Velvet Touch
2 Surpresa
Notas iniciais
Em um movimento involuntário, Clara disparava de um lado para outro na sala de seu apartamento. A imagem da fotógrafa derretendo-se em sorrisos para aquela tal de Victória, não lhe saia da cabeça desde que saíra do estúdio mais cedo. Mas quem era essa aí afinal? Algum caso da Marina? Uma ex namorada? Será que a Marina sentia alguma coisa por ela? Porque tantos sorrisos daquele jeito e toda aquela animação? As perguntas faziam a cabeça de Clara girar. Exausta de tanto procurar respostas que não encontraria ali parada, a assistente resolveu ligar para Cadu e sondar sobre quais os planos do chef para a noite.
_Oi Cadu, tudo bem?
_Oi amor. Tudo corrido por aqui. E você?
_Tranquilo, estou em casa já tem um tempinho. Hãn... Você fica até tarde hoje ai?
_Então amor, a coisa está andando bem aqui, ainda tô com fornecedores, acho que devo sair mais a noite. Por que? — perguntou desconfiado.
_As meninas do estúdio vão se encontrar mais tarde para jogar conversa fora, queria ver se você se animaria de ir comigo.
_Não posso mesmo sair agora. E também não estou no pique viu amor. Mas, porque você não deixa o Ivan com a Helena? Vai lá se divertir um pouco — disse o chef tentando parecer indiferente ao fato de Clara sair na companhia de Marina. Havia desistido de abordar sua esposa agressivamente, e como estavam com a bandeira branca erguida, não seria ele a declarar guerra novamente. Pelo menos, não hoje.
_Farei isso então. Mas não volto tarde, tudo bem? Estarei com o celular em mãos, me avise quando chegar em casa. Beijos.
_Tudo bem. Beijo.
Sem perder mais tempo, a dona de casa colocou a mesa, deu o jantar para o filho e o deixou no apartamento de sua irmã mais velha, voltando rapidamente para se arrumar. Não sabia onde as meninas tinham marcado, então correu até o celular e ligou para Gisele.
_Oi Clarinha! Tudo bem?
_Oi Gi, tudo e você. Decidi aparecer hoje a noite. Jogar conversa fora é sempre bom. Onde vocês vão?
_Que bom Clarinha. Faz assim, vou te mandar o endereço por mensagem. Estaremos lá umas 21h. Você não quer ir com a gente?
_Não Gi. Decidi agora, ainda vou me arrumar para sair. Chego um pouco mais tarde, mas me faz um favor?! Não comenta com a Marina que eu vou não. Quero aparecer de surpresa!
_Huuum. Ai, vocês duas viu?! Tudo bem, não falo nada. Beijos.
Clara desligou o celular já ligando o chuveiro e correndo para debaixo da água quente. Enquanto sentia a água escorrer por seu corpo, sua cabeça continuava a mil, e no momento tentava concentrar-se em decidir que roupa colocaria, afinal, queria estar especialmente bonita aquela noite. Saiu rapidamente do banho e seguiu enrolada na toalha para o quarto. Começou a vasculhar todos os cabides até encontrar o vestido que queria. Ele era preto, liso, colado ao corpo, e ia até o meio de suas coxas. Depois de se vestir Clara caprichou na maquiagem, nos acessórios, e calçou um scarpin alto, cor de chumbo. Se olhou no espelho e aprovou o conjunto da obra, retocando o batom e ajeitando um pouco mais o cabelo. Passou seu melhor perfume, sorriu para o reflexo no espelho e partiu em direção ao bar em Copacabana onde Marina, quer dizer, onde as meninas estariam.
–-//--
Marina não tinha entendido nada da atitude de Clara mais cedo. "Lembrou que eu existo?" Como assim gente?! Será que Clara ainda não sabia que Marina não se lembrava dela? Lembrar implica em esquecer e a fotógrafa não tinha como esquecer da assistente nem que quisesse muito.
_Eu tô te falando Marina, ela ficou com ciúmes de você sim — afirmava Vanessa.
_Ai Vanessinha, como você viaja as vezes né?! Onde nesse Brasil que a Clara ia ter ciúmes de mim? Fala sério!
_Não quer acreditar, tudo bem. Mas, e aí, Victória aparecendo do nada na porta do seu estúdio em uma manhã de sexta, diretamente de Paris hein?!
_Pois é, ela continua imprevisível né?! — disse Marina sorrindo — E continua com aquele mesmo sorriso de sempre. Parece que não mudou nada durante esse um ano e meio que não nos encontrávamos.
_Vixe! Já vi que minha vida não tá fácil mesmo.
_Oi? — perguntou Marina aérea.
_Nada não mundo da lua. Vamos nos arrumar pra esse bar logo. Afinal, o que me resta nessa vida é beber mesmo! — disse Vanessa saindo do quarto de Marina e indo em direção ao seu.
