Notas iniciais
Oi galera, tudo bem? Mais uma vez, demorou demais para sair cap novo. Além disso, sei que muita gente, por estar acostumada aos últimos caps postados, vai se decepcionar com o tamanho deste. No entanto, definitivamente, devido as questões de tempo, inspiração, disponibilidade para escrever, e etc... Não dá pra produzir capítulos muito extensos e postar tão rapidamente. Portanto, decidi que vou postar capítulos menores, mas com mais frequência. Então, a partir deste aqui, postarei ao menos uma vez por semana. Assim tanto eu, quanto vocês, poderemos enfim ver o desfecho dessa estória. Cap dedicado a todo mundo que sempre me cobra gentilmente os capítulos novos, a minhas meninas lindas da Gang, e, claro, ao meu amorzinho lindo. Amo vocês! Agradeço a todos que mesmo com toda a demora, ainda insistem em acompanhar a fic até hoje. Torço para conseguir chegar ao final de Velvet com essa nossa forma de postar aqui, rsrs. Espero que gostem. Boa leitura a todas!

Como não poderia deixar de ser, o jantar começou, e em nenhum momento deixou de ser tenso. Denso. Pesado. A atmosfera de tensão que envolvia as duas protagonistas da mesa era tamanha, que chegava a ser espessa, e Helena tinha a nítida impressão de que a qualquer momento, qualquer um que passasse e prestasse o mínimo de atenção, poderia tocá-la.

Marina não sabia como agir, o que falar, e tentando evitar maiores problemas ou constrangimentos, optou pelo silencio na maior parte do tempo. Clara, por sua vez, não conseguiu nem ao menos chegar perto de tocar em sua comida. Seu estômago parecia embrulhado, sua respiração dava sinais de que não conseguiria se estabilizar por completo, e a verdade é que assim como a fotógrafa, não fazia a menor ideia de como lidar com aquela situação.

Por mais que ambas tentassem – cada uma a sua própria maneira – disfarçar a realidade, fato é, que bastava apenas olhar para o semblante tanto de uma, quanto de outra, para perceber o turbilhão de sentimentos que voava e embaçava o olhar de cada uma delas. Nas poucas vezes em que o castanho dos olhos de ambas permitiam se cruzar, em um acidente quase que proposital, os pontos de interrogação e exclamação, advindos dos pensamentos de fotógrafa e assistente, chegavam a ser visíveis a quem quer que as observasse com um pouco mais de curiosidade.

Como de costume, Ivan não conseguia parar quieto por muito tempo, e por mais que entendesse que alguma coisa de muito errado estava acontecendo entre sua mãe e a namorada, resolveu agir como toda boa criança, e lidar com aquela situação como se não estivesse percebendo o óbvio.

_Então Marina, quando você vai lá pra casa dormir comigo de novo? – questionou o menino, absolutamente pouco inocente.

_Não sei, Ivan – respondeu a fotógrafa, após quase engasgar-se com a salada que comia de entrada, e buscando ganhar tempo para fabricar uma boa desculpa para devolver ao garoto – Estou com bastante trabalho para os próximos dias lá no estúdio. Mas, você pode ir lá pra casa quando quiser! – afirmou, jogando o problema para a ex-namorada, que por pura falta de opção, havia se sentado do outro lado da mesa, bem a sua frente.

_Mãe, quando que a gente pode ir lá? – sem dó, Ivan passou de vez a bomba para o colo da mãe, testando ambas.

_Não sei, filho. Vamos ver como as coisas vão ficar com o seu pai – respondeu quase que em reflexo a pergunta do filho, fugindo pela primeira porta que lhe veio à mente.

_Tudo bem com o Cadu? – perguntou Marina no automático.

_Sim. Só esta fazendo alguns exames, mas, nada demais – antecipou-se Helena, poupando Clara de ter que mentir para o filho novamente sobre esse tema.

_Ah, sim. Entendi! – encerrou o assunto, voltando ao silêncio de antes.

Paula e Renata não sabiam exatamente o que estava acontecendo, mas, era claro que, as duas mulheres que elas conheceram como sendo um casal naquela exposição em São Paulo, não ostentavam mais esse título. Involuntariamente, Paula se animou com a percepção que tivera. Afinal, se Marina estava apenas “brincando” ou “relembrando os velhos tempos” nos flertes que trocara com ela desde que havia chego, a estudante de fotografia estava sim, levando tudo muito a sério.

