu deixar que Cadu descansasse. Despediu-se e partiu para cuidar dos outros pacientes que a aguardavam.

Como se a saída de Silvia o liberasse para sentir o peso de sua realidade, assim que a médica deixou o quarto, Cadu chorou. Clara, por sua vez, colecionando duras realidades e tentando encontrar-se em meio aos próprios cacos há tantos dias, não teve forças para fazer muita coisa. Procurou dentro de si, mas não encontrou palavras, consolo, tampouco otimismo para compartilhar ou empresas ao chef. Limitando-se ao pouco que ainda conseguia fazer, Clara puxou a poltrona que usara para dormir a noite para mais perto da cama de Cadu, embrulhou a mão dele com as suas, e murmurando o bom e velho “vai ficar tudo bem”, acompanhou-o em lágrimas silenciosas e sinceras.

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Como se a noite não houvesse passado por completo, tanto a manhã, quanto a tarde de Marina passaram arrastadas. Na verdade, desde que acordara, por volta das onze horas, a fotógrafa pouco fez, preferindo ficar na cama ao invés de gastar as poucas energias que tinha para levantar-se. Vic e Vanessa já haviam passado por ali, já haviam a feito rir um pouco, e assim que saíram do quarto, pela primeira vez em dias, Marina conseguiu, de fato, sorrir.

Não podia dizer o quanto ficava feliz em ver duas das mulheres mais queridas e amadas de sua vida daquele jeito. Sorrindo bobas uma para a outra, brincando como crianças mimadas e dramáticas entre si, mas, principalmente, amando-se do jeito que ela conseguia ver que elas se amavam. Verdadeiramente, torcia para que tudo desse certo entre elas. Afinal, alguém naquela casa tinha que se dar bem no amor, e sem dúvida nenhuma, não conhecia pessoas que mereciam mais do que aquelas duas. Aquelas duas mulheres que ela mesma já havia amado tanto.

Por um segundo, pensou na bagunça em que sua vida se tornara. Pensou em todos os vendavais, terremotos, tsunamis, e avalanches emocionais pelos quais vinha passando nos últimos dias, e como se sua mente procurasse um culpado para responsabilizar por toda aquela dor, imediatamente o rosto de Clara veio à tona.

Por um instante, permitiu que sua mente vagasse pela imagem daquele rosto, sem restrições ou mágoas, e involuntariamente, lembrou-se do sorriso, do cheiro, do beijo, da pele, do calor, da respiração, da voz, das carícias, do toque. Não tinha como negar seu desejo por aquela mulher, e mesmo estando da maneira que estava ali, ferida e magoada daquele jeito, Marina podia senti-lo pulsar e arrepiar cada pedacinho de seu corpo.

A verdade nua e crua era que Marina a amava. Muito. E no fundo, a fotógrafa sabia, sem sombra de dúvida, que nada daquilo iria dissolver-se de uma hora para outra. De um dia para o outro. Respirou fundo; fechou os olhos. “O que você foi fazer com a gente, Clara?!”. “Porque você mentiu tanto pra mim? Eu acreditei. Em cada palavra, em cada segundo. Eu sempre acreditei nesse amor! Porque você fez isso com a gente?”. Perguntou-se retoricamente, sem conseguir achar causas, motivos ou razões minimamente visíveis e palpáveis, para que Clara tivesse escolhido a enganar daquele jeito.

Abriu os olhos, fitou o teto branco do quarto por alguns minutos, e tornou a fecha-los. “Depois de tudo, Clara!”, como se pudesse dar tom e sonoridade a seus próprios pensamentos, mesmo sem abrir a boca, Marina sentia como se gritasse e chacoalhasse a ex-namorada. No entanto, antes que pudesse entrar em uma briga mental sem volta com sua Clara imaginária, ouviu duas leves batidas na porta.

_Oi Mari. Voltei! – a voz de Vic soou tensa – Tudo bem?

_Tudo Vi. Pode entrar! – encarou a loira, e mesmo dispersa do jeito que estava, pôde perceber uma ruguinha realmente tensa formando-se na testa da ex-professora – Tudo bem com você Vi?

_Então, a Van saiu pra fazer umas compras. E... A gente precisa ter uma conversa, pequena – sentou na cama ao seu lado e encarou-a nos olhos – Uma conversa séria. E antes de qualquer coisa, eu quero pedir pra que você apenas me escute!

_Ah, Vic, já até sei. É sobre a Clara, não é?! – antes mesmo que Vic pudesse confirmar sobre o que tratava-se a tal conversa, Marina antecipou-se – Eu realmente não quero falar sobre isso agora. Não tô bem pra isso.

_Eu sei que você não quer. Mas, você tem. Você precisa! – decretou autoritária, como em pouquíssimas vezes Marina a tinha visto se posicionar – E outra, você não vai falar nada. Eu só quero que você me escute. Ok?

_Ok Victória! – respondeu contrariada.

_Bom, na verdade, eu prometi pra Clara que não falaria disso com você. Mas, fiquei pensando, e sinceramente, não tem porque eu ficar assistindo esse sofrimento todo de vocês duas e ficar quieta – antes que pudesse continuar, foi interrompida pela ex-aluna.

_Você e a Clara viraram amiguinhas agora? Trocam confidências? – perguntou irônica, inciumada, e extremamente infantil.