Pontualmente as 20h30 todas estavam prontas e esperando Marina descer para seguirem seu caminho. Gisele decidiu de última hora ir com o Murilo, então seguiram Marina, Vanessa e Flavinha no carro da fotógrafa. Ainda passariam no Copacabana Palace para buscar Vic, e Marina parecia ansiosa para encontrar novamente a loira. Chegando a entrada do hotel, a fotógrafa ligou para a amiga avisando que já a aguardava. Sem demora, alguns minutos depois Vic apareceu, e todas no carro deixaram o queixo cair involuntariamente. Ela estava linda! Vestido prateado, tomara que caia, justo ao corpo e curto, deixando as longas e torneadas pernas a mostra sem muito pudor. A loira exibia uma maquiagem leve, destacando principalmente os olhos azuis, além de um salto que a deixava no mínimo 15cm mais alta do que os seus 1,73 habituais.
Flavinha que estava no banco do passageiro saiu do carro para cumprimentar a loira, e deixou que ocupasse seu lugar, indo se aconchegar com Vanessa no banco de trás. Vic cumprimentou Vanessa com um aceno e um oi simples. Já com Marina, a loira fez questão de incrementar, dando-lhe um abraço apertado e um beijo que marcou o pescoço da fotógrafa com a cor de seu batom, deixando-a arrepiada.
_Nossa Mari, que perfume maravilhoso!
_Obrigada! Vivem me dizendo isso — respondeu Marina, lembrando-se dos elogios de Clara e sorrindo — Mas, nossa você está linda Vic! Meu deus! — disse abanando-se enquanto ria divertidamente.
_E aí gente vamos ou não curtir esse bar hoje hein?! — rosnou Vanessa, já ficando mal humorada.
_Com certeza vamos! — respondeu Victória lançando um olhar malicioso para Marina que a espiava pelo canto do olho.
–-//--
O bar era grande, badalado, e possuía três ambientes diferentes. Clara sentiu-se completamente perdida, afinal, não estava acostumada a frequentar lugares assim há muitos anos. Contudo, já estava lá e não iria embora antes de encontrar com Marina, e descobrir quem era aquela outra lá que apareceu. Ligou para Gisele e descobriu que todas já haviam chego e estavam no lounge. Este, era o ambiente mais calmo da casa, tinha alguns sofás e puf's espalhados pelo espaço, era aconchegante, bem menos barulhento que os outros e contava com uma banda tocando MPB da melhor qualidade.
Passou os olhos pelo local e logo captou a figura de Marina, que estava sendo solicitada para algumas fotos que seriam expostas no site da casa posteriormente. Por um minuto, Clara ficou sem fôlego. A fotógrafa estava mais do que linda, mais do que perfeita. Estava estonteante naquele camisão branco e emanava sensualidade! A assistente arriscou aproximar-se, mesmo correndo o risco de suas pernas falharem enquanto mirava aqueles lábios vermelhos e sedutores.
Quando chegou um pouco mais próximo, ouviu a voz da Flavinha atrás de si
_Clarinhaaaaaaa! E não é que você veio?! Estamos aqui linda!
Clara assustou-se e acordou do transe hipnótico que a levava até a fotógrafa, foi até a mesa, deu oi para as meninas com os costumeiros beijos no rosto e sentou-se na ponta do sofá, ao lado de Flavinha. Reparou que além de Marina, Victória também não estava na mesa, e antes que tivesse tempo de perguntar as meninas sobre seu paradeiro, olhou novamente na direção de Marina e viu a loira ali, ao seu lado, posando para as fotos. Revirou os olhos e resolveu tentar descobrir mais sobre a tal mulher antes que voltassem a mesa.
_Flavinha, você que parece a conhecer bem, quem é essa Victória?
_Você não a conhece Clarinha? Victória Bouvier! Uma das maiores lendas do mundo em matéria de fotografia! — disse empolgada — Ela foi professora da Marina em Londres anos atrás.
_Ah... Entendi. Já tinha lido esse nome em alguns lugares mesmo, mas não sabia que era ela. Hãn... E ela e a Marina, elas... Já tiveram algum envolvimento? — perguntou Clara, completamente atordoada com a revelação feita pela produtora.
Antes que Flavinha pudesse responder, ambas voltaram para a mesa. Marina abriu um sorriso que sem dúvida poderia iluminar a cidade do Rio de Janeiro inteira ao ver Clara sentada ali, e a assistente por sua vez, derreteu-se mais do que picolé no asfalto da Av. Atlântico em dia de verão, quando aqueles lábios vermelhos se esticaram para ela. A fotógrafa a abraçou como se não a visse há anos, dando um beijo estalado em sua bochecha que ficou marcada com o vermelho de sua boca. Victória que observava a cena discretamente, também cumprimentou Clara, fazendo questão de sentar-se ao lado de Marina.
Todas conversavam animadamente à mesa. Marina e Victória contavam experiências de suas últimas exposições e mostravam-se extremamente íntimas, com apelidos e sorrisos que pareciam reservados a elas e a história que ambas possuíam. A loira pousou a mão sob a coxa da fotógrafa que não recusou, tampouco fugiu do toque da amiga. Clara e Vanessa levantaram-se brusca e subitamente, no mesmo instante, usando a desculpa de ir ao banheiro e assustando Flavinha e Gisele, que de tão distraída quase pulou no colo de Murilo.