Aproveitando-se do fato de ter sentado ao lado da fotógrafa, e comprando uma briga que teoricamente já estava ganha, Paula não deixou nenhuma oportunidade passar. Investindo em toques e carinhos quase invisíveis com Marina, sempre que podia.

Do outro lado da mesa, Clara, que assistia a tudo acontecer bem a sua frente, de camarote, irritava-se um pouco mais a cada movimento que a loira fazia em direção a sua ex-namorada. Marina, por sua vez, parecia genuinamente não perceber as provocações da loira, mantendo-se a maior parte do tempo concentrada em apenas não participar ativamente de qualquer conversa que surgisse a mesa.

Como não sentia nenhuma recusa vinda de Marina, Paula empolgou-se, e de carinhos minimalistas e pouco perceptíveis, automaticamente passou a lançar sorrisos, olhares, e investir em carícias muito mais insinuantes para com a fotógrafa. Com delicadeza, arrumou uma mecha castanha de seu cabelo, que insistia em escorregar por seu rosto. Serviu-lhe vinho. Aproximando exageradamente a ponta do nariz de seu pescoço, elogiou ao perfume que usava. A cor do batom, o sorriso.

Clara, por mais que quisesse fingir que não se importava, não conseguia simplesmente ignorar as cenas que assistia, e sem perceber, chegou ao seu limite no exato momento em que, em resposta a uma afirmação qualquer de Marina, de forma calculadamente “quase sem querer”, Paula deixou que sua cabeça escorregasse um pouco, pousando-a de forma meiga e delicada por breves segundos sobre ombro da fotógrafa.

_Vou ao banheiro – disse para Helena, levantando-se brusca e repentinamente da mesa.

Percebendo que a coisa não estava nada boa, sem pensar muito, Helena levantou-se para acompanhar Clara, que literalmente marchava em direção a porta do banheiro feminino, falhando incrivelmente ao tentar disfarçar sua irritação.

_Clara, tá tudo bem? – perguntou Helena, fechando a porta atrás de si.

_Tudo bem, Helena? Como que tá tudo bem? – respondeu, elevando seu tom de voz sem perceber – Você não tá vendo o que tá acontecendo naquela mesa?

_Calma, Clara! – respondeu um pouco mais firme, tentando chamar a atenção da irmã para o tom que usava – Tá acontecendo muita coisa naquela mesa. Do que você tá falando exatamente?

_Do que eu tô falando? Daquela pirralha se jogando pra cima da Marina! – esbravejou, ignorando completamente o indicativo da irmã em relação ao seu tom de voz – Só eu tô vendo isso?

_Como assim? – a verdade era que Helena não havia mesmo percebido nada. Preocupou-se tanto em tentar quebrar minimamente a tensão entre Clara e Marina, que não deu atenção a nada secundário que acontecia por ali – Que pirralha?

_Ah, Helena! Não pode ser só eu que tô vendo isso acontecer! Tá na cara de todo mundo! – jogou os braços para o ar – Não acredito que a Marina já está com outra pessoa! Não é possível isso! – a irritação, o ciúmes, e a sensação relativamente estranha de mesmo separadas, estar sendo traída pela mulher que amava, tomava conta de cada pedacinho de Clara.

_Calma, Clara. Pode não ser nada disso que você tá pensando! – disse tentando puxar em sua memória, alguma coisa que corroborasse com a irritação da irmã, porém, não encontrou nada – Eu, sinceramente não lembro de ter visto nada demais – constatou – O que você viu acontecer, afinal?!

_O que eu vi? – perguntou retoricamente – Vi que daqui a pouco aquela menina senta no colo da Marina, Helena! – exclamou, extremamente irritada – Mas, sabe o que eu NÃO vi? – enfatizou o não – Não vi a Marina recuar ou recusar em nenhum momento as investidas daquela pirralha! Isso eu não vi!

Antes que Helena pudesse dizer qualquer coisa a respeito, uma batida baixa e oca na porta de entrada do banheiro as interrompeu. Menos de dois segundos após o toque, Marina entrou no banheiro. Visivelmente contrariada.

_Tá tudo bem? – perguntou olhando para Clara – O Ivan queria vir até aqui. Tá preocupado com a sua demora.

Entendendo perfeitamente o olhar lançado pela irmã, sem dizer nada, e mesmo achando que não era boa ideia, Helena saiu, deixando as duas sozinhas no banheiro.

_Sério, Marina? Uma pirralha daquela?! Sério?! – disparou Clara.

_Oi? Do que você tá falando, Clara? – surpreendeu-se Marina, sem entender absolutamente nada – Tá maluca?

_Paula. É disso que eu tô falando! – respondeu, encarando-a nos olhos.

_O quê que tem a Paula? – perguntou, ainda sem entender direito sobre o que a outra falava exatamente – Você não tá fazendo sentido, Clara!

_Ah, Marina, me poupe disso! – gritou, jogando mais uma vez os braços para o ar – Tô falando dessa pirralha que você já colocou no meu lugar!

_No seu lugar? – irritou-se, enfim entendendo o que Clara queria dizer – No seu lugar, Clara?

_É, Marina! No meu lugar – disse apontando para o próprio peito – Você não esperou nem a cama esfriar! Como você consegue?

_Eu não acredito que você tem coragem de me falar uma coisa assim! Sinceramente! Só posso ter tomado vinho demais. Isso tem que ser um delírio! – afirmou, irônica e indignada – Você só pode estar de brincadeira com a minha cara!

_De brincadeira tá você! Como consegue fazer essas coisas, Marina? Como consegue simplesmente descartar tudo o que você sempre disse sentir por mim? Rápido assim! – acusou, Clara – Com a primeira pirralha que apareceu ainda por cima!

_Descartar o que sinto? Eu? NÃO FUI EU QUE DESCARTEI NADA! – berrou – Você nem sabe se existe alguma coisa entre nós duas! E outra, e daí? E daí se ela é uma pirralha ou não? Quem é você pra vir falar de mim, Clara? Vir falar “da gente”? – perguntou, desenhando aspas no ar com a ponta dos dedos, e dando dois passos ameaçadores em direção a assistente – Aliás, quem você pensa que é, pra depois de tudo o que aconteceu, vir aqui e falar assim comigo?

_Pelo visto, eu não sou mesmo ninguém né Marina?! – falou magoada, encurtando um pouco mais a distancia entre elas – Ninguém que eu, ou melhor, que você mesma me fez acreditar que eu era na sua vida! – apontou o dedo em direção a fotógrafa.

_Como é que é? Do que você tá falando, afinal?! – agora quem jogava os braços para o ar era Marina.

_Eu tô falando de tudo o que sempre foi verdade entre a gente, Marina! – afirmou sem conseguir definir para si mesma como se sentia naquele momento – Eu acreditei em cada palavra sua, todo momento, a cada segundo! Nas promessas, no carinho, no amor! – continuou seu desabafo irritado, sem saber exatamente o que tentava expurgar de dentro de si – E aí, de repente, tudo acaba? Assim? No primeiro problema! E em uma semana, você tá com outra pessoa? Sem olhar pra trás?

_No primeiro problema? NO PRIMEIRO PROBLEMA, CLARA? – Marina sentia seu sangue começar a ferver nas veias – A questão, não é se foi o primeiro ou o milésimo problema! A questão aqui, é que ao contrário de você, eu cumpri tudo o que te prometi! – apontou o dedo em direção à outra – Não fui eu que traí você! Não fui eu que fiz isso! Eu não traí nossa relação, não a troquei por nada nesse mundo! NÃO FUI EU QUE JOGUEI TUDO FORA! – gritou mais uma vez, nervosa e fragilizada, na mesma proporção.

_EU NUNCA TRAÍ VOCÊ! – gritou de volta – E é nosso primeiro problema, SIM! Na primeira vez que você precisa confiar em mim, você não consegue nem mesmo me ouvir, Marina! Por quê? – indagou sincera, tentando recuperar a compostura – Por que eu continuaria mentindo pra você? Por que eu não assumiria, já que você tem tantas provas disso? Por que eu jogaria fora tudo o que a gente tinha? Depois de tudo o que a gente passou pra ficar junto, me diz por que eu faria isso?!

_Eu não sei, Clara – baixou a cabeça, confusa, abalada – Eu realmente não sei. Não consigo entender!

_Eu não vou discutir isso com você aqui. Eu não aguento mais repetir as mesmas coisas pra você, sem que você esteja realmente me ouvindo – disse, cansada daquele tema. Daquela questão. Daquela mesma acusação constante – Mas, vou te dizer mais uma vez: eu não te traí, Marina. Eu nunca te trairia! Nem com a Melissa, nem com mulher ou homem nenhum – falou pausadamente, baixando o tom de voz a cada palavra que pronunciava. A sinceridade que empregava em cada letra, era tamanha, que não tinha como não ser sentida – O seu lugar nunca estará vago na minha cama. Na minha vida. Tampouco aqui – afirmou, apontando para o próprio peito e aventurando-se a dar mais um passo em direção à fotógrafa.

Os olhos de ambas, ao contrário do que fizeram durante a noite toda, desta vez não se deixavam por um segundo que fosse. Pela primeira vez, Marina simplesmente não sabia como, ou o quê responder. Pela primeira vez, por mais improvável que fosse, Clara tinha conseguido desarma-la. Pela primeira vez, o silêncio entre elas não era tenso, mas sim, intenso.

Os pensamentos de Marina voavam naquele momento. Pensava em tanta coisa ao mesmo tempo, que simplesmente não conseguia assimilar tudo de uma vez. Lembrou-se de todas as coisas que Vic lhe dissera mais cedo, naquele mesmo dia. Em todos os “porquês” que Clara acabara de lhe apresentar. No motivo de Clara estar tão irritada ao vê-la ao lado de Paula. Em como queria fazer com que tudo simplesmente passasse. Em como queria acreditar. Em como queria dizer que ninguém, nunca poderia tomar o lugar dela em sua vida também. Em como queria aquela mulher de volta pra ela.

_O que eu guardo aqui, é seu – disse Clara, arriscando-se a guiar a mão de Marina até seu peito, espalmando-a sobre a região de seu coração.

Sem dizer nada, esperou, torcendo para que a ausência de barreiras no olhar da fotógrafa, não fosse apenas a sua imaginação lhe pregando uma peça de mau gosto. E como se simplesmente não pudesse, ou não tivesse forças para fazê-lo, por todos esses segundos, Marina não tirou sua mão de onde Clara havia colocado.

– Só seu – deu mais um passo a frente, encarando os lábios vermelhos da fotógrafa. Praticamente colando seu corpo ao de Marina – Meu amor!

Elas estavam perto demais para que conseguisse se armar. Se encarando demais, para que pudesse se concentrar em se esconder atrás do seu habitual escudo sarcástico. Respirando descompassado demais, para que sua mente funcionasse corretamente. A boca de Clara estava ali, e Marina não tinha pra onde fugir. Não queria fugir. Não queria achar nenhuma saída de emergência para escapar daquele momento. Simplesmente não podia. Não dava.

Marina deixou que seu olhar caísse. Lentamente, abandonou o castanho dos olhos de Clara, e passou a ocupar-se de seus lábios. Clara, por sua vez, sentia seu corpo todo implorar por aquele toque, e mesmo com as mãos trêmulas, firmou seus dedos na cintura da fotógrafa. Marina inclinou levemente a cabeça. Clara fechou os olhos. Ambas ansiavam tanto por aquele contato, que o mínimo espaço físico que as separava naquele momento, era sentido como um verdadeiro abismo a ser transposto. Com urgência, no entanto, sem pressa.

Quase que involuntariamente, os dedos de Marina escorregaram pela nuca de Clara, entrelaçando-se aos fios castanhos de seus cabelos. Sem que pudesse efetivamente controlar, os lábios de Clara se entreabriram deixando um breve suspiro escapar por eles. Como sempre fizera, Marina sorriu em resposta.

Fechou seus olhos. Inclinou um pouco mais sua cabeça. Pressionou seus dedos levemente contra a nuca da outra. Porém, no exato momento em que desistiu de tentar sustentar aqueles dois últimos centímetros que separavam suas bocas uma da outra, o barulho de um grupo de amigas que entrava tagarelando animadamente no banheiro, as despertou do transe em que estavam.

Instantaneamente, como que por reflexo, Marina deu dois passos para trás. Clara, mais uma vez suspirou, no entanto, agora de decepção. Os olhos de ambas se cruzaram novamente, e sem saber o que fazer ou dizer, Marina apenas balançou a cabeça, confusa, e sem se permitir ficar ali por mais tempo, rumou em direção à mesa.

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A noite passava arrastada para Cadu. Sentia seu corpo pesar mais e mais a cada minuto que permanecia deitado ali, e por mais que não fizesse absolutamente nada durante o dia inteiro, não se lembrava de sentir-se tão exausto em toda a sua vida. Silvia tinha acabado de passar por ali para mudar sua medicação, e por mais que não confiassem muito nessa opção, ambos tentaram demonstrar algum tipo de entusiasmo na expectativa de que tudo ficasse bem.

A médica havia se tornado uma de suas melhores amigas. Não só pelo fato de empenhar-se repetidamente em salvar sua vida, mas, por todo o carinho e pessoalidade com que conduzia seu tratamento. Sempre fora boa companhia, boa confidente, e apesar dos puxões de orelha que lhe aplicava com frequência, nunca o julgou por não conseguir lidar com tudo o que vinha acontecendo em sua vida nos últimos tempos.

Não sabia se sairia desta, pelo menos, dessa vez, o cenário não parecia nem um pouco favorável. Sentia-se melancólico, e por um segundo, deixou-se imaginar se faria falta para as pessoas que amava. Clara, Ivan, Verônica, Silvia, Virgilio, Helena, Nando. A lista não era muito extensa em quantidade, mas em qualidade, era realmente ótima. Lembrou dos bons momentos que havia passado até hoje com cada um deles, e por mais que o momento fosse um dos piores, permitiu-se sorrir.

A vida não vinha sendo fácil para ele, era verdade. Mas, se haviam pessoas que dentro de suas possibilidades, a tinham conseguido melhorar, esses eram os nomes delas. Involuntariamente, lembrou-se de Clara, e de como ela sempre cuidara dele. Mesmo depois do divórcio, das ofensas, das mágoas, das brigas. Mesmo depois de tudo, fato é que ela nunca o abandonara, e o mais importante, nunca o privara de estar ativamente participante da vida de Ivan.

Sentia falta deles como se sente falta de água no deserto. Desejava que nada tivesse acontecido, que Marina não tivesse aparecido, e nada tivesse mudado. Mas, desejava mesmo era poder voltar no tempo, e ter prestado mais atenção em Clara, quando ela ainda era sua. Culpava Marina pelo fim de seu casamento, mas, a verdade que ele nunca quis ver, era a de que ele já havia perdido Clara muito antes de a fotógrafa arrebatar seu coração.

Mesmo antes de estar ali, antes de ter a continuidade de sua vida, de fato, ameaçada, Cadu não podia negar já ter feito essa reflexão muitas vezes. Valia a pena estar ali? Valia a pena tentar encarar o tal “recomeço” que Nando tanto lhe falava? Afinal, se fosse fazer uma avaliação nua e crua, a verdade é que nada em sua vida dava muito certo. Até mesmo o bistrô, que tinha tudo para ser seu ponto motivador, não andava fazendo muito sucesso, e por mais que realmente amasse estar ali, cozinhar, e tudo o mais, a realidade é que se as coisas não melhorassem, em pouco tempo, não conseguiria nem ao menos pagar as próprias contas.

Valia mesmo a pena tentar recomeçar, sendo ele quem era? Estando no cenário em que estava? Sem Clara, sem Ivan, sem dinheiro, sem motivação. Oco. Sem nada.

Respirou fundo, olhou em volta, e não havia nada nem ninguém ali. O silêncio e o vazio eram sua companhia muda, e o único som que ouvia, era o compassado apito advindo dos aparelhos presentes no quarto. Sua cabeça doía, seu peito doía, o cansaço pesava de forma incombatível, e seus olhos já não queriam mais estar abertos. Olhou novamente para a escuridão do quarto, e suspirou. “Vamos lá Cadu, você vai sair dessa! Não entregue os pontos agora”, sua mente sussurrava ao pé de seu ouvido.

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Vanessa estava ansiosa. Finalmente a noite chegara, e por fim, poderia descobrir o que a namorada queria tanto lhe dizer. Haviam marcado de se encontrar no próprio restaurante, e como não podia deixar de ser, por mais que tivesse começado a se arrumar uma hora antes do que o habitual, a ruiva estava novamente atrasada. Buscou caprichar ao máximo no visual. Afinal, independente do que Vic quisesse lhe dizer aquela noite, a verdade é que não tinha nada no mundo, que Vanessa gostasse mais do que ver Victória a admirando, portanto, tratou de caprichar em cada detalhe de sua produção.

Respirou fundo, mandou uma mensagem para o celular da francesa avisando que estava saindo, e finalmente, desceu as escadas. Passou correndo pela sala, e a primeira surpresa da noite foi no momento em que saiu para embarcar no táxi que o aplicativo em seu celular, avisava já estar disponível à sua porta. Ao invés do famoso carro amarelo, deparou-se com o carro de Victória por ali. Não entendeu o porquê a namorada não avisou que iria busca-la, dispensou o táxi, e caminhou em direção ao carro preto do outro lado da rua.

Quando estava a apenas três passos de chegar, um homem, elegantemente vestido, saltou do banco do motorista e caminhou em sua direção. Ele usava luvas brancas, e lhe trazia uma imensa rosa vermelha, com um bilhete pendurado. Sem entender nada do que estava acontecendo, respondeu ao cumprimento de boa noite do homem, recebeu a rosa, e seu coração não pôde deixar de disparar quando viu a caligrafia perfeita de Victória no papel.

“Excité, en espérant que vous arrivez.” (Ansiosa, esperando você chegar).

Sentou-se no banco de trás do carro, e se antes já estava nervosa, agora seus nervos a consumiam, minuto a minutos dentro do veículo. Victória havia mudado o restaurante para o qual iriam também, e segundo o motorista, para o seu azar, não era mais ali em Santa Teresa, mas sim em Copacabana.

Após os trinta minutos mais longos de sua vida, Vanessa desceu do carro na Av. Atlântico, em frente ao Le Pré Catelan, melhor restaurante francês do Rio de Janeiro. Passou pela porta, e não pôde deixar de sorrir ao avistar Victória olhando ansiosa para a entrada. Instantaneamente, Vic sorriu de volta, num convite mudo, porém, mais do que perfeito para que Vanessa se juntasse a ela.

Sem perder tempo, a ruiva caminhou em direção à namorada, e a cada passo que dava, via o efeito das horas de produção aparecendo no modo como Victória a olhava. No entanto, antes que chegasse até ela, a francesa se levantou, e agora, quem babava era Vanessa. Victória estava estonteantemente linda.

_Boa noite, amor! – falou a loira, inclinando-se para selar os lábios da namorada com os seus.

_Amor, você vai matar alguém aqui dentro hoje. O cara da mesa de trás já desmaiou, coitado! – brincou Vanessa, disfarçando se nervosismo.

_Eu? Você se olhou no espelho antes de sair, né? – Vic devolveu a brincadeira, percebendo o nervosismo estampado na testa da namorada – Você está maravilhosa, amor! – elogiou, inclinando-se para beija-la mais uma vez. Vanessa sorriu.

Ambas ocuparam seus respectivos lugares a mesa. A pedido de Vanessa, nervosa demais para conseguir pensar direito, Vic escolheu tanto o vinho quanto o menu da noite. E antes mesmo que pudesse terminar de tomar a primeira taça de vinho, a ruiva não conseguiu mais se segurar.

_Amor, você tá me matando de agonia! – fez cara de sofrimento – Não se faz isso com uma curiosa! – Victória riu.

_Calma Van, depois do jantar, eu te conto – segurou em suas mãos – Prometo que conto!

_Tudo bem, tudo bem. Mas se eu morrer aqui antes disso, a culpa vai ser sua!

A francesa riu, e vendo que não conseguiria demovê-la da ideia de levar o segredo até o final do jantar, mesmo que a contragosto, Vanessa decidiu esperar. A companhia de Victória era sempre fantástica, e por mais que se corroesse internamente querendo saber a respeito do que se tratava tudo aquilo, aproveitou cada segundo daquela noite.

Como de costume entre elas, o jantar correu leve e divertido. Vieram às entradas, os pratos principais, as sobremesas, e no momento em que Vic pediu uma segunda garrafa de vinho para o maître, Vanessa decidiu ir até ao banheiro retocar sua maquiagem. Sem a namorada por perto, poderia enfim colocar a parte final de seu plano para aquela noite em ação.

No caminho que percorreu do banheiro de volta à mesa, Vanessa distraiu-se tanto com a beleza do sorriso da namorada, que só no momento em que se sentou novamente, que notou uma segunda rosa, idêntica a que o motorista havia lhe entregue na porta de sua casa, bem ali, pousada sobre a mesa.

_Adorei as rosas – disse a ruiva, sorrindo o suficiente para quase rasgar seu rosto – Adorei o bilhete também. Amo quando você fala francês pra mim!

_Oui, je sais, mon amour! (Eu sei, meu amor!) – respondeu, derretendo Vanessa por completo.

Vic sorriu de volta, e sem dizer mais nada, esperou até que Vanessa percebesse que a rosa não estava sozinha por ali. Demorou pouco, e segundos depois, a loira contemplava os lindos olhos da namorada encarando-a curiosos, enquanto seus dedos seguravam uma pequena caixinha azul do outro lado da mesa.

_Abre – encorajou Vic.

Os dedos de Vanessa automaticamente ficaram trêmulos. No entanto, a ansiedade por descobrir o que havia lá dentro, era maior do que qualquer outra coisa, e sem esperar mais um segundo que fosse, a ruiva abriu a tampa da caixinha a sua frente.

Dentro, haviam duas alianças de ouro branco, e mais um bilhete escrito a mão pela francesa. Dessa vez, a mensagem resumia-se a uma única palavra: “Je t’aime”.

_Eu te prometi que falaria, quando estivesse pronta para falar – disse Vic, olhando firmemente em seus olhos – Eu estou. E quero que não só você, mas que todo mundo saiba – segurou a mão da namorada – Eu te amo, Van.

Instantaneamente, Vanessa sentiu seus olhos molharem. Ela não sabia do que tudo isso se tratava, e por mais que esperasse que fosse algo realmente bom, nunca, nem nos melhores momentos de sua imaginação, achou que seria a namorada lhe dizendo as três palavras que ela mais ansiava ouvir saírem daqueles lábios, e menos ainda, mesmo já tendo a pedido em namoro, que Vic fosse literalmente assumir o relacionamento que mantinham.

Ainda sem conseguir processar direito tudo o que sentia naquele momento, a ruiva conseguiu apenas balançar a cabeça de forma afirmativa.

_Eu também te amo, Vic – mesmo torcendo para que não acontecesse, uma lágrima escapou do controle de Vanessa e escorreu por seu rosto – Muito!

Delicadamente, Vic secou as lágrimas que, assim como a primeira, insistiram em cair pelo rosto de Vanessa. Pegou as alianças da caixinha, e lentamente colocou a que carregava a inscrição “Bouvier” no dedo da ruiva.

_Je t’aime, mon amour!

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Marina não sabia mais o que pensar. Os porquês de Clara e Victória rondavam incansavelmente por sua cabeça. Contudo, mesmo virando seu cérebro do avesso, não conseguiu encontrar nada que fosse plausível, ou ao menos minimamente aceitável para explicar tudo aquilo. Nada. Nenhum motivo razoável para que ela insistisse tanto em continuar mentindo sobre o que tinha ou não acontecido. No entanto, ao mesmo tempo em que não conseguia achar nada que a ajudasse a responder os porquês que lhe atormentavam, a memória das imagens contidas nas fotos de Clara e Melissa passava como flashes por seus olhos, fervilhando cada vez mais sua mente.

O jantar havia se seguido por pouco tempo após o episódio entre as duas no banheiro. A guerra para saber quem comia mais lasanha, mesmo que a contragosto de Renata, fora vencida com folga por Ivan, e logo que todos terminaram seus respectivos pratos, Marina não fez questão de fazer delongas. Precisava sair de perto de Clara. Precisava conseguir pensar em tudo isso.

Ao contrário do que acontecera na ida, enquanto voltavam para casa, Marina sequer notou a presença de Paula ao seu lado. Contava os minutos para estar em casa, jogar-se em sua cama, e estando lá, tentar resolver todas as estranhas equações que apareciam em sua mente. Afinal, se não é o que teoricamente está evidente, e provado, o que é então? Sabia que Melissa era mesmo capaz de muita coisa, mas, mesmo assim, ainda não conseguia simplesmente conceber que Clara era completamente inocente no meio disso tudo.

Inquieta e agitada, assim que chegaram, ignorando todas as investidas mais óbvias de Paula, despediu-se das meninas, e ao invés de jogar-se em sua cama, como pretendia, começou a andar de um lado para o outro de seu quarto. Lembrou-se da discussão que tivera com Vic mais cedo. Ela queria lhe dizer alguma coisa, que no fim, acabou não falando. Foi até o quarto de Vanessa, ver se encontrava Victória por ali como de costume, mas nem uma, nem a outra, estavam em casa. Tentou o celular de ambas, porém, sem sucesso.

Será que ela estava mesmo sendo injusta com Clara? Considerando essa hipótese, mesmo que apenas por cinco minutos, o que teria então de fato acontecido? Afinal de contas, aquelas fotos eram reais, isso não se tinha como negar. Não sabia exatamente o que pensar, no que pensar, mas sabia que tinha que resolver aquilo logo, antes que enlouquecesse.

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Clara voltou para casa confusa. Dispensou a companhia de Helena, e aproveitou que Ivan quis dormir por lá para ficar um pouco sozinha. Jogou suas roupas em cima da cama, entrou no banho, e permitiu-se ficar ali, parada, embaixo da água quente por alguns minutos.

O que tinha acontecido naquele restaurante afinal? Marina finalmente estava considerando ouvir a sua versão da história? Ou aquilo tinha sido só a atração e a saudade entre elas falando? Ela estava ou não estava com a tal da Paula? Ela, Clara, ainda queria realmente conversar com a fotógrafa sobre isso? Afinal, querendo ou não, Marina disse coisas horríveis para ela. Ela foi embora, sem olhar para trás. Não parou para ouvir, para entender, sequer questionou qualquer coisa. Tirou a aliança do dedo, deu tchau, e simplesmente foi.

Pensar em Marina por esse ângulo, recordar das coisas que ela havia dito, das cenas que protagonizaram depois que aquelas malditas fotos chegaram, da cegueira da fotógrafa, da relutância em simplesmente deixar que ela se explicasse, faziam com que Clara percebesse efetivamente a mágoa, e até mesmo a raiva que fora gerada dentro dela por conta de tudo isso. A verdade, é que no momento em que ela mais precisou, e precisava de Marina, ela lhe virou e continuava lhe virando as costas.

Ainda sem conseguir desligar-se de tudo isso, fechou o chuveiro, enrolou-se na toalha, e assim que saiu para o quarto, ouviu o som da campainha romper o silêncio do apartamento, e atrapalhar seus pensamentos. “Essa hora, só pode ser o Ivan que desistiu de dormir na Helena, e tá sem chave”, imaginou. Indo atender da maneira que estava.

_Ê Ivan, porque você... – Clara interrompeu-se no exato momento em que abriu a porta – Você?!

_Eu – respondeu Marina – Me desculpe por vir aqui tão tarde, e sem avisar... – interrompeu-se por um segundo, não conseguindo deixar de olhar para Clara – Eu... É... – gaguejou, incerta do que fora fazer ali realmente.

_Você? – encorajou Clara.

_Eu... – baixou a cabeça, era difícil olhar para Clara “vestida” daquele jeito – Não sei o que vim fazer aqui. Desculpa! – disse confusa, realmente sem conseguir entender o porquê fora até lá. Olhou nos olhos da mulher a sua frente, e sem permitir-se se perder de novo naquele castanho intenso, virou-se em direção ao elevador.

Clara não pensou. Não ponderou. Por mais que estivesse com raiva de Marina naquele momento, não conseguia fugir do que sentia por aquela mulher. Não conseguia não querer aquela mulher. Ela tinha ido até ali, ela finalmente tinha ido até ali, e Clara não estava disposta a deixa-la ir embora. Não hoje. Não agora!

Olhou para as costas de Marina, e num movimento rápido, puxou-a pelo braço. Seus olhares se cruzaram.

_Vem, entra! — convidou a dona da casa.

Notas finais
P.S.: Esse capítulo foi inteirinho escrito ao som de "Amor Marginal" do Johnny Hooker. Vale a pena ouvir =) Beijos, até semana que vem!