_Não Marina, não viramos nada. E por favor, sem birrinha! – Vic estava realmente irredutível. Tinha demorado um bom tempo para tomar essa decisão internamente, e queria livrar-se logo do peso de saber tudo o que sabia, e mesmo assim ficar calada, assistindo a tudo aquilo – Enfim... Eu conversei com a Clara sim. Ontem, quando tirei ela daqui do estúdio. Ela não estava bem, e resolvi ter a conversa que vocês duas é que deveriam ter tido. Sentadas, como adultas, sem toda essa gritaria, sarcasmo e ironia que virou o diálogo de vocês.

_Victória, só pra eu entender... Você tá mesmo me dando uma bronca? É isso? – indignou-se Marina – Você tá mesmo vindo aqui defender a Clara, e brigar comigo?

_Pode parando. Eu não tô defendendo, e também não tô brigando com ninguém! Eu vim aqui pra te dizer algumas coisas que eu descobri dessa história toda, e que acho que você tem que saber Marina. Mas, assim como há alguns anos atrás, você tá agindo como uma menina mimada.

_Você tá querendo dizer o que Victória? Tá comparando esse momento com Paris? Com os nossos problemas em Paris? – questionou irritada.

_Não! Eu não tô comparando nada com nada – respirou fundo – Dá pra você só me ouvir um pouco? Por favor!

_Sinceramente hein Victória! O que tem a ver isso tudo com as coisas que aconteceram com a gente lá atrás?

_Nossa! Ta impossível conversar com você mesmo! – desabafou, indignada – Me diz uma coisa Marina, você por acaso já pensou na possibilidade de estar errada? Já passou pela sua cabeça que você pode estar fazendo tudo errado? – sem perceber, Vic havia subido um pouco o tom de voz – Que não tem porque ela continuar negando tudo? Que não tem porque a Clara estar mentindo? Já pensou no fato de a outra pessoa envolvida nisso tudo ser a Melissa? Já?

_Eu queria estar errada Victória! – esbravejou Marina – Eu queria! Mas, como é que eu posso estar? COMO? – berrou – Cada hora é uma novidade que chega na minha mão!

_Novidades que chegam na sua mão enviadas por quem? – indagou a francesa, realmente irritada com a cegueira exagerada de Marina – Pela Melissa, Marina. Estamos falando da Melissa!

_Sim, estamos falando da Melissa. Mas, e daí Victória? E daí? – levantou-se da cama – Aquelas fotos são reais, não foram adulteradas. E além disso, ontem mesmo eu recebi um vídeo das duas! UM VÍDEO!

_Ok, mas já considerou que isso pode não ser exatamente assim? Tão preto no branco? – Vic tentava chegar no ponto que queria, mas a verdade é que não gostava da ideia de simplesmente lançar a bomba no ar, principalmente com Marina naquele estado – Tá, aquilo foi real. Ok. As fotos são reais, esse tal vídeo que você recebeu, mas e se nada disso tiver sido consentido, Marina? Já pensou nisso? Porque a Clara negaria tanto?

_Não sei Victória! Não sei por que ela nega tanto – exaltou-se ainda mais – E o que você quer dizer exatamente com não consentido? Porque sinceramente, ela foi até lá com as próprias pernas. Inclusive, mentiu pra mim para poder estar lá.

_Tá ela mentiu para estar lá, mas ela assumiu isso, não assumiu? Ela disse a verdade pra você! – insistiu, tentando de alguma forma mostrar a Marina, que ela não estava considerando todos os fatores existentes na situação – Porque ela estaria insistindo em mentir agora? Porque Marina?

_Eram situações diferentes! Ela ficou sem saída e essa mentira não iria acabar com a nossa relação, ela sabia disso! Era muito mais fácil assumir! – Marina não controlava mais o tom de voz que usava, gesticulando sem parar – Acredito que ela não soubesse que na verdade era só mais uma presa pra coleção da Melissa. Acredito que ela tenha se iludido com a conversa mole daquela... – respirou, tentando recuperar o mínimo de calma possível – Que ela não soubesse que a Melissa faria o que fez. Fotos, vídeo, quadro. Nisso eu acredito!

_Marina, pelo amor de Deus. Se escuta falando. Não é possível que você não vê as lacunas nessa coisa toda. Essa história tá muito mal contada! – explodiu, levantando-se também – Para e pensa um pouco! Você não tá considerando todos os fatos!

_Ah Victória, sinceramente! O vídeo graças a Deus não estava com a melhor qualidade de imagem do mundo, mas, a Clara não estava amarrada em lugar nenhum! A Melissa não estava com uma arma na cabeça dela! Então me diz, ME DIZ VICTÓRIA, como é que eu posso estar tão errada assim na interpretação da droga dos fatos?

Antes que Vic pudesse responder qualquer coisa, o som do toque do telefone celular de Marina ecoou pelo quarto, atraindo a atenção de ambas. Aproveitando a interrupção para sair daquela conversa, a fotógrafa não deixou a ligação passar, e fez questão de procurar pelo aparelho no meio de seus travesseiros. No visor, o número aparecia com o DDD de São Paulo, no entanto, não o reconhecia como sendo de ninguém conhecido.

_Alô – atendeu beirando a grosseria – Quem é?

_Oi, Marina? – a voz descontraída e juvenil de Renata era inconfundível.

_Rê? É você flor? – perguntou, mudando automaticamente seu tom de voz.

_Sou eu mesma! – riu baixo – Tudo bem? Liguei em má hora? – perguntou, percebendo a grosseria inicial da fotógrafa.

_Não poderia ter ligado em hora melhor – disse olhando fixamente para Victória, que como de boba não tinha nada, entendeu a mensagem rapidamente, e resolveu que o melhor a fazer era realmente deixar aquela conversa para mais tarde, e sem mais delongas saiu do quarto – Como você tá?

_Eu tô ótima! Eu e a Paula acabamos de chegar aqui na sua cidade maravilhosa – a animação na voz da garota era indisfarçável.

_Sério? Nossa, eu jurava que era só no mês que vem que vocês viriam! – respondeu realmente pega de surpresa pela chegada de Renata e sua amiga na cidade.

_Seríssimo! – riu – Cá estamos! Na verdade, liguei pra saber como anda a sua agenda. Será que conseguiríamos jantar juntas hoje?

_Claro que a gente consegue! Mas, me diz uma coisa, onde vocês vão ficar hospedadas?

_Ah, num hotel ali no leme. Do ladinho do posto 2, quase em copa. Mas, podemos marcar em qualquer lugar Mari – disse empolgada.

_Na verdade, não perguntei nem por isso não. Vocês não querem vir aqui pra casa? Tem um quarto de hóspedes vago. Vocês podem ficar aqui – ofereceu Marina, vendo na presença das meninas ali uma oportunidade para não ficar sozinha, e quem sabe, voltar a animar-se.

_Não Mari. Não precisa não, magina! – recusou Renata, usando da boa educação que sempre tivera, nunca quis dar trabalho a ninguém.

_Magina digo eu, mocinha! Vem já pra cá! – brincou a fotógrafa, insistindo no convite – Assim a Paula conhece o estúdio, e vocês ainda economizam uma grana pra gente gastar por aí na noite.

_Ai Marina, mas não precisa mesmo. Não queremos te dar trabalho! – recusou mais uma vez, sem jeito de aceitar o convite da fotógrafa.

_E desde quando receber meus amigos em casa é algum trabalho? Já tô esperando vocês Rê – determinou convicta, sem espaço para mais alguma negativa da ruiva – Onde vocês tão agora?

_A gente acabou de sair do aeroporto, estamos no táxi, indo lá para o hotel.

_Então já pede pra ele mudar o caminho e toca pra Santa Teresa, vou mandar o endereço certinho pra você por SMS, pode ser?

_Tudo bem né, sua maluca! – riu a ruiva, animada com o fato de estar indo passar alguns dias na casa de ninguém mais, ninguém menos, do que Marina Meirelles – Estamos indo para aí então.

_Certo, venham. Estou esperando vocês! – respondeu, compartilhando da mesma animação de Renata.

Marina despediu-se, enviou seu endereço para o numero da garota, e sem pensar meia vez, correu para o banheiro. Se as meninas estavam saindo do aeroporto naquela hora, não demorariam muito a chegar em Santa Teresa, e depois daquela discussão toda, a fotógrafa só tinha certeza de uma coisa na vida: precisava de um bom banho!

Imóvel embaixo do chuveiro, deixou que a água quente escorresse por seu corpo durante alguns minutos. Por um segundo, pensou em tudo o que Victória havia lhe dito. No fim, discutiram, e ela acabou não falando o que tinha para falar, tampouco o que tinha descoberto. Seja lá o que fosse.

“E se nada disso tiver sido consentido”. Pegou o frasco de shampoo, e enquanto lavava os cabelos pensou sobre aquela frase. “Como assim não tiver sido consentido, Victória?”. “Como assim não estou considerando os fatos? Estou, inclusive, considerando apenas e tão somente os fatos!” involuntariamente, balançou a cabeça de um lado para o outro, tentando livrar-se tanto dos pensamentos que rondavam sua mente, quanto da lembrança de ter discutido com a francesa. Nem uma, e nem a outra coisa lhe agradavam muito.

Mesmo sem conseguir livrar-se por completo das perguntas que começavam a aparecer em sua mente, Marina terminou seu banho, e saiu em disparada para o quarto. Sem incrementar demais, optou pelo básico. Shorts jeans, e uma camiseta vermelha. Penteou os cabelos molhados, e como de costume, tomou um banho de seu perfume favorito, pintou seus lábios de vermelho, e desceu para recepcionar as convidadas que logo estariam ali.

Como se fosse combinado, assim que Marina colocou os pés no último degrau de sua escada, ouviu o som do interfone romper o silêncio da sala. Atendeu ao porteiro, e pediu para que autorizasse a entrada no táxi na casa. Ansiosa para rever Renata, foi ao encontro dela e de sua amiga no jardim.

_Olha só quem está aqui! – exclamou ao ver a amiga desembarcar do táxi – Tudo bem Rê?

_Maaari, sua linda! – brincou Renata, abrindo os braços para cumprimentar a fotógrafa com um abraço apertado – Comigo tudo bem, e você maluca? – sem conseguir evitar, Marina riu do jeito moleca da amiga.

_Eu tô bem! Cadê a Paula? – perguntou, percebendo que a outra não estava a vista.

Sem nenhuma sutileza, Renata colocou a cabeça de volta para dentro do carro.

_Paula, larga mão de frescura e desce logo daí mulher! – sem entender nada, Marina fez cara de interrogação para a ruiva, que entendendo perfeitamente sua dúvida, prontamente respondeu ao questionamento mudo da fotógrafa – Sua fã né?! Tá emocionada! – mais uma vez, sem conseguir evitar, Marina riu.

Tímida e agora meio desconcertada pela fala da amiga, Paula apareceu do outro lado do carro. Marina, que até aquele momento não lembrava-se do quanto Paula era bonita, gastando toda a sua habitual simpatia, deu a volta para cumprimenta-la onde estava.

_Oi Paula! Tudo bem flor? – perguntou dando um beijo mais demorado do que o normal, em cada lado de seu rosto.

_Oi Marina! Tudo bem e você? – respondeu sem jeito – Ai, não liga para o que essa cabeça oca da Renata diz não. Menina chata! – reclamou, emburrada por a amiga tê-la entregado.

_Ah, então quer dizer que você não é minha fã? É tudo papo da Renata? – fez-se de magoada – E eu aqui, bobinha, me achando importante! – quase sem perceber, Marina fez um biquinho, encenando perfeitamente seu papel.

_Não, não, essa parte é verdade! – rebateu Paula, caindo facilmente no charme jogado pela fotógrafa – Sou super fã! – sorriu, exageradamente disponível.

Involuntariamente Marina sorriu de volta, encarando a garota loira a sua frente. Era tão fácil pra ela jogar aquele jogo, tão involuntário, que mal dava-se conta de quando o fazia.

_Fico feliz que tenham aceitado meu convite – disse, ainda sem desviar os olhos de Paula.

_Feliz fico eu, por ter nos convidado! – respondeu, gastando mais um de seus belos e solícitos sorrisos em direção à fotógrafa.

Alguns segundos e olhares depois, Marina ajudou as meninas a descarregarem suas respectivas malas do carro, e levou-as para conhecer a casa. Apresentou o quarto em que se hospedariam, e deixou-as a vontade para se instalarem por ali.

Assim que saiu do quarto, deu de cara com Vanessa e Victória subindo as escadas. A ruiva quis saber o que a fotógrafa fazia no quarto de hóspedes, e Marina pôs as duas a par das visitas que estavam recebendo. Pediu para que a assistente tentasse antecipar alguns dos ensaios que tinham agendado para as próximas semanas, para que Paula pudesse acompanhar um dia de trabalho real no estúdio. Aproveitando a súbita animação e disposição de Marina, Vanessa não fez a mínima objeção, e prometeu fazer o que pudesse e não pudesse para conseguir antecipar os trabalhos.

Vic, por sua vez, desconfiou dessa súbita empolgação. Conhecia Marina bem demais para não notar as pequenas nuances. Para não perceber o que estava acontecendo. Todos os sinais estavam ali. O lampejo diferente no olhar, aquele ar que emanava uma confiança extrema, a mudança de postura, dos movimentos, até seu tom de voz mudara. Sim, aquela era exatamente a Marina que ela conheceu anos atrás dentro da sala de aula. E não, isso não era nada bom!

Sem a intenção de deixar com que Vanessa percebe-se o que se passava, esperou que a namorada saísse de onde estavam, e optou pela abordagem direta.

_Mari... Quem é Paula? – perguntou na lata, sem delongas ou rodeios.

_Paula é a amiga da Renata, Vic. Por quê? – respondeu gastando toda a inocência fictícia que conseguiu reunir.

_Marina... Você entendeu o que eu perguntei – insistiu a francesa – Quem é Paula?

_Já disse Vic, Paula é a linda amiga da Renata – inseriu o adjetivo de propósito, respondendo exatamente o que a ex-professora queria saber com aquela pergunta – Não a conheço. Ainda! – concluiu, deixando Victória para trás e indo em direção as escadas.

Vic ficou ali, parada exatamente no mesmo lugar que estava. “Como você consegue estar sendo tão idiota, Marina?!”. Irritou-se automaticamente. Sabia quais seriam os próximos passos da fotógrafa, mas o pior era saber o quanto ela se arrependeria no final de tudo isso.

Algum tempo depois, após as meninas estarem devidamente instaladas, o anoitecer já despontava no céu de Santa Teresa, e as três, convidadas e anfitriã, reuniram-se na sala.

_E então meninas, o que temos pra hoje? O que vocês animam de fazer? – perguntou Marina.

_Eu não sei vocês, mas nesse momento, tô começando a ficar verde de fome! E como boa paulista que sou, voto em irmos para o shopping mais próximo, e comermos a coisa mais gordurosa que tiver lá! – respondeu Renata, arrancando risadas automáticas tanto de Paula, quanto de Marina.

_Eu topo o shopping – concordou Paula – E topo também um barzinho depois dessa gordura toda! – riu – E você, Marina?

_Vocês que mandam, meninas!

Sem perder mais tempo, rumaram as três para o carro de Marina. Paula, que de boba, não tinha muita coisa, fez questão de sentar-se no banco do passageiro, ao lado de sua fotógrafa preferida.

–-//--

Depois de passar a noite e o dia no hospital, Clara deu-se por vencida e resolveu voltar para casa. Afinal, precisava mesmo de um banho, roupas novas, comer alguma coisa, e principalmente ver como estava seu filho. Prometeu ao Cadu que voltaria no outro dia pela manhã para vê-lo, e também que não alarmaria Ivan com relação a sua real condição. No entanto, sabendo da inteligência e insistência característica do filho que tinham, tiveram que entrar em um consenso sobre o que contar para ele.

A volta para casa foi estranha. Há dias Clara não sabia ficar sozinha consigo mesma, e por mais que o percurso não fosse tão longo assim, estar sem companhia no banco traseiro do táxi por mais de 20 minutos, já a fazia entrar em parafuso sem esforço algum. Tudo rolava por sua mente desordenadamente, e o cansaço físico profundo que lhe acometia naquele momento, não a ajudava a colocar nada em ordem dentro de sua cabeça. Tampouco dentro de seu peito.

Por um minuto, pensou sobre a situação de Cadu. A coisa não ia bem para o ex-marido, e era incrível como mesmo ele estando onde estava, na situação em que estava, e tendo os dois passado por tudo o que haviam passado, ele ainda a conhecia tão bem, que não demorou muito mais do que algumas poucas palavras, para que percebesse que havia alguma coisa de muito errado acontecendo com Clara. Obviamente, aquela não era a situação, o lugar, e muito menos o momento certo para que desabafasse sobre isso, portanto, sem conseguir fugir dos questionamentos de Cadu, Clara limitou-se a falar apenas o básico, contando que sua relação com Marina não ia bem.

Tinha que admitir que desde que se separaram, era a primeira vez que passava um dia agradável com o ex-marido, e de alguma forma, mesmo que minimamente, isso a acalentava. No fim das contas, amigos ou inimigos, estariam entrelaçados até o fim de suas vidas por intermédio de Ivan. Portanto, no fundo, ambos sabiam que seria melhor pra todo mundo, se conseguissem voltar a ter uma relação minimamente amigável. Claro, o momento não era dos melhores, Cadu estava numa cama de hospital, e em situações como essa, todos se fragilizam. Contudo, mesmo assim, pela primeira vez, tinham conseguido ficar mais de cinco minutos sem discussões ou picuinhas pequenas e sem sentido.

Graças ao pequeno trajeto que a separava de sua casa, não demorou para que o táxi estacionasse em frente à entrada do prédio no Leblon. Respirou fundo, pensando em como contaria para Ivan que o pai estava internado novamente, sem deixar o menino preocupado demais, e sem achar muita alternativa imediata, resolveu subir de uma vez, para ver como estava o seu bichinho.

Ao invés de ir para o seu próprio apartamento, foi direto para o de sua irmã, onde Ivan tinha passado o dia. Assim que chegou, como se a esperasse de campana ao lado da porta, Ivan logo a recepcionou, pulando em seu colo. Não precisava ser nenhum gênio para perceber o quanto o menino estava verdadeiramente preocupado. E claro, sua preocupação era tanto com a mãe, que já sabia não estar bem, quanto com o pai, que pelo jeito, não estava nada legal também.

_Oi mãe! – beijou-a, agarrado ao seu pescoço – Tudo bem? Como tá o papai?

_Oi meu filho! – abraçou-o com toda a força que ainda lhe restava – Como você passou seu dia? Obedeceu seus tios? – perguntou, ganhando tempo para responder aos questionamentos do filho.

_Claro! Eu sempre obedeço a tia Helena e o tio Virgílio – respondeu, impaciente – Mas, mãe, me diz. Como tá o papai? Ele já saiu do hospital?

Sem precisar dizer nada, Helena entendeu perfeitamente o pedido de ajuda contido no olhar lançado por Clara, e interveio.

_Ivan, deixa sua mãe respirar menino! – riu baixo – Olha só a cara de cansada dela! Calma que ela já te conta tudo, tá bem?! – disse esticando a mão em direção ao menino, que agora já havia soltando-se do pescoço de sua mãe.

_Isso filho, deixa só a mamãe tomar um banho que já te conto tudo, pode ser?

_Tá – na verdade Ivan queria as informações que precisava naquele exato momento, e não depois, mas, como não tinha muito o que pudesse fazer, concordou, contrariado.

Sem dar tempo para mais perguntas que o filho pudesse lhe fazer, Clara rumou sentido o quarto da irmã, que deixando Ivan sob os cuidados de Virgílio, não demorou a segui-la até lá.

_Clara? – perguntou, batendo na porta – Posso entrar?

_Claro Leninha, o quarto é seu. Esqueceu? – tentou brincar, buscando descontrair a si própria.

_O minha irmã, o que foi? – perguntou Helena, assim que viu o semblante de Clara, sentada a beira de sua cama – O que tá acontecendo?

_Ai Leninha, tanta coisa irmã. Tanta coisa! Se você soubesse! Meu Deus! – disse, tentando escolher o que contava primeiro – Bom, primeiro, sobre o Cadu – optou por começar com a situação mais fácil de ser relatada – A situação dele não está nada boa, irmã. A Dra. Silvia deixou bem claro que a essa altura, as chances de ele precisar de um transplante são grandes! Entre amanhã e depois, eles tentaram mudar a medicação dele e monitorar como o coração reage, mas essa é a última esperança antes do transplante.

_Não acredito! Jura, Clara? – disse sentando-se ao lado da irmã na cama – Mas, então ainda temos essa chance de não ter que partir para o transplante, certo?

_Sim, mas não senti muita firmeza na Dra. Silvia, sabe?! – baixou a cabeça, desanimada – Nem ela tá acreditando muito nisso!

_Calma irmã, vamos esperar. Vamos ver o que vai acontecer! O Cadu é um homem forte, sempre foi – disse, tentando animar a irmã caçula – Sempre enfrentou essa doença de cabeça erguida. Nunca deixou a peteca cair, não vai deixar agora! Você vai ver! – abraçou-a apertado.

_Ai Leninha, minha vida tá uma loucura! É Marina, Melissa, Cadu... – sem conseguir controlar, desatou a chorar nos braços da irmã – Logo agora que eu achei que ia ter um pouco de paz na vida. Não! Tudo desaba na minha cabeça de novo.

_O que tá acontecendo, Clara? – perguntou verdadeiramente preocupada. Não lembrava-se da última vez em que tinha vista a irmã daquela maneira, tão fragilizada.

_A Marina terminou tudo comigo. Ela acha que eu traí ela com a Melissa! Mas, irmã, eu não fiz nada! – disse automaticamente, por puro costume de defender-se dessa acusação nos últimos dias – Eu Juro!

_Calma, Clara! Calma! – beijou o topo da cabeça da irmã – Vamos fazer assim. Vai tomar um banho, depois a gente vê o que contar para o Ivan em relação ao Cadu – tentava organizar as coisas para a caçula, que parecia mais perdida do que qualquer outra coisa – Aí, vou levar vocês dois para jantar fora, e assim que voltarmos pra casa a gente expulsa o Virgílio do quarto e você me conta tudinho sobre isso. Tudo bem?

Sem forças para dizer não a irmã, deixou-se ser cuidada por Helena, e a obedeceu sem questionar. Esperou que a água quente e abundante que descia do chuveiro, lavasse o máximo possível não só de seu corpo, mas de sua própria alma. Respirou fundo diversas vezes, e tentou de todas as maneiras que pôde, prender sua mente ali. Sem deixa-la vagar para a casa de uma certa fotógrafa, em Santa Teresa.

Demorou mais do que o habitual no banho, e enquanto trocava-se com as roupas trazidas por sua irmã, além de não pensar em Marina, evitou pensar em qualquer coisa. Afinal, para todo o canto que olhava, só conseguia achar problemas, preocupações, decepções, mágoa, raiva. Decidiu que a partir daquela noite, viveria um dia de cada vez. Choraria uma dor de cada vez. E hoje, agora, naquele momento, não conseguia mais chorar por Marina. Tinha que ser forte. Tinha que dar o suporte que Ivan precisava ter dela, tinha que dar o suporte que o pai dele precisava dela também.

Mais uma vez, respirou fundo, e fingindo estar pronta para encarar o que viria pela frente, finalmente saiu do quarto. Adentrou a sala, e deparou-se com Ivan e Helena a sua espera. Ambos já arrumados e ansiosos para o tal jantar que a irmã mais velha queria leva-los. No entanto, antes de qualquer coisa, o “depois” havia chegado e Ivan não sairia dali antes de ter as respostas de que precisava. Portanto, no intuito de não deixar que sua mãe escapasse de suas perguntas, não perdeu tempo.

_E então mãe, o que o papai tem? – perguntou inquieto, quase impaciente pela resposta.

_Filho, seu pai ainda não saiu do hospital – respondeu de pronto – Ele vai precisar ficar mais uns dias internado.

_Mas... O que ele tem? Ele tá bem? – antecipou-se o menino, genuinamente preocupado.

_Então, ele precisa ficar mais uns dias, porque a Dra. Silva está fazendo exames no coração dele, e é mais fácil com ele lá no hospital.

_Mas, mãe... O coração dele já não tinha sarado? – insistiu, tentando entender porque seu pai estava internado novamente – Ele não tava bem?

_É isso mesmo que os médicos estão confirmando, filho – Clara respondia com cuidado, buscando não deixar transparecer para o filho sua própria preocupação com o ex-marido – Como ele passou mal, e foi parar lá no hospital, os médicos acharam melhor conferir tudo certinho, entendeu?

_Mais ou menos – disse pouco convencido pela explicação vaga da mãe – E eu posso ir ver ele?

_Pode sim, filho. Amanhã eu te levo lá. Tudo bem?

Ainda desconfiado de que sua mãe não tinha lhe contado toda a verdade, Ivan apenas acenou positivamente com a cabeça, decidindo tirar suas dúvidas com o próprio pai no dia seguinte.

_E então, vamos logo para esse jantar? Eu tô mortinha de fome, você não tá não Ivan? – perguntou Helena, levantando-se do sofá e dirigindo-se a porta de entrada da casa.

_Pra falar a verdade eu tô viu tia – respondeu o menino, meio desanimado – Mas, tô numa preguiça de sair também.

_Ah, mas nada disso filho! Vamos lá jantar com a tia Helena, que ela tá esperando a gente tem tempo já! – falou Clara, tentando transparecer uma animação que, de verdade, também não tinha – Aliás, onde será esse nosso jantar irmã?

_Tava pensando em irmos a um restaurante italiano que abriu esses dias lá no shopping, o que vocês acham?

_Hum... Lasanha! – murmurou Ivan, mostrando total interesse na sugestão de Helena.

As duas riram, e sem gastar mais tempo, partiram em direção a garagem.

–-//--

Era fácil impressionar Paula. Ela não era fútil, nem de longe. Mas, era nova, menina, sonhadora, idealizadora, quase ingênua, e fã do trabalho de Marina. Meia dúzia de palavras difíceis, de países visitados, de amigos famosos, de exposições importantes, e a fotógrafa não precisaria de muito mais munição para ganhar aquele jogo.

Por mais que Marina ainda não tivesse decretado interesse real na garota, a verdade é que estava ferida por tudo o que acontecera, e como sempre fizera para se proteger de seus próprios sentimentos no passado, agia como se não pudesse evitar os sorrisos, os olhares, e os toques desnecessários enquanto dirigia ao lado da loira. Olhou para Renata no banco traseiro, e desligada como sempre, percebeu que a amiga não tinha sequer reparado em absolutamente nada do que estava acontecendo ali no banco da frente.

Assim como em todos os outros dias, o estacionamento do shopping estava cheio. Aliás, cheio não, abarrotado. Chegava a ser incrível como por mais que houvesse trocentos shoppings, em trocentos bairros diferentes do Rio de Janeiro, todos os cariocas resolvessem ir ao mesmo lugar, na mesma noite, na mesma hora, fazer a mesma coisa. Todo santo dia. Sem exceção.

Sem pressa, rodaram uma, duas, três vezes. Até que, quase que por um milagre, passaram no corredor certo, no momento certo, e conseguiram estacionar no exato minuto em que um carro despedia-se de sua vaga.

_Nossa, finalmente! Isso aqui tá pior que São Paulo, Marina! – brincou Renata, assim que, enfim, desceram do carro.

_Você ainda não viu nada, Rê! – respondeu a fotógrafa, sacando o celular do bolso e discando o número do lugar no qual queria levar suas convidadas.

Meia dúzia de palavras depois, descobriu que teriam que esperar por ao menos 40 minutos antes de conseguirem uma mesa, e valendo-se de seu cartão absolutamente sem limites, Marina não perdeu a chance de afogar cada uma de suas mágoas com gordas e desnecessárias compras, feitas em todas as lojas que passaram a caminho do restaurante italiano no qual iriam. O lugar havia aberto há poucos dias, e pelo que lera, as críticas gastronômicas de lá eram fantásticas.

Assim que chegaram à porta do local, Marina apresentou-se, e no exato momento em que informou o número de espera que havia recebido ao telefone meia hora antes, ouviu uma voz extremamente familiar chamando seu nome. Imediatamente, parou tudo o que estava fazendo, e virou-se na direção daquele som. Exatamente como imaginara no momento em que ouvira aquela voz de menino, viu um pontinho loiro correndo em sua direção.

Clara, tampouco Helena, a tinham visto ali. Ambas estavam plenamente entretidas com a vitrine de uma loja de antiguidades, e, portanto, nem uma, nem a outra, conseguiu impedir o ímpeto de Ivan de correr em direção à fotógrafa assim que a viu, do outro lado do corredor.

Como não poderia deixar de ser, Marina rasgou o rosto em um sorriso enorme de recepção para o garoto, e assim que ele a alcançou, a fotógrafa já estava agachada, com os braços abertos esperando-o chegar até ela.

_Ei garotão! – disse, cumprimentando-o com beijos, e um abraço que eles gostavam de chamar de “abraço de urso” – Tudo bem com você?

_Oi – respondeu, abraçando o pescoço de Marina – Tudo mais ou menos, e você?

_Mais ou menos? Porque mais ou menos bonitão? – perguntou sincera, segurando-o em seu colo – O que aconteceu?

_Eu te liguei ontem, várias vezes, mas... Você não me atendeu... – disse o menino, amuado – A gente não é mais amigo? – perguntou, escondendo o rosto nos cabelos castanhos de Marina.

_Ei, que bobagem é essa? Claro que a gente é amigo! – deu mais um beijo na bochecha do garoto – Eu só não tava com meu celular ontem, tomei um remédio que a Vanessa me deu, e dormi horas e horas. Mas, você pode me ligar sempre que quiser. Ouviu? – afirmou, encarando o menino nos olhos.

_Então, a gente continua amigo, né?! – certificou-se Ivan.

_Claro! Porque eu ia deixar de ser amiga de um menino tão legal igual você, hein?! – respondeu, colocando-o de volta no chão.

_Não sei, eu... Achei sua aliança lá em casa! – disse cabisbaixo – O que tá acontecendo com você e a mamãe, Marina? Ela não me diz, mas eu sei que tem alguma coisa.

Antes que Marina perdesse de vez o rebolado com a pergunta de Ivan, Clara e Helena chegaram onde os dois estavam.

_Boa noite, Marina! Tudo bem? – disse Helena, vendo que Clara não conseguia pronunciar uma palavra que fosse.

_Tudo, Helena. E você? – respondeu, evitando ao máximo olhar na direção em que Clara estava.

_Tudo também! Viemos resgatar esse menino fujão – brincou, mais por não saber o que dizer do que qualquer outra coisa – Vamos Ivan? – disse, tentando resolver aquela situação o mais rápido possível.

_Eu só vim falar com a Marina – falou o menino, encarando sua mãe, que estranhamente não havia cumprimentado sua namorada – Eu posso falar com a Marina, não é mãe? – perguntou, quase que desculpando-se com Clara.

Clara não queria ter que participar daquela conversa. Disse a Helena que não iria até lá, que não queria passar por aquilo. Mas, a irmã insistiu que independente de qualquer coisa que tivesse acontecido, ela teria que passar por esse momento uma hora. Ivan era inegavelmente apegado à figura de Marina, e não teria como Clara fugir disso pro resto da vida.

_Pode, filho – respondeu com a voz meio engasgada, e pela primeira vez desde que postara-se ali, encarou os olhos castanhos de Marina, que com um leve aceno de cabeça, indicou que concordava com essa permissão – Claro que você pode!

Reconhecendo “a maluca” de Marina, Renata puxou Paula para que se juntassem ao grupo.

_Oi Claraaaa – cumprimentou-a, animada e pouco perceptiva como sempre – Tudo bem? Lembra de mim?

_Lembro sim! – disse tentando recordar do nome da garota ruiva a sua frente – Renata, não é? Da exposição da Marina em São Paulo.

_Eu mesma! – riu – E essa é a Paula, minha amiga. Ela também estava na exposição.

_Ah sim, a sortuda que não foi ao bar, mas conseguiu o convite VIP mesmo assim – riu baixo – Como esquecer daquela noite, não é?! – encarou Marina nos olhos mais uma vez, e agora, fervilhavam lembranças demais daquela noite. Tanto na mente de uma, quanto na mente da outra.

_Realmente! Aquela noite foi inesquecível. Mas, como poderia não ser, não é?! Exposição de Marina Mereilles e Victória Bouvier – tietou Renata, inocente como sempre – É receita de sucesso.

_Com certeza! – concordou, no exato momento em que recebeu um leve cutucão de sua irmã – Ah, essa é minha irmã mais velha, Helena – apresentou, sem deixar que seu olhar se desviasse por um segundo que fosse dos castanhos olhos que a fitavam.

Era como se nada mais existisse naquele shopping. Como se as pessoas, conhecidas ou desconhecidas, não estivessem ali. A noção de tempo, espaço, e todo o resto, sumiram por um segundo do campo perceptivo tanto de Clara, quanto de Marina. Sim, aquela noite tinha mesmo sido inesquecível, mas não pelos motivos que Renata imaginava.

Tinha sido inesquecível ver o desfile das ex-namoradas de Marina pelo salão. Inesquecível o tempo todo em que Clara e Melissa ficaram próximas durante a noite. Inesquecível a dança da Marina com a Vic no final da noite. Inesquecível a dificuldade que Clara sempre teve em responder perguntas simples em relação à Melissa. Nada disso foi esquecido naquele momento. Tampouco a reconciliação que tiveram depois.

_Bom, foi um prazer ver você, Marina. Mas, esse rapazinho aqui precisa comer a lasanha dele – interveio Helena, percebendo que aquela guerra de olhares entre Clara e Marina não terminaria tão cedo – Vamos jantar então, Clara? – perguntou, segurando a mão de Ivan, e torcendo tanto para que o menino não falasse nada, quanto para que Clara despertasse de seu transe o mais rápido possível.

Com exceção de Helena, ninguém se mexeu. Renata, por mais desligada que fosse, entendeu que alguma coisa estava acontecendo, mas, não sabia identificar o que era. Paula, por sua vez, entendeu menos ainda. E no exato momento em que Helena fez menção de entrar porta adentro do restaurante, uma voz grave e masculina, chamou o nome de Marina lá de dentro.

_Marina Meirelles.

_Sim – respondeu, virando-se na direção de quem a chamava, e finalmente quebrando aquela tensa e magoada troca de olhares.

_Sua mesa está pronta, Srta. – informou o maître – Queira me acompanhar, por gentileza.

_Eba! Você veio jantar no mesmo lugar que a gente! – comemorou Ivan, em sua inocência – Duvido você comer mais lasanha do que eu, Marina!

Sem saber exatamente o que fazer, Marina e Clara ficaram sem reação. Entreolharam-se mais uma vez, mas agora não se encaravam mais. Buscavam, na verdade, encontrar no semblante uma da outra, um indício, uma resposta, ou qualquer coisa que indicasse a melhor solução para aquele dilema. Independente de como estavam entre si, era senso comum entre elas de que Ivan não tinha nada a ver com isso, e absolutamente merecia sair magoado dessa história toda.

_Ah, mas eu duvido você comer mais lasanha do que eu, viu pequeninho?! – brincou Renata, tentando quebrar o clima – Vamos jantar então, Mari?

Absolutamente sem escapatória, Marina apenas acenou a cabeça de forma afirmativa, e dando as costas para Clara, virou-se para entrar no restaurante.

Notas finais
Agora quero ver como as duas saem dessa saia justa, kkkkkk