Encarando a atitude de Marina como positiva para os seus planos, Vic aproximou-se para sussurrar em seu ouvido.
_Mari, vamos lá para a pista? Dançar um pouco? Relembrar os Pub's londrinos e toda aquela energia Rock'n Roll — chamou a loira, depositando um demorado beijo atrás da orelha de Marina.
_Vamos sim! — respondeu a fotógrafa ainda arrepiada pelo toque da antiga professora.
Voltando para a mesa as assistentes se depararam com a ausência das duas e num impulso, perguntaram juntas:
_Cadê a Marina? — Todos na mesa riram, até Murilo, que de bobo não tinha nada e já tinha sacado todo o climão.
_Foi pra pista com a Vic.
_Aff! Me dá uma dose de vodka aqui garçom, por favor! — pediu Vanessa jogando-se de volta no sofá.
_Vou conhecer a pista também pessoal — disse Clara que já não conseguia mais disfarçar seu ciúmes.
_Nossa hein Gi, o que é que a Marina tem? Tanto de mulher babando nela. Que inveja! — cochichou Murilo, brincalhão como sempre.
_Inveja é? Vou nem falar nada Sr. Murilo! — respondeu dando um tapinha de leve em seu ombro.
Quando Clara chegou na pista de dança, ela realmente parecia um PUB londrino e o som que se ouvia em volume praticamente ensurdecedor era "Someday" do Strokes. Não demorou para que a assistente avistasse Marina próximo ao balcão. Ela e Victória chamavam a atenção de todos em volta e pareciam divertir-se bastante. Ambas cantavam e dançavam de frente uma para a outra, com uma empolgação quase adolescente. A música mudou e a voz que saia das imensas caixas de som agora era de Lorde, cantando uma das músicas que Clara mais amava na atualidade, "Royals". Ainda sem saber muito bem o que fazer e porque cargas d'água tinha descido para a pista atrás de Marina, arriscou dar uns passos na direção das duas quando viu a cena mudar diante dos seus olhos. A loira agora dançava sensualmente em frente a fotógrafa, abusando de movimentos lentos e provocativos, como uma espécie de show particular. Clara olhou para Marina e ela ainda não havia lhe visto ali, parecia estar hipnotizada pelas curvas da antiga professora, olhando fixamente para o corpo branco e esbelto dançando a sua frente.
Clara estava sem ar. Não acreditava no que via! Marina desejava a loira. Ela podia ver em seus olhos. Queria sair dali, correr para longe ao mesmo tempo em que queria ir até lá e tirar Marina de perto de Victória, mas suas pernas não lhe obedeciam para que fizesse nenhuma das duas coisas. Ficou ali, parada quase no meio da pista de dança e quando ouviu Arctic Monkeys começar a cantar "Do I Wanna Know?" viu o olhar da loira ficar predatório e um lampejo de coragem e desejo brilhando por eles. Victória virou-se e agora estava frente a frente com Marina, encarando fixamente seus olhos castanhos jogou os braços em torno de seu pescoço, e com delicadeza aproximou os corpos das duas ainda mais. Com a ponta do nariz tocou o pescoço da fotógrafa, subindo extremamente devagar por toda sua extensão até respirar pesadamente em seu ouvido, enquanto sua mão direita subia até a nuca de Marina que estava de olhos fechados, e com a respiração descompassada.
Quase que involuntariamente, as mãos da fotógrafa procuraram a cintura de Vic, escorregando suavemente até suas costas. A loira sentindo o sinal verde que o corpo da ex aluna lhe dava avançou selando seus lábios nos dela, e quando puxou seus cabelos com a mão que pairava na nuca de Marina, percebeu que o desejo era recíproco vindo dos macios lábios vermelhos. O beijo que começou lento, agora tirava o fôlego de ambas. A fotógrafa tinha seu corpo explorado pelas mãos de Vic, com vontade e saudade. Sentia seu corpo inteiro acender ao toque gentil e ousado da ex professora, ficando cada vez mais entregue aos encantos e sensações que Vic lhe proporcionava. Percebendo a entrega da outra, a loira levou o corpo de Marina de encontro a pilastra que estava atrás delas, e não fez cerimônias quando passou as unhas pelas coxas brancas e expostas da ex aluna, deixando um leve arranhão vermelho onde seus dedos passeavam.
Marina parou primeiro, com as mãos entrelaçadas aos cabelos da loira como se não quisesse afastá-la, mas precisando livrar-se de sua boca por um instante para tomar um pouco de ar. Assim que abriu os olhos viu Clara parada a sua frente, a boca aberta formando um "O" perfeito, a expressão que denunciava um misto de surpresa e decepção, e uma lágrima involuntária que lhe escorria pelo canto do olho ao assistir aquela cena.